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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

(Conclusão) - Actualização em 02/12/2019 e 25/01/2021


Companhia Vinícola Portuguesa


Em 1899, Clemente Menéres (Vila da Feira, 19 de Novembro de 1843 – Romeu, 27 de Abril de 1916) decide transferir para Matosinhos os armazéns e oficinas da firma Meneres & C.ª, que dirigia, com as instalações a serem ligadas ao comércio de vinho (a construção decorreu entre 1897 e 1901).
A empresa ficaria instalada numa área de 11 000 m2 no lugar do Prado (actual Matosinhos-Sul) em 15 meses, entre princípios de 1897 e meados de 1898, com entrada pela futura Avenida Meneres, que nessa altura, ainda não existia.
Em 1899, no mesmo Prado de Matosinhos, com fachada principal voltada para a Rua Juncal de Cima (actual Rua Brito Capelo), instalava-se, bem perto da Meneres & Cª, a Real Fábrica de Conservas de Matosinhos de "Lopes, Coelho & Dias, Lda". A primeira  de cerca de meia centena, que nas décadas seguintes se iriam implantar na então Vila de Matosinhos.



Desenho da fachada principal da "Lopes, Coelho & Dias, Lda"



"Real Fábrica de Conservas de Matosinhos" durante a visita do rei D. Manuel II em 1908 - Ed. "Illustração Portugueza" (7 Dezembro)


"Lopes, Coelho & Dias, Lda" e as suas instalações




Local onde esteve instalada a "Lopes, Coelho & Dias, Lda" - Ed. Graça Correia



À direita da foto, em 1945, em frente à "Lopes, Coelho & Dias, Lda" (à esquerda), os armazéns de vinhos Dias Reis




O chamado Prado de Matosinhos ou Campo da Junqueira, era uma vasta área plana onde tinha estado, até há alguns anos antes, um hipódromo, e por onde corria em direcção ao mar, a ribeira do Prado, que resultava da juncção de duas mais pequenas com nascentes e percursos distintos, chamadas de Carcavelos e da Riguinha, respectivamente.




Ribeira do Prado em 1900 – Ed. Emílio Biel




Planta de Matosinhos, de 1896, da autoria de Licínio Guimarães, no livro “A Indústria Conserveira em Matosinhos”, de Lopes Carneiro




A planta acima teve como origem o blogue de José Magalhães que, por sua vez, a obteve através da colaboração do Dr. António Lage Almeida, Bibliotecário da BMFL – CMM, do Dr. Adriano Silva, Bibliotecário da BPMP, e do Dr. Albano Chaves.
Na planta pode observar-se o desenho do hipódromo do Campo da Junqueira.
A propósito da actividade desse hipódromo, O Tripeiro de 1972 (efemérides) noticiava:

“4 de Abril de 1872 – Corrida de cavalos e garranos no Campo da Junqueira, em frente a Matosinhos, organizado pelo Oporto Hunt Club”.

Nos terrenos daquele hipódromo, começaria o Football Club do Porto, de António Nicolau de Almeida, em 1893, por dar os primeiros pontapés na bola.



Meneres & Cª, já como, Companhia Vinícola Portuguesa em Matosinhos




Publicidade ao vinho do Porto “Victoria” em 1901, com a gravura das novas instalações no Prado de Matosinhos




Em 18/12/1902 desejando conservar indivisíveis as propriedades que detinha e nas quais se incluíam cerca de 200 000 pés de sobreiros, Clemente Meneres registou então, notarialmente, a sociedade por quotas 'Clemente Meneres, Lda', associando a si a sua 2.ª esposa e outros familiares.
A sociedade por quotas, era um dispositivo jurídico introduzido por lei de 1901 e pressupunha uma gestão empresarial.
Note-se que, desde a fundação (1902) até 1908, a gerência da 'Clemente Meneres, Lda', era assegurada por Clemente Meneres e estava sedeada na Quinta da Avenida, em Vila Nova de Gaia, onde morava a família, passando a partir de 1908 para o ex-convento de Monchique (uma vez que esteve antes ocupado pela firma Meneres & Cª, e pela Barbosa & Cª, sendo depois arrendado a vários inquilinos).
Além desse facto decisivo de só a partir daquela data o ex-convento passar a integrar a Sociedade.




