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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

25.21 Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro ou Companhia Velha – Importância Económica


A Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro surgiu de uma determinação régia de D. José I e de um sonho de três portuenses.
São eles: Dr. Luís Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo de Ayala e o dominicano padre mestre Dr. frei João de Mansilha.
Luís Beleza de Andrade convenceu o governador da cidade, ao tempo, António Bernardo Alves de Brito, a informar o ministro de D. José I, da enorme pobreza que grassava nas terras do Alto Douro, onde o pai possuía algumas propriedades e das inúmeras adulterações que o vinho sofria na sua qualidade.
Tendo levado a cabo reuniões com outros produtores daquela região vinhateira, na qual esteve presente o tal Mansilha, decidiram da necessidade de fazer a demarcação das terras onde o vinho era produzido.
Pancorbo seria escolhido para apresentar o projecto em Lisboa, o que foi feito, mas, aquele acabou por sugerir ao Dr. Beleza de Andrade que, dali por diante, fosse ele a dar, pessoalmente, seguimento ao caso.
Beleza de Andrade acabaria por incumbir frei João de Mansilha de proceder a diligências na capital para o que se comprometeu a custear-lhe as despesas que fizesse nesse sentido.
As diligências foram coroadas de êxito no dia 1 de Junho de 1756, chegava ao Porto a notícia da formação da Companhia de que veio a ser primeiro provedor o Dr. Luís Beleza de Andrade.
Eram privilégios da Companhia:





“A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro recebeu a sua personalidade jurídica pelo Alvará de 10 de Setembro de 1756, formada com o capital de um milhão e duzentos mil cruzados repartido em acções de quatrocentos mil reis cada uma, e propunha-se restituir o bom nome ao vinho do Douro, garantindo a genuidade, elevar o nível de vida da região e sustentar o comércio de exportação do vinho que era um dos mais importantes do Reino.
As vantagens que da sua criação resultaram foram indiscutíveis, introduzindo o regime de demarcação que os franceses também adoptaram quase um século depois (§ XXIX dos Estatutos)”.
Com o devido crédito a “ruisaeguerra.blogspot.com”




A Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro começou por ter o seu escritório ou casa do despacho, como era uso dizer-se, na Rua Nova (hoje, do Infante D. Henrique).
Entretanto, em 1761, acabaria por arrendar na Rua das Flores uma casa a
Manuel Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto Miranda de Figueiroa, herdeiro de seu padrinho, sem descendentes, Manuel Figueiroa Pinto (1721 – 1775).
Aquele Manuel Pamplona venderia por 23 contos de réis, em 1 de Dezembro de 1809, o prédio à Companhia Velha.
 
 
 
 

Casa da Companhia, c. 1900 – Ed. Foto Guedes; CMP, Arquivo Histórico Municipal
 
 
 
A Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro foi fundada, como é sabido, pelo nosso rei D. José I ou,  melhor dizendo, pelo seu  primeiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, no ano de 1756.
Nos seus três primeiros anos de existência foi administrada por uma junta composta por, um Provedor e 12 deputados que eram coadjuvados por seis conselheiros.
No Porto,  a Companhia instalou a sua primeira Administração ou Sala de 
Despacho, como então se dizia, numas casas da Rua Chã, pertencentes a  Manuel de Figueirôa Pinto.
Foi a estas casas que se dirigiram os revoltosos que,  na manhã do dia 4 de  Fevereiro de 1757,  percorreram as ruas do Porto  protestando  contra uma das medidas que haviam sido tomadas pela recém-criada Companhia e que tirava aos taberneiros da cidade e arredores o direito da  venda do vinho a retalho. Por essa razão o motim passou à história como a Revolta dos Taberneiros. Da Rua Chã a sede da Companhia transferiu-se, pouco tempo depois,  para a Rua das Flores, para um edifício que também pertencia a Manuel Figueirôa Pinto.
Luís Beleza de Andrade foi o primeiro Provedor da Companhia.
Natural do Porto, vereador da Câmara no ano em que se fundou a Companhia, Beleza de Andrade era também um grande produtor de vinho com boas e vastas propriedades em Valdigem, na região do Douro. Com o religioso dominicano, D. frei João de Mansilha, e com o negociante biscainho,  D. Bartolomeu Pancorbo, que vivia na Rua Nova, hoje Rua do Infante D. Henrique, Luís Beleza de Andrade foi um dos três impulsionadores da ideia para a criação da Companhia.
Diz-se que tendo ido a Valdigem para as vindimas de 1756 sentiu de tal modo "a desgraça da terra do vinho" que imediatamente convocou os mais importantes viticultores durienses para  uma reunião da qual saiu o projecto da Companhia de que viria a ser o primeiro Provedor.
A família Beleza de Andrade viveu numa casa das Escadas do Monte dos Judeus, na esquina com a Viela da Ilha do Ferro, muito perto portanto dos armazéns da Companhia. A casa ainda lá está agora recuperada depois de ter estado muitos anos ao abandono. 
O brasão que figurava na fachada desapareceu corroído pela acção do tempo.


 

Casa de Beleza de Andrade na Escada do Monte dos Judeus

 
 
 
Armazéns de vinhos e Caves
 

É através da voz do povo e da gíria comercial, que a pombalina, Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro fundada em 1756, começa a ser conhecida por Real Companhia Velha, e a utilizar essa designação como marca comercial a partir dos finais do Século XIX, sendo a sua designação comercial de Real Companhia dos Vinhos do Porto.
No que diz respeito à armazenagem dos vinhos, aquando da fundação da Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, a norma que vigorava há séculos, era que eles fossem armazenados na margem esquerda do rio Douro, em V. N. de Gaia, na sequência de importantes questões quanto ao pagamento de impostos.
Após a fundação do reino de Portugal, as duas povoações de Gaia e de Vila Nova mantiveram-se autónomas. Gaia recebeu Carta de Foral passada pelo rei D. Afonso III, em 1255, seguindo-se Vila Nova, por D. Dinis, em 1288.
Em 1383, no entanto, ambas foram integradas no julgado do Porto, perdendo a sua autonomia.
No final das guerras liberais, Gaia e Vila Nova foram, finalmente, agraciadas com autonomia política e, ao fundirem-se, nasceu o actual concelho de Vila Nova de Gaia com o Decreto n.º 23, de 16 de Maio de 1832.
Assim, até à atribuição do foral a Gaia, em 1255, pelo rei D. Afonso III, todos os direitos relativos ao comércio que era feito pela barra do rio Douro aproveitava, apenas, ao Bispo e ao Cabido.
Este senhorio da cidade do Porto nascera da doação, ao Bispo do Porto D. Hugo, e a seus sucessores, feita por D. Teresa, em 1120 (era 1158) e confirmada, mais tarde, por D. Afonso Henriques em 1138.
Na sequência da primeira doação e dos direitos que ela lhe conferia, promulgou D. Hugo, em 1123, o Foral da cidade do Porto, que ordenava a cobrança de vários impostos, entre os quais a “Portagem da Terra”, somente extintos por D. João VI, em 11 de Junho de 1822, sendo que, contra eles, haviam reclamado os comerciantes da cidade, nas Cortes Constituintes de 28 de Agosto de 1821.
O pagamento de impostos sobre o vinho foi, assim, o primeiro motivo para a instalação dos armazéns e caves em Gaia e Vila Nova.
Os vinhos de exportação que da região Duriense vinham nos típicos barcos rabelos, sempre se armazenaram, por isso, em V. N. de Gaia.



