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domingo, 9 de junho de 2024

25.244 Ramal de Leixões, ou Ramal de Matosinhos, ou Linha de Leça - Revisitado

 

Em 1884, os empreiteiros Dauderni & Duparchy, que tinham sido contratados para levantar os molhes do Porto de Leixões, construíram, em 1884, para a Companhia das Docas do Porto, uma linha ferroviária para o transporte de pedra desde as pedreiras de S. Gens até à zona do porto de abrigo, com bitola de 900 milímetros, a chamada Linha de S. Gens.
Em 1884, seria começada a construir a Ponte de Ferro ou Ponte do Comboio, para fazer chegar a pedra ao molhe norte.
Esta ponte tinha 60 m de comprimento e unia a zona da actual Rua Heróis de França (antes, Rua da Praia ou Rua João Chagas) em Matosinhos, à Rua da Praia em Leça da Palmeira.
A pedra destinada ao molhe sul ficava pelo estaleiro levantado junto do cruzeiro do Senhor do Padrão.
A pedra que começou por ter origem nas pedreiras de Aguiar (na margem direita do rio Leça), em Santa Cruz do Bispo, cedo esgotaria o seu stock, razão pela qual, se passou a recolher aquele material nas pedreiras de S. Gens (na margem esquerda do rio Leça).
A importância da exploração dos recursos das pedreiras de S. Gens foi de tal ordem que o Governo de Sua Majestade, em 1885, mandou edificar, nas proximidades do Monte de S. Gens, um barracão com serventia hospitalar para prestar assistência médica aos operários, que na pedreira trabalhavam, devido ao surto de cólera que tendia a alastrar-se no país.
Em tempos anteriores à retirada da pedra para a construção dos molhes do Porto de Leixões, podia observar-se um belo monte que tinha sido dotado de uma “atalaia” (vigia) e no seu cume de uma capelinha da evocação de Nossa Senhora de S. Gens e que, mais tarde, após uma remodelação, passou a evocar Nossa Senhora da Nazaré.
A instalação da atalaia tinha sido uma decisão de D. João II, em Agosto de 1484.
Hoje, face a anos e anos de retirada do granito das pedreiras de S. Gens, o terreno, nada mais é que uma enorme cratera, tendo desaparecido, como é óbvio, a referida atalaia e a capelinha.
Situado num ponto privilegiado, a 137 metros de altitude, deste Monte de S. Gens ou Monte de Custóias, como também era chamado, podia avistar-se uma vasta extensão em redor, pelo menos até à serra de Valongo.
Sobre a referida e desaparecida capela, dizia Pedro Vitorino, “poucos se lembrarão já do perfil imponente do seu vulto, rematado no alto por uma capelinha recolhida à sombra de dois enormes pinheiros mansos. (…) Atacado por máquinas e fendido por pólvora, aos migalhos, abriu-se em princípio e multiplicou escombros que afastaram as aprazíveis digressões”.
 
 
Sobre o Monte de S. Gens, Dorothy Wordsworth, filha do famoso escritor e poeta romântico inglês William Wordsworth descreve, na sua obra “Diário de uma viagem a Portugal e ao Sul de Espanha”, o local quando o visitou em 1845.
 
 
 
 
 





Em 16 de Novembro de 1891, foi publicada uma portaria que estabeleceria as condições para o arrendamento da antiga Linha de S. Gens, à Companhia do Caminho de Ferro do Porto à Póvoa e Famalicão.
A partir da conclusão da construção do Porto de Abrigo de Leixões, em 1892, a população de Matosinhos mobilizou-se na exigência do aproveitamento da linha para serviço público de transporte de passageiros e mercadorias até à estação da Senhora da Hora que pertencia à Linha da Póvoa de Varzim.
Em 6 de Maio de 1893, aproveitando a estrutura da Linha de S. Gens, iniciou-se, então, um serviço ferroviário de passageiros, tendo o transporte de mercadorias sido autorizado por uma portaria de 2 de Junho daquele ano. À Linha de S. Gens sucedia, assim, aquela que foi conhecida por Ramal de Leixões, ou Ramal de Matosinhos, ou Linha de Leça.
O Ramal de Leixões apenas seria encerrado no dia 30 de Junho de 1965, com o argumento que, por causa do seu traçado urbano, causava muitos acidentes na sua passagem pelas principais ruas de Matosinhos.
 
