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domingo, 22 de junho de 2025

25.282 Pesquisa das moradas de Ana Plácido na Rua do Almada

 
Rua das Hortas e Rua do Almada
 
 
Segundo Horácio Marçal, a Rua das Hortas ia da Calçada dos Clérigos até à Rua de Santo António dos Lavadouros depois, Rua dos Lavadouros (actual Rua Elísio de Melo), como é explicitado, abaixo, na porção de um texto daquele historiador.

 
 

In revista “O Tripeiro”, Vª Série, Ano IX, Março de 1954, pág. 339
 

 
A partir dali, para norte, começou a ser aberto em 1761, o arruamento que começou por chamar-se Rua Nova do Almada e que, mais tarde, passaria a ser a Rua do Almada. 
Naquela data, a Rua das Hortas já existia há alguns anos.
Em 29 de Julho de 1760, D. José I tinha autorizado a construção da Rua do Almada. As obras de abertura e calcetamento começaram em 1761 e duraram até 1785.
 
 
 

Planta de 1761 de Francisco Xavier do Rego, sargento-mor de Infantaria, com o exercício de engenheiro, técnico escolhido por João Almada para abertura da Rua do Almada
 
 
Legenda da planta acima:
 
- A Rua de Santo António dos Lavadouros (1) seguiria, para poente, pela antiga Rua da Picaria (2), que era no lado Norte da actual Praça de Filipa de Lencastre. A actual Rua da Picaria era a antiga Travessa da Picaria (3), que termina na Praça da Conceição.
- Na parte nascente do Monte da Douda (4) foi construída, mais tarde, a igreja da Trindade.
- A Rua das Hortas (5) estendia-se para lá da Rua da Fábrica (6)
 
 
 
 
Atribuição de n.ºs de polícia
 
 
Para fazer a identificação de algumas moradas, na cidade do Porto, é necessário ter como referência a data de Abril de 1860.
Acontece que, antes daquela data, as moradas eram identificadas por um n.º de polícia, cuja atribuição ocorreu gradualmente, ao longo do tempo, com o objectivo de organizar e facilitar a localização de edifícios, principalmente, para distribuição do correio e que era atribuído da seguinte forma:
Começava-se numa origem e a rua ou praça, em causa, era percorrida no sentido dos ponteiros do relógio.
Como se depreende da aplicação daquele método, os n.ºs de polícia eram corridos.
As identificações eram afixadas às habitações pela distância de portas e janelas ao ponto de origem.
Aquela distância era executada em metros ou varas (1,10 metros) de acordo com os técnicos que procediam à tarefa.
A obrigatoriedade da aplicação do sistema métrico, só se verificaria no início do século XX, pelo Código de Posturas do Município do Porto de 1905, nomeadamente, no seu n.º 3, do art.º 186.
Da aplicação prática daquela determinação resultaram alterações óbvias, com algumas excepções, pois algumas moradas mantiveram-se.
A partir de 1860, o visconde de Gouveia, Governador Civil do Porto faz publicar um edital com um conjunto de regras que subsiste até hoje.
Assim, o método de determinação dos n.ºs de polícia continuaram a ser corridos, apenas para os largos e praças.
No caso das ruas, um lado passa a ter números pares (direita) e o lado oposto ímpares (esquerda), de acordo com a orientação a partir de uma origem, na qual o observador tomava o rio Douro, nas suas costas, como referência.
No caso das ruas paralelas ao rio Douro o sentido de orientação era o do seu fluxo para a foz.
Segue texto de parte do edital atrás referido.
 
