Mostrar mensagens com a etiqueta Convento de Santo António da Cidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Convento de Santo António da Cidade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

(Continuação 1)


21.2 A Biblioteca Pública Municipal do Porto/Convento de Santo António da cidade


Convento e Biblioteca

A Biblioteca Pública Municipal do Porto é uma biblioteca localizada no início da Rua de D. João IV, frente ao Jardim de São Lázaro, na freguesia do Bonfim e que funciona no antigo Convento de Santo António da Cidade dos Capuchos, um enorme edifício claustral, de finais dos anos setecentos onde desde 1842 tem funcionado a Real Biblioteca Pública da Cidade do Porto, depois Biblioteca Pública Municipal do Porto e onde já funcionou, o Museu Municipal, a Escola de Belas Artes e o Museu Arqueológico.


“Em 1747, religiosos franciscanos da Província da Conceição, vieram à cidade do Porto, para aqui fundarem um Hospício, da invocação de Nossa Senhora da Conceição. No ano de 1780 compraram uma capela pública e outras casas e terrenos, no Campo de S. Lázaro. Em Novembro desse ano mudam-se para S. Lázaro. Em 1790 o Hospício passa a convento e casa capitular. Assim nasceu no Porto o Convento dos Frades Menores Antoninhos da Província da Conceição, mais conhecido por Convento de Santo António da Cidade. A sua construção prolongou-se por vários anos, e ainda no ano de 1832 prosseguiam as obras da nova igreja. Em 9 de Julho de 1832, o convento é abandonado, por se ter verificado a entrada na cidade do Porto das tropas liberais. No dia 14 o convento é ocupado pelas tropas inglesas. 
Em 1833 a Biblioteca Pública, é provisoriamente instalada no Hospício de Santo António do Vale da Piedade, na Cordoaria, e no Paço Episcopal e começa a ser mudada para o Convento de S. Lázaro em 1839 quando o Convento é doado à C.M.P. e em 4 de Abril de 1842, dá-se a inauguração de Real Biblioteca Pública do Porto.”
Fernando Moreira da Silva, In Boletim dos Amigos do Porto de 2003.



Sobre a grandiosidade do convento narra a notícia da realização nas suas instalações, já como Biblioteca Pública Municipal do Porto, de um jantar servido em 13 de Agosto de 1845 em honra de José Bernardo da Silva Cabral, ministro da Justiça.


“…as viandas foram servidas no “salão do Ateneu” no r/c e as “desert” no salão do 1.º andar.
O salão do Ateneu é onde era dantes o refeitório e cozinha dos frades, no tempo do convento de Santo António da Cidade. A sua extensão era tal que a mesa tinha 1400 cadeiras de cada lado”.
 In “Periódico dos Pobres no Porto”, 22 Agosto de 1845



Entre 1780 e 1832, na véspera e no dia 1 de Junho, realizava-se uma grande cerimónia na Igreja de Santo António da Cidade, que se alargava ao Campo de S. Lázaro, com fogo preso e luminárias, em honra de Nossa Senhora da Mãe dos Homens que, pelos dias de hoje, é apenas evocada em Moreira da Maia, lugar de Pedras Rubras.
O convento de Santo António da Cidade, após o ano de 1833, viria a ter várias utilizações para além da de Biblioteca Pública Municipal.
Segue-se uma cronologia do aparecimento do Convento de Santo António da Cidade, desde a sua fundação, até à inauguração da Real Biblioteca Pública do Porto.



