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terça-feira, 9 de maio de 2017

(Continuação 3) - Actualização em 12/07 e 10/10/2019

Fábrica do Monte Cavaco


A iniciativa deste estabelecimento terá partido de Gualter da Piedade Queirós, ex-frade, que teria viajado para o Brasil, em 1818, para recolher a herança de um parente. Ao regressar, terá tomado a decisão de investir numa fábrica de cal e que estaria estabelecida no lugar do Cavaco, lugar onde a sua família possuía terrenos. Em 1824, o padre Gualter Queirós compra um dos terrenos para aí instalar a fábrica de louça sob a designação de António Nicolau de Queiroz & Filho, sendo o primeiro o seu pai. 
Em 1828, António Nicolau de Queirós & Filho, solicita provisão, concedida, em 11 de Julho, daquele ano, perante a qual se verifica que os requerentes eram proprietários de um grande pedaço de terra, junto ao rio Douro e ao antigo cemitério dos ingleses, onde já se tinha iniciado a construção do edifício da fábrica.
Até 1830, a firma continua a designar-se António Nicolau de Queirós & Filho. Em 1852 e 1853, ela já aparece como tendo, por titular, o Padre Gualter Queirós, que estabelece, em Novembro de 1858, uma sociedade com João Nunes da Cunha, sob a firma Cunha & Cia.
A fábrica passa, por desaparecimento do padre, c. 1862, para a posse de Ângelo da Silva Macedo que a manterá até à década de 80.
No final do século, a fábrica já consta como sendo da firma Nunes & Leite, mas, em 1908, já tinha mudado outra vez, de mãos, para a firma António Macedo & Cia. Que, em 1912, haveria de reformar as instalações.
Em 1918, os banqueiros Borges & Irmão, que eram os proprietários do terreno da fábrica, solicitam à Câmara de Gaia a reconstrução do imóvel, que tinha sido alvo de um incêndio.
A Fábrica do Monte Cavaco fabricou sempre louça de fiança e laborou, até meados do século XX, sendo as suas instalações, paralisadas e desafectadas para a construção da Ponte da Arrábida.




Fábrica do Monte Cavaco, a meio da foto, antes da construção da Ponte da Arrábida – Ed. Foto Beleza




Fábrica do Monte Cavaco, junto da Ponte da Arrábida, em construção – Ed. Foto Beleza





Faiança do século XIX, esmalte a azul, com decoração policromada, da Fábrica do Monte Cavaco




Fábrica Cerâmica da Afurada


Esta pequena fábrica apareceu, em 1789, no lugar de Lazareto, na Afurada. Partiu da iniciativa de Joaquim Ribeiro dos Santos, um antigo oficial da Fábrica do Cavaquinho. Sem nunca ter atingido grandes dimensões, o seu funcionamento foi suspenso, durante as Invasões Francesas, tornando a reabrir, em 1830.
Segundo, Joaquim de Vasconcelos e Luís A. Oliveira, nesta fábrica, entre as décadas de 30 e 60 do século XIX, trabalharia, Jerónimo Gomes, um barrista que fazia, além de faiança, figuras de costume, por enchacote (Dar a primeira cozedura à louça que há-de ser vidrada).
Em 1861, o terreno em que se encontrava a fábrica tinha sido vendido por José Augusto Cardoso de Castro a António Nicolau da Silva, residente no Rio de Janeiro.
Novamente com a produção interrompida, por um curto período de tempo, passa para a posse de Albino Maximiano Gomes de Almendra que, em 1867, faz sociedade com Manuel Rodrigues de forma a reativarem a fábrica de louça.
O primeiro, ficaria como sócio capitalista, enquanto, o segundo, seria um profissional, participando com os seus conhecimentos e trabalho, dirigindo, assim, a produção.
Desta forma, Albino de Almendra ficaria com 2/3 dos lucros e Manuel Rodrigues com 1/3. Esta diferença estava também patente na designação da firma, a Almendra & Cª.
Esta tentativa não deve ter tido sucesso pois, em 1866, a fábrica encontra-se fechada e, em 1871, António Nicolau da Silva, passa-a para a posse de João do Rio Júnior, António Rodrigues de Sá Lima, Tomás Nunes da Cunha, Joaquim Nunes da Cunha e Ângelo da Silva Macedo, um grupo onde estavam reunidos os proprietários das principais fábricas de cerâmica do Porto e Vila Nova de Gaia.
Estes proprietários estariam mais interessados em eliminar, definitivamente, este espaço de concorrência, em vez de reativá-lo, vendendo-o logo de imediato, em 1872, a João Henrique Andressen.
A partir deste ponto, não existem, que se saibam, mais pormenores sobre a unidade fabril.
Sabe-se que, já no início do século XX, houve uma nova tentativa para instalar uma outra unidade fabril na Afurada, iniciativa de Manuel Marques Gomes que, em 1914, requer autorização para edificar uma fábrica de produtos cerâmicos, mas desconhece-se qualquer evolução deste processo.


Desenho de projecto de 1914 da fachada da Fábrica Cerâmica da Afurada



O projecto era composto por um edifício de três pisos com naves espaçosas e estrutura leve, seguindo a linha da arquitetura industrial de qualidade à época. Estaria a mais de 300 metros das habitações e junto a um cais no rio Douro, beneficiando das facilidades de transporte.




