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terça-feira, 30 de abril de 2019

(Conclusão)


Uma mentira muitas vezes dita


Aqueduto da Serra do Pilar – DGPC


O aqueduto da Serra do Pilar destinava-se a abastecer de água o mosteiro da Serra do Pilar desde o século XVI.
Em 1834, mercê dos ferozes combates acontecidos, nesse local, entre as tropas de D. Pedro IV e D. Miguel, a igreja e o mosteiro da Serra do Pilar ficaram com marcas de destruição que, só muitos anos mais tarde, seriam reparadas.



As marcas dos confrontos resultantes do Cerco do Porto exibidas pela igreja e mosteiro da Serra do Pilar



Pela clareza com que é apresentado um tema que importa ser conhecido, dadas as imprecisões como costuma ser abordado normalmente, em muitas publicações, se dá conta a seguir de um texto, cortesia de António Conde.


“O mosteiro da Serra do Pilar, cuja fundação remonta ao ano de 1527, no reinado de D. João III, situa-se nos lugares antigamente chamados Monte de Quebrantões ou da Meijoeira, uma eminência rochosa onde não seria fácil encontrar água em quantidade suficiente e que corresse pela lei da gravidade. A solução foi encontrada, logo no ano seguinte, nas proximidades da igreja de Mafamude, no manancial do Agueiro.
Assim, em 20 de Fevereiro de 1538, resolveu-se a questão de propriedade do chão em que assentaria o mosteiro tendo sido adquirido, por escambo, o casal de Cimiel e as pesqueiras da Ponta dos Guindães, no Douro. Cerca de 3 meses volvidos, Frei Brás de Braga, o religioso incumbido da construção do mosteiro, foi ao monte da Meijoeira acompanhado de Diogo de Castilho e João de Ruão e, segundo as suas palavras se traçou o mosteiro e se abriram os alicerces em a igreja e o claustro, e à tarde veio o Bispo e se lançou a primeira pedra.
Por instrumento de escambo, de 23 de Maio de 1538, celebrado entre o dito Frei Brás de Braga e Diogo Leite, senhor de Gaia pequena e da Casa de Campo Belo, o segundo outorgante em cumprimento de uma provisão régia cedeu ao dito clérigo “a água dos seus casais do Agueiro, e casal de Trancoso, e do casal que traz Gonçalo Rodrigues, que todos estão sitos na freguesia de Mafamude do Julgado de Gaia, os quais pertencem a sua terra de Gaia, pequena, e que ele Diogo Leite por fazer serviço ao dito Senhor, e por a dita água vir para o mosteiro que o dito Senhor manda ora fazer ao dito Padre Frei Brás no monte e outeiro da Meijoeira”.


O traçado do aqueduto e os vestígios existentes


Como foi referido o aqueduto tinha o seu manancial no lugar do Agueiro. Existem ainda na Quinta do Marques do Agueiro três respiros em terreno agrícola e um, de maior grandiosidade, no jardim da Praceta Adelino Amaro da Costa. A mina depois de receber água destes pontos atravessa a rua D. Pedro V e recebe água de outros pontos situados no lugar de Trancoso, junto ao Colégio de Gaia. Entre a Rua D. Pedro V e a via de cintura existem dois respiros, nas traseiras dos prédios, que foram preservados aquando das obras de construção daquela via.
De seguida a mina atravessa a Avenida da República em direção à Travessa Particular Honório Costa onde ainda existe um respiro, de grandes dimensões que foi louvavelmente integrado em condomínio de prédio. Daí o aqueduto seguia até ao sítio da atual praceta 25 de Abril onde existiu um pequeno outeiro chamado das Pedras de Pé de Azeite onde, antes da construção da praceta, existia a casa da família Cal Brandão. A partir daí o aqueduto seguia à superfície e em arcadas pela rua 14 de Outubro, passava junto à Fonte do Casal (que abastecia) e depois pela atual Alameda da Serra do Pilar, onde faz a separação entre as freguesias de Santa Marinha e Oliveira do Douro. A entrada no atual Quartel da Serra dava-se junto ao portão nascente. A meio da Alameda da Serra do Pilar ainda existe, integrado numa habitação, parte dum arco do aqueduto, cuja imagem aqui se reproduz. Ao longo do percurso há ainda algumas estruturas de apoio à mina que ainda abastecem o quartel, porém de construção atual e de reduzido valor arquitetónico.