Rua da Praia, na marginal e entrada da Rua Direita, em V. N. de Gaia, no século XVIII




Largo D. Luís I, em V. N. de Gaia, em perspectiva idêntica à da gravura anterior



Anteriormente ao século XVII, o nosso comércio de exportação de vinhos fazia-se pelos portos do Norte, principalmente pelo de Viana, para os vinhos com proveniência no Minho, com uma participação principalmente dos comerciantes ingleses e, ainda, pela barra do rio Douro.
Só em 1678, se regista o primeiro embarque, no montante de 408 pipas, feito pelos ingleses.
Fundada a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756, a descarga dos vinhos do Douro fazem-se nos cais da cidade do Porto.
Em 1777, primeiro ano do reinado de D. Maria I, um litígio judicial promovido pela igreja representada pelo bispo do Porto, bispo de Penafiel, bispo de Bragança-Miranda e o Cardeal Patriarca de Lisboa contra aquela companhia, reclamava dela o pagamento em atraso (quase 20 anos) dos direitos devidos ao bispo do Porto, sobre as descargas efectuadas nos cais da Ribeira do Porto e respectiva comercialização do vinho.
A razão seria dada aos reclamantes, pelo que o pagamento passou a ser feito em terras do bispo do Porto até 1821 e foram, entretanto, liquidadas as dívidas em atraso.
Porém, os restantes negociantes de vinho do Porto, procurando fugir à jurisprudência que aquele caso poderia despoletar, com consequências nefastas para as suas bolsas, trataram de transferir os seus armazéns e cais de descarga para a margem esquerda do rio Douro, pois, aí, em Gaia, funcionava o foral de D. Afonso III e o território estava fora do alcance dos bispos e do foral de D. Teresa que cobria a margem direita daquele rio.
É, nestes tempos, que se irá assistir a uma procura de terrenos para instalação de armazéns de vinhos, na margem esquerda do Douro, sobretudo na encosta que ia desde do lugar das Devezas até ao rio, todo ele pertencente à imensa Quinta das Devezas que, no século XVI, também era conhecida pela Quinta do Estado e, depois, ficou conhecida pela Quinta do Conde das Devezas.
A partir daqui, os armazéns que iam surgindo para escoar pela barra do rio Douro a produção dos vinhos finos, que se juntava à dos vinhos tradicionais, acabaram por se localizar na margem esquerda do rio Douro.
Os britânicos que tinham a sua feitoria no Porto passaram, também, a guardar os seus vinhos em V. N. de Gaia e muitas das famílias britânicas escolheriam o Candal para viverem ou, por aí, instalarem as suas quintas de férias.
Para além da localização dos armazéns de vinhos na margem esquerda do Douro, decorrente do alívio no pagamento de impostos, juntava-se, também, uma justificação tecnológica.
Aqueles terrenos estando voltados a norte, eram abrigados dos ventos fortes da barra, disfrutavam de um clima ameno e fresco, um pouco húmido e dotados de imensas minas de água.




Cais de V. N. de Gaia por onde foram surgindo os armazéns de vinho do Porto – Cortesia de “Gaia à la carte”



A própria Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, por aí, haveria de ter, então, os seus armazéns, no entanto, haveria de decidir montar, também, armazéns na margem direita, em Miragaia.

 
 
 
 

Armazéns da Companhia Velha em Miragaia
 
 
 
Com efeito, no ano de 1807, depois de já ter construído armazéns na Régua, junto á margem do rio Douro, em Vila Real de Santo António, no Algarve,  no Pinhão e junto ao Tua, e no Vimieiro, na margem esquerda do Douro, a Companhia comprou uma série de casas térreas e vários barracões que havia no areal da praia de Miragaia que mandou demolir para, em seu lugar, construir os seus armazéns.
O edifício, ainda existente,  na actual Rua de Miragaia, era enorme. 
Inicialmente tinha capacidade para guardar mais de 4.000 pipas de vinho. 
Posteriormente, porém,  essa capacidade viria a ser aumentada para poder acolher cinco e seis mil pipas.
Os armazéns de Miragaia para além das amplas e arejadas dependências que possuía para arrecadação dos vinhos provenientes do Alto Douro e dos escritórios, dispunha de grandes oficinas de tanoaria; dependências onde se procedia á destilação da aguardente; e um terceiro mas não menos  importante sector para a fabricação de vinagre.
Aos armazéns de Miragaia e aos de V. N. de Gaia, chegavam os vinhos transportados desde o Alto Douro nos barcos rabelos, barcos próprios de rio de montanha. O rabelo, por essa razão, não tem quilha e é de fundo chato. Com uma vela quadrada, era manejado por seis ou sete homens. Para manobrar, utiliza um remo longo à popa - a espadela.

 
 