Edital
 
Jozé Freyre de Serpa Pimentel de Mansilha e Silva Donnas Botto de Mesquita Sequeira e Vasconcellos, 2.º visconde de Gouveia, par e grande do reino, moço fidalgo com exercicio no paço, socio do real conservatorio de Lisboa, e do instituto de Coimbra, juiz no quadro da magistratura judicial, e governador civil do districto do Porto. 
Convindo ao bom regimen policial, economico, e administrativo, e ao interesse particular dos cidadãos, que as ruas, praças, largos, e mais logares publicos desta cidade, Villa Nova de Gaia, e seus suburbios, sejão conhecidos por denominações claras, simples, e distinctas; e que a numeração dos predios siga uma ordem regular e methodica; considerando que as inscripções de muitas ruas e logares publicos se acham apagadas ou deterioradas pelo tempo, e não são em numero sufficiente carecendo-se portante d'uma renovação geral, - sendo esta a melhor occazião d'emendar os defeitos de muitas denominações, já por haver ruas que se prolongão mudando de nome, já porque outras tem denominações repetidas, vagas, ou confuzas; - attendendo a que differentes reprezentações me teem sido inderessadas, pedindo providencias sobre a numeração dos predios, em razão das muitas irregularidades, a que dão logar não só as multiplicadas edificações e reformas, mas também a má ordem da antiga numeração em partes interpolada, em partes apagada; - tendo colhido as convenientes informações dos respectivos administradores dos bairros, e concelhos, e da camara municipal; - ouvindo o conselho do districto, que conveio na oportunidade das medidas; - e visto o codigo administrativo, os artigos 224 e 227; e as portarias de 27 de setembro de 1843, e 9 de julho de 1859, determino o seguinte:  (…) 
O lado direito de uma rua, travessa, ou viella (tanto aquém, como além Douro) será determinado nas que correrem perpendicular, ou obliquamento ao rio, pela direita do viandante, que marchar afastando-se do mesmo rio; - e nas que forem paralelas, pela direita do que marchar no sentido da corrente. 
Porto 20 d'Abril de 1860. - O governador civil, Visconde de Gouvêa
 
 
 
O edital atrás transcrito concluía com a publicação de uma reorganização toponímica que, entre outras alterações, provocou que a rua, até aí conhecida como Rua das Hortas, passaria a fazer parte da Rua do Almada.

 

Casa onde nasceu Ana Plácido
 
 
 
Ana Augusta Vieira Plácido era filha de António José Plácido Braga (1795-1852) e de Ana Augusta Vieira (1799-1855), tendo nascido em 27 de Setembro de 1831, na Travessa da Praça D. Pedro, nºs 5 a 9.
Hoje, o perfil correspondente à tal travessa coincide com a Rua do Dr. Artur Magalhães Basto, pelo que, a casa onde teria nascido Ana Plácido, não existe mais, como se verá.
Na igreja de Santo Ildefonso, no registo do seu baptismo, é dada uma morada da Praça Nova.
Os pais de Ana Plácido construíram uma família numerosa e, para além dela, conceberam Antónia Cândida Plácido Braga, Eduardo Augusto Plácido, Alberto Augusto Plácido, Emília Antónia Plácido e 10 outros.
Assim, impunha-se que os cómodos para alojar tamanha prole tivessem de ser de uma certa envergadura.
Acontece que, em 14 de Julho de 1838, António José Plácido Braga fez um pedido de licenciamento, para executar obras num prédio, de que se dizia proprietário, sito na Travessa D. Pedro, nºs 3 a 9, com frente para a Rua das Hortas, nºs 149 a 151.
Pelas regras de atribuição de números de polícia e para o caso concreto anterior, se pode concluir que, no caso da Rua das Hortas, a numeração tinha a sua origem na sua confluência com a Calçada dos Clérigos e continuava pelo lado poente da rua passando, depois, para o lado nascente, seguindo o sentido dos ponteiros do relógio.
 