 
 
 
 
Percurso inicial do ramal de Leixões
 
 
 
Pedreiras de S. Gens



Saído das pedreiras de S. Gens o comboio atravessava, depois, a Senhora da Hora. 
Na foto abaixo, c. 1965, ainda antes do fecho da Linha de S. Gens, observa-se a locomotiva CP E167, no percurso longitudinal, na Linha da Póvoa (também servia, mais à frente a Linha de Guimarães), que terminou a sua actividade no depósito de Contumil, fazendo triagens e, antes da eletrificação da Ponte Dona Maria Pia, rebocou comboios da estação das Devesas até ao Porto.
A locomotiva CP E168, à esquerda, da Linha de S. Gens, encontra-se exposta no núcleo de Chaves no Museu Nacional Ferroviário.
A partir de 1947, e já sob gestão da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, a série foi renumerada, passando a letra “E” a designar a via estreita.



Estação da Senhora da Hora, c. 1965 - Foto de Wolfganger Schumacher




Arruamento entre a Rua da Barranha e a Avenida António Domingos dos Santos – Ed. Manuela Campos
 
 
 
 
Pelo arruamento (sem trânsito) da foto acima, passava, em tempos, o comboio do Ramal de Leixões vindo das pedreiras de S. Gens, depois de atravessar a Senhora da Hora, a caminho da zona da Vilarinha (na estrada da Circunvalação), tendo por destino final a foz do rio Leça, onde descarregava o granito que transportava e, depois, os veraneantes.


Comboio, no Ramal de Matosinhos, passando na Senhora da Hora




Para esse efeito, a primeira paragem era junto ao Monumento do Senhor do Padrão, onde descarregava a pedra que iria servir para a construção do molhe Sul, seguindo depois para Leça da Palmeira, onde descarregaria o restante granito, para levantamento do molhe Norte. Esta estação, como serviço de passageiros, tinha por destino as praias de Matosinhos.
Para a frente do local indicado na foto anterior, o seu trajecto coincidia, até à chamada “Rotunda dos Golfinhos” (próximo do Hospital Pedro Hispano), com o actual percurso do Metro.
 

 
 
Entre os pontos 2 e 3, o trajecto do comboio e do Metro é comum e, entre os pontos 1 e 3, corresponde ao arruamento entre a Rua da Barranha e a Avenida António Domingos dos Santos – Fonte: Google maps




Apeadeiro da Biquinha, antes de chegar à Vilarinha na Estrada da Circunvalação

 




À esquerda, a Quelha Vitório Falcão, por onde chegava o comboio à Estrada da Circunvalação (em frente ao teatro da Vilarinha) – Ed. Google maps
 


 

Estrada da Circunvalação após a passagem pela Vilarinha - Fonte: Google Maps
 
 
Pela parte do terreno elevado que se vê na foto acima, na margem da via, na confluência da Estrada da Circunvalação com a Praceta Dom Nuno Álvares Pereira, vindo da Vilarinha, passava o Ramal de Leixões.
 
 
 
 

Avenida Afonso Henriques - Fonte: Google Maps

 
 
Por onde está agora o portão, na foto acima, vinha o comboio da Circunvalação que se dirigia para o Senhor do Padrão.


 
 

Em frente, é a direcção para a Rua Afonso Cordeiro - Fonte: Google Maps
 
 
 
O arruamento central, da foto anterior, é a via por onde o trajecto do comboio se desenrolava e que desembocava no cruzamento com a actual Rua D. João I.


 

Vista aérea de Matosinhos sul
 
 
Legenda:
 
1. Rua Manuel Dias da Fonseca confluência com Rua Dr. Afonso Cordeiro
2. Rua D. João I
3. Rua Brito e Cunha
4. Cruzamento de Rua Brito Capelo com Rua Sousa Aroso
5. Rua Carlos Carvalho
 
Na vista aérea acima pode ver-se no terreno o sulco natural por onde passava o Ramal de Leixões, no local designado por “Diagonal”, vindo da Senhora da Hora e da Vilarinha.


 

“Diagonal” em Matosinhos Sul – Ed. José Magalhães (actualmente)
 
 
 

Passagem de nível na Rua Brito Capelo, no troço denominado de “Diagonal”
 
 
 


Foto actual do local da passagem de nível da foto anterior
 
 
 
A linha férrea saía da esquina mais próxima, à esquerda da foto e, em diagonal, dirigia-se pelo canal formado agora por dois blocos residenciais à direita no sentido da seta.
Presentemente, foi aproveitada a faixa de terreno público, da antiga linha férrea entre a Rua Afonso Cordeiro e o cruzamento da foto acima, para levantar um arruamento pedestre denominado “Broadway”.
 
