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segunda-feira, 26 de junho de 2023

25.197 Firmino Pereira e a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto

 
Desde a sua fundação, em 1882, a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) teve várias moradas até se fixar, finalmente, na actual, numa rua que tem o nome de um distinto jornalista – Rodrigues Sampaio.
Os seus estatutos foram redigidos em 1885, por Sampaio Bruno.
 
 
 

Percurso encetado pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, até se instalar na morada que hoje ocupa - Fonte: revista "O Tripeiro, série VIª, 2º Ano, pag. 43




A Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto foi, então, constituída a partir de uma reunião de jornalistas, a convite dos redactores de O Comércio do Porto, realizada na noite de 20 de Setembro de 1882, na Sociedade de Geografia Comercial, na Rua Formosa, no Porto. Nessa reunião, foram aprovadas duas propostas: uma, destinada a nomear uma comissão para “promover uma condigna manifestação de sentimento pela morte do ilustre jornalista António Rodrigues Sampaio e que promova uma subscrição para se instituir um prémio que, na escola de instrução primária de S. Bartolomeu do Mar, seja anualmente conferido ao aluno que mais se distinguir na mesma aula”; outra, a sugerir que, na sequência da comemoração da morte “do ilustre decano da imprensa portugueza, se lancem as bases de uma Associação de Jornalistas, que tenha por um dos seus fins principais a creação de um montepio destinado a socorrer as famílias dos jornalistas que faleçam em circunstâncias precárias”.
Menos de um mês decorrido sobre a referida reunião, mais precisamente no dia 13 de Outubro de 1882, no salão nobre do Teatro Príncipe Real, decorreu a instalação solene da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, tendo-se registado, desde logo, a inscrição de 35 sócios. Durante a cerimónia, foram registados vários apoios, entre os quais se destaca: o do dr. Soares Franco, a oferecer os seus serviços médicos aos membros da Associação; e do jornalista e professor António José da Silva Reis, a oferecer-se para ministrar, gratuitamente, o ensino das línguas francesa e inglesa aos filhos dos associados. “Foi assim que, para honrar a memória de António Rodrigues Sampaio, insigne jornalista portuguez, benemérito da pátria e da liberdade, se instituiu no Porto, no trigésimo dia do seu passamento, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto”.


 
 
 

Palacete do conde da Trindade, ao centro, c. 1919, na Praça Carlos Alberto, onde esteve (1896 a 1906) a AJHLP, dividindo instalações alugadas com o Centro Comercial do Porto
 
 
 

Para lá dos Grandes Armazéns do Chiado (exibindo as bandeiras), já em plena Praça Santa Teresa, o prédio no qual a AJHLP dividia instalações com o Centro Comercial do Porto


 
Firmino Pereira (Porto ??? – Porto, 17 Março de 1918), um reputado jornalista, exerceria, durante alguns anos, o cargo de primeiro secretário da Direcção da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Firmino Pereira deixou-nos uma obra de leitura obrigatória para quem se interessa pela história da cidade do Porto, tendo sido, ainda, para além de escritor, jornalista, crítico de arte e teatrólogo. Usou o pseudónimo F. P..
Como escritor Firmino Pereira escreveu “O Cerco do Porto”, “A Glória de Portugal”, “A Primeira Nuvem”, mas a sua obra emblemática é aquela em que traça uma panorâmica do Porto da 2ª metade do século XIX – O Porto d’outros tempos”.






A quinzenal folha portuense “O Bombeiro Portuguez”, de 1 de Fevereiro de 1882, dá conta da actividade teatróloga de Firmino Pereira, durante um espectáculo oferecido por amadores aos sócios da Associação dos Bombeiros Voluntários do Porto, que teve lugar no fim do mês de Janeiro, daquele ano, no Teatro Gil Vicente, ao Palácio de Cristal.