 
 
 

Pedido de licenciamento de 14 de Julho de 1838, que originou a licença nº 169/1838 – Fonte: AHMP


 
Assim, se pode concluir, que o prédio onde teria nascido Ana Plácido fazia esquina com a Rua das Hortas. Falta saber se seria a esquina a norte ou a sul.
Um requerimento dirigido por José António Silva Braga, à Câmara do Porto, três anos após a morte de António José Plácido Braga, para execução de obras num prédio e que obteve a licença nº 434/1855, parece resolver a dúvida.
O requerente, junto dos serviços camarários, apresenta-se como proprietário do prédio em causa e solicita o lançamento nele de mais um andar.

 
 

Requerimento apresentado à Câmara por José António da Silva Braga, solicitando o acrescento de um andar num prédio, que obteve o nº 434/1855
 


 

Desenho das fachadas do prédio integrante de projecto apresentado à Câmara do Porto, que obteve o nº 434/1855, para solicitar o acrescento de mais uma andar
 
 
 
No desenho anterior, a fachada, ao centro, é indicada como sendo a da Travessa da Praça D. Pedro, a da direita, como a voltada para a Rua das Hortas e, a da esquerda, a voltada para a Praça D. Pedro (antes, Praça Nova).
Acrescenta-se que, no mesmo desenho, está representada, à esquerda, uma fachada identificada como voltada para a Praça, o que está de acordo com o registo de baptismo de Ana Plácido, existente na igreja de Santo Ildefonso, que a dá como nascida, algures, na Praça Nova.
Pode, então, concluir-se, que o prédio onde nasceu Ana Plácido é o da esquina a sul que, hoje, é chão da delegação do Banco de Portugal, no Porto. 
O requerente, anteriormente mencionado, José António da Silva Braga, passados cerca de oito anos, encontrava-se comerciando, naquele local, de acordo com o anúncio seguinte.
 
 
 
 

In jornal “O Comércio do Porto” de 30 de Abril de 1863
 
 
 
 
Antes da edificação da actual delegação do Banco de Portugal, no prédio do gaveto formado pela Praça D. Pedro (Praça da Liberdade), Travessa da Praça D. Pedro (Rua Dr. Magalhães Basto) e Rua do Almada (nesse local, antes, a Rua das Hortas), aí estava, a firma de materiais de construção e aparelhos sanitários "Arnaldo Lima" e a empresa de transportes L'Éclair.


 
 

No início do século XX, o prédio, mais à direita, do qual se observa uma nesga e, ao qual, ao longo dos anos, foram acrescentados mais andares, é aquele onde nasceu Ana Plácido
 
 
 
 

Esquina da Travessa da Praça D. Pedro e Rua do Almada, antes da construção do Banco de Portugal




Casa onde morou, em jovem, Ana Plácido
 
 
 
Tudo aponta que Ana Plácido viria a mudar-se, ainda muito jovem, para a Rua do Almada, nºs 27 a 30, acompanhando a família e aqui viveu até se casar.
De facto, em Fevereiro de 1839, António José Plácido Braga solicita à Câmara do Porto a realização de obras em duas moradas de casas que possuía na Rua Nova do Almada, nºs 27  e 30, que obtém a Licença de obra n.º 221/1839, dizendo-se, então, morador na Travessa da Praça D. Pedro, nºs 5 a 9 (morada atribuída para o nascimento de Ana Plácido).
Durante muitos anos a Rua do Almada era denominada Rua Nova do Almada e, a Rua das Hortas, por Rua Nova das Hortas.
De acordo com o anúncio abaixo, aquelas duas moradas de casas, de dois andares, tinham ligações à Picaria e, por isso, situar-se-iam, na Rua do Almada, no sentido ascendente, à esquerda.
De notar, que aquele n.º de polícia é anterior a 1860.
 
 
 
In jornal "O Comércio do Porto" de 27 de Outubro de 1859
 
 
 
 
A arrematação anunciada, acima, realizava-se após decorridos, cerca de sete anos, sobre o naufrágio do vapor Porto, no qual morreu o pai de Ana Plácido e decorreria de um processo de partilhas.