A ruína do aqueduto


Nos finais do séc. XIX era visível o estado de degradação de alguns arcos do aqueduto, havendo reclamações de particulares para que os mesmos fossem apeados considerando-se que, para além da segurança, eram um entrave ao progresso. O jornal “A Luz do Operário”, de 3 de Junho de 1926 dá-nos conta da preocupação dos moradores, temendo pela sua segurança e alertando para a necessidade de por fim a tal “pesadelo”. Foram os últimos arcos a ser derrubados.
Curiosamente o Estado que nada fez pela preservação deste monumento, em 20.08.1946, pelo Decreto-Lei nº 35.817 procedeu à classificação como imóvel de interesse público do troço existente do aqueduto da Serra do Pilar (lugar do Sardão, freguesia de Oliveira do Douro)". Tratou-se de classificar um monumento já inexistente e confundi-lo como parte de um outro que nada tem de comum. Esta incongruência ainda hoje se mantém na página eletrónica do IGESPAR onde o aqueduto dos Arcos do Sardão é referido como “troço existente do aqueduto da Serra do Pilar”.
Quisemos aqui evocar este monumento hoje desaparecido cuja memória perdura nas imagens que ficaram e nos vestígios de que aqui damos conta que faziam parte da mesma estrutura.
Cortesia de António Conde



Respiro do aqueduto da Serra do Pilar na Rua engenheiro Adelino Amaro da Costa, ao Agueiro - Ed. António Conde



Estrutura de antigo arco do aqueduto da Serra do Pilar, integrado na construção, na Alameda da Serra do Pilar – Ed. Graça Correia


Aqueduto e Festa da Senhora do Pilar no Campo de Manobras c. 1930


O arraial da Senhora do Pilar, de que a foto acima é testemunho, era das mais concorridas das redondezas.
O dia 15 de Agosto é dedicado no calendário religioso à Assunção de Nossa Senhora ao Céu. O culto a Nossa Senhora do Pilar teve origem em Espanha, em pleno séc. XVII e terá sido trazido para Portugal depois da Restauração. 

“Foi ontem o arraial da Senhora do Pilar, no sítio da Serra.
A concorrência àquele local, tão povoado de recordações e tão assinalado pelas devastações do tempo e da guerra, tocam as raias de extraordinária.
Na Serra achava-se um número de pessoas, talvez não inferior a 28 ou 30.000.
Tão extraordinário foi o arraial que tudo ficou literalmente vazio, vindo muitas das vendedeiras de novo à cidade abastecer-se de pão e outros géneros para ocorrer à enorme procura que eles ali tinham.
Toda a qualidade de fruta, especialmente as melancias, tiveram grande extracção.”
In jornal “O Comércio do Porto”, 17 de Agosto de 1865 – 5ª Feira



Vista do convento e igreja da Serra do Pilar através do aqueduto



Cais de V. N. de Gaia, em 1862




Mesma perspectiva da foto anterior, poucos anos mais tarde. Ao longe, na linha do horizonte, o aqueduto do mosteiro da Serra do Pilar




Rua de Rocha Leão contornando o maciço rochoso da Serra do Pilar e que durante 2 décadas constituiu o acesso Sul ao tabuleiro superior da ponte Luís I



Vista sobre o rio Douro obtida em 1950 a partir do adro da igreja da Serra do Pilar


Igreja da Serra do Pilar em 1950 ainda muito danificada, com vista obtida da Rua Rocha Leão