 
 


 
 
Cerca de dois anos antes, a mesma revista, “O Bombeiro Portuguez”, de 1 de Setembro de 1880, informava sobre as comemorações do primeiro lustro da existência da Real Associação Humanitária Bombeiros Voluntários do Porto, entre os dias 25 e 29 de Agosto de 1880.
Para narrar o sarau acontecido no dia 27 de Agosto, no Teatro Gil Vicente, do Palácio de Cristal, socorria-se, para o efeito, do material publicado no jornal “A Actualidade”, no qual era feita referência à peça exibida, da autoria de Firmino Pereira, intitulada “ A Primeira Nuvem”.
A festa começou com a execução do hino dos bombeiros voluntários.
 
“Às 8 horas e meia a orchestra da sociedade dramática de amadores Luz e Caridade, que generosamente se prestou a abrilhantar a festa, executou o hymno dos bombeiros voluntários, composição do sr. Douwens, inteligente director da banda de infantaria 10”.
In jornal “A Actualidade”

 
Sobre aquela peça teatral, dizia a referida revista “O Bombeiro Portuguez”:

 
 
In revista “O Bombeiro Portuguez”, de 1 de Setembro de 1880  (Cit. jornal “A Actualidade”)




A foto abaixo (tirada no Bom Jesus do Monte, em Braga) apresenta Firmino Pereira na qualidade de repórter, durante uma visita do rei Luís I ao norte de Portugal, estando também representados os enviados de diversos jornais de Lisboa e Porto que cobriram o acontecimento.



 
 
A meio, de pé, Firmino Pereira
 
 

A seguir, se dá conta de uma notícia publicada no nº 3 do jornal semanário "O Imparcial", sobre uma reunião, na qual Firmino Pereira desempenhou o cargo de secretário, acontecida na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, no mês de Outubro de 1899, em plena pandemia de peste bubónica vivida na cidade.









O semanário “O Imparcial”, que teve uma existência breve, tinha a sua administração e redacção na Praça D. Pedro, nº 95, em instalações contíguas às do "Restaurante Porto", cujo chão é hoje ocupado pela agência do Banco de Portugal.
Na qualidade de jornalista, Firmino Pereira exerceu a actividade no “Commercio Portuguez”, n’ “A Actualidade” e n’ “A Lucta”.
O “Commercio Portuguez” estaria nas bancas entre 1876 e 1890, “ A Actualidade” entre 1874 e 1891 e “A Lucta”, entre 1874 e 1890.
 
 
 
«Com efeito, a Actualidade, apesar de ter um carácter independente, “serviu mais ou menos a política regeneradora”. O primeiro número saiu a 1 de Fevereiro de 1874, sendo seu director e proprietário Anselmo Evaristo de Moraes Sarmento e tendo como redactores Elvino José de Sousa, Alfredo de Matos Angra, José Caldas, Júlio Caná, Firmino Pereira e “outros jornalistas da velha guarda”. Era considerado “um dos melhores jornais diários que o Porto tem possuído”, tendo cessado a sua publicação em 31 de Julho de 1891, e sido substituído pelo Ideia Nova. Refira-se igualmente que os números deste jornal, por nós consultados e respeitantes aos anos de 1890 e 1891, não manifestam qualquer hostilidade para com Alves da Veiga e os restantes revoltosos do 31 de Janeiro, facto a que não será alheia a pretérita colaboração do izedense neste periódico portuense.
Vide a este respeito, «Jornais da minha terra; subsídios para uma História do jornalismo portuense”, O Tripeiro, 2ª Série, n.º2, Porto, 15 de Janeiro de 1919, p.41».
Cortesia de Guilherme Martins Rodrigues Sampaio (Tese de mestrado da U.L. Departamento de História – 2009)



 
Capa d’ “O Sorvete” (revista humorística), Nº 312, 7º Ano, Porto, 4 de Maio de 1884. Firmino Pereira anuncia a sua saída do jornal “A Lucta”, diz: - A chronica? Morreu! Sahí da “Lucta”