 

Porto, na Planta de George Balck, em 1811
 
 
Legenda da planta acima:
 
1. Rua das Hortas
2. Rua dos Lavadouros
3. Travessa da Picaria
4. Rua do Almada
 
 



Planta de Perry Vidal de 1844
 
 
Legenda da planta acima:
 
1. Rua das Hortas
2. Rua do Almada
3. Rua dos Lavadouros
 
 
 
De acordo com a atribuição dos n.ºs de polícia, antes de 1860, a morada da Rua do Almada, 27 a 30, distaria entre 27 a 30 varas ou metros da confluência das ruas das Hortas e dos Lavadouros, á esquerda, sentido ascendente.
 
 
 
 

Planta de Joaquim Costa Lima de 1839

 
 
Considerações sobre a planta anterior:
 

- Todas as moradas englobadas na elipse preta já existiam desde o lançamento da Rua do Almada, em 1761, pelo que, à data de 1839, faziam e fizeram parte da Rua das Hortas;
- A elipse amarela aparentemente numa área não construída era o local de implantação daquela que ficou conhecida como a Primeira Fonte da Rua do Almada e que tinha existência desde 1795.
- O prédio, mais a poente, na esquina da Rua da Picaria, dentro da elipse azul, tinha existência desde há mais de um século quando, em 1865, viu ser-lhe acrescentado mais um andar.
Pertencia, à data, ao visconde da Penna (título nobiliárquico atribuído pela corte espanhola).
 
 
 
 

Primeira Fonte da Rua do Almada, em 1909
 
 
 

À esquerda, o aglomerado de pessoas encontra-se junto da Primeira Fonte da Rua do Almada
 
 
 
A atribuição de números de polícia, na Rua do Almada, antes de 1860, tinha a sua origem, no seu lado poente, após a fonte da foto e passaria, depois, para o lado nascente, seguindo o sentido dos ponteiros do relógio.
 
 
 

Local actual onde se encontrava a Primeira Fonte da Rua do Almada
 
 
 
 
Morada de Ana Plácido, após casamento
 
 
 
Em 28 de Setembro de 1850, no dia seguinte ao seu 19º aniversário natalício, Ana Augusta Vieira Plácido iria casar e passaria a ser Ana Augusta Plácido Pinheiro Alves, passando a viver, ao que se sabe, na casa alugada onde vivia na Rua do Almada o seu marido, Manuel Pinheiro Alves (1807-1863).
Àcerca deste casamento, Camilo Castelo Branco ironizava:
 
"E no Porto? Isso então, rapariga bonita, às duas por três, está num papo dum brasileiro que tenha 50 contos, tanto faz que ele seja velho, com zarolho, como raquítico".
 
O romance de "A Paixão de Camilo (Ana Plácido)" de Rocha Martins, Lisboa, 1900, sobre o afortunado noivo, narrava:
 
 
“Tinha quarenta e tres anos e era do logarejo de Souto, visinho de S. Miguel de Seide, um povoado triste, à beira de Famalicão onde se chegava por atalhos e quinteiros, saltando barrocos, à sombra das uveiras; os seus labutavam na chã e ele, depois de talhar a estrada do ganho, comprar a casa de portão na aldeia, acomodara-a, tomara servos e deixando os parentes a lidar partira para o Porto, abrira escritório de corretagem de barcos, instalara-se num andar espaçoso no 378 da rua do Almada donde espreitava a noiva que ia completar o seu sonho de “brasileiro” opulento.
Puzera-se a auxiliar o futuro sogro e talvez fosse esta ajuda o motivo primaz daquela união. Os cônjuges diferiam tanto em edades que não se poderia levar á conta de reciproca simpatia o acto que se ia realizar”.
 
