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sábado, 30 de março de 2024

25.235 Igreja dos Congregados, Padres Congregados e Campo das Hortas

 
Capela de Santo António do Penedo
 
 
Uma capela junto da Porta de Carros tinha sido começada a construir no ano de 1660, por iniciativa dos desembargadores do Tribunal da Relação cuja confraria, no século XVII, estava instalada num pequeno templo que existia nos antigos Carvalhos do Monte, actual Largo do 1.º de Dezembro, chamada capela de Santo Antão e que, viria, mais tarde, também, a ser conhecida por Capela de Santo António do Penedo, segundo alguns historiadores, por ter sido construída sobre uma rocha e segundo outros numa alusão ao culto a Saint Antoine du Rocher, um eremita que, no século VI, fundou em Tours, na França, a cé­lebre abadia de S. Juliano.
Quando os magistrados deixaram a ca­pela dos Carvalhos do Monte ela perten­cia ao morgado Miguel Brandão da Sil­va. Mu­dou várias vezes de dono sofrendo pro­fundas alterações de cada vez que muda­va de mãos. Possuía um elegante alpen­dre que um dos últimos proprietários mandou demolir. Com essa mutilação, a capela perdeu toda a graça e pitoresco que a caraterizavam.
Por volta de 1886, a capela estava já em ruínas e foi completamente demolida para a abertu­ra da Rua de Saraiva de Carvalho, que iria facilitar o acesso ao tabuleiro superior da ponte de Luís I.

 
 
 
Ligação da Capela de Santo António do Penedo à Igreja dos Congregados
 
 
 
A ligação entre estes dois locais de culto é muito evidente e tal será mostrado a seguir.
Assim, no Porto, o Padre a Baltazar Guedes, fundador do Colégio dos Órfãos tinha erguido, em 1664, na igreja de Nossa Senhora da Graça, contígua ao colégio, um altar em honra de S. Filipe Néry, tendo no ano seguinte criado a Confraria de S. Filipe de Néry, ligada ao seu colégio.
Em Julho de 1680, chegavam ao Porto vindos de Lisboa os Padres Manuel Rodrigues e João Lobo, onde acabava de ser criada a Congregação do Oratório da Regra de S. Filipe Néry, que pretendiam formar um convento, tendo começado por tentar ocupar o Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça, onde era reitor o Padre Baltasar Guedes. Este opôs-se veemente que tal acontecesse e os padres referidos passaram a cobiçar uma capelinha em frente da Porta de Carros.
No ano de 1680, a Câmara Municipal do Porto, aceitando um pedido do rei D. Pedro II, disponibilizou-se para facilitar à Congregação do Oratório de S. Filipe de Nery tudo o que estivesse ao seu alcance para que os padres congregados pudessem instalar-se na cidade e aqui "estabelecer a sua casa".
No rol das facilidades, incluiu-se a cedência, à referida congregação, da capela da Porta de Carros, da invocação de Santo António, que fora começada a construir em 1660 com esmolas dos portuenses, mas cuja administração estava, então, a cargo da Câmara que, por essa razão, era quem organizava e, obviamente, pagava a grande festa que todos os anos se realizava no dia do patrono.
No documento que foi lavrado, aquando da cedência do templo, constavam duas alíneas curiosas: primeiro, que a ermida era doada à referida congregação na condição de que esta manteria Santo António como padroeiro do templo e que a sua imagem continuaria a figurar em lugar de relevo na fachada ou no altar-mor; segundo, que, além da capela, a Câmara também doava aos padres de S. Filipe de Nery "o sítio e campos ao redor della..." a fim de aí construírem um convento.
Para a nova igreja dos padres congregados, foi aproveitada a anti­ga capela que ficou a servir de capela-mor do actual templo.
Ora o tal sítio e campos que havia ao redor da Capela da Porta de Carros, onde viria a surgir a Igreja de Santo António da Porta de Carros ou Igreja dos Congregados, faziam parte do conhecido como o “Campo das Hortas” que o bispo D. Tomás de Almeida, no século XVIII, transformaria na Praça Nova das Hortas antecessora da actual Praça da Liberdade.
Aliás, este bispo, que também exerceu as funções de governador da Relação e de governador das Armas da Cidade, foi quem mandou abrir na muralha Fernandina o Postigo de Santo Elói, junto ao largo do mesmo nome, hoje Largo dos Lóios, em frente à velhíssima Rua das Hortas, actual Rua do Almada.
Sobre a capela da Porta de Carros, escreve Horácio Marçal as notas seguintes retiradas de O Tripeiro, serie V, nº. X de um artigo de 1955:

 
“Em meados do séc. XVII a Confraria de Santo António, sediada por favor na Capela de Santo António Magno ou do Penedo, propriedade do morgado Miguel Brandão da Silva, decidiu adquirir casa privativa e conseguiu que a Câmara lhes vendesse um terreno perto da Porta dos Carros, onde erigiram uma pequena capela. Poucos anos depois acordaram com a Câmara lhes comprasse o terreno, com a condição de lhes construir a capela-mor, o que aconteceu. Porém, por insistência real e do Bispo do Porto, a capela foi entregue, em 1680, à Congregação da Regra de S. Filipe de Néri, com a condição de manter Santo António como padroeiro. Estes terminaram a construção da parte da Igreja ainda inacabada. Tornando-se pequena, a capela foi demolida em 1694, e em seu lugar erigida uma importante Igreja que, depois de novas ampliações, é a que podemos apreciar no nosso tempo. 
O convento começou a construir-se em 1683.”
 