 
No fim do ano de 1897, Firmino Pereira viria a tornar-se um funcionário público.
Assim, em 23 de Outubro de 1897, foi nomeado para exercer interinamente o cargo de secretário da Administração do 1º Bairro do Porto, cargo que, pouco depois, se tornou definitivo.
O Decreto de 21 de Outubro de 1868 modificou a divisão geográfica e administrativa do concelho do Porto, sendo criados o Bairro Oriental (1.º Bairro) e o Bairro Ocidental (2.º Bairro).
O Bairro Oriental ou 1º Bairro compreendia as freguesias do Bonfim, Campanhã, Santo Ildefonso, Paranhos e Sé.
Faziam parte do Bairro Ocidental (2.º Bairro) as freguesias de Cedofeita, Foz do Douro, Lordelo do Ouro, Massarelos, Miragaia, São Nicolau e Vitória. A partir de 1895, as freguesias de Aldoar, Nevogilde e Ramalde, anexadas ao concelho do Porto, passam a integrar o Bairro Ocidental, de acordo com o decreto de 21 de Novembro desse ano.
A Lei n.º 8/81, de 15 de Junho de 1981, extinguiu as administrações dos bairros, passando a Câmara Municipal do Porto a assumir as suas competências. O Município do Porto criou para o efeito a Repartição Administrativa Oriental, no seguimento da Ordem de Serviço da Presidência nº 438/82.

 
 

Firmino Pereira, c. 1898 – Ed. Foto Guedes; Fonte: AHMP

 
 
 Na época natalícia do ano de 1914, no jornal “O Primeiro de Janeiro”, nos dias 24, 25, 27 e 30 de Dezembro, Firmino Pereira publica uns artigos sob o título «O Natal na Igreja, no Teatro e na Rua».
O texto que se segue é de um seu amigo, Emídio de Oliveira, constituindo um elogio fúnebre ao Firmino Pereira, que terá partido, sem o amparo dos seus.



 
 
Jornal “República” de 30 de Março de 1918
 
 
 
Voltando à história da AJHLP, era costume todos os anos a AJHLP levar a cabo um festival num dos teatros da cidade. Foi o caso do acontecido em 1902, a seguir narrado.
 
 
 
In jornal “A Voz Pública” de 28 Fevereiro de 1902, pag. 2
 
 
 
 
Durante os anos que se seguiram foram várias as acções para recolha de fundos que permitissem o levantamento do edifício próprio da AJHLP.





Sarau de ópera a favor da AJHLP, em 8 Fevereiro de 1907
 
 
 
Finalmente, em 1916, o Presidente da República, Bernardino Machado lançava a primeira pedra para o novo edifício da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP).

 
 
 

Lançamento da 1ª pedra da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, em 1916, com a presença do chefe do Estado Bernardino Machado, acompanhado por Afonso Costa, António Loureiro Dias e José Barros Júnior



No dia 13 de Outubro de 1921, a Associação assinalou 39 anos de existência, e foi então que um grupo, auto denominado “Velhada do Jornalismo Tripeiro”, decidiu conjugar esforços para reconstituir quase meio século da vida portuense, no que aos jornais e jornalistas diz respeito. Reconstituição que culminou na publicação, em 1925, da obra “Os Jornalistas do Porto e a sua Associação”, compilada por Luiz Ferreira Gomes, quatro anos após ter sido lançada a ideia de reunir testemunhos de reconhecida idoneidade, como: Alfredo de Matos Angra, Catão Simões, José António de Souza Moreira, António Maria Lopes Teixeira, Marcos da Silva Nunes Guedes, Alberto Bessa, Júlio de Oliveira e Henrique António Guedes de Oliveira. E é com base nestes preciosos testemunhos que é descrito, com grande minúcia, “como eram feitos os jornaes há cincoenta anos” (finais do séc. XIX e início do séc. XX), desde os tempos de predomínio de O Primeiro de Janeiro (1871) e O Comércio do Porto até ao aparecimento do Jornal de Notícias (1879), após uma fracassada experiência como título de uma gazeta que durou pouco mais de um ano. Eram os três jornais diários da cidade do Porto que tinham as suas posições consolidadas.
No ano de publicação daquela obra falecia, no Porto, o jornalista Marcos Guedes, um dos mais entusiastas servidores da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
 
