Mostrar mensagens com a etiqueta Freguesia de Cedofeita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Freguesia de Cedofeita. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

(Continuação 21) - Actualização em 04/01/2018, 03/09/2020 e 05/04/2021


Instituto de Ciências Empresariais e do Turismo - Ed. JPortojo



Mais à frente, mais um edifício que, no entanto, não é dos referenciados pelo Igespar.
Para muitos, é apenas o Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo (ISCET) mas, o que muitos portuenses não sabem, é que a história do número 285 da Rua de Cedofeita não se esgota na actual função. Já lá moraram presidentes da Câmara do Porto e, foi lá, que Júlio Resende aprendeu a pintar.



“Foi um negociante estabelecido na Rua de S. João, no Porto, que, em 1856, requereu e obteve a licença de construção do edifício que ocupa atualmente o 285 da Rua de Cedofeita.
Joaquim Ferreira Monteiro Guimarães, nascido em Abril de 1819 em Santa Eulália de Barrosas, era um homem influente na cidade, membro da Direção da Mesa da Assembleia da Celestial Ordem da Trindade, e prestigiada figura do comércio de vinhos na cidade romântica de meados de oitocentos. O projeto tinha ficado a cargo de Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa, engenheiro portuense, professor, fundador da Associação Industrial Portuense e que, entre outros trabalhos de relevo, dirigiu as obras do Palácio da Bolsa, colaborou na construção do Palácio de Cristal e projetou o prolongamento da Avenida da Boavista.
A família Guimarães ocupou o edifício até meados da década de 70 do século XIX, tendo apenas sido construído cerca de 1/3 do desmesurado projeto original, altura em que o falecimento de Joaquim e da sua mulher Ermelinda Cândida Leite Ferreira altera o rumo da família, entretanto estabelecida essencialmente na burguesia industrial do Bonfim, graças aos casamentos das filhas com Carlos da Silva Ferreira e Joaquim Fernandes Pereira, proprietários de indústrias de tecelagem, no lado oriental da cidade. O edifício é então vendido em hasta pública à investidora Ana de Macedo que o transmite ainda em vida aos sobrinhos Porfírio de Macedo e Ana Júlia de Macedo. O edifício é ocupado na transição de século pela família Couto, devido ao casamento de Ana Júlia com o industrial portuense João Ferreira de Andrade Couto, proprietário de uma fábrica de conservas em Massarelos e um dos propulsores, juntamente com António da Silva Cunha e Carlos Afonso, da União dos Industriais do Norte, como consequência de uma cisão na Associação Industrial Portuense”.
Fonte – Site: archive-pt-2014.com



Em 1919, o edifício é adquirido por Ana Alice Fernandes, viúva do célebre bombeiro Guilherme Gomes Fernandes, e companheira do já referido António da Silva Cunha, principal sócio da Camisaria Confiança, na Rua de Santa Catarina, onde, em 1896, se rodou o primeiro filme português: “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”. Na década seguinte, e depois de Ana Alice Fernandes transferir a sua residência para o Pinheiro Manso, o edifício transforma-se no mais importante centro privado de arte no Porto, graças ao empenho de três personalidades distintas da primeira metade do século XX: Jacinto da Silva Pereira Magalhães, que havia sido presidente da Câmara do Porto e era o proprietário da “Fábrica de tecelagem do Jacinto”, fundada pelo seu avô homónimo, influente nas artes decorativas de interiores e renovador do estilo “casa portuguesa”; e, finalmente, Alberto Silva, pintor e professor de pintura, e motor fundamental do Salão Silva Porto até ao princípio da década de 40, período de maior fulgor da instituição que reuniu e expôs os principais artistas da época em Portugal.
Júlio Resende é o próprio a dizer que  foi ali que aprendeu a pintar, pela mão de Alberto Silva, que era seu professor.
Até meados da década de 60, então dirigido pela família Valverde, o salão Silva Porto, ainda que de forma menos exuberante e influente que nas décadas de 20 e 30, teve um papel importantíssimo na divulgação da arte contemporânea no Porto.