Fábrica do Carvalhinho


A Fábrica Carvalhinho instalada em terrenos onde tinha estado uma brévia dos padres jesuítas, celebrou o centenário da sua existência, em plena actividade, em 1940, e continuou a laborar, até quase aos nossos dias.
Até 1923, esteve pelas Fontainhas na Quinta da Fraga e, nesse ano, tendo resistido aos desafios da transição do século atingindo, mesmo, um elevado grau de desenvolvimento industrial, a fábrica transfere-se para o sítio do Arco do Prado, em Vila Nova de Gaia.
Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, a Quinta da Fraga, com suas casas e capela, passou para a posse do Estado, que vendeu tudo em hasta pública.
Acabaria, anos mais tarde, nas mãos do sargento-mor Alexandre José da Costa que, em 1806, a tratou de urbanizar.
Em 1821, a denominada Quinta da Fraga estava já na posse de António Joaquim Soares, que a irá arrendar, em parte, para o funcionamento de uma cerâmica.
A fundação da Fábrica do Carvalhinho, na Quinta da Fraga, remonta ao ano de 1840, tendo como sócios fundadores: Thomaz Nunes da Cunha e António Monteiro Catarino, ambos com experiência no campo da cerâmica, tendo sido, o último deles, mestre na fábrica de Santo António de Vale da Piedade ou, segundo outras opiniões, de uma olaria, da Rua da Rasa.
A fábrica evoluiu sob a firma de Thomaz Nunes da Cunha & Cia.
A primeira instalação da fábrica aproveitou as instalações da Capela do Senhor do Carvalhinho (que daria origem ao nome da fábrica), pertencente à Quinta da Fraga, junto à Calçada da Corticeira (esta inicia-se na margem do Douro e termina no passeio das Fontainhas), tendo-se aproveitado, ainda, de alguns barracões existentes junto da ermida.
Em 1848, estava já associada ao depósito de louças de Rocha Soares, da Rua da Esperança, com a gerência a cargo de Thomaz Nunes da Cunha, produzindo, já neste período, louça e azulejo.
Em 1853, a fábrica sofre ampliações que lhe permitem lançar-se, definitivamente, no campo comercial (depósito no Campo dos Mártires da Pátria) o que é comprovado pela encomenda de várias jarras por parte da confraria do Santíssimo Sacramento de S. Nicolau.
Thomaz Nunes da Cunha, na década de 1860, faz obras na fábrica, e toma os destinos dela, para si, passando-a, em 1868, ao seu genro, João Camilo Castro Júnior, já com o edifício dos armazéns e habitação construídos, junto ao rio.



Cerâmica do Carvalhinho, junto ao rio, em imagem editada a partir do calótipo (1860) de Frederick William Flower

 
 
Na imagem anterior, é possível observar junto à marginal, uma série de edifícios, dos quais faziam parte uma habitação e capela anexa, cujo orago era também o Senhor do Carvalhinho, mandada construir por Thomaz Nunes da Cunha.
Aquela capela seria demolida em 1943, aquando da abertura da Avenida Gustavo Eiffel.
Os azulejos que a revestiam tinham sido fabricados na cerâmica que lhe esteve contígua.
 
 
 
 
 

Capela anexa à residência dos proprietários da Cerâmica do Carvalhinho, junto ao rio – Fonte: AHMP

 
 
Assim, no início da década de 1870, Castro Júnior, o genro de Thomaz Nunes da Cunha, sucede-lhe e toma em suas mãos o destino da fase seguinte de fábrica. 
É sob a liderança de João Camilo Castro Júnior, que o Carvalhinho participa, em 1882, na Exposição de Cerâmica da Sociedade de Instrução do Porto, obtendo diploma de mérito em faiança de 2ª classe e na secção de azulejos. 




