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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

25.139 Os Armazéns do Anjo

Tudo começou quando, em 1890, um caixeiro-viajante de uma fábrica da Covilhã, João M. Fonseca de Castro propõe a Manuel dos Santos, um sócio da Camisaria Aliança, a constituição de uma sociedade para tomarem de passagem aquele estabelecimento.
A sociedade acaba por se concretizar com a participação de um terceiro sócio, A. Henrique Simões.
A firma Simões Santos & Castro reduz-se, no ano seguinte, a Simões & Castro, por óbito do sócio Santos e, nessa altura, surge o registo como Armazéns do Anjo, dado o estabelecimento estar situado na zona da Praça do Anjo.
 
 

À direita da foto, c. 1900, é possível observar os “Armazéns do Anjo”, de Simões & Castro, com estabelecimento voltado para Praça dos Voluntários da Rainha
 
 
Passado pouco tempo, a sociedade atrás referida, desfaz-se e fica Fonseca de Castro como único proprietário, em instalações ao cimo da Rua das Carmelitas, na esquina com a Praça dos Voluntários da Rainha.
 
 

Armazéns do Anjo nas suas instalações primitivas, na Rua das Carmelitas
 
 
“Aos Banhistas: fatos de banho, para senhoras, a 3$500 réis; gravatas de foulard. Armazéns do Anjo, rua das Carmelitas 1-6, antiga Casa Agostinho”.
In, jornal “A Voz Pública”, de 7 de Agosto de 1901, pág. 3
 
 
Entretanto, dado o processo de urbanização do Bairro das Carmelitas, Fonseca de Castro está perante a necessidade de ter de abandonar as instalações que ocupava.
Perante esta situação, decide convencer o capitalista José António Lopes Coelho a adquirir o prédio que até aí ocupava, construir um outro de acordo com as directivas camarárias para o novo bairro e a arrendar, posteriormente, o espaço de lojas do novo edifício.
Assim, em 1905, o capitalista José António Lopes Coelho solicita, em 17 de Abril de 1905, à Câmara do Porto, a respectiva licença de construção de um prédio, em terreno que possuía na Rua das Carmelitas, cujo projecto tinha a particularidade de possuir duas lojas, à face da rua.
Aquela personalidade tinha sido em 1892, presidente da Associação Comercial do Porto.

 
 

Requerimento de licença que obteve o nº 61/1905 - Fonte: AHMP
 
 
De acordo com o plano inicial, concluído o novo edifício, José António Lopes Coelho arrenda-o a J. M. Fonseca de Castro, que vai desenvolver numa das lojas, um negócio de tecidos finos virada para a burguesia e, na outra, um negócio de feição mais popularucha.
Enquanto decorreram os trabalhos, a firma atende os seus clientes instalada nas traseiras da Praça do Anjo, num barracão construído para o efeito.
Inauguradas as novas instalações em 1908, acontece a entrada, nesta data, para servir a firma, do marçano Arnaldo José Rodrigues, natural de Castro Vicente, Concelho de Mogadouro, que impõe ao negócio uma feição popular.


 

Publicidade, em 1908, aos Armazéns do Anjo, em novas instalações

 
 

Armazéns do Anjo, à esquerda, junto da Livraria Lello & Irmão, em 1910 – Fonte: Guia do Porto Illustrado, Carlos de Magalhães


Armazéns do Anjo durante um desfile pela Rua das Carmelitas



Em 1916, face ao dinamismo de Arnaldo, acaba por acontecer a formação de nova sociedade sob a firma Castro & Arnaldo Rodrigues.
Por esta altura, já Arnaldo casara com Aurélia Mariani, da conhecida família de industriais de V. N. de Gaia, cujo pai, Aníbal Mariani Pinto, viria a ser o continuador do negócio que  seu avô José Mariani tinha começado em 1880.
A “Fábrica de Fiação e Tecidos de José Mariani & Filhos” conhecida, também, por Companhia das Devesas, foi fundada em 1880, na Rua do Barão Corvo, «à beira da estrada de Coimbrões, um pouco ao sul da estação do caminho-de-ferro».
Em 1881, tinha 76 operários e, em 1911, 80 funcionários.
Segundo o sindicalista, também esporadicamente deputado, Vítor Ranita, na sua obra Movimento Operário Portuense: nascimento e evolução (1850-1914), a Fábrica de Fiação e Tecidos de José Mariani & Filhos destacava-se das suas congéneres pela ausência de greves:
 
“…na Fábrica José Mariani quase nunca houve greve, facto que terá levado o patrão a deixar por herança aos seus trabalhadores 1 a 4 semanas de salário, segundo a sua antiguidade na empresa.”
 