“A Real Companhia Velha conta com mais de 250 anos de história, um marco ímpar para empresas do ramo. Para trás, fica o registo de uma história fabulosa e de um passado glorioso. Para o futuro, existe a vontade de manter a elevada qualidade dos produtos e a confiança numa Companhia onde o rigor e a vontade de continuar a escrever a história do Vinho do Porto são uma preocupação constante.
Os ingleses, radicados na cidade do Porto, realizaram várias experiências ao adicionarem aguardente aos vinhos Durienses, com o intuito de os preservar nas longas travessias marítimas.
Para sua surpresa e graças a uma série de circunstâncias felizes, dá-se a descoberta do Vinho do Porto.
Em 1749 a exportação de Vinho do Porto atinge o expressivo número de 19.000 pipas.
Em 1756 a 10 de Setembro de 1756, por Alvará Régio de El-Rei D. José I, sob os auspícios do seu Primeiro-Ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, foi instituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, também denominada, Real Companhia Velha.
Formada pelos "principais lavradores do Alto Douro e Homens Bons da Cidade do Porto, à Companhia foi confiada a missão de sustentar a cultura das vinhas, conservar a produção delas na sua pureza natural, em benefício da Lavoura, do Comércio e da Saúde Pública".  
De entre os inúmeros serviços prestados pela Companhia à causa pública, destaca-se como o mais notável a chamada "Demarcação Pombalina da Região do Douro", levada a efeitos entre 1758 e 1761 pelos deputados da Junta da Administração da Real Companhia Velha. 
Mercê desta medida de grande alcance económico, foi delimitada a Região dos Vinhos de Feitoria do Douro, que é a mais antiga Região Demarcada do mundo. 
A importância do Vinho do Porto para a economia portuguesa é tal que, em 1799, o Vinho do Porto representa mais de 50% das exportações portuguesas.
A Companhia passa a operar em mercado livre quando, a 7 de dezembro de 1865, por Alvará Régio do Regente D. Fernando, é declarada livre a exportação através da barra do Porto de todos os vinhos produzidos em Portugal.
Em 1960, Manuel da Silva Reis adquire, com o apoio do banqueiro Pinto de Magalhães, a maioria do capital - assumindo assim a direção da Real Companhia Velha.
Entre 1961 – 1974, a Real Companhia Velha conhece um dos seus períodos de maior expansão, o qual se traduziu por profundas transformações: mudança das instalações da sede; aumento do capital; renovação de equipamentos e modernização tecnológica da vinificação; preparação, tratamento e conservação dos vinhos; e alargamento dos seus negócios.
Em 1979 após períodos conturbados, a Companhia efetuou uma operação comercial envolvendo vinho generoso de várias colheitas, no valor total de 1 000 000 de contos - o que constitui a maior operação financeira jamais realizada na região do Douro. A Empresa volta, assim, a ocupar um lugar de relevo entre os exportadores do Vinho do Porto”. 
Fonte: “realcompanhiavelha.pt”



 Em 19 Maio 1872, p. 2, o “Jornal do Porto” noticiava:
 
 
“A Rampa de Miragaia: concluiu-se ontem a rampa mandada construir em Miragaia para estabelecer comunicação entre a rua de Miragaia e a Nova Alfândega”.
 
 
 
Em 14 de Junho de 1872, o “Jornal do Porto” informava os seus leitores de que, construída a rampa de acesso dos armazéns da Companhia à Nova Alfândega, a Junta d’Obras tinha aprovado que a contribuição da Companhia dos Vinhos deveria ser 200$000 reis.

 
 
 



 

Rampa de acesso do Bairro de Miragaia à Rua Nova da Alfândega, em 1975


 
Uma outra rampa, mais a poente, seria também construída. 




Acesso ao bairro de Miragaia, junto a Monchique, c. 1907, em foto estereoscópica - Ed. H. C. White Co.



Em 1888, instituiu-se a “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal”, sedeada no Porto, com funções de agente intermediário entre a produção e o comércio e de comerciante por conta própria, e que será integrada na Real Companhia Velha, em 1963.
O povo começa a identificar duas Companhias Reais, como a Nova e a Velha.
 
 
 
 

Capa de livro ” A Questão do Douro” da autoria da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal

 
 
A “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal” vai ter os seus armazéns em V. N. de Gaia.

 
 

Localização dos armazéns da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, actuais instalações da Real Companhia Velha, na Rua Azevedo Magalhães


 
Após a associação, em 1963, da Real Companhia Velha e da Real Vinícola do Norte de Portugal, as caves e instalações da Real Companhia Velha acabaram por ser sedeadas, na Rua Azevedo Magalhães, nº 314, que tinham pertencido à sua associada.
Actualmente, estão sobre a alçada da Real Companhia Velha as quintas das Carvalhas, Acipestres, Cidrô, Casal da Granja e Síbio.




Em 1976, as instalações que já foram da Real Companhia Velha e da Real Companhia Vinícola do Norte, no Cais de V. N. de Gaia, na Avenida Ramos Pinto, passaram a museu da Companhia



Armazéns da Cruz, no fim do século XIX e, actualmente - Cortesia: Gaia à la Carte



Os chamados “Armazéns da Cruz”, foto acima, situam-se entre os observados na foto que a antecede e a Rua de Rei Ramiro. 
 



Instalações actuais da Real Companhia Velha, em V. N. de Gaia, na Rua Azevedo Magalhães


(Continua)

quinta-feira, 19 de julho de 2018

(Continuação 14)


Revolta dos Taberneiros


Esta revolução teve lugar em 1757 contra a decisão do Marquês do Pombal de proibição de venda de vinho “avulso” e, pretendia evitar, assim, a degradação da qualidade do vinho do Porto, que era alvo de muitas mixórdias, quando era um produto que permitia a entrada de largas divisas no País, após a assinatura com os ingleses, em 1703, do tratado de Methuen, que vigoraria até 1836.
Foram seus negociadores o embaixador extraordinário britânico John Methuen, por parte da Rainha Ana da Grã-Bretanha, e D. Manuel Teles da Silva, marquês de Alegrete, pela coroa portuguesa.
Esta passaria, a partir de então, a controlar através da Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, todo o circuito comercial do vinho, inclusive os locais de consumo e venda – As Tavernas. 
Na manhã do dia 23 de Fevereiro de 1857, uma Quarta-Feira de cinzas, estalaria a revolta, mas, quando pelas três horas da tarde saía à rua a procissão das Cinzas da igreja dos Terceiros de S. Francisco, a mesma, pareceu acalmar.
Pretendia o povo que fosse revogada a criação da Companhia e que se restabelecesse o comércio do vinho a retalho da forma que estava antes.
O epílogo de toda a situação aconteceria no dia 14 de Outubro de 1757, quando foram montadas seis forcas na Praça da Cordoaria para executar os amotinados.



“Não eram cumpridos cinco meses após a instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 10-9-1756, quando eclodiu na cidade do Porto uma revolta popular contra a Companhia que o romancista histórico Arnaldo Gama memorou em Um Motim Há Cem Anos. Serviu também de tema na dissertação de licenciatura de Fernando de Oliveira, na antiga Faculdade de Letras da Universidade do Porto, publicada sob o título O Motim Popular de 1757.
Camilo Castelo Branco relata o acontecimento em Como Deus Castiga – Crónica Portuense, mas despreocupado com a exactidão dos factos, na irreprimível expansão da sua imaginação criadora. No decorrer da reconstituição do motim, vão-se comentando as apontadas versões.
Tudo aconteceu na manhã de quarta-feira de Cinzas, dia 23 de Fevereiro de 1757. Nas igrejas cumpria-se a liturgia da penitência e à tarde, como de costume, saía a procissão de S. Francisco. Gente dos arredores veio à cidade.
Camilo, na obra citada, erra ao escrever que a procissão de Cinza recolhia pela uma hora e três quarto, quando os sinos da Catedral e da Misericórdia picaram a rebate, pois a verdade histórica é que a procissão saiu da Igreja de S. Francisco às quatro horas da tarde depois de acalmada a cidade. O acórdão proferido em Relação pelos juízes da Alçada em 12-10-1757, publicado em livro no ano de 1758, sob o título Sentença da Alçada que El-Rei Nosso Senhor mandou conhecer da Rebellião na cidade do Porto em 1757, e da qual Sua Magestade Fidelíssima nomeou presidente João Pacheco Pereira de Vasconcelos «…» refere expressamente que os vendeiros se juntaram na manhã do dia 23 de Fevereiro.