“O edifício da Rua de Cedofeita nº 285 passou assim por 3 períodos distintos: uma fase “residencial” (de 1860 a 1925), outra em que funcionou como “centro de exposições, lugar de tertúlia e de debate sobre cultura no Porto” (de 1925 aos anos 1960) e, por fim, uma fase escolar (até hoje).
Na primeira fase, o imóvel chegou a ser habitado por Francisco Pinto Bessa, o presidente da Câmara do Porto que mais tempo esteve ao serviço da cidade (1867-1878). “Viveu cá no período em que esteve no cargo e foi aqui que faleceu”.
Jacinto da Silva Pereira Magalhães, autarca do Porto entre 1907 e 1910, também morou no 285.
Durante a segunda fase, lá funcionou o Salão Silva Porto”.
Fonte - Alexandra Marques, In site: porto24.pt



“António Carvalho da Silva (Porto, 11 de Novembro de 1850 - Lisboa, 1 de junho de 1893 (42 anos)) foi um pintor português que mais tarde adoptaria para apelido o nome da sua cidade natal, ficando conhecido por Silva Porto.
Estudou na Academia Portuense de Belas Artes, estagiou em Paris (1876-1877) e em Itália (1879).
Em 1879 regressou a Portugal. Aureolado de prestígio, foi convidado para ensinar na Academia de Lisboa como mestre de Paisagem. Em 1880 realiza uma exposição de quadros paisagísticos inundados de luz, tendo D. Fernando adquirido o quadro Charneca de Belas. Fez parte do chamado Grupo do Leão, juntamente com António Ramalho, João Vaz, José Malhoa, Cesário Verde, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Entre outros galardões, recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa de 1884 e a primeira medalha do Grémio Artístico”.
In wikipedia.org



Silva Porto no Jardim de S. Lázaro



Casa onde nasceu Silva Porto na Rua da Ponte Nova – Ed. JPortojo




Chá dançante nos jardins do Salão Silva Porto, em 1932 - Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal



Na sua última fase, a partir dos anos 60, o nº 285 passou a ser um espaço ligado ao ensino.
Em 1968, o edifício passou a albergar uma dependência do Liceu Carolina Michaëlis e, em 1974, ali se instalou a Escola Irene Lisboa e, após ficar vago durante algum tempo, foi ocupado, na década de 90, pelo ISCET.


“Uma breve nota para dizer que Irene do Céu Vieira Lisboa (Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, 25 de Dezembro de 1892 – Lisboa, 25 de Novembro de 1958) foi escritora, professora e pedagoga. Estudou na Suíça, França e Bélgica, onde se especializou em Ciências de Educação, o que a habilitou a escrever várias obras sobre assuntos pedagógicos. Durante a estadia em Genebra, mercê de uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, teve a oportunidade de conhecer Jean Piaget e Édouard Claparède, com quem estudou no Instituto Jean-Jacques Rousseau. Foi afastada de exercer qualquer cargo pelo Ministério da Educação no tempo do Estado Novo pela sua tentativa de remodelação do ensino primário e ter recusado um lugar em Braga”.
Fonte: portojofotos.blogspot



À direita o nº 285 da Rua de Cedofeita




Confluência das ruas da Torrinha, dos Bragas e Cedofeita – Ed. JPortojo



No percurso que encetamos, antes, encontramos agora a Rua da Torrinha e, quase em frente, a Rua dos Bragas (eram terrenos de José Ribeiro Braga). Voltados para Torre dos Clérigos, fica uma à direita e a outra à esquerda.
A Rua dos Bragas, começada a rasgar em 1825, é o resultado de uma cedência de terrenos, que faziam parte da quinta dos Carvalhos do Monte, de José Ribeiro Braga, em troca da cedência diária de uma pena e meia de água (cerca de 1000 litros), proveniente do manancial de Arca d'Água, que corria no subsolo da Rua de Cedofeita. Pelo contrato realizado, a propósito, José Ribeiro Braga ainda se comprometia a levantar uma fonte que começada a construir, em 1826, seria inaugurada em 1830. Foi a Fonte de Cedofeita.




Confluência da Rua dos Bragas com a Rua de Cedofeita, ao fundo – Ed. “kantophotomatico.blogspot.pt”



Mesma perspectiva da foto anterior – Fonte: Google maps



Antecedendo esta série de prédios está a Capela dos Anjos.