 
Por outro lado, Aníbal Mariani Pinto, nos primeiros anos do século XX, chegou a assumir a gestão da Fábrica Cerâmica das Devesas da qual se tornou accionista, em 1906.


 
 

Fábrica de Fiação e Tecidos de José Mariani & Filhos, em gravura de 1918

Voltando à narrativa sobre os Armazéns do Anjo, o casamento de Arnaldo Rodrigues dava frutos. 



Arnaldo Rodrigues e as suas filhas


Quanto ao negócio, seria apanhado numa conjuntura de guerra, acabando por enveredar por uma vertente mais popular. 
Assim, numa tentativa de sobreviver à crise, são arrematados pelos Armazéns do Anjo diversos lotes de tecidos a bons preços, provenientes da liquidação dos Armazéns Hermínios. 
É, então, aberta uma sucursal na Rua dos Clérigos e outra em Fernandes Tomás.
 

 

Armazéns do Anjo instalados nas lojas exteriores do mercado do Bolhão, na Rua de Fernandes Tomás, c. 1930

 
 

Publicidade aos Armazéns do Anjo, em 1934
 
 
 

Os Armazéns do Anjo estiveram nesta esquina na Rua Alexandre Braga – Fonte: Google maps
 
 
Em 1923, Arnaldo Rodrigues fica com todo o activo e passivo da firma, até aí existente, que é dissolvida.
Fonseca de Castro passa a dedicar-se à indústria como sócio da Fábrica de Tecidos de Vilarinho, em Vizela.
Em 1925, ultrapassada, em parte, a crise, é aberta uma loja na esquina das ruas Formosa e Alexandre Braga, dirigida a uma clientela mais seleccionada.
Em 1926, os Armazéns do Anjo passam a sociedade anónima, na qual Arnaldo Rodrigues é o accionista principal e dá-se, então, a entrada de novos capitais.

 

Publicidade aos Armazéns do Anjo
 
 
Em 8 de Julho de 1928, Arnaldo Rodrigues que, entretanto, face a uma abastada situação económica, se tinha tornado um entusiasta dos automóveis de alta cilindrada, numa viagem de volta da Foz, pelas 23 horas, acompanhado por um amigo e do seu criado de nome Ambrósio, sofre um acidente, no Bicalho, em Massarelos, devido à velocidade excessiva do seu Packard…e cai ao rio. Salva-se o empregado, mas ele não resiste aos ferimentos e morre. O amigo sucumbirá no dia seguinte.
 
 
 

Arnaldo Rodrigues ao volante do seu automóvel



Após o falecimento de Arnaldo Rodrigues, com o decorrer dos anos, as diversas sucursais dos Armazéns do Anjo autonomizaram-se e passaram a ser administradas por vários dos seus descendentes, continuando a ser, porém, uma referência no comércio da cidade.
Devido à estruturação da firma na forma de sociedade anónima foi possível subsistir por acção da gerência de José Júlio Mariani e por um familiar por afinidade, Fernando Agrelos.
As sucursais dos Armazéns do Anjo, com os processos de divisão familiar acontecidos ao longo do tempo acabaram por se autonomizar e sobreviveram, com excepção da casa das lãs da Rua dos Clérigos.
Segundo as informações do professor da Faculdade de Letras-U.P., Jorge Fernandes Alves, na revista “O Tripeiro” (7ª série, Nov 1995), em 1995, a casa mãe da Rua das Carmelitas já tinha sido alienada, continuando na mão de descendentes de Arnaldo Rodrigues, a de Fernandes Tomás, que passou pela gestão de duas netas de Arnaldo e a da Rua Formosa, de uma das suas filhas, de seu nome Maria José Mariani Rodrigues, neta de Aníbal Mariani Pinto e bisneta do patriarca da família Mariani, José Mariani que, oriundo de Itália, adoptou o José em vez de Giuseppe.
Aníbal Mariani foi proprietário da Villa Alice, morada de Fanny Owen.