 
“Marcos da Silva Nunes Guedes (Poiares da Régua, 30/4/1858-Porto, 1925). Poeta, director literário d’O Sorvete, jornalista, redator d’ O Primeiro de Janeiro – durante 29 anos; colaborador d’O Século; com Guedes de Oliveira fundou a Tipografia Guedes. Correspondente do Correio da Manhã do Rio de Janeiro – cf. Cor­reio da Manhã. Ano IV, n.º 1.125. Rio de Janeiro: 12 de Julho de 1904, p. 3, col.as 1 e 2). O Sorvete. N.º 108, 14.º Ano. Porto: 22 de Maio, 1892 (centrais) (a suspirar pela sua amada a atriz Geraldine); O Sorvete. N.º 82, 22º Ano, 2.ª Série. Porto: 8 de Janeiro de 1899 (capa) (este conjuntamente com Sanhudo vêm agradecer a todos aqueles que lhes deram os parabéns pela passagem do 21.º aniversário d’O Sorvete)”.
Cortesia de Rui Manuel da Costa Perdigão da Silva Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão); In “Sebastião Sampaio de Souza Sanhudo – a sua vida e a sua obra (20/2/1851-17/8/1901)”
 
 
 
“Marcos Guedes foi um verdadeiro Artista e um devoto trabalhador em prol de todas as causas Nobres e humanitárias. Foi um dos mais apaixonados servidores da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e foi também um dos mais típicos e respeitáveis intelectuais portuenses. Prestou valioso concurso a diferentes instituições culturais e era sócio benemérito do Ateneu Comercial do Porto, tendo sido director desta florescente colectividade quando ela ainda se denominava Sociedade Nova Euterpe”.
Fonte: Revista “O Tripeiro” Nº 12, Abril 1958, V Série, Ano XIII


 
 

Marcos Guedes em fotografia resultante de trabalho de estúdio – Foto Guedes
 
 
 
Marcos Guedes versejava como poucos do seu tempo. São dele as quadras que se seguem escritas no álbum de D. Celeste Gonçalves e publicadas no Almanaque de “O Primeiro de Janeiro” para 1917:
 
 
É tanta a sua beleza,
Tão rara e tão singular,
Que foi feita, com certeza,
Dum pedaço de luar.
 
A sua voz é tão doce
Que a virgem mão se pudesse,
Queria que ela fosse
A que seu filho tivesse.
 
A sinfonia divina
Que se forma do seu riso
É a mesma que Deus ensina
Aos anjos no Paraíso.
 
 
Por volta de 1930, a nova sede da associação estava pronta, na Rua Rodrigues Sampaio, topónimo que homenageava um jornalista, à data, já desaparecido.



“António Rodrigues Sampaio (São Bartolomeu do Mar, Esposende, 25 de Julho de 1806 — Sintra, 13 de Setembro de 1882) foi um jornalista e político português que, entre outras funções, foi deputado, par do Reino, ministro e presidente do Conselho (chefe de governo).
Rodrigues Sampaio foi um dos maiores vultos do liberalismo português de oitocentos, jornalista ímpar e parlamentar de excepção. Personalidade controversa, polémica, mesmo revolucionária, mas sempre coerente e fiel aos seus princípios e desígnios, foi um agitador de renome nacional, o que lhe valeria a alcunha de o Sampaio da Revolução, já que se notabilizou como redactor principal do periódico “A Revolução de Setembro”. Era um jornalista de causas, não de notícias, como aliás era o jornalismo do século XIX. Apesar da violência verbal e da forma assertiva que sempre utilizou nos seus ataques políticos, Rodrigues Sampaio nunca promoveu o ataque ad hominem. Mesmo quando os seus correligionários lhe pediram que pusesse em causa a dignidade e honradez de D. Maria II e da Corte, negou-se terminantemente, escrevendo que um antro de corrupção política não faria da Corte um lugar de devassidão moral. Foi esta postura de grande escrúpulo, associado a um incansável labor na defesa dos valores pelos quais pugnava, que lhe concedeu um lugar cimeiro no jornalismo político português.
Era membro importante da Maçonaria.
Fonte: “pt.wikipedia.org”
 
 
 
Firmino Pereira sobre António Rodrigues Sampaio, contava o seguinte episódio:
 
“Um dia, numa polémica com um jornal de Lisboa, disse umas verdades amargas ao seu adversário, e este, em lugar de se confessar vencido, declarou que bem conhecia a mão que o queria aniquilar. Sampaio, no dia seguinte, respondia triunfantemente:
 – Ora ainda bem que o animal conhece pelas esporadas que leva no lombo quem é o cavalheiro que o monta”!