“1747 - Alguns religiosos franciscanos da Província da Conceição vêm para a cidade do Porto e fundam um Hospício, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.
1749 - Dionísio Verney, homem de negócios, está a acabar de construir, no Campo de São Lázaro, uma capela, mais tarde adquirida pelos Religiosos da Província da Conceição para estabelecimento de um Hospício Regular.
1753 - Em disposição testamentária, Dionísio Verney refere-se à construção, em São Lázaro, de um convento, convento esse que tinha intenção de ceder aos Padres da Ordem da Santíssima Trindade.
1755 - Morre Dionísio Verney, sendo sepultado na sua capela, ao Campo de São Lázaro.
1776 - Maria Angélica Teresa vende a António José Mendes Guimarães a capela, bem como três moradas de casas, sitas no Campo de São Lázaro, que tinham pertencido a seu irmão, Dionísio Verney.
1778 - D. Maria I concede aos Religiosos Menores da Província da Conceição autorização para fundarem um Hospício Regular na cidade do Porto.
1779-1780 - Os Religiosos da Província da Soledade (com sede no Convento de Santo António do Vale de Piedade em V. N. de Gaia) opõem-se a que os da Província da Conceição estabeleçam um Hospício Regular no Porto. Por isso, D. Maria I manda nomear um desembargador para superintendente da fundação do referido Hospício.
1780 - Em 26 de Novembro, os Religiosos da Província da Conceição compram a António José Mendes Guimarães uma «capella publica com casas místicas a ela» e outras casas e terrenos, situados no Campo de São Lázaro, que haviam pertencido a Dionísio Verney. A 30 de Novembro, a comunidade religiosa muda-se, das casas que habitava na Rua de Santa Catarina, para o edifício de São Lázaro. A 11 de Junho, o Ministro Provincial, Frei António das Dores, faz a primeira visita ao Hospício estabelecido em São Lázaro. No dia 3 de Julho, os Religiosos adquirem mais casas e terrenos para ampliação do seu Hospício.
1782 - É eleito, a 23 de Julho, o primeiro Prelado do Hospício de Santo António da Cidade, com voto e com o nome de Presidente «in capite».
1785 - Continuam as obras no Hospício, procedendo-se à extracção de pedra na Quinta da Fraga, às Fontainhas.
1789 - O edifício está ainda por concluir e promete vir a ser «um dos maiores Conventos da Cidade», segundo refere o Padre Agostinho Rebelo da Costa na «Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto».
1790 - O Hospício passa a Convento e Casa Capitular. Frei António de Jesus toma então posse como Guardião.
1791 - Realiza-se o primeiro Capítulo Provincial no Convento de Santo António da Cidade, a 27 de Agosto.
1794- O Provedor da Companhia Geral do Alto Douro, Barnabé Veloso Barreto de Miranda, é enterrado na Igreja do Convento, em frente ao altar de Nossa Senhora Mãe dos Homens.
1798/1799- Os Religiosos obtêm autorização para conduzir água para o Convento, sem pagar foros e laudémios dos terrenos comprados, e comprometem-se a fazer um aqueduto subterrâneo.
1799- Em 24 de Maio, é sepultado Frei João da Conceição, religioso leigo «que trabalhou muito para esta fundação»
1808- São abertas vinte e seis sepulturas nas «quadras do claustro», benzidas a 23 de Maio. Em Julho, é estabelecido no Convento um depósito para móveis e roupas das tropas espanholas que ocuparam a Cidade durante a 1ª Invasão Francesa.
1809- Foi morto a tiro pelos franceses, na freguesia de Lordelo do Ouro, no dia 29 de Março, o Irmão Pregador do Convento de Santo António da Cidade, Frei José de Santa Gertrudes. No mês de Abril, passa a funcionar no Convento um hospital para tropas francesas, hospital esse que, a partir de 20 de Maio, é destinado às tropas portuguesas. A 26 de Maio, é enterrado na Igreja do Convento um soldado falecido nesse hospital e, ainda no mesmo ano, um sargento e um soldado miliciano.
1818- São abertas sepulturas na segunda quadra do claustro, aplicando-se para este trabalho, entre outras verbas, dinheiro proveniente do Convento do Maranhão.
1820- Procede-se a diversas obras na sacristia.
1823/1824- Continuam as obras na sacristia, utilizando-se, para o efeito, pedra de Valongo e de Ançã.
1828- A 28 de Janeiro, é sepultado o pedreiro, «Mestre das obras da Igreja». A 29 de Abril, o Guardião do Convento, Frei José de Jesus Maria, assina, por si próprio e pela comunidade, a acta da Vereação extraordinária da Câmara em que foi acordado comunicar a D. Miguel que a cidade do Porto o queria como legítimo representante da Coroa.
1829/1830- Prosseguem as obras na Igreja e sacristia. 1830 Toma posse, em Capítulo Provincial de 29 de Maio, o décimo oitavo e último Guardião do Convento, Frei António da Natividade.
1831- Em 3 de Dezembro é celebrado o último Capítulo (intermédio) no Convento do Porto.
1832- Continua a construção da nova Igreja, encontrando-se já a capela-mor muito adiantada. Em 20 de Maio, é registada a última patente, dada pelo Ministro Provincial, Frei Francisco de Santa Maria dos Anjos, no Convento do Porto. O Ministro Provincial faz a última visita ao Convento, no dia 4 de Junho. A 1 de Julho, os Religiosos procedem ao último enterramento, feito no claustro. O Convento é abandonado pelos Religiosos no dia 9 de Julho, data da entrada do Exército Libertador na Cidade, permanecendo apenas um membro da comunidade, Frei Joaquim da Assunção. A 14 do mesmo mês, o Convento é ocupado por tropas inglesas que combatem ao lado dos liberais, as quais furtam móveis, alfaias religiosas e livros. No dia 26 do referido mês, são fuzilados pelos liberais, o Irmão Definidor, Frei Francisco da Pureza, e o Irmão Corista, Frei António de Ave-Maria, que se haviam refugiado na Quinta do Fojo. Na presença de Frei Joaquim da Assunção, são inventariados, a 30 de Agosto, os bens do Convento. Em 25 de Setembro e 3 de Outubro, é retirada a «Livraria», a qual é entregue ao Bibliotecário da Comissão dos Conventos Extintos ou Abandonados. O Batalhão Francês, que ocupava o Convento, abandona-o em Novembro, tendo feito nele grandes estragos, o que leva a Comissão dos Conventos Extintos ou Abandonados a comunicar o sucedido a D. Pedro IV. No dia 13 desse mês, a referida Comissão compra um livro de coro, pertencente ao Convento, que estava na posse de um soldado francês.
1833- Em Outubro, a mesma Comissão entrega a João Baptista Ribeiro, entre outros quadros e painéis, a «Ceia» da autoria de Joaquim Rafael, que havia pertencido ao Convento de Santo António da Cidade. Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Em 30 de Dezembro, por o Prefeito do Douro e a Comissão Municipal entenderem que a Biblioteca Pública – provisoriamente instalada no Hospício de Santo António de Vale da Piedade, à Cordoaria, e no Paço Episcopal – necessitava de um edifício mais espaçoso, é mandado examinar, para esse efeito, o «abandonado Convento de Santo António da Cidade», por uma Comissão constituída pelo 1º Bibliotecário, Diogo de Góis Lara de Andrade, pelo Arquitecto da Cidade, Joaquim da Costa Lima Sampaio, e pelo 2º Bibliotecário, Alexandre Herculano.
1834- O Prefeito do Douro, em 13 de Março, remete ao Governo as plantas da Praça de São Lázaro e do Convento de Santo António da Cidade, bem como o orçamento das despesas necessárias para neste edifício se instalar o Museu e a Biblioteca. No «Registo dos Egressos habilitados», datado de Maio, são mencionados vinte ex-religiosos do Convento de Santo António da Cidade.
1836- Em Agosto, é anunciada a venda dos «materiaes das Igrejas nova, e velha do extincto Convento de Santo António da Cidade».
1839- O edifício do Convento é doado à Câmara do Porto, em 30 de Julho. 1842- É definitivamente instalada no edifício do Convento a Real Biblioteca Pública do Porto e inaugurada em 4 de Abril, dia do aniversário da Rainha D. Maria II.
Maria Adelaide Meireles, In O Convento de Santo António da Cidade; Fonte: “balcaovirtual.cm-porto.pt”




Projecto inicial do convento – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”



Em 1832, continuava a construção da nova igreja que iria substituir, junto dela, a primitiva capela existente.
 
 
 

Convento de Santo António da Cidade em 1833 - Desenho de J. Villanova
 
 
 
Como se pode ver na gravura acima, na ala mais a norte do complexo (à esquerda) ficava o templo no qual era venerada uma imagem de Nossa Senhora da Mãe dos Homens.
Para alinhamento da Rua do Mede-Vinagre, depois Rua da Murta e, finalmente, Rua Morgado Mateus a nova igreja acabaria, mais tarde, por ser demolida e integrada na fachada voltada para aquela rua.

 
 

Fachada, à esquerda, voltada para a Rua Morgado Mateus

 
 
O topónimo de Rua Morgado Mateus pretende homenagear D. José Maria de Sousa, morgado de Mateus, nosso enviado a França e mecenas.
Quanto ao topónimo de Mede-Vinagre, por certo, tratar-se-ia de uma referência a alguém que por aquelas bandas comerciaria aquele produto e já constava da planta de Costa Lima de 1839.
Quanto ao topónimo de Rua da Murta, talvez se ficasse a dever à viúva de Boaventura José Vaz Murta, que vivia nas imediações.