"Alguns anos depois, João Camilo Castro Júnior dá sociedade a António Neves Dias de Freitas, sendo a firma alterada para Castro Júnior e Dias de Freitas. O filho de António Neves Dias de Freitas, António Augusto, toma a direcção técnica da fábrica.
Em finais de 1899, aquela sociedade é dissolvida, assumindo António Nunes Dias de Freitas o seu activo e passivo.
A. N. Dias de Freitas & Filhos é a nova firma. É com os Dias de Freitas que o Carvalhinho se torna um grande centro cerâmico. Os empresários ampliam as instalações da fábrica, munem-na de operários de competência especializada e notável qualidade e colocam à sua disposição tecnologia apurada; em consequência, a produção cresce em quantidade e qualidade: a fábrica “era vasta, bem montada, vendendo muito e sendo a primeira do Porto por fabricar azulejos para paredes”. É nestas condições que o Carvalhinho participa novamente em exposições cerâmicas onde vê reconhecido o seu mérito: em 1897, na Exposição Industrial Portuense, obtendo novas menções honrosas; e em 1901, na Exposição de Cerâmica do Palácio de Cristal, obtendo Diploma de Medalha de Ouro. No início do século XX, a empresa continuaria a beneficiar da introdução de melhoramentos na produção (a ampliação das instalações e a modernização da parte técnica são requeridos à Câmara em projecto apresentado em 1911, atingindo um alto nível de produção artística e distinguindo-se na produção de “faiança de vidrado estanífero e faiança de vidrado plumbífero”. Estavam assim reunidas as condicções para que o Carvalhinho se tornasse uma das maiores marcas cerâmicas de Portugal. No entanto, isso só viria a acontecer em Gaia, onde António Augusto Pinto Dias de Freitas se preparava para construir um grande complexo fabril que sucedesse à fábrica da Fraga. Em Gaia, a fábrica conheceria o sucesso mas também a morte e o esquecimento.
(…) A escolha recairia na Quinta do Arco do Prado, terreno adquirido à família do Conde das Devesas, à via-férrea, situado a algumas centenas de metros da Estação das Devesas, na Rua José Falcão, n.º1. Em finais de 1922 iniciava-se a construção do novo complexo fabril, segundo modelos de cerâmicas inglesas e alemãs. A nova empresa A. Pinto Dias de Freitas, Lda. dotaria a fábrica de Gaia das mais modernas instalações e tecnologia da época, deixando os artigos de cerâmica de decoração e de construção de ser produzidos segundo métodos tradicionais para passarem a ser fabricados com técnicas e maquinismos mais especializados e modernos, que resultavam numa obra mais perfeita e mais de acordo com a imaginação de uma “segunda geração de cerâmicos” e também de muitos operários que, com o Carvalhinho, cruzaram o Douro.
Consegue-se desta forma aumentar a oferta e incluí na sua produção mosaicos hidráulicos e louça sanitária.
Em 1930 o sócio A. Pinto Dias de Freitas vê-se obrigado a, devido a grandes dificuldades financeiras, associar-se à Real Fábrica de Louça de Sacavém de grande prestígio na época e para onde se transfere a sede da Carvalhinho sob a direcção do Sr. Herbert Gilbert. Nesta fase a fábrica atingiu o que se considerou "a idade de ouro", tendo-se constituído a sociedade anónima Fábrica Cerâmica do Carvalhinho, SARL. 
O centenário da sua existência em plena actividade é celebrado em 1940.
(…) Em 1948, procedeu-se à ampliação das instalações da fábrica, “de forma que melhor possa corresponder ao desenvolvimento atingido pela, sob vários pontos de vista, notável organização que o mesmo [edifício] acolhe”; e num aditamento à empreitada, apresentado à câmara em 1949, foi pedida e autorizada a construção de uma sala de exposição no interior das novas instalações, sinal do orgulho que os seus gerentes sentiam na sua obra. Em 1956, procedem-se a novos investimentos: a cobertura do pavilhão de fornos, em telha marselhesa e assente sobre estrutura de madeira é substituída por uma outra em fibrocimento assente sobre estrutura metálica. Era o início de um projecto de longo prazo que pretendia substituir as coberturas da totalidade das instalações, mas que tinha como finalidades imediatas dotar as instalações de uma cobertura incombustível e duradoura, eliminar a falta de segurança que se verificava na estrutura do pavilhão de fornos e melhorar a mobilidade dentro do mesmo pavilhão (já que também se eliminaram os pilares intermédios aí existentes). Ainda desse ano data a construção de um armazém (que se prolongou até 1959) destinado à arrecadação de vários materiais…
(…) A empresa debater-se-ia com conflitos internos após a morte do seu segundo fundador nos inícios de 1958 e não mais veria gestores da cepa de António Augusto Pinto Dias de Freitas, entrando em decadência a partir de meados da década de 60 e sofrendo uma morte lenta desde o 25 de Abril até ao final do século XX. Assim, o primeiro grande golpe sofrido pela Fábrica do Carvalhinho ocorreu na Epifania de 1958 com a morte de António Augusto Pinto Dias de Freitas. O lugar deixado em aberto foi ocupado por Frederick Warren Sellers (que já ocupava um cargo de gerência pelo menos desde 1953) e António de Almeida Pinto de Freitas (filho de António Augusto Freitas).
Sellers era um homem respeitado e considerado pelos trabalhadores (que o homenagearam em 1964 pelo seu 50º aniversário), mas António Almeida de Freitas indispõe-se com ele e Sellers acabaria por sair em 1965. Neste ano, os dois irmãos Pinto de Freitas (António Almeida e Manuel Almeida) adquiriram à Fábrica de Sacavém a sua parte no capital da empresa – em Abril o Carvalhinho volta para as mãos exclusivas dos Pinto de Freitas – e conseguem incluir a cerâmica na AFA (Acordo de Fabricantes de Azulejos), sendo que já pertencia à UCEL (União Cerâmica Exportadora, Lda.).
(…) A década de 70 foi marcada pelo advento do plástico que determinou o desinteresse do mercado pela cerâmica funcional e artística. Não se pode também esquecer “o condicionalismo industrial que vigorava no Estado Novo, onde o lobby da Vista Alegre impedia a criação de novas fábricas de porcelana. Este material era pretendido pelas cerâmicas do Porto e Gaia para substituir a faiança, que era menos robusta e económica. Mas a oposição da fábrica de Ílhavo impediu a renovação técnica das empresas portuenses e condenou-as à decrepitude face à concorrência do pirex e plástico”. O Carvalhinho passou assim a ser cobiçado por investidores imobiliários que desejavam construir nos estratégicos locais das empresas.
(…) Os capítulos finais do Carvalhinho, enquanto fábrica cerâmica, escrevem-se em Maio de 74 – a fábrica, já numa fase de decadência irreversível, é adquirida em hasta pública por Serafim de Andrade. A nova gerência tentou o impossível: fazer ressurgir o Carvalhinho, mas as intransponíveis condições do mercado interno – que os novos proprietários provavelmente desconheciam – impediram qualquer tipo de ressurreição da fábrica. Três anos volvidos, em 1977, a Fábrica Cerâmica do Carvalhinho encerrava as suas portas, 137 anos após a sua abertura.”
Com a devida vénia a Hugo Silveira Pereira; Fonte: “arquivoweb.cm-gaia.pt”



Como é descrito no texto anterior, após o falecimento do seu gerente, António Augusto Pinto Dias de Freitas, em 6 de Janeiro de 1958, a Cerâmica do Carvalhinho começaria a definhar.
Antes, em 23 de Julho de 1943, aquele reconhecido industrial tinha sido distinguido pelo governo e condecorado com a Ordem de Mérito Industrial.
O lugar de gerente da unidade fabril deixado em aberto foi ocupado por Frederick Warren Sellers (que já ocupava um cargo de gerência, pelo menos desde 1953) e por António de Almeida Pinto de Freitas (filho). 






Ponte Luiz I e capela do Senhor do Carvalhinho à direita da foto nas Fontainhas



Na foto anterior é possível observar no tabuleiro superior da ponte duas estruturas, que serão apoios de cabos destinados a servir os carros eléctricos, cuja montagem foi efectuada em 1909, pelo que a foto será posterior.


Aspecto do tabuleiro superior da ponte Luís I - Cortesia do Engº Manuel Vaz Guedes



Publicidade à Fábrica Cerâmica do Carvalhinho, c. 1910





Instalações do Carvalhinho, em V. N. de Gaia



A Fábrica do Carvalhinho, ao abandono, em V. N. de Gaia



Gomil em faiança do Carvalhinho



Garrafa do Carvalhinho



Painel de azulejos da Carvalhinho – Fonte: mfls.blogs.sapo.pt



Na gravura acima, está um painel de azulejos da Fábrica do Carvalhinho, alusivo ao episódio bíblico da Boa Samaritana, instalado numa fonte de Vidago.



Azulejo do Carvalhinho



Painéis de azulejos da Fábrica Cerâmica do Carvalhinho, de 1906, assinados pelo pintor  Carlos Branco e pelo desenhador Silvestre Silvestri, no edifício da antiga Papelaria Araújo & Sobrinho, no Largo de S. Domingos



Fábrica de Cerâmica do Senhor d'Além (Vila Nova de Gaia)



Embora situada em V. N. de Gaia, esta unidade industrial está muito ligada à história do Porto. As ruínas deste edifício localizam-se na margem do rio Douro, na base da escarpa da Serra do Pilar, junto a um antigo cais e à capela do Senhor de Além, no antigo caminho de Quebrantões. Actualmente, o melhor acesso pedonal faz-se pela Rua Cabo Simão.
O edifício, situado junto da pequena ermida, muito mais antiga, possui uma longa história de ocupação, primeiro, como hospício no século XVIII (Carmelitas Calçados), não sendo de excluir que a sua ocupação, remonte a época anterior. 
De meados do século XIX, até aos anos 20 do século XX, serviu de instalações da Fábrica de Cerâmica do Senhor do Além. 
 