Livro editado em 1758 com a sentença da Alçada e narrativa do julgamento


(…) Arnaldo Gama, sempre escrupuloso, também indica as 10 horas e meia da manhã para o começo da rebelião.
O local da concentração dos amotinados foi na Porta do Olival, à Cordoaria. A sentença o confirma:
«Mostra-se mais, que José Rodrigues de alcunha o Grande, João Francisco chamado o Mourão, e António de Sousa de alcunha o Negres ou o Negro, Soldado do Regimento de Infantaria da Guarnição desta Cidade, foram dos principais Amotinadores do Povo; de tal sorte que o dito Soldado, sendo persuadido pelo Réu António de Sequeira Teixeira a ir ao Tumulto, foi dos primeiros, que se acharam na Porta do Olival, aonde ele principiou» (pág. 35, ver também pág. 42).
As mulheres que faziam parte daquele grupo principiaram, em altos gritos, «as vozes sediciosas de Ah que de Povo, Viva o Povo, e morra a Companhia» e para concitarem todo o povo da cidade, os amotinadores planearam mandar tocar a rebate os sinos da Igreja da Misericórdia e da Sé Catedral, logo que principiasse o tumulto, o que veio a acontecer.
Continua a descrição no relatório da sentença: «Mostra-se mais que os Amotinadores para melhor concitarem a Plebe, e fazerem mais pública e formal a sua manifesta rebelião, determinaram que alguns rapazes levassem umas bandeirinhas encarnadas, com ramos de oliveira, para o Povo as seguir» (págs. 53 e 54).
Desta forma, os amotinados foram pela Rua de S. Bento, desceram as Escadas da Esnoga e tomaram a Rua de Belomonte a caminho do Largo de S. Domingos. Levavam o propósito previamente combinado, de se dirigirem à casa do juiz do povo, José da Silva por alcunha o Lisboa, um alfaiate e taberneiro que morava defronte do chafariz, interpelando-o para que tomasse a direcção do protesto.
Camilo cometeu um erro palmar neste ponto. Afirma que José da Silva, o tal juiz do povo, morava à entrada da Rua do Loureiro, para quem sai da Rua Chã: “Ao toque de rebate, ergueu-se medonho alarido na Rua Chã, à entrada da Rua do Loureiro, onde morava o Juiz do Povo, José da Silva, justamente na casa onde hoje está aberta uma loja de barbeiro (pág. 253)”.
(…) quem morava na primeira casa da Rua do Loureiro, do lado esquerdo no sentido de quem desce, e que actualmente tem os números de polícia 166-168, depois da última casa da Rua Chã - esta tem os números 133-137 -, era o Dr. Luís Beleza de Andrade.


Casa de Beleza de Andrade na Rua Chã, após recuperação



(…) Tudo se tinha combinado previamente no sentido de que o juiz do povo, o tal Lisboa, pretextaria o estado de doente por ter tomado uma purga e que fora violentado ao tumulto (sentença, pág. 23), de forma a não cair nas malhas da justiça inculpado por comparticipação no motim.
A multidão reclamava a sua presença, e escutado pretexto, rolou-se ameaçadora contra a porta da casa pois o povo não sabia a prévia combinação com os dirigentes do movimento. Ele apareceu e continuou a invocar a sua doença: “Viva o povo! Eu sou do povo! Mas, senhores, eu estou muito mal…estou muito doente. Tomei uma purga… não posso ter-me em pé”. Assim reconstrói Arnaldo Gama os seus dizeres.

Os amotinados José Rodrigues, João Francisco e o soldado José Pinto de Azevedo foram à vizinha Rua Nova, buscar uma cadeirinha de mãos em que, segundo o plano ajustado, devia nela ser transportado o juiz do povo (como consta do relatório da sentença (pág. 36 - § XVI), a fim de ser o cabecel da revolta.
(…) Assomada a Rua Chã, a multidão já calculada em 5.000 pessoas, dirigiu-se à casa de morada do desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo, corregedor do crime e chanceler das justiças, «insultando, e violentando o dito Ministro com atrevidas vozes, e ameaças, para que desse por extinta a Companhia, como consta da sentença, o que ele formalizou assinando os documentos, coacto, e violentando-o a que os mandasse afixar e publicar a som de caixas, e que nomeasse para o caso as ausências do Juiz do Povo actual, Joseph Fernandes da Silva, de alcunha o Lisboa, outro também da sua facção, chamado Thomaz Pinto, determinando, que se fechassem as Tavernas da mesma Companhia, e se devassassem os seus Armazéns (pág. 7 da sentença - § 1º)».
A referida casa de morada do desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo fica sobre o arco da antiga Viela da Cadeia, actualmente designada Travessa da Rua Chã, e tem na dita Rua Chã o número de polícia 92 .


Casa onde morava o Corregedor  Dr. Bernardo Duarte de Figueiredo


A mole imensa, galvanizada pelo êxito, propôs-se continuar a cumprir o programa preestabelecido de queimar a documentação da instituição e ajustar contas com o provedor Luís Beleza de Andrade que morava a escassos metros do corregedor da justiça, ao fundo da Rua Chã, ou mais precisamente, na última casa da Rua do Loureiro, do lado esquerdo quem desce, junto da qual os amotinados ainda há pouco tinham passado quando subiram este arruamento”.
Com o devido crédito ao Dr. Rui Moreira de Sá e Guerra, adm. blogue “ruisaeguerra.blogspot.com”



