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domingo, 15 de janeiro de 2023

25.175 Um cabeleireiro com queda para os negócios

 
João Heitor Guichard ficou para a posteridade, sobretudo, pela pena de diversos escritores, frequentadores dum café na Praça D. Pedro (actual Praça da Liberdade), gerido por aquele súbdito francês, ao descreverem nas suas prosas algumas peripécias que por lá se passaram e o ambiente vivido no seu interior. 
Em meados do século XIX, o café do Guichard era uma referência na cidade. 
Aí, se encontravam algumas personalidades da época, em tertúlia e para bebericar o café e a cerveja que começava a conquistar o gosto de alguns portuenses.
João Heitor Guichard era cabeleireiro, numa época em que se destacaram naquela profissão, no Porto, profissionais com nome na praça como, José Joaquim da Costa, Mr. P. Villaret, Mr. Amable Godefroy, Pedro Suére e Domingos Sebastião.


In jornal “A Coalisão”, do dia 3 de Julho de 1843



In jornal "A Revolução de Setembro", de 14 Agosto de 1843


Exercendo, originalmente, aquela profissão de cabeleireiro, João Heitor Guichard foi, no entanto, um comerciante com interesses vários.
João Heitor Guichard foi casado com Elena Eufrásia Formant, sabendo-se que houve um filho de seu nome Heitor Guichard Júnior, nascido a 1 de Fevereiro de 1835, na freguesia da Vitória, no Porto, e baptizado a 8 do mesmo mês, que exerceria como o seu pai, também, a actividade comercial.
Elena Eufrásia era uma das modistas com fama na cidade, e com João Heitor Guichard constituíam um casal dentro dos padrões dos que se dedicavam ao sector da moda: cada membro do casal tinha na sua actividade profissional, funções complementares e permutavam clientes.
 
 
 
“As relações familiares entre os agentes de moda eram usuais. Não é difícil depararmo-nos com uma modista com casa ou armazém de modas associada ao estabelecimento comercial do marido, que poderia ser cabeleireiro, ou mesmo alfaiate ou um mero comerciante, como Madame Guichard (D.Elena Eufrásia Formant) e o cabeleireiro João Heitor Guichard, mais conhecido por Heitor Guichard, dono do célebre Café Guichard, aberto em 1847 na Praça de D. Pedro, ou o casal Pedro e Bernardina Suére, entre outros”.
Cortesia de Maria Antonieta Lopes Vilão Vaz de Morais; In “Os Agentes da Moda no Porto (1830-1850)”
 
 
 
 
Para além do seu salão de cabeleireiro, João Heitor Guichard abriria o famoso café na Praça Nova e, próximo deste, uma casa de modas gerida por sua mulher e ainda, um depósito de materiais, na Rua de Santo António como representante do marceneiro e “marmorista” francês Pedro Bartholomeo Dejante, como demonstra o anúncio seguinte.
 
 
 
“Bartholomeo Dejante, enxamblador de SS. MM. faz publico que estabeleceu em Lisboa uma grande fábrica movida a vapor para serrar mármore e madeiras &c. Quem pertender algum objecto de marmore deverá remetter as medi­das exactas, podendo dirigir-se à mesma fábrica na Rua Direita da Boa Vista n.º 4 ou ao seu depósito no Porto em casa de H. Guichard, Rua de S.to António n.º 23, onde já se acha à venda um bom sortimento de folhas de mogne. Toma-se conta de qualquer encommenda que será desempenhada com promptidão”.
“O Gratuito”, Jornal de annuncios da Typographia Commercial, n.º 242, Porto, 20 de Julho de 1843; cit. por José Francisco Ferreira Queiroz
 
 
 
O café do Guichard teria aberto portas, possivelmente, c. 1845, e encerrá-las-ia, em 5 de Fevereiro de 1857.
Em 30 de Setembro de 1861, o jornal “O Commercio do Porto” dava conta da venda de dois bilhares que tinham servido no famoso café.
 

 


 

Após a extinção das ordens religiosas, por decreto de Joaquim António de Aguiar, de 30 de Maio de 1834, foi o edifício do Convento da Congregação do Oratório da regra de S. Filipe de Néri, à Praça Nova das Hortas, posto em almoeda e adquirido à Fazenda Nacional.
Uma parte passou para a posse dos Contratadores do Tabaco (que tinham a ideia de aí fazer montar a sua fábrica) e, a outra, foi comprada pelo cidadão brasileiro de torna-viagem, Manuel José Duarte Guimarães que, passado algum tempo, diligenciou a compra da parte afecta aos contratadores e entrou na posse de todo o edifício, do qual fazia parte uma torre sineira erguida do lado poente da igreja.
 
 
 
À esquerda, o convento e a torre sineira que entraram na posse de Manuel José Duarte Guimarães – Gravura de Joaquim Villanova, em 1833
 
 
 
 
“Do lado da Praça de D. Pedro, aproveitando as boas caves de abóbada que os padres costumavam alugar a particulares mandou outrossim o mesmo senhorio (Manuel José Duarte Guimarães, brasileiro de torna viagem), ao rés-da-rua abrir portas regulares para estabelecimentos e rasgar mais janelas de varandas a todo o correr do primeiro andar. Depois de concluída a obra de adaptação, é que os botequins, pouco a pouco, começaram a concentrar-se à volta do extinto edifício do Convento dos Congregados, tanto para a banda da praça, como para a de Sá da Bandeira (actual Sampaio Bruno) como ainda para a do Bonjardim (actual Sá da Bandeira)”.
Horácio Marçal – “Os antigos botequins do Porto”, in O Tripeiro. 6ª Série, Ano IV, n.º 3. Porto: Março 1964, p. 72.
 
 
Dado que, em 3 de Julho 1844, Manuel José Duarte Guimarães, acima referenciado, solicita permissão de remodelação do edificado existente (antigo convento dos Congregados) e acrescentar sacadas de pedra, para a qual viria a obter a licença nº 156, tal facto, apontará para que o café do Guichard fosse, por aqui inaugurado, certamente, em data posterior ao pedido vertente.
Sabe-se que as demolições necessárias para o levantamento da obra, teriam já começado em 1842.
 
 
 
 

Nos baixos do prédio da esquina próxima, a poucos metros dela, ficava o café do Guichard - Fonte: revista “O Tripeiro”, Série VI, Ano IV, nº 3, Março de 1964

 
 
Em meados do século XIX, neste café, ocorreria o lançamento do sorvete na cidade, por um italiano, de seu nome Trucco, na altura um seu empregado. Mais uma achega para que o café fosse falado.
Como já foi referido, o café do Guichard sempre mereceu, da parte dos escritores, referências que ficaram para a posteridade.
 
 
“O ‘Café Guichard’ é o ‘Marrare do Polimento’ do Porto, com a simples diferença de não possuir essa profusão luxuosa de madeira envernizada, que immortalisou nas collunas de um jornal burlesco o ‘Café Marrare’. O ‘Guichard’ é, como o Porto, inimigo das inovações; apesar de ser situado no ponto mais central e mais concorrido da cidade, conserva exteriormente as aparências tradicionais do antigo ‘botequim’. Meias portas pintadas de verde e envidraçadas do meio para cima, quasi sempre fechadas, estão muito longe do bom gosto que se nota em Lisboa neste género de estabelecimentos. Á primeira vista pareceu-me uma taberna inglesa; todavia, como me disseram que era ali o melhor café da cidade, entrei. O interior corresponde ao exterior; mau gosto em tudo; nas pinturas, nos moveis, nas luzes, e mesmo nas bebidas! Para ser o rival do ‘Marrare’, está pouco acima dos cafés mais vulgares de Lisboa.”
Gomes de Amorim; In “Viagem ao Minho”
 
 
“A sociedade mais confusa vai ao Guichard, - botequim celebre pelos romances, pelos folhetins, e que deve, creio eu, á literatura, a sua reputação, visto ser tão feio que não pode devel -a…aos freguezes!…
Júlio César Machado; In “Scenas da minha terra”
 
 
 
"Em 1849, era João Roberto de Araújo Taveira um dos mais galhofeiros e satíricos rapases da phalange do café Guichard - que eu chamava uma colmeia onde se em melavam doces favos de espírito, se aquelle botequim não fosse antes um vespereiro que desferia, ás revoadas, ferretoando os bócios dos gordos philistinos da "Assembleia" e as macias espaduas lácteas das suas consortes no coração e nos ádypos".
Camilo Castelo Branco; In "Serões de S. Miguel de Seide"
 
 
Em 1852, o prédio da esquina, mandado erguer por Manuel José Duarte Guimarães, albergava por arrendamento a João Heitor Guichard, não só o Café do Guichard, como um armazém de modas que a sua esposa geria.
No âmbito do exercício da sua actividade ligada ao café, ao qual emprestava o seu nome, na Praça D. Pedro, João Heitor Guichard acabaria por desenvolver uma actividade industrial conexa.
Assim, quando o consumo de cerveja na cidade do Porto que, apesar de ainda limitado face ao mais popular e alargado consumo do vinho, passou a assumir um papel significativo nos espaços de sociabilidade portuense mais frequentados pela juventude, desde os botequins e cafés até às emergentes cervejarias, onde o “bock” se tornou bebida corrente, João Heitor Guichard montaria, em Arnelas, V. N. de Gaia uma fábrica de cerveja e, mais tarde, uma outra próxima daquele seu conhecido café, no centro da cidade do Porto.
A de V. N. de Gaia era conhecida pela “Fábrica de Cerveja de Arnelas”.
Esta fábrica terá sido a primeira de um ramo industrial que viria a conhecer algum sucesso em V. N. de Gaia.
Começou a laborar no início de 1848 e, em Maio, desse ano, era possível lermos o seguinte anúncio:
 
"Cerveja de superior qualidade, da nova fábrica de H. Guichard, vende-se no café do mesmo, praça de D. Pedro".
In jornal "Periódico dos Pobres no Porto ", nº 33, Porto, 7 de Fevereiro de 1849, p. 133
 

 

In jornal “A Revolução de Setembro”, de 2 de Maio de 1850

De acordo com o jornal "Periódico dos Pobres no Porto", nº 291, Porto, 9 de Dezembro de 1852, p. 2023, Heitor Guichard viria a instalar uma outra fábrica de cerveja, mais próxima do seu café, na Praça D. Pedro, que já estaria a laborar, em 1850, segundo a publicidade acima exibida. Talvez, seja esta a razão, que tenha contribuído para o definhamento da fábrica de Arnelas, embora, ambas tenham coexistido durante mais algum tempo.

 
 

Arnelas, na margem esquerda do rio Douro
 
 
 
Já na década de 1860, João Heitor Guichard era representante, no Porto, de Eugène Larrouy, uma casa comercial belga.
Em 18 de Setembro de 1865, um dia festivo para a cidade do Porto, João Heitor Guichard estará presente no dia da abertura da Exposição Internacional, que assinalaria o evento da inauguração do Palácio de Cristal, juntamente com o seu filho Heitor Guichard Júnior, que com ele trabalhava e dava o nome para o catálogo da exposição das peças expostas, que lhes diziam respeito.
Pai e filho aparecem mencionados no catálogo da exposição e João Heitor Guichard é apresentado com presença na anterior Exposição Industrial do Porto, em 1861, e na de Braga em 1863, nas quais saiu premiado com medalha de bronze. Dado com presença na Exposição de Paris de 1853, sairia premiado com a medalha de prata.
Igualmente, vai estar presente no certame aquele que se ligará à família Guichard, Henrique Burnay, representante em Lisboa da mesma firma belga e com o qual fundariam a empresa Burnay & Guichard, que ficará arrendatária do Palácio de Cristal, após a sua inauguração.
Na exposição, os mármores belgas, expostos, foram enviados por Leopold Devas, de Antuérpia, que tinha como agentes no Porto e em Lisboa, respectivamente, Heitor Guichard Júnior e Henry Burnay.
 
 
 
“O empresário Henry Burnay participou na Exposição Internacional de 1865, expondo «um quadro a óleo representando Napoleão em Fontainebleau» e «outro representando Nossa Senhora da Toalha - cópia de obra de Murillo», surgindo também como agente em Portugal de outros expositores estrangeiros. Ocupou o lugar de Vogal no Júri do 11º Grupo – Indústrias dos Metais e Pedras Finas”.
Cf. Sociedade do Palácio de Cristal Portuense – Catalogo Official da Exposição Internacional do Porto em 1865
 
 
Sobre a abertura da exposição, todas as festividades aconteciam, então, com um ligeiro atraso relativamente à data inicialmente prevista de 21 de Agosto.
Acresce que, a anunciada e programada mostra de animais vivos e plantas teria início, apenas, a 12 de Novembro, tomando o lugar de exposição complementar.
Do catálogo da exposição constavam expositores nacionais e estrangeiros.
 
 
“Ao anúncio responderam afirmativamente 3424 expositores de todo o mundo: 1614 portugueses, 752 das colónias, 499 franceses, 265 alemães, 107 ingleses, 89 belgas, 62 brasileiros, 24 espanhóis, 1 holandês, 5 suíços, 16 dinamarqueses, 2 russos, 1 turco, 1 do Japão e 1 dos EUA. Seguindo uma organização semelhante à das restantes mostras que se vinha organizando, os expositores distribuíam-se em quatro grandes divisões, cada uma com um número variável de classes e subclasses390: 1ª divisão – Matérias-primas, com sete classes; 2ª divisão – Máquinas, com treze classes; 3ª divisão – Produtos Manufaturados, com dezanove classes; 4ª divisão – Belas Artes, com seis classes”.
Cortesia de Vera Lúcia da Silva Braga Penetra Gonçalves; MESTRADO HISTÓRIA DA ARTE, PATRIMÓNIO E CULTURA VISUAL (2018)
 
 

Galeria de Pintura da 1ª Exposição Internacional do Palácio de Cristal - Gravura apresentada na revista “Archivo Pittoresco”, Nº 47/1865

 
 
Após o fecho da Exposição Internacional, nos meses que se seguiram, a Sociedade do Palácio de Cristal, que fazia a administração do empreendimento, pretendendo tirar o máximo de rendimento do mesmo, para além das exposições ou comemorações, decidiu dar vida ao recinto com a realização de espectáculos e festas, entregando a sua exploração à empresa Burnay & Guichard.
Naquele âmbito, é de realçar a actividade da empresa Burnay & Guichard, de Henry Burnay (1838-1909), Conde de Burnay e Heitor Guichard Júnior, tidos como os verdadeiros impulsionadores daquele lugar, após a Exposição Internacional, com os tão afamados espectáculos pirotécnicos e outros divertimentos que iam promovendo.
À data da Exposição Internacional de 1865, Henrique Burnay e Heitor Guichard Júnior eram dois jovens a rondar os trinta anos.
É provável, que fosse este, e não o seu pai, João Heitor Guichard, que se envolveu na organização das festas e espectáculos realizados no Palácio de Cristal.
Heitor Guichard Júnior tinha, também, desde muito jovem, uma actividade musical na cidade e estava por dentro da arte do espectáculo.
Assim, algumas exposições terão sido iniciativa daquela empresa, que parece ter alugado o Palácio de Cristal, desde cedo, como é o caso duma ocorrida em 1869, com a realização de uma mostra de plantas, flores, produtos hortícolas, máquinas, utensílios e objectos relativos à jardinagem e horticultura, no âmbito da qual sairia premiado, em primeira classe, com a quantia de cinquenta mil reis, o consórcio de José Marques Loureiro e Emílio David.
O certo é que, na prática, para a Sociedade do Palácio de Cristal a actividade da empresa pouco significava.
 
 
«De vez em quando o snr. Henrique Burnay, hoje conde, e o seu socio Heitor Guichard planeavam um divertimento pyrotechnico, mas isso, se constituia uma receita para os dous, não chegava a produzir dividendo para os accionistas do Palacio.
Na nave central trabalharam durante algum tempo dous acrobatas portuguezes, Pena e Bastos, que se arrojavam a arriscados equilibirios. No coreto da avenida havia musica, pela banda do Palacio, aos domingos e quintas-feiras de tarde, mas só aos domingos era que o publico portuense, essencialmente laborioso, estava acostumado a sahir á rua.»
Alberto Pimentel – O Porto há Trinta Anos
 
 
As festas e bailes de Carnaval eram também merecedores de destaque, conhecendo especial relevo nas referências literárias e registos fotográficos.
Na década de 1870, perde-se o rasto de João Heitor Guichard, desconhecendo-se, inclusivamente, a data da sua morte.
Heitor Guichard Júnior casaria com Cândida Emília Leal Cerqueira e, em 1864, João Heitor Guichard seria padrinho de baptismo de seu neto Raúl Guichard, filho daquele casal.
Cândida Emília Leal Cerqueira Guichard faleceria, em 31 de Janeiro de 1896, com 60 anos, na sua residência na Rua da Belavista (actual Raúl Brandão), nº 42, freguesia da Foz do Douro.