Vista parcial da igreja da Serra do Pilar obtida a partir do Jardim do Morro, na segunda metade do século XX

segunda-feira, 5 de junho de 2017

(Continuação 8) Actualização em 28/05/2020




A Igreja da Misericórdia do Porto situa-se na Rua das Flores, tendo sido construída em 1559 de estilo renascentista com reminiscências góticas. Dela só se aproveitou a capela-mor, na restauração que nela fez Nicolau Nazoni no século XVIII.
A Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP) foi instituída em 1502, na sequência duma carta que o rei D. Manuel I terá escrito em 1499 às pessoas mais influentes da cidade, na qual lhes recomendava a criação duma confraria semelhante à de Lisboa, instituída no ano anterior. Inicialmente, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia instalou-se na capela de S. Tiago, no claustro velho da Sé do Porto; em 1555, atendendo ao movimento da Rua das Flores, aberta por D. Manuel alguns anos antes, mudaram para lá a Casa do Despacho, iniciando nesse mesmo ano a construção da sua igreja, que seria benzida em 13 de Dezembro de 1559, por D. Rodrigo Pinheiro, ainda incompleta: a capela-mor foi construída apenas em 1584, recebendo o Santíssimo em 1590.
A igreja a partir de cerca de meados do século XVII começaria a ficar desprezada, e durante imenso tempo ameaçou ruína.
Antes disso, teria sido revestida interiormente de azulejos feitos em Lisboa, poucos dos quais chegaram até à actualidade.



“Só durante o século XVIII é que as atenções se viraram para a reconstrução da igreja. No dia 7 de Fevereiro de 1740, a Mesa da Santa Casa da Misericórdia consulta vários peritos, entre os quais Nasoni, para darem o seu parecer sobre o estado de segurança da igreja.
Mas a igreja só foi reedificada por Nasoni em 1748 em estilo barroco com formas de rococó, na sequência da queda da abóbada da igreja, contando com várias propostas do artista, tendo sido escolhida a mais simples, mas mesmo assim umas das mais luxuriantes a nível de escultura, sendo reforçadas as paredes, construídos abóbadas novas e uma nova fachada. Da antiga igreja preservou-se apenas a capela-mor. 
Não existe na cidade do Porto outra fachada com um efeito tão cenográfico quanto a da frontaria da Igreja da Misericórdia, pois não se torna possível visualizar o templo na rua para além da sua fachada. Com a decoração ostentosa e pesada, assenta sobre três arcadas que abrem o andar inferior, apoiadas em altos pedestais. O arco central, porta de entrada para o vestíbulo, é rematado por uma cartela com um legenda bíblica e a data de 1750 no entablamento com um frontão circular partido e profusamente decorado; os arcos laterais encontram-se rematados por vieiras. O segundo piso, assente no entablamento divisório, termina também num frontão circular, partido, luxuriantemente decorado; compõem o conjunto três janelões de recorte ondulado (sendo o central de maiores dimensões), encimados por frontões ricamente decorados. Rematando a fachada, encontra-se um grande frontão, com o emblema da Misericórdia e a coroa real, e sobre a cornija encurvada erguem-se quatro fogaréus e, no topo, uma magnífica cruz de pedra trabalhada.
O interior da igreja é de uma só nave com abóbada de tijolo recoberto de estuques e as paredes estão revestidos de azulejos azuis e brancos, que substituíram, em 1866, os primitivos. A capela-mor é coberta por uma abóbada barroco-jesuítica decorada, em granito, e as paredes, também em granito bem trabalhado, dividem-se em dois frisos: o superior decorado com colunas coríntias e janelas com grades de ferro dourado (do século XIX); no inferior, com colunas jónicas, abrem-se vários nichos com imagens dos evangelistas do século XVI, em madeira, mas pintadas em 1888, a imitar mármore. A decoração interior tem alguns aspectos valiosos, nomeadamente a sanefa de talha neoclássica do arco cruzeiro, onde figuram as armas reais e a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. De algum valor artístico são ainda as capelas e os altares laterais, com painéis e imagens valiosos, o coro, assente num belo arco abatido e recortado e o guarda-vento com vistosa talha rococó”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”