Quinta da Avenida ou Quinta do Meneres (identificada com 1) – Fonte: Ana Rita Correia de Sousa Ramos Lima, 2013, Relatório de estágio de Mestrado



Da primitiva Quinta da Avenida, junto à Avenida da República, em 2014, restava uma casa e uma área verde envolvente, tudo em situação de abandono.



Quinta do Meneres ou Quinta da Avenida em V. N. de Gaia com fachada em 1º plano voltada para a Rua Luís de Camões – Fonte: Google maps


Avenida da República em V. N. de Gaia em 1934




Na foto acima, é visível à direita uma pequena porção do Jardim do Morro, começado a levantar em 1927 com o derrube e grande movimentação de terras que se elevavam num morro, à saída do tabuleiro superior da Ponte Luiz I.
A Quinta da Avenida seguia-se a esta área, também à direita, um pouco mais para Sul.
Entretanto, surge uma contrariedade na incapacidade da firma Barbosa & Cª, pertencente a um genro, não ser capaz de lhe absorver a cortiça produzida em Trás-os-Montes, o que leva á criação de uma nova fábrica em Mirandela, sucessivamente apetrechada com maquinaria para calibrar, fazer rolhas, caldeira e outros equipamentos.
Procedendo à legalização definitiva da unidade fabril, em 18 de Agosto de 1914, a Sociedade Clemente Meneres, Limitada, com sede em Mirandela, requer, com assinatura de Clemente Meneres, na administração do Bairro Oriental do Porto, licença para o estabelecimento da nova fábrica de cortiça e seus derivados em Miragaia, no ex-convento de Monchique.
Porém, a 6 de Julho de 1918, verificou-se um incêndio na fábrica de rolhas da fábrica Barbosa & Cª, de um genro de Clemente Meneres, sedeada em Monchique, numa das dependências do ex-convento. O incêndio foi enorme, tendo ardido toda a fábrica Barbosa & Cª e, ainda mais dois armazéns acabados de reconstruir que tinham sido alvo de outro incêndio algum tempo antes, bem como a ilha contígua que viria a ser conhecida como Bairro do Ignez (constituído por 12 casas) e, além disso, ardido o andar superior da casa que foi a moradia antiga da “Clemente Meneres, Lda”.
Um prédio ocupado pela Guarda Fiscal e por um armazém de madeiras foram, também, severamente atingidos.
O mirante do antigo convento colapsou.




Instalações no topo de um edifício em Monchique que foi sede da firma antes das novas instalações



Armazém de cortiça (guardada sobre o telhado) em prédio anexo ao antigo Convento de Monchique c. 1900, com traseiras para a Calçada de Monchique




Fábrica “A Varina”



Sobre a gravura acima diz José Oliveira Nunes, In “Jornal João Semana”:

 “Tratava-se de uma ilustração do princípio do séc. XX, anunciando uma fábrica a vapor (A Varina, em Ovar) de conservas de peixe, carne, frutas e legumes, da qual Clemente Meneres foi sócio de 1903 a 1908. Esta empresa, com a denominação social de Gomes, Meneres & C.ª Limitada, sedeada no antigo Largo do Mártir S. Sebastião (actual Praça Almeida Garrett), inaugurou em 1905, durante a permanência em Ovar de um filho deste empresário, de nome Agostinho, uma sucursal ao sul da Praia do Furadouro (grande armazém de madeira, que veio a ser do Mateiro), para a recolha e salga de sardinha capturada não só naquela praia, mas ainda na Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, etc.”

Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para novas mãos, a sociedade Ferreira, Brandão & C.ª.
Em 1903, durante a Exposição Agrícola do Palácio de Cristal, inaugurada pelo rei D. Carlos, em 17 de Setembro, a Meneres & Cia apresentou-se com um stand.
Foi presidente da comissão Promotora da Exposição Agrícola, cargo que ocupava em acumulação com a de presidente da Direcção do Palácio de Cristal, o visconde de Guilhomil (José Geraldo Coelho Vieira do Vale Peixoto de Sousa e Villas-Boas).
Actualmente, é conhecido pelo facto de um seu bisneto, de seu nome André Villas-Boas, ter sido, há poucos anos, treinador do F. C. do Porto e, em 2024, passar a ser o actual Presidente do F.C. Porto.




Palácio de Cristal


Stand da Meneres & Cia na exposição Agrícola de 1903




Medalha comemorativa da “Exposição Agrícola e de Productos Mineraes” de 1903



Jornal "A Voz Pública", de 18 de Setembro de 1903





 

Em 1905, é formada a firma 'Companhia Vinícola do Porto', uma sociedade por ações com capital de 500 contos de reis e com sede no Porto tendo sido fundada por Alfredo da Fonseca Meneres (ocupando cargo de Presidente do Conselho Fiscal) e outros, cujo director continuou a ser o seu irmão José da Fonseca Meneres e passando ele a ser o presidente do Conselho Fiscal.
Em Dezembro de 1905, é interposta uma acção comercial por parte da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal-Porto, vulgo Companhia Velha e, desde 1889, com aquela designação, por uso indevido de designação comercial por parte da ‘Companhia Vinícola do Porto’.
Em 1908 a empresa passa, em sequência do litígio que decorria em tribunal, a designar-se ‘Companhia Vinícola Portuguesa’.
Como curiosidade diga-se que um eléctrico ligava a Companhia Vinícola Portuguesa ao Porto de Leixões e fazia o transporte de vinho.
O edifício sofreria poucas alterações ao longo dos tempos, tendo apenas tido uma ligeira ampliação em 1903 quando é introduzido um torreão no extremo da fachada voltada para a Avenida Meneres e obras de decoração das fachadas em 1929.


“A publicidade na imprensa e a participação em exposições era uma preocupação de Clemente Meneres, quer agora na Sociedade (Exposição de Paris, 1900; Exposição Universal de S. Luís, Estados Unidos, em 1904; Exposição Permanente de Produtos Portugueses, no Rio de Janeiro, 1906, Exposição do Rio de Janeiro, 1908; Exposição em Toulouse, 1908; Imperial International Exhibitions, Londres, 1909), quer nas anteriores firmas com os filhos, das quais nos chegaram excelentes cartazes dos finais do século XIX”.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves



Painel de azulejos da Companhia Vinícola Portuguesa



O painel de azulejos da gravura anterior, que ainda se encontra à entrada das antigas instalações, em Matosinhos (Casa da Arquitectura), reproduz um cartaz de publicidade ao vinho do Porto Victoria, já sobre a égide da Companhia Vinícola Portuguesa.



Cartaz de publicidade ao vinho do Porto “Victoria” – Autor: Eugène Ogé (1861-1936)



Rótulo de garrafa do vinho do Porto da marca “Julio Diniz”



Rótulo de garrafa do vinho do Porto “Africa”



Clemente Meneres morre em 27 de Abril de 1916 na sua Quinta da Avenida, que se situava junto à via-férrea, em V. N. de Gaia.



Escritório da “Real Vinícola Portuguesa”, c. 1910




Eléctrico dentro das instalações da Companhia Vinícola Portuguesa que pela Rua Brito Capelo fazia ligação ao Porto de Leixões



Na segunda década do século XX, depois fortemente agravadas pela Guerra, Agostinho Meneres fez um périplo pelos países nórdicos e Alemanha, na tentativa de encontrar clientes não só para o vinho como para a cortiça. Com o direito ao benefício do vinho do Porto, a Sociedade passou a vender também vinhos às firmas inglesas sediadas em Gaia (Croft, Sandeman).


Agostinho Meneres



Já depois da morte de Alfredo da Fonseca Meneres, a 12/07/1917, a Real Companhia Vinícola Portuguesa entra numa rápida agonia e o seu encerramento estava praticamente traçado.