 
 

Capela do Senhor de Além, com as Fontainhas em fundo
 
 
 
Após o fecho da fábrica, nos anos 20 do século passado, o edifício entrou em lenta degradação, até aos dias de hoje, não tendo sofrido nenhuma ocupação, posterior. Por esse motivo, os vestígios da fábrica chegaram até aos nossos dias, sob o ponto de vista arqueológico, perfeitamente preservados.
 
 
 

O edifício do antigo hospício, em 1849, que alojaria a cerâmica – Ed. Frederick Flower

 
 

Instalações antes do incêndio – Autor desconhecido

 
 
“Em 1739, fundou-se o hospício dos Carmelitas Calçados, que aqui residiram até à extinção das ordens religiosas e à expropriação do edifício. Em 1844, foi vendido em hasta pública e, entre 1856 e 1861, instalou-se aqui uma fábrica de cerâmica, que seria sucessivamente ampliada.
(…) A Fábrica de Cerâmica do Senhor d’ Além produziu louça doméstica de uso comum, azulejos e peças decorativas.
Chegou até nós com uma imagem de produção de fraca qualidade, mas nem sempre foi assim. Podemos distinguir pelo menos três fases de produção:
- a primeira, desde a fundação (1856-1861) até 1905, marcada, sobretudo, no final do séc. XIX, por uma imagem de fraca qualidade e decadência;
- a segunda, de 1906 a 1911 – em que a firma se denominou Barbosa, Branco & Ca. - que ficou conhecida por uma produção de grande qualidade, em que as peças eram assinadas e em que laboraram importantes artistas;
- a terceira (de 1916 aos anos 20), em que a direção da fábrica pertenceu a um ex-sócio da fábrica das Devezas - José Pereira Valente Júnior - e da qual pouco sabemos. A esta última fase deverá corresponder grande parte do espólio recolhido nesta intervenção.
Após um incêndio nos anos 20, a fábrica encerrou e o edifício entrou em lenta degradação, não tendo sofrido nenhuma ocupação posterior. Por esse motivo, os vestígios da fábrica chegaram até aos nossos dias, sob o ponto de vista arqueológico, perfeitamente preservados”.
Cortesia de Maria Teresa Mendes da Silva; Licenciada em História (Arqueologia, Pós-graduação em Museologia), F. L. U. do Porto



Ruínas da Fábrica do Senhor d’Além - Ed. Monumentos Desaparecidos



Outras cerâmicas no Porto de oitocentos


Fábrica Nova do Arnaud


“A Fábrica Nova do Arnaud foi fundada por Clementina Vieira da Rocha e Álvaro Arnaud, seu marido, em 1892 depois de terem entregado em arrendamento a Fábrica de Massarelos. Estava igualmente situada na Rua da Restauração e perto da igreja paroquial, sendo contudo de dimensões mais reduzidas. Duraria apenas três anos, suspendendo a laboração ao mesmo tempo que a de Massarelos (que esteve encerrada entre 1895 e 1900)”.
Fonte: “reflexosdoporto.wixsite.com”



Fábrica da Rua do Sol


“A Fábrica da Rua do Sol, de louça e cal, foi fundada em inícios da década de 30 do século XIX na cidade do Porto. Data de 1838 um primeiro contrato, levado a efeito entre pai, António Luís Alves Viana, e filho, José Luís Alves Viana, que com ele morava e ajudava na elaboração. Este documento assinala duas fábricas, uma de cal e outra de olaria estacionadas na rua do Sol. A fábrica esteve posteriormente arrendada a José Luís Alves Viana, concebendo-se, em 1876, uma nova sociedade entre Lino Soares Guedes e José Lino Soares Guedes para explorar os três fornos de que dispunha. Esta parceria designar-se-ia então de Soares Guedes & Cª. Terá encerrado no início da década de 80, do século XIX, com a dissolução da sociedade que se dedicava ao fabrico de cal, louça e gesso”.
Fonte: “reflexosdoporto.wixsite.com”



Fábrica de Entre Quintas


“Laborando a partir de 1855, a pequena Fábrica de Entre Quinta foi fundada por Guilherme de Sousa Reis e existiu na Quinta do Passadiço, perto da Rua da Restauração. Foi destruída por um incêndio em 1857., produzindo louça de pó de pedra, grés e porcelana e sendo mencionada nos almanaques da cidade anteriores a 1864”.​
Fonte: “reflexosdoporto.wixsite.com”



Fábrica do Alto da Fontinha


“A Fábrica do Alto da Fontinha, também conhecida como Fábrica do Bairro Alto, estava situada na Rua das Musas e era constituída por barracões em madeira. Foi iniciada em 1837 por Manuel Joaquim Gonçalves & Irmão, tendo laborado efetivamente entre 1844 e 1860. No ano de 1845 era uma das fábricas que fazia parte do depósito de louças da Rua da Esperança. Em 1854 pertence a Joaquim Maria de Carvalho que contrata um oficial de Miragaia. Neste mesmo ano constitui sociedade com António Martins Laginha, ficando o primeiro a gerir a produção e o segundo a administração das vendas”.
Fonte: “reflexosdoporto.wixsite.com”



Localização de algumas cerâmicas



Localização de cerâmicas à beira-rio

Legenda:

1. Carvalhinho (Fontainhas)
2. Carvalhinho (V. N. de Gaia)
3. Miragaia
4. Massarelos
5. Senhor d’Além
6. Massarelos (Rego do Lameiro)
7. Palhacinhas
8. Entre-Quintas
9. Santo António de Vale da Piedade
10. Fervença
11. Cavaco
12. Afurada
19. Cavaquinho