 
 
Sobre a imposição deste casamento a Ana Plácido, por parte da família, ela acabaria por descrever o acto como a busca da felicidade pela abastança.
Sendo a obra acima citada uma das mais conceituadas sobre a vida de Camilo Castelo Branco, começou a aceitar-se, desde a sua publicação, que a morada do primeiro casamento de Ana Plácido fosse a da Rua do Almada, n.º 378.
Naquela obra, era apresentada uma foto do prédio, em causa, exibida a seguir.


 


 
 


Actualmente, em primeiro plano, o prédio da Rua do Almada, n.º 378, onde está o Restaurante Camilo que é o mesmo da foto anterior


 
 
Desconhece-se como Rocha Martins resolveu a conversão do n.º de polícia anterior a 1860 para o actual.
Para complicar a situação, no romance, o seu autor legenda a foto, colocando o prédio exibido, na Rua do Almada, n.º 385, como se mostra, na foto abaixo, em destaque.

 
 
 


 
 
 
Acreditando, que esta última morada é anterior a 1860, podemos concluir que nela viveu Ana Plácido até a 28 de Janeiro de 1859, quando foi expulsa de casa, com o seu filho pequenito, Manuel Plácido.
Então, Rocha Martins teve acesso a documentos que não divulgou.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

(Continuação 1) - Actualização em 24/10/2018 e 26/11/2020



«A 18 de Agosto de 1833 terminava aquele que foi um dos mais negros anos da História do Porto: o cerco militar imposto à cidade pelas tropas absolutistas de D. Miguel. Para trás ficavam quase treze meses de combates fratricidas, milhares de mortos e feridos, bombardeamentos, incêndios devastadores, fome, peste… O Porto soubera, no entanto, resistir e, sem qualquer ajuda do exterior, rompera o Cerco e assegurava a vitória de D. Pedro e da causa Liberal.
Cerca de 175 anos depois a toponímia da cidade perpetua a memória desses dias de Heroísmo, Firmeza e Alegria.
Foi um período decisivo para a História de Portugal, aquele que se viveu entre 8 de Julho de 1832 e 18 de Agosto de 1833. Caracterizado por Almeida Garrett como o momento “em que o Portugal velho acaba e o novo começa”, o Cerco do Porto marcou, com efeito, o início do fim definitivo do absolutismo no nosso país, assegurando a implantação de um regime liberal e moldando os destinos do Portugal Contemporâneo. Durante esse ano a cidade do Porto, cercada, bombardeada, imolada, foi o centro da resistência e das esperanças dos liberais, reunidos em torno da figura de D. Pedro IV.
Do lado de fora das barricadas estava o exército do seu irmão, o “usurpador” D. Miguel. Mas, o que estava em jogo, era muito mais do que um mero conflito entre irmãos. No campo de batalha digladiavam-se duas concepções completamente opostas de sociedade. Os “miguelistas” procuravam preservar o velho e conservador sistema absolutista, no qual o rei, escolhido por desígnio divino, possuía centrado em si todo o poder absoluto. Os “pedristas” defendiam, por oposição, um regime assente nos novos ideais liberais que vinham varrendo a Europa desde as Revoluções Americana e Francesa. Um regime assente na “Liberdade”, “Igualdade” e “Fraternidade” e no qual o rei era, não o detentor de um poder absoluto por escolha divina, mas sim um mediador da sociedade mandatado pelo conjunto dos cidadãos. Embora verdade estas ideias, haviam triunfado já, no nosso país, na sequência da Revolução Liberal de 1820, iniciada no Porto. Contudo, um conjunto de vicissitudes, decorrente do facto de D. Pedro IV se ter envolvido no processo da Independência brasileira e, por isso, ter abdicado da coroa portuguesa a favor da sua filha D. Maria, ainda menor, acabou por criar condições para que o seu irmão, o “absolutista” D. Miguel, a quem ficara confiada a regência do reino enquanto a rainha não atingisse a maioridade, tivesse “usurpado” a coroa».
Cortesia de Joel Cleto



Durante meses, os combates, com ganhos pontuais de território de um lado e de outro, vão sucedendo-se.