Em 1922, a Companhia Vinícola Portuguesa acabará por ser absorvida pela Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal - Fonte: "realcompanhiavelha.pt"

 
Agostinho da Fonseca Meneres faleceria em 1926.



Como curiosidade, diga-se, que a “Real Companhia Vinícola do Norte” teria também o seu vinho do Porto da marca Victoria




Após a década de 1920, com a “Real Companhia Vinícola do Norte” a absorver a Companhia Vinícola Portuguesa, as instalações em Matosinhos começam a ser abandonadas e são usadas para dar guarida a uma população desalojada pelas obras de expansão do porto de Leixões.
Em 18 de Maio de 1943, um grande incêndio aconteceu nos armazéns da Companhia Vinícola que, para além de vários fardos de algodão ardidos, afectou a vida de dezenas de famílias pobres, que por lá estavam alojadas.
Só nos nossos dias, as antigas instalações da Companhia Vinícola Portuguesa, ganharam uma nova dignidade, após serem adquiridas pela Câmara de Matosinhos, dando lugar à Casa da Arquitectura.







“Funcionou de seguida, durante vários anos, como refúgio/albergue dos desalojados das casas demolidas junto às margens do rio Leça em Matosinhos e em Leça da Palmeira por causa da construção das Docas n.º 1 e n.º 2 do porto de Leixões, tendo aí nascido muitos matosinhenses.
Curiosamente, várias décadas depois e na sequência da descolonização de 1974/75, voltaria a desempenhar as mesmas funções em relação aos retornados das ex-colónias portuguesas em 1975.
1998: A Câmara Municipal de Matosinhos adquiriu o imóvel, em estado de abandono, por 4 milhões de euros (ou por 5 milhões em 2000?) tendo sido integrado no plano de urbanização de Matosinhos-Sul (anterior a 2006) da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira que pretendia nessa altura manter o edifício como pólo duma praça maior 'à espanhola' propondo-se a construção de equipamentos de turismo e lazer no edifício.
2008: Funcionaram neste imóvel oficinas e salas de aula de disciplinas Técnicas e Práticas dos cursos existentes então na Escola Secundária Gonçalves Zarco, devido às obras de reabilitação da escola.
01/07/2013: Este conjunto de 8 edifícios foi classificado como Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 431-B/2013, DR, 2.ª série, n.º 124 (suplemento) que também fixou a zona de especial proteção (ZEP) do monumento.
Outubro de 2014: O projeto de intervenção nesta antiga unidade fabril, da responsabilidade do arquiteto Guilherme Machado Vaz e resultante da proposta vencedora da QTCIVIL - ENGENHARIA E REABILITAÇÃO, S.A. no valor de €2 999 105, terá espaços para ateliers, biblioteca e auditório, acolherá a Orquestra de Jazz de Matosinhos num dos 8 blocos do edifício, terá uma praça ao ar livre para restauração e terá lojas que serão concessionadas; de acordo com a autarquia, o investimento estimado para a empreitada ronda os 3 180 milhões de euros”.
Com o devido crédito a Jorge Fernandes Alves, Professor catedrático da FLUP, In Revista da Faculdade de Letras, Porto, III Série, vol. 8, 2007, pp. 113-155




Instalações degradadas da Companhia Vinícola Portuguesa, antes da última reparação




Casa da Arquitectura - As instalações da Companhia Vinícola Portuguesa recuperadas - Ed. Lucília Monteiro

terça-feira, 20 de novembro de 2018

(Continuação)