“Em 1757 o Porto foi palco de duas revoltas populares contra a Companhia Geral de Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, instituída em 1756 por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal.
O descontentamento motivado pela formação desta companhia monopolista não só se fez sentir entre os agentes ligados à produção e comercialização de vinho do Porto, nomeadamente os comerciantes ingleses e seus colaboradores, mas também entre os numerosos taberneiros, tanoeiros e pequenos armazenistas da cidade.
O primeiro e principal motim aconteceu na manhã do dia 23 de Fevereiro ao som dos sinos da Sé e da Misericórdia. Os amotinados, reunidos na Cordoaria e gritando palavras de ordem, avançaram até à casa do juiz do povo, sita no Largo de S. Domingos, que foi arrastado pela turba e conduzido numa cadeirinha por, alegadamente, se encontrar indisposto.
O numeroso e exaltado cortejo seguiu até à Rua Chã, ao encontro das residências do regedor das justiças, a quem foi exigida a extinção da Companhia, e do provedor Luís Beleza de Andrade. O escritório da Companhia, a habitação do seu provedor - de onde um criado disparou sobre os revoltosos - e as casas vizinhas de Manuel Barroso (secretário da Companhia) e de Custódio dos Santos (seu deputado) foram vandalizadas.
Depois destes episódios violentos os ânimos serenaram e pelas três da tarde a cidade já assistia à Procissão das Cinzas. Porém, esta afronta ao poder central estava longe de ser esquecida, pois, apesar da aparente passividade das autoridades, a notícia do motim chegara rapidamente a Lisboa através da relação enviada pelo Desembargador Bernardo Duarte de Figueiredo.
Cinco dias mais tarde, a 28 de Fevereiro, D. José I ordenou a João Pacheco Pereira de Vasconcelos que abrisse no Porto uma devassa.
A 15 de Março, pouco depois da chegada do enviado régio, rebentou segundo motim.
Destes levantamentos populares resultou o apuramento de 462 suspeitos, 26 dos quais foram condenados à pena capital (21 homens e 5 mulheres), a ocupação militar da cidade por vários regimentos da Beira, do Minho e de Trás-os-Montes, a responsabilização dos portuenses pelo aboletamento das tropas, o lançamento de um imposto para pagar os soldos e munições de guerra, a mudança da vereação, a extinção da "Casa dos 24" e, ainda, a nomeação de João de Almada e Melo para Governador do Partido Militar do Porto.
No final, oito condenados conseguiram fugir, uma mulher escapou à forca por se encontrar grávida e os restantes 17 sentenciados à pena capital foram enforcados ou decapitados no dia 14 de Outubro de 1757. As suas cabeças foram colocadas nos patíbulos e os corpos, esquartejados, expostos no Largo de S. Domingos, nas ruas Chã e de Cimo de Vila e no terreiro de Miragaia”.
Fonte: “sigarra.up.pt”

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

(Continuação 17)

21.18 Palacete Monteiro Moreira (demolido)

Neste palacete localizado na antiga Praça das Hortas, durante quase 100 anos, funcionou a Câmara.
Esse edifício era uma casa nobre destinada a habitação, manda­da fazer por volta de 1721 por Monteiro Moreira e sua mulher, Josefa Joana Salazar, moradores, ao tempo, na velha Rua de S. Miguel. Pela morte deste casal, o edifício passou à pos­se de seu filho, o capitão Manuel Eleuté­rio Monteiro
Entretanto, já no fim de Maio de 1752, o palacete da Praça das Hortas já não era habitado pelos seus proprietários e tinha recebido o tribunal da Relação que, à data, peregrinava por vários locais da cidade.
Aquele tribunal depois de mais um périplo por outros locais, aqui tinha voltado e, aí estava em 1788, segundo o Padre Agostinho Rebelo da Costa.
A vontade da Câmara para se instalar no palacete era já antiga.
Primeiro, foi a Administração do Tabaco que, em 1794, dese­java comprar o palacete, para nele instalar, as fornalhas de uma fábri­ca de charutos. Protestou a Câmara e, em reunião de 30 de Dezembro, daquele mes­mo ano de 1794, apresentou os argumentos que julgou importantes para a aquisi­ção do imóvel. 
Além de considerarem como ideal a lo­calização da casa da Câmara na Praça Nova das Hortas,  os vereadores argu­mentavam que o edifício iria acolher, além dos serviços camarários, o Depósito Público, instituído havia pouco, e o Sena­do da Relação, que tinha sido obrigado a abandonar as instalações que tinha para os lados do Olival.
Mas, só em Outubro de 1815, a Câmara do Porto obte­ve autorização para dispor da verba neces­sária para a  aquisição do edifício, dada pelo príncipe regente, que era o futuro D. João VI. Seriam utilizados na transacção os di­nheiros do cofre da cidade onde se reco­lhiam "os sobejos das sisas". 
Por essa altura, o edifício pertencia a Inácio Leite Pereira de Almada Pinheiro Moreira, que residia em Guimarães.
Entretanto, a Companhia de Agricultu­ra das Vinhas do Alto Douro também apa­receu à última hora como interessada na compra do pa­lacete, que acabou mesmo por adquirir, efectivamente, em 13 de Março de 1816, mas devido ao protesto da Câmara, acabaria por cedê-lo pela verba de 26 contos de reis pelo qual o tinha comprado.
As obras de adaptação do edifício às novas funções duraram três anos. Os senhores vereadores instalaram-se nos novos paços do concelho em 21 de Agosto de 1819.


Palacete a funcionar como Câmara e encimando o frontão a estátua “Porto” – Gravura de J. Villanova de 1833


A Câmara – Ed. Alberto Ferreira - P. da Batalha – Porto


Palacete de Monteiro Moreira da 1ª metade do século XVIII


Em 1 de Fevereiro de 1916 começariam os trabalhos de demolição do edifício da Câmara Municipal, que seria acolhida no Paço Episcopal na Sé, para que fosse possível a abertura da actual Avenida dos Aliados.


O Palacete Monteiro Moreira está por terra em 1916

sábado, 15 de julho de 2017

(Continuação 5) - Actualização em 09/07/2018 e 17/02/2021



Este palacete situado na Rua das Flores, quase fronteiro à igreja da Misericórdia remonta ao século XVI.



“Nos finais do século XVII (1699), é adquirido pelo desembargador Jerónimo da Cunha Pimentel. 
A pedra de armas do cunhal foi mandada colocar no ângulo da casa no século XVIII, por Luís da Cunha Pimentel”.
Fonte: José Ferrão Afonso In “A Rua das Flores no século XVI - Elementos para a história urbana do Porto quinhentista”


 

Palacete dos Cunhas Pimentel



Na foto acima observa-se o brasão no cunhal do palacete, e à esquerda a Igreja da Misericórdia.



Casa dos Sousa da Silva Alcoforados

 
Na esquina das ruas do Ferraz e das Flores, oposta àquela onde se encontra a Casa da Companhia, está implantada a Casa dos Sousa e Silva, uma construção do século XVII.
Nesse local, nºs 77 a 87, erguem-se as casas que foram de D. Ana de Meneses, viúva de Francisco de Sousa e Silva, das quais foi herdeiro o filho do casal, Francisco de Sousa da Silva, mestre-escola de Barcelos, casado em 1676, com Madalena de Sá.
A Casa dos Sousa e Silva,  no século XVI, tinha já pertencido a Gaspar Ferraz, cavaleiro fidalgo da casa do duque de Bragança e provedor da Misericórdia e a seu filho Afonso Ferraz, chantre da Sé do Porto.
A eles se deve a designação de Rua do Ferraz.
A Casa dos Sousas e Silvas foi recentemente (2020) intervencionada, dando origem a treze habitações.


