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sexta-feira, 16 de abril de 2021

25.119 Passeando nas cercanias da Ramada Alta

 1. Do Monte Cativo às Águas Férreas
 
(O texto que se segue, relativo ao percurso acima referido é, em grande parte, baseado no Blogue “ A Vida em Fotos” e uma homenagem à memória daquele que foi o seu administrador - JPortojo)
 
O perímetro Marquês, Antero de Quental, Serpa Pinto e Constituição e para Sul entre S. Brás e Monte Cativo, está todo alterado, de há uns anos a esta parte, com novas ruas e zonas habitacionais.



Rua Damião de Góis – Ed. JPortojo

 
Seguindo pela Rua Damião de Góis (a nova ligação que une as ruas de João Pedro Ribeiro e Egas Moniz) na direcção do Marquês e, metendo à direita, entramos na Rua Alves Redol.
 
 

Um olhar sobre a cidade com o mar à direita – Ed. JPortojo


 

O alto das novas zonas residenciais – Ed. JPortojo


 

Centro Cultural dos trabalhadores da CMP – Ed. JPortojo
 
 
O edifício da foto é, actualmente, o Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da C. M. do Porto. Estamos no velho Monte Cativo.
Por aqui, ainda no fim do século XIX e início do século XX, estava sedeado o Clube de Caçadores.


 

A sede do Clube de Caçadores

 
O postal anterior apresenta a sede do Clube de Caçadores ao Monte Cativo.


 

Clube de Caçadores em 1909, durante visita de D. Manuel II




Monte Cativo que é topónimo muito antigo:

“Era um dos limites do couto do Porto, mencionados na carta da rainha D. Teresa, de 1120; «...até ao monte que chamam Pé de Mula, assim pelo Monte Cativis, assim como divide Cedofeita com Germinade...». Pelo menos até ao século XVII manteve esta forma alatinada de Monte Cativis com que figura nos registos paroquiais, designadamente num assento de 1682”.
Assim refere Eugénio Andrea de Cunha e Freitas.
 
Segundo a Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora, Germinade vem do latim Germinati e tem a variante Germalde. 
Germalde é hoje o Monte da Lapa.
 
 

A antiga Tutoria vista do Monte Cativo – Ed. JPortojo


 
Ali próximo, entroncamos com a Rua do Monte Cativo que ainda vem da Rua da Constituição, mas é pelas Escadas do Monte que nos deslocamos (situada em frente ao referido Centro Cultural). Com uma vista por sobre a antiga Tutoria até à Rua da Boavista.


 

Escadas do Monte Cativo e Fontanário na Rua do Melo – Ed. JPortojo


 

Atravessando a Rua do Melo temos o antigo Palacete dos Sousa Melo e a propriedade por onde esteve  a velha Tutoria – Ed. JPortojo
 
 
As Tutorias da Infância foram criadas em 1911 por Alberto de Sousa Costa, bacharel da Universidade de Coimbra mas é o padre António Oliveira que a convite de Afonso Costa elabora a lei publicada por Decreto de 27 de Maio de 1911. 
No entanto, já em 1902, existia uma Casa de Correcção do Porto, mas no Convento de Santa Clara em Vila do Conde. 
 
 

A Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo
 
 
Presume-se que a ex-Tutoria está nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas ou Quinta de Santo António da Boavista, que em 1760, pertencia a Jo­sé de Sousa Melo. Após a morte deste herdou a propriedade um sobrinho de nome João de Mello e Sousa da Cunha Souto Mayor que viria a ser o 2º conde de Veiros, por via do seu casamento com a filha do 1º conde de Veiros e, daí, uma outra designação que se dava a esta propriedade - Quinta de Veiros. 




Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo


 
Esta Quinta das Águas Férreas foi pertença de José de Sousa e Melo e assim chamada por ter lá existido uma fonte de água medicinal que se dizia ser medicinal de origem ferrosa.
Este senhor, para além de tesoureiro-geral da Alfândega do Porto foi Vice-provedor da Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto Douro, Administrador dos Correios do Porto, Inspector das Obras do Edifício da Academia da Marinha e Comércio, Vereador da Câmara do Porto e Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
A Quinta de Santo António da Boavista pas­sou por várias vicissitudes. Em 1809, aquan­do da segunda invasão francesa, serviu de re­sidência e de quartel-general do general in­glês Nicolau Trant que comandou as tropas anglo-lusas. Após a expulsão dos franceses do Porto, José de Sousa Melo voltou para a sua residência, mas só esteve até 1832, ano em que D. Pedro IV entrou na cidade à frente do Exército Libertador.
Sousa Melo que era mi­guelista saiu do Porto, indo refugiar-se numa propriedade que possuía na Régua. 
Abandonada pelo seu proprietário, a Quin­ta das Águas Férreas foi ocupada pelos libe­rais que nela montaram o paiol da pólvora, que seria mudado, logo a seguir, para a Quinta do Prado do Bispo (a partir de 1855, o cemitério do Prado do Repouso), junto ao rio Douro e, depois, o paiol iria ser transferido para o Monte Pedral.
Na Quinta das Águas Férreas funcionou no seu arranque o Asilo de Mendicidade. 
Em 1861, foi lá instalado o Hospi­tal Militar e, em 1857, funcionava lá, o célebre Colégio de Nossa Senhora da Guia. 
Por aqui, existiu também a quinta chamada Quinta dos Tortulhos, que os liberais sequestraram em 1833, porque pertencia a José Joaquim Machado que lutou ao lado das tropas miguelistas. 
Outra grande propriedade destes sítios foi a Quinta dos Limoeiros, onde esteve instala­do o colégio Moderno, de raparigas, que para aqui veio das antigas e modestas instalações da Rua da Boavista.
Hoje, podemos situar aquela quinta, de onde se avistava então o mar, na área ocupada pelo liceu Carolina Michaelis.

 
 

O Monte da Lapa ou Germalde – Ed. JPortojo

 
Na foto anterior, nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas, um olhar para o Monte da Lapa, com a sua Igreja construída de forma que fosse visível de qualquer local da cidade.
Atravessada a linha do Metro, encontramos o Conjunto Habitacional da Bouça.
 
 
 

Bairro da Bouça
 
 
Este Bairro da Bouça, na Quinta de Santo António, começou a ser projectado logo a seguir à revolução de Abril, mas só foi completado 30 anos depois. A obra é de Siza Vieira.
 
 
Casa da Pedra – Ed. JPortojo
 
 
Em frente ao Bairro, na agora pequena Rua das Águas Férreas, encontramos a Casa da Pedra, propriedade particular, onde residiu o escritor Oliveira Martins enquanto dirigiu a construção do Caminho de Ferro da Póvoa e Famalicão.  Fez parte da Geração de 70, mais tarde "Os Vencidos da Vida".
“A Questão Coimbrã”  foi o tema. Aqui se reunia o Grupo dos 5 (Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins e Antero de Quental). 
Antero de Quental tinha na casa um quarto onde pernoitava muitas vezes, e onde tentou o suicídio pela primeira vez, tendo sido impedido pelo Oliveira Martins.
 
 
 

Marco toponímico – Ed. JPortojo
 
 
Na esquina da casa encontra-se ainda um antigo marco toponímico. 
A Rua das Águas Férreas vai dar à  Rua do Melo, que por sua vez se encontra com a Rua de Burgães e entronca, também, na ainda existente Rua de Salgueiros, que é hoje uma pequena parte do que foi outrora e, cuja continuação, é a nova Rua de Cervantes.
 
 
 
Imagem do Google da zona dos Montes Cativo e da Lapa – Fonte: JPortojo


Nas Águas Férreas, localizavam-se duas icónicas fontes - a Fonte das Águas Férreas e a Fonte do Ribeirinho - indicadas na planta de Telles Ferreira de 1892



Se, na nossa caminhada, voltássemos ao Centro Cultural dos trabalhadores da CMP, no Monte Cativo, e seguíssemos para nascente pela Rua de Alves Redol, até encontrar a Rua de Cervantes (antiga Rua de Salgueiros), pisaríamos terreno identificado antigamente como Salgueiros (onde se localizou a Fábrica de Fiação e Tecidos de Salgueiros) e, até à Lapa, apreciaríamos todo um espaço amplo e bucólico, que começou a ser transformado com a construção de alguns blocos habitacionais.
Aquele espaço, situado a nascente da Rua do Melo e que se estende até à Rua de Cervantes confinará, a poente, com terrenos que foram outrora da Quinta das Beldroegas, onde se juntavam o manancial de água que nascia em Salgueiros (manancial de Salgueiros) e o manancial que vinha de Arca d’Água e, que, juntos se dirigiam para o Largo Alberto Pimentel e, depois, para a Praça dos Leões.


 
 

Entrada da Quinta das Beldroegas, na Rua do Melo, nº 6, com o portão encimado pela pedra de armas da família Lemos e Vieira – Fonte: Google maps
 
 
 

Localização da Quinta das Beldroegas - Fonte: Planta de Telles Ferreira de 1892

 
 

Vista de Salgueiros, a partir da Rua Alves Redol, antes de intervenção



 

Vista obtida, a partir da Rua de Cervantes, sobre a área a intervencionar
 
 
 
Em 7 de Dezembro de 2024, após uma intervenção de parte da área traseira e  adjacente à Quinta das Beldroegas,  envolvente, também, a uma nova unidade hoteleira, foi inaugurado  um parque urbano –  Parque Dr. Mário Soares, durante as comemorações do centenário do seu nascimento.
Na execução do projecto, atendeu-se ao percurso do manancial de Salgueiros, que passa naquele local e que foi colocado à vista. Aqui, aquele manancial  une-se a um outro vindo de Arca d'Água, seguindo o caudal resultante dessa junção para o centro da cidade que, em tempos, a abasteceu.
Estarão ao dispor da população 17.000 m2, sendo que 14.500 foram oferecidos pela “Mercan Properties”, investidora no hotel, à autarquia.
 
 
 

À esquerda, a Rua de Cervantes e, em frente, o novo hotel



Chegada do manancial de Salgueiros ao Parque Dr. Mário Soares - Ed. Graça Correia



Percurso do manancial de Salgueiros pelo Parque Dr. Mário Soares - Ed. Graça Correia






 
 
 
Junto do fontanário, ao fundo das Escadas do Cativo, poderemos, em alternativa, derivar para a Rua de Burgães e iremos sair umas centenas de metros à frente, à Ramada Alta. O topónimo Burgães, de provável origem francesa, significa arrabalde ou lugar pequeno junto a uma vila e aparece já, em 1715, referido em emprazamento feito à colegiada de Cedofeita.
Não se sabe ao certo a origem do topónimo Ramada Alta.
Sabe-se que, existiu aí uma quinta denominada de Quinta da Ramada Alta, da família Barros Lima, cujo patriarca era José Pedro de Barros Lima, que nada tem que ver com um  Francisco José Barros Lima, que daria o nome a uma rua ao Bonfim.
José Pedro Barros de Lima, nasceu em Refóios do Lima, Ponte de Lima em 1790.
Morreu no Porto, na Quinta da Ramada Alta (Cedofeita), a 24/10/1847, com testamento feito na Rua 9 de Julho, a 5/10/1847, quando já era viúvo de Ana Margarida da Graça, com a qual teve cinco filhos.
José Pedro Barros de Lima era também exportador de vinhos, e como tal aparece já, em 1818, enviando vinho do Douro para a Bahia, e de novo em 1827, exportando 13 pipas de vinho para o Brasil.
Em 1834, é um dos subscritores da carta dos negociantes do Porto agradecen­do a D. Pedro IV a revogação dos privilégios da Companhia do Alto Douro.
A cons­trução de uma casa na “Quinta da Ramada Alta, Rua 9 de Julho”, da iniciativa de José Pedro Barros Lima, terá ocorrido  em 1841. Até então, tinha vivido nos Guindais de Baixo (Cais dos Guindais), local onde consta que, desde 1834, tinha armazéns para o seu negócio e para onde, em 1845, dois anos de falecer, tinha solicitado à Câmara do Porto a devida licença para a construção de um prédio. 
Um dos filhos de José Pedro de Barros Lima, nascido em 1817, terá o mesmo nome de seu pai, mas fará a sua vida em Lisboa, onde seguiu a carreira política, tendo sido Governador Civil do Distrito de Castelo Branco (1860-1861), Par do Reino, e Conselheiro Real.
Foi accionista da Companhia de Viação Portuense que teve, por decisão régia, o alvará da ligação terrestre do Porto a Braga.
 
 
 

Vista do Porto desde a Ramada Alta - Desenho de Cesário Augusto de Araújo Cardoso de Mendonça
 
 
 
No desenho acima temos uma vista da cidade, tomada do mirante da casa de José Pedro Barros Lima, na Ramada Alta. É a única gravura que conhecemos que mostra o Porto de Norte para Sul e longe do Douro. Lugar privilegiado em que aparece a Colegiada de Cedofeita (à direita) os Conventos de S. João Novo e de S. Bento da Vitória, a Igreja da Vitória, o Hospital de Santo António, a Torre dos Clérigos, a Igreja de S. Lourenço (Grilos e a Sé). Ao fundo, do lado esquerdo, parece ser a Serra do Pilar e, à direita a Capela de Santa Catarina.     
Ao Largo da Ramada Alta onde está uma capela no seu meio, vão dar, a Rua de Burgães, a Rua de Nossa Senhora de Fátima, a Rua 9 de Julho, a Rua de Serpa Pinto e a Rua de Barão Forrester.
A Rua de Nossa Senhora de Fátima foi, em tempos, a Rua das Valas. Nasceu de uma tortuosa e estreita Viela das Valas que teve existência desde 1835 e que descia do lugar da Falperra, nome anterior da Ramada Alta, até ao sítio do Bom Sucesso.
O sítio das Valas já é referido em 1731, "defronte da capela do Bom Sucesso", num auto de vistoria e, por isso, não tem nada a ver com balas de lutas do Cerco do Porto, acontecido só em 1832/33.
A Rua 9 de Julho, que antes foi Rua da Ramada Alta, existe em memória do dia, em 1832, em que D. Pedro IV passou por lá, depois de desembarcado nas praias de Pampelido.
Antigamente, ia-se para o Carvalhido (antes da abertura da Rua Oliveira Monteiro em 1868) pela actual Rua 9 de Julho.
A Rua Oliveira Monteiro ficou conhecida pela “Estrada do Carvalhido à Boavista”.
Aquando do levantamento da Praça da Boavista, em 1872, depois de arranjos nas imediações dela e da abertura da nova “Estrada do Carvalhido à Boavista”, cujo traçado foi aprovado em sessão da Câmara de 1871, já surge na respectiva planta a denominação de Rua das Balas, que ia para a Ramada Alta, confinando, a sul, com terrenos de Margarida Constança Ribeiro e França.
A partir de 20 de Agosto de 1942, a Rua das Valas seria, finalmente, a Rua Nossa Senhora de Fátima.



 

Perspectivas idênticas obtidas sobre a Rotunda da Boavista, a partir da Rua Nossa Senhora de Fátima,  em 1949 e 2022, respectivamente. Na mais antiga, observa-se que o monumento comemorativo da Guerra Peninsular ainda está em obras, pois só seria inaugurado em 1951 



No início do séc. XIX, a Falperra foi escolhida, por razões que se desconhecem, como bairro dos pescadores de Ovar que para aqui imigraram, bem como, para a Afurada e Ouro. Estes vareiros portuenses passaram a ser conhecidos como vareiros do Carvalhido e, a Falperra, englobando a Rua 9 de Julho era um bairro de mercadores de peixe e mariscos, que se organizavam em ranchos como devotos do Senhor da Pedra quando se deslocavam à romaria gaiense.
A Rua 9 de Julho ao chegar ao Carvalhido apresenta um cruzeiro chamado, o Senhor do Padrão, paragem de caminhantes que demandavam Viana ou a Maia.
 
 
 

Senhor do Padrão com Praça do Exército Libertador (Carvalhido), ao fundo

 

Carvalhido, em 1930


 
Por outro lado, a Rua Barão de Forrester, que deve o seu topónimo ao barão de Forrester que por lá teve a sua residência e que, até fins do século XIX, foi continuação de Cedofeita.
O local fazia parte do antigo Sítio do Ribeirinho, nome que tomou por aí passar um pequeno regato que corria ao longo de várias quintas: a Quinta das Águas Férreas dos Sousas e Melos, viscondes de Veiros; a Quinta da Pedra onde viveu no séc. XIX Oliveira Martins; a Quinta dos Tortulhos ocupada pelos liberais em 1833 ao miguelista José Joaquim Machado; a Quinta dos Limoeiros onde esteve o Colégio Moderno; e outras.
O grande ex-libris do Largo da Ramada Alta é, todavia, sem dúvidas, a sua Capela do Senhor da Agonia que tem como orago o Senhor do Calvário. É um templo modesto que, em 1838, beneficiou de obras de restauro e ampliação, que foram financiadas tais como a edificação da torre sineira por um cidadão espanhol de nome António Miguel Garcia que tem o seu retrato pintado a óleo no interior da capela e uma lápide na frontaria. A Capela da Ramada Alta, como é conhecida, ficava num dos caminhos percorridos pelos romeiros que desde a Torre de Pedro Sem se dirigiam sobretudo às festas da Senhora da Hora, em Bouças (Matosinhos), depois de passarem por Ramalde.
Em 28 de Maio de 1907, D. Carlos concedeu-lhe o título de "Capela Real".


 

Capela do Senhor da Agonia, em 1960
 
 
 
Na foto acima, a placa ajardinada, atrás da capela, já não existe, bem como o edifício, ao fundo, à direita.
A Ramada Alta foi ainda um posto de barreira para cobrança do “ Real de Água” desde 1836, quando o governo decidiu colocá-los em redor da cidade em locais estratégicos tais como Massarelos, Pena, Vilar, Bom Sucesso, Valas (Nossa Senhora de Fátima), Carvalhido, Águas Férreas, Salgueiros, Sério (Antero de Quental), Aguardente (Marquês), Congregados (Rua da Alegria), Doze Casas, S. Jerónimo (Santos Pousada), Bonfim, Corticeira, Campanhã e Guindais.
Ainda nas imediações da Ramada Alta, a Rua de Serpa Pinto foi rasgada entre 1837 e 1844, a fim de ligar a Ramada Alta e o Matadouro Municipal.


 
 

A Ramada Alta nos começos do século XX vendo-se, ao fundo, à esquerda, a igreja da Lapa – Fonte: JN


segunda-feira, 18 de março de 2019

25.38 Deambulando entre a Ramada Alta e o Carvalhido


Capela do Senhor da Agonia, ou do Senhor do Calvário, ou Capela de Nossa Senhora das Dores na Ramada Alta





O sítio da Ramada Alta tomou a denominação de uma quinta que ali existia, pertencente, em meados do século passado, à família Barros Lima.
José Francisco de Barros Lima foi um negociante portuense e um dos heróis do Movimento Vintista que eclodiu em 1820, no Porto, e se traduziu na revolta contra a presença dos interesses britânicos em Portugal.
Este sítio, que também se chamou “Falperra”, fazia parte integrante dos caminhos de Santiago e era também percorrido pelos romeiros que tinham por destino as festas da Senhora da Hora e do Senhor de Matosinhos, com passagem pela Rua de 9 de Julho (antiga Rua da Ramada Alta) e tendo por primeiro destino o Carvalhido.
Alguns metros antes, naquela estrada, paravam no cruzeiro denominado o Senhor do Padrão, na esquina das ruas 9 de Julho e Nova dos Arcos (actual Rua Freire de Andrade), que ainda existe, mas transladado para a sua nova morada,  na década de 1980.




Em destaque, a primitiva Capela de Passos do Caminho de Santiago, na planta de Telles Ferreira de 1892





Cruzeiro do Senhor do Padrão, na Praça do Exército Libertador,  no seu novo local de instalação




Como se apercebe, na base envolvente ao cruzeiro existe uma chapa com uma legenda, que pretende homenagear os caminhantes:
"Louvado seja os tempos de valores virtude lizura ozeas. MDCCXXXVIII 1738".
Este cruzeiro, até ao ano de 1980, esteve implantado na Rua 9 de Julho, a cerca de 50 metros do actual local.




“O Cruzeiro do Senhor do Padrão foi erigido em 1738, assinalando a antiga estrutura viária desta zona da cidade do Porto, por onde passava o caminho que se dirigia ao norte da Península, nomeadamente a Santiago de Compostela. O cruzeiro testemunha, também, um tipo característico de religiosidade de caminhos, uma vez que, na sua aparente ingenuidade, simboliza um dos valores religiosos mais importantes da vivência religiosa exterior da época barroca.
Quando o espaço abrangente se urbanizou, com a construção de habitações e a abertura dos eixos viários que confluem para a Praça do Exército Libertador, o cruzeiro foi rodeado e protegido por uma estrutura quadrangular, com faces azulejadas e portão de acesso ao recinto.
No ano de 1993 o Cruzeiro do Senhor do Padrão foi classificado como de interesse municipal, e em 2000 a autarquia portuense restaurou a estrutura e devolveu-lhe a feição primitiva, colocando na base da mesma uma placa comemorativa que assinala a intervenção.”
Cortesia Catarina Oliveira (DGPC)



Rua de Oliveira Monteiro engalanada para os festejos do Senhor do Padrão e dos Aflitos em 1996


Desde há longa data, no terceiro fim-de-semana de Julho, realizam-se os tradicionais festejos em honra do senhor do Padrão e dos Aflitos.
No século XIX, os romeiros que demandavam a festa da Senhora da Hora, tomavam o caminho que seguia pela Rua de Cedofeita, passando pelo Ribeirinho (onde se juntavam os mirones a assistir à passagem, sentados em cadeirinhas, algumas de aluguer) para chegarem ao Carvalhido, pela Rua 9 de Julho. Em seguida, tomavam a  estrada que ligava a Francos e rumavam à ponte medieval que atravessava (e, continua a atravessar) a já formada Ribeira da Granja, em Ramalde do Meio. Seguia-se o Viso e chegavam às Sete Bicas.
Este caminho era também usado para os romeiros demandarem as festas do Senhor de Matosinhos, mas, neste caso, existia uma outra alternativa, pela qual, após ser alcançada a Rua de Serralves, próximo à igreja de Lordelo do Ouro, depois de percorrida toda ela, se chegava a Matosinhos pela Rua da Vilarinha.
Os arraiais duravam três dias e pelo caminho os romeiros tinham outros dois, de ensaio, à passagem – Ramada Alta e Carvalhido – tendo à disposição o vinho verde tirado das pipas, o pão-de-ló (roscas, cavacas, “bolinhos de Penafiel”, “doces de gema”) e o afamado “doce de Paranhos”. O peixe frito e as espetadas acompanhavam sempre o verdasco e as vendedeiras apresentavam para venda, em cestos, a fruta da ocasião.
Os romeiros faziam o percurso para a festa da Senhora da Hora (que ocorre nos nossos dias, 40 dias após a Páscoa) e para a festa do Senhor de Matosinhos (que ocorre, hoje, 52 dias após a Páscoa), tendo à sua disposição arraiais de passagem na Ramada Alta e nos largos do Carvalhido e da Prelada.


“Foi ontem o primeiro dia da romagem ao Senhor de Matosinhos, que o dia favoreceu. Em todo o caminho, desde o princípio da Rua de Cedofeita, o povo era imenso. Nos três arraiais do largo da Prelada, largo do Carvalhido e Ramada Alta era custoso fazer caminho pelo meio de gente que se apinhava naqueles pontos, num tumultar incessante.
No sítio do Ribeirinho estacionavam, segundo o costume, muitas famílias sentadas em fileiras de cadeiras, colocadas nas duas orlas do caminho. Caleches, carros, carruagens, etc, até os clássicos carroções, tudo andou em bolandas.”
In jornal “O Comércio do Porto”, 20 de Maio de 1861 – 2ª Feira



“Ontem de tarde houve arraial no Carvalhido e Ramada Alta aonde concorreu muita gente da cidade, houve abundância de peixe frito, espetadas e doce de Paranhos, que tudo teve muito consumo. A rua de Cedofeita esteve brilhante.”
In “Periódico dos Pobres do Porto”, 12 de Maio de 1856 – 2ª Feira

“Ontem foi o arraial da Hora no Carvalhido. Foi grande a concorrência. Porém, a meio da tarde, principiou um diminuto orvalho, que fez com que todo o povo se retirasse, ficando só no arraial as pipas com a zurrapa chamada vinho, as fritadeiras e doceiras de Paranhos.
As cadeiras que se costumam pôr na Ramada Alta e no Reguinho, aos proprietários não valeu a pena retirá-las de casa porque o receio da chuva fez uma completa retirada.”
In Jornal “O Direito”, de 14 de Maio de 1858




“De tarde desde a rua de Cedofeita ao Carvalhido, movia-se, num continuado fluxo e refluxo uma multidão de gente.
Na fonte dos Ablativos estacionavam, na forma do costume, numerosas famílias.
Na Ramada Alta e largo do Carvalhido houve também os costumados arraiais subalternos.”
In jornal “O Comércio do Porto”, 15 de Maio de 1863 – 6ª Feira




A actual Rua do Carvalhido faz fronteira entre as freguesias de Ramalde e Paranhos e herdou este topónimo pelo facto de, nesse lugar, ter existido uma grande concentração de soutos de carvalheiras. O Carvalhido aparece já designado por “Sovereyros munitos” (Sobreiros Resguardados), no documento de 1138, quando D. Afonso Henriques procedeu à ampliação e confirmação do couto do Porto.
Por deliberação da Câmara Municipal do Porto, em 1835, passou este local a designar-se por Praça do Exército Libertador, em homenagem às tropas liberais, chefiadas por D. Pedro IV.
Esta artéria provém do antigo troço da velha Estrada dos Nove Irmãos (séc. XVI) que partia de Cedofeita pela actual Rua do Barão de Forrester e de Oliveira Monteiro, levando os viajantes até à mata do Carvalhido, depois pelo Monte dos Burgos para Vila do Conde, seguindo até Valença e, daí, para a Galiza.
A pouca distância do cruzeiro encontramos aquela que foi a primeira igreja paroquial do Carvalhido até à criação da Paróquia do Coração de Jesus do Carvalhido, por provisão do bispo do Porto, D. António Augusto de Castro Meireles, de 24 de Dezembro de 1940.
A referida igreja, localizada no extremo Norte da Praça do Exército Libertador, é um edifício do século XVIII, referenciada pela primeira vez, em 1760, num registo paroquial de Santo Ildefonso. O edifício encontra-se no cruzamento das ruas da Natária, do Carvalhido e da Prelada com a Praça do Exército Libertador e pertencia, desde 1886, à Confraria de Nossa Senhora da Conceição.



“No dia 10 do corrente mês terá lugar, na capela de Nossa Senhora da Conceição, sita na Praça do Exército Libertador, antes do Carvalhido, a grande festividade ao milagroso mártir S. Paio.
Na véspera à noite haverá um brilhante fogo-de-artifício.
Durante a tarde e à noite, até acabar o fogo, uma das melhores bandas de música executará lindas e escolhidas composições musicais.
Pelas 5 horas da tarde sairá uma majestosa procissão, levando 5 andores com as imagens: Senhora do Parto, Senhora da Conceição, Senhor dos Aflictos, Santo António e S. Paio, bem como muitos anjinhos.
On trânsito da referida procissão será Praça do Exército Libertador,rua Nova do Carvalhido, rua das Valas, antigo largo da Ramada Alta, dá a volta à capela situada no referido largo, segue pela rua 9 de Julho e recolhe à capela.”
In jornal “O Primeiro de Janeiro”, 1 de Setembro de 1871 – 6ª Feira



Igreja do Carvalhido c. 1950 – Ed. Teófilo Rego


“Posteriormente à sua construção, a fachada granítica da igreja foi valorizada com uma integração harmoniosa dos azulejos, cujos painéis são da autoria do pintor cerâmico F. L. Pereira, conforme se pode confirmar pelas marcas manuais, com indicação das iniciais e o último nome do pintor, por extenso. Francisco Luís Pereira (1891-1961) foi um artista que trabalhou na Fábrica da Vista Alegre e, mais tarde, na Fábrica do Outeiro (Águeda), onde foram produzidas, em 1944, estas belíssimas peças de valor artístico considerável.”
Cortesia de Maximina Girão Ribeiro


O espaço ocupado actualmente por aquele cruzeiro, deo Senhor do Padrão, foi alvo de alguns melhoramentos como consequência da abertura da Rua da Constituição entre a Rua de Serpa Pinto e a Rua de Oliveira Monteiro, ocorrida já nos anos 70 do século passado, intervenção que descontinuou a Rua 9 de Julho.
Muitos de nós ainda se lembrarão que a área entre estas duas ruas era uma imensidão de barracas, uma gigantesca “ilha”.
Voltando à Ramada Alta na área que lhe é afecta destaca-se no seu meio a capela do Senhor do Calvário ou capela de Nossa Senhora das Dores, em cujo retábulo-mor, nos mostra uma pintura que representa o Santíssimo Sacramento no ostensório, adorado por anjos e foi executada por Maria Margarida Costa e, na sala das sessões, conserva-se a pintura de Nossa Senhora da Conceição, de Henrique José da Silva, de 1809.
Entre a capela-mor e a nave, na fachada Sul, destaca-se um oratório de reduzidas dimensões invocando a Virgem do Carmo, com tecto abobadado.


“Na capela da Ramada Alta festeja-se no Domingo, 31 de Maio, o Senhor do Calvário.
Haverá arraial e muita gente costuma concorrer a ele, como é costume, para ver passar os romeiros que vão e voltam pela estrada de cima de Matosinhos.
Hoje à noite há fogo-de-artifício.”
In “Gazeta Portuense”, 30 de Maio de 1868 - Sábado

Como se apercebe pela notícia anterior, o Senhor do Calvário, na Ramada Alta, era festejado em plena romagem dos devotos ao Senhor de Matosinhos, cujo dia máximo dos festejos, naquele ano, foi a 2 de Junho.


“Verifica-se amanhã, na capela da Ramada Alta, a festa da Senhora das Dores.
De tarde sairá em procissão a imagem, percorrendo as ruas 9 de Julho, largo do Carvalhido, Estrada Nova, Boavista e Ribeirinho.”
In “Jornal do Porto”, 9 de Agosto de 1873 - Sábado


Em 1903 a igreja cedeu parte dos seus terrenos à Câmara, para que esta pudesse proceder ao alargamento da Rua de Serpa Pinto.



Planta usada na abertura da Rua de Serpa Pinto de meados do século XIX – Fonte: gisaweb


Na planta acima (porção da original), a Rua de Serpa Pinto, de ligação ao matadouro municipal, ainda não existe, bem como as ruas de Brito Capelo e Egas Moniz.
Vê-se que o caminho identificado com o número 5 sofre uma bifurcação que segue em direcção ao Monte Pedral atravessando terrenos que serão de implantação do futuro quartel.
A Rua de Serpa Pinto, naquele troço da planta, seria traçada no rastro colorido identificado com o número 2, com trajecto ABCDEFG (visível) e HIKLMNO na restante porção de planta (não publicada) acabando na letra P, que identificava o matadouro.
Identificada com o nº 5 era o “Caminho para o Matadouro”, hoje apenas um troço, que corresponde à Rua de Marracuene.



Planta actual correspondente à área anterior aí observável (1850) – Fonte: Google maps


Nas duas plantas anteriores tenta fazer-se a respectiva correspondência de arruamentos.

Legenda:

1. Ramada Alta
2. Rua de Serpa Pinto
3. Rua dos Burgães
4. Rua de Marques Marinho (Travessa da Bouça)
5. Rua de Marracuene
6. Rua da Bouça


Planta de Telles Ferreira de 1892 da Ramada Alta (mantêm-se as identificações comparativas anteriores) – Fonte: gisaweb


Aspecto da Rua de Serpa Pinto em 1939




Ramada Alta nos anos 70


Mesma perspectiva actual da foto anterior


Pela esquerda das fotos segue a Rua Nossa Senhora de Fátima e, em frente, a Rua 9 de Julho.



Casa do Barão de Forrester na Ramada Alta


Pela direita da foto anterior segue a Rua do Barão de Forrester.


Mesma perspectiva actual da foto anterior – Fonte: Google maps



Capela do Senhor do Calvário e as 2 tílias de sentinela - Fonte: gisaweb



Capela do Senhor do Calvário com as suas duas novas sentinelas – Fonte: Google maps


“Sempre que passo à Ramada Alta, nas minhas idas ao Porto, fico encantado com aquele recanto de província, miraculosamente conciliado com a passagem de tanto automóvel. Digo entre mim: qualquer dia, desaparecem a capela e aquelas duas árvores, aquelas duas tílias que lhe fazem sentinela. O largo, que ainda se chama largo e que até se chama da Ramada Alta, nome antigo, de arredor de cidade, morrerá ou se crismará em praceta, sem capela e sem árvores ou só com dois palitos, floridos de cimento, como homenagem à natureza extinta. É preciso que a Ramada Alta mude de nome, que não cante ali nenhum pássaro, nem ali se fabrique, em folha natural, o velho oxigénio, um anacronismo, e que o ar se polua e engrosse com as emanações de tanto automóvel. Só assim o larguinho, com o nome de praceta, merecerá o bilhete oficial, que o acredite como coisa citadina. (...)”
Fonte: João de Araújo Correia (Canelas, Peso da Régua, 1 de Jan. de 1899 - Peso da Régua, 31 de Dez. de 1985) em Pó Levantado (1974)


O Carro Eléctrico nº 361 (Brill/STCP 28 - Pipis) da série de 350 a 373


De notar o abrigo com o seu quiosque anexo, característico daqueles tempos, e um eléctrico conhecido devido à sua elegância, por “pipi”, que tem por destino a Rotunda da Boavista.