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quinta-feira, 11 de maio de 2023

25.189 O Fontismo apresenta-se aos portuenses

 
Terminada a guerra civil da Patuleia, a partir de Julho de 1847, foram Chefes do Governo, sucessivamente:
Francisco Tavares de Almeida Proença, Ministro do Reino, de 28 de Abril de 1847 a 22 de Agosto de 1847;
António de Azevedo Melo e Carvalho, Ministro do Reino, de 22 de Agosto de 1847 a 18 de Dezembro de 1847;
Duque de Saldanha, Presidente do Conselho de Ministros, de 18 de Dezembro de 1847 a 18 de Junho de 1849;
António Bernardo da Costa Cabral, 1.º Conde de Tomar, Presidente do Conselho de Ministros, de 18 de Junho de 1849 a 26 de Abril de 1851;
 
 
 

António Bernardo Costa Cabral

 
 
Duque da Terceira, Presidente do Conselho de Ministros, de 26 de Abril de 1851 a 1 de Maio de 1851;
Duque de Saldanha, Presidente do Conselho de Ministros, de 1 de Maio de 1851 a 6 de Junho de 1856.
Aqui chegados, começaria, assim, um novo período de governação apelidado de Regeneração, chefiado pelo velho militar.
Em 1851, no primeiro governo do Duque de Saldanha destacar-se-ão, então, como figuras proeminentes, Rodrigo da Fonseca Magalhães e Fontes Pereira de Melo.
Dizem que a principal virtude deste período foi a criação, em Agosto de 1852, de um ministério específico para as obras públicas, o comércio e a indústria, separado do Ministério do Reino chefiado, à data, por Rodrigo da Fonseca Magalhães, que teve como objectivo proporcionar os meios para um melhor funcionamento de toda a estrutura - facilidade de transações e concessão de crédito, acesso à instrução técnica e profissional, dotação de vias de comunicação e de transportes.
Numa fase inicial de arranque, Fontes Pereira de Melo, em Outubro de 1853, visita o norte do País e a cidade do Porto, como Ministro da Fazenda.
A visita foi um êxito, e o seu ponto alto seria o almoço que ocorreu na Biblioteca, a São Lázaro, em 27 de Outubro de 1853, do qual o jornal lisboeta “A Revolução de Setembro”, de 28 de Outubro de 1853, dava conta, transcrevendo o que o periódico portuense “Braz Tisana” tinha publicado, dias antes, sobre o mesmo assunto.

 
 
In “A Revolução de Setembro” de 28 de Outubro de 1853
 
 
 
Foi grande o sucesso alcançado por Fontes Pereira de Melo durante a visita ao Porto.
Assim, não admira a enorme aderência da burguesia endinheirada do Porto na subscrição do capital da Companhia das Estradas do Minho e que terá como maior subscritor o Visconde da Trindade.
Pode consultar-se a lista daqueles aderentes no jornal “A Revolução de Setembro”, de 2 de Dezembro de 1853, transcrevendo uma reunião havida em 26 de Novembro de 1853, e publicada pelo periódico portuense “A Concórdia”.
 
 
 




 A Companhia de Estradas do Minho juntava-se, assim, à Companhia de Viação Portuense que já estava no terreno, desde 1851, construindo vários troços da estrada entre o Porto e Braga.
Superentendia o processo o novo Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria ocupado desde Agosto de 1852, em regime de acumulação com o Ministério da Fazenda (cargo de que tinha tomado posse, em Março de 1852), António Maria de Fontes Pereira de Melo.
A entrega da construção das vias de comunicação que o País necessitava, tinha sido tentada, em 1844, quando foi fundada a Companhia das Obras Públicas de Portugal, por sete negociantes lisboetas.
No entanto, devido à guerra da Patuleia, foi impossível para o Estado proceder ao financiamento contratado com a Companhia e ela acabaria por entrar em falência.
Como se pode observar, na lista anterior, o visconde da Trindade é um dos maiores subscritores.
Pois, será ele um dos principais visados no artigo publicado no periódico carioca “A União” que dá à estampa, em 10 de Dezembro de 1853, um texto da autoria do seu correspondente (anónimo) na cidade do Porto, sobre a visita de Fontes Pereira de Melo e respectiva comitiva, realizada no final de Outubro de 1853, à cidade do Porto.