 
 
Casa dos Sousa da Silva, à esquerda da foto



Casa dos Sousa da Silva



Casa dos Sousa e Silva, em 1958, quando o seu rés-do-chão estava ocupado com a "Caza do Chá", de José Monteiro Guimarães & C.ª, cuja abertura aconteceu em 1 de Janeiro de 1820 - Ed. Teófilo Rego


 
 
A fachada de entrada do que foi a capela – Ed. MAC

 
 
Na foto acima, pode apreciar-se a entrada do que foi a capela do palacete dos Sousa da Silva, situada nas suas traseiras e virada para a Rua do Ferraz, que liga a Rua da Vitória à Rua das Flores.
Aliás, na verdade, a capela era o que restava da residência dos Ferraz, que deram nome à rua e que aí se encontrava.
A capela com porta para a rua, como era costume nesses casos, abria-se ao culto pela população que assistia à celebração das missas. 
 


 
Jerónimo Brandão da Silva, senhor de Vale da Cunha, que militou no Alentejo nas Guerras da Restauração, deve ter sido quem mandou edificar esta casa.
 
 
“A Casa Brandão da Silva, que faz esquina com a Rua da Ponte Nova, pertencia na segunda metade do século XVII a Jerónimo Brandão da Silva, casado com D. Petronilha Maria de Andrade Lemos Sotomaior, sendo herdada mais tarde pelo seu neto, Martim Afonso de Melo Brandão Correia (1711-1776), filho e sucessor de José Correia de Melo e de D. Micaela Margarida Brandão de Sotomaior. O único documento que temos sobre a construção desta casa é de 21 de Julho de 1741, altura em que Martim Afonso de Melo contratou os mestres pedreiros António da Costa, Bernardo Borges, António Fernandes, Manuel Martins e Simão Lopes, para lhe fazerem a obra de pedraria na sua casa do lado da Rua da Ponte Nova, «na forma do risco e planta». Mais uma vez o contrato não revela o nome do autor das plantas. Esta obra pro­vavelmente está relacionada com a construção, de toda ou parte, da extensa fachada virada para a Rua da Ponte Nova, onde se abrem, nos dois pisos, catorze janelas de peitoril. O frontispício virado para a Rua das Flores apresenta, no andar nobre, seis janelas de sacada (numa descrição da casa, em 1746, refe­rem-se cinco), rematadas, em alternância, por frontões curvos e triangulares. Este esquema arquitectó­nico poderia datar-se entre o último quartel do século XVII e a primeira metade de Setecentos, ainda que, sem documentação, a datação precisa seja difícil. No rés-do-chão, onde existiam cinco portadas, uma pequena portada lateral é rematada por um frontão cujo modelo o insere numa linguagem mais lúdica, própria do barroco portuense”.
Fonte: Joaquim Jaime B. Ferreira Alves, In “A Casa Nobre do Porto na Época Moderna” ed. INAPA 2001

 
 
Casa dos Brandão e Silva, antes de ser intervencionada



Casa dos Brandão e Silva, após sofrer obras de restauro, passando a ser a "Pousada Porto - Grupo Pestana"



Na esquina oposta, formada pelas ruas das Flores e da Ponte Nova, viveu o licenciado António Figueiredo da Silva e junto o fidalgo da Prelada, D. Garcia de Noronha, casado com Mariana Francisca de Barros.
 


Prédio onde viveu o fidalgo da Casa da Prelada, na esquina das ruas das Flores e Ponte Nova, no início do século XVIII
 
 



Casa da Companhia (Casa Figueiroa Pinto) / Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro



Esta casa, que fica situada na Rua das Flores nº 69, onde funcionou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, criada pelo Marquês do Pombal, está a ser preparada (2021) para se tornar num hotel.
Aberta a Rua de Santa Catarina das Flores em 1521, em 16 de Fevereiro de 1523, uma parte da área que compõe a Casa da Companhia foi emprazada através de escritura a Brás Brandão e, dez anos depois, uma outra parte foi emprazada a Isabel Luís, viúva de Álvaro Rodrigues, mercador da cidade.
Em 1542, ainda eram proprietários dos terrenos o dito Brás Brandão e Catarina Luís, provavelmente filha de Isabel Luís e, a 14 de Novembro de 1576, Fernão Brandão e sua mulher Faustina de Almeida, filho e nora de Brás Brandão, vendem pelo preço de cento e quarenta reis dois chãos ao fidalgo da Casa Real e procurador da cidade do Porto, Francisco Neto de Figueiroa, também conhecido por ter emprestado desinteressadamente 500 cruzados ao Senado da Câmara do Porto, para que esta socorresse Lisboa, que tinha sido atingida por uma peste.
Em 7 de Novembro de 1579, aquele fidalgo comprou outro chão e prazo, já com casa, a Froyollas de Saa e mulher Margarida Ferreira, que os herdou da sua primeira mulher, Maria Ribeira, a quem foram doados por Catarina Luís.
Francisco Neto de Figueiroa morre em 1604, passando a casa para o seu filho mais velho, João de Figueiroa Pinto.
Durante os 100 anos seguintes, a casa passa de mão em mão, sempre dentro da mesma família e, em meados do século XVIII, está na posse de um outro João Figueiroa Pinto, filho também de João Figueiroa Pinto e de Maria Carneiro de Barros.
É o neto deste casal, Manuel Figueiroa Pinto (1721 – 1775) que nela tinha nascido, que irá herdar a casa da Rua das Flores passando, mais tarde, a residir na sua Quinta de Santo Ovídio, hoje, Praça da República.
Por sua morte e dado, como parece, não ter tido descendência, passou para a posse de um seu afilhado, Manuel Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto Miranda de Figueiroa, da família dos Pamplona, que viria a ser o 1º visconde de Beire, dos quais descendem os condes de Resende.
Aquele Manuel Pamplona vendeu por 23 contos de réis, em 1 de Dezembro de 1809, à Companhia Velha a casa que, no entanto, já lhes estava arrendada, desde Maio de 1761, por Manuel Figueiroa Pinto.
Até ao fim do século XIX, as instalações da Casa da Companhia tinham uma força militar, composta por um cabo e três soldados, que montava guarda ao edifício de dia e de noite.
Antes, a Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro teve o seu escritório ou casa do despacho, como era uso dizer-se, na Rua Nova (hoje, do Infante D. Henrique).