 
Na década de 1930, a capacidade financeira da AJHLP seria muito abalada com os encargos decorrentes do levantamento da sua sede própria, a Casa do Jornalista, o que originou que, em 1934, ela tivesse sido arrematada em hasta pública pela Caixa Geral de Depósitos.
Nesse ano, a Casa do Jornalista passaria por imposição do regime político, que decretava o fim do associativismo, a ser designada por Casa da Imprensa e do Livro.
Entre 1934 e 1948, a Casa da Imprensa e do Livro veria a sua existência intimamente ligada ao seu presidente da direcção, Alfredo de Magalhães, ex-presidente da Câmara Municipal do Porto e ex-Ministro da Instrução Pública que vai relançar a Associação.
Em 1944, o objectivo da associação para providenciar a assistência aos jornalistas portuenses e  seus familiares perderia razão de ser com a criação de um sindicato único a nível nacional e de uma caixa de reformas dos jornalistas, a qual só alguns anos depois começou com a distribuição dos seus fundos.
Quando em 1948, Alfredo de Magalhães cessa funções, a Casa dos Jornalistas e do Livro está resgatada, a biblioteca guarnecida e estruturada e tinha sido retomado o pagamento de pensões.
No dia 8 de Outubro de 1949, a AJHLP inaugurava nas instalações da sua sede um refeitório, servindo almoços, jantares e ceias por 5$00 e 7$50.
Em 1952, será lançado o boletim mensal da AJHLP, designado de Gazeta Literária.
Em 1974, perante alguns sinais de degradação que o edifício já anunciava, a associação tenta alguns apoios financeiros para a sua conservação e construção de mais dois pisos, sendo o projecto da autoria dos arquitectos António Portugal e Fernando Lanhas. As obras são iniciadas, mas por falta de verbas, são interrompidas. 
Em 14 de Novembro de 1982, cumpria-se a cerimónia de comemoração do centenário da AJHLP e, sob a alçada de Viale Moutinho, continuava a ser anunciado da necessidade de se  proceder a obras urgentes na sede da AJHLP. 
Entretanto, é colocada à disposição dos sócios uma casa de férias, antiga propriedade de Antero de Figueiredo, situada em Meixomil, Paços de Ferreira.
Finalmente, em 2009, as obras anteriormente interrompidas são retomadas e concluídas.
Este último projecto é o resultado de uma reformulação executada pelos arquitectos Emílio Teixeira Lopes e Pedro Gomes e, hoje, o edifício está completamente recuperado.
No dia 12 de Outubro de 2022, nas comemorações dos 140 anos da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, foi descerrado junto da sede da AJHLP um busto de António Rodrigues Sampaio, da autoria de José Joaquim Teixeira Lopes (1837-1918), escultor que ficaria conhecido por Teixeira Lopes (pai) e, ainda, por ser o autor da estátua de D. Pedro V, localizada na Praça da Batalha.


 

Busto de António Rodrigues Sampaio



 
O edifício da AJHLP, com os seus cinco pisos, sito na Rua Rodrigues Sampaio, esquina com a Rua do Bonjardim, seria alvo de várias intervenções ao longo dos anos, de acordo com a narração anterior.
Os dois últimos andares destinam-se à instalação da Biblioteca/Hemeroteca, Sala de Leitura, e do Auditório Multiusos com capacidade para cem lugares. No terceiro piso, fica o bar/ café-concerto. O restante espaço destina-se aos serviços da AJHLP, depósito de espólio, arquivos e ateliers de criação.