Capela dos Anjos na Rua dos Bragas. À esquerda a antiga Faculdade de Engenharia, hoje de Direito



A Rua dos Bragas – Ed. JPortojo



Em frente à Rua da Torrinha esteve, em tempos, sob uma arcada do piso térreo de um prédio, a fonte de Cedofeita. Nesse prédio, que ainda existe, esteve a "Pensão La Fontaine" e a escola «Von Hafe Schule» fundada, em 1855, pelo padre Martin Richter.
Aquela escola, viria a dar lugar a um outro projecto, a partir de 18 de Novembro de 1901, que se designou por «Deutsche Schule zu Porto», sedeado na Rua da Restauração, nº 410, e que foi o embrião do Colégio Alemão.





Foto do edifício onde esteve o colégio Von Hafe, a pensão La Fontaine e a fonte de Cedofeita




Palacete dos Brito e Cunha
 

O Palacete da Rua de Cedofeita, 379, com projecto de 1859, que obteve a licença de construção nº 203/1859, foi a morada de António Bernardo Brito e Cunha, filho do mártir da liberdade, com o mesmo nome, executado na Praça Nova pelos carrascos de D. Miguel.
António Bernardo de Brito e Cunha nasceu a 20/10/1808, na Casa da Ruas das Taipas no Porto, casou a 23/04/1857 com D. Guilhermina Júlia Pereira da Silva, teve 4 filhos e uma filha, e faleceu a 30/07/1884.

 
 
Palacete dos Brito e Cunha (2009) – Fonte: Google maps
 

Palacete dos Brito e Cunha, actualmente – Fonte: Google maps




Casa de D. Laura Leitão



Residência de D. Pedro IV durante o cerco – Ed. JPortojo




Continuando a caminhada, estamos frente ao nº 395 (frente e traseiras na foto), de um edifício com muita história. Durante o Cerco do Porto nas Lutas Liberais ou Guerra Civil, D. Pedro IV - o 1º Imperador do Brasil - acolheu-se a esta casa depois de ter sido bombardeado no Palácio das Carrancas (hoje, Museu Nacional Soares dos Reis), onde tinha os aposentos, pela artilharia das tropas de D. Miguel situadas em Gaia.
A casa era a residência do bacharel Francisco Ribeiro de Faria, casado com Rosa Margarida de Lima, filha de Francisco José de Barros Lima, que foram progenitores de Francisco Ribeiro de Faria (com o mesmo nome de seu pai) que viria a ser, a partir de 14 de Dezembro de 1873, visconde de Barros Lima (título que ficou a dever ao prestígio de seu avô materno) e que, tinha como irmãos, Henrique Ribeiro de Faria, Arnaldo Ribeiro de Faria e Eduardo Ribeiro de Faria e, ainda, Carolina e Camila.
É pelo casamento de Eduardo Ribeiro de Faria com Laura Pereira Leitão, que a casa vai passar a ser conhecida por "Casa Laura Leitão". O casal não terá filhos e, quando faleceu Eduardo, no seu testamento, vai designar a sua mulher como usufrutuária, até à morte dela, na parte da casa que lhe cabia e tinha sido dos seus pais.
Chegado o falecimento de Arnaldo Ribeiro de Faria, em 1911, por testamento, ele transmite a metade que possuía da casa dos seus pais, à sua sobrinha Maria José Ribeiro de Faria, uma das filhas do seu irmão Henrique. 
Eduardo Ribeiro de Faria foi bacharel em direito pela Universidade de Coimbra, tendo fundado em 1858, em Paris, a "Sociedade Ibérica", juntamente com o jornalista Teixeira de Vasconcelos, para divulgação pela Europa da história da Península Ibérica.
Por sua vez, Laura Pereira Leitão, filha de Bernardo Pereira Leitão, acabaria casada com Alfredo dos Santos Pessanha, de cujo enlace também não houve filhos e será a herdeira da Quinta de Vale Abraão, no Douro.
A casa da qual Laura Leitão foi usufrutuária, na Rua de Cedofeita, foi por ela ocupada até ao seu falecimento e, em 1927, a casa era já propriedade de Maria José Ribeiro de Faria (viúva de João de Melo Sampaio), falecida em 9 de Dezembro de 1951, indo parar às mãos de Júlia de Melo Sampaio de Lencastre, sua herdeira.
Esta vai arrendar a casa, que serviria como sede aos Tribunais Correccionais e, ainda, alojamento de uma Repartição das Finanças.
 