“No claustro, em cuja galeria figuram retratos de vários pintores portugueses, há uma lápide comemorativa do antigo hospital de D. Lopo, reminiscência do primitivo hospital fundado com o legado de D. Lopo de Almeida, uma obra de assistência que a Misericórdia sempre assumiu como um dos seus mais firmes compromissos e a levou a construir, em 1769, o Hospital de Santo António, para substituir os exíguos e mesquinhos hospitais que então possuía e administrava. Relembre-se pois, que a Misericórdia portuense é o maior senhorio privado do Porto e um dos maiores do País. O Estado é um dos seus muitos locatários, tendo arrendados os hospitais de Santo António e do Conde Ferreira, as escolas secundárias de lrene Lisboa e Carlos Cal Brandão e as esquadras da PSP do Amial e do Pinheiro Manso. 
O tesouro da Santa Casa, conservado no seu Arquivo Histórico (com documentação e códices valiosos) e no Museu (em constituição), é igualmente de grande riqueza, com destaque para várias peças de ourivesaria e excelentes pinturas, em que sobressai o célebre quadro «Fons Vitae», um óleo em madeira, obra-prima do gótico final, de autor desconhecido, mas dos princípios do século XVI, oferecido à Misericórdia por D. Manuel I e que serviu de retábulo na primitiva capela de S. Tiago e se conserva agora na magnífica Sala das Sessões da Santa Casa. Esta igreja ainda é na actualidade propriedade da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Porto, fundada em 14 de Março de 1498, e o grande mecenas desta igreja, através do seu legado, foi D. Lopo de Almeida, aqui sepultado”.
Fonte: “portoxxi.com”



“D. Lopo de Almeida (1524-1584). Filho de D. António de Almeida, que foi contador-mor do reino, e de D. Maria Pais Leme, descendia da Casa de Abrantes, pelo lado paterno, e de Martim Leme, mercador de Bruges que amealhou uma grande fortuna, pelo lado materno. Na sua linhagem cruzavam-se, pois, a aristocracia dos Abrantes e a riqueza patrimonial dos Lemes.
Em Lisboa fez os primeiros estudos, com vista ao sacerdócio, que prosseguiu desde 1539 em Coimbra onde D. Jorge de Almeida, seu tio-avô, era bispo-conde. Junto dele adquiriu uma formação de teor clássico.
D. Lopo sentiu a atracção dos grandes estudos do estrangeiro. Por esse motivo, ou apenas por viver num ambiente mais culto, no ano lectivo de 1543-1544 deve ter frequentado as gerais de Salamanca. Veio depois o apelo da França, para o que recebeu uma das 50 bolsas concedidas por D. João III. Em Outubro de 1545, aparece inscrito no Colégio de Guiena, em Bordéus.
Em 1547, D. Lopo seguiu para a capital francesa onde não parece ter seguido estudos regulares, mas apenas ouvido cursos de grego e de matemática.
Poucos anos depois do seu regresso a Portugal, D. Lopo viu-se envolvido numa teia de más-vontades que acabaram por conduzi-lo ao tribunal da Inquisição.
Durante 3 meses teve de responder a um conjunto de acusações, que iam da infracção às normas da Igreja, durante o período quaresmal, até ao proclamar a liberdade de opinião em matéria religiosa. Para tudo encontrou a devida explicação, não se negando a confessar que proferira juízos contrários à ortodoxia católica, mas que nunca desertara do rebanho de Cristo, como sacerdote que era e que se prezava de ser.
Foi condenado a um ano de penitência no Convento de S. Domingos de Lisboa, de onde passou para o de Benfica. Por ordem do Cardeal D. Henrique, no Verão de 1551 era perdoada a D. Lopo o resto da pena, pelo que pôde voltar à liberdade.
Nos anos que sucederam até 1580, vemos D. Lopo entregue ao seu múnus religioso e a administrar os bens que herdara do tio e que faziam dele um clérigo abastado.
A crise de 1580, motivada pela morte sem descendência de D. Sebastião, fez com que D. Lopo de Almeida seguisse o partido filipino. Em 1581 foi nomeado membro do Conselho Régio, encontrando-se na altura em Madrid na qualidade de capelão do monarca. Ali viveu os três últimos anos de vida. De longe administrava a sua imensa fortuna em Portugal.
D. Lopo de Almeida faleceu em 29 de Janeiro de 1584. Entendeu colocar a sua riqueza ao serviço dos pobres e enfermos, designando a Santa Casa da Misericórdia do Porto como sua testamenteira e legando-lhe uma avultada fortuna. De entre as obras realizadas com a doação de D. Lopo destaca-se o Hospital de D. Lopo e a capela-mor da Igreja Privativa, onde estão depositados os seus restos mortais”.
In Site da SCMP