Biblioteca


A Biblioteca Pública do Porto foi instituída no dia 9 de Julho de 1833, por decreto assinado nos paços reais de Porto por D. Pedro IV, duque de Bragança e referendado por Cândido José Xavier, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino. A criação da biblioteca teve por objetivo expressamente declarado solenizar o aniversário da cidade. O nome dado foi Real Biblioteca Pública da cidade do Porto.
A biblioteca tinha sido inicialmente instalada, no Hospício dos Franciscanos, mais tarde Hospício dos Expostos, onde viria a funcionar a Roda e o Mercado do Peixe, situado na Praça da Cordoaria e, em 11 de Abril de 1842, foi definitivamente instalada na casa que servia de hospício dos religiosos de Santo António de Vale da Piedade, o Convento de Santo António da Cidade, junto ao Jardim de São Lázaro na Rua D. João IV.
Os cargos da biblioteca seriam de nomeação da Câmara, excepto o cargo de bibliotecário, cuja nomeação teria de ser feita pelo governo.



“Em 1833 entendeu-se que a Biblioteca Pública, até então instalada provisoriamente no hospício de Santo António de Vale da Piedade, na Cordoaria, necessitava de um edifício mais espaçoso. Daí, foi nomeada uma comissão para examinar as condições do «abandonado Convento de Santo António da Cidade».
A comissão constituída pelo 1.º bibliotecário, Diogo de Góis Lara de Andrade, pelo arquiteto da cidade, Joaquim da Costa Lima Sampaio, e pelo 2.º bibliotecário, Alexandre Herculano, apresentam uma proposta no ano seguinte com plantas e orçamentos para a instalação da biblioteca e do museu no edifício.
Só em 1839 o edifício do convento é doado à Câmara do Porto, e em 1842 é definitivamente instalada no edifício do convento a Real Biblioteca Pública do Porto e inaugurada em 4 de abril, dia do aniversário da rainha D. Maria II”.
In facebook.com/PortoDesaparecido



“O primeiro fundo bibliográfico do novo estabelecimento cultural foi constituído principalmente pelas livrarias dos conventos abandonados e pela do prelado da diocese, D. João de Magalhães e Avelar.
Segundo Alexandre Herculano, a biblioteca constava de 36 mil volumes, além de 300 códices manuscritos. Devido a uma questão de herdeiros do prelado que perdurou por vários anos, o governo teve ainda que pagar uma quantia que na época era de 24.000$000 réis. Os primeiros catálogos que a biblioteca possuía foram de dezasseis volumes manuscritos que naquela época prestavam excelentes serviços.
Em 1842 a Biblioteca constava de 24.256 obras, em 47.322 volumes, pelo que diz os livros já catalogados. Além, deste acervo, havia também 50 mil volumes, entre os quais 4.200 tinham vindo dos conventos extintos de Vila do Conde e imediações. Foi nessa época que apareceram os primeiros catálogos impressos da Biblioteca do Porto. Encontra-se no prelo um catálogo descritivo, analítico e comentado dos Manuscritos Ultramarinos da Biblioteca Pública Municipal do Porto e organizado para aquele certame pelo Gabinete de História da Câmara Municipal da mesma cidade.
A coleção de manuscritos raros desta biblioteca enriqueceu em 1877 pelo legado do Conde de Azevedo.
Esta biblioteca foi transformada em Municipal, por determinação da Carta de lei de 27 de Janeiro de 1876, promulgada por D. Luís I e referendada pelo ministro do Reino António Rodrigues Sampaio, tendo como presidente da Câmara do Porto Francisco Pinto Bessa”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”



O edifício da Biblioteca do Porto, ao longo da sua existência, esteve sujeito a várias intervenções de remodelação, conservação e restauro.
Nos anos mais próximos, é de destacar aquelas que ocorreram em 1978 e se estenderam pela década de 1980.
Assim, em 1978, tiveram lugar trabalhos profundos de remodelação das instalações afectas ao funcionamento da biblioteca. Os trabalhos decorreram durante ano e meio, mas devido a várias circunstâncias estiveram parados durante três anos, sendo retomados com o assumir da presidência do executivo camarário por Paulo Valada, em Janeiro de 1983.
Entretanto, o Convento de Santo António da Cidade, no Porto, foi declarado Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 28/82, de 11 de Fevereiro de 1982. O edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público, já albergava a Biblioteca Pública Municipal do Porto desde 1842.
 
 
 
 

Sala de Leitura da Biblioteca Pública do Porto, na década de 1970, localizada em andar superior
 
 
 

Ficheiros da Biblioteca Pública do Porto localizados em espaço improvisado, na década de 1970
 
 
 

Sala de Leitura improvisada, funcionando na antiga Hemeroteca, na década de 1970
 
 
 
Sobre a foto anterior, é de lembrar que muitos daqueles que hoje já não são mais meninos, passaram horas sem fim, naquela sala, devorando livros de aventuras e cowboys.



Museu Portuense ou Ateneu D. Pedro


O chamado Museu Portuense ou Ateneu D. Pedro, foi criado em 1833, por Pedro IV de Portugal e instalado no edifício do Convento de Santo António da Cidade tendo, para esse efeito, sido demolida a primitiva capela. 



Alberto Pimentel, In "Guia do viajante na cidade do Porto e seus arrabaldes" (1877)