CLEMENTE MENERES

O patriarca da família Meneres, Clemente da Fonseca Guimarães, natural da Vila da Feira, do lugar da Cruz, descendia de pais agricultores que, além de cultivarem os terrenos agrícolas de que eram proprietários, possuíam uma serralharia que ocupava na ocasião, cerca de 40 operários.
Clemente Guimarães iniciou na oficina a sua aprendizagem após ter terminado a instrução primária: a oficina dos pais era especializada em fechaduras e vendia para a cidade do Porto a maioria da sua produção, mas uma outra parte seguia depois o caminho da exportação, para o Brasil.
Clemente Guimarães à revelia dos seus pais, haveria aos 15 anos, de embarcar para o Brasil para se juntar a um tio.
Quando chegou ao Brasil, acabaria por encontrar o tio, na altura em que ele tinha acabado de liquidar um estabelecimento que possuía.
Retirado para a chácara, no Catumbi, propriedade do tio, acaba por casar, por influência deste, em 18/08/1860, no Rio de Janeiro com a sua filha Maria da Glória Guimarães da Cruz.
Passados 4 anos regressa por influência do tio a Portugal, passando a viver na Rua da Torrinha.
Entretanto, em 1867, afasta-se do tio/sogro por desavenças relacionadas com dinheiros e, por acção do pai, depois de ter alcançado um emprego como caixeiro, ele arranja-lhe um sócio capitalista, João Joaquim Paes, e os 3 contos de reis que o sogro lhe negara, para montar um negócio.
É nesta altura que passa a intitular-se, com o intuito de se afastar do apelido Guimarães que o ligava ao sogro, por Clemente Meneres.
Surge a 'Paes & Meneres' e a fábrica de rolhas de cortiça em Monchique, em 1872, que depois de diversas vicissitudes haveria em 1908 de reanimar a sua actividade.


“ (…) da época, surgiu então a 'Paes & Meneres' como fabricantes e negociantes de rolhas com depósitos de cortiça para exportação e ainda como comerciantes de drogas (enxofre, 'cimento romano', petróleo, aguardente, genebra, sumagre, baga de sabugueiro, pês louro e soda) com porta aberta na Rua da Ferraria; vendendo para a cidade do Porto e para província, a empresa estendeu os seus negócios ao Brasil e a alguns países europeus, para onde enviava produtos tradicionais (sobretudo vinho, rolhas, palitos e ferragens para o Império do Brasil, e frutas para Alemanha, França e Inglaterra)”.
Em 10 de Abril de 1874, fez-se escritura de cessão da 'Paes & Meneres' e escritura de trespasse da quota de João Joaquim de Paes a Clemente Meneres (avaliado em 28 contos de reis pagos através da apresentação de 8 letras de 3500$000 reis que seriam sacadas uma a uma de 6 em 6 meses a partir de 02/10/1874 e até 02/01/1878), este já na qualidade de sócio e único gerente da nova sociedade então criada por ele com a firma 'C. Meneres & Cª' e para a qual entraram como sócios Joaquim Silvano Filho (em 1897, tendo uma Fábrica de sabão, requereu a construção de uma casa destinada a escritório e armazém na R. de Carvalho Barbosa) e Alvaro Carneiro Geraldes (filho duma tradicional família de comerciantes do Porto com grande ligação ao Brasil, deslocou-se de imediato para o Brasil como representante da empresa no Rio de Janeiro), para continuar os negócios da 'Paes & Meneres' que só foi dissolvida por causa da retirada natural, por idade avançada, do sócio mais velho e capitalista, João Joaquim de Paes; a 'C. Meneres & Cª' surgiu durante vários anos nos almanaques como 'fábrica de rolhas para exportação, trabalho braçal e a vapor' no cais da Alfândega (na parte oriental do edifício do extinto Convento de Monchique).
(…) em fins de abril de 1874, a 'C. Meneres & Cª' já estava organizada com Joaquim Silvano Filho a assegurar o expediente na sede, Álvaro Carneiro Geraldes no Império do Brasil para controlar e ampliar as exportações, e Clemente Meneres a procurar potenciar os ganhos a montante assegurando o abastecimento de matéria-prima (cortiça) a preços e quantidades mais convenientes (assim, e acompanhado de um amigo conhecedor da cortiça, Clemente Meneres partiu a 14/05/1874 na diligência da ex-mala posta do Porto para Bateiras, e daqui até Foz Côa, onde verificou que os sobreiros locais eram consumidos como lenha pelos seus habitantes, tendo então ambos atravessado o rio Douro para chegarem ao Quadraçal, pelo Vale de Sinada, a 18/05/1874 e, ás 16:00 desse dia, chegaram ao lugar do Romeu em Mirandela abancando no tasco da Maria Rita onde, não havendo nada para comer, mandaram assar bacalhau acompanhado de pão negro de centeio); a 'C. Meneres & Cª', para além da sua fábrica de cortiça e da sua loja de comércio, procurava instalar na R. da Restauração, em espaços alugados a João Joaquim de Paes (o 1.º sócio de Clemente Meneres), uma fábrica de conservas que veio a ser conhecida como a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias'.
Fonte: Professor Jorge Fernandes Alves