"Apesar do terror, dos incêndios, das mortes constantes, dos hospitais repletos de feridos, da falta de pão e das doenças que alastram pela cidade, o Porto resiste. Voluntários juntam-se aos soldados veteranos. E morrem ao seu lado…Entre estes voluntários destacar-se-ão os estudantes de Coimbra. Em sua homenagem o Largo do Carmo foi rebaptizado, em 1835, como Praça dos Voluntários da Rainha, designação modificada, já no século XX, para a actual Praça de Gomes Teixeira. Entre estes voluntários estudantes contam-se alguns jovens que se converterão em grandes personalidades do panorama cultural nacional de Oitocentos e, também eles, perpetuados na toponímia da cidade. Caso da Rua Alexandre Herculano, antiga Rua Nova da Batalha, ou da Praça Almeida Garrett.
Após a vitória dos liberais a cidade homenageou os que tombaram na malograda revolta de 16 de Maio de 1828 e perpetuou o seu sacrifício, atribuindo ao troço da antiga estrada para Braga, entre a Praça Carlos Alberto e a Praça da República, a designação de Rua dos Mártires da Liberdade.
Mas a cidade está repleta de artérias baptizadas com o nome de destacados liberais que tiveram papel de relevo no Cerco. Caso, entre outros, da Rua Barão de S. Cosme, que homenageia a figura de João Nepomuceno de Macedo (1793-1837); a Rua Joaquim António de Aguiar  (1792-1874), o famoso legislador anticlerical que por isso ficaria conhecido por “mata-frades”, e que pertenceu também ao exército dos “Bravos” do Mindelo; a Rua Passos Manuel, destacado tribuno que, vindo do exílio em França, se junta aos liberais em pleno Cerco; a Rua Visconde de Setúbal (antiga Viela das Espinheiras), o famoso militar alemão João Schwalbach (1774-1847); ou a Rua Duque da Terceira, dedicada a António José Severim de Noronha (1792-1860), um dos grandes chefes militares do Cerco; a Rua do Duque de Saldanha (1790-1876), nome incontornável da política portuguesa deste período, verdadeiro “Condottiere” à Portuguesa, começa absolutista e colabora na Vilafrancada, onde D. Miguel dizima as esperanças dos liberais. Em 1826, já maçónico, dirige o levantamento do Porto que obriga D. Maria II a aceitar a Carta Constitucional. Depois passa para os Liberais Radicais até 1835 quando deserta para os Moderados. Em 1846, dirige a Guerra Civil causada pela Patuleia e comanda os Cartistas, contra os Radicais (que antes apoiava) que bate com violência.
Em 1851, com a ajuda de José Passos, derruba os Cartistas e ajuda a impor a Regeneração que vem dar origem ao período da Monarquia Constitucional. Tempos depois, acusado de peculato por uns, detestado pela rainha que preferia Palmela, Saldanha tem ainda tempo para cobiçar a fortuna de Dona Antónia Ferreira (Ferreirinha).
Assim, o Duque de Saldanha, então Presidente do Conselho, pretendeu que seu filho, o Conde de Saldanha, contraísse matrimónio com a filha de tão distinta senhora.
D. Antónia recusou o convite, embora se sentisse muito honrada, alegando para o efeito a tenra idade de sua filha, que só tinha onze anos e que também gostaria que fosse ela a escolher o seu esposo. Pouco depois, em 1854, as duas fugitivas refugiam-se em Londres e, por lá permanecem, até 1856. quando aí casou, em segundas núpcias, D. Antónia, com Francisco José da Silva Torres, seu secretário.
Em 1880, ficou novamente viúva.
Voltando ao Duque de Saldanha em 1870 (com 80 anos), faz um novo golpe (a Saldanhada) que o mantém no poder até ser afastado por D. Luís. Vai então para Londres, como embaixador, onde falece em 1876 com 86 anos.
É legítimo, neste contexto, destacar também a Rua Luz Soriano (1802-1891), que perpetua a figura do historiador autor da incontornável “História do Cerco do Porto”. Mas, para lá das individualidades, era de toda a justiça destacar o esforço colectivo de toda a população da cidade. E, por isso mesmo, e tendo em conta a forma firme, “o denodo e resignação com que os portuenses valorosamente resistiram ao apertado sítio de 1832 e 1833”, a Câmara do Porto anunciará em13 de Junho de 1838 a criação da Rua da Firmeza. Já a Rua do Heroísmo evoca os episódios que se viveram no decisivo dia 25 de Julho de 1833 quando, pressionado pela abertura de novas frentes liberais, no Algarve e em Lisboa, o Marechal de D. Miguel, Luís de  Bourmont, lança contra a cidade um poderosíssimo ataque com todas as suas forças disponíveis, em várias frentes, de Campanhã à Foz. Foi dos momentos mais difíceis e cruciais do Cerco mas, após nove horas de intensos combates, os miguelistas seriam derrotados. A partir daí, e até ao dia 18 de Agosto, a iniciativa do contra-ataque passou para os liberais que, com sucessivas vitórias em Gaia, S. Mamede de Infesta (onde se localizava o principal reduto militar absolutista), Avintes e Valongo, acabam por romper o Cerco e assegurar a vitória do Porto, de D. Pedro, da Liberdade e do Liberalismo. No ano seguinte, em 1834, era aberta a Rua da Alegria, comemorando com alegria a vitória das armas constitucionais”.
Com a devida vénia a Joel Cleto