José Teixeira Barreto, professor na Academia de Marinha e Comércio, tinha sido quem primeiro advogou a existência na cidade do Porto de um Museu de Pinturas e Estampas. No entanto, morreu precocemente e não viu materializado o seu desejo.
Seria João Baptista Ribeiro, um retratista, que lhe sucedeu, quem iria convencer D. Pedro IV a fazê-lo, durante as visitas que fazia ao Paço, no Porto, para retratar o soberano.
Em sequência, em 11 de Junho de 1833, já João B. Ribeiro tinha entregado um projecto de regulamento de funcionamento do Museu Portuense, que lhe foi solicitado por portaria do Ministério do Reino, de 11 de Abril.
Entretanto, realizou um trabalho de identificação das pinturas e estampas existentes nos conventos e mosteiros extintos e nas casas sequestradas.
A escolha do local para instalação do Museu é da sua lavra, mas até 12 de Setembro de 1836, quando lhe é atribuído, finalmente, um vencimento para pagamento do seu trabalho, as contrariedades são muitas.
A maior, a humidade existente no espaço escolhido para a galeria de pintura.
Na recolha do espólio dos conventos e mosteiros extintos e casas sequestradas, vê-se envolvido em questões de descaminho de peças, chegando a receber uma intimação do Juiz de Direito do Bairro de Santo Ovídeo, para entregar (com pena de prisão em caso contrário) todas as pinturas e estampas que tinham pertencido ao rebelde João Luís da Silva Souto e Freitas, um miguelista, que tinha visto a sua casa sequestrada e que faleceria, em 14 de Janeiro de 1837.
Porém, a actividade de João B. Ribeiro, leva-o a enriquecer continuamente o acervo do Museu.
Com João B. Ribeiro, trabalham dois funcionários: Francisco Pedro de Oliveira e Sousa (1ª Guarda) e Domingos da Silva (Porteiro), ambos sem vencimento, pelo que abandonariam as suas funções ao fim de dois anos.
Vai ser com a subida ao poder de Passos Manuel que a história do Museu vai acelarar.
Para isso, contribui a publicação do Decreto de 12 de Setembro de 1836, que fixa a remuneração do directoe e dos dois auxiliares.
Ao director, João B. Ribeiro, por ter já um vencimento por ser lente de Desenho na Academia Real da Marinha e Comércio receberá, apenas, uma gratificação simbólica.
As obras sucederam-se nas instalações e o Museu só abrirá ao público em 29 de Junho de 1840, quando João B. Ribeiro já tinha abandonado funções.
Entretanto, já em 1839, o Museu Portuense de Pintura e Estampas, também designado “Ateneu D. Pedro” ou, simplesmente, “Museu Portuense”, tinha visto ser-lhe anexado, a Academia Portuense de Belas Artes. 
Em 1905, recebeu o contributo das peças vindas do Museu Municipal ou Museu Allen ou Museu da Restauração, que tinha sido inaugurado em 11 de Abril de 1852  nas instalações do antigo Museu Allen, na Rua da Restauração, após a aquisição em 1850  pela Câmara do Porto, dos espólios do Museu Allen.
No convento também esteve instalado o Museu Archeologico dirigido por Rocha Peixoto entre 1900 e 1909.





O claustro do convento de Santo António utilizado como museu, In revista “Arte”, 5º ano, 1909 – Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”





Academia Portuense de Belas Artes


A sede da Academia Portuense de Belas Artes situou-se, então, no extinto Convento de Santo António da Cidade juntamente com o Museu Portuense. 



Trecho do discurso do conde de Samodães, em 1869, na 10ª Exposição Trienal de Pinturas




De qualquer modo, algumas das aulas iniciaram o seu funcionamento no edifício da Academia Politécnica, onde permaneceram até à década de 70 do século XIX.
A Academia Portuense de Belas Artes teve existência entre 1836 e 1911, passou depois, por decreto de 26 de Maio de 1911, a Escola de Belas Artes do Porto entre 1881 e 1950 (em 1938 viria a ocupar o vizinho Palacete Braguinha) e, finalmente, foi Escola Superior de Belas Artes do Porto entre 1950 e 1992.
A 12 de Dezembro de 1991, o Senado Universitário aprovou a integração deste estabelecimento na Universidade do Porto, decisão que acabou por dar origem, no ano seguinte, à Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (Despacho n.º 307/ME/92, de 30 de Outubro).



“A primeira tentativa de reforma da Academia Portuense de Belas Artes deu-se em 1881, pelo Decreto de 22 de Março, que pretendeu reforçar a separação entre a Academia e a Escola. Este diploma atribuiu à Academia as funções de promoção da arte e da arqueologia, de realização de exposições, de conservação e restauro de monumentos e de defesa do património museológico, enquanto que a Escola de Belas Artes foi objeto de uma reforma do ensino que ministrava, tendo-se aumentado o número de cursos. Em resultado desta reforma, esta Escola passou a lecionar cursos como o Geral de Desenho, o de Arquitectura Civil, o de Pintura Histórica, o de Pintura da Paisagem, o de Escultura Estatuária, o de Gravura a Talho Doce, o de Gravura em Madeira e também cursos de Belas Artes com aplicação às artes industriais.
A implantação da República trouxe consigo grandes mudanças. As Academias de Belas Artes foram extintas, criando-se conselhos de Arte e Arqueologia em sua substituição. O Museu Portuense que, entretanto, passou a designar-se Museu Soares dos Reis, ficou subordinado ao Conselho da “3.ª Circunscrição”. Apesar destas reestruturações, a Escola de Belas Artes manteve-se ativa, embora com o estatuto de organismo autónomo. A organização interna passou a observar, em traços gerais, a da Escola Académica, que datava de 1881. O ensino repartiu-se por dez cadeiras, constituídas por vários módulos, e por Cursos Especiais (de Escultura, de Pintura e de Arquitectura).
O ensino artístico foi novamente reformado em 1931, pelo Decreto n.º 19.760, de 20 de Maio. Nesta altura constituíram-se Cursos Especiais, de nível elementar, para cada uma das três artes, a cuja frequência se seguia a de um Curso Superior”.
Fonte: “sigarra.up.pt”



Conclusão


“(…) Do lado nascente encontramos a Biblioteca que alberga ainda a Escola Portuense de Belas Artes criada em 1881 (a antiga Academia Portuense de Bellas Artes fundada em 1836 tinha agora funções de promoção das artes), dirigida pelo Inspector da Academia Leopoldo Mourão e onde leccionam entre outros, Marques da Silva e Alves de Sousa.
(…) Também aí está instalado o Museu Archeologico dirigido por Rocha Peixoto entre 1900 e 1909, acrescido em 1905 do Museu Municipal do Porto, em instalação.
(…) Da iniciativa do Centro Artístico Portuense, de que fizeram parte Soares dos Reis, Tomás Soller, José Sardinha e Marque de Oliveira, entre outos, foi projectado um edifício para albergar o Museu Municipal, num terreno adjacente à Biblioteca por José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906), que porém, nunca foi realizado.
(…) No Porto as exposições de artes plásticas, realizam-se em locais tão variados como a casa do Visconde da Trindade, a Sociedade Promotora das Belas Artes em Portugal, o Grémio Artístico, o Instituto Portuense de Estudos, a casa de Fotografia União, o Centro Artístico Portuense, o Ateneu Comercial do Porto e a Santa Casa da Misericórdia do Porto”.
Professor Ricardo Figueiredo, In “doportoenaoso.blogspot.pt”





Biblioteca Pública Municipal do Porto – Ed. “bibliotecas-.blogspot.pt”




Claustro do convento e fonte



Após a vitória dos liberais, demolida a igreja, o aspecto exterior do convento de Santo António da Cidade foi parcialmente mantido, bem como o claustro e o chafariz de 1789. O interior, no entanto, foi objecto de remodelações profundas, com o objetivo de melhor responder à nova ocupação do edifício.
Por diversas ocasiões foi alvitrado ampliar as instalações do edifício. Foi o caso da proposta feita em 1882 que, no entanto, não se concretizaria.