 
 
 
O patriarca da família Mariani com os seus filhos


Em época natalícia, em frente, c. 1960, na esquina das ruas de Alexandre Braga e Formosa, a loja dos Armazéns do Anjo de gerência de Maria José Mariani Rodrigues




Maria José Mariani Rodrigues - foto cedida por cortesia de Paulo Almeida Amaral



 Hoje, os Armazéns do Anjo são só memória.
 



sábado, 30 de janeiro de 2021

25.111 Quando se morria por amor - Um drama camiliano

 
José Augusto Pinto de Magalhães era um frequentador do Café Guichard, onde se sentava, por vezes, com outros tertulianos, à mesma mesa de Camilo Castelo Branco, que sempre lhe mostrou uma certa indiferença.
 
 
 
Na Praça Nova, o Café Guichard na 3ª, 4ª e 5ª porta, a contar da esquina

 
 
Perspectiva actual, idêntica à da gravura anterior – Fonte: Google maps

 
 
José Augusto era órfão de pai e mãe, dos quais tinha herdado uma pequena fortuna e da qual vivia o seu dia-a-dia.
Na sua posse, por herança, tinha uma quinta, em Baião, em Santa Cruz do Douro – Quinta do Lodeiro.
Estudante matriculado em Coimbra passava, no entanto, a sua vida na cidade do Porto, onde frequentava os teatros e todos os salões de baile da burguesia citadina. Eram tempos dos jovens experimentarem as paixões platónicas, que estavam na moda. Eram tempos, em que faziam furor, os semblantes sem cor e as expressões de fastio.
Camilo não simpatizava com ele, vendo-o como um fidalgote de província.
As duas personagens passaram da indiferença ao antagonismo.
José Augusto fazendo parte dos partidários de Dabedeille e Camilo dos da Belloni, ambas cantoras célebres de ópera, que actuaram, no Porto, na época 1849/50.
Como o futebol ainda não tinha sido inventado, as paixões dirigiam-se para intérpretes do mundo teatral ou musical. Era este o caso.
Acontece que, passados alguns meses, dá-se um volte face na relação dos dois homens.
Um dia, a uma das mesas do café Guichard, José Augusto elogia Camilo, a propósito de uns versos publicados pelo escritor num jornal. Camilo gostou, e daqui iria surgir uma amizade.
Em 7 de Junho de 1849 (porventura, seria o ano de 1850), os dois amigos, na casa dos 24 anos cada um, rumavam à romaria do Senhor da Pedra, deslocando-se em cavalos, alugados na cidade do Porto.
Após cerca de uma hora de viagem, depois de terem atravessado o rio Douro pela ponte Pênsil, e subido as encostas de V. N. de Gaia, ao som da Sirandinha e Cana Verde, que os restantes romeiros interpretavam bailando, chegavam a Vilar do Paraíso.

 
 
Ponte Pênsil, D. Maria II
 
 
Nesta aldeia, José Augusto indica a Camilo uma casa, cercada por um jardim murado, na qual moravam duas mulheres muito belas.
Aguardaram alguns minutos pelo seu aparecimento, o que não aconteceu, e seguiram para o arraial.
 
 
 
 
Casa da família Owen, em Vilar do Paraíso – Foto de Joaquim Ferreira de Barros, In revista “O Tripeiro”, Vª série, Vº ano, Junho de 1949
 
 
 
Comido o peixe frito do costume, feitas as orações habituais na capelinha do Senhor da Pedra, uma volta pelo arraial e os dois amigos encetaram o caminho de regresso.