Na sequência da Guerra Civil, da qual D. Pedro IV se sagrou vencedor, derrotando e condenando ao exílio o seu irmão D. Miguel (bisavô do nosso contemporâneo D. Duarte Pio), a cidade pretendendo homenagear os "gloriosos" acontecimentos, alterou a toponímia, naquela que foi, presumivelmente, a primeira mudança, significativa, na toponímia.
A maioria desses topónimos caiu, já, em desuso, mas alguns poucos prevaleceram até à actualidade.
Mas sigamos com o que surge publicado no Periódico dos Pobres no Porto em 20 de Novembro desse ano.

“A Illm.ª Camara Municipal desta Cidade com o fim de recordar os dias, nomes, e acontecimentos notaveis da Guerra porfiosa que cubrio de Gloria esta Cidade heroica, e de guardar um como monumento desses feitos gloriosos: resolveu em Vereação de 28 de Outubro passado que as ruas, praças e campos designados na Lista seguinte houvessem d'ora ávante as denominações ahi declaradas”.








Reorganização da toponímia no ano de 1860 e alteração das regras para determinar os números de Polícia




Em 20 de Abril de 1860, um Edital publicado na imprensa e em todos os lugares públicos da cidade, determinava uma reestruturação de parte da toponímia e, ainda, uma nova identificação dos prédios e casas, no que aos números de polícia dizia respeito.
A mudança encetada, em 1860, na reorganização da toponímia da cidade, teve lugar quando foi governador civil do Porto, José Freire de Serpa Pimentel (1814-1870), o 2º visconde de Gouveia.
Quanto à matéria em apreço, até aquela data, os números de polícia eram corridos, tendo passado, a partir de então, à fórmula que ainda hoje vigora; pares de um lado da rua e ímpares do outro lado.
O assunto estava, essencialmente regulamentado, entre o artigo 7º e 12º.
 