Projecto de ampliação das instalações do convento – In: “A Arte Portugueza” (Revista mensal de Bellas-Artes); Publicada pelo Centro Artistico Portuense, I Anno Março de 1882

 
 
Na gravura acima pode ser observado um projecto para alargamento do convento dos Capuchos em S. Lázaro, respeitante à fachada da Rua da Murta. O projecto era de José Geraldo da Silva Sardinha, e o desenho de Joaquim Augusto Marques Guimarães.
Em 2023, finalmente, foi decidido prolongar a área adjacente às instalações da biblioteca situadas a nascente, confrontando com a Avenida Rodrigues de Freitas e Rua Visconde de Bóbeda.

 
 

Em primeiro plano, à direita, a área que irá ser intervencionada para ampliação das instalações da Biblioteca Municipal da autoria do arquitecto Souto Moura - Fonte: Googlemaps

 
 

Aspecto final da ampliação das instalações da Biblioteca Municipal


segunda-feira, 12 de junho de 2017

(Continuação 4) - Actualização em 07/05/2019 e 20/05/2020

18.6 Jardim de S. Lázaro  ou Jardim Marques de Oliveira

“O Campo de S. Lázaro, até ao terceiro decénio do séc. XIX, oferecia um aspecto de largo de feira com o cruzeiro do Senhor da Consolação e capela. Este em 1869, juntamente com o do Largo do Padrão, foi levado para o cemitério do Bonfim. 
Aí se realizava, desde 1720, a concorrida feira anual de S. Lázaro, desde o Domingo de Lázaro até ao Domingo de Ramos.
Em 1876, dada a exiguidade do espaço foi a feira transferida para o Largo de Mijavelhas, hoje Campo 24 de Agosto, e que aí se conservou até 1896. Desde o ano de 1808 a 1833 juntou-se-lhe a feira de gado suíno que se realizava todas as terças e sábados. Em 1783 os frades Capuchos fundaram, no lado nascente, o Convento de Santo António da Cidade. Em pleno período do cerco, instalou-se lá o Museu Portuense, que em 1911 se veio a chamar Museu Soares dos Reis, que está, desde 1942, no Palácio dos Carrancas. Em 11 de Abril de 1842 foi lá inaugurada a Real Biblioteca Pública do Porto. Por ordem de D. Pedro IV foi o campo transformado em jardim, desenhado por João José Gomes e aberto ao público em 1834.” 
In O Tripeiro Série VI, Ano V



“No dia 20 de agosto de 1718, faleceu, "da vida presente", o padre Manoel de Passos Castro, que morava em Fradelos, na Quinta das Hortas, e que desempenhava o alto car­go de tesoureiro-mor da Colegiada de Cedofeita. Foi sepultado na igreja dos religiosos de Nossa Senhora do Carmo, os Carmelitas.
Deixou indicações aos seus testamenteiros para que depois de satisfeitos todos os seus legados, o re­manescente, aquilo que sobrasse, fosse aplicado "em obras pias e de caridade". 
Quatro anos depois (1722), estava concluída a distribuição dos bens do testador, faltando apenas fazer a apli­cação do remanescente da herança. Um dos testamenteiros foi Dionísio Botelho Pereira d'Almeida, chantre daquela co­legiada, que teve uma ideia; a de que "a obra para Deus mais grata, mais útil para o próximo, mais necessária à cida­de e mais proveitosa para a alma do tes­tador" seria a fundação de um recolhi­mento para órfãs. E assim nasceu o Re­colhimento de Órfãs de Nossa Senhora da Esperança”. 
Com a devida vénia a Germano Silva



Na sequência do texto anterior, se vê como nas­ceu, neste local, o Re­colhimento de Órfãs de Nossa Senhora da Esperança ou Colégio das Órfãs, como também é conhecido, que começou a ser construído em 1724, no sítio da antiga gafaria.
Para os lázaros, a Santa Casa da Misericórdia mandou construir um vasto edifício em terrenos do antigo hospital, mas com fren­te para a Rua das Fontainhas. 
Ostentou o local de S. Lázaro, em tempos, o topónimo de Arrabalde, existindo ainda hoje o Beco do Arrabalde. A Avenida Rodrigues de Freitas que vai ter ao jardim era o Reimão e em frente ao colégio foi a Rua de S. Lázaro.
O topónimo S. Lázaro advém da antiga gafaria medieval aí instalada, desde o início do século XVI, para aqui vinda do local em que hoje está a igreja de S. Nicolau e que acabaria por ser demolida no século XVIII. Os lázaros eram os que tinham a terrível doença da lepra. 
No século XVII ainda o local estava pra­ticamente despovoado, mas, já era deno­minado por Campo de S. Lázaro (antes Largo do Arrabalde), nome que tirara da capela que funcionava junto da leprosaria (gafaria) e que era da invocação da­quele padroeiro, protector contra a terrível doença da lepra.
No Domingo da Paixão, realizava-se na capela da gafaria uma celebração em honra deste santo, pois existia naquela capela, uma imagem sua, toda em prata. Esta imagem passou, em 1662, para a Sé. Aquela capela era redonda e o tecto era coberto com madeira, ao estilo de muitas capelas rurais.
Quando se construiu a capela do “Recolhimento” ou capela do “Colégio das Órfãs”, começada em 1746 e concluída em 1763, a referida imagem foi trazida para aqui.
A Feira de São Lázaro começou a realizar-se a partir de 1720, entre o Domingo de Lázaro até ao Domingo de Ramos e, após 1876, foi para o Campo 24 de Agosto, seguindo, na entrada do século XX, para a Praça da Alegria e Fontainhas, onde ainda se realizava na primeira metade do séc. XX.
Nos dias de hoje, a feira e as festividades associadas continuam, todos os anos, a realizar-se no Jardim de S. Lázaro, sendo das poucas romarias que ainda têm lugar dentro da cidade.


“Ontem, 10 de Abril, foi o primeiro dia da Feira de S. Lázaro.
As barracas estiveram abertas até às 11 da noite e iluminadas a gás”.
In o “Comércio do Porto”, de 11 de Abril de 1859 – 2ª Feira

“Começa hoje a feira de S. Lázaro, em volta do jardim deste nome, estando já concluídas todas as barracas. Ali há de tudo. Bonecas para meninas, armas, espadas, tambores para rapazes, assobios para janotas, etc. Há também o clássico peixe frito e os saborosos doces de Paranhos.
In “O Primeiro de Janeiro”, de 2 de Abril de 1870 - Sábado

Em 1876, já a Feira de S. Lázaro estava no Campo 24 de Agosto, como reza a noticia abaixo.