 
 
“Não se sabe como o edifício terá passado para Alfredo Leite da Silva, o senhor Citroen no Porto e após a sua morte para Augusto António Marques Tomé, o actual proprietário (dono de uma oficina de reparação de automóveis que fica pegada), que o recuperou, talvez ainda não no seu todo, da degradação em que se encontrava”. 
Fonte – Blogue: portojofotos.blogspot.pt






Casa de D. Laura Leitão – Desenho de J. Vilanova, c. 1833; In: gisaweb.cm-porto.pt

A casa actualmente – Fonte: Google maps 

sábado, 10 de dezembro de 2016

(Continuação 20) - Actualização em 03/04/2018, 24/01/2019 e 22/01/ e 07/12/2020




A freguesia de Cedofeita, administrativamente, faz parte da cidade do Porto desde 1834, juntamente com a do Bonfim, ambas anexadas à cidade do Porto por ordem de D. Pedro IV.
 
 
“A origem da freguesia de Cedofeita remonta a um pequeno mosteiro que teria aqui sido fundado por um voto do rei suevo Teodomiro, no ano de 559. No século XII, sendo rei de Portugal D. Afonso Henriques já estariam aqui instalados os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, procedendo-se nesta época à reconstrução e ampliação da igreja, dando origem à Colegiada de S. Martinho de Cedofeita que, até meados do século XIX, irá deter os direitos senhoriais sobre estas terras. Nos inícios do século XII, quando a Condessa D. Teresa concede a D. Hugo o Couto do Bispo da Porto, já existia o “Couto da Colegiada de Cedofeita”, uma vez que o documento refere os limites em que ambos os coutos se confrontavam. Já no século XVI é anexado o lugar de Massarelos. O Couto da Colegiada de S. Martinho de Cedofeita que compreendia assim uma extensa área incluindo ainda o lugar anexo de Massarelos. Inciar-se-ia perto do lugar da Arrábida, junto ao Rio Douro, subindo pelo lugar do Bom Sucesso até ao Monte Pedral e ao Monte Cativo, descendo depois por Germalde (atualmente a zona da Lapa) e daqui até ao atual Largo da Trindade, onde infletia em direção a Monchique junto ao Rio Douro. Era um fértil arrabalde da cidade, mas escassamente povoado, sendo muitas vezes designado como o “Ermo de Cedofeita”. Até ao século XVIII Massarelos, que seria o lugar mais povoado, terá pertencido ao Couto. No entanto, a partir desta data aparece já referenciado como uma das freguesias autónomas da cidade do Porto no território fora das muralhas da cidade. Mas Cedofeita conhece, a partir desta data, uma rápida expansão demográfica tornando-se durante o século XIX uma das zonas mais importantes para a expansão urbana da cidade e para a edificação de alguns dos mais notáveis edifícios públicos, coincidindo com a extinção da Colegiada e com a anulação do Couto e dos direitos senhoriais sobre este território.”
Fonte: Partido Comunista Português
 
 
O sítio de Cedofeita remonta, portanto, à ocupação sueva, desenvolve-se em volta de uma pequena igreja que, embora apresente uma pedra com a data de 554, ela constituiu uma inscrição apócrifa, que nada tem que ver com a realidade. No entanto, a sua origem reporta a tempos muito anteriores à formação da nacionalidade.
Tendo o Couto de Cedofeita existência anterior à outorga, por D. Teresa, do Couto do Porto ao bispo D. Hugo, no entanto, a carta do Couto de Cedofeita só terá sido atribuída por D. Afonso Henriques, embora muitos historiadores afirmem que tudo resultou de uma falsificação do documento elaborado pela Colegiada de Cedofeita, uma organização dos cónegos, sob a supervisão de um Prior, que administrava as terras em volta da tal igreja.
Localizada num local ermo, a integração do Couto de Cedofeita no tecido urbano dá-se cerca da transição do século XVI para o século XVII.
Já na vigência do Estado Novo, a partir de 22 de Março de 1936, quando foi inaugurada, os portuenses habituaram-se a apreciar o novo edifício da Junta de freguesia de Cedofeita, no Largo Pedro Nunes.
 
 
 

Antiga Junta de Freguesia de Cedofeita no Largo Pedro Nunes
 
 
A partir de Janeiro de 2013, a Freguesia de Cedofeita passa a fazer parte da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto.




