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sexta-feira, 16 de junho de 2017

(Continuação 8) - Actualização em 07/05/2021

Balizas do rio Douro


Farol de São Miguel-o-Anjo 


“O Farol de São Miguel-o-Anjo, também conhecido por Torre, Capela ou Ermida de São Miguel-o-Anjo, situado junto ao Jardim do Passeio Alegre é um primitivo farol português, classificado como Imóvel de Interesse Público que se localiza na Cantareira, Cais do Marégrafo, na freguesia da Foz do Douro.
Primeiro edifício puramente renascentista datado em Portugal e um dos mais antigos da Europa.
Trata-se de uma torre quadrangular em cantaria de granito encimada por uma cúpula de tijolo com oito gomos, formando uma pequena abóbada, rebocada e caiada de branco, que contém uma grade de ferro a substituir a primitiva balaustrada, apoiada numa cornija lavrada, que encima as quatro paredes do edifício.
O seu interior apresenta uma forma octogonal, com três nichos com o formato de conchas, incrustados na parede do lado do rio. Em cada nicho haveria uma imagem. O central, mais alto que os outros dois tinha um pequeno altar na sua base. Uma escada em caracol, incrustada na parede junto à porta, faculta o acesso à cobertura.
Quanto ao lugar onde estaria situada a luz do farol, o edifício não mostra o mais leve sinal. Segundo alguns era no interior da torre, em frente à vidraça da janela da parede oeste, hoje tapada pelo edifício da Guarda-Fiscal, que estava posta a candeia que alumiava o farol. A comprová-lo existe um manuscrito antigo que afirma «existir uma grimpa no topo da abóbada que servia de respiradouro ao farol».
Em 1527, foi mandado construir, conforme reza uma inscrição latina na parede voltada para o rio, que traduzida diz: "Miguel da Silva, bispo eleito de Viseu, mandou construir esta torre para dirigir a navegação, ele mesmo deu e consignou campos comprados com o seu dinheiro, com o rendimento dos quais foram acesos fogos de noite perpetuamente na torre, no ano de 1527".
Desativado o farol nos meados do século XVII, manteve a partir daí, somente o uso como Capela, sendo a construção classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951.
Em 1841 foi construído um edifício anexo à Capela-Farol, para aí instalar um posto da Guarda-Fiscal.
Em 1852 foi edificada uma torre anexa, com 3 pisos, onde foi instalada uma estação telegráfica”.
Fonte: Teixeira da Silva



Depois de anos ao abandono, no ano de 2017, foi decidido recuperar a capela-farol e a sua envolvente, de modo a que seja criado um Núcleo Interpretativo do Farol/Ermida de São Miguel-o-Anjo, inserido no projeto global de recuperação e requalificação deste local emblemático da cidade do Porto, permitindo, assim, vir a potenciar o conhecimento sobre o primeiro farol construído de raiz em território nacional, por volta de 1528.
Finalmente, em 2020, foi recuperado todo o espaço adjacente à capela-farol.
Desde há alguns anos, o complexo encontra-se ocupado com uma delegação dos Pilotos da Barra do Douro.



Inscrição latina, na fachada sul



Farol-capela e a antiga estação telegráfica de 3 pisos, antes da última intervenção


Em 2020, a torre onde esteve a estação telegráfica já está recuperada. À direita o farolim da Cantareira – Ed. Manuela Campos




A Cantareira em 1848


A imagem anterior é segundo o site “PortoDesaparecido” :


“…reprodução de uma gravura representando a Cantareira na Foz do Douro que pertencia a um conjunto com o título: «As margens do Douro, coleção de doze vistas». Esta coleção de vistas foi desenhada por Cesário Augusto Pinto, em 1848, e foi editada na litografia de Joaquim Vitória Vilanova, com sede na Rua do Campo Pequeno, na cidade do Porto, em 1849”.