 
 
Por sua vez, as obras na Igreja de Santo António da Porta de Carros, ficaram prontas em 1703, tendo presidido à cerimónia de inauguração o bispo D. Frei José de Santa Maria Saldanha.
O sucessor deste bispo, D. Tomás de Almeida, protegeu muito os padres da Congregação de S. Filipe de Nery contribuindo para o embelezamento do interior da sua igreja, a actual igreja dos Congregados, diante da qual mandou fazer um belíssimo átrio que comportava "três arcarias", varandas de ferro e uma larga escadaria "por baixo da qual havia lojas abobadadas que os padres alugavam".
D. Tomás de Almeida saiu do Porto, em 1717, para tomar posse do cargo de cardeal patriarca de Lis­boa. Foi o primeiro a ocupar aquele alto cargo eclesial. 
 
 
“Naqueles re­cuados tempos, quem saísse do velho bur­go pela porta de Carros, que ficava mesmo em frente à igreja dos padres da Congrega­ção, os Congregados, entrava numa zona tipicamente rural, composto por caminhos vicinais, semelhantes aos de uma qualquer aldeia do interior; lameiros, dos quais o mais célebre era o do meloal, onde havia uma nascente de água que abastecia o mosteiro dos franciscanos; enormes ex­tensões de terras onde vicejavam hortas, daí o nome da tal praça que foi construída nas hortas que eram do bispo; soutos de carvalheiras, nome que subsiste numa rua ali perto; e odoríferos laranjais que viriam a identificar um sítio, o do Laranjal, topó­nimo que, durante muitos anos, identifi­cou uma rua, um largo e uma quinta, a do La­ranjal ou dos Laranjais. 
A norte da antiga Praça Nova das Hortas, havia também o Casal da Regada, enorme propriedade com terras de cultivo e pomares que em 1759 era foreira do Cabi­do da Sé. Da leitura das suas confrontações ficamos a saber que a norte tinha como li­mite "o ribeiro que vem do Bonjardim"; a poente, "uma terra que pertence aos láza­ros e o caminho público que vai para Liceiras e Santo Ovídio...". 
As terras do Casal da Regada eram irriga­das com a água do referido ribeiro do Bon­jardim, como consta de um emprazamen­to feito à propriedade.
Havia também, a norte da Praça Nova das Hortas, o Casal do Galvão que, em 1677, "ficava junto da Fonte da Neta e do qual fa­zia parte o campo da Cancela que de norte partia com o caminho que ia para a Porta de Carros...". 
Foi nos terrenos desta propriedade que, muitos anos mais tarde, se construiu o largo da Cancela Velha que chegou, praticamen­te, até aos nossos dias, e de que resta a me­mória somente no nome de um café local”. 
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 

Desenho do Convento e Igreja de Santo António da Porta de Carros de Joaquim Villanova

 
 
No desenho, anterior de 1834, observa-se que a igreja apresenta a torre quadrada com terraço, que tinha 8 sinos e que existiu até 1842, tendo os sinos sido comprados pela Igreja da Santíssima Trindade. À direita, vê-se uma “cadeirinha” do Porto.
Henrique Duarte Sousa Reis, In “Apontamentos para a verdadeira história da cidade do Porto” (Vol. 4), diz sobre a igreja e convento dos congregados, uma narrativa que descreve, em parte, o desenho executado por Joaquim Villanova:
 
 
"Tinha este convento a sua principal fachada voltada para a porta de Carros, ficando-lhe o frontispício do seu templo no centro, a qual toda descansava em um largo pátio ladrilhado e de figura quadrilonga, com uma escadaria de mais de dez degraus, que ocupava quase todo o lado fronteiro; à esquerda da porta da igreja e na parte do convento, que ficava até à esquina da Praça Nova [hoje Praça da Liberdade] estava praticada a portaria, sobre ela se via, em formas colossais, metido em um grande nicho a imagem do padroeiro, e logo acima estavam rasgadas duas janelas de sacada com suas varandas de ferro, servindo de remate a torre dos sinos: do outro lado da igreja havia um idêntico edifício, em tudo igual menos na torre que não tinha, e esteve sempre habitado por inquilinos que pagavam o aluguer ao convento, cuja parte habitada pelos frades era esta que ainda se estende pela parte do nascente da Praça de D. Pedro [novamente, a atual Praça de Liberdade], sendo apenas alterada pelos herdeiros de Manuel José de Sousa Guimarães, que comprou ao estado, em lhe rasgarem mais janelas de varanda no primeiro andar do que as que tinha antes, fazendo-lhe ao mesmo tempo, no pavimento térreo portais regulares, sendo antigamente baixos e que davam entrada às lojas soterradas, que os padres costumavam arrendar por bem acrescida quantia.
Tinha este convento uma escolhida livraria, e no seu interior, além da capela-mor, um pátio ou claustro, que no seu centro continha um chafariz com a estátua de S. Filipe deitando água. A sacristia era situada para o lado da praça de D. Pedro, recebia muita luz, possuía bem constituídos caixões cheios de ricos paramentos, e suas paredes eram adornadas com os retratos dos Propósitos da congregação; esta, com a torre foi demolida pelo comprador, e regularizado o risco, para comodidade dos moradores, destas casas, que edificou, mas não conseguiu a demolição sem ter uma forte questão judicial com a irmandade, que pretendia ambas estas peças do edifício por serem pertenças da Igreja que lhe tinha sido dada pela Soberana a Senhora D. Maria II." 
 