segunda-feira, 8 de maio de 2017

(Continuação 2) - Actualização em 06/09/2019 e 23/10/2020

Cerâmicas à beira-rio



Massarelos com vista para a barra do rio



Na foto acima as chaminés são da Cerâmica de Massarelos.
As chaminés e os respectivos fornos (visíveis) foram construídos em 1901. Mais à direita, junto da igreja do Corpo Santo de Massarelos (de que se notam as torres sineiras), com entrada pela Rua da Restauração nº 34, esteve a Fábrica do Corpo Santo de Moagem de Trigo a Vapor.
Nas traseiras da igreja Matriz de Massarelos, junto ao rio, o local é conhecido por Cais das Pedras.
Em frente a Massarelos, já na margem esquerda do rio Douro, fica o Cavaco e, mais a montante, Vale da Piedade.
Ora, é neste cenário, que aqui encontramos, no séc. XVIII, a Fábrica de Louça de Massarelos/ Fábrica de Cerâmica de Massarelos fundada em 1766, entre a Rua de Monchique e a Rua da Restauração.
Esta fábrica foi fundada por Manuel Duarte Silva, em 1766 e, em 1774, está instalada em Massarelos.
Em 1829, é alvo de um incêndio e, em 1830, ocorre um litígio entre Manuel Duarte Silva (à altura falido e terceiro proprietário da unidade), e José António Cruz que lhe contestava a posse, mas que perdeu a causa. Entretanto, o projecto da abertura da Rua da Restauração que, desde 1826, estava em marcha, para além daquele incêndio e do conflito, narrados, colocou em causa a sobrevivência da fábrica, naquele local. 
No início da década de 1830, a fábrica estava já na total posse da família de Manuel Duarte Silva, sendo explorada pelos seus filhos, sob a firma, “Silva Guimarães e Irmãs”.





“Na década de 40 do século XIX, um destes herdeiros cede a fábrica ao seu tio por afinidade, João da Rocha e Sousa.
Este, morre em 1870, entrando a fábrica num novo clima de instabilidade passando a ser gerida, a partir de 1873, pela firma “Sá Lima e Irmão”, sendo sob a sua gerência que surge, no inventário de 1877, a produção de azulejos. Esta sociedade é dissolvida em 1878 e, apenas, João da Rocha e Sousa Lima fica em Massarelos. A fábrica aparece como sendo sua propriedade no Inquérito Industrial de 1881. Com uma nova designação a partir de 1884, a “Fábrica de Louça de Massarelos a Vapor” obtém uma máquina a vapor vinda de França, fornos, filtrador mecânico, moinhos para vidro e dois balancés para azulejo. É construída também, em 1886, a fachada voltada ao rio. 
No Inquérito Industrial de 1890 a Fábrica de Massarelos pertence já à viúva de João da Rocha e Sousa Lima e ao seu segundo marido, Álvaro Arnaud, e é conhecida por Clementina Vieira C. de Lima de Arnaud & Sucessores. Entre 1892 e 1895 é arrendada por Francisco Ferreira Rebelo, fechando nesse ultimo ano. Encerrando a sua produção entre 1895-1900, reabre e entra na derradeira etapa da sua exploração. É alugada por João Regis de Lima, da capital, que a trespassa em 1901 a William MacLaren e a sua sociedade, tendo este sido mestre da Fábrica de Sacavém. A partir de 1904, com uma sociedade por quotas, o investimento de capital inglês permite à unidade fabril conhecer um período estável. William MacLaren trazia a experiência de Sacavém e, já com a designação de Empresa Cerâmica Portuense Ld.ª, a fábrica especializou-se na produção de azulejos relevados. Nesta época a empresa tinha uma estrutura bipolar pois, além da própria fábrica, ainda na Rua da Restauração, havia um outro núcleo fabril na Quinta do Roriz, perto da Ponte D. Maria Pia, onde tinha a sua sede e onde habitava MacLaren. A Empresa Cerâmica Portuense Ld.ª é dissolvida em 1912 e logo nesse mesmo ano cede lugar a uma nova sociedade. Os sócios são agora Archibald James Wall, juntamente com a mulher, e Charles F. Chambers e o filho, tendo o nome de Chambers & Wall”. 
Em 1920 o edifício da Fábrica de Massarelos na Rua da Restauração é destruído por um incêndio. A partir desta data restava apenas o prestígio da marca Massarelos-Porto e que continuaria a ser utilizado pela unidade da Quinta do Roriz. Esta fábrica teve de sofrer algumas alterações de forma a poder produzir louça, incidindo estas na construção de fornos e na ampliação das oficinas. Em 1936 é vendida à Companhia das Fábricas Cerâmica Lusitânia SARL, uma empresa lisboeta que tinha já em sua posse diversas unidades fabris”.
Fonte: “reflexosdoporto.wixsite.com”





Fábrica de Massarelos segundo planta de 1826



Em 1904, a Fábrica de Massarelos tinha mudado a sua designação para "Empresa Cerâmica Portuense, Lda", a qual realiza novas obras de ampliação em 1910, acrescentando um novo andar ao corpo principal.




Terrina de decoração Cedro e marca da sociedade Chambers & Wall (1912-1936) – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”



Fábrica Cerâmica de Massarelos, em Massarelos– (Ed. desconhecido)



Outra perspectiva da Fábrica Cerâmica de Massarelos, em Massarelos– (Ed. desconhecido)





Na década de 30, instalar-se-ia, por aqui, em Massarelos, em área preparada para o efeito, uma refinaria mecânica de açúcar, a “Maurício Macedo & Faustino”, a qual viria a ser, em 1962, a líder de um grupo de nove empresas do sector, que dariam origem à RAR (Refinarias de Açúcar Reunidas) que, em 1967, montaram a sua sede na Rua Manuel Pinto de Azevedo.
Já no século XXI, o complexo fabril de Massarelos que estaria anos ao abandono, foi convertido num empreendimento imobiliário.




Vista das ruínas das instalações do que foi uma cerâmica e uma refinaria de açúcar




A Fábrica de Cerâmica de Massarelos transformada em complexo habitacional… sobrou a chaminé



Em Quebrantões do Norte, para os lados de Campanhã, existia a Quinta de Roriz ocupando, se assim se pode dizer, a parte sobrante da Quinta do Prado, onde agora está o cemitério do Prado do Repouso e que, antes da construção deste pertencia ao bispo.
Aqueles terrenos que, desde a Quinta do Prado se desdobravam em socalcos até ao rio Douro, foram postos à venda, em hasta pública, tendo sido comprados pelo brasileiro de torna viagem José Joaquim Leite Guimarães, a quem o rei D. Luís deu o título de barão de Nova Sintra, em Novembro de 1863.
Com a morte deste titular, a propriedade foi de novo posta à venda, tendo sido adquirida, em 1870, pelo banqueiro José Inácio Ferreira Roriz, que nela instalou duas fábricas, uma Fábrica de Moagem e a uma Fábrica de Sabão. 
O banqueiro, cujo estabelecimento bancário funcionava na Rua das Flores, faliu estrondosamente em 1876. Os seus bens foram leiloados e a Quinta de Roriz, depois de ter passado por vários proprietários, foi comprada, em Maio de 1904, pela Empresa Cerâmica Portuense, proprietária da Fábrica de Louça de Massarelos, que ali instalou um dos seus núcleos industriais para o fabrico de tubos de grés e de louça sanitária.