 
 

À esquerda, o edifício da AJHLP, em 1948, quando decorriam as demolições para abertura do espaço onde iria surgir a Praça D. João I
 
 
 
 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

(Conclusão)

 Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano

 
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810.
Activista político, escritor, jornalista, polemista e historiador, é principalmente como romancista que Alexandre Herculano é mais reconhecido, partilhando com Garrett a génese do romantismo português.
Até aos 15 anos, frequentou o Colégio dos Padres da Congregação do Oratório de São Filipe de Néri, instalados no Convento das Necessidades em Lisboa. Entre 1830 e 1831, frequentou a aula de Diplomática na Torre do Tombo.
A sua actividade política, de defensor das ideias liberais, leva-o para fora de Portugal.
A obra que lhe dá mais fama é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume é publicado em 1846.
A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o seu sócio efectivo em 1852, e encarregou-o do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica, projecto que realiza em 1853 e 1854.
Em 6 de Junho do 1853, saiu de Lisboa, e percorrendo o norte do país, recolhe enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares.

 
 
Armário/Estante que pertenceu a A. Herculano, à guarda na Torre do Tombo

 
 
A exemplo do que aconteceria por todo o País, também no Porto, o 1º centenário do nascimento de Alexandre Herculano teve o devido destaque.
Em 9 de Abril de 1910, ocorre uma conferência sobre Herculano e a sua obra, no Centro Comercial, protagonizada pelo Dr. Manuel Monteiro.
É o Jornal “A Pátria” que, na sua edição de 3ª Feira, 26 de Abril de 1910, nos dá conta do acontecido durante os festejos do centenário do nascimento de Alexandre Herculano.
Assim, é-nos narrado que “…no Domingo, grandioso cortejo em honra de Herculano com cerca de 20 mil pessoas, quase 200 bandeiras e estandartes e muitas bandas de música, além das autoridades, do Palácio à Biblioteca Municipal, onde foi inaugurado o oferecido busto em bronze, com discursos. Houve sessões no Liceu da Trindade, na Sociedade de Instrução e Recreio Verdi, à Boavista, nas escolas feminina e masculina de Aldoar, onde foram descerrados retratos. À noite, como na véspera, festejos populares na praça D. Pedro, com iluminações e concertos pelas bandas regimentais”.
 
 
 
Cortejo durante Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano, em 1910 – Ed. Aurélio da Paz dos Reis; Fonte: CPF

 
 
Na foto anterior, em primeiro plano, está Marcos Guedes, um dos mais apaixonados servidores da Associação de Jornalistas e Homens de Letras e, um pouco atrás, de chapéu de palha, o filho de Aurélio da Paz dos Reis de seu nome Hugo, o terceiro dos seus quatro filhos.
Marcos Guedes foi durante anos redactor do jornal “O Primeiro de Janeiro” tendo, em 18 de Setembro de 1919, abandonado aquelas funções e a sua carreira na imprensa, para se dedicar, exclusivamente, à administração da "Tipografia Empresa Guedes", que fundara em 1902 (Rua Formosa 242-248), onde foram impressas algumas séries da revista “O Tripeiro”.
De notar ainda na foto que, em 1910, se observa no sentido ascendente da Rua de Santo António, a fachada do Bazar de Paris (que foi de Júlio Fassini), que ostenta a indicação de Bazar Mattos, a Sapataria Portuense e, bem na esquina, a Tabacaria Africana.

 
 
Perspectiva idêntica à da foto anterior, em 1940
 
 
 
Cortejo de homenagem a Alexandre Herculano terminando em frente à Biblioteca Municipal, ao Jardim de S. Lázaro, Maio de 1910

 
 
Cortejo de homenagem a Alexandre Herculano terminando em frente à Biblioteca Municipal, ao Jardim de S. Lázaro
 
 
 
 
 
 
Herculano foi o grande obreiro do desenvolvimento da Biblioteca Municipal, tendo começado por ser o seu Sub-Director, por nomeação de D. Pedro IV, que, para o efeito, o retirou das fileiras dos Voluntários da Rainha, (depois de tomarem e ocuparem a Cidade do Porto), confiando-lhe também a salvação do património cultural do País nas Províncias do Minho e de Entre Douro e Minho, cuja vandalização roubo e destruição pelo fogo se havia iniciado, a mando do usurpador, D. Miguel.
Após a vitória dos liberais e do levantamento, em sequência, do cerco de que a cidade tinha sido alvo, entre 1832-1834, Alexandre Herculano foi nomeado como 2º bibliotecário, na então recém-criada Biblioteca Pública Municipal do Porto.