 
 
Durante a guerra civil acontecida entre o exército de D. Pedro IV e a tropa de D. Miguel, os pa­dres congregados, que eram miguelistas, fugiram da cidade e deixaram a igreja e o convento abandonados. A igreja serviu de hospital de sangue durante o Cerco do Porto e nas instalações do mosteiro arrecadaram-se li­vros e outros objetos provenientes de ou­tros conventos. 
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António.
A Confraria de Santo António da Porta dos Carros que esteve extinta entre 1680 e 1708, ano em que foi reactivada, manteve na Igreja a sua sede até à saída dos monges em 1832. Em 1834, a Igreja foi-lhe devolvida pela Câmara,  livre de encargos.
Foi a partir da tomada de pos­se do templo pelos homens da irmandade de Santo António que a igreja passou a ser conhecida por igreja de Santo António dos Congregados. 
Infelizmente, aos homens da confraria não foi entregue a igreja na sua totalidade. A torre quadran­gular e a primitiva sacristia já haviam le­vado sumiço. Os herdeiros de Manuel Sousa Guimarães, junto do convento e igreja, mandaram fazer grandes obras, com abertura de novas janelas e portas exteriores.
Demoliram a sacristia, que ficava do lado da Praça das Hortas e a torre (1842). Desta forma poderiam alugar ou vender a diversas pessoas, o que ocasionou a abertura de estabelecimentos e casas de habitação.
 
 
 
 
Com o nº 9 está identificada a igreja e convento dos Congregados
 
 
 
A planta acima será da 2ª metade do Século XVIII.
O acesso à igreja dos congregados, ao longo dos tempos, foi mudando como se pode ver a seguir.
De notar que na gravura anterior da autoria de J. Villanova de 1834, a entrada da igreja (como inicialmente), se fazia por escadaria frontal.
Em 1839, o acesso já era feito por dois lanços laterais de escadas amparadas por varandim (que se manteve durante algumas décadas), como se vê na foto abaixo.
Voltaria a ter, novamente, um acesso por escadas frontais envolvidas com balaustrada, como se pode ver em fotos seguintes e, a partir de 1913, o acesso ao templo realiza-se à face da rua, passando o desnível a ser vencido por escada interior, colocada à entrada.
 
 
 
 

A Igreja dos Congregados com escadaria lateral

 
 

Entrada da Igreja dos Congregados nos fins do Século XIX
 
 
 
 
Na foto acima, a igreja tem a torre sineira já à direita e está novamente com uma escadaria frontal.
Em 1911, colocou-se a hipótese, face à abertura de novo troço da rua que ia do fundo da Rua de 31 de Janeiro para a Rua Sampaio Bruno, até aí fazendo parte da Rua do Bonjardim, entre outras alterações, do corte do ângulo nascente da Igreja dos Congregados ao que a respectiva confraria se opunha, como é fácil de imaginar.
 
 
 
“Uma ajuda importante para a resolução dos problemas das expropriações veio de António da Silva Cunha, deputado pelo Por­to às Constituintes de 1911. Era o proprietá­rio da camisaria Confiança, que funcionava na Rua de Santa Catarina, num prédio pe­gado ao edifício onde está instalado o Gran­de Hotel do Porto. 
Em agosto de 1911, Silva Cunha, que teve de enfrentar complicados problemas de ex­propriações quando andava a construir o edifício para a sua fábrica, fez uma interven­ção no Parlamento, solicitando a publicação urgente de uma lei que facilitasse as expro­priações na zona para onde estava projetada a obra de alargamento da Rua do Bonjar­dim. O Parlamento atendeu o pedido e a lei foi publicada em agosto de 1911. Mas as di­ficuldades para a realização da obra não es­tavam totalmente ultrapassadas. Houve, até, necessidade de esboçar um novo projeto, o que aconteceu em 1915. 
Estava então à frente "das obras da Câ­mara", o dinâmico vereador Elísio de Melo, a quem a cidade deve alguns dos mais im­portantes projetos urbanísticos dos come­ços do século XX, como a Avenida dos Alia­dos, por exemplo. Este segundo projeto foi aprovado em 3 de fevereiro de 1915, dando-se início aos trabalhos logo a seguir. 
O primeiro projeto estimava para a nova artéria uma largura de dezoito metros, tendo em atenção o volumoso trânsito, não apenas de veículos, mas também de pessoas que por ali circulavam. Essa lar­gura, na segunda a versão, foi reduzida para catorze metros e meio, o que evitava que o edifício da Igreja dos Congregados fosse mutilado”.
Germano Silva, In JN
 
 
 
O projecto inicial seria abandonado, e o que o substituiu não previa qualquer corte no edifício da igreja. No entanto, a irmandade dos padres da Congregação teve que fazer obras que consistiram em adaptar a entrada no templo ao novo projecto urbanístico. Essa adaptação consistiu na su­pressão de uma elegante escadaria de acesso frontal ao interior do templo. A es­cadaria não sendo suprimida acabaria por mudar de sítio. Deixou de estar no exterior do templo para passar a estar, ago­ra, na parte de dentro, de modo a que fosse possível vencer o desnível.
 
 
 
 

À direita, é visível a balaustrada da Igreja dos Congregados

 
 
 


Entrada, ao nível da rua, da Igreja dos Congregados, em 1915. Em baixo, à direita, uma viatura de venda de água mineral com a indicação de “Águas Romanas”
 
 
 
As "Águas Romanas" identificavam-se como as águas minerais provenientes de Pedras Salgadas e foram registadas por Ernesto Canavarro, como nos dá conta o texto seguinte, publicado na revista "O Tripeiro" IXº ano, Vª série.
 