 
 
 

Cabeçalho do jornal do Rio de Janeiro “A União” de 10 de Dezembro de 1853







 
Sobre o texto anterior, pode observar-se o tom crítico do correspondente, que alguns entendidos na matéria dizem ser Camilo Castelo Branco, que mimoseia várias personagens.
Assim, O RATÃO é, sem sombra de dúvidas, o visconde da Trindade, José António de Sousa Basto, brasileiro de torna-viagem, regressado ao Porto, em Julho de 1850, segundo o articulista, um antigo traficante de escravos.
Fixando residência no Porto, veio a comprar um palacete no Largo dos Ferradores (Praça Carlos Alberto) que pertencia aos Viscondes de Balsemão, que tinham transferido a sua residência para Lisboa, e onde tinha estado a “Hospedaria do Peixe”, a tal onde se tinha hospedado, brevemente, o rei Carlos Alberto em 1849.
Segundo uma carta do Barão de Forrester ao “Jornal Commercio”, pode concluir-se que, antes de 1854, o Visconde da Trindade habitava, ainda, o palacete que tinha sido do Barão de Forrester, na Ramada Alta, pelo que, o palacete do Largo dos Ferradores,  teria começado a ser por ele habitado, em meados da década de 1850.
Acabaria o visconde da Trindade por ser presidente da Câmara do Porto, entre Janeiro de 1852 e 31 de Dezembro de 1855 e, nessa qualidade, esteve durante a visita de Fontes Pereira de Melo.
As outras personalidades vergastadas, no artigo jornalístico referido, são:
Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858), O PANDILHA; Duque de Saldanha, João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (1790-1876), O CATAVENTO; António Aloísio Jervis de Atouguia (1797-1861), O ESTÚPIDO; António Maria de Fontes Pereira de Melo (1819-1887), O PELOTIQUEIRO.
Entretanto, no dia 15 de Novembro de 1853, tinha morrido inesperadamente a rainha D. Maria II, tendo o seu filho primogénito, D. Pedro, apenas 16 anos. O Conde de Tomar (António Bernardo Costa Cabral) e o Conde da Taipa (Gastão da Câmara Coutinho Pereira de Sande) preparavam-se, agora, para formar uma oposição forte, aproveitando-se do enfraquecimento do governo.
Entrava-se no período da regência de D. Fernando II, entre 1853 e 1855, devido à menoridade de D. Pedro V.
Com a governação de Saldanha começaria o período chamado de Regeneração, que teria como figura de destaque António Maria Fontes Pereira de Melo e, por isso, também chamado de fontismo.
Em 1856, Saldanha é substituído pelo Duque de Loulé e, em 1859, é já o Duque da Terceira a chefiar um governo do qual Fontes Pereira de Melo será Ministro do Reino.



A Regeneração
 
 
A Regeneração, atrás referida, define um período da vida portuguesa, do século XIX, iniciado em 1851 pela insurreição militar liderada pelo marechal duque de Saldanha contra o último ministério de Costa Cabral. O mentor inicial deste movimento é Alexandre Herculano.
De resto, foi na casa de Alexandre Herculano, em Lisboa, que a revolta tomou forma. Foi, aí, que se planeou não só o movimento como, também, os passos a dar, após a vitória. 
Assim, em 7 de Abril de 1851, Saldanha sai de Lisboa em direção a Sintra para resgatar promessas de apoio que lhe haviam sido feitas, determinado a fazer eclodir o movimento. Consegue a adesão, ainda que tardiamente, do regimento de Caçadores 1, de Setúbal e de Caçadores 5, de Leiria. Porém, por esta altura, já as tropas do rei D. Fernando II (consorte de D. Maria II) estavam no Cartaxo, impedindo a junção de Caçadores 1 e 5. 
Parte para o norte, mas as recepções de Coimbra e do Porto são decepcionantes.
Após tantos desenganos, acaba por se refugiar na Galiza. 
De repente, o panorama altera-se radicalmente: no Porto, em 24 de Abril, o quartel de Santo Ovídio subleva-se, juntando-se-lhe a Municipal e o regimento de Infantaria 6. 
O primeiro grito de revolta tinha partido de Caçadores 9, sedeado no convento de S. Bento da Vitória.
O Regimento de infantaria nº 6 estava aquartelado na Torre da Marca e o Regimento de infantaria nº 2 em Santo Ovídio.