Mesma perspectiva (actual) da gravura anterior, com capela-farol de S. Miguel-o-Anjo (à esquerda) e, em frente, a capela de Nª Sª da Lapa




Eram várias as designações por que eram co­nhecidas as pedras e rochedos localizados à en­trada da barra do rio Douro, perfeitamente visí­veis no desenho anterior, em que tam­bém se veem a igreja matriz da Foz, a capela de S. Miguel-o-Anjo e a capela de Nossa Senhora da Lapa.
Havia a "Ponta do Dente", imagina-se porquê; o "Aguião", que a maré- cheia, encobria; a "Bezerra de Fora" e a "Bezerra de Dentro", no enfiamento do castelo. Os manuais de navega­ção citam a seguinte rota: "por entre a pedra da Olinda e o Cabedelo, continua a linha navegá­vel...". E também era assinalado o "canal da Laje, que fica entre a pedra Davra e os penedos Fogamanadas e os filhos da Prelonga...".



Capela-Farol de S. Miguel-o-Anjo, vista de terra, em gravura de Gouvea Portuense




Gravura a água-forte da Capela-Farol de S. Miguel-o-Anjo



Na última gravura de Manoel Marques de Aguilar, vê-se a Capela de S. Miguel o Anjo e o Forte de S. João da Foz com o destaque para a cúpula da Igreja renascentista (1542) dentro do Castelo.
Sobre este farol/Capela fala-nos o texto que se segue da autoria de Germano Silva:

“…balizas deve entender-se as marcas para a orientação de navios, que tanto podem ser árvores de grande porte; edifícios cons­truídos em sítios elevados ou de enormes proporções; ou torres construí­das propositadamente para o efeito. 
No rio Douro, entre a foz e a Ribeira, houve, ao longo dos tempos, especial­mente quando aquele rio era um porto natural, várias dessas marcas, umas natu­rais, outras feitas pelo próprio homem, para ajudar os mareantes a conduzir os seus barcos em segurança quando de­mandavam a perigosa barra do Douro. A mais antiga julga-se que tenha sido um pinheiro que se erguia mesmo à entrada do rio. Mas a árvore um dia secou, mirrou e terá caído numa noite de ventania. 
Em 1867, um grupo de mer­gulhadores que se ocupavam em quebrar alguns rochedos existentes no leito do rio à entrada da barra, para facilitar a entra­da dos barcos, encontraram debaixo das águas uma estátua de pedra que repre­sentava a figura de um homem vestido à romana - O Togado. 
Passados poucos dias, novo achado: desta feita, uma lápide com uma inscri­ção em latim. E logo a seguir apareceu uma coluna de pedra. A leitura da legen­da, de que constava o ano de 1536, não deixava dúvidas: a lápide, a estátua e a co­luna faziam parte de uma espécie de mo­numento mandado colocar a meio do rio pelo bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, para servir de orientação aos navios que pretendiam entrar na barra do Douro. 
A esta altura da crónica, estou a imagi­nar o leitor a perguntar: e que tinha o bis­po de Viseu a ver com a foz e com a entra­da e saída de navios no rio Douro? Tinha, sim senhor. D. Miguel da Silva, além de ser bispo de Viseu, era, também, abade comendatário do mosteiro beneditino de Santo Tirso, a que pertencia o couto da Foz do Douro, logo tinha interesses nos rendimentos resultantes dos impostos que o couto pagava àquele convento. 
Voltemos à estátua. Serviu, na foz do Douro, seguramente como marca de orientação aos navios. Deve ter substituí­do o tal pinheiro. Pelo teor da legenda, a estátua estava colocada em cima de uma estrutura feita em pedra e sustentada por quatro colunas. 
Muito perto do local onde fora coloca­da a estátua, e com o mesmo intuito, o de facilitar a entrada e a saída da barra do rio Douro, o mesmo bispo, D. Miguel da Sil­va, mandou fazer, em 1538, quase no meio do rio, uma capela-farol que colocou sob a proteção de S. Miguel-o-Anjo. 
Visto do exterior o edifício, que ainda existe, tem a forma quadrada, mas inte­riormente era octogonal. Em tempos idos, na parte voltada ao rio, tinha uma espécie de átrio com assentos de pedra. Ainda na fachada voltada ao Douro, tinha gravada numa pedra a seguinte legenda em latim: "Salvos ire rogo Deum", ou seja "Rogo a Deus que passem sãos e salvos". Tinha, porque a inscrição já quase se não lê”.
 