Em frente, na Travessa de S. Sebastião (antiga Viela dos Gatos) viveu Alexandre Herculano



Em 30 de Dezembro de 1833, por o Prefeito do Douro e a Comissão Municipal entenderem que a Biblioteca Pública – provisoriamente instalada no Hospício de Santo António de Vale da Piedade, à Cordoaria, e no Paço Episcopal – necessitava de um edifício mais espaçoso, é mandado examinar, para esse efeito, o «abandonado Convento de Santo António da Cidade», por uma Comissão constituída pelo 1º Bibliotecário, Diogo de Góis Lara de Andrade, pelo Arquitecto da Cidade, Joaquim da Costa Lima Sampaio e pelo 2º Bibliotecário, Alexandre Herculano.
Em 1842, é definitivamente instalada no edifício do Convento a Real Biblioteca Pública do Porto e inaugurada, em 4 de Abril, dia do aniversário da Rainha D. Maria II.

 
 
Primeiras instalações da Biblioteca Pública Municipal do Porto (Cordoaria) onde, nos nossos dias, está a extremidade a sul do Palácio da Justiça

 
 
Dias depois de ter ocorrido a chamada Revolução de Setembro, Alexandre Herculano seria dispensado daquele cargo, numa exoneração com carácter político por decisão dos novos poderes instalados.
Os novos decisores reclamam de Alexandre Herculano, a sua colagem aos novos ares.
Assim, é emitida a seguinte directiva a Alexandre Herculano:

 
“« Illm.º Sr. = Tendo S. M. a Rainha determinado que a Câmara e mais autoridades e empregados jurem a Constituição de 1822, assim o faço saber a V. S.ª para que hoje, ao meio dia, venha ao Paço do Concelho prestar o mesmo juramento, e deferi-lo depois aos empregados dessa repartição. Deus guarde a V. S.ª
 
Porto 17 de Setembro de 1836 = Illmo.º Sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo = Manuel Pereira Guimarães, Presidente.»
 


A resposta de Alexandre Herculano não se fez esperar:
 

“«Ilm.º Sr. - Persuadido pela voz da íntima consciência de que não devo prestar o juramento para que V. S.ª me convida no seu oficio de hoje, julguei também que cumpria comunicar-lhe imediatamente a minha resolução.
A fé que prometi guardar à Carta Constitucional da Monarquia, selei-a com as misérias do desterro, e com os padecimentos e perigos de soldado, os quais passei na emancipação da pátria: para a conservação de um cargo público eu não sacrificarei, por tanto, nem a religião do juramento, nem o orgulho que me inspiram as minhas ações passadas.
Pode assim V. S.ª declarar a essa Ilm.ª Camara que o meu lugar de 2º Bibliotecario está vago, para que ela proponha ao governo atual outra qualquer pessoa, que por certo, melhor do que eu, desempenhará as obrigações a ele anexas. Deus guarde a V. S.ª Porto 17 de Setembro de 1836. - Illm.º Sr. Manoel Pereira Guimarães. = Alexandre Herculano de Carvalho.»
 

Passado cerca de um mês, Alexandre Herculano insistia junto do todo poderoso Manuel da Silva Passos (Passos Manuel):
 
 
Exmo.º Sr. Manuel da Silva Passos.
Há um mês que o 1.º Bibliotecário da Biblioteca Pública desta cidade e eu fomos convocados para prestar juramento à Constituição de 1822, que então e hoje, de futuro alterada, felizmente nos regia e rege. Ambos recusamos praticar este ato: procedimento a que, pela minha parte, me levaram as razões que V. Ex.ª verá da resposta que dei, e que remeto inclusa. Foi logo demitido o meu colega, e eu ainda aqui estou esquecido. Não atribuo isto a falta de equidade de V. Ex.ª, porque reconheço a retidão da sua alma e que nem ódio nem afeição seriam capazes de torcer os principios de V. Ex.ª, antes o lanço à conta dos muitos cuidados e negócio que cercam V. Ex.ª no alto cargo em que o colocou o voto unânime da nação e a livre escolha de S. M. a Rainha. Só da minha insignificância me dôo, que fez não ser eu lembrado de V. Ex., que a tantos com mão profusa tem liberalisado a honra da demissão.
Não creia V. Ex.ª, que por este modo a peço: porque nem uma demissão pediria ao governo atual: esta minha carta é apenas um memorandum que levo à presença de V. Ex.ª, como se eu fosse alheio ao caso; porém não indiferente à boa fama e glória de V. Ex.ª.
A Providência não se esqueça de V. Ex.ª nem de nós, como todos precisamos para que Portugal seja salvo.
 