 
 





 
 
 
Com o triunfo dos revoltosos, em substituição do conde de Casal, foi nomeado o coronel Moniz.
Entretanto, Saldanha entra no Porto, em triunfo, em 27 de Abril, encontrando um exército e uma grande cidade que o apoiam. Logo no dia seguinte, envia missivas a todos os governadores civis declarando como objetivos do movimento a reforma da Carta Constitucional e a queda do ministério de Costa Cabral, que acaba por ser demitido em 29 de Abril de 1851, retirando-se para Espanha.

 
 
 

Duque de Saldanha, em 1851

 
 
D. Maria II nomeia o duque da Terceira para presidir ao novo ministério. Mas, por força das circunstâncias, a presidência teria de ser entregue ao chefe da insurreição vitoriosa. Em 15 de Maio, Saldanha entra em Lisboa e, a 17, ocupa o cargo de presidente do ministério. 
O governo chefiado pelo duque de Saldanha teve como figura principal Fontes Pereira de Melo, responsável pela pasta da Fazenda (21 de Agosto de 1851) e primeiro titular da pasta das Obras Públicas (30 de Julho de 1852).
Outras personalidades deste ministério foram Rodrigo da Fonseca Magalhães (Reino) e Almeida Garrett (Estrangeiros). 
Estava, agora, à frente dos destinos do País, o Partido Regenerador que irá ver aparecer como opositor o Partido Histórico, que absorverá o que restava do Partido Setembrista e, do qual, se tornou chefe, sem eleição, o duque de Loulé.
O Partido Histórico irá formar o 1º governo em 1856, por indicação de D. Pedro V. Será chefe desse governo o duque de Loulé.
O Porto industrializa-se.

 

“Nos reinados de D. Maria II (1819-1853) rainha de 1826 a1853 e dos seus filhos D. Pedro V (1837-1861) rei de 1853 a 1861 e D. Luís I (1838-1889) rei entre 1861 e 1889, Portugal dá os primeiros passos na industrialização. O carvão torna-se a principal fonte de energia permitindo o aparecimento da máquina a vapor. Assim revolucionam-se os transportes com o caminho-de-ferro e o navio a vapor. Melhoram-se as estradas e as ruas e surge a iluminação pública a gás. Criam-se os correios (selos em 1872) e a mala-posta. Desenvolvem-se as comunicações com o telégrafo eléctrico (1857) e o telefone (1879).
As novas dimensões da cidade e o aumento da população impõe a criação: da Guarda Municipal (1836); da Polícia Civil (1867) e do Corpo de Bombeiros (1875).
A interdição dos enterros nas igrejas leva à criação dos cemitérios municipais sendo criado a oriente o cemitério do Prado do Repouso (1839) e a ocidente o cemitério de Agramonte (1855). Criam-se fábricas nas zonas ribeirinhas de Miragaia, Massarelos e Lordelo, e ainda no Bonfim, nos Guindais e Campanhã”.
Cortesia do Arquitecto Ricardo Figueiredo




Nos anos vindouros, o Partido Regenerador e o Partido Progressista ou Partido da Granja, como também era chamado por ter nascido da fusão do Partido Histórico e do Partido Reformista, pelo Pacto da Granja (7 de Setembro de 1876), vão ser os partidos do rotativismo da monarquia constitucional portuguesa.
A 13 de Setembro de 1871, o Partido Regenerador subia novamente ao poder, formando-se o primeiro governo a que presidiu Fontes Pereira de Melo. Este governo reconstituiu o país, que a revolta da Janeirinha e a série de governos efémeros que dela resultaram, desorganizara completamente.

domingo, 12 de junho de 2022

25.160 O Mundo Elegante

Na primeira metade do século XIX, o mundo da moda estava, na cidade do Porto, na mão de estrangeiros, nomeadamente, franceses e ingleses.
Na realidade, a moda era francesa, quer no comportamento, quer na etiqueta. Contra o domínio dos estrangeiros lutavam como podiam os portuenses desse sector de actividade.
 
