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sábado, 23 de abril de 2022

25.155 Travessia Aérea do Atlântico Sul e o Café Majestic

A cidade do Porto, naqueles tempos, tinha a sua baixa em reboliço.
Desde 1916, que se abria a Avenida dos Aliados e o troço inicial da Rua de Sá da Bandeira que levava aos Congregados.
A Câmara Municipal estava instalada no Paço Episcopal (alugado, entre 13/11/1915 e 24/6/1957, quando passou para a Avenida dos Aliados) e o bispo tinha as suas instalações no Palácio dos Terenas, ao Palácio de Cristal, desde 1919.
Entre 1914 e 1919, o bispado tinha estado na Quinta de Sacais, ao Bonfim.
 
 

Avenida dos Aliados, c. 1922


 

Entrada do Paço Episcopal, à Sé, a funcionar como Câmara Municipal. A estátua do Porto (conhecido também pelo povo, como o “Malhão”) esteve, por aqui, entre 1916 e 1935. Actualmente, está junto da delegação do Banco de Portugal, à Praça da Liberdade, depois de ter peregrinado por vários locais
 

 
 

Palacete dos Terenas, c. 1922, depois, Palacete da Mitra. A Rua de Júlio Dinis aberta, aquando da Exposição Colonial de 1934, desenvolver-se-ia pela esquerda da foto


 
 

Fachada lateral do Palacete dos Terena, com a sua torre anexa – a Torre de Vicente Pedrossem
 
 
 
A cidade do Porto iria, então, ser o palco, naquele dia 2 de Dezembro, de dois acontecimentos dignos de registo: a inauguração do seu café Majestic e a chegada dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, para que fossem alvo do reconhecimento dos portuenses pelo feito por eles protagonizado, uns meses antes.
O café que se inaugurava, naquele Sábado, tinha as suas origens a partir do momento em que alguns comerciantes do Porto se associaram na sociedade por quotas denominada “Café Elite, Lda.”, a 17 de Dezembro de 1921 e, nesse mesmo dia, assinavam um contrato de arrendamento, com início a 1 de Junho de 1922, do rés-do-chão do prédio sito na Rua de Santa Catarina nºs 110 ao 116, “destinado à montagem de um café, cervejaria”.
O estabelecimento abriria, apenas, em 2 de Dezembro de 1922.
Mantendo, desde a sua abertura, o seu nome, Majestic Café, a 4 de Dezembro de 1924, a sociedade “Café Elite Lda”, sua proprietária, seria substituída pela sociedade “Majestic Café, Lda”.
À inauguração do Majestic se referia o jornal “O Primeiro de Janeiro” nos seguintes termos:
 
 
“O nome condiz plenamente com a propriedade! É, de facto, um estabelecimento majestoso, esse que logo se inaugura aqui perto, na Rua de Santa Catarina.
Há conforto, elegância, arte. Nenhum outro o excede em harmonia de tons, em colorido, em luz. Casam-se admiravelmente os mármores e os cristais facetados. E o ouro dos ornamentos e o damasco das paredes e o branco marfim do tecto.
A começar na arquitectura, que é de artista de requintado gosto, tudo ali é belo, elegantíssimo.
Cá fora, à entrada, duas colunas dóricas, de mármore, bem lançadas. Por sobre as portas de cristal, duas figuras alegóricas, bronzeadas, seguram pelos extremos um festão em curva.
Ele é, de facto, o Café mais lindo do país, talvez da península.
O arquitecto foi o sr. José Pinto de Oliveira. Quanto às decorações, pertencem a outro artista muito distinto, o sr. José Baganha.
Ontem, os estimados societários do “Majestic” ofereceram aos seus amigos uma taça de champagne e um fino serviço de pastelaria, serviço primoroso da Confeitaria do Bolhão”.
In jornal “O Primeiro de Janeiro” de 2 Dezembro de 1922

 
 

Entrada do Café Majestic – In Illustração Portugueza, 10 Março 1923
 
 
 
Inaugurado o café, entretanto, os famosos aviadores, erigidos à categoria de heróis, continuavam sem chegar à cidade.
Acontece que, já cedo, algumas personalidades se tinham posto a caminho de Lisboa, para resolver uma contrariedade surgida de última hora.
O Diário de Lisboa dá-nos conta de que se passava, em texto que se transcreve.

 
 



Cortesia da Fundação Mário Soares, In “Diário de Lisboa” de 2 de Dezembro de 1922
 
 
 
Assim, desfeito o mal-entendido, acima narrado, embarcaram os aviadores, no rápido para o Porto, no Domingo, dia 3 de Dezembro de 1922, tendo chegado à estação ferroviária de Campanhã, onde foram recebidos pelas autoridades civis e pelo bispo do Porto, D. António Barbosa Leão.
Cerca de um mês antes, a 26 de Outubro, já o F. C. Porto tinha homenageado os aviadores quando, em Assembleia Geral, a mesma que aprovou o último emblema do clube, os proclamou como sócios honorários da instituição.


 


Chegada dos aviadores à estação ferroviária de Campanhã, em 3 de Dezembro de 1922; Cliché de Álvaro Martins – Fonte: “Illustração Portugueza” de 9 de Dezembro de 1922
 
 
Começava, então, o périplo pela cidade, cujos habitantes testemunhariam as homenagens e manifestações vibrantes de que foram alvo os aviadores.

 
 

Apoteose dos aviadores junto do Jardim de S. Lázaro, onde foram aclamados pelas crianças das escolas, em 3 de Dezembro de 1922; Cliché de Álvaro Martins - Fonte: “Illustração Portugueza” de 9 de Dezembro de 1922
 
 
 
 
O texto seguinte, do Diário de Lisboa, dá-nos uma ideia dos acontecimentos.




Cortesia da Fundação Mário Soares, In “Diário de Lisboa” de 4 de Dezembro de 1922
 
 
 
Os aviadores, durante a sua estadia, ficaram alojados no Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina, onde foram os destinatários de uma manifestação popular, findo um desfile que percorreu as ruas da cidade e os obrigou, por momentos, a deslocarem-se á varanda da unidade hoteleira, para as saudações da praxe.
Na manhã, desse dia, na Estação de S. Bento, seria descerrada uma placa alusiva à visita à cidade dos aviadores.




Placa comemorativa da travessia aérea do Atlântico Sul, descerrada em homenagem aos aviadores, oferecida pelos ferroviários do Minho e Douro e que, ainda, podemos observar no átrio da Estação de S. Bento

 
 

Placa comemorativa da travessia do Atlântico Sul, hoje no pedestal da estátua do Infante D. Henrique – Fonte: Illustração Portugueza de 9 de Dezembro de 1922
 
 
 
 

A placa referida na foto anterior encontra-se, nos dias de hoje, no pedestal da estátua do Infante D. Henrique



Gago Coutinho não deixaria de fazer uma visita ao Café Majestic e sempre o visitava, quando estava de passagem pela cidade.




Manifestação popular de apoio aos aviadores, em 4 de Dezembro de 1922, junto ao Grande Hotel do Porto
 
 
Às homenagens na cidade do Porto, seguir-se-iam as de V. N. de Gaia, das quias o texto seguinte nos dá uma ideia.
 
 
“Os aviadores foram aguardados por uma multidão compacta e pelas pessoas mais gradas da Vila, entre as quais se destacava o Presidente do Município acompanhado pela vereação, sendo formado um luzido cortejo que os acompanhou até ao largo onde estava o monumento a inaugurar, largo esse que, em nome dos homenageados, tomou o nome de Largo dos Aviadores. O cortejo desfilou pela Avenida da República (então ainda com poucos prédios), Rua Álvares Cabral e pela rua hoje chamada Francisco Sá Carneiro. No acto da inauguração ouviram-se os acordes de uma banda de música, subiram foguetes ao ar e a multidão não se cansou de vitoriar os aviadores. Nas ruas do percurso, apinhadas de gente, as varandas e janelas dos prédios ostentavam vistosas decorações. Também ignoro se os aviadores chegaram a ser recebidos na Câmara, mas creio que não, pois a Câmara não tinha instalações dignas. Estava instalada (mal) num antigo prédio da Rua Cândido dos Reis, só depois sendo construído o actual edifício. Nessa memorável noite voltei a ver os aviadores de casa dos meus tios, Arminda e Miguel da Silva Leal, na Rua Álvares Cabral, casa já demolida e cuja fachada era coberta de heras. Ficava mesmo pegada à farmácia que ainda hoje existe. Ainda haverá quem se lembre?”
Cortesia de Carlos Gomes de Oliveira
 
 
 

Monumento em honra de Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Largo dos Aviadores, em Gaia
 
 
 

Perspectiva actual da foto anterior, com monumento, à direita – Fonte: Google maps

 
 
O prédio, à esquerda, nas fotos anteriores, ainda existe.
O feito de que foram protagonistas Gago Coutinho e Sacadura Cabral e que os atirou para a ribalta, tinha começado em 30 de Março de 1922.
Num hidroavião, Gago Coutinho e Sacadura Cabral levantaram de Lisboa para a primeira travessia do Atlântico Sul.
 
 
“No Porto realizou-se uma subscrição pública, para a compra do aparelho, que rendeu a elevadíssima quantia de 400.000$00. Saídos em 30/3/1922 só chegaram ao Rio em 17/6/1922. Tiveram grandes problemas técnicos e o primeiro avião afundou-se numa amaragem. Tendo o navio Carvalho Araújo levado um segundo avião, os aviadores conseguiram concluir a viagem. A chegada dos aviadores ao Rio de Janeiro foi festejada, no Porto, com o ribombar da artilharia, com o repique dos sinos e ruidosos silvos das sirenes das fábricas e dos vapores surtos no Douro e pelo estalejar de milhares de foguetes”.
Cortesia de Rui Cunha



A travessia entre Lisboa e o Rio de Janeiro foi efectuada por várias etapas com as escalas respectivas.
Gago Coutinho era um cartógrafo e Sacadura Cabral um piloto experiente. Conheceram-se em África.
A viagem começaria a 30 de Março, a bordo do hidroavião monomotor Fairey F III-D MkII, baptizado de Lusitânia.
A 18 de Abril, apesar de algumas reparações da aeronave, ela é dada como incapaz.
A 11 de Maio, já estava no ar, a partir de Noronha, outra máquina enviada de Portugal, baptizada como Pátria, que acabaria por amarar, salvando-se os aviadores que foram recolhidos por um cargueiro inglês - o Paris City, que os devolveu a Noronha.
A 5 de Junho, seria enviado para conclusão da aventura, um novo Fairey F III-D, n.° 17, baptizado pela esposa do então Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, como Santa Cruz.
Depois de escalas em Salvador, Porto Seguro e Vitória, o hidro-avião chegaria ao Rio de Janeiro.
A façanha tinha sido de aplaudir, mas exauriu os cofres da nação.
 
 
 

Hidroavião Fairey F III-D, nº 17, "Santa Cruz" (Museu de Marinha de Lisboa)
 
 
 
O Comandante Sacadura Cabral acabaria por sofrer um acidente e desapareceu quando sobrevoava o Mar do Norte, pilotando um avião que tinha ido buscar a Amesterdão. O seu desaparecimento causou uma enorme mágoa e o seu corpo nunca viria a ser resgatado.
Já o Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho, que era de pequena estatura física, foi mais feliz, pois viria a falecer já de avançada idade, tendo sido uma figura popular e muito querida.
Simpático, via-se com frequência nas ruas de Lisboa, sempre com a sua inseparável boina azul. Foi ele o inventor do “sextante”, que muito viria a facilitar a navegação aérea”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

(Continuação 6) - Actualização em 27/02/2018 e 23/04/2021

Casa da Câmara 


Outra casa-torre, mas esta de grandes proporções (tinha cerca de 100 palmos de altura, ou seja cerca de 22 metros) é a primitiva Casa da Câmara, cuja construção data dos séculos XIV-XV. A sua presença fazia-se sentir no Porto medieval, estabelecendo inevitavelmente um paralelo com as construções pertencentes ao Bispo. De acordo com os estudos que têm vindo a ser feitos, a qualidade da cantaria lavrada do exterior tinha correspondência no interior, quer nos trabalhos de carpintaria, quer de pintura.



Rua de S. Sebastião - Rua Escura 


A Rua Escura chamou-se Rua Nova até 1404, data que se encontra num documento do Cabido dizendo “Rua Escura que antigamente chamavam Rua Nova”. Era uma das mais importantes ruas do antigo burgo, onde se encontrava a Casa da Câmara Medieval, a Capela e Fonte de S. Sebastião junto da porta do mesmo nome e o Recolhimento de Nossa Senhora do Ferro. Este foi fundado no século XV e foi transferido em 1757 para as Escadas do Codeçal. A Fonte de S. Sebastião foi mudada para o Largo Dr. Pedro Vitorino, perto da entrada do Seminário da Sé.
A zona da Rua de S. Sebastião e da Rua Escura é das mais curiosas para o conhecimento da cidade antiga.
Em S. Sebastião ficavam: a Porta do mesmo nome, demolida em 1819 (a cintura primitiva de muralhas que delimitava o núcleo da Sé tinha quatro portas: S. Sebastião, Nossa Senhora de Vandoma, da Mentira depois da Verdade ou das Verdades e de Sant' Ana das Aldas); a Fonte de S. Sebastião ou Fonte da Rua Escura, atrás referida; a Capela de S. Sebastião, à entrada da rua (uma invocação desta capela fazia parte de um conjunto de "Passos" mandados erguer pelos Agostinhos Descalços, ligados à Procissão dos Passos que eles organizaram até 1832); e o Aljube Eclesiástico ou Cárcere dos Clérigos que, a partir de 1749 transitou das antigas instalações próximas do Arco de Vandoma, para a Rua de S. Sebastião (seria uma cadeia pública, uma vez terminado o foro eclesiástico).
A Capela de S. Sebastião era uma ermida que ficava sobre o arco da Porta de S. Se­bastião da Cerca Velha, a tal que durante muito tempo se disse que era sueva, mas que depois se provou ter sido obra dos ro­manos.
No século XVIII, o arco da Porta de S. Se­bastião era vizinho da Casa Torre ou Casa da Torre, onde funcionava a Câmara. 
A Rua de S. Sebastião, que tomou o nome da capela, começava aí, "dentro do arco", e subia para a Sé, cruzando-se com as já desa­parecidas ruas dos Açougues, de Nossa Se­nhora de Agosto e das Tendas. Terminava junto da porta do também desaparecido castelo velho, mais ou menos onde agora está a porta do Seminário Maior, no actual Largo do Dr. Pedro Vitorino, que antes se chamou Largo dos Açougues. 
A própria Rua de S. Sebastião chamou-se, primitivamente, Rua do Castelo. Mas no século XIII tinha a designação de Rua da Sa­pataria, Rua da Sapataria do Castelo ou Rua da Sapa­taria Velha, "defronte donde se faz a feira", consta de um documento do ano de 1335. 
Tudo isto desapareceu com o arranjo urba­nístico que se fez ao redor da Sé, nos idos anos quarenta do século XX. 



Rua de S. Sebastião obras em 1936



Local da foto anterior da Rua de S. Sebastião em 1958 – Fonte: frame do filme “A costureirinha da Sé”



Mesmo local da fotos anteriores actualmente




O arco e a Porta de S. Sebastião foram apeados nos finais do século XVIII e com a sua demolição desapareceu, também, a pe­quena capela dedicada a S. Sebastião que fi­cava sob o arco. 
Demolida a capela, a Câmara entregou a imagem de S. Sebastião aos cónegos da Sé, que a levaram para a capela de Nossa Senho­ra do Ferro.
A capela era assim chamada devido à existência de um ferro atravessado no topo da porta de entrada. Segundo a tradição, o condenado à forca que saindo do aljube, da Rua de S. Sebastião, em direcção ao patíbulo, o conseguisse tocar, era agraciado.



Capela de Nossa Senhora do Ferro, Recolhimento do Ferro e Escadas do Codeçal


No início da Rua Escura, perto do Arco de Vandoma, situava-se então, a Capela de Nossa Senhora do Ferro (demolida em 1928) que pertencia ao Recolhimento do Ferro ou Recolhimento de Nossa Senhora do Patrocínio da Mãe de Deus e Santa Madalena, (fundado em 1681 e transferido em 1757 para o Codeçal, onde se encontra).
Uma instituição presente nesse local, fundada no século XV, à entrada da Rua Escura funcionava como um albergue de prostitutas e mulheres abandonadas. Tinha uma capela pegada, que ostentava na frontaria o ano de 1681 que corresponde a uma remodelação, dado que a capela era, provavelmente, mais antiga.
Em 1681, o anexo onde se recolhiam as mulheres é alvo de obras e é criado o Recolhimento do Ferro.
Posteriormente, a capela anexa foi também conhecida por Capela de São Sebastião, por causa de uma imagem do santo protector contra a peste que foi ali guardada pela Diocese no fim do século XVIII, após a demolição da Porta de S. Sebastião, uma das quatro portas da Muralha Primitiva do Porto e da primitiva Capela de S. Sebastião.
Em 1854, com a epidemia de cólera-mórbus, sabe-se que os moradores da Sé invocaram a protecção de São Sebastião e escaparam "milagrosamente", passando a comemorar ao santo todos os anos, a 20 de Janeiro.
A antiga capela, na Rua de S. Sebastião, depois de muitos anos de abandono e ruína, foi completamente demolida em 1928.
Nos começos do século XVIII pensou-se em remodelar e melhorar as instalações do recolhimento, mas a ideia não foi por diante.
Em frente, na Rua de S. Sebastião era possível, do Aljube ver o que se passava no interior do recolhimento, pelo que o novo recolhimento seria construído nas Escadas do Codeçal em terrenos que uma senhora D. Josefa Maria doara por escritura de 17 de Março de 1729, sendo inaugurado em 1757.
A doadora impôs por condição que o recolhimento tomasse por padroeira Santa Maria Madalena e recolhesse prostitutas que desejassem abandonar a "velha profissão", bem como mulheres casadas e de família com o aval dos maridos.
Hoje, chega a dizer-se, erradamente, que aqui eram enclausuradas as adúlteras pelos seus maridos. Aqui, as internadas viviam modestamente, sustentando-se "com o produto do seu trabalho" Observavam regras muito rígidas. As regentes da instituição eram eleitas por todas as internas, mas os estatutos não permitiam a realização de festas para festejar a eleição da dita regente, a exemplo do que se passava nos “abessados”.
Entretanto, no século XIX, o edifício do antigo recolhimento tinha sido abandonado devido às Invasões Francesas e às Lutas Liberais.




Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, nas Escadas do Codeçal



Recolhimento do Ferro c. 1900 – Ed. Arnaldo Soares




A íngreme Escada do Codeçal fez, desde tempos recuados, a ligação entre o mosteiro de Santa Clara e o Postigo da Areia, junto ao rio Douro.
Estende-se ao longo da muralha fernandina e seria um caminho de ronda ao longo dela.
A construção na década de 1880 da ponte Luís I, levou a que junto daquelas escadas, se implantassem alguns pilares da dita ponte e, já bem entrados no século XX, o último troço delas seria demolido e, posteriormente, remodelado, para arranjo da marginal, na Ribeira.



Escadas do Codeçal c. 1900 – Ed. Arnaldo Soares



Escadas do Codeçal – Ed. Armazéns Hermínios




Rua dos Mercadores
 

A Rua dos Mercadores vai da Praça da Ribeira à Rua da Bainharia.
Em 1309, a Rua dos Mercadores é designada "rua per hu vam a Ribeira".
Sendo uma rua de comerciantes e mercadores, era uma zona desde cedo com construções cuidadas.
Aqui, vemos as casas serem sobretudo de pedra, com dois, três e quatro andares, obedecendo portanto ao esquema da casa-torre.
Um documento de 10 de Novembro de 1317, dá-nos uma boa ideia do tipo de construções, ao descrever e ordenar "… que lhi acabase aquelas cassas que começou affazer de pedra ante Albergaria de Ssanta Clara … per fazer acabar as ditas cassas de pedra em paredes ataa çyma entre sobrados e seer huum deses sobrados huum sobrado ladrom e os douos sobrados de ssuso sobrele …".
Pretendia-se, portanto, que o primeiro sobrado, entre a R/C e o 1º andar; fosse avançado sobre a rua, como era costume na Idade Média.
 
 

Rua dos Mercadores – Ed. “portopatrimoniomundial.com/”
 
 
“A Rua dos Mercadores foi, juntamente com a Bainharia e a Rua Escura, um dos eixos de circulação vital para o Porto Mediévico, ligando a zona ribeirinha, centro mercantil, ao burgo episcopal e assegurando a comunicação com as principais vias medievais que saiam do Porto em direcção ao Entre-Douro-e-Minho e a Trás-os-Montes.
Percorrendo a zona extra-muros desde as imediações da Porta de Sant'Ana até à Praça da Ribeira, junto ao Douro - ia, segundo documento antigo, "de Sant'Ana para baixo até a Praça da Ribeira" - ela seria, como o seu nome indica, um dos locais eleitos pelos mercadores portuenses para instalarem as suas moradias e estabelecimentos”.
Fonte: “viasromanas.pt/”
 
 
Segundo Artur de Magalhães Basto, o facto de nobres e prelados, bem como outros poderosos, quando se deslocavam ao Porto optarem por exigir o direito de aposentadoria nas casas da Rua dos Mercadores, é um claro reflexo do facto de ser nesta artéria que se concentravam as casas mais convidativas, e portanto uma ilustração indesmentível de como esta artéria era uma das ruas mais ricas da cidade.
De resto, a isenção do direito de aposentadoria seria confirmada e renovada por D. João I, sintoma de que a cobiça pelas boas instalações da Rua dos Mercadores e da Chã das Eiras continuava a fazer-se sentir.
Assim, por carta de 22 de Dezembro de 1385, este rei sublinha que os monarcas que o antecederam quando chegavam ao Porto não se instalavam nas ruas das Eiras e dos Mercadores, confirmando os privilégios que os seus antecessores (nomeadamente D. Fernando) tinham outorgado.
Ou seja, os moradores da Rua dos Mercadores tinham o privilégio de isenção de Aposentadoria, tal como acontecia com os moradores da Rua Chã das Eiras (hoje apenas Rua Chã).
 
 
 
 

Casa-Torre, Rua dos Mercadores, 156 e 158
 
 

No primeiro prédio, à esquerda, está a antiga Casa-Torre, actualmente

 
Apesar de ser uma das zonas ricas da cidade, a Rua dos Mercadores encontra-se documentada, apenas, numa fase já relativamente tardia.
É possível que o tipo de propriedade que aqui se localizava - talvez uma percentagem mais elevada de habitação própria, ao contrário de outras artérias portuenses, onde as habitações eram sobretudo arrendadas - ajude a explicar este relativo silêncio da documentação.
Mas, apesar de tudo, conhecem-se alguns títulos de aforamento.
Em 1388, era feito prazo de umas meias-casas situadas na Rua dos Mercadores, que eram do Cabido da Sé, e que este emprazava a João Afonso.
Em 1507, o Cabido emprazava umas Casas-Torres que detinha nesta rua. E, em 1548, eram emprazadas umas Casas-Torres na Rua dos Mercadores, que o Cabido da Sé assina em favor de Bartolomeu Álvares Araújo.
 
 
 
“Nesta rua estavam instalados o Hospital-Albergaria de Santa Clara, uma instituição possivelmente anterior ao século XIII. Seria, seguramente, uma das construções mais interessantes desta rua. O hospital e albergaria ficava na entrada da Rua dos Mercadores pelo lado norte, próximo da esquina com as ruas da Bainharia e de São Crispim, no lado oposto à Muralha Românica. O Hospital e Albergaria de Santa Clara foram anexados por D. Manuel I à Santa Casa da Misericórdia do Porto.
Por trás da Rua dos Mercadores, correndo na base da Muralha Primitiva, existia a Viela do Forno, referida documentalmente desde 1309. Este pequeno arruamento, que acolheu a gafaria do Porto, foi também conhecido como Viela de São Lourenço. A última referência que encontramos sobre esta viela remonta a 1802, quando se realiza uma vistoria que conclui a sua falta de serventia, pelo que se decide o seu entaipamento definitivo”.
Fonte: “pt.wikipedia.org/”





Sé Catedral · Casa do Cabido 

Terreiro da Sé 

O actual Terreiro da Sé onde se encontram implantados a Sé, a Casa do Cabido e o Palácio Episcopal (que hoje nos surgem como um núcleo homogéneo) é uma criação dos anos 40 do século passado.
As demolições efectuadas nessa época alteraram completamente a feição medieval da malha urbana da zona, dando-nos uma leitura do espaço que nada tem a ver com a mensagem que o passado, ao longo dos séculos, havia construído.

Nessa voragem destruidora demoliram-se vários quarteirões desaparecendo, entre outras, as casas onde havia funcionado a Cadeia do Bispo e a casa armoriada que pertencia ao conde de Castelo de Paiva, deslocando-se também do seu local primitivo a Capela de Nossa Senhora de Agosto ou dos Alfaiates, que ficava em frente à porta principal da Sé e que hoje se encontra reconstruída em frente do Governo Civil”.

No centro do Terreiro foi colocado um pelourinho pela Câmara Municipal, em 1945, como remate das obras de reestruturação da zona envolvente da Sé, que nada tem a ver com o primitivo ou primitivos.



Pelourinho actual – In site: guiadacidade



Sé Catedral 

“A Sé do Porto é um edifício que, do século XII aos nossos dias, foi objecto de transformações sucessivas. O seu projecto inicial evidencia a influência francesa e a marca dos artistas de Coimbra. O deambulatório concebido neste plano foi destruído quando se ergueu a nova capela-mor nos inícios do século XVII, no tempo do bispo D. Frei Gonçalo Morais.
Durante o período de Sede Vacante (1717-1741) que ocorre após a nomeação do Bispo do Porto D. Tomás de Almeida para Cardeal Patriarca, os destinos da diocese ficam entregues ao Cabido, que inicia uma série de obras de vulto visando a transformação da Sé medieval numa Sé barroca.
No exterior constrói-se, na fachada principal, uma magnífica obra barroca, enquadrando a porta de acesso, e lateralmente uma "loggia" (galilé ou alpendre), cuja autoria, atribuída a Nasoni, é hoje posta seriamente em causa.
No interior, para além de se abrirem grandes janelas nas paredes laterais e topos do transepto para se obter uma maior iluminação, são deslocados, para naves laterais, os altares que estavam adossados aos pilares, e procede-se ao enriquecimento do espaço.
Nesta campanha participam artistas das áreas mais diversificadas entre os quais destacamos: o entalhador Garcia Fernandes de Oliveira (1725 - florões e capitéis da capela-mor; 1726 - sanefas, remates e grades das janelas da capela-mor; e retábulos laterais, em colaboração com Caetano da Silva Pinto); o ensamblador Miguel Marques (1726 - cadeiral da capela-mor); o entalhador Luís Pereira da Costa (1727/28 - caixas dos órgãos da capela-mor); Claude Laprade (1728/30 - quatro imagens do retábulo-mor). Mas dessa plêiade de artistas avultam o mestre de estuques-arquitecto António Pereira, o arquitecto-entalhador Miguel Francisco da Silva (que, em colaboração com Luís Pereira da Costa, executaria em 1727/29 o magnífico retábulo-mor) e o pintor de perspectiva italiano Nicolau Nasoni (1725 - pinturas da capela-mor).
Dessa Sé barroca pouco resta devido às intervenções violentas que foram feitas entre 1932 e 1936 pelos Serviços estatais, procurando, através de um "restauro profundo", devolver ao templo a sua primitiva feição medieval.
Ainda na Sé do Porto podemos admirar a Capela do Santíssimo Sacramento com o célebre altar de prata (séculos XVII-XVIII) da autoria dos ourives Manuel Teixeira, Manuel Guedes, Miguel Pereira e Bartolomeu Nunes. Este altar só não foi saqueado pelos invasores franceses, pela simples razão de que a cidade negociou, entregar aos saqueadores uma quantia em dinheiro igual ao seu valor, mas, no último dia do prazo do pagamento do acordado, os franceses tiveram que bater à pressa, em retirada; a Capela de S. João Evangelista, onde se encontra sepultado o almoxarife régio João Gordo, cujo túmulo é um importante exemplar da escultura funerária do século XIV; a magnífica sacristia com pinturas de Nasoni e cuja talha, desenhada por este artista, foi executada por Miguel Francisco da Silva (1734); e o claustro gótico, com revestimento azulejar do século XVIII”.
Com a devida vénia a, cncjulio.blogspot




Fachada lateral da Sé em desenho de Nogueira da Silva



O desenho acima é anterior a 1868, pois, o seu autor, Francisco Augusto Nogueira da Silva era um lisboeta, nascido a 26 de Setembro de 1830, na Freguesia das Mercês e finou-se ainda um jovem, com apenas trinta e sete anos, em 13 de Março de1868. Foi contemporâneo de Manuel Maria Bordalo Pinheiro.




Casa do Cabido 

“A antiga Casa do Cabido ficava nos claustros, “junto à capela de S. Vicente, de cujo telhado recebia tantas águas, que a fo­ram pondo em tal ruína, que houve neces­sidade de se fazer nova casa no sítio que se achou mais acomodado, em o rossio que era do público no terreiro da mesma sé, junto ao ângulo do claustro e da torre cha­mado do relógio". O primeiro pavimento era destinado a celeiro; o segundo para ar­rumos da fábrica da Sé; e o terceiro espe­cialmente para o cabido”
Com a devida vénia a Germano Silva


“A nova Casa do Cabido foi construída para substituir uma antiga que existia no claustro, junto da Capela de S. Vicente. Inserida no programa de transformações e construções levado a cabo pelo Cabido durante a Sede Vacante (1717-1741), a sua planta é atribuída ao arquitecto João Pereira dos Santos. É um dos melhores exemplos da persistência de uma arquitectura de tradição maneirista numa época em que se afirma uma linguagem barroca.
Uma bela escadaria, com balaustrada perspectivada, liga o claustro ao piso onde se encontra a Sala Capitular, a dependência mais importante da Casa do Cabido e onde permanece intacto o ambiente dos inícios de setecentos. Esplêndido espaço, enriquecido por um rodapé de azulejos do século XVIII, para a sua realização contribuíram artistas de renome dessa época: o entalhador Luís Pereira da Costa, autor de um retábulo e sete sanefas (1718/19); o pintor italiano Giovanni Battista Pachini, que executou as pinturas alegóricas dos caixotões do tecto (1719/20) e o escultor Domingos da Rocha, que fez o Cristo Crucificado (1719), ainda hoje no retábulo”.
Com a devida vénia a, doportoenaoso.blogspot



Casa do Cabido adossada à Catedral



Foi o historiador Artur Magalhães Basto quem descobriu os documentos que permitem datar a construção da actual Casa do Cabido, mas seria Flávio Gonçalves quem de posse daquela documentação, estruturou e deu a conhecer os factos mais relevantes.
Interessa saber, que Flávio Gonçalves (Póvoa de Varzim, 1929 - Porto, 1987) cursou letras, em Coimbra. Foi Etnólogo e investigador em Arqueologia, História da Arte e Iconografia Religiosa.
Entre 1959 e 1974, colaborou com o vespertino “O Comércio do Porto”, num Suplemento de Cultura, entretanto, formado.
Durante muitos anos, foi director do jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim” e, desde 1947 a 1971 colaborou na revista “O Tripeiro”, mormente com o trabalho “A construção da actual Casa do Cabido da Sé do Porto” (revista “O Tripeiro”, VIª série, anos IX e X).
Neste trabalho, Flávio Gonçalves dá a conhecer o trajecto da construção da Casa do Cabido da Sé do Porto.
Projectada e com contrato assinado em 1709, pretendia-se que substituísse uma primitiva edificação, em ruínas, localizada junto dos claustros e da capela de S. Vicente, mandada construir por D. Frei Marcos de Lisboa, entre 1582 e 1591.
Vários acontecimentos implicam que a nova Casa do Cabido fique pelo papel.
Em 1709, D. Tomás de Almeida, bispo de Lamego, é nomeado para o mesmo cargo para a cidade do Porto. Acontece que, o nomeado estava pela capital e vivia junto da corte, acabando, em 1716, por ser nomeado como o primeiro Patriarca de Lisboa.
O Porto vai ficar sem bispo e em sede vacante, entre 1717 e 1741.
Os cónegos não esperam mais e vão, então, iniciar a construção da Casa do Cabido. Aproveitam os desenhos existentes e deitam mãos à obra.
Nos anos seguintes a obra vai crescendo.

 
 

Sala Capitular da Casa do Cabido da Sé do Porto



Paço Episcopal 


D. Nónego (1025 a 1049) mandou fazer, no local onde hoje está o Paço, o primitivo Paço Episcopal que não passaria de um pequeno mosteiro onde, até D. Hugo (1113-1136), o bispo viveu com os monges em comunidade de bens. Sofreu, através dos séculos, vários restauros e ampliações. 
D. Frei João Rafael de Mendonça (1771 – 1793) mandou construir o actual Paço, porém, tendo falecido, não o pôde ver inaugurado. Na verdade, tão grandiosa obra, só ficou completamente terminada em 1870.




Antigo Paço Episcopal em gravura de Teodoro Sousa Maldonado em 1789



Janela e nicho – Ed. MAC



A janela e o nicho da foto anterior, dizem que é o que resta da primitiva residência do bispo do século XII.
O Palácio Episcopal é considerado um dos melhores exemplares da arquitectura civil portuense e impõe-se pelas suas proporções pouco habituais na cidade; no seu interior destaca-se a imponente escadaria única no seu género pela dimensão e ritmo do traçado. O actual edifício com origens no século XVIII de feição barroca, veio substituir um outro com raízes no século XIII, onde esteve hospedada D. Filipa de Lencastre, quando ao Porto veio para casar com D. João I.
Àcerca, da primitiva residência dos bispos do Porto existem poucas referências. Sabe-se, porém, que a partir de 1724 são feitas intervenções no anterior edifício e operam-se transformações profundas, uma vez que o palácio era considerado "antigo". Nelas participam Nicolau Nasoni, autor de uma planta, e Miguel Francisco da Silva, arquitecto responsável pelos trabalhos realizados em 1734, 37 e 38.
Até aos anos 70 as notícias são escassas sobre o edifício e só a partir de 1772, sendo bispo D. João Rafael de Mendonça (1771-93), é construído um novo edifício desde os alicerces, com a demolição prévia da anterior estrutura (segundo a opinião de alguns autores). Os trabalhos foram avançando e a conclusão da obra feita em Sede Vacante (ausência de bispo) de 1868 -1871.




Escadaria do Paço Episcopal – Ed. Isabel Silva






Lanternim e Tectos estucados – Ed. Isabel Silva



Foto do Paço Episcopal com aos danos visíveis a poente, após lutas liberais




Durante o Cerco do Porto o Palácio foi abandonado pelo bispo.
Já no século XX por razões diversas e até 1957 foi utilizado para vários fins. Com efeito, aí funcionou a Real Biblioteca Pública do Porto (o núcleo inicial foi constituído pela própria biblioteca do bispo, à qual foram anexados, entre outros espólios, diversos fundos monásticos que aí foram depositados) e, a partir de 1916, já na posse do Estado, os Paços do Concelho que aí permaneceram até 1957, sendo nesta data o edifício devolvido à diocese do Porto.
No dia 20 de Agosto de 1964, o administrador apostólico do Porto, entre 1959 e 1969, D. Florentino de Andrade e Silva, que vivia na Torre da Marca, passa a morar no Paço Episcopal, à Sé.
Tudo se tinha ficado a dever à ocupação do Paço Episcopal, entre 3 de Fevereiro de 1916 e 24 de Junho de 1957, para alojar provisoriamente a Câmara Municipal e, porque, o Bispo D. António Ferreira Gomes, tinha sido expulso por Salazar, depois de uma carta em que exigia mais liberdades democráticas para o povo português.




Palácio Episcopal



Jardim a sul do Paço Episcopal c. 1950 - Ed. CMP, Arquivo Histórico Municipal