Parte superior da fachada da Igreja da Santa Casa da Misericórdia



Fachada da Igreja da SCMP




Igreja da Santa Casa e envolvente




17.13 Convento de Santo Agostinho da Serra - Convento da Serra do Pilar - Igreja da Serra do Pilar



“No ano de 1140, o bispo do Porto, D. Pedro Rabaldio, fundou um mosteiro de freiras, que seguiam a regra de inclusas ou emparedadas, no sítio em que está erigido o actual mosteiro da Serra do Pilar, de invocação a São Nicolau. 
Este mosteiro vigorou até princípios do século XIV, em virtude de não haver religiosas que desejassem continuar a cumprir a cruciante penitência usada nesta casa religiosa.
Em virtude do convento das Donas Emparedadas de São Nicolau estar desabitado, o prior do convento de Grijó, D. Bento Abrantes, deliberou estabelecer uma filial do seu mosteiro no sítio em que existiu o das monjas de S. Nicolau.
Em sequência, sob o pretexto de que Grijó estava arruinado, e em lugar baixo e muito húmido, de acordo com o Bispo do Porto, D. Frei Baltazar Limpo decidiu fundar, em 1537, um novo mosteiro na margem esquerda do Douro, depois de ter obtido a licença pontifícia.
A primeira pedra para a edificação do novo mosteiro, deu-se em cerimónia que foi realizada no dia em 28/8/1538.
Em 19 de Junho de 1540, o fidalgo João Dinis Pinto vendeu, para cerca do novo mosteiro, pela quantia de 10$000 reis, uma parte da sua quinta de Quebrantões, da qual era Senhoria directa a Câmara do Porto.
Dois anos depois, em 1542, o novo convento recebeu os primeiros monges, que vieram do convento de Grijó.
No ano de 1566, convieram os priores dos conventos de Grijó e da filial a dividirem os seus rendimentos, com o objectivo do novo mosteiro ficar independente. Nesta conformidade o novo mosteiro substituiu o orago do Salvador pelo de Santo Agostinho, que foi mantido até à sua extinção em 1834. O prior D. Acúrcio de Santo Agostinho resolveu mandar construir a actual igreja ao lado da primitiva, que ainda hoje se pode ver, no ano de 1598. Em 1602 foi construído o claustro.
Foi o prior D. Jerónimo da Conceição que, no domingo de Páscoa do ano de 1678, mandou colocar, no altar-mor da igreja do mosteiro, a imagem de Nossa Senhora do Pilar, à veneração dos fiéis”.
Fonte: “g-sat.net”


Diga-se que, segundo a tradição, o primitivo Mosteiro de São Salvador de Grijó foi fundado em 922, no lugar de Murraceses por dois clérigos, Guterre e Ausindo Soares, adoptando a regra e hábito de Santo Agostinho em 938. No ano de 1112, foi transferido para a localização onde se encontra actualmente, mas a nova igreja só seria sagrada em 1235, pelo bispo do Porto, D. Pedro Salvador. Em 1572, foi contratado o arquitecto Francisco Velasquez, mestre-de-obras da Sé de Miranda do Douro, para desenhar o novo projecto. Dois anos depois, a 28 de Junho de 1574, era lançada a primeira pedra do dormitório. Até 1600, estavam concluídas duas alas do claustro, o refeitório e a sala do capítulo. No entanto, a construção da igreja arrastou-se por mais cerca de trinta anos e a capela-mor só seria fechada em 1629. Em 1770, o convento era extinto, passando os seus bens para o Convento de Mafra.
Em meados do século XIX, a denominada Quinta do Mosteiro era pertença do abastado negociante Jerónimo José de Araújo Braga, com morada no Porto, na Rua da Conceição.
Presentemente, a quinta é propriedade da família Amorim.