9.10.1 Rua de Cedofeita e Praça de Carlos Alberto (Largo dos Ferradores)



A Rua de Cedofeita é uma rua cheia de história, situada no coração da freguesia de Cedofeita. O seu nome deriva, segundo a lenda, da rapidez (cito facta) com que foi construída a velha igreja dedicada a São Martinho, edificada, primitivamente, durante o domínio Suevo, no séc. VI.
A hipótese mais aceite pelos historiadores diz  que o Couto de Cedofeita foi doado ao bispo do Porto por D. Afonso Henriques, o nosso primeiro rei – séc. XII.
 
 
“A partir de 1777, o antigo caminho rústico, aberto ao longo de terrenos que faziam parte da Quinta da Corredoura, uns, e da leira do Carril, outros, denominou-se Rua de Cedofeita. Mas, quatro anos depois (1781), já era conhecido por Rua da Estrada e, logo a seguir, chamava-se Rua Direita de Cedofeita, mas não estava ainda totalmente urbanizada.
Ainda em 1795, uma carta régia dava autorização à Câmara para proceder ao aforamento de terrenos da referida Quinta da Corredoura, "junto à Torrinha", através "dos quais campos se tinha aberto de novo uma larga e frequentada rua das de maior concorrência da sobredita cidade, em a qual se achava o maior aumento da povoação".
Até aos finais do século XVIII, a Rua Direita de Cedofeita possuiu muito poucas edificações, sendo ladeada por campos de cultivo e altos muros que delimitavam várias propriedades, entre as quais estavam as quintas dos Carvalhos do Monte; da Boavista ou de Santo Ovídio (com entrada pela Praça da República); e da Fonte. A primeira pertencia aos irmãos José e António Ribeiro Braga; a segunda aos Figueirôas e Pamplonas; e a terceira aos herdeiros de Domingos José Nogueira. No começo, a tal rua da Estrada alongava-se até ao Carvalhido. Mais tarde, abriu-se a Rua da Ramada Alta, denominação de origem rústica que, segundo antiga tradição, teve origem numa alta e ampla ramada que, naquele sítio, atravessava o caminho então existente. Posteriormente, a Rua de Cedofeita acabava no Largo da Ramada Alta, "acima do lugar onde estava a Fonte dos Ablativos", um curioso chafariz que pode ser admirado nos jardins das Águas do Porto, à Rua do Barão de Nova Sintra. Mais tarde, o comprimento da artéria foi encurtado quando, já na segunda metade do século XIX, a Câmara, querendo homenagear o súbdito britânico Joseph James Forrester, feito Barão de Forrester, em 1855, e que morreu tragicamente em 1861, no naufrágio do barco em que navegava, no sítio do Cachão da Valeira, perto da Régua, deu o seu nome à parte da artéria que ia da Rua da Boavista até à Ramada Alta.
À parte da Rua da Estrada que ia da Ramada Alta até ao Carvalhido foi dado o nome de Rua de 9 de Julho, para assinalar a passagem por aquele local, no dia e mês indicado, do ano de 1832, das tropas do exército liberal à frente das quais vinha D. Pedro IV. Anteriormente, desde pelo menos 1238, ano das inquirições mandadas fazer por D. Afonso III, dava-se à estrada que por ali passava o nome de "Via Vetera", ou seja "estrada velha", que era o caminho que os soldados romanos percorriam quando se dirigiam a Braga ou Astorga.”
Com o devido crédito a Germano Silva
 
 
 

Praça de Carlos Alberto
 
 
 
Na foto acima, observa-se a Praça de Carlos Alberto, que tinha sido Largo dos Ferradores e, à direita, o palacete do Visconde de Balsemão, mais tarde, palacete do Conde da Trindade e do Barão do Valado, depois de ter sido Hospedaria do Peixe, na qual, durante alguns dias, esteve o Rei Carlos Alberto, que haveria de dar o nome à praça.
Ele foi e continua a ser o edifício mais imponente da praça e tem raízes no fim do século XVII.
 