 
 
Capela do Senhor da Pedra, em 1900
 
 
 
Ao passarem novamente pela casa, atrás referida, em Vilar do Paraíso, depararam-se com as duas mulheres, que José Augusto tinha, anteriormente, enaltecido, passeando-se no jardim.
Lá estavam elas, muito loiras, muito brancas e muito elegantes - Fanny Owen e a sua irmã, Maria Owen.
Depois de breves instantes na contemplação das damas, ao longe, Camilo fica com a convicção de que seriam, de facto, muito belas e que José Augusto estava fascinado por elas.
As duas cândidas e jovens criaturas eram filhas do coronel Hugh Owen, comandante do exército inglês que serviu em Portugal durante a Guerra Peninsular, explicou José Augusto ao seu amigo.
Hugh Owen iniciou a sua carreira militar em 1803, na Grã-Bretanha, como voluntário, tendo entrado no exército, anos mais tarde, em 1809, embarcando logo para Portugal, onde foi promovido a capitão pelo marechal Beresford. Participou na Guerra Peninsular, defendendo o território Português e, no fim do conflito, foi promovido a tenente-coronel, do regimento de cavalaria nº 6 de Chaves.
Em 1820, recebe o título de coronel e acompanha Beresford numa viagem ao Brasil, regressando no mesmo ano, com a revolução liberal de 1820, já em marcha.
Na sequência desta revolução, foi afastado, assim como todas as autoridades britânicas, retirando-se do exército.
A 20 de Dezembro de 1820, casa com Maria Rita da Rocha Pinto Velho da Silva, uma viúva, filha de um grande negociante de Vinho do Porto, de quem teve quatro filhos, entre eles a jovem Fanny Owen. 
No período de Inverno, os Owen viviam no Porto, na então denominada, Rua da Sovela, actual Rua Mártires da Liberdade e, no Verão, naquela freguesia gaiense.
Alguns meses passaram sobre os acontecimentos daquele dia de romaria, até que, durante um dos muitos bailes levados a efeito nos salões das casas da burguesia portuense, José Augusto descobre as duas beldades entre os presentes. Não descansando enquanto não arranjou forma de lhes ser apresentado, viria a conseguir o desiderato, que envolveu também Camilo.
Não passou muito tempo e José Augusto munido de alguns pertences da sua quinta de Santa Cruz de Baião, mobila e monta uma casa alugada em Vilar do Paraíso, ficando, assim, mais perto das suas apaixonadas. Sim, era este o caso, pois não havia forma de ele se decidir.
Em Dezembro de 1851, em Vilar do Paraíso, José Augusto, à lareira, fazia planos para se aproximar das duas beldades.



 
Ao fundo, à direita, Vilar do Paraíso, em perpectiva obtida a partir do cabeço do “Monte de Além” (Monte de São Caetano) - Foto de Joaquim Ferreira de Barros, In revista “O Tripeiro”, Vª série, Vº ano, Julho de 1949


 
 
Capela de Bom Jesus do Monte ou Capela de São Caetano, Vilar do Paraíso



 
Esse momento acabaria por chegar e ele torna-se visita da casa, onde convive com a esposa do coronel Owen e com as duas jovens.
Camilo visita o amigo e convive também com a família Owen, apercebendo-se que José Augusto continua indeciso quanto ao rumo a tomar.
Na primavera de 1851, Camilo aluga também uma casa em Vilar do Paraíso, abandonando a frequência do Seminário, após viver um breve devaneio místico, que o tinha assolado, alguns meses antes.
Estava formado um quarteto de namorados.
Maria aceitava o braço de José Augusto e Fanny, o de Camilo.
Camilo chega a dedicar a Fanny alguns versos, mas acaba por abandonar o local e a relação, abruptamente, talvez, na sequência de qualquer desentendimento entre os dois.
Mais tarde, Camilo justifica aquele desenlace com uma cena protagonizada por José Augusto, em que este dava a entender um sentimento de ciúme, que envolvia Camilo e Fanny.
O quarteto começava a desafinar!
 