Porto 19 de Outubro de 1836. = Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.»
 

 
Voltando às comemorações do centenário, na 2ª Feira (23 de Abril de 1910), véspera do cortejo atrás referido, tinham-se iniciado as festas académicas do 1.º Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano, no Teatro Príncipe Real, durante as cerimónias que aí tiveram lugar, os presentes assistiriam a uma espantosa oração do grande orador Alexandre Braga, filho (1868-1921), um reconhecido causídico, muito popular, eleito, em 1906, deputado republicano por Lisboa e, depois, sucessivamente, até à morte.
Haveria de ser ministro do Interior no governo de Azevedo Coutinho, que durou um mês, e ministro da Justiça no governo de Afonso Costa que foi derrubado por Sidónio Pais.
A década de 1910, correspondeu ao apogeu dos triunfos oratórios de Alexandre Braga, talento herdado de seu pai Alexandre Braga, pai (1829-1895), também, um grande orador e sobrinho do poeta Guilherme Braga (1845-1874), autor de Eccos de Aljubarrota, O Mal da Delfina, Os Falsos Apóstolos, O Bispo, entre outros.
Continuando na rota das comemorações alexandrinas, em 28 de Abril de 1910, é colocado à venda um folheto (número único) de homenagem a Herculano, pela Comissão de Festas do Centenário, com colaboração de António Carneiro, Abel Salazar, Cristiano de Carvalho, Guerra Junqueiro e algumas outras personalidades em destaque naqueles tempos.
Naquele folheto, comemorativo do primeiro centenário do escritor, Guerra Junqueiro usa o seu proverbial talento retórico para descrever, num texto hoje esquecido, o que a historiografia nacional devia a Herculano: 

 
 
«A História de Portugal era um enorme palácio desmantelado, com as janelas trancadas, as paredes fendidas pelos raios (…), e onde ninguém ousara penetrar com medo que desabassem aquelas podres escadarias monumentais, que contavam já setecentos anos de existência. Inspirava terror. Andavam lá dentro lobisomens, aparições lúgubres, fantasmas com sudários (…).
(…) Foi então que apareceu um homem extraordinário – Alexandre Herculano -, que abriu a porta desse pardieiro monumental, que andou lá dentro durante vinte anos consecutivos a levantar as escadas, a limpar os móveis, a abrir as gavetas, a consultar os livros, a erguer as paredes, os tectos, as colunas, e que, depois de um trabalho incalculável, sobre-humano (…), veio à rua dizer com simplicidade aos transeuntes estupefactos: “Podem entrar.”»
 
 
 
 
O 2º Centenário do nascimento de Alexandre Herculano, ocorrido em 2010, em plena actualidade, passaria praticamente ao lado das nossas vidas. Sinais dos tempos!
 
 
“Comemora-se amanhã o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano. Ou, mais exactamente, comemorar-se-ia, se o país que o sepultou nos Jerónimos, ao lado de Camões, não tivesse esquecido o homem que elevou a historiografia portuguesa a disciplina científica e que foi visto, por sucessivas gerações, como uma reserva moral da nação”.
Luís Miguel Queirós, In jornal “Público”, 27-03-2010
 
Em volta das comemorações do 2º Centenário do Nascimento de A. Herculano, no que diz respeito à cidade do Porto, destaca-se uma sessão evocativa promovida pela Cooperativa Árvore e pelo editor José da Cruz Santos que incluiu uma intervenção de Guilherme de Oliveira Martins, uma leitura de poemas pelo actor António Durães e o lançamento do álbum “Cinco Retratos para Herculano”.