 
 

Palacete Balsemão, em 1833 – Desenho de Joaquim Vilanova
 
 
 
 
De facto, a última alteração de topónimo da praça teve a sua origem quando, em 4 de Maio de 1850, António José Coelho Lousada, que foi vereador municipal (1850), deputado pelo Porto (1858) e conselheiro, em reunião de Câmara, propôs aos demais vereadores, que fosse solicitado ao Governo Civil a passagem do topónimo Praça dos Ferradores a Praça Carlos Alberto.
A actual Praça de Carlos Alberto chamava-se, então, até 1850, Praça dos Ferradores pois aí existiam vários trabalhadores desse ofício, dado ser a paragem e passagem de muitas carruagens, que pela Rua de Cedofeita seguiam para Viana, Póvoa, etc. e, pela Rua de Santo Ovídio, para Braga.
Em 12 de Agosto de 1874, inaugurou-se nesta praça a primeira linha de caminho-de-ferro americano até Cadouços, à Foz do Douro.
Em 1883, começaram a fazer concorrência aos “americanos” os carros Ripert da “Empresa Portuense de Carros Ripert”, que tinha sede na Rua de S. Dinis e faziam a ligação a S. Mamede de Infesta e serviam vários outros pontos da cidade.
Para S. Mamede de Infesta, os carros tinham o seu término na Praça Carlos Alberto, em frente à tabacaria Havaneza, depois, Mercearia Pacheco.
Um tombo do mosteiro de S. Domingos menciona em 1669, a "Rua Pública dos Ferradores, junto do chafariz da Porta do Olival" e de um outro largo perto, que se chamava o Outeiro dos Ferradores.
Naqueles terrenos, entre c. 1676 e 1833, se realizou a “Feira dos Bois”, transferida depois para o Poço das Patas (Campo 24 de Agosto) e, ao longo dos anos, a “Feira do Carvão, da Palha e da Erva”.
Uma importante feira que comercializava cadeiras, caixas, bancos, tamancos e outros artigos em madeira – a “Feira das Caixas” – que acabaria nos Lavadouros (próximo da Picaria), deu durante anos movimento ao local.
O dia 1 de Abril de 1856, foi dia de festa - a praça foi dotada de iluminação a gás.
 

 

Praça de Carlos Alberto, em 1907, com o Hospital do Carmo à esquerda
 
 
 
 

Fontanário e candeeiro a gás na Praça de Carlos Alberto
 
 
 

Praça de Carlos Alberto, actualmente – Ed. JPortojo
 
 
 
No centro da praça existe hoje e, desde 1928, um monumento dedicado aos mortos da Grande Guerra de Henrique Moreira, que veio substituir um outro que o povo não aprovou, da autoria de José de Oliveira Ferreira, aí colocado em 1924, mas, que tendo sido considerado “tão feio”, viria a ser abatido em 1925.
 
 
 

Monumento de Henrique Moreira


 

Monumento de José de Oliveira Ferreira
 
 
 
 
Um outro monumento, uma escultura de Humberto Delgado, em que o general é representado voltado para o café Luso, da autoria do escultor José Rodrigues e foi inaugurada a 14 de Maio de 2008, está implantada junto do palacete Balsemão.
 
 
 



Estátua do General Humberto Delgado – Ed. J Portojo
 
 
 
 
 

Praça de Carlos Alberto, início do século XX
 
 
 

Praça de Carlos Alberto em perspectiva obtida a partir da Praça Gomes Teixeira – Ed. J Portojo





Na foto acima, na esquina, o palacete dos Couto Moreira e, depois, residência da família Pena.
Para conhecer um pouco a Rua de Cedofeita, iremos fazer um périplo por ela, seguindo no sentido da Praça de Carlos Alberto para a Rua da Boavista.
A Rua de Cedofeita, que hoje começa na Praça de Carlos Alberto, era conhecida, em 1777, como a Rua da Estrada, e ligava o Porto à Póvoa.
Na realidade ela começava antes, na Cordoaria, junto às Muralhas Fernandinas junto da Porta do Olival. Era utilizada pelos viandantes que, tendo saído da medieval Porta do Oli­val, tinham como destino Barcelos, Vila do Conde ou outras terras do Norte. 
Começou a ser pensada a sua abertura em 1762, por iniciativa de João de Almada e Melo aquando no cargo, de Presidente da Junta das Obras Públicas do governo do Marquês de Pombal, a quem ligavam laços familiares. Foi um dos grandes obreiros da modernização de Lisboa depois do Terramoto de 1755. 
Veio para o Porto onde começou obras de grande vulto. Uma delas ligar a zona portuária do Douro com as partes altas da Cidade. A Rua de Cedofeita foi uma das vias que idealizou. 