 
 
 
À direita, a Vila Alice, Casa da família Owen, actualmente, na Rua Camilo Castelo Branco, Vilar do Paraíso – Fonte: Google maps
 
 
 
 
Os meses passaram e, à meia-noite de 11 de Julho de 1853, um cavaleiro, que não era senão José Augusto, cingido a um muro da propriedade dos Owen, em Vilar do Paraíso, esperava a sua amada para empreenderem uma fuga cujo destino seria um altar.
Um rapto, à moda desses tempos…e surpresa: a mulher que cai nos braços do cavaleiro não é a Maria, mas, sim, a Fanny.
Para trás, fica uma mãe chorando, uma filha rejeitada e um pai, que à época vivendo em Lisboa, não aprovava a união que lhe foi proposta e envolvia uma sua filha.
Um drama estaria agora prestes a começar.
O itinerário para a fuga tinha como primeiro destino Oliveira do Douro e, aí, seria continuado por barco, rio acima, até Santa Cruz do Douro, à Quinta do Lodeiro.
O cavalo que foi escolhido para o transporte, cedo se assustou, atirou com a carga ao chão e partiu à desfilada. Noite escura como o breu, com a lua escondida atrás das nuvens, e o caminho passa a ser feito a pé, às cegas, por entre as árvores.
Tendo-se dirigido, primeiro, por engano, em direcção a Ovar, os fugitivos guiados por umas peixeiras inflectiram para o lugar da Sueima, onde chegaram ao nascer do dia, junto do terreiro da quinta de José Correia de Melo,
Abaixo o percurso provável, feito pelos fugitivos.

 
 
Albano Moreira da Silva, In revista “O Tripeiro”, Vª série, Vº ano, Agosto de 1949
 
 
 
José Augusto e Fanny chegam, por fim, à Quinta do Lodeiro em 13 de Julho e casam, por procuração, na igreja de Santo Ildefonso, apenas, em 5 de Setembro de 1853, representados por José Correia de Melo Silveira, por parte da noiva e por Joaquim Marcelino de Matos, por parte do noivo.

 
 
Igreja de Santo Ildefonso, em 1833
 
 
 
 
Casa do Lodeiro
 
 
É que, entretanto, tinham chegado às mãos de José Augusto, umas cartas que Fanny tinha escrito, que nem configuravam nada de especial, mas numa passagem de uma delas, fazia alusão à “viuvez da sua alma e ao desespero por não encontrar coração que a compreendesse”.
O teor daquelas cartas, contemporâneas de outras que lhe eram endereçadas, contrariava tudo o que, a si, era transmitido, na apreciação de José Augusto.
Entre várias teorias, há quem afirme que as cartas que estavam na posse de Bernardo Rodrigues Fuentes, à data, Cônsul de Espanha, teriam sido dirigidas por Fanny, à sua mulher, em consequência de uma amizade entre as duas, tendo Fuentes servido de secretário ocasional.
Bernardo Rodrigues Fuentes, morador na Rua dos Ingleses, nº 4 e que, em 1856, se mudou para a Rua do Almada, era pai do José Rodrigues Fuentes, que casou com uma filha de Manuel Sousa Carqueja, negociante de Oliveira de Azeméis, fundador do jornal “O Comércio”, título depois substituído por “O Comércio do Porto” e morador na Rua das Congostas.
O tal destinatário das cartas, o Fuentes, neste caso Bernardo Rodrigues Fuentes, cônsul de Espanha, foi uma das testemunhas de defesa, apresentadas por Camilo, no processo que correu nos tribunais, a propósito das agressões ao jornalista do jornal “A Pátria”, João Augusto Novais Vieira, o “Novais dos óculos”.
Segundo a queixa que Novais Vieira apresentou às autoridades, uma agressão ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1851, em pleno Teatro S. João, sendo intervenientes Camilo Castelo Branco e Dom Luís da Câmara.
No dia seguinte, 24 de Janeiro, a queixa referia-se a nova agressão, que teve por palco a Rua de Sá da Bandeira, protagonizada por Camilo.
Sobre este último acontecimento, o jornal “O Nacional” dava conta dele em 25 de Janeiro de 1851:
 
“Ontem houve murraça na rua de Sá da Bandeira entre dois escritores públicos: foram ambos presos e levados por amigos para o quartel do Carmo, donde saíram logo.”
 