Casa da Companhia



Casa da Companhia




Casa da Companhia em desenho de J. Villanova em 1833




A fachada de entrada do que foi a capela da casa dos Figueiroa – Ed. MAC



Na foto acima pode apreciar-se a entrada do que foi a capela do palacete dos Figueiroa Pinto, situada nas traseiras deste e virada para a Rua do Ferraz. Esta capela é fronteira à capela do palacete dos Brandão e Silva do outro lado da Rua do Ferraz.
Em 1989, por deferência da Real Companhia Velha, a Casa da Companhia já estava ocupada, gratuitamente, pela ANJE (Associação Nacional dos Jovens empresários) formada em 1986 e que teve como primeira instalação uma sala cedida pela Associação Comercial do Porto.
Por lá se manteria até 1993, quando decidiu mudar-se para edifício próprio construído em Lordelo do Ouro.
Em 2016, seria a Fundação da Juventude a abandonar o edifício, que tinha ocupado e comprado em 1995, depois de suceder no local à ANJE, tendo-se transferido para o Palácio das Artes no Largo de S. Domingos.
Presentemente, a Casa da Companhia é um hotel tendo a sua fachada, voltada para a Rua das Flores, sido alterada a nível do piso térreo, com a transformação de portas em janelas, como se pode observar por comparação das fotos abaixo.

 

 



 

 

 





Após sofrer obras de restauro, o edifício passou a albergar o "Casa da Companhia Hotel" - Ed. Graça Correia




Casa dos Maia (ou Ferraz)


Esta casa fica na Rua das Flores nº 29, e remontará ao séc. XVI, na posse de Martim Ferraz e continuou na família Ferraz pelo que começou a ser designada por Casa do Ferraz.



Casa dos Maia



Esta casa pertencia em 1570 a, “Martim Ferraz, «fidalgo cavaleiro da casa real», governador de Baçaim e que casou no Porto com Catarina Rebelo, filha de Manuel Bravo e sua mulher Maria Carneiro e é o primeiro desta família a viver na Rua das Flores. Em 1733, Bartolomeu Ferraz de Almeida vinculou-a, sendo em 1746 os administradores dos legados perpétuos instituídos por Bartolomeu Ferraz de Almeida, o prefeito e irmãos da Casa de São Roque da Companhia de Jesus. No segundo quartel do século XIX estava na posse de Domingos de Oliveira Maia nome pela qual ficaria conhecida.”
Fonte: Joaquim Jaime B. Ferreira Alves In “A Casa Nobre do Porto na Época Moderna” ed. INAPA 2001



Na primeira metade do século XIX, a casa já pertencia a Domingos de Oliveira Maia, cuja família possuía a Quinta do Painço, no concelho da Maia e, a partir de então, a Casa do Ferraz,  começa a ser identificada por Casa dos Maia.
Por não ter descendentes, após a morte de Domingos Maia, o palacete na Rua das Flores e uma outra habitação icónica por ser dotada de umas ameias, situada no Passeio Alegre, na Foz do Douro, foram parar às mãos da sua irmã Ludovina.
Maria Ludovina d'Oliveira Maia, casada com Bernardo Pereira Leitão, tiveram quatro filhos: Adriano Pereira Leitão, Jaime Pereira Leitão, Júlia Petronilha Pereira Leitão (casada com o 1.º visconde de Gouveia) e Laura Leitão de Carvalho.
À morte de Maria Ludovina Maia, em 1881, ela já era viúva há cerca de um ano, tendo sido seus testamenteiros, entre outros, a sua filha Laura Leitão e o seu filho Adriano, ainda vivos, à data.
A cada um desses filhos coube uma parte da herança respeitante a esta casa da Rua das Flores. A terceira parte reverteu para os netos da falecida.
Mais tarde, por sucessivos testamentos o palacete passaria para Maria Serpa Pimentel (filha da neta de Domingos Maia, Júlia Petronilha), falecida em 1952 e que vivia, habitualmente, na Quinta de Vale Abraham, em Lamego.
Em 24 de Setembro de 1934, Maria Serpa Pimentel já tinha vendido o palacete da Rua das Flores, com reserva de usufruto, por 276 mil escudos, a seu sobrinho, Manuel de Serpa Pimentel.


“O edifício é composto por lojas, sobrelojas e primeiro andar.
Neste último, podem ver-se oito varandas de ferro e respectivas portas, decoradas com frontões triangulares. O beiral é bastante saliente e está assente numa série de «cachorros de pedra».
Entre os dois portais e a janelas da sobreloja, decoradas com finos lavores de pedra, sobressaem dois brasões partidos, com as armas dos Bravo e Ferraz.
No interior, possui uma escadaria nobre formada por três lanços de escadas de pedra - dois laterais e um central - que dá acesso, por quatro portas abertas no último patamar, aos três salões do primeiro andar”.
Fonte: Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga AHMP, In “Porto a Património Mundial CMP 1993”



“No pátio das traseiras existe uma fonte composta por um grande golfinho de cabeça voltada para baixo que lançava água para uma taça de pedra.
Neste mesmo pátio erguia-se uma capela de planta oitavada, obra atribuída a Nicolau Nasoni; também já referidos como da autoria de Nasoni são os ornatos das janelas da fachada do edifício, com evidência para as que ostentam os dois brasões.
Tudo indica que o prédio foi reformado no século XVIII, sendo desta época a decoração da frontaria”.
Fonte: “doportoenaoso.blogspot”


Após sofrer obras de restauro, a Casa dos Maias passou a albergar o "Hotel Bay Porto" - Ed. Graça Correia









Rua das Flores nº 36



Na foto acima está a casa onde no século XVIII nasceu Jerónimo de Távora e Noronha que viria a ser Deão da Sé do Porto e um dos principais mecenas de Nicolau Nasoni.
Roque Peres Picão residia na Rua das Flores e casou com D. Leonor Freire que era irmã do deão da Sé (chefe do Cabido) D. João Freire Antão.
Desse casamento nasceu D. Micaela Antónia Freire que herdou a Quinta do Freixo, que pertencia a seu pai.
Esta senhora foi casada com D. António de Távora Noronha Leme e Cernache, tendo, desta união, nascido D. Jerónimo de Távora Noronha Leme e Cernache, que nasceu nesta casa da Rua das Flores em Novembro de 1690.