Uma perspectiva de alguns edifícios – Ed. JPortojo



O certo é que a Rua foi aberta rapidamente - volta aqui a entrar e com razão o “cito-facta”, traduzido para “cedo-feita”- e passou a conhecer-se como Rua Direita de Cedofeita.
A chamada Planta Redonda de Balck publicada em Londres (1813) mostra já o troço de Cedofeita até à Rua da Boavista, quase todo ladeado de casario.
Em 1851, sabe-se que o seu piso era em “macadam”.



Início da Rua de Cedofeita – Ed. JPortojo


A uma dezena de metros do início do nosso percurso, olhamos em frente e apercebemo-nos que esta rua é quase toda recta.
À nossa direita encontramos a Travessa de Cedofeita que já se chamou Viela do Açougue.
No plano de urbanização do bairro dos La­ranjais, elaborado em 1760, por iniciativa de João de Almada e Melo, o grande reforma­dor da cidade, onde hoje vemos a Travessa de Cedofeita estava assinalado um simples carreiro sem qualquer denominação. 



Olhando para trás, ao fundo a Torre dos Clérigos – Ed. JPortojo



Edifícios com as suas varandas – Ed. JPortojo



“É uma artéria, de grande aglomerado residencial, tendo no rés-do-chão da maioria dos edifícios comércios das mais variadas espécies. Quase, todos os edifícios são do séc. XVIII e princípios do séc. XIX,  predominantemente estreitos e compridos onde sobressaem as varandas de sacada com a arte do ferro tão tradicional do Porto, cantarias nas pilastras e cimalhas de granito e azulejos na fachada, estes já do séc. XIX ou XX. Veremos de relance alguns desses edifícios, contaremos alguma da sua história bem como de alguns dos seus primitivos donos e/ou ocupantes. A maior parte deles são referenciados como imóvel de interesse púbico pelo IGESPAR. 
Comecemos pelo nºs 88-96 onde está um pronto- a- vestir e onde antes esteve o Bazar dos 3 Vinténs, bazar de brinquedos, conhecido de várias gerações de portuenses e que ostenta na fachada um painel alusivo ao Pai Natal.



Aqui esteve o Bazar dos 3 Vinténs e painel com Pai Natal



Os nºs 154 e 162 são os mais antigos da Rua – Ed. JPortojo


Frente dos nºs 154 e 162 – Ed. JPortojo



 No nº 159, prédio em recuperação, viveu Carolina Michaëlis e seu marido Joaquim Vasconcelos, casados em 1876. Ela é reconhecida como a mais importante das filólogas da língua portuguesa. Foi crítica literária, escritora, lexicógrafa, tendo sido a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa, a de Coimbra. Teve igualmente grande importância como mediadora entre a cultura portuguesa e a cultura alemã. Nasceu em Berlim em 15 de Março de 1851 e morreu no Porto em 22 de Outubro de 1925.
Joaquim Vasconcelos natural do Porto, musicólogo e historiador de arte, vivia e estudava na Alemanha quando conheceu Carolina. 
Foi um dos grandes pioneiros da divulgação e desenvolvimento da arte popular. As exposições no Porto em 1881 de Industrias  Caseiras e um ano mais tarde da exposição de Cerâmica devem-se em grande parte a ele. Crítico entre os métodos de ensino inglês e o rigor alemão científico adaptados à arte portuguesa criou alguns anti-corpos. Deixou uma obra de grande valor cultural. José Augusto França disse que foi ele o real fundador da História da Arte em Portugal, entendida como ciência, com objecto e método próprios. Consta-se que na véspera da Revolução de 31 de Janeiro de 1891 (a primeira tentativa da implantação do regime republicano em Portugal), Antero de Quental, vindo de Vila do Conde, hospedou-se aqui e os estudantes da Academia Portuense organizaram na rua, em frente à casa, um grande comício patriótico. Antero falou aos estudantes da varanda da casa de Joaquim de Vasconcelos”.
Com a devida vénia a JPortojo



Aqui viveu Carolina Michaëlis – Ed. MAC