Também serviu de baliza aos navegantes do rio, a Capela de Santa Catarina, A Torre da Marca, A Igreja dos Clérigos e a Torre da Lapa, que nada tem a ver com a igreja, mas sim, com a estrutura na qual esteve o telégrafo e que foi também moinho, situada nas imediações da igreja da Lapa.



Farol meio escondido no fim do século XIX  e posto de Pilotos, e lá muito atrás, o Marégrafo – Ed. Emílio Biel



A Capela de Nossa Senhora da Lapa (à esquerda) e o Farol/capela de S. Miguel-o-Anjo, Torre Telegráfica e Estação dos Pilotos (à direita) e, na ponta do cais, o marégrafo – Aguarela de Elisabeth Reid



Cais do Marégrafo - Pilotos da Barra do Douro, Marégrafo e  Casa da Consulta


A entrada na barra do Douro sempre apresentou dificuldades para ser ultrapassada e era tarefa, apenas, para os mais experimentados.
Por esta razão, alguns pescadores de S. João da Foz devem ter-se tornado, com a sua experiência, pilotos de barra.
Por isso, sem qualquer enquadramento, aqueles que melhor conheciam os perigos do local ofereciam-se para desempenhar a função de ajudar os comandantes das embarcações, que desconheciam os perigos escondidos, a vencer aquela barra.
A Câmara do Porto decidiu criar, então, em 1584, um corpo de pilotos devidamente enquadrados, que guiasse a entrada e saída das embarcações que chegassem ao Douro.
 
 
“É curioso observar que mal se presenciava um navio ao longe, uma catraia se encaminhava em seu auxílio, sendo o piloto desta embarcação a conduzir o navio para um melhor lugar. Esta função já tinha sido implementada na época de D. Filipe II (1584), o que iria proporcionar em 1628, a criação do Regimento dos Pilotos da Barra, que determinava a sequência de operações a observar obrigatoriamente pelos pilotos. Um século mais tarde, seria colocado em prática um novo regimento, com pequenas alterações. Estes pilotos, determinavam a graduação do navio, assim como tomavam o seu leme de forma a introduzi-lo dentro do porto. Na ausência de vento, entravam as embarcações grandes, auxiliadas pelas catraias dos outros pilotos da terra”.
Cortesia de Ruben Ribeiro (Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
 
 
 
 
O corpo dos Pilotos da Barra do Douro assentou arraiais junto da foz do rio, próximo da capela de Nossa Senhora da Lapa que, dizem, será mais antiga que a capela de S. Miguel-o-Anjo.
A Senhora da Lapa ficou, assim, a ser a padroeira dos pilotos.
O edifício, que ainda hoje ocupam, teria sido construído, segundo alguns historiadores, em 1841, adossado a uma fachada da capela-farol de S. Miguel-o-Anjo.
Por outro lado, pela observação da gravura (1848) “A Cantareira” de Césario Augusto Pinto, já exibida, se observa que o edifício dos pilotos ainda não tinha sido construído. Será, então, aconselhável dizer-se que aquela construção será de meados do século XIX.
Entretanto, quanto à torre telegráfica, também ela adossada a uma fachada da capela de S. Miguel-o-Anjo, não há dúvidas. Foi levantada em 1852.
 
 
 
Pilotos da Barra do Douro (em primeiro plano)
 
 
Actualmente, e desde há alguns anos, os pilotos passaram a ser “Pilotos da Barra do Douro e Leixões”.
Para além da função de manobrar as embarcações pela barra do rio, os pilotos cuidavam, ainda, de duas estruturas assentes no cais do Marégrafo – a Casa da Consulta e o Marégrafo.


Marégrafo - In: “portoarc.blogspot”

 
Na foto anterior, instalado no chamado Cais do Marégrafo, a sul da capela/farol de S. Miguel-o-Anjo, junto ao Anemógrafo (o medidor de ventos), observa-se o Marégrafo da Cantareira que servia para medir o fluxo e refluxo das marés.
O Marégrafo da Cantareira regista o nível médio das águas da barra através de uma boia que flutua num poço.
Teria sido instalado, algures, no último quartel do século XIX.
 