Aquela Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias, com sede na Rua da Restauração, produzia conservas de peixes, carnes, frutas, legumes e doces. A fábrica foi pioneira no Norte do país na introdução do método Appert (método de enlatar alimentos), e trabalhava com produtos oriundos de Trás-os-Montes.
Uma Resolução do Tribunal do Comércio do Porto acaba por dissolver a 'C. Meneres & Cª' por causa da demanda que os 2 sócios de Clemente Meneres tinham feito por terem divergências com ele, no âmbito da gestão. Indemnizados os sócios no mesmo dia associa-se a 2 novos sócios numa sociedade em comandita com a mesma firma da anterior 'C. Meneres & Cª' e para continuação dos negócios da anterior.


“A 9 de Março de 1876, a firma C. Meneres reorganiza-se e vai associar-se a Rául Cirne e António Tomás dos Santos, tendo a sociedade como objectivo a continuação da anterior, com o património da Fábrica Luso Brasileira em Monchique, no Porto e o comprometimento de Clemente Meneres de ceder à empresa as rolhas e cortiças lá fabricadas por sua conta para revenda com uma comissão de 20%; os lucros seriam distribuídos por metade para Clemente Meneres e por 1/4 a favor de cada um dos outros 2 sócios; a fábrica de cortiça passou rapidamente a depósito de cortiça quando Clemente Meneres instalou a fábrica de cortiça em Mirandela (junto da ribeira do Quadraçal e designada atualmente por 'fábrica velha') e passou a enviar a sua produção para o Porto, mas ao mesmo tempo começou a funcionar na R. da Restauração a 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' como 2.ª unidade da 'C. Meneres & Cª'.
Era um óbice ao escoamento dos produtos transmontanos, o custo e demora no escoamento, o que impediam o desenvolvimento dos negócios. Clemente Menéres apercebeu-se da necessidade de fazer ali chegar a rede ferroviária.
Em 1878, Fontes Pereira de Melo, em visita a Mirandela, tinha já prometido uma linha até à cidade ao longo do Rio Tua. Clemente adere ao fontismo e inicia uma campanha em prol da construção da linha do Tua, contactando vários potenciais investidores e fazendo pressão junto de deputados. (Em 1883, chegou a concorrer ao concurso de construção e exploração do troço entre Mirandela e Bragança, que passava por Romeu, mas a sua sociedade não foi a vencedora. Este troço, no entanto, só seria inaugurado apenas em 2 de agosto de 1905, quando entre a foz do Tua e Mirandela o tinha sido em 1887).
Entretanto a linha do Douro em funcionamento em 1875 só seria concluída até Barca d’Alva em 1887.


Horário da linha do Douro em 1875 entre Porto e Caíde


A 1 de Fevereiro de 1879 entra como sócio na fábrica Constantino Joaquim Paes, filho de João Paes, passando a firma a designar-se Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres.
A gerência era assumida em pleno pelos 2 sócios António Tomaz dos Santos e Raul Cirne, embora sujeitos a um conjunto de condições.
Em 1881 a empresa tinha uma sucursal em Espinho para a preparação de sardinha em azeite e a fábrica da R. da Restauração apresentava alguma debilidade por estar instalada numa casa de habitação arrendada (inicialmente a João Joaquim de Paes e depois a seu filho e sócio comanditário Constantino Joaquim Paes) onde funcionavam 2 cozinhas e havia 1 oficina de funilaria para construir e manipular as latas ocupando 50 operários que subiam sazonalmente aos 120 por ocasião da colheita da fruta.
No ano de 1881 a fábrica de cortiça do extinto Convento de Monchique (também antigo armazém da Alfândega do Porto) era a única existente no Porto e nela todo o trabalho era manual.