 




 
Em 1939, o acesso à igreja dos Congregados já era feito, desde 1915, ao nível da rua - Fonte: AHMP
 


 

Igreja dos Congregados, actualmente, com entrada à face da rua - Ed. “asvoltasdovento.blogspot”
 
 
 
Para se poder fazer uma ideia, ainda que aproximada, da extensão dos terrenos na posse da congregação de S. Filipe Nery, bastará dizer que a cerca do convento se estendia até à antiga Cancela Velha e corria ao longo de uma estreita e tortuosa viela ainda hoje conhecida por Travessa dos Congregados.


 

Planta em volta da igreja dos Congregados
 
 
 
Na planta anterior se pode ver os terrenos de uma vasta área que igreja, convento e respectiva cerca ocupavam.
Na planta junto da igreja, encontra-se representada uma fonte que tinha a imagem de S. Filipe de Néri a deitar água.
A actual Travessa dos Congregados em tempos muito antigos, era um caminho co­nhecido como a Viela do Bispo ou a Rua do Bispo, por estar em terrenos que pagavam foros à Mi­tra, ou seja, ao mitrado, isto é, ao bispo. Fa­zia a ligação desde a esquina da Rua do Bon­jardim, onde ainda hoje começa, ao Largo da Cancela Velha, que ficava, sensivelmen­te, onde agora está o edifício dos Correios. Na planta anterior seria o caminho de ABC.
Da Travessa dos Congregados ainda existe uma pequena parte que começa na Rua de Sampaio Bruno onde se encontra a porta da foto abaixo, que, supomos, era a entrada para uma construção no fundo da cerca do convento.

 
 

Porta de acesso à antiga cerca

 
 
Durante grande parte do século XX várias gerações de portuenses, à tarde ou à noite, após assistirem a um filme, um teatro ou uma revista, numa sala de espectáculos das redondezas, foram clientes da “Flor dos Congregados”, da “Viúva” ou do “Paris”, à época, chamados de adegas ou tascos.
Mais tarde, quase em frente ao Teatro Sá da Bandeira (ainda existe), abriu o Restaurante Girassol que apelava a uma clientela mais selecta.

 
 

Restaurante Girassol, em 1977 – Fonte: AHMP
 
 
 
A Congregação de S. Filipe de Nery possuía, ainda, terrenos numa outra zona da cidade, para o cimo da actual Rua da Alegria.
Depois da vitória dos liberais, também parte do chamado Monte dos Congregados, que D. João V havia oferecido aos padres congregados, acabaria nas mãos de um brasileiro de torna viagem de apelido Moreira.
A Câmara reservou o restante terreno para abertura das ruas da Alegria e da Duquesa de Bragança, hoje D. João IV.
 
 
 
“Em 1715, o rei D. João V cedeu aos padres Congregados uma espaçosa quinta, junto à actual Praça do Marquês de Pombal, antigo Largo da Aguardente, para servir de brévia, ou seja de espaço de repouso e de lazer numa vasta propriedade denominada Monte de Santa Catarina mas que, depois de ocupada por aqueles religiosos, passou a ser conhecido por Monte dos Congrega­dos e ainda hoje, está recordada na toponímia através da Rua e Travessa do Monte dos Congregados. Foi em terrenos dessa quinta que se rasgou, nos finais do século XIX, a Rua da Alegria.
Há quem afirme, no entanto, que a congregação, apesar daquela doação, já estava por estas bandas desde 1680.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a propriedade dos padres da Congre­gação do Oratório passou para a posse do Estado que a colocou à venda. Comprou-a, dizem as crónicas da época, por muito baixo preço, um brasileiro de torna via­gem, de apelido Moreira que, logo a seguir, deu à exploração a enorme pedreira em que assentava a brévia dos Congregados. Com a extração da pedra foi-se abrindo na rocha uma espécie de amplo corredor que o próprio Moreira ofereceu à Câmara para continuação duma artéria em projecto.
Segundo este, o caminho rústico que entretanto ligava a Rua do Reimão (actual Avenida Rodrigues de Freitas) e o Monte dos Congregados, seria substituído por uma nova rua que devia ligar a desaparecida Rua do Reimão, junto a São Lá­zaro, com a Cruz das Regateiras, junto ao Hospital do Conde de Ferreira, em Costa Cabral. É claro que o tal Moreira não ofere­ceu o terreno à Câmara, sem mais aquelas! Pôs uma condição: que fosse autorizado a dividir em talhões as faixas laterais para a seguir as vender para a construção de pré­dios.
A esta nova artéria iriam dar duas outras novas ruas: a Rua da igreja de Santa Catarina, em alusão à capela das Almas, que, depois, passou a ter o nome de Fernandes Tomás; e uma outra que é a atual Rua do Moreira, apelido do comprador da quinta dos Con­gregados. Estas duas serventias, naquela altura, não iam além da rua que tem hoje o nome de D. João IV. Só muito mais tarde a primeira teve continuação até ao Campo de 24 de Agosto; e a segunda até à Rua de São Jerónimo, hoje Rua de Santos Pousada.
Era, o Monte dos Congregados, um sítio de tal modo privilegiado, que durante o cerco do Porto os liberais mon­taram lá uma estação telegráfica e uma ba­teria, a célebre bateria dos Congregados que, devido à altura em que estava, prote­gia amplamente outras baterias como era o caso da bateria da Aguardente (Marquês de Pombal); da bateria de D. Pedro e D. Ma­ria II, no sítio do Sério (Rua de Antero de Quental); e ainda outros postos de comba­te instalados na Ramada Alta (reduto das Medalhas); no Vale Formoso; no Monte Pedral e as baterias de São Brás e da Glória, junto à Lapa”. 
Com a devida vénia a Germano Silva
 