 

Cais do Marégrafo, em 1900 – Ed. Carlos Pereira Cardoso
 
 

O Marégrafo, em destaque na elipse, a preto, em 1892, na planta de Telles Ferreira



Em pleno século XX, seria construído um pequeno edifício, abarracado, no cais do marégrafo, denominado “Casa da Consulta”, em substituição de um outro, que tinha sido alienado pela autoridade marítima e localizado nas imediações.
Na “Casa da Consulta” funcionavam os serviços de sinalização diurna por balões e os comandos eléctricos da sinalização luminosa para o período nocturno.
No ano de 2021, a “Casa da Consulta” seria demolida e os serviços que aí operavam foram descentralizados para outros equipamentos.
 
 

Casa da Consulta, a meio da foto, no Cais do Marégrafo – Fonte: AHMP
 
 

Casa da Consulta, com o seu mastro de sinalização, no Cais do Marégrafo - Ed. Igor Martins/Global imagens, In JN
 
 

Demolição da Casa da Consulta



Cantareira - Desenho do arquitecto Alcino Soutinho o responsável pelo projecto da Câmara Municipal de Matosinhos






O Togado e a Cruz de Ferro

O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.




O Togado



“Numa descrição da barra do Douro, de Manoel de Pimentel (1650-1719), In “A Arte de Navegar” é referido,


«Cruz ou pilar, que he huma rocha onde há huma torrinha redonda com a Ermida de S.Miguel, que está na borda da agua na ponta das pedras de São João da Foz, e assim se governa até estar perto da Cruz, ou pilar, que he huma rocha, onde ha huma torrinha redonda, costeando-a o mais de perto que puder ser, deixando-a a bombordo; e outra pedra, que está em meio canal, ficará a estibordo através do navio; e passada ella, se vai por meio canal até a Cidade, e se amarra ao cais, ou no meio do rio».


Essa torrinha redonda foi mandada construir, em 1536, por D. Miguel da Silva. Tratava-se de um pequeno templo, de planta circular, que assinalava um dos rochedos da barra depois conhecido como Cruz de Ferro.
Nesse pequeno templo terá sido colocada uma estátua que ficou conhecida pelo nome de “O Togado”.
Quando no âmbito dos trabalhos de levantamento dos paredões das margens do rio Douro e dos cais, na zona da Cantareira, conduzidos pelo engenheiro Manuel Afonso Espergueira (1835-1917) foi retirada do Douro em 1867,tal facto seria noticiado em O Comércio do Porto na edição do dia 13 de Junho de 1868, que referia o achado de uma «…estátua de pedra de granito, que mede 1m,30 de altura, (…) bem esculpida e representava um homem vestido à romana».
E considerava que era de crer que esta estátua estivesse colocada na primeira Cruz de Ferro que existiu na Barra. 
Foi recolhida pelo arquitecto e arqueólogo Joaquim Possidónio da Silva (1806-1896), 1º director da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses (fundada em 1863), que a adquiriu para o Museu do Carmo em 1886”.
Com a devida vénia ao admin. do blogue “doportoenaoso.blogspot.pt”



“N.º 3872 —Estátua de granito que servia no seculo XVI para indicar a entrada dos navios no rio Douro,- que o bispo D. Miguel mandára alli collocar a fim de evitar naufrágios. Esta estatua havia caído no fundo do rio, porém foi achada ha muitos annos na ocasião de se concertar o caes, tendo ficado também por muito tempo exposta na praia. O sr. Possidonio da Silva conseguiu adquiri-la em 1886 para se conservar a memória do humanitário prelado que tomou tão util providencia”.
In: Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, em 1892



“ (…) Na mesma ocasião também foi descoberta uma lápide e foram recolhidos diversos fragmentos de colunas. As colunas seriam marcas que assinalavam os rochedos por entre os quais se navegava e uma lápide de granito, com uma inscrição, também guardada no referido museu e referida no citado catálogo, com o n.º 3872 bis —Inscripção em pedra de granito pertencente á estatua a que se refere o número anterior.
Aquela lápide dizia:
MICHAELSILVIV / EPISCOP. VISENS. / NAVIGANTIVM SALVTISCAVSA / TVRRISIIFECIT / ETIIIICOLVMNAS / POSVIT / ANN. M. D.XXXV. 
(Miguel Silva Bispo vendo a necessidade de salvar navegantes fez duas torres e colocou 4 colunas no ano de 1535)”.
Com a devida vénia ao admin. do blogue “doportoenaoso.blogspot.pt”