Fachada da igreja do Mosteiro de São Salvador de Grijó



A explicação de Andrea da Cunha Freitas, dada a seguir, para a construção do convento da Serra do Pilar é também, muito interessante.


Entretanto, no convento dos Cónegos Regrantes de Coimbra o dia-a-dia era “de um certo relaxamento de costumes, vícios e abusos dos crúzios, que ofendiam os povos, e as queixas subiam até à própria corte”.
O mesmo acontecia no de Grijó. D. João III decidiu pôr termo a esses desregramentos e em 1527 nomeou-lhes um reformador,  Fr. Brás de Barros, o frade Jerónimo.
O Mosteiro de Grijó não o aceitou como tal recusando-se a obedecer a um frade de outra regra. Filia-se nesta rebeldia a fundação do Mosteiro do Salvador do Porto, depois denominado Serra do Pilar”.



O frade Jerónimo acima referido, tinha passado pela Ordem dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, onde tinha feito um trabalho de reforma notável.
Porém, quando a nova igreja foi projectada para substituir a antiga capela, era superior da Ordem, Frei Acúrcio, frade que tinha vindo de Roma, cidade onde então era muito apreciada a Igreja de Santa Maria de la Pacce "La Rotonda", obra do renascentista Donato Bramante do início do século XVI e, assim, nasceria o novo templo no Monte da Meijoeira ou de S. Nicolau que, mais tarde, seria Serra do Pilar.




Serra do Pilar, igreja e mosteiro, em gravura de J. Villanova, em 1833







Serra do Pilar, em 1870







Igreja do mosteiro da Serra do Pilar em ruínas em 1900



Torre da primitiva Igreja do Mosteiro da Serra do Pilar



A adoração a Nossa Senhora do Pilar tem origem nos anos em que estivemos sob administração espanhola, embora, neste caso, só se tornasse uma realidade em 1678, após a nossa libertação em 1640.
A festa a Nossa Senhora do Pilar, no monte chamado da Meijoeira, começou em 1678. Rapidamente se tornou muito popular, a tal ponto que passou a chamar-se Serra do Pilar. Era uma das mais concorridas feiras e romarias da cidade, dado que só depois do cerco do Porto esta passou a pertencer a V. N. de Gaia, realizando-se no dia 15 de Agosto.
Até ao ano de 1826 era costume sair, deste convento, na noite de Sexta-feira de Lázaro, em procissão, a imagem do Senhor dos Passos até à matriz de Santa Marinha, recolhendo à igreja do mosteiro em solene procissão, no Domingo seguinte.




Festa da Senhora do Pilar



Na foto acima vê-se o aqueduto que abastecia o convento, cuja água foi contratada com Diogo Leite, Senhor de Campo Belo, que a cedeu dos seus terrenos de Casais e Trancoso, da freguesia de Mafamude, em 23/5/1538.



Mosteiro da Serra do Pilar - Cortesia de Gaia à la Carte




James Murphy, em 1789, diz-nos, acerca dos padres deste convento, que:


“ O meu guia abordou um desses reverendos padres, vestido de uma batina preta e coberto de um largo chapéu. Estava montado numa mula, consoante o estatuto da sua Ordem que proíbe a todo o membro da comunidade mostrar-se a pé fora dos muros do convento, de tal modo que estes formam uma espécie de corpo de cavalaria, em geral, mais respeitado ou, pelo menos – assim se crê ser, do que o clero a pé”.