Da cerca do convento dos padres Congregados à Cancela Velha
 
 
 
Voltando ao local onde os padres congregados tinham o igreja e o convento, para se ter uma ideia do tamanho do terreno, notemos que os chamados “Lavadouros” ficavam na esquina, do que é hoje, a Avenida dos Aliados e a Rua de Magalhães Lemos, em pleno “Laranjal” antigo. 
Em tempos, à Cancela Velha tencionava levar a cidade uma rua desde a Câmara Municipal situada na Praça Nova, mas estava vedada, tal intenção, pela oposição dos padres congregados, pois não estavam dispostos a ceder qualquer parcela pertencente ao seu convento.
Ainda 1834, depois da vitória dos liberais no Cerco do Porto, a Câmara solicitou a D. Pedro IV autorização para alargar e moder­nizar a antiga e tortuosa Viela do Bispo.
Depois de obtida a anuência do rei foi rasgada também uma outra nova artéria a que foi dado o nome de D. Pe­dro, em homenagem ao monarca que au­torizara a sua abertura tendo depois sido Rua Elias Garcia e que na planta anterior é o caminho DE.
A Rua Elias Garcia desapareceu com a construção da Avenida dos Aliados.
Nos finais do século XIX, a Rua de D. Pedro era uma das artérias mais centrais da ci­dade e uma das de maior movimento. Por ela passou, primeiro, a linha do "carro ame­ricano" e, mais tarde, a do "carro eléctrico". Foi nela que o "Jornal de Notícias" teve a sua primeira sede, num edifício que tinha traseiras com a Rua do Laranjal, que corria paralela à de D. Pedro e ia terminar mesmo em frente à Igreja da Trindade. Nesta rua funcionava a alquilaria do José Galiza, famosa pelos carros de aluguer.
Esta rua tinha como transversais, a Rua do Laranjal das Hortas, depois chamada Rua dos Lavadouros e Santo António dos Lavadouros, que corria por onde hoje está a Rua Elísio de Melo e ainda uma outra a que se deu o nome de Rua da Cruz, que depois foi Rua da Fábrica e antes disso era Rua da Fábrica do Tabaco.
Para os lados da Cancela Velha, a Rua do Laranjal, derivava para a Viela do Cirne e mesmo em frente desta viela no nº 185 ficava a sede da sociedade de recreio o Grémio Serpa Pinto, que antes foi Clube Progressista e Grémio Comercial do Porto.


 

Zona da Cancela Velha em processo de demolição
 
 
 
À esquerda na foto acima, o Palácio dos Correios ainda não tinha sido construído no antigo local da residência da célebre Ferreirinha.
Tendo como fonte um desenho de Luís Soares Carneiro a partir da Planta Topográfica da Cidade do Porto e de desenhos existentes no ANTT, Ministério do Reino, DGIP, Mç 3680, Lvº 12, Processo nº 301, "Projecto d’um theatro que Benjamins & Moutinho pretendem construir na rua da Cancella-Velha, da Cidade do Porto – Implantação”, mostra-se a seguir, como seria a zona em que foi implantada a actual Câmara do Porto e a extinta Viela do Cirne.
 
 
 
 

Planta da zona da actual Câmara do Porto em 1883 com projecto para o Teatro Rainha


Legenda:
 
 
 
A- Rua da Cancela velha
B- Rua Elias Garcia
C- Rua do Laranjal
D- Rua do Bonjardim
E- Rua do Estervão
F- Largo da Trindade
G- Viela do Cirne
H- Actuais Paços do Concelho
L – Planta do Projecto do Teatro Rainha
Nota – A tracejado está representado, o projecto de Barry Parker, para a Avenida dos Aliados
 
 
Diga-se que, neste local em 1874, após um ano de funcionamento, a cidade tinha visto arder no Largo da Cancela Velha, o primitivo Teatro da Trindade. Um outro, em madeira, no mesmo local teve vida curta e seria substituído por um outro em pedra, de nome Teatro Rainha, que não seria terminado por a Câmara aí pretender abrir um arruamento de nome Rua Adriano Machado. A artéria foi aberta apenas em escassos metros, porque o proprietário duns terrenos não permitiu que o arruamento passasse na sua propriedade.
 
 
Foi então que acudiu ao cerebro da ilustre Vereação Camararia d’essa epoca a luminosa ideia de abrir a Rua Adriano Machado para ligar a Rua Formosa á Praça da Trindade (…). Para isso era imprescindivel demolir o theatro em construcção e os predios visinhos. Mãos á obra. Theatro em terra. Rua aberta. Becco sem sahida. Aberta a Rua na extensão de 55,4m, esbarrou com um obstáculo não previsto. Para lhe dar sahimento para a Praça da Trindade seria necessario arrasar parte do jardim do palacete de Antonio Bernardo Ferreira (O Ferreirinha). Poderam tanto as influências d’este fidalgo e a pressão d’ellas sobre a Camara que esta, esquecendo-se do que tanto apregoara em prol das necessidades do publico, pela ligação entre os dois pontos mencionados, deixou ficar a rua sem sahida durante annos consecutivos, até que o arrasamento da Rua do Laranjal e circunvisinhanças para a abertura da Avenida dos Alliados trouxe consigo o palacete e jardim Ferreirinha, que entravava o prolongamento da Rua Adriano Machado, ao mesmo tempo que tambem trazia o d’esta propria rua que, em grande parte já desapareceu, estando para breve o desapparecimento do pouco que d’ella ainda resta”.
Fonte: Faria e Castro
 