 
No cerne daquelas agressões, estavam escritos de Novais Vieira que denunciavam relações promíscuas de Camilo com D. Maria Felicidade do Couto Browne, poetisa, senhora casada com o rico comerciante portuense Manuel de Clamouse Browne e reavivadas outras, protagonizadas por Camilo e envolvendo-o, neste caso, com Isabel Cândida, a freira que, no convento de S. Bento da Avé-Maria, era a guardiã da filha do escritor e de Patrícia Emília.
Quanto a Luís da Câmara Leme, um militar, político e escritor, referia-se a um caso amoroso por ele vivido com a sua amante, a actriz Emília das Neves (1823-1883) que ficou conhecida por Linda Emília, devido à sua grande beleza.
Desfecho do caso em tribunal: Camilo foi absolvido.
Voltando à amargura e auto flagelação que José Augusto experimentava, após muita hesitação, decide-se pelo casamento na sequência de aconselhamento com vários amigos.
Começava, então, um drama conjugal, perante o qual definhava o enlace, assim como, a vida dos participantes.
A tísica atinge Fanny, que definhava dia-a-dia.
No início de Julho de 1854, José Augusto e Fanny, esta devorada já pela tísica, hospedam-se no Hotel Bhartès, na Rua da Fábrica, onde Camilo visita o casal.
Passados alguns dias, avizinhando-se o fim próximo de Fanny, José Augusto diz a Camilo:
- “Mataram-na a ela e mataram-me a mim!”
- “Quem”, pergunta Camilo.
- “Mataram-na as cartas que me enviaram…” e continuou:
- “Desde essa hora tinha dois caminhos a seguir: um era o da liberdade, deixando-a; outro, era o do cativeiro com a morte, desposando-a. Meti-me ao caminho da honra e dei-lhe o braço de irmão”.
Em 3 de Agosto de 1854, na casa de Vilar do Paraíso, morria Fanny Owen e, um mês mais tarde, em 29 de Setembro, José Augusto dava também o último suspiro, suicidando-se, por envenenamento, num quarto de um hotel de Lisboa.
Hugh Owen e sua mulher, Josefina, estavam hospedados, à data, no mesmo hotel.
O corpo do morgado de Santa Cruz do Douro seria sepultado sem identificação, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.
Entre o rapto e a morte de Fanny decorreram treze meses.
Camilo alude ao drama de Fanny Owen no romance “Bom Jesus do Monte” contribuindo, deste modo, para a divulgação de um caso, que deu brado, à época. Atente-se que Camilo tem na mão a pena, com que pode fazer-nos acreditar, bem como a ele próprio, no que mais jeito lhe der.
O Dr. Joaquim José Ferreira, “O Janota”, um “bon vivant” do círculo de Camilo, de quem era amigo e a pedido do escritor, confidenciou-lhe que Fanny morrera virgem, pelo que se pensa que José Augusto não terá sido “nem bom marido, nem bom amante”. Os ciúmes ter-lhe-iam toldado o discernimento.
No entanto, há quem afirme, que aquela confidência publicitada por Camilo, não é mais que um autoconsolo, já que, na realidade, Fanny tinha rejeitado os amores de Camilo, tomando-o, apenas, como um bom amigo.
Então, começaria a fazer sentido a cena da deserção de Camilo de Vilar do Paraíso.
Assim, o escritor António dos Reis Ribeiro, a propósito desta tragédia, afirma que não foi a fatalidade que tomou conta da situação, mas, sim, o ciúme.
 
 
 
 
Trecho da obra “Bom Jesus do Monte”, de Camilo Castelo Branco, após a morte de Fanny
 
 
 
Em alguns dos seus romances, de que “Bom Jesus do Monte” é um bom exemplo, há quem encontre cenas e narrativas de alguma justificação, consigo mesmo.
Parece já não oferecer muitas dúvidas de que foi Camilo quem encaminhou as cartas, nas mãos de Fuentes e as fez chegar, se bem que por interposta pessoa, a José Augusto.
Não é despiciendo também realçar, na apreciação sobre todos os factos inerentes a este caso, a importância da relação de proximidade entre Camilo e o tal Fuentes, que foi sua testemunha em tribunal.
 