Fábrica Chambers & Wall” em Quebrantões Norte – Fonte: “portoarc.blog”




Na foto acima, c. 1930,  observam-se as instalações da “Fábrica de Louça de Massarelos” que, desde 1912, aqui tinha um polo de produção e que, a partir de 1920,  produzia em exclusivo, nestes terrenos pertencentes à Quinta do Roriz, em Quebrantões do Norte, na margem direita do rio Douro e situados na Freguesia do Bonfim, que o foi, apenas a partir de 1841, quando aquela freguesia foi criada por decreto de Costa Cabral.
Em 1922, a firma “Chambers & Wall”, sita na Quinta de Roriz, solicita à Câmara para, em Quebrantões do Norte, ser autorizada uma ampliação das suas instalações fabris.
Porém, em 1933, a sociedade “Chambers & Wall” desfez-se. Em sequência, o património existente foi vendido à Companhia das Fábricas de Cerâmica Lusitânia, sob cujo nome continuou a laborar até meados da década de 1970, quando, a Lusitânia ou Lufapo, como também era conhecida, entrou em liquidação tendo, nessa ocasião, o património imobiliário, compreendendo os terrenos e os prédios existentes, sido comprado pela firma "Proparede, Lda." que, anos depois, o vendeu à firma "Vinhos Paizinho, Lda", da Rua do Freixo.




Na margem direita do rio Douro, a Fábrica Chambers & Wall”, c. 1920



Muito perto da ponte S. João, ainda se podem ver dois dos fornos dessa unidade industrial, no que é hoje, a Avenida Paiva Couceiro.




Duas chaminés dos fornos junto da Avenida Paiva Couceiro




No Museu do Azulejo, no Palácio Balsemão, dezenas de peças de cerâmica traçam a história da Fábrica de Massarelos, que encerrou definitivamente a sua actividade em 1936, após um novo incêndio que a destruiu.
Aquando da reconversão do que restava da refinaria de açúcar, que se estabeleceu durante anos no que eram as ruínas da Fábrica de Louça de Massarelos, num empreendimento imobiliário, foi possível proceder a um trabalho de pesquisa arqueológico, que possibilita hoje, a exposição de algum do material recolhido, no Palacete dos viscondes de Balsemão, à Praça Carlos Alberto, no chamado “Banco de Materiais”.



“Por debaixo dos escombros da refinaria, foi ainda encontrado um espólio impressionante de peças, cacos, moldes, desenhos e utensílios utilizados pela Fábrica de Cerâmica de Massarelos, espólio que ascende a um milhão de peças de um período compreendido entre a segunda metade do século XVIII e os inícios do século XX. Este material foi recolhido em cinco mil sacos para um armazém cedido pelo grupo RAR e aí limpo, tratado e catalogado de forma a poder ser estudado de acordo com a metodologia definida e, posteriormente, embalado e acondicionado para ser “digamos doado” ao Gabinete de Arqueologia Urbana da Câmara do Porto, que apoiou o projecto com uma redução da taxa de licenciamento e construção”.
Filinto Melo, In o jornal “O Primeiro de Janeiro” de 06/06/2005




Painel de azulejos da Fábrica de Louça de Massarelos, com fabrico de finais do século XIX, exposto no Palacete dos viscondes de Balsemão – Ed. JPortojo








A Cerâmica de Santo António de Vale da Piedade foi fundada em 1784 pelo Genovês Jerónimo Rossi, vice-cônsul da Sardenha no Porto, na quinta de Vale Piedade em Vila Nova de Gaia, e teve um período inicial de grande desenvolvimento industrial ficando como baluarte no fabrico nacional de faiança relevada, em concorrência com a louça inglesa. 
Competiu no fabrico de azulejos, com a Fábrica do Cavaquinho e, na modelação de peças de faiança, com a de Miragaia. 
O esmalte utilizado por esta fábrica é bem distinto do das fábricas congéneres e a ornamentação em relevo só foi ultrapassada, mais tarde, pela que realizou a Fábrica A. A. Costa e C.a das Devesas
Rossi exportava bastante para a América tendo, como os demais, sofrido um importante golpe com as perturbações causadas pelas invasões francesas e pela posterior abertura dos mercados nacional e ultramarino aos produtos ingleses. 
Em 1814, encontra-se em meia decadência e acaba por falecer, e ser sepultado no Porto.
Em 1821, as suas filhas continuam a explorar a fábrica e pedem renovação do alvará, obtendo-o em 1825.



“Joana Rossi, terceira filha de Jerónimo Rossi e D. Teodora Maria Fontana nasceu no Porto, em Outubro de 1777, e foi batizada na Igreja de São Nicolau. Como filha solteira mais velha encabeçou a gerência da fábrica, que passou a assumir, após a morte de seu pai, em Novembro de 1821.
A partir de Janeiro de 1830, D. Joana arrendou a fábrica a diversos industriais, a saber:
Francisco de Sousa Galvão (1830), Francisco da Rocha Soares (Filho), e seu primo, João da Rocha e Sousa da fábrica de louça de Miragaia (entre 1830 e 1835) e Bonifácio José de Faria e Costa e João de Araújo Lima (entre 1835 e 1840).
Francisco de Sousa Galvão, caixeiro da fábrica de louça de Miragaia, pelo menos desde 1816, pois data de 14 de Setembro desse ano a sua matrícula profissional atestada pelo proprietário daquela, Francisco da Rocha Soares (Pai) arrendou a de Vale de Piedade em Janeiro de 1830), mas pouco tempo aguentou a sua gerência, trespassando o contrato de arrendamento meio ano depois para os seus fiadores, Francisco da Rocha Soares (Filho) e primo deste, João da Rocha e Sousa.
Joana Rossi manteve-se sua proprietária, conjuntamente com as cinco irmãs solteiras, até Novembro de 1835, altura em que a vendeu ao seu sobrinho por afinidade Joaquim Augusto Kopke, continuando a vigorar os contractos de arrendamento à data.
Nesta altura morava em Viana do Castelo (villa de Vianna do Minho), onde julgamos que veio a falecer, solteira e sem deixar descendentes, cerca de 1853”.
(…) Bonifácio José de Faria arrendatário com João de Araújo Lima da fábrica de Vale de Piedade, entre 1835 e 1840 (…), após o seu falecimento, no primeiro semestre desse ano, a gestão do estabelecimento passou a ser assegurada em exclusivo pelo sócio sobrevivente.
Pedro Vitorino descreve Bonifácio como um brasileiro, fundador da fábrica das Palhacinhas, (Rua Cândido dos Reis) também em Vila Nova de Gaia, dizendo-se que aí habitava em 1837.
Com a morte de Bonifácio, em 1840, Araújo Lima passou a administrar a fábrica sozinho, adquirindo-a ao Barão de Massarelos em Agosto de 1846.
Com a devida vénia a Laura Cristina Peixoto de Sousa, In Mestrado em Arqueologia da U. Porto, 2013