 
“As reações à invasão de todos estes comerciantes e prestadores de serviços, como modistas, alfaiates e cabeleireiros, levou a que, em 1821, uma modista portuguesa, muito aborrecida e revoltada com o sucesso das suas congéneres não nacionais, enviasse para o periódico portuense A Borboleta Constitucional, um veemente repúdio e protesto contra as “Modistas Francesas, Inglesas, italianas e hespanholas; que entre nós habitão, não só se naturalizão, mas desnaturalizão o nosso dinheiro”.
A vinda do Alfaiate de fato feito, o inglês Diogo Randall, com loja na rua das Taipas, anunciada no Correio do Porto, em 1822, também desencadeou uma reação pública, ao ponto de um assinante do periódico, apelidado de “O Carrapato”, se manifestar contra esta incursão, de uma forma bastante contundente e peculiar, chegando a afirmar que o dito Armazém, ao prometer “commodidade nos preços” só demonstrava a sua lábia de “armar ao dinheiro”.
As estratégias publicitárias e técnicas comerciais, já adotadas em Lisboa e no Rio de Janeiro, foram introduzidas na Invicta por estes recém-chegados agentes de moda, que logo aproveitaram os periódicos da época para se propagandearem de uma forma extremamente eficaz, através de anúncios no Periódico dos Pobres no Porto, O Gratuito, O Athleta, O Artilheiro, O Nacional, etc., ou nos almanaques da cidade”.
Cortesia de Maria Antonieta Lopes Vilão Vaz de Morais; In: II Congresso – O Porto Romântico
 
 
“Muitos cabeleireiros e modistas estrangeiros contratavam os serviços dos seus compatriotas. Depois de alguma aprendizagem, muitos destes profissionais emancipavam-se e montavam o seu próprio negócio. Anunciavam-se fazendo sempre referência ao seu antigo empregador, geralmente já com uma boa reputação. É o caso da modista Madame Bernardina Suére, sucessora de Madame Vignon, ou o cabeleireiro Domingos Sebastião Sanches, discípulo de Mr. Andrilliat, Cabeleireiro da Família Real que, estabelecido na rua de Santo António em agosto de 1835, abriu uma sucursal na Vila da Foz. Ou mesmo o cabeleireiro Leopoldo, representante do lisboeta Mr.Baron.
As contramestras das modistas com mais renome, depois de alguma experiência profissional, autonomizavam-se e também usavam esta estratégia, como Mademoiselle Carolina, sucessora de Madame Villaret”.
Autor Desconhecido


Ultrapassado o ponto médio do século XIX, dando resposta ao desenvolvimento e à modernização que a sociedade portuense vinha experimentando surge, em 1858, para satisfação das jovens, a revista “O Mundo Elegante”.
Aquele novo período começara, de facto, em 1851, com o ciclo político chamado de Regeneração que terá como motor principal a figura de Fontes Pereira de Melo, primeiro, com a pasta de ministro das Obras Públicas e, depois, em 1861, na Chefia do Governo.
 
 


Fontes Pereira de Melo, em 1883
 
 
O progresso atravessou, então, transversalmente, toda a actividade económica e, sobretudo, com um desenvolvimento enorme nas vias de comunicação.
No que ao Porto concerne, a cidade começa a ligar-se por uma rede viária que permitirá uma circulação mais eficaz.
Assim, em 5 de Maio de 1852, já se ia na carreira de diligência até Famalicão, com a viagem inaugural de ligação até Braga, a acontecer em 4 de Maio de 1853, num traçado cujo perfil corresponderá à conhecida N14.
Naquele percurso inicial, os passageiros apeavam-se para a travessia do rio Ave. Só, mais tarde, em 1858, foi possível fazer a travessia através da ponte pênsil da Trofa.
Antes, a travessia do rio Ave, entre Ribeirão (Vila Nova de Famalicão) e São Martinho do Bougado (Trofa), era feita com recurso à utilização de barcas. 