 
 

Estação do Senhor do Padrão
 
 
 
Em 22 de Setembro de 1897, num descarrilamento acontecido no Senhor do Padrão, voltou-se uma carruagem de 2ª classe, tendo os passageiros que enchiam o comboio sofrido, apenas, pequenas escoriações e um grande susto.
 


 

Rua do Godinho, junto do Senhor do Padrão, em 1950


 
 

Locomotiva do Ramal de Leixões ou Ramal de Matosinhos, em manobras, em 1964, junto da capela do Senhor do Padrão, em Matosinhos

 
 
 
Percurso ferroviário final do Ramal de Leixões entre o Senhor do Padrão e o Forte da Senhora das Neves
 
 


Estaleiro para apoiar construção do molhe sul do Porto de Leixões, montado junto do Senhor do Padrão

 
Após a conclusão da construção dos molhes do Porto de Abrigo de Leixões, a linha ferroviária existente continuou em funcionamento até Leça da Palmeira, junto do forte de Nossa Senhora das Neves.


 

Comboio na Rua Heróis de França (Rua da Praia), junto da lota – Fonte: Vítor Monteiro

 

Estuário do rio Leça

 
 
Na foto anterior, vemos Leça da Palmeira, à esquerda, e Matosinhos, à direita, e a unir as margens, uma ponte pedonal, a Ponte de Pau ou Ponte de Madeira.
Mais para jusante, já na chegada do rio Leça ao oceano, foi levantada uma outra ponte, que ficou conhecida pela Ponte de Ferro ou Ponte do Comboio.
Para vencer o rio Leça, o comboio atravessava, então, a Ponte de Ferro vindo do apeadeiro do Padrão, junto ao Monumento do Senhor do Padrão, em direcção ao apeadeiro de Leça da Palmeira onde entrava pela Rua da Praia.
 
 
 
 
 

Ponte de Ferro ou Ponte do Comboio, em 1900
 
 
 
Na foto acima pode ver-se o pormenor de, ao fundo, sobre a esquerda, ainda ser visível o Senhor do Padrão.


 
 

Ponte do comboio com Matosinhos no horizonte

 
 

Ponte do comboio e casario de Leça – Fonte: Óscar Fangueiro

 
 
 

Ponte do Comboio com Leça da Palmeira em 1º plano - Ed. José Rodrigues


 
 
Quando foi necessário transformar o Porto de Abrigo de Leixões, num verdadeiro porto comercial, teve que se entrar em desaterros terra dentro, desapareceu a chamada ponte do comboio e o Ramal de Leixões ficaria por Matosinhos, no Senhor do Padrão, até à década de 60 do Século XX, transportando pessoas, em especial na época estival, com os banhistas a deslocarem-se para a praia a partir da Senhora da Hora.
 
 
 
 

Estação de Leça da Palmeira e, na sua frente, a torre de posto Semafórico - Ed. Estrela Vermelha
 
 
 

Comboio junto do Forte de Nossa Senhora das Neves
 
 
 
Já um pouco distante do estuário do Leça, por outra ponte icónica se desenvolveu a linha férrea do Minho e que é apresentada na foto seguinte.

 
 

Ponte ferroviária sobre o Leça (situada entre a Travagem e Ermesinde) - Ed. Emílio Biel

segunda-feira, 11 de março de 2019

25.37 Os linguadinhos do “Garrafão”


No dia 11 de Setembro de 1993 (um Sábado cinzento e triste), passava um pouco das 21 horas, quando o último Eléctrico da linha 19, com o nº 223, começou a percorrer a Rua Brito Capelo (ou a Rua dos Eléctricos, como era também conhecida), conduzido por José de Sousa, tendo como revisor, António Mendes Gonçalves.
O eléctrico referido, com o nº de renumeração 223, era um Brill 28, com plataforma salão.
Nos últimos anos em circulação, os eléctricos daquela série, eram os veículos em maior número.
Esta linha fazia o serviço entre a Boavista e Matosinhos.



Eléctrico da linha nº “19” junto ao Mercado de Matosinhos



O Eléctrico da foto anterior, do qual não se divisa o nº de renumeração, deverá ser um Brill 28, com plataforma salão, da mesma série do que efectuou o último percurso em Matosinhos.
Também naquele dia, terminou a linha nº “1”, entre Matosinhos (Mercado) e o Infante. Aliás, nem sequer chegou a circular todo o dia, naquele 11 de Setembro.