Em 1846, a fábrica encontra-se na posse de João de Araújo Lima, (que a comprou ao barão de Massarelos) um dos industriais mais dinâmicos da sua época, fundador da Associação Industrial Portuense, e acolhe muitos operários especializados que iam deixando a unidade congénere de Miragaia. 
Em 25 de Julho de 1847, declara-se um fogo na unidade fabril, que o povo dizia ter sido ateado pelo proprietário, João de Araújo Lima. Este, quatro dias depois, viria a terreiro desmentir, reforçando a argumentação que, não tendo seguro, arcaria com todo o prejuízo.


"Ontem às duas horas da tarde deram as Torres sinal de incêndio; foi em uma fábrica de loiça junto ao convento que foi de Vale da Piedade; apesar dos auxílios houve bastante prejuízo, sendo esta a 3ª vez que há fogo naquelas cas.
Apresentaram-se logo S. Exª o general Barão de Almofala, Comandante da 3ª Divisão, Major da Praça e Tropa Espanhola e Portuguesa."
Boletim Oficial, nº 21, em 26 de Julho de 1847


Posteriormente à morte de Araújo Lima (1861), já sob a direcção de João do Rio junior, irmão de um cunhado do 1º matrimónio de Araújo Lima, introduziram-se modificações que levaram à produção de peças de ornamentação em relevo para interiores e exteriores. 
João do Rio Júnior adquiriu a fábrica de louça de Vale de Piedade, juntamente com o seu irmão, José Lopes dos Rios, à viúva e ao pai de Araújo Lima, em Outubro de 1861, já a gerindo, pelo menos, desde Maio do mesmo ano.
Depois de vários arrendamentos, ardeu na noite de 1 para 2 de Julho de 1886, indo alguns dos seus operários para as Caldas, por iniciativa de Feliciano Bordalo Pinheiro. Foi um ano depois adquirida e reconstruída por António José da Silva, entrando assim em nova fase de laboração. 
Continuou a renovar-se e a laborar até cerca de 1930.
Nesta fábrica trabalhou Soares dos Reis, onde realizou algumas das suas melhores obras. 



Local da fábrica de louça de Santo António do Vale da Piedade



Possivelmente a fábrica ocuparia a área de implantação do edifício mais alto em ruínas da foto acima.



Edifício em ruínas que terá servido a Fábrica de Cerâmica de Santo António de Vale da Piedade




Peças da cerâmica de Santo António de Vale da Piedade que estão no Museu Soares dos Reis


Vaso da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, à entrada da igreja das Almas do Corpo Santo de Massarelos – Ed. Graça Correia





A Fábrica do Cavaco e a Fábrica do Cavaquinho, embora localizadas em V. N. de Gaia, têm merecido grande atenção por parte dos estudiosos sendo aceite que se trata de duas unidades, a mais antiga dedicada ao fabrico de faiança e uma segunda, mais moderna, que iniciou e desenvolveu o fabrico da louça de pó de pedra em Portugal, à moda Inglesa. A sua história está, porém, indissociavelmente ligada entre elas e à cidade do Porto, embora apareçam peças de faiança com marcas bem distintas.
Houve duas fábricas na Quinta de Vale de Amores, ambas pertencentes à mesma sociedade. A primeira em 1780 e fabricava louça de faiança e era conhecida por Fábrica do Cavaco.
Foi gerente e fundador desta fábrica João Bernardo Guedes, o segundo marido da proprietária dos terrenos de implantação da unidade industrial, Joana Eufrásia Mesquita.
A sociedade desta fábrica devido a problemas de falta de capitais seria sucessivamente alargada a outros sócios.
João Bernardo Guedes e um outro sócio, Diogo José de Araújo convencem Domingos Vandelli, que tinha já criado uma fábrica de porcelana em Coimbra, a entrar num projecto duma nova fábrica de louça de pó de pedra, perto do local da existente Fábrica do Cavaco.
Seria assim construída, uma segunda fábrica, mais moderna, com alvará desde 1787, que acabou por se juntar à já existente, e que fabricava louça de pó pedra, à moda inglesa, de qualidade superior e que, entre 1793 e 1808, exportava uma parte da produção para o Brasil.
Era a Fábrica do Cavaquinho, agora em produção conjunta com a que lhe antecedeu.
A Fábrica do Cavaquinho mereceu aprovação real de Sua Majestade dada a perfeição da sua louça e exportou bastante para o Brasil, durante o seu período áureo.
Contudo a concorrência inglesa e as invasões francesas obrigam ao seu encerramento entre 1808 e 1817. Em 1826 vendem apenas para o mercado interno.
Durante os anos 30 a empresa passa por graves problemas financeiros e é sucessivamente arrendada acabando nas mãos do conde de Sarmento que a herdou, e em 1858 a vende a um industrial do ramo, Joaquim Nunes da Cunha que tinha acabado de ver a sua fábrica de Fervença desmantelada para os seus terrenos passarem a fazer parte do acesso à ponte sobre o Douro. A fábrica da Fervença tinha sido fundada por aquele industrial junto à cerca do convento da serra do Pilar no sítio da Mesquita c. de 1826, em terreno arrendado.
Este proprietário em 1881 ainda explora a fábrica do Cavaquinho mas, tendo falecido pouco tempo depois, sucede-lhe à frente do negócio a viúva e filho, em 1884, sob a firma Margarida Rosa Nunes & Filho, dissolvida em 1889. Na sequência a viúva assume as dívidas e passivo da firma dissolvida e sob a nova firma Viúva de Joaquim Nunes e Cunha.
Os terrenos da fábrica e propriedade entram, porém, em processo judicial de inventário e acaba depois de uma venda nas mãos de Alberto Almeida Lucas, em 21 de Janeiro de 1897. No fim do século é detida pelos seus filhos sob a firma Luís Nunes da Cunha & Cia.
Encerra no fim do século XIX e as suas instalações passam a albergar outras indústrias.