“Foi ante-ontem o primeiro dia da festa que, este ano, principiou a fazer-se no Campo 24 de Agosto.
As barracas de quinquilharias acham-se situadas do lado da rua do Bonfim e as dos comestíveis ao longo do Campo.
A parte espectaculosa da feira está este ano limitada a duas barracas, uma de bilhar chinês e a outra de vistas de cosmorama”.
In “O Comércio do Porto”, de 4 de Abril de 1876 – 3ª Feira


“Feira de S. Lázaro: começou no domingo a festividade de S. Lázaro no Palácio de Cristal e Campo 24 de Agosto, muito concorrida apesar do mau tempo. No campo 24 de Agosto existem 2 restaurantes, 7 tabernas, uma exposição de figuras de cera e 1 hipódromo mecânico”.
In “Jornal da Manhã”, 16 Março 1880 – 3ª Feira




Em 1896, a Feira de S. Lázaro vai para a Praça da Alegria, conforme a notícia seguinte.


“Abre, no próximo Sábado, 21 de Março, às 5 horas da tarde, a feira de S. Lázaro que, como é sabido, fica a funcionar na Praça da Alegria.
Uma comissão de moradores daquele local promove diversos festejos, que constarão de fogo, embandeiramento e música.
A construção das barracas acha-se bastante adiantada.
Até ontem ficaram marcados os seguintes lugares: 4 para doces, 15 para quinquilharias; 1 para ourivesaria; 19 para comes e bebes e outros tantos para teatros e diversos divertimentos.”
In jornal “A Palavra”, de 18 de Março de 1896 – 4ª Feira


Da Feira de S. Lázaro, no ano de 1899, nos dá conta a notícia seguinte.


“Teatro Dallot na Feira de S. Lázaro: a companhia não é como costumam ser as companhias de feiras, mas sim bem organizada e bastante numerosa. Arroja-se a pôr em cena peças de alguma responsabilidade e saem-se bem do desempenho. Francamente, ao entrar-se neste teatro barracão não se prevê a agradável impressão que se vai receber”.
In jornal “A Democracia Comercial”, de 8 Abril 1899 - Sábado


Em 1902 e 1903, a Feira de S. Lázaro voltaria ao Campo 24 de Agosto e, em 1904, vai para a Alameda das Fontainhas de acordo com as notícias abaixo.

“Uma comissão de feirantes de S. Lázaro realiza hoje, no Campo 24 de Agosto, diversas festividades.
Pelas 4 horas da tarde será lançado um balão enorme, belamente embandeirado, que deixará cair do alto um prémio em dinheiro.”
In “O Primeiro de Janeiro, de 25 de Abril de 1903 – Sábado

“A feira de S. Lázaro, no Passeio das Fontainhas, teve, como sempre, concorrência desmedida.”
In “O Primeiro de Janeiro”, de 22 de Março de 1904 – 3ª Feira



O hospital (gafaria) começou por ser administrado pela Câmara Muni­cipal, mas a partir de 1721 passou para a al­çada administrativa da Santa Casa da Mi­sericórdia do Porto. 
Mais abaixo do hospital ficava a Fonte da Rua das Fontainhas.
A generalidade das pessoas chamava antes ao local, Terreiro ou Campo.
No dia de S. Lázaro aqui se realizavam, então, desde 14 de Agosto de 1720, a Feira de Lázaros em que os seus abarracamentos mais emblemáticos eram os das fazendas, quinquilharias, de comes e bebes, de diversões, mas, sobretudo, os de ourivesaria.
Em 1876 o Terreiro de S. Lázaro era pequeno de mais para o movimento que a feira tinha e a Câmara mudou-a para o amplo espaço de Mijavelhas.
Também por aqui, a partir de 1808, passou a realizar-se no Terreiro às terças-feiras e sábados a feira dos porcos que seria transferida em 14 de Fevereiro de 1833 para a vizinha Praça da Alegria.
Na parte Norte deste largo, onde agora está o Passeio de S. Lázaro, funcionavam, desde do século XVII, pequenas oficinas de oleiros que fabrica­vam louça de barro preto, muito usada pelas classes mais pobres. Uma dessas ofici­nas, a mais antiga, supõe-se, vinha do ano de 1673. 




A Praça de S. Lázaro na Planta Redonda (1813)


“Aí pelo século XIV, uma antiquíssima gafaria (hospital de leprosos) que funcio­nava na Ribeira, foi transferida, "do lugar onde está a ermida de São Nicolau", para um sítio, "além da porta de Cima de Vila, não longe de Mijavelhas".
Esse sítio fica­va na parte sul do atual jardim, onde ago­ra está o Recolhimento de Nossa Senhora da Esperança ou das Órfãs.
A primitiva ga­faria seria, assim, substituída em 1521, por uma outra com melhores acomodações.
(Em 29 de Janeiro de 1559 um documento com esta data refere umas relíquias que a rainha da Boémia terá feito a Joana Serrão e ao seu marido, João Domingues, cavaleiro dos infantes de Castela, para a capela que eles estavam a edificar junto da nova gafaria).
O be­neditino Pereira de Novais, historiador do Porto do século XVII, deu acerca desta nova leprosaria a seguinte opinião: "É uma linda construção com uma boa igre­ja e grande cerca e horta". 
(…) No século XVII ainda o local estava pra­ticamente despovoado, mas já era deno­minado por campo de São Lázaro, nome que tirara da capela que funcionava junto da leprosaria e que era da invocação da­quele padroeiro, protetor contra a terrível doença da lepra. Este hospital começou por ser administrado pela Câmara Muni­cipal, mas a partir de 1721 passou para a al­çada administrativa da Santa Casa da Mi­sericórdia do Porto…
Em 1718, morre em Cedofeita o cónego Manuel de Passos Castro, tesoureiro-mor da Colegiada. Deixa os seus bens à Santa Casa da Misericórdia, incumbindo-a de, com o produto do seu legado, mandar construir um recolhimento para meninas órfãs e pobres de boas famílias.
Inicialmente projectado para a Cordoaria, nasce o Colégio das Órfãs, como também é conhecido, que começou a ser construído em 1724 no sítio da antiga gafaria, mas em S. Lázaro. Para os Lázaros, a Santa Casa da Misericórdia mandou construir um vasto edifício em terrenos do antigo hospital, mas com fren­te para a Rua das Fontainhas. 
No ano de 1757, a Câmara mandou plan­tar choupos e negrilhos no terreiro de São Lázaro com a intenção expressa de criar melhores condições para a feira anual que ali se realizava sob o patrocínio do santo protetor. O mercado começava no domin­go de Lázaro e acabava no domingo de Ra­mos. Esta feira foi mudada, em 1876, de São Lázaro para o Campo 24 de Agosto." 
Com a devida vénia a Germano Silva



Sobre este local da cidade, tem interesse do ponto de vista toponímico e não só, atentar no texto seguinte:





A seguir se representa alguns dos cruzeiros da via-sacra que se dirigia para o Monte de Godim.