Então, teria sido o bispo D. Miguel da Silva quem teria mandado erigir, num rochedo que portava uma cruz e reconhecido como Cruz de Ferro, em frente da capela/farol, uma marca de navegação personalizada numa estátua de uma personagem vestida com uma toga e a tal cruz. 
Numa cheia de grandes proporções em 1788, esta última marca sinalética sofreu danos de vulto e teve que se proceder a obras de restauro.
Entretanto, supõe-se que o Togado há muito que teria colapsado.
Aquelas obras foram conduzidas pelo director de Obras Públicas, o arquitecto e engenheiro militar José Champalimaud de Nussane (1730-1799), que foi escolhido para o cargo pelo presidente e inspector das Obras Públicas da cidade, José Roberto Vidal da Gama (governador da Relação do Porto de 1786 a 1790).
O projecto seria executado pelo mestre pedreiro José de Sousa e pelo mestre ferreiro António do Pinho.
Em Março de 1789, um ano depois do colapso da antiga marca fluvial, a nova já estava inaugurada.
 
 

Cruz de Ferro. Projecto de José Champalimaud de Nussane


Enquanto o Togado, que se encontrava submerso, foi recolhido durante obras acontecidas, em 1868, no cais da Cantareira, a Cruz de Ferro foi colocada fora de serviço em 1862.




À esquerda, bem no canto, a igreja de S. João Baptista, e o paredão da margem direita já construído
 
 
 
Os faróis e os farolins, desde há séculos, constituem as balizas de navegação mais usadas pelos mareantes.
Presentemente, têm características próprias e bem conhecidas de cadência dos seus sinais luminosos, cor e duração dos mesmos.
O que os distingue é o alcance: aceita-se que para os faróis será superior às 15 milhas náuticas. Inferior a este valor, já será considerado um farolim. 


(Continua)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

(Continuação 9)

11.8 Forte de S. João Baptista da Foz e imediações


Forte de S. João Baptista da Foz e Capela Renascentista de S. João da Foz



O Forte de S. João Baptista da Foz, também conhecido como Castelo de S. João da Foz, localiza-se na freguesia da Foz do Douro. Ergue-se em posição dominante na barra do rio Douro, guarnecendo o acesso fluvial à cidade do Porto.
Iniciado durante o reinado de D. Sebastião (1557-1578), na regência da sua avó, a rainha D. Catarina (foi arquiduquesa da Áustria, infanta de Espanha e rainha de Portugal como esposa de D. João III), em 1570, sob a supervisão de João Gomes da Silva, diplomata e homem de confiança da Corte, constituía-se numa simples estrutura abaluartada, envolvendo uma capela e um paço abacial anexo, mandado edificar por D. Miguel da Silva (1480-1556), bispo de Viseu, tarefa, para a qual, recorreu aos projectos do arquitecto Francesco de Cremona recrutado em Itália.
Bem perto e pela mão da mesma personagem tinha sido levantada a Capela - Farol de São Miguel-o-Anjo (concluído em 1527).




Capela renascentista do forte de S. João Baptista da Foz - Ed. Isabel Silva



Aquelas obras resultaram da acção mecenática de D. Miguel da Silva e decorreram, ainda, do facto de possuir as rendas do Mosteiro de S. Tirso (ao qual a Foz do Douro estava ligada), tendo constituído a primeira manifestação de arquitectura renascentista no Norte de Portugal.
Na capela renascentista veneravam uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, considerada protectora dos homens do mar.