 
 

Ponte Pênsil da Trofa – Pintura a óleo de Alcino Costa
 
 
 
Enquanto a ligação integral do Porto a Braga, no que se tornaria a Estrada Real Porto/Braga, não ficou concluída, os passageiros tinham que se apear na freguesia de Arnoso, para que, aí, fosse construído um viaduto.
Esse local, na fronteira dos concelhos de Famalicão e Braga, ficou para sempre identificado por um obelisco, que ainda hoje pode ser observado.
Assim, os 31 Km da ligação do Porto a Famalicão passariam a fazer parte da Estrada Real 3.
 
 
 
 

Obelisco de Arnoso, na N14, alusivo à construção pela Companhia de Viação Portuense, da ligação entre Porto e Braga
 
 
 
Então, a diligência partia às 6 horas do Porto e chegava a Braga ao meio dia. Na volta, saía da cidade dos arcebispos às 15 horas e chegava à Invicta às 21 horas.
Em 1859, já era possível ir de diligência à Vila da Feira, com partidas às 2ªs, 4ªs e 6ªs feiras e regresso, às 3ªs, 5ªs feiras e Sábados.
Em meados da década de 1860, já se viajava diariamente para Braga, Famalicão, Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo e Amarante.
E, a rede de itinerários não deixou de crescer, inclusive a referente às ligações ferroviárias.
Mas voltando ao lançamento da revista “O Mundo Elegante”, o seu aparecimento vinha dar resposta a um sector da sociedade, mais jovem, e que começava a virar as suas atenções para o que se passava na Europa, principalmente nas grandes capitais europeias.
“O Mundo Elegante”, que se publicaria no Porto de 1858 até 1860, dizia ser um periódico semanal de modas, litteratura, teatros, bellas artes, &c,.
Seria fundador da publicação o veronês Jacopo Carli que seria, também, o seu Compositor Musical, sendo Camilo Castelo Branco o seu Redactor literário.
Para além de muitas outras figuras de vulto, Francisco Marques Sousa Vitervo colaboraria assiduamente com a sua poesia.
 
 
“Jacopo Carli era natural de Verona tendo permanecido no Porto entre 1840 e 1861. Inspirado pelo ambiente musical que se vivia na cidade decidiu prestar também o seu contributo propondo à Câmara Municipal a criação de uma escola de canto que proporcionasse um ensino completo, de qualidade e gratuito. Desta forma, estudar canto estaria acessível a todos, aproveitando os talentos que, de outro modo, ficariam por desenvolver.
Carli ofereceu os seus serviços de forma gratuita. A proposta do cantor foi rapidamente acolhida pela Câmara Municipal do Porto, que desde 1846, durante o mandato do então presidente José Passos, tinha em mente a criação de uma aula de canto na cidade. Consequentemente, em 13 de junho de 1855, o jornal Eco Popular publicou um documento no qual se anunciava a inauguração de uma Escola Popular de Música Vocal da Câmara Municipal do Porto, gratuita e destinada a rapazes maiores de onze anos de idade, sendo seu professor e diretor Jacopo Carli.
O método aplicado seria o mesmo que se utilizava no Conservatório de Música de Milão por considerá-lo o mais adequado. A Escola Popular de Música Vocal estava instalada na Câmara Municipal e no primeiro dia de aulas contava com 53 alunos matriculados. O sucesso desta instituição durante os primeiros anos de funcionamento viria a ser recolhido, de forma pormenorizada, pelo jornal O Comércio do Porto. No primeiro ano o número de alunos era de 342, no ano seguinte 132 e, em 1857, 113 alunos. Um ano depois aumentara para 132 ficando com 96 alunos em 1859. Quando Jacopo Carli abandonou Portugal, por circunstâncias familiares que o obrigaram a regressar a Itália, a Escola de Canto não sobreviveu ao seu afastamento”.
Cortesia de Rosa Maria Sánchez Sánchez – In “Dissertação de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes”
 