Eléctrico (“Belga”) na linha nº 1 deslizando c.1970 na Rua Brito Capelo e passando junto da Rua Tomaz Ribeiro - Cortesia Vítor Monteiro (FB)


Eléctrico na linha nº 1 (“Belga”) deslizando em 1979 na Rua Brito Capelo


Acontece que, devido à ampliação do porto de Leixões, os eléctricos já tinham deixado de circular, entre Matosinhos e Leça da Palmeira, em Março de 1960, quando tinham chegado àquelas localidades, em 1897 e 1898, respectivamente.
Este último trajecto começou por ser feito através da Ponte do Eléctrico que se situava no local onde hoje está a Ponte Móvel.
Aquela ponte foi levantada em 1887 e por ela passaram, primeiro, os carros “americanos”.


Ponte do Eléctrico entre Matosinhos e Leça da Palmeira


A Doca nº 1 (inaugurada em Julho de 1940) com o Mercado de Matosinhos já construído


Na foto anterior, à esquerda, já é visível o Mercado de Matosinhos, inaugurado em 1952, pelo que a foto será posterior a esta data.
A partir do levantamento da Doca nº 1, a ligação entre as margens do rio Leça por “Eléctrico”, passou a acontecer por terreno firme, adjacente ao limite a nascente da referida doca, o que levou à demolição da velha Ponte do Eléctrico.
O “Eléctrico” pôde, assim, continuar a servir Leça da Palmeira.


Doca nº 1 já construída onde ainda não é visível o Mercado de Matosinhos que seria levantado à direita (próximo términos da doca)


Perspectiva da praia de Leça da Palmeira, captada no local do término das linhas do elétrico, em 1952 – Cortesia de Vítor Monteiro (FB - "Imagens Antigas do Concelho de Matosinhos")


Término das linhas do elétrico com perspectiva inversa da foto anterior c. 1960


Na foto acima é possível observar o local onde terminava a viagem dos eléctricos que demandavam Leça da Palmeira. À esquerda, o prédio do “Hotel Golfinho” que ardeu e já não existe, e a meio vê-se o prédio que seria ocupado alguns poucos anos depois pelo restaurante “Garrafão”.


Perspectiva actual da foto anterior com o prédio que foi ocupado pelo restaurante novamente devolvido apenas a residência – Fonte: Google maps


Restaurante Garrafão - Fonte: Américo de Castro Freitas


Restaurante Garrafão


Foi o “Garrafão” um dos mais icónicos restaurantes de Leça da Palmeira, instalado num prédio do século XIX e que ficou célebre pelos seus linguadinhos fritos, panados com ovo e pão ralado, acompanhados por açorda de marisco.
No início da década de 60 do século XX o restaurante ocupou instalações perto da “Capela do Ruas”, ou Capela do Sagrado Coração de Jesus” funcionando ainda como mercearia, com João Rufino Pinto e esposa, Maria Amélia Pinto, ao leme do negócio.


Capela do Sagrado Coração de Jesus ou Capela do Ruas na Rua António Nobre em Leça da Palmeira


Depois, as instalações, em Novembro de 1963, passaram para as que são apresentadas nas fotos vertentes, com vista para a praia e adjacente à Avenida da Liberdade – um prédio de r/c e 1º andar.
No r/c funcionava a cozinha, a despensa, a garrafeira e o restaurante.
O 1º andar servia de habitação.
Entre 1978/80 ostentou a estrela Michelin, tendo encerrado definitivamente após o falecimento da proprietária há cerca de dez anos.
Voltando ao tema que vínhamos desenvolvendo, diga-se que, a partir de Março de 1960, para possibilitar a construção da Doca nº 2, os eléctricos deixaram, para sempre, de chegar a Leça da Palmeira e, a partir daquele dia 11 de Setembro de 1993, abandonariam o Concelho de Matosinhos para sempre, ao fim de mais de um século de relevantes serviços prestados às populações, depois do “Americano” e da “Máquina” o terem também feito.
No caso do “Eléctrico”, ele foi o substituto, de facto, do transporte conhecido por “Americano” que tinha chegado a Matosinhos, em 1873.
Ambos deslizavam em carris e percorriam o mesmo trajecto ao longo da Rua Brito Capelo.


Carro americano no Porto na Praça D. Pedro – Ed. Aurélio da Paz dos Reis


Sobre o transporte conhecido por “Americano” é o texto que se segue, com alguns excertos de «A Formosa Lusitânia», da autoria de Lady Jackson, obra que seria traduzida por Camilo Castelo Branco e no qual a escritora dá conta das peripécias vividas numa viagem de “americano” a Matosinhos.