Pias na parede da abside da capela renascentista de S. João da Foz



Resquícios da capela renascentista, a meio da foto, no Forte de S. João da Foz, em vista aérea actual - Fonte: Google maps





Diga-se que, há anos, existia no terreno um convento dos beneditinos de S. Tirso, a quem D. Mafalda, filha de D. Sancho I, tinha doado S. João da Foz do Douro, e que o complexo habitacional era designado por Castelo da Foz.
Convém dizer que o bispo D. Miguel da Silva era filho do 1º conde de Portalegre, tendo seguido a vida eclesiástica após passar dez anos a estudar em Paris e onze anos em Roma como embaixador junto do Vaticano, nomeado por D. Manuel I.
D. Miguel da Silva viria a ser chamado em 1526 por D. João III, para junto da corte, tendo-lhe nessa ocasião sido concedidas algumas rendas eclesiásticas, nomeadamente, o priorado perpétuo do mosteiro de Landim (Vila Nova de Famalicão) e a abadia do Mosteiro de Santo Tirso em Riba de Ave (hoje em Santo Tirso).
Veio a somar-se àqueles proventos as rendas da Diocese de Viseu, pois foi eleito por intersecção de Clemente VII para Bispo de Viseu, a 21 de Novembro de 1526.
D. Miguel da Silva teve uma estadia em Portugal de conflito constante com D. João III, entre outros motivos, também, pelo facto de se ter oposto ao rei na introdução no país da Santa Inquisição.
Aliás, seria mais antiga a zanga, que teria que ver com a intervenção de D. Miguel da Silva no 3º casamento de D. Manuel I com D. Leonor da Áustria, que estava prometida ao infante D. João, mas que acabaria por casar com o rei, seu pai, tornando-se madrasta dele.
D. Leonor era irmã do imperador Carlos V, e depois de enviuvar de D. Manuel I acabaria, passados 9 anos, por casar com Francisco I e ser rainha de França.
D. Miguel da Silva acabou então, por ser perseguido, tendo fugido para Roma, em Julho de 1540, onde chegou já como cardeal.
A elevação a cardeal fora realizada in pectore (latim: no coração/no peito), antes da fuga, por receio da reacção de D. João III.
D. Miguel da Silva, como bispo de Viseu, ficou para a posteridade pela edificação do Paço Episcopal, daquela cidade, junto de um outro de cariz medieval, existente no mesmo local (mata do Fontelo), onde fez ressurgir a arquitectura renascentista. Foi, ainda, um mecenas e grande cliente do pintor português Vasco Fernandes, que passou para a posteridade como Grão Vasco.
A este artista é atribuída, num dos seus quadros mais conhecidos, "Visita de Cristo a casa de Marta", a explicitação da figura do seu mecenas, D. Miguel da Silva, representando-o como uma das personagens da referida obra de arte.




"Visita de Cristo a casa de Marta" - Grão Vasco



À esquerda, a personagem que se pensa ser D. Miguel da Silva - Editado a partir da obra de Grão Vasco "Visita de Cristo a casa da Marta"





Aliás, no quadro do mesmo artista intitulado "S. Pedro", o retratado como tal, aparenta ser a mesma personagem - D. Miguel da Silva.
Voltando ao forte de S. João Baptista, diga-se que com a Guerra da Restauração da Independência se impôs a remodelação daquela fortificação.
Receando uma invasão espanhola pela fronteira norte do reino, o rei D. João IV (1640-56), em 1642, despachou para a cidade do Porto o novo Engenheiro-mor do Reino, o francês Charles Lassart.
Este teve oportunidade de constatar, in loco, a ineficácia da estrutura seiscentista diante dos meios ofensivos setecentistas, e elaborou-lhe um novo projeto que a ampliava e reforçava. As obras ficaram a cargo do jesuíta João Turriano.
Entretanto, problemas suscitados pela fonte dos recursos junto à Câmara do Porto, e problemas pessoais do tenente-governador da fortificação, Pinto de Matos (1643-1645), atrasaram sensivelmente o início das obras.




Vista interior da abóbada da capela - Ed. Isabel Silva


Com a nomeação de Martim Gonçalves da Câmara, como substituto de Pinto de Matos (Maio de 1646), as obras foram finalmente iniciadas, com a demolição no mesmo ano, da igreja velha, depois de tornadas prioritárias perante a invasão iminente do Minho por tropas espanholas, e encontravam-se concluídas em 1653.
Dois anos mais tarde, era o forte, considerado o segundo do Reino, logo após, o de São Julião, e o guardião não só da cidade do Porto, mas, ainda, da Província do Entre-Douro e Minho e a da Beira.