«Os padres da Serra tinham uma Brévia ou casa de campo em S. Paio, nas margens do Douro, junto á Afurada, na freguesia de Stº. André de Canidelo.
”Tem mais a pequena quinta São Paio, com a sua capela, que o mosteiro da Serra adquiriu, parte por virtude da união da referida igreja, e por ser paçal da mesma capela de tempo antiquíssimo, e parte por compra de uma limitada porção de terra de mato que fez no ano de 1627, no mesmo sítio em que mandou fabricar umas casas para os Religiosos terem as suas recreações que pelas leis da religião lhe são permitidas…”
”… Por certas dúvidas que se levantaram sobre a legitimidade da posse destes bens, resolveram os religiosos vender toda a quinta, o que fizeram em 14/11/1767. Mas, pouco depois, houveram-na de novo, por contracto de 6/6/1769, celebrado com quem a possuía”.» 
In O Tripeiro, Série VI, Ano IV
 
 
 

Brévia em S. Paio, depois, a Casa do Senhor Antero

 
 
O palacete revivalista/medievalista de S. Paio, construído na década de 1840 e representado em 1848, por Cesário Augusto Pinto, na sua conhecida colecção de vistas das margens do Douro, foi propriedade do Dr. Antero Albano da Silveira Pinto, casado com Francisca de Paula da Silva e Sousa, a 9 de Maio de 1838, na igreja de S. Bento da Vitória. Teria sido construído, sensivelmente, no local onde se encontrava a brévia dos cónegos regrantes de Santo Agostinho da Serra do Pilar.
Como curiosidade, diga-se que Antero Albano da Silveira Pinto foi padrinho de Ramalho Ortigão no duelo levado a cabo na Arca d’Água que o opôs a Antero de Quental, a propósito da célebre "questão coimbrã”.
O médico, formado em 1837, em Paris, Antero Albano da Silveira Pinto, foi Primeiro Bibliotecário da Real Biblioteca Pública do Porto, Presidente da Comissão Administrativa Municipal de Vila Nova de Gaia, Presidente da Câmara Municipal de Gaia, no biénio 1868/1869 e, ainda, entre muitos outros cargos, governador de Aveiro e de Viana do Castelo, em diversas ocasiões.
Àquele palacete refere-se Camilo Castelo-Branco, na obra "Cavar em Ruínas" (prefaciada pelo próprio, em 1866), a propósito de um arco manuelino proveniente do convento franciscano de Nossa Senhora da Conceição, em Leça (Matosinhos).
Diz um dos personagens camilianos, referindo -se ao arco e ao palacete:
 
"A porta que esteve aqui, está hoje na quinta do sr. Conselheiro Antero Albano, em São Payo Além Douro, (...) Vá vossa excelência lá vê-la (...) Vá que, se o não enlevam contemplações artísticas no bello rendilhado de portadas manuelinas, prometo-lhe duas horas de poético cismar, se subir aos adarves da casa meio gótica meio árabe do senhor conselheiro Silveira Pinto".
 
 
Junto de um terreno e exploração agrícola a poente da Afurada, em S. Paio, existiria uma ermida e um prédio que funcionava como brévia de frades agostinhos, em 1809.
 
 
«Em 22 de Junho de 1809, o Monte de Alumiara - sobranceiro a S. Paio, estendendo-se por 300 varas, com fonte, lavadouro, campos e moinhos, saibreira e pedreira de usufruto comum, foi aforado a D. Maria Rosa da Conceição Silva, viúva de António Gonçalves, negociante do Porto. Esta senhora era mãe da futura sogra do Dr. Antero Albano da Silveira Pinto.
(…) Em 7 de Agosto de 1840, foi dada posse da "Capella e Terreno da Brevia que foi dos extinctos Cónegos Regrantes”, em S. Paio, a D. Maria Amália Ermelinda da Silva e Sousa, do Porto, filha da mencionada D. Maria Rosa da Conceição Silva. No auto de posse, a arrematante foi representada pelo seu genro, Dr. Antero Albano da Silveira Pinto, sendo ambos moradores na Rua das Taipas, onde também viviam em Fevereiro de 1841. O documento menciona a ermida e o terreno, em termos que permitem perceber tratar-se de terreno em volta da capela, não se referindo qualquer edifício à parte, nomeadamente o edifício da brévia.
Em suma, toda aquela zona de antigo montado, junto à Ermida de S. Paio, foi sendo apropriada pela mãe da futura sogra do Dr. Antero Albano da Silveira Pinto.
Uma vez que a referida sogra comprou a capela e terreno do adro, supomos que o tenha feito para complementar as propriedades que a família já ali tinha, nomeadamente a própria brévia. Portanto, o sítio onde Antero Albano da Silveira Pinto terá mandado construir o palacete, veio à sua posse por casamento».
Cortesia de Francisco Queiroz / João Miranda Lemos, In “A Família Silveira Pinto e o Palacete de S. Paio”
 