 
“Art. 7.º A numeração dos portais dos predios continua a ser collocada no centro das vergas respectivas, e indicada por uma unica serie de numeros para cada uma das ruas, largos, travessas e viellas.
Art. 8.º Os portaes que estiverem tapados ou que pertenção a janellas de pavimentos terreos, que poderem ser reduzidas a portas serão numerados.
Art. 9.º Para os terrenos dos predios arruinados, ou pardieiros proprios para edificação, se conservaram os numeros correspondentes, computando-se um por cada tres métros.
Art. 10.º Nos portais dos predios edificados de futuro em terrenos, para os quaes se não rezervassem numeros no sentido do artigo antecedente, será collocado o numero immediatamento anterior, acompanhado de uma letra, seguindo a ordem alphabetica, conforme a quantidade dos portais.
Art. 11.º Os numeros serão pintados com tinta branca sobre tarjas de fundo preto, tendo estas, sendo possivel,  29 centimetros de comprimento, e 18 d'altura; e os algarismos 11 centimetros de altura, conforme o padrão que estará patente nas respectivas administrações.
 Art. 12.º Em cada uma das ruas, travessas, e viellas, os numeros páres serão colocados do lado direito, os impares do esquerdo.
§ 1.º O lado direito de uma rua, travessa, ou viella (tanto aquém, como além Douro) será determinado nas que correrem perpendicular, ou obliquamento ao rio, pela direita do viandante, que marchar afastando-se do mesmo rio; - e nas que forem paralelas, pela direita do que marchar no sentido da corrente.
 § 2.º O primeiro numero da cada serie (ou seja par ou impar) começará sempre, nas primeiras, do ponto mais proximo ao Douro; nas segundas, no ponto onde começarem, no sentido da corrente; - de modo que naquellas os numeros augmentem afastando-se do rio, e nestas descendo-o.
 
 
Os artigos 14º e 15º traçavam a regulamentação para praças e largos, com a numeração a manter-se consecutiva.
 
 
“Art. 13.º Nos largos a serie de numeração será como até aqui consecutiva, sem separação de numeros pares ou impares, começando pela primeira porta á direita da rua principal, que em cada um desembocar.
 Art. 14.º Os pequenos largos contiguos a outros maiores, e que aproximadamente tenham de commum um quinto da sua circumferencia, considerão-se como parte dos maiores, ficando com igual denominação, e sob a mesma serie de numeros.
§ unico. Neste cazo porém o numero primeiro da serie começará sempre no largo maior.”
 
 
No mesmo Edital era também referenciada uma série de alterações na toponímia, de modo a remediar um número apreciável de incongruências.
Seguem-se, neste âmbito, os mapas elaborados pelo Governo Civil do Porto, com as respectivas alterações.




MAPA Nº 1

Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, que prolongando-se com diversas denominações ficam agora reduzidas a uma só.








MAPA Nº 2


Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, cujas denominações ficam alteradas para se distinguirem de outras que as tinham idênticas.








MAPA Nº3


Mapa das ruas, largos, travessas e vielas, cujas denominações ficam alteradas, para mais simplificação e facilidade.










A determinação dos números de polícia usando o sistema métrico


 
De acordo com o Código de Posturas do Município do Porto de 1905, nomeadamente, no seu n.º 3, do art.º 186, determinava:
 
“Cada porta ou janela dos ditos prédios terá o número correspondente ao número inteiro de metros de medição longitudinal pelo eixo da rua, cuja divisão ficar mais próxima do pé da perpendicular baixada do centro da porta ou janela sobre o referido eixo”.
 
 
O Código de Posturas do Município do Porto, de 1905, é o primeiro a mencionar a aplicação do Sistema Métrico e que seja o metro a unidade de medida de referência.
Muito provavelmente, nos Códigos de Posturas do Município, anteriores, na determinação dos números de polícia, talvez fosse usada como unidade de referência a vara, que equivale a 1,10011 metros.
Esta é a explicação que o Eng. Luís de Castro e Solla apresenta para a disparidade, em diferentes épocas, dos números de polícia duma mesma morada.
Os números de polícia actuais são mais elevados que os mais antigos, com algumas excepções.

 
 
Cortesia do Eng. Luís de Castro e Solla, In revista “O Tripeiro”, Série Nova, Ano IX, nº1, Jan 1990