O cruzeiro de S. Lázaro do Senhor da Consolação, actualmente no cemitério do Bonfim


7º Cruzeiro

8º Cruzeiro



O Jardim de S. Lázaro foi erigido para homenagear as mulheres do Porto por parte de D. Pedro IV. Em 1833, foi decidido avançar com a sua construção e, em 1834, no aniversário de D. Maria II, foi inaugurado ainda que, por concluir. Foi o primeiro jardim público da cidade.


Jornal "Chronica Constitucional da Cidade do Porto" de 7 de Abril de 1834





O seu traçado é obra de João Baptista Ribeiro (1790–1868), pintor, desenhador, gravador e lente de Desenho, que ficaria conhecido por ter sido director da Academia de Belas Artes e da Academia Politécnica, e um dos fundadores do Museu Portuense. 




“…Neste jardim era proibido que nele entrassem, mendigos, homens com carretos às costas, crianças quando não acompanhadas ou com trajes menos decentes,…”
Eram estas as normas deste local gradeado, que fechava as suas 4 portas, colocadas em cada canto, após o pôr–do–sol e tinha um guarda em permanência.
As portas que davam acesso à actual Rua de Rodrigues de Freitas eram, e ainda são, servidas por escadaria, para vencer o desnível do terreno.
O regulamento citado foi deliberação da Câmara em 1838.




Jardim de S. Lázaro, c. 1910



“Todos sabem, e era matéria afluente nas conversações acerca de diversos recreios, quando se tratava de falar em aformoseamento desta cidade, que o único passeio público que podia merecer esse nome, era a alameda e paredão das Fontainhas; passeio que infelizmente, havendo sido uma das belas projeções de Francisco de Almada, peca no defeito capital da proximidade do matadouro geral, que torna o local incómodo, se não mesmo insadio, tanto pelo cheiro, e imundice, quanto pela asquerosa concorrência dos que traficam nesse modo de vida ainda tão fora de polícia e limpeza corporal em seu manejo; pois que se em algum ramo se conhece o atraso de melhoramentos municipais em comparação com Inglaterra, França, Bélgica e Holanda, que tantos emigrados observaram, é decerto nesta parte de similhantes trabalhos no uso dos misteres necessários ao uso da vida!
(…) Nesta falta de um passeio público digno da segunda capital do reino, enquanto se não leva a efeito o tão apregoado sistema da remoção do matadouro para o Monte Pedral, e dos pelames para diverso local acomodado, era forçoso lançar mão de outro sítio onde se pudesse formar um passeio que no entanto substituísse aquela insuficiência, cuja duração não se sabe aonde poderá ter seu limite.
(…) Tentou pois uma autoridade superior desta cidade, o fazer edificar um jardim em frente da livraria pública, criada por decreto do imortal duque regente, de saudosíssima memória, assim como da Galaria de Pinturas que se fundou com a denominação de Ateneu D. Pedro.
(…) Deu-se pois princípio a esta obra, debaixo da direção do Sr. J. B. Ribeiro, que teve a satisfação de ver no espaço de 3 meses correr água para o espaçoso tanque que se edificou no meio da praça, de que um quarto de configuração se ultimou logo, e de que até hoje, que pouco mais ou menos se contam 7 meses de trabalho, quasi metade está completo, incluindo-se a magnifica escadaria que deve servir de entrada principal do lado da Rua de Entreparedes.
A satisfação que toda a cidade mostrou no andamento desta obra tão popular, manifestou-se desde o princípio na continuada concorrência de todas as famílias do Porto, e de seus habitantes em geral, que todas as tardes, e principalmente nos dias festivos enchem o recinto deste sítio tão aprazível e agradável”.
In “Chronica Constitucional da Cidade do Porto”, de 14 de Outubro de 1834; Fonte: Nuno Cruz admin. do blogue “aportanobre.blogspot.pt”


Um visitante da cidade escreve a propósito do dia 31 de Dezembro de 1843:
 

In “Espaços de Lazer e de Turismo no Noroeste de Portugal”; Luís Saldanha Martins (2004); Ed. Afrontamento, p. 65




Planta do Campo de S. Lázaro e imediações em 1798 – Fonte: Nuno Cruz

Legenda:

A. Largo de S. Lázaro
B. Matadouro
D. Saída da actual Ponte do Infante



“Camilo Castelo Branco viveu próximo desta zona e foi neste jardim que recebeu das mãos de D. Pedro II do Brasil a Comenda da Ordem da Rosa. É um espaço de fisionomia romântica pejado de fontes e estátuas, frondosas árvores e canteiros, além de um pequeno coreto. Destaque especial para o antigo lavatório da sacristia do extinto Convento de São Domingos, em mármore.
O jardim é o único da cidade que ainda está envolvido por um gradeamento. Próximo da Biblioteca Municipal do Porto e da Faculdade de Belas Artes, é muito frequentado por estudantes e reformados”.
Fonte: mapas.infoportugal.pt



Do Largo de S. Lázaro partiria a Rua da Murta (Rua do Mede Vinagre), que faria a ligação ao Poço das Patas, pelo que, em 1858, seria decidida a demolição da capela do antigo convento dos Capuchos.
Daqui, tinha sido decidido desde da segunda década do século XIX, de acordo com o plano de José Francisco de Paiva, fazer uma ligação (em novo alinhamento), à capela de S. Vítor e ao Seminário Maior, sita na Quinta do Prado, o que só viria a acontecer, apenas, no fim daquele século.
Resultou, então, no final, a actual Rua de S. Vítor com a implantação, a meio do seu percurso, da Praça da Alegria.
 
 
 
Praça da Alegria, à margem da Rua de S. Vítor, em 1947





Mais célere correu a abertura da Rua de D. João IV, que começou por ser Rua da Duquesa de Bragança, embora, a empreitada tenha sido executada de Norte para Sul, com início no Largo do Moreira, por dificuldades em executar algumas expropriações e, em 1870, estava ainda por terminar.
Por sua vez, o jardim, ao longo dos anos, seria várias vezes intervencionado.




Rua de S. Lázaro, antes de 1900




Rua de S. Lázaro, no dealbar do século XX




Em 1869, o Jardim de S. Lázaro vai sofrer uma intervenção do arquitecto paisagista Émile David e ser dotado com um coreto.
 