 
 
Cancela Velha em planta Teles Ferreira de 1892
 
Legenda:
 
1- Rua da Cancela Velha
2- Rua do Laranjal
3- Viela do Cirne
4- Rua Dr. Adriano Machado
5- Jardim particular
6- Rua do Bonjardim
7- Rua D. Pedro
8- Rua Formosa
 
 
Pela comparação das duas plantas anteriores da zona da Cancela Velha, pode observar-se que no local que esteve previsto para edificação do Teatro Rainha, acabou por surgir envolto em polémica, uma rua chamada Rua Dr. Adriano Machado, professor conceituado que foi Director da Escola Politécnica, e que chegou a ser Reitor da Universidade de Coimbra e Procurador-Geral da Coroa, tendo falecido em 1891, portanto um ano antes da publicação da planta.
Para Sul na Rua do Laranjal, por detrás dos antigos Paços do Concelho, e mesmo em frente do café Chaves, estava a capela dos Três Reis Magos.
O edifício de maior envergadura da Rua de D. Pedro era, sem dúvida, o do Hotel de Frankfurt que ocupava o gaveto das Ruas de D. Pedro e do Laranjal. Tratava-se da mais importante unidade hoteleira da­quela época. Viveu nele, durante vários anos, o conde de Alves Machado que, sen­do dono do belo palacete que ainda existe, embora bastante degradado, na esquina da Rua de Álvares Cabral com a Praça da Re­pública, onde em tempos funcionou o Ins­tituto Francês, preferiu continuar no hotel, a ir ocupar aquela mansão que veio a ser a residência de um banqueiro.
Manuel Joaquim Alves Machado era um brasileiro de torna-viagem feito visconde pelo rei D. Luís, em 1879 e conde, por D. Carlos, em 1896. Depois de muitos anos no Bra­sil, onde granjeou enorme fortuna, Alves Ma­chado regressou a Portugal em 1873 e fixou-se no Porto, hospedando-se no Hotel de Francfort onde ficou durante 40 anos.
Quando o conde Alves Machado morreu, em 1915, com 93 anos de idade, o hotel já pas­sava por grandes dificuldades.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

(Continuação 9)




rio da Vila é um ribeiro da cidade do Porto  que desagua no rio Douro que com o desenvolvimento urbano acabou por ser totalmente encanado.
O rio da Vila formava-se, principalmente, com as águas de dois mananciais em frente à igreja dos Congregados, e corria a desaguar no rio Douro.
Um nascia na zona da Lapa, precisamente, na Rua de S. Brás, nas traseiras do cemitério da Lapa, atravessava a Rua de Camões e descia pela Quinta do Laranjal (a Avenida dos Aliados dos nossos dias), passava pelo antigo Campo das Hortas (actual Praça da Liberdade), alimentando hortas e lavadouros.
Da Rua dos Clérigos e da Rua do Almada, umas pequenas linhas de água se lhe juntavam.
Nas traseiras da morada da Rua de S. Brás, n.º 245, existe no subsolo a nascente daquela linha de água.
Nesse mesmo local esteve, em tempos, uma capelinha, há muito desaparecida e dedicada a S. Brás e uma bateria, Bateria de S. Brás, da responsabilidade do exército liberal, durante o Cerco do Porto (1832-1833).
Esta bateria, juntamente com a da Aguardente e a do Monte Pedral, defendia a cidade da aproximação do exército miguelista vindo do norte.
 
 
 

No local da elipse, em destaque, nasce um ribeiro e, em tempos, aí se localizava uma capelinha


 
 

Na fachada do n.º 245 da Rua de S. Brás, um azulejo, protegido num nicho, alude ao santo
 
 
 
O tal manancial passa pela Lapa, mais propriamente pelo subsolo da igreja da Lapa, podendo ser observado na sacristia daquele templo, onde existe um poço, cujo topo está protegido por uma grade de ferro, permitindo, assim, visualizar o ribeiro que por ali corre.
Junto ao poço, em azulejaria, existe uma alusão ao Poço de Jacó e à respectiva narrativa bíblica.
 
 
 

À direita, o Poço de Jacó – Fonte: J Portojo


 

Vista para o fundo do poço da sacristia da Igreja da Lapa


O outro, tinha a sua origem nas elevações da Fontinha, e que ao passar no lugar de Fradelos lhe chamavam Ribeiro de Fradelos, seguia descendo pelo actual Mercado do Bolhão (onde se lhe juntavam as águas de mais um pequeno ribeiro), continuando pelo que é, hoje, a Rua Sá da Bandeira (mais, propriamente, pela Rua do Ateneu Comercial) e, pelas traseiras do Teatro Sá da Bandeira, atingia a Rua de 31 de Janeiro.
Os dois ribeiros juntavam-se no local da Praça de Almeida Garrett em frente à Estação de S. Bento, formando o rio da Vila, no qual a cidade foi depositando todas as imundices ao longo dos séculos, transformando-o progressivamente, num verdadeiro esgoto a céu aberto e num foco infeccioso.