 “À semelhança da maioria das casas desta rua, que se encontram bastante alteradas em relação à sua forma original, a nº 36 caracteriza-se por ainda ter importantes partes que datam da ocasião da abertura da rua. De onde se destacam os dois pisos intermédios, que na fachada contempla as janelas emolduradas precisamente ao estilo renascentista, com os lintéis harmoniosamente salientes das ombreiras e coroados por uma cornija.
Observando-se a fachada destes dois pisos podemos obter uma fugaz perceção de como eram as casas desta rua no século XVI. Tendo para isso de nos abstrairmos das alterações que posteriormente a casa sofrera: como o acrescento do terceiro piso; a alteração do piso térreo; bem como o acrescento das varandas; e, ainda, o revestimento a azulejo.”
In: historiadoreseb23.blogspot.pt



O Deão Jerónimo de Távora e Noronha viria também a ser proprietário por herança, na Sé, da chamada Casa Nobre de Vandoma.
Deão é uma dignidade eclesiástica que identifica o presidente do cabido, isto é, dos cónegos.



Casa dos Constantinos ou Casa dos Cabrais




“A entrada principal da casa fica na Rua das Flores nº 39 e dava para um amplo portal, por onde se subia à sobreloja e desta para o andar nobre, onde se encontravam os salões. No terceiro andar, estavam os aposentos principais e a Capela com Sacristia. Também neste andar ficava, na parte de trás, a sala de jantar e o salão de festas. Por baixo era a cozinha e uma esplêndida garrafeira com abóbada de granito.
Possuía extensos jardins, estufas, mirantes, pomares e hortas.
Do lado da Rua da Vitória, ficavam as cocheiras, cavalariças e outras dependências e a propriedade tinha ainda saída para a Rua dos Caldeireiros.
O portão do lado da Rua da Vitória era encimado pela pedra de armas da família dos "Constantinos".
Fonte: Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga AHMP, In “Porto a Património Mundial CMP 1993”




A Rua da Vitória já se chamou de S. Roque da Vitória e no século XVII tinha outra denominação, Vie­la de Luís Coelho.
Sobre o topónimo Luís Coelho, sabe-se que se referiria a uma personagem que se chamava, Luís Coelho de Beça e tinha uma al­cunha pitoresca: o "Boas Noites".
Por aqui tinha lugar o culto, a S. Roque com origem na tal peste que grassou na antiga Rua da Porta do Olival, que era como se chamava a Rua das Tai­pas, antes de ter sido entaipada por ordem da Câ­mara. Na atual Rua da Vi­tória, logo à entrada para quem nela entra pela Rua das Taipas, do lado direi­to, ainda existe um pe­queno nicho (foto mais pequena) onde está uma imagem de S. Roque. E todos os anos a comuni­dade local evoca este pa­droeiro com uma festa sempre muito concorrida.
O primeiro dono que se conhece desta casa é o Dr. Inácio Ferreira que residia em Lisboa e a terá vendido a um mercador e piloto da Índia.
O primeiro Constantino a lá viver foi Constantino António Alves do Vale que a comprou por 12000$000, reconstruindo-a e dando-lhe o aspecto que tem hoje.
Constantino António Alves do Vale, um portuense, nascido em 8 de Outubro 1806, estabeleceu-se no Porto como advogado, já que era Bacharel em Leis, desenvolvendo uma frutuosa actividade empresarial. Esteve ligado à Companhia Nacional dos Tabacos de Xabregas, fez parte da direcção da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro, foi membro da Comissão Financeira da cidade do Porto, no período da guerra civil em 1846-1847 e um dos fundadores do Club Portuense.
Foi, ainda, proprietário de várias quintas: Quinta do Seixo, em Valença do Douro; Quinta do Cachão, em Vale da Figueira; Quinta de Trevões, em Serzedinho; Quinta de Fura-Montes, em Azevedo de Campanhã, actualmente, o Horto Municipal; Quinta de Real (herança de sua mulher, Maria da Conceição Ribeiro Coelho), em Braga.
Também foi proprietário de outras diversas propriedades: Casa de Sendim, em Stº Tirso, freguesia de Roriz; Quinta de Santiago de Carreira, em Paços de Ferreira, etc, etc.
Os Vales Pereiras Cabrais descendem de Constantino António Alves do Vale, que viria a falecer em 30 de Março de 1873.
Nesta casa viveu o Padre Luís Gonzaga Cabral, filho de Constantino Pereira Cabral e de Maria Emília Ribeiro Coelho, nascido a 1 de Outubro de 1866 e sendo o 10º filho, tardio de sua mãe, pois deu-o à luz com 50 anos de idade. Acabaria por nascer na casa de férias da família, na Rua Central, à Foz do Douro.
Hoje o edifício, da Rua das Flores, foi remodelado e aloja o Flores Village Hotel & SPA.
O projeto de recuperação do edifício primou por manter a traça original, com destaque para os tectos pintados por Luigi Chiari e para os estuques de alguns dos quartos e apartamentos.




À direita a Casa dos Constantino



A casa dos Constantino cuja propriedade ia da Rua das Flores à Rua da Vitória



Portão traseiro da antiga casa, na Rua da Vitória,  actualmente, a entrada para um hotel que aproveitou esta parte das instalações




As casas de Luís Fernandes Dourado
 
 
 
Os dois prédios, na Rua das Flores, ainda existentes com n.ºs de polícia 44-48 e 50-54, respectivamente, foram mandados reformar em meados da década de 1740 por Luís Fernandes Dourado para sua morada.
Luís Fernandes Dourado, nascido em 1706, em Laúndos, Póvoa de Varzim, foi familiar do Santo Ofício, acionista nas Companhias de Vinhos de Pernambuco e Paraíba, casou com mulher rica, Teresa Angélica, e foi Tesoureiro da Câmara da cidade do Porto, em 1758, lugar só ao alcance de quem tinha possibilidades de, em caso de descontrolo de contas, ter que responder com a sua fortuna.
No ano de 1740, Luís Fernandes Dourado compra, então, a António de Almeida Carvalhais as duas casas da Rua das Flores, que iam de 44 a 54, e que irão ser reformadas pelo seu novo proprietário.
Por herança, a propriedade será recebida por Bento José Dourado, nascido em 1750.
 
 
 

Cortesia do arquitecto Luís Bourbon Aguiar Branco – In revista “O Tripeiro”, 7.ª Série, Outubro de 2017
 
 
 
As duas moradas de casas começaram por ser de arquitectura similar, sendo que, a de numeração 44-48, foi alvo de um incêndio, em 1903, e a reedificação da nova, cuja proprietária era, à data, Maria Helena Dourado, apresentou uma arquitectura diferente da primitiva e da que lhe era próxima.
 


 

Cortesia do arquitecto Luís Bourbon Aguiar Branco – In revista “O Tripeiro”, 7.ª Série, Outubro de 2017
 
 
 
 
 
Em primeiro plano, os prédios da Rua das Flores, 44-54 – Fonte: Google maps