Presentemente, a que foi a Casa do Senhor Antero, é a sede duma irmandade religiosa - Oblatas do Coração de Jesus
 
 
 
Casa de Santa Isabel (antiga Casa do Senhor Antero) - Cortesia de Domingos Manuel (Jan 2019)
 
 
 
 

Afurada em 1885 - Ed. Emílio Biel

 
Voltando ao convento da Serra do Pilar, durante a luta do cerco do Porto entre 8 de Setembro de 1832, e 18 de Agosto de 1833 ficou muito danificado, a ponto de não se poder praticar o culto. 



“Todavia, um grupo de devotos Gaienses resolveu representar à rainha D. Maria II, para constituírem uma confraria, que celebrasse o culto à Virgem do Pilar. A esta confraria se deve a salvação da actual igreja do convento da serra do Pilar, porquanto foi a expensas dos seus filiados que foram adquiridos os artigos e objectos indispensáveis à prática do culto, como também pagaram as reparações mais necessárias, que evitassem a ruína de tão importante monumento, único na península pela sua forma redonda e magnificência arquitectónica.
Para o culto exclusivo à imagem de Nossa Senhora do Pilar constituiu-se, em 15 de Agosto de 1895, uma «Devoção de Nossa Senhora do Pilar».
 In portoarc.blogspot



Em 1925, começou o restauro deste mosteiro, muito danificado pelo abandono de muitos anos.
Em Fevereiro 1918, já tinham começado tímidas obras de restauro,  fruto de uma subscrição pública.



Arruamento e casas demolidas em 1920, para a construção do terreiro e acesso. É bem visível a antiga igreja



Construção do muro de suporte da Serra do Pilar



O muro de suporte já terminado - vê-se à esquerda a torre do primitivo convento do séc. XVI



Zimbório da igreja



“Já lemos que um arquitecto estrangeiro foi escolhido para construir a cúpula da Igreja da Serra do Pilar. Para tal teria recebido metade do ajustado. Quando acabada, o povo e outros arquitectos terão receado que dado o seu tamanho e forma não se aguentasse quando retirados os altos troncos que a escoravam. O próprio arquitecto talvez também não tivesse total confiança na sua obra pois, foi adiando a sua retirada. Não recebendo o restante do seu pagamento, decidiu certa noite fugir do Porto, o que reforçou esse receio. Por esta razão a Igreja não foi utilizada durante muitos anos. Com o tempo os troncos, apodrecidos, desabaram, mas a cúpula manteve-se firme e resistiu mesmo aos bombardeamentos dos Miguelistas durante o cerco do Porto, 1832/33. Será isto verdade ou lenda?”
In portoarc.blogspot.



A igreja do convento da Serra do Pilar tem como curiosidade exibir uma rara imagem de S. Valentim que, como se sabe, foi retirado pelo Vaticano da sua lista de santos, por não puderem provar a sua existência.
 

 

Imagem de S. Valentim num nicho da igreja do convento da Serra do Pilar
 
 
 

Interior da igreja do convento da Serra do Pilar




Claustro do convento renovado



Vista da Serra do Pilar, antes e depois


Vista da Serra do Pilar (à esquerda)


(Continua)