“No século XVII, o projecto de Lassart, embora modificando a orgânica da estrutura, não tocava no essencial da defesa quinhentista.
A antiga igreja, inserida na área militar, foi demolida, desaparecendo a parte central da fachada, sendo abertas as torres, removidas as lajes das campas no seu pavimento (reaproveitadas na alvenaria) e apeada a abóbada (a primeira em estilo renascentista do país). Agora a céu aberto, passou a servir como praça de armas, enquanto os seus anexos foram soterrados para consolidar o terrapleno do baluarte leste. Os nichos dos altares laterais foram entaipados por muros de alvenaria de pedra.
Ainda é possível ver vestígios da cúpula da capela, aos gomos, visível do exterior.
A partir da realidade imposta pela irregularidade do terreno e pela fortificação preexistente, a planta da nova estrutura apresenta o formato de um quadrilátero rectangular orgânico com três baluartes e um meio baluarte, concentrando o fogo da artilharia pelo lado de terra, dadas as dificuldades naturais de transposição da barra do rio Douro.
O único baluarte de traçado regular é o que aponta para a barra; dos dois voltados para o lado de terra, o do leste, é excepcionalmente pontiagudo, terminando num esporão de grande altura, enquanto do oeste se prolonga por um espigão destinado a eliminar um ângulo morto, actualmente quase encoberto pelo aterro viário.
O novo portal de acesso ao forte, em estilo neoclássico, foi construído pelo Engenheiro Reinaldo Oudinot (1796), dotado de ponte levadiça, corredor de entrada acasamatado e corpo de guarda tapando a fachada palaciana no lugar de um revelim seiscentista. Esta foi a última obra promovida, embora ainda se encontrasse incompleta em 1827.
Ao final do século XVII, em 1684, o forte estava guarnecida por 22 artilheiros, congregando seis regimentos de Cavalaria e dezoito de Infantaria.
No início do século XIX durante a Guerra Peninsular, a 6 de Junho de 1808, o Sargento-mor Raimundo José Pinheiro ocupou as suas instalações, e, na madrugada seguinte, fez hastear no seu mastro a bandeira das Quinas, primeiro acto de reação portuguesa contra a ocupação napoleônica. A fortificação estaria envolvida poucos anos mais tarde nas Revoltas liberais, tendo protegido, durante o cerco do Porto (1832-1833), o desembarque de suprimentos para a cidade.
Diante da evolução das embarcações e da artilharia, progressivamente perdeu a função defensiva, sendo utilizada como prisão para presos políticos. Entre os nomes ilustres que estiveram detidos nos seus cárceres, contam-se os de José de Seabra da Silva (na época do Marquês de Pombal) e os liberais, José de Passos Manuel e duque da Terceira.
Ainda no século XIX desapareceram o fosso e a ponte levadiça da fortaleza, assim como uma boa parte dos rochedos que a rodeavam, afastando-a do contacto com a foz do rio”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”



Castelo de S. João da Foz do Douro - Aguarela de Elisabeth Reid





No século XX, foi residência da poetisa Florbela Espanca, esposa de um dos oficiais da guarnição, António Guimarães, que toma posse em 15 de Julho de 1920 e que viria a ser o segundo marido da poetisa, pois, em 1913, já tinha Florbela Espanca contraído matrimónio, em Évora, com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola.
Na companhia de António Guimarães, acabou Florbela por fixar, em Agosto de 1920, residência na Rua do Godinho, nº 146, em Matosinhos. Só mais tarde, em Janeiro de 1921, foram morar para o Castelo da Foz do Douro, tendo casado em 3 de Julho de 1921.



Rua do Godinho, 146, em Matosinhos - Fonte: Google maps



Depois de ter casado com Guimarães e dele se ter separado mais tarde, iniciou uma relação amorosa com Mário Lage, que foi tenente médico do mesmo Destacamento de Artilharia do Porto, da G.N.R.., no Castelo da Foz, de Julho de 1920 a Fevereiro de 1922, data a partir da qual passou a exercer as funções de sub-delegado de saúde de Matosinhos.
Contraiu então, Florbela Espanca, matrimónio com Mário Lage, na Igreja de Matosinhos em Outubro de 1925, tendo passado a morar na casa de família do médico, na Rua 1.º de Dezembro nº 540, em Matosinhos.