 
 

Jardim de S. Lázaro – Planta de Telles Ferreira de 1892
 
 
 
Como se observa na planta anterior de 1892, mais tarde, o coreto da responsabilidade da Fábrica de Fundição de Massarelos, inaugurado oficialmente em 1873 e funcionando, provisoriamente, desde 1869, (realce na notícia seguinte), seria substituído por um outro.



In jornal "O Comércio do Porto" de 28 de Maio de 1873



Antes, em Abril de 1904, o jardim seria alvo, mais uma vez, de uma intervenção.
Assim, em meados do mês de Abril de 1904, em comunicado municipal, determinava a Câmara do Porto, atendendo à ameaça de ruína do parapeito do jardim, abalado pelo arvoredo que lhe era próximo, que o mesmo fosse reparado:
 
 
“O jardim será alinhado pelo edifício da biblioteca…”
In revista “O Tripeiro”, Vª Série, Ano IX


 
 

Coreto junto ao Champs-Élysées
 
 
 
Acima, uma pintura que, segundo informação do professor Jorge Ricardo Pinto, a Biblioteca Nacional de França identifica como representando um coreto junto aos Champs-Élysées, em Paris, onde decorria o Baile da Mabille, em meados do século XIX.
Possivelmente, o primitivo coreto do Jardim de S. Lázaro se assemelharia a ele.
Em 1911, o coreto primitivo haveria de ser substituído por um outro, da responsabilidade da Fundição do Bolhão, colocado no eixo mediano do jardim.

 

Desenho de projecto para instalação de novo coreto



Para a execução do projecto para instalação do novo coreto foi orçamentada uma verba de novecentos e dezoito mil quatrocentos e sessenta réis.
Na sequência dos arranjos no interior do jardim, a área exterior envolvente também viria a ser intervencionada e, em 1920, a Avenida Rodrigues de Freitas (substituiu, entre a Rua de Entreparedes e o jardim, a Rua de S. Lázaro e, daí, até ao Prado do Repouso, a Rua do Reimão) seria alargada, pelo que se procedeu a novo alinhamento do muro do jardim, a sul.

 

Coreto do Jardim de S. Lázaro, actualmente – Ed. “bucolico-anonimo.blogspot.pt”

 
 
“Até aos anos 60 do século XIX, supõe-se não existirem bancos no jardim de S. Lázaro e a existirem, como alguns textos parecem referir, não se conhece o seu desenho. Acresce que durante os concertos no coreto eram alugadas cadeiras pelo Asilo de Mendicidade”.
Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”

 
Camilo Castelo Branco frequentador do Jardim de S. Lázaro descreve o ambiente num dia de música no coreto.
 
“Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao Jardim de S. Lazaro, e conhece a família da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral- a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniência, e pôde ser até escândalo. Resta lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias : é amoutar-se como fauno por entre as murtas e bosques de acácias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha. No Jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não teem querido dar-lhe ; isto é, uma luxuosa superabundância de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do mármore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com trez dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando. . . executando, sim, é a palavra”.
In, “doportoenaoso.blogspot.pt”

 
Alberto Pimentel descreve os Domingos em S. Lázaro quando o jardim já era frequentado por uma outra classe social.

 
“A única distracção que podia, n'esse tempo, animar os domingos, depois da missa da uma hora na Trindade, era o jardim de S. Lazaro, pequeno, fechado por grades de ferro e ladeado por edificios, que lhe tolhiam a vista. Tocava ahi uma banda regimental, que attraía a concorrência. Às três horas acabava a música no jardim de S. Lazaro. As familias gradas retiravam-se para as suas casas, indo jantar um pouco mais tarde do que o costume. Depois d'essa hora era alli que as criadas de servir ouviam as declarações amorosas dos Martes da guarda municipal, até que, descendo a noute, as criadas recolhiam apressadamente para ir lavar a louça do jantar, que, por concessão obsequiosa dos patrões, tinha ficado encastellada na cozinha”.
In, “doportoenaoso.blogspot.pt”

 
Este jardim deixou de ser frequentado pela gente grada da cidade quando, em 1865, se abriram os novos jardins do Palácio de Cristal. Passou a ser frequentado por soldados, sopeiras, empregados de comércio etc, como nos é narrado no texto anterior.
Na parte oriental do campo de S. Lázaro começou a ser construído, em 1783, o convento dos frades Capuchos de Santo António da Cidade. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, pretendeu-se aproveitar o edifício do convento para nele se instalar o Hospital Militar, por ser um sítio alto, varrido pelos ventos, bom para a saúde. Por causa destas condições naturais do terreno, já antes se havia pensado em fazer nestes sítios o Hospital de Santo António. As instalações dos frades capuchos acabaram por ser aproveitadas para nelas se instalar a Biblioteca Pública Municipal. Nos primeiros tempos, além da biblioteca, também estiveram no mesmo edifício o Museu Municipal e a Academia de Belas Artes.



Convento dos frades Capuchos





S. Lázaro, Academia de Bellas Artes e Bibliotheca Publica – Ed. Emílio Biel 1891 (fototipia 16x21,8cm do Museu Nacional de Soares dos Reis)




Jardim de S. Lázaro ao fundo à esquerda



A foto acima é de 1908 aquando da visita de D. Manuel II.



Fonte no Jardim de S. Lázaro vinda do convento de S. Domingos



Oficialmente, a Câmara deu ao jardim de S. Lázaro o nome de Marques de Oliveira, pintor notável que, apesar de ostentar desde 1929, o bus­to do artista modelado pelo génio de Soa­res dos Reis, popularmente, continua a ser o jardim de S. Lázaro. 



Busto de Marques de Oliveira, pintor e professor - Ed. MAC


O busto na foto acima é da autoria de Soares dos Reis.



Busto de Silva Porto no Jardim de S. Lázaro, de Salvador Barata Feyo - Ed. MAC




Na década de 1910, ocorre a substituição do coreto primitivo, em 1911, conforme atrás foi narrado. O jardim terá um novo traçado dos seus canteiros e, em sequência, o muro a sul virá a ser recuado, poucos anos mais tarde, de acordo com a planta cadastral aprovada em 26 de Dezembro de 1919, correspondente ao projecto de prolongamento da Rua Duque de Loulé e alargamento da Avenida Rodrigues de Freitas, aprovados em 1911-02-23 e 1919-11-22.
Na década de 1930, o Jardim de S. Lázaro sofre uma nova intervenção pela mão de Januário Godinho.






Entrada do jardim pela Praça dos Poveiros



Na foto acima, c. 1950, a árvore, em 1º plano, já não existe.


Tanque central com repuxo