Fábrica do Cavaquinho e Fábrica do Cavaco


Prédio implantado em terrenos que foram da Cerâmica do Cavaco



O prédio observado na foto acima, foi mandado construir na Quinta de Vale de Amores, por Primo Monteiro Madeira, que foi também o proprietário do palacete da Rua do Campo Alegre onde se instalaria o Centro Universitário do Porto.



A Fábrica de Louças de Miragaia foi fundada em 1775 por Francisco da Rocha Soares (comerciante emigrado na Baía onde fez fortuna) e seu sobrinho João da Rocha e Sousa, naturais de Sabadim, Arcos de Valdevez, debaixo da direcção do Mestre Sebastião Lopes Gavicho. Com estes homens inicia-se uma verdadeira "dinastia" de industriais cerâmicos - os "Rocha de Miragaia" - que introduziram inovações como a produção de louça em formas (1827-1830) e chegaram mesmo a explorar, em determinados momentos, as fábricas concorrentes: Massarelos (1819-1845), Santo António de Vale da Piedade (1830-1834) e a do Cavaquinho (a partir de 1845). A fábrica ocupava uma área bastante extensa como se pode ver na gravura. Situava-se na Rua da Esperança, contígua à Igreja de S. Pedro de Miragaia e esteve em laboração durante 77 anos, tendo a sua actividade sido interrompida apenas durante as invasões francesas e, posteriormente, no período das lutas liberais”.
In “portoarc.blogspot”



“Francisco da Rocha Soares, era filho do proprietário, fundador e gerente da fábrica de louça de Miragaia, seu homónimo. Nasceu a 24 de Janeiro de 1806 e faleceu a 20 de Março de 1857. Após a morte do pai, em 1829, portanto com 23 anos, assumiu a gerência daquela manufatura.
Administrou a fábrica de Vale de Piedade entre 1830 e 1834, com o seu primo, João da Rocha e Sousa, por terem sido fiadores de Francisco de Sousa Galvão, que não cumpriu o prazo do contrato de arrendamento
A agitada vida de Francisco da Rocha Soares (Filho), com envolvimento na política (liberal) e investimentos e atitudes imprudentes, chegando a ser preso, levou à falência e ao encerramento definitivo da fábrica de Miragaia”.
Com a devida vénia a Laura Cristina Peixoto de Sousa, In Mestrado em Arqueologia da U. Porto, 2013




Fábrica de Louça de Miragaia



A fábrica foi fundada num terreno em socalcos à margem da Calçada da Esperança, mais tarde Rua da Esperança e que hoje é a Rua Tomás Gonzaga.
Tendo obtido, Francisco da Rocha Soares (Filho), o controlo do mercado da louça na cidade, não só por ter tomado conta das principais fábricas concorrentes como por, entre 1845/48 ter congregado as demais em uma única organização, quando foi estabelecido um depósito de venda de louça, na Rua da Esperança, com a participação das fábricas do Carvalhinho, Fervença, Fontinha, Monte Cavaco e Vale Piedade. 
O último período de vida da empresa, referente aos anos entre 1840 e 1852 culmina com a falência e encerramento da fábrica devido, entre outros factos, ao envolvimento político de Francisco Rocha Soares filho, liberal militante, na Guerra Civil.
Já depois das lutas liberais foi retomada a laboração, tendo a fábrica recebido a visita do Rei D. Fernando e, entregue a Francisco Rocha Soares, à data, o hábito de Cristo.
Encerrou definitivamente em 1852.
Francisco da Rocha Soares (filho), acima mencionado foi, para além de comerciante e industrial ligado à indústria da cerâmica, oficial do exército e presidente da Câmara do Porto, entre 30 de Dezembro de 1835 e 6 de Fevereiro de 1836.
Voltaria à presidência da edilidade, entre 1 de Janeiro de 1840 e 8 de Agosto de 1840.
Exerceu ainda as funções de fiscal dos trabalhos de construção da ponte pênsil, nos primeiros anos da década de 1840.
O seu nome haveria de ficar ligado, também, à toponímia da cidade, no Bairro de Miragaia.

 
 

Placa toponímica



Fábrica de Louças de Miragaia



Na zona dos prédios assinalados pela oval, na foto anterior, estava a Fábrica de Louças de Miragaia, logo atrás da igreja de S. Pedro de Miragaia.
O nome da rua onde esteve localizada a fábrica, homenageia António Tomás Gonzaga nascido em Miragaia.



À direita da foto na primeira casa, nasceu António Tomás Gonzaga




Placa na casa onde nasceu o poeta



“Tomás António Gonzaga (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político participante da Inconfidência Mineira, movimento pela independência de Minas Gerais, precursor do processo que conduziu à separação do Brasil de Portugal. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades, é ainda hoje estudado em escolas e universidades por seu "Marília de Dirceu".
Órfão de mãe no primeiro ano de vida, mudou-se com o pai, magistrado brasileiro para Pernambuco em 1751 depois para a Bahia, onde estudou no Colégio dos Jesuítas. Em 1761, voltou a Portugal para cursar Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se bacharel em leis em 1768. Com intenção de lecionar naquela universidade, escreveu a tese Tratado de Direito Natural, no qual enfocava o tema sob o ponto de vista tomista, mas depois trocou as pretensões ao magistério superior pela magistratura. Exerceu o cargo de juiz de fora na cidade de Beja, em Portugal. Quando voltou ao Brasil, em 1782, foi nomeado Ouvidor dos Defuntos e Ausentes da comarca de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, então conheceu a adolescente de apenas dezesseis anos Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão…”
Fonte: “pt.wikipedia.org”