 
Durante a sua permanência na cidade, Jacopo Carli para além de dar aulas a alunos (as) em privado, também teve a seu cargo as aulas de piano e canto do Liceu da Ordem Terceira da Santíssima Trindade, que abriu portas em 1857, tendo sido substituído nessa tarefa, quando regressou a Itália, por Estanislau Delgado Canedo.
 
 
“Para além da sua atividade como professor, Carli foi editor da revista O Mundo Elegante, que publicava em cada número uma peça inédita de um compositor portuense. O próprio Carli chegou a publicar uma basta obra de peças para piano e para canto e piano; no entanto, as suas capacidades como compositor estavam muito longe de igualar o seu talento como professor. Na opinião de Ernesto Vieira eram «tudo cantilenas banais e outras composições publicadas, a maior parte delas para piano, também nada valem.» [VIEIRA, 1900: vol. I, p. 220]”
Cortesia de Rosa Maria Sánchez Sánchez – In “Dissertação de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes”
 
 
 

Jacopo Carli (1820-1890)

 
 
O primeiro número de “O Mundo Elegante” foi para as bancas, em 24 de Novembro de 1858, terminando a sua publicação em Fevereiro de 1860.
“O Mundo Elegante” será pioneiro, no que à moda dizia respeito, por permitir a escrita da sua crónica de modas a modistas, embora elas fossem todas francesas. Tratava-se de duas irmãs, Mesdames Ferins, modistas com atelier na cidade e com elevados créditos.
“O Mundo Elegante” oferecia, inicialmente, estampas de moda coloridas, assinadas por Emygdio, do qual se sabe que trabalhava na Oficina Litográfica de Villa Nova f.º & C.ª, na Rua de Santa Teresa, n.º 26, no Porto.
A oficina litográfica, atrás referida, pertencia a herdeiros do conhecido litógrafo Joaquim Cardoso Victória Vilanova, falecido em 1850 e com estabelecimento primitivo na Rua do Campo Pequeno (ao Largo da Maternidade).
Teria nascido, no Porto, em 1792 ou 1793. Assinava as suas litografias da seguinte forma: "J.C. Vilanova".
Em 1850, após a morte de Joaquim Cardoso Victoria Vilanova, a oficina primitiva encerrou, aparecendo, anos mais tarde, sob a firma “Vilanova, Filhos & C.a”, na Rua de Santa Tereza, n.° 26 e, depois, na Rua Formosa, n.° 331, com a designação “Vilanova & Filhos”.
Quanto a Emygdio será, por certo, o célebre Emídio Amatucci, o proprietário de uma conceituada litografia da Rua de Santa Catarina, n.°s 19 e 20.
Em 1859, as gravuras de moda de “O Mundo Elegante” passam a ser monocromáticas, talvez com o intuito de embaratecer a publicação.
 
 
“O número de modistas na cidade do Porto era muito mais reduzido que na capital, e estas só começariam a aumentar após o Cerco, no fim das Guerras Liberais. Aproveitaram a oportunidade de negócio modistas como Madame Villaret, que se estabeleceu nesta cidade. Mas muitas destas modistas optavam por aí se estabelecer em períodos sazonais, provavelmente na época de bailes no inverno, e no início da primavera, quando as damas se ocupavam pela encomenda de novas toilettes para a estação. Era o caso da modista Eliza Gautir que sem estabelecimento nesta cidade, aí comercializava, voltando para Lisboa após o escoamento do stock”.
Cortesia de Ricardo Braga, In “A Moda no Periodismo Português Oitocentista”
 
 
 

Cabeçalho do frontispício da revista “O Mundo Elegante”, Nº 1 (24 de Novembro de 1858) - Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto
 
 
 
A gravura, acima, representa uma reunião ou uma soirée, onde figuram vinte e duas personagens, evidenciando-se uma senhora que toca piano, outra que canta, as demais assistindo, todas elas rodeadas por cavalheiros.
Aquelas soirées realizavam-se frequentemente nas casas dos burgueses do Porto. Para além dessas reuniões, a Sociedade Filarmónica Portuense e a Assembleia Portuense promoviam-nas da forma mais apetecível para os mais jovens – os bailes – que decorriam durante o Inverno e Primavera.
As jovens, filhas dos burgueses portuenses, para além daquelas reuniões musicais/dançantes experimentavam a sedução do mundo exterior, fora da cerca da residência familiar, com idas regulares à igreja e, por vezes, nos fins-de-semana, acompanhadas de perto pela presença atenta dos pais, ao Jardim de S. Lázaro, normalmente para um passeio sem destino ou para ouvir uma qualquer banda actuando no seu coreto.
Assim, era, em 1858, já que os Jardins do Palácio de Cristal só apareceriam em 1865, e o Jardim da Cordoaria só abriu ao público em 1867.
Quanto aos jovens burgueses era a estúrdia completa.
Pois, é neste caldo de cultura, que a revista “O Mundo Elegante” é lançada.
Em 1858, no mundo próximo da vida de Camilo Castelo Branco, sabe-se que, em Maio de 1858, na qualidade de redactor literário de "O Mundo Elegante", às voltas com a preparação do seu lançamento, tratou e conseguiu convencer Ana Plácido, a grávida esposa de Manuel Pinheiro Alves, que daria à luz, em 11 de Agosto, o seu filho Manuel Pinheiro, a colaborar na inovadora revista.
Manuel Pinheiro Alves não concordaria com a incursão de sua esposa, como poetisa, pelo mundo da moda.
Em Outubro, falece José Plácido e Maria José, ambos irmãos de Ana Plácido.
Aliás, o desenlace de Maria José acontece quando as duas irmãs passavam mais uma temporada no Bom-Jesus de Braga, a ares, para que a jovem tentasse debelar a tísica. Por essa altura, também Camilo Castelo Branco dava o saltinho ao santuário para se encontrar com Ana Plácido e, na volta, já após a morte de Maria José, escrevia ao seu amigo, protector e confidente, José Barbosa da Silva:
 
 
“Meu caro Barbosa
(...)
A Ana está cada vez pior. Da morte da M. J., já tu sabes. Eu não posso, sem lágrimas, deter-me na triste previsão do que vai ser a minha vida. Creio que se não for um cadáver, serei um ‘cadáver moral’, um padre”.

 
Em 1858, no ano de lançamento de “O Mundo Elegante”, vários outros acontecimentos foram notícia. 
Em termos mundanos, a 7 de Novembro daquele ano, o Porto assistiria à inauguração do novo Teatro-Circo (actual Sá da Bandeira).
No balanço do ano de 1858, no que diz respeito à actividade económica, ele seria marcante, pois, em virtude de uma crise, acabariam por falir cerca de 100 empresas.
Entretanto, continuavam a chegar ao Porto e ao norte do país, os brasileiros de torna-viagem procurando, muitos deles, as jovens casadoiras da burguesia portuense.
À frente da Câmara do Porto, começaria neste ano o seu mandato, que se estenderia até 1865, o conde de Lagoaça.
 
 
 

Ilustração In revista “O Mundo Elegante”, Nº 1 (24 de Novembro de 1858) – Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto
 
 
 
Naquele primeiro número de “O Mundo Elegante”, como artigo de fundo, podia ler-se:
 
 
“O Mundo Elegante será o mundo-patarata? Suspeita damninha que entra a inguiçar-me logo no principio! O mundo elegante é a sociedade polida, lustrosa, invernizada no corpo e no pensamento, na acção e na palavra, na intenção e na obra. Patarata quer dizer ostentação van. Elegamcia quer dizer escôlha. Poderão imparceirara-se as duas coisas n’um mesmo individuo, n’uma mesma classe? (…) O Mundo-Elegante faz-se para todas as caras possiveis, desde a botocuda até á georgiana; Para todas as intelligencias imaginaveis: Para todas as progenies admissiveis na ordem da propagação; Para todos as virtudes ainda as mais hypotheticas. (…) Um mundo assim elegante póde e deve ter um jornal, um como archivo dos seus fastos, uma especie de acta em que se vão escrevendo as phases da civilisação portuense. De hoje a cem annos, quando o Porto attingir o seu destino de maxima perfectibilidade, os nossos netos mostrarão este jornal como testemunho de uma civilisação remota. (…) Falta saber que este jornal abomina a sciencia. Aqui só se escrevem coisas que o leitor póde esquecer uma hora depois, com tranquilla consciencia de que não perdeu coisa alguma. Abjura-se tambem a satyra, e a critica. Cada qual póde fazer o que quizer, e viver como quizer. Respeita-se a ignorancia e o vicio: respeita-se tudo.”
Camilo Castelo Branco
 
 
Sobre o lançamento do 1º número de “O Mundo Elegante” dava nota o jornal “O Comércio do Porto”, em 25 de Novembro de 1858, e no dia seguinte, curiosamente, sempre pela pena do omnipresente Camilo Castelo Branco e que, seguidamente, se destaca.




In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Novembro de 1858


 
Na notícia, anterior, é possível também observar que a Sociedade Filarmónica Portuense anunciava a abertura das suas reuniões dançantes e musicais da nova época.
 
 
 

In jornal “O Comércio do Porto” de 26 de Novembro de 1858
 
 
A Lisboa, a notícia chega, no dia 26 de Novembro, através do jornal “A Revolução de Setembro”, de António Rodrigues Sampaio.
Assim:
 
“No Porto vai publicar-se um novo jornal de modas, teatros e literatura, de que será principal redator o distinto escritor Camilo Castelo Branco, e que se denominará o “Mundo Elegante”. Parece que o sr. Evaristo Basto também colaborará no mesmo jornal.”
“A Revolução de Setembro” de 26 de Novembro de 1858
 
Mais tarde, “A Revolução de Setembro” sobre o primeiro número de “O Mundo Elegante” diria:
 
“Já se publicou no Porto o 1º número do ‘Mundo Elegante’, semanário de modas, literatura, teatros, belas–artes e romances, e que é redigido pelo sr. Camilo Castelo Branco. Neste número, além da introdução, obra da pena do sr. Camilo Castelo Branco, aparece um esboço da vida de Adriana Lecouvreur, da Laura de Petrarca, e de Margarida de Valois. Todos os jornais são concordes em declarar que esta publicação será muito importante, se o sr. Camilo continuar à sua frente.”
 
 
Em 1 de Janeiro de 1859, no nº6 da revista “O Mundo Elegante”, Camilo Castelo Branco informava os seus leitores da homenagem prestada pela Câmara do Porto ao compositor Jacopo Carli, com a atribuição de uma medalha de ouro alusiva ao seu trabalho à frente da Escola Popular de Música Vocal da Câmara Municipal do Porto.
 
 

“O Mundo Elegante”, Nº 6, de 1 de Janeiro de 1859, dando conta de homenagem a Jacopo Carli com atribuição de uma medalha de ouro




Ilustração In revista “O Mundo Elegante”, Nº 10 (Fevereiro de 1859) – Fonte: Biblioteca Pública Municipal do Porto




Entre 1864 e 1866, em mais uma tentativa de incursão pelo mundo da moda, publicou-se o periódico quinzenal “Porto Elegante”.
Os seus escritórios localizavam-se na Litografia Comercial, na Rua Formosa, n.º 76, no Porto, sendo impresso na Tipografia de António José da Silva Teixeira, na Rua da Cancela Velha, n.º 62.
Eram proprietários do “Porto Elegante” F. J. Carlos Amatucci e M. A. F. de Sousa Campos e o periódico dizia ser “Jornal de literatura, ciências, belas-artes e modas”.


 
 

 
 

Estampa de moda da revista “Porto Elegante”
 
 
 
 

Anúncio no “Jornal do Porto” de 2 de Setembro de 1865