Instalações do Convento de Monchique com a capela em ruínas em 1º plano


Os negócios do Porto estavam agora estatutariamente entregues aos 2 gerentes Antonio Tomaz dos Santos e Raul Cirne, pois Clemente Meneres vivia na sua Quinta do Romeu onde também tinha a sua empresa agrícola para produzir frutas, vinho e sobreiros e também instalou uma fábrica de produção de cortiça que era exportada principalmente para a Alemanha e para o Brasil recebendo deste último ainda importantes encomendas de azeite em almotolias, para além dos vinhos tratados que enviava para Gaia.
Em 9 de Julho de 1885, os sócios comanditários Clemente Meneres e Constantino Joaquim Paes abdicaram de 1/3 da sua quota a favor de um 5.º sócio, Porfirio de Macedo que passou a integrar os corpos gerentes da sociedade.
Em 30 de Abril de 1887, A 'Santos, Cirne & Cª - sucessores de Paes & Meneres' foi dissolvida por retirada amigável de Clemente Meneres, que ali deu quitação geral, por já ter sido compensado da sua participação; todo o ativo da extinta sociedade (então representado pela 'Companhia Luso-Brasileira - Fábrica de Conservas Alimentícias' e pela pequena fábrica de salga e conservas de sardinha de Silvalde a sul de Espinho) passava para a nova empresa de imediato constituída pelos 4 sócios e que passou a designar-se de 'Santos, Cirne & Macedo'.
Em 1887 Clemente Meneres toma o comboio para o Porto transportando consigo a família, os operários e as máquinas para montar de novo a fábrica de rolhas num dos armazéns do extinto Convento de Monchique e parte de novo para o Brasil para arranjar clientes.
De volta a Portugal faz com os seus filhos homens (outros já tinham à data falecido), Alfredo da Fonseca Meneres e Agostinho da Fonseca Meneres, a firma 'Clemente Meneres & Filhos' integrando nela todas as propriedades do Porto e de Trás-os-Montes.
O edifício do extinto Convento de Monchique foi ampliado, de forma a incluir a residência e as instalações para a sociedade comercial, arrendando ainda a terça parte que lhe não pertencia (a parte oriental do ex-convento passou a albergar as 2 principais atividades, a fábrica de rolhas de cortiça e o armazém de vinhos e doutras bebidas com uma grande variedade de marcas e géneros, desde vinho do Porto, moscatel e malvasia e licores diversos, tanto de produção própria como de produção alheia); anúncios em jornais e não só, de produção artística, apresentavam a empresa 'Clemente Meneres & Filhos' como fornecedora da Casa Real e costumavam apresentar referências relativas às distinções obtidas nas exposições internacionais (Filadélfia em 1876, Paris em 1889 e Lisboa em 1884), tanto mais que uma das marcas de vinho do Porto era a 'Dom Luiz' com autorização expressa do rei D. Carlos I para o efeito.
Em Maio de 1893 falece a sua mulher Maria da Glória da qual teve 10 filhos.
Em 1895 cria a 'Meneres & Cª' incluindo na sociedade existente a sua filha Leonor.
Esta casaria em segundas núpcias com Joaquim da Silva Barbosa.
Em 1897, Clemente Meneres separou-se do seu genro Joaquim da Silva Barbosa que ficou com a fábrica de cortiça, mudando-a para a Alfândega Velha sob a firma 'Barbosa & Cª, em comandita'.
Por sua vez a 'Meneres & Cª' ergueu em 15 meses os novos armazéns e oficinas da empresa, de acordo com o projeto do Eng.º António da Silva, no Prado de Matosinhos.
Texto com o devido crédito ao Professor Jorge Fernandes Alves

(Continua)