 
“Em boa verdade, Camilo não fez chegar as tais cartas a José Augusto Pinto de Magalhães, mas a um amigo comum, Joaquim Marcelino de Matos, que desempenharia logo depois o papel de noivo, no casamento por procuração; mas foi como se tivesse sido, pois Camilo, ao contrário do que escreveu, bem sabia onde elas iriam chegar”.
Cortesia de Manuel, In “geneall.net/”
 
 

O coração de Fanny, que Camilo diz, foi conservado num frasco, em formol, perder-se-ia para sempre.
Guardado na capela da Quinta do Lodeiro, segundo descendentes de José Augusto terá sido recolhido, depois, em jazigo de família, em Amarante.
Para outros, teria sido levado para o hospital da Ordem da Trindade, no Porto, mas por deficiente manuseio de alguém, perdeu-se.
Camilo diz que o coração foi entregue a uma senhora da Foz do Douro com quem Fanny tinha convivido.
Vá lá saber-se. Perdeu-se!
O corpo de Fanny, segundo o escritor, na obra “Bom Jesus do Monte”, acabaria no jazigo da família Rocha Pinto, no cemitério da Lapa.
Nunca fez tanto sentido, como no caso presente, a afirmação de Raúl Brandão de que “onde Camilo põe a mão é tragédia certa”.
Fanny Owen (1830-1854), baptizada com o nome de Francisca em memória do seu tio Francisco de Paula de Rocha Pinto, era fruto do casamento, em segundas núpcias, de sua mãe Maria Rita da Rocha Pinto (1790-1858), por sua vez, filha do conhecido exportador de vinho do Porto, Tomás da Rocha Pinto (1748-1815) da firma “Thomaz da Rocha Pinto & Filhos”.
Tomás da Rocha Pinto, senhor de uma grande fortuna obtida com o comércio do vinho do Porto, avô materno de Fanny Owen, segundo o professor universitário Orlando da Rocha Pinto, foi quem mandou vir de Roma, a expensas suas, o corpo de S. Vicente mártir, colocado em 21 de Dezembro de 1875, na igreja de S. Nicolau que, naquele tempo, foi alvo de manifestações de muita religiosidade.
Daquele casamento, para além de Francisca (n.1830), vingaram Maria (n.1828), Hugh Owen (n.1825), o primogénito e futuro barão da Torre de Pero Palha, de que houve geração e, ainda, Henrique (n.1829).
Em primeiras núpcias, Maria Rita tinha casado com o seu primo Manuel Velho da Silva, natural do Rio de Janeiro, de cujo enlace houve uma filha, Maria Tomásia da Rocha Pinto Velho (1783-1813), nascida em 6 de Maio de 1807 e casada, em 1825, com António Teixeira de Carvalho Sampaio.
O coronel Hugh Owen (1784-1860), a partir de 1846, vai ter uma participação no periódico portuense, mensal, “O Industrial Portuense”, assinando artigos com informações úteis para o desenvolvimento da indústria e agricultura da época.
Em 1856, o coronel Hugh Owen, autor da obra “O Cerco do Porto”, com prefácio de Raúl Brandão, cuja primeira edição data de 1915, regressou ao seu país, abandonando a mulher e os filhos. 
Em 1979, Agustina Bessa-Luís escreve o romance “Fanny Owen”.
Em 1981, a história dramática ficou imortalizada no filme “Francisca” de Manoel de Oliveira, baseado no livro de Agustina. 



“Vila Alice”, em Maio de 2024 – Cortesia de Daniel Chichorro


 

Por curiosidade, diga-se que a “Vila Alice” chegou a ser propriedade da família Mariani, de V. N. de Gaia, mais propriamente de Aníbal Mariani Pinto, cuja filha, Aurélia Mariani, foi casada com Arnaldo Rodrigues proprietário dos “Armazéns do Anjo”.