À esquerda o nº 540 da Rua 1º de Dezembro – Fonte: Google maps



Foto actual do castelo



O forte de S. João Baptista da Foz do Douro, na primeira metade da década de 1990, sofreu uma intervenção arqueológica sob a responsabilidade do Gabinete de Arqueologia Urbana da Divisão de Museus e Património Histórico e Artístico da Câmara Municipal do Porto.
Actualmente sedia o Instituto da Defesa Nacional.




Gravura da fortaleza em 1850 - Ed. C. A. Pinto 



Na gravura anterior entre o observador e a fortaleza, fica hoje, o Lawn Ténis Clube da Foz.



Hotel da Boa-Vista e Esplanada do Castelo




Esplanada do Castelo, em 1900 
 
 
 
Na gravura acima observa-se o Hotel Boa-Vista, que teria sido fundado em 1835.
 
 
“HOTEL DA BOAVISTA
Na rua do mesmo nome, próximo à Cantareira, a S. João da Foz do Douro. Gabriel Gonçalves tem a honra de anunciar ao respeitável público que no dia 25 do presente mês tenciona abrir o dito Hotel para acomodação das famílias e pessoas que se dignarem favorecê-lo com o seu patrocínio, prometendo de não poupar os meios necessários para satisfazer os desejos dos seus hóspedes, tanto pelo que respeita ao asseio da cozinha e de todos os mais arranjos da casa como pela moderação dos preços; aceitará também encomendas para jantares fora de casa”.
In “O Nacional”, em 19 de Julho de 1849
 
 
Sobre o Hotel Boa-Vista dizia um outro anúncio:
 
«Tem também restaurante. Servem-se todos os dias, da uma hora em diante, jantares, constando de cinco entradas, vinho e sobremesas a 500 reis. Às quartas-feiras “feijoada com orelheira”.»
In “O Primeiro de Janeiro”, de 19 de Setembro de 1880 - Domingo
 
 
 
 

Esplanada do Castelo em 1900 - Ed. Emílio Biel
 
 
 
Na foto acima, junto ao Hotel Boa-Vista, está o Café Montanha.

 
 

Esplanada do Castelo, em 1900



Vista sobre a Esplanada do Castelo, em 1909, com a Rua da Praia, à esquerda



 
 

Na entrada do Hotel Boa-Vista, uma esplanada interior, c. 1920


 
A partir de meados da década de 1930, a Esplanada do Castelo vai sofrer obras de vulto. 
Assim, em 14 Março de 1935, é aprovado na Câmara Municipal do Porto um projecto de melhoramentos na Esplanada do Castelo da Foz e, em 18 de Junho de 1936, é aprovado uma variante àquele projecto que, em 6 de Maio de 1937, sofrerá uma nova correcção.
É nesta época, que uma campanha levada a cabo pelo jornal “O Comércio do Porto”, publicitada em 17 de Abril de 1936, se pugnou pela construção por estas bandas de uma piscina, desiderato que não teve sucesso.
Em continuação da intervenção naquela área, com base num projecto de Fevereiro de 1940, foi feito um arranjo de fundo na Esplanada do Castelo e, em sequência, foi aberta uma rua que substituiu o canal por onde passava o eléctrico e o espaço adquiriu o aspecto que todos conhecemos.



Esplanada do Castelo, antes de 1940


Obras para criação de uma nova via na Esplanada do Castelo - Fonte: CPF




Hotel Boa-Vista, em 1940

 
 

Esplanada do Castelo e Hotel Boa-Vista, em 1940

 
Em Agosto de 1990, era gerente do Hotel Boa-Vista, Eduardo Casais Namura, que a propósito de uma estadia de Raúl Caldevilla, na década de 1940, naquela unidade hoteleira, contava uma história engraçada, na revista "O Tripeiro", Série Nova, Ano IX, N.º 8, Agosto de 1990.







Hotel Boa-Vista, após ter estado na posse de uma família espanhola, durante décadas, em 1991, passou para a posse de António do Canto, um empresário da Póvoa de Varzim com negócios no Brasil, que remodelaria as instalações da unidade hoteleira, passando esta a ser uma das preferidas nas estadias dos hóspedes com origens naquele país sul-americano.
 
 
 

Hotel Boa-Vista, actualmente