Praça Almeida Garrett e, em fundo, a Avenida da Ponte, em 1950


Trajecto do Rio da Vila

Legenda:

1. Igreja dos Congregados
2. Avenida dos Aliados
3. Igreja da Trindade
4. Mercado do Bolhão
5. S. Brás
6. Fontinha
9. Regato (azul) que vem da Rua do Bolhão
Trajecto entre 7 e 8 (amarelo) – Desvio feito em 2017 para desviar o ribeiro da área do Bolhão, passando a correr encanado no leito subterrâneo da Rua de Sá da Bandeira.



A planta acima mostra os dois ribeiros, que junto da Porta de Carros se unem, formando o antigamente chamado Rio da Cividade e, a partir de 1354, Rio da Vila.
O primeiro, nascido no Monte de S. Brás, passa sob a Rua de Camões, (servia os lavadouros da Trindade), passa por baixo da igreja da Trindade, da Câmara e da Avenida dos Aliados, (então Laranjal), pelo lado Nascente da Praça da Liberdade e une-se ao segundo em frente à Igreja dos Congregados.




Praça da Liberdade mostrando restos dos encanamentos, há muito escondidos, por onde circulavam as águas vindas do Monte S. Brás, postos a descoberto aquando dos trabalhos da construção da nova estação S. Bento/Liberdade, da futura Linha Rosa – Cortesia de Manuel Aleixo



O segundo nasce na Fontinha, passa em Fradelos, Bolhão e desliza sob a actual Rua do Ateneu Comercial.
 
 
“ O curso do rio da Vila seguia ziguezagueando pelas trazeiras das casas da Rua das Flores, torcendo um pouco abaixo da Ponte Nova para o lado da extinta Rua da Biquinha, a meio da qual, em pronunciada curvatura, flectia para a Rua de S. João e em linha recta dirigia-se ao Rio Douro.”
Fonte: revista “O Tripeiro” da VIª série, Ano VIº, Nº 8, Setembro de 1966
 
 
No seu percurso, o rio da Vila corria, então, onde hoje se encontram as ruas de Mouzinho da Silveira e de S. João, desaguando no Douro, junto da Praça da Ribeira.

 
 

Percurso do Rio da Vila (a azul) entre a Rua de S. João e a Rua das Fores, quando a Rua Mouzinho da Silveira ainda não existia
 
 
 
Legenda:
 
4. Beco do Cadavai
XV. Largo de S. Roque
2. Rua da Biquinha
3. Rua das Congostas
1. Actual Viela do Anjo




O rio da Vila aparece já indicado no documento de doação de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, do burgo portucalense ao Bispo D. Hugo. É designado como Canallem maiorum, por contraponto ao "canal menor", que seria o Rio Frio, mais para poente. Foi, também, conhecido por rio da Cividade, por passar perto do Morro da Cividade e rio de Carros por passar junto à porta da muralha com o mesmo nome.


“Em 1336, D. Afonso IV, filho de D. Dinis, deu início à construção da chamada muralha gótica que, por ter terminado durante o reinado de D. Fernando, ficou conhecida por muralha fernandina.
A obra arrastou-se por um longo período de trinta e oito anos. Deve ter sido durante o tempo que duraram os trabalhos da construção do muro novo que se realizou o encanamento dos ribeiros que se juntavam no largo fronteiro ao antigo mosteiro das monjas beneditinas de S. Bento da Ave-Maria.
Sabe-se, com efeito, que em 1409, no tempo de D. João I, as águas dos dois ribeiros já corriam encanadas. Refere-o o historiador Horácio Marçal num trabalho sobre o rio da Vila.
Quando afirma que uma das designações que o rio da Vila teve foi, também, a de "rio de Carros", por atravessar o sítio em que na muralha da cidade se abrira esta porta, o referido autor informa que tomou aquela designação "por correr no subsolo da dita porta…". Assim deve ter sido porque não era possível, não é pelo menos imaginável, que se construísse uma obra da envergadura da muralha fernandina com dois ribeiros correndo a céu aberto junto dos alicerces e perto de uma das mais importantes portas de entrada e saída do burgo.
Em 1927, na Praça da Liberdade, na parte mais próxima da Praça de Almeida Garrett, realizaram-se importantes obras destinadas à instalação de um enorme colector. Esses trabalhos puseram a descoberto inúmeras galerias subterrâneas, algumas por onde passariam os tais ribeiros, que durante algum tempo ficaram a céu aberto expostas à curiosidade pública. Sobre essas galerias teceram-se as mais imaginosas considerações atribuindo-lhes, segundo uma curiosa crónica do tempo, "funções clandestinas de intercomunicações para os numerosos conventos de frades e de freiras que por ali existiam…". Como é imaginosa a fantasia popular…
O rio da Vila aparece indicado no documento de doação de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, do burgo portucalense ao bispo D. Hugo. É o célebre "Canallem Maiorum", o que, desde logo, deixa pressupor a existência de um canal menor. Seria este o rio Frio, que nascia em terras do Couto de Cedofeita, nas proximidades da actual Rua da Torrinha, passava pelo sítio onde hoje está o Hospital de Santo António, abastecia a Fonte das Virtudes, corria ao longo do areal da praia de Miragaia e desaguava no Douro no local onde se construiu o edifício da Alfândega nova. Voltemos, porém, ao rio da Vila. Esta não foi a única designação que teve, conforme já foi referido na peça ao lado. Primitivamente era conhecido pelo rio da Cividade, por passar perto deste sítio emblemático do velho burgo. Em 1409 era o rio de Carros por correr no subsolo desta porta aberta na muralha fernandina e que ficava em frente à igreja dos Congregados. Mas com a designação de rio da Vila é que passou à história. Em 1763 a parte deste rio próxima da Ribeira foi coberta com a construção da Rua de S. João. E em 1875 com a abertura da Rua de Mouzinho da Silveira foi encanado na parte que ainda estava a descoberto.”
Com a devida vénia a Germano Silva




Rio da Vila devidamente encanado - Ed. Miguel Nogueira (Porto Digital)



A partir de 1763, o trajecto do rio da Vila, próximo da Ribeira, começou a ser encanado, com a construção da Rua de S. João e ficaria, a partir daquela data, a correr à superfície, apenas, desde do começo do cimo da actual Rua Mouzinho da Silveira até ao início da Rua de S. João.


“Na Rua de S. João havia azenhas onde se moía o cereal com que se fa­zia o pão que a cidade comia. E isto ainda no século XVIII. Com efeito, há um documen­to datado de 26 de julho de 1765, guardado no arquivo municipal, em que se dá conta de que naquela data "o cidadão do Porto Vi­cente José de Sousa Magalhães e mulher" venderam à Câmara, "pelo preço de 1128$800 réis uma azenhas e casas com seus quintais" para se abrir a Rua de S. João desde São Crispim até à Rua dos Ingleses. Esta última artéria é, na atualidade, a Rua do Infan­te D. Henrique.
A Rua da Ponte Nova evoca a existência de uma ponte sobre o rio da Vila que ligava a Rua das Flores à Rua da Bainharia. Debai­xo do arco de pedra desta ponte existia uma arca, também de pedra, "muito bem traba­lhada" onde se retinha a água de uma fon­te muito antiga que estava situada na mar­gem direita do rio da Vila. À água dessa fon­te, que brotava de uma bica de ferro, o povo atribuía virtudes raras como, por exemplo, a de curar "certas moléstias dos olhos", des­de que estes fossem lavados nesta fonte an­tes do nascer do sol. A bica desta fonte deu origem ao nome de uma rua entretanto de­saparecida: a Rua da Biquinha
O hospital e a capela de São Crispim ficavam, naquele tempo, no início da Rua da Biquinha. Com as obras da abertu­ra da Rua de Mouzinho da Silveira, a cape­la foi reconstruída ao cimo da antiga Rua de São Jerónimo, hoje de Santos Pousada.
Uma outra ponte muito bonita, que atra­vessava o rio da Vila, existia, mesmo em frente à rampa que da Rua de Mouzinho da Silvei­ra ainda hoje sobe para o largo de São Do­mingos, onde, já em 1497, havia "boas es­talagens para peregrinos e viandantes", lê-se num documento do desaparecido hos­pital de Santa Clara. A ponte ficava mesmo ao cimo da Rua de S. João. Era toda de pe­dra e muito bem trabalhada”.
Com a devida vénia a Germano Silva



Em 1875, com a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, o Rio da Vila foi encanado na parte que ainda estava a descoberto. Obras posteriores, como a construção da Avenida dos Aliados, na segunda década do século XX, foram condenando ao subsolo também os mananciais do rio da Vila.




Foz do Rio da Vila na Ribeira




É evidente que, durante muito tempo, as águas daqueles referidos ribeiros (com origem em S. Brás e na Fontinha) correram a céu aberto, sendo aproveitadas para rega de hortas e abastecimento de lavadouros.
Uma dessas hortas, segundo refere Alberto Pimentel na sua obra "A Praça Nova", era uma horta que já vinha do tempo do conde D. Henrique e que, em determinada ocasião, pertenceu a uma alta figura do clero com o nome de Hilário e, por isso, veio a ser conhecida como a Horta do Hilário.
O mesmo autor alude, ainda, à existência no século XVII de um lavadouro chamado da Maria Manuela, que também era abastecido pelo caudal do ribeiro que vinha das bandas do Marquês.
A 7 de Janeiro de 2023, em virtude de obras de ampliação das linhas de Metro do Porto (que teria interrompido, temporariamente, algumas linhas de escoamento de águas) e de um aumento da pluviosidade na cidade, não tendo sido previstos os aumentos dos caudais dos dois ribeiros que formam o rio da Vila, este transbordou.
Foram grandes os prejuízos para todos que foram afectados pelo incidente, mas também um momento interessante para os portuenses tomarem conhecimento da existência do rio da Vila que, para muitos, sempre esteve escondido.
As obras para instalação das novas linhas do Metro implicarão que o antigo trajecto do rio da Vila seja substituído num troço de cerca de 500 metros.

 
 


Construção das galerias para o novo percurso do rio da Vila – Fonte: JN


 
 
Rio da Vila e a origem da sua onomástica
 
Mas, rio da Vila…de que Vila?
Este assunto foi suficientemente esclarecido por Horácio Marçal, na revista “O Tripeiro” da VIª série, Ano VIº, Nº 8, Setembro de 1966, quando argumenta:

 




Sobre os dois extratos de textos, supra, Horácio Marçal conclui que no foral, em 1123, o burgo era identificado como Vila e, no texto de 1339, embora continuasse a ser identificado como Vila, também já era feita referência à Cidade.
Uma das hipóteses colocadas pelo historiador, era que a referência a Vila se mantinha, passados duzentos anos, por tradição, ou o conceito de Vila se referiria, apenas, à Cerca do Castelo, nas circundâncias (intramuros) da Catedral, ao morro da Cividade.
Por estar mais inclinado para esta última hipótese, concluía que a origem onomástica do rio da Vila reportava ao seu trajecto que tornejava pelo norte e poente a primitiva cerca do burgo portuense.