“Em 1873 veio ao Porto Lady Jackson, uma inglesa bastante atenta a tudo, e que não deixa de experimentar os carros “americanos”: «São extremamente cómodos; percorrem as duas milhas que medeiam entre o Porto e este Arrabalde (a Foz) quase no terço do tempo que leva ordinariamente uma carruagem de aluguer. O preço da passagem é seis vinténs. Os carros são espaçosos e arejados, sem sol nem poeira: toda a gente os frequenta. Começaram a circular no ano passado, segundo me dizem, e têm tido grande êxito.
Alguns destes americanos param na Rua dos Ingleses (actual Infante D. Henrique), na parte mais baixa da cidade, enquanto que outros levam os passageiros «acima», ao topo do monte, perto da Misericórdia.
Vale bastante a pena de seguir para este último ponto; a rampa é tão forte que duas ou três vezes vi senhoras apearem e preferirem caminhar ao sol e ao pó, com medo de que os carros se despenhassem. Mas tal acidente nunca se deu» …
Lady Jackson refere-se à Rua da Restauração, por onde subia o “americano” desde o cruzamento de Massarelos até ao Jardim da Cordoaria, “onde uma nuvem de poeira” avisa que o «americano» está a chegar.
A jornada de Matosinhos até à parte superior da cidade termina à entrada deste jardim.
Espera-o muita gente. Vem completamente cheio, mas tão depressa descarrega a sua carregação de banhistas da Foz, que se enche de imediato e parte» …
… «A estrada da Foz segue junto ao rio e na maior parte à sombra de altas e frondosas árvores».
«É uma estrada cheia de vida; assim tivesse menos pó, que forma sobre ela uma nuvem contínua, em consequência do trânsito constante dos carros de bois, passando e repassando, de cavalgaduras, de pequenos carros de cortinas com gente da província, ou banhistas que não chegaram a tempo ou não acharam lugar nos «americanos».
De dez em dez minutos, ou de quarto em quarto de hora, passa um destes “americanos” com grande rapidez, correndo docemente pelos rails».
Não se esquece de nos dizer que em Massarelos se juntam «mais duas guias» para os carros que vão “acima ”- refere-se ao reforço de mais uma parelha de mulas – eram os «sotas» usados em todas as ruas inclinadas.
Depois da Foz, «o americano que conduz a primeira carrada de banhistas, segue depois para aquela formosa vila, ou povoações gémeas (Matosinhos e Leça) que distam da Foz milha e meia»
… É de uma beleza contínua quanto se avista em todo o comprimento da estrada» …
… O estrídulo tinir da campainha avisa os habitantes de Leça e Matosinhos que o «americano» vai largar. Regresso no mesmo à Foz, sigo até à Cordoaria e retrocedo; deste modo passeio todas as manhãs oito ou nove milhas, que se andam em hora e meia, por dois shillings-de um cabo a outro, percorrendo o cenário sempre novo e sempre encantador do Majestoso Douro e das alpestres ribas para além da Foz» …
… Algumas vezes cheguei ao carro no momento em que partia, já todo ocupado.
O condutor abria a porta e dizia: «uma senhora quer entrar» -imediatamente, erguiam-se 3 ou 4 cavalheiros, e eu sentava-me no lugar do sujeito mais próximo, o qual, cortejando-me, saía para fora. Um inglês decerto não se levantaria para que uma mulher se sentasse no seu lugar; e provavelmente, quando as portuguesas, lá no futuro, se emanciparem…»”
Fonte: leca-palmeira.com


Por sua vez, a “Máquina”, era um transporte que usava a energia do vapor (era um pequeno comboio) que circulava pela Rua de Roberto Ivens e partia da Boavista, passando por Cadouços e que chegou a Matosinhos em 1882.


Rua Juncal de Baixo (Rua Roberto Ivens) em 1905 com os trilhos da “Máquina” bem visíveis – Ed. Alberto Ferreira – Praça da Batalha


Perspectiva actual da foto anterior - Fonte: Google maps



Bilhete de 10 cêntimos de ida e volta na “Máquina” da Boavista a Matosinhos – Fonte: Os Velhos Eléctricos do Porto


Fora ter sido servida pelos eléctricos, Leça da Palmeira haveria de ser servida também por um outro comboio, que não aquela “Máquina”.


Comboio e “Eléctrico” cruzando-se em Leça da Palmeira - Fonte: Os Velhos Elétricos do Porto


A foto anterior é de um local que dista cerca de 50 metros do Forte de Nossa Senhora das Neves que ficará para a esquerda do enquadramento.
A ligação ferroviária a Leça da Palmeira seria, assim, resultante de um aproveitamento duma via de um outro transporte ferroviário, que tinha sido usado antes, para a movimentação da pedra para construção dos molhes do porto de Leixões.
Para isso, foi feita a chamada Ponte de Pedra ou Ponte do Comboio, mesmo na foz do antigo rio Leça.


Ponte do Comboio e venda de sardinha em Matosinhos


Acabada a construção do Porto de Abrigo, a via daria então lugar ao Ramal de Matosinhos ou Linha de S. Gens, servindo o transporte de pessoas que no seu trajecto, em Matosinhos, a partir do Senhor do Padrão, percorria o que é hoje a Rua de Heróis de França,  que antes da construção dos molhes, era uma frente de mar.
Como curiosidade, aponta-se que o “Eléctrico” e a “Máquina” no seus percursos para Matosinhos se cruzavam para os lados do Castelo do Queijo.
A situação é explicada mais abaixo, na planta da área em causa.


Trajectos da “Máquina” e do “Eléctrico”

Legenda:

- O percurso a azul era executado pela Máquina rolando em Matosinhos pela Rua Roberto Ivens, e o assinalado a preto pelo Eléctrico e, antes deste, pelo “americano”, servindo-se da Rua Brito Capelo.
- Entre os pontos 5 e 1 a máquina rolava na Rua de Gondarém e a partir daí (aproximadamente entre o chalet do Andresen, situado na estrada de Carreiros e o chalet do engenheiro António da Silva, situado na Rua de Gondarém) até ao Castelo do Queijo, inflectia na direcção do mar, cruzando-se com a linha do eléctrico um pouco depois de passar à porta do chalet de José Augusto Dias.
- Por sua vez o “Eléctrico” ou o “americano” fazia o percurso na estrada de Carreiros (Avenida Brasil) aproximando-se do Castelo do Queijo pela Rua do Castelo (Avenida de Montevideu).
- O ponto 3 dá a localização aproximada da Capela de Santo Amaro


Cruzamento da linha a vapor (à esquerda) com a do eléctrico (à direita) ao fundo estará o Castelo do Queijo


Deve referir-se que o traçado da Rua de Gondarém, à época, não confluía ainda com a Avenida da Boavista, pois, esta só seria aberta, entre a fonte da Moura e a frente de mar, no início do século XX.


O “Eléctrico”, nº 35, vindo de Matosinhos, passando c. 1900, junto do palacete Andresen na Estrada de Carreiros


Os “Eléctricos” do modelo da foto acima foram dos primeiros a aparecer em circulação.
Começaram como carros “Americanos” sendo posteriormente  motorizados, em finais do século XIX.
Tinham 18 lugares sentados e bancos de ripas de madeira e os passageiros viajavam de costas para as janelas devido à disposição longitudinal dos bancos (Modelo “Risca ao meio”).
O veículo idêntico, do mesmo modelo da foto anterior, com o nº 22, foi recuperado e hoje está no museu dos STCP.


No Porto restam apenas três linhas de eléctricos: 

O “18”, entre o Carmo e Massarelos;
O “1” que liga o Infante ao Passeio Alegre;
E o “22” que parte do Carmo, terminando na Rua Augusto Rosa (Batalha), junto da entrada para o Funicular dos Guindais.
Hoje em dia, muitos continuam a defender um regresso do eléctrico a Matosinhos, tendo por destino final o Senhor do Padrão e passando a servir, assim, o terminal de cruzeiros onde chegam anualmente c. 100.000 visitantes.
Aquela “Linha 18”, primitivamente, ligava a Praça da Liberdade a Matosinhos.
Um primeiro troço desde a Praça da Liberdade à Boavista era realizado por eléctrico e num segundo, da Boavista a Matosinhos entrava em acção a “Máquina” com passagem por Cadouços. Encerrou em 1914, para sempre.
Importa dizer que quando foi introduzida a tracção a vapor entre a Boavista e a Foz, em 1878, durante os primeiros anos, houve uma operação mista com tracção a vapor durante o período de Verão e tracção animal durante o período de Inverno e na noite durante o verão.
Em 1882 a linha foi estendida da Foz (Cadouços), via Rua de Gondarém, para Mattosinhos, que passaria a escrever-se só com um “t” em 1909 mas, curiosamente, ganhou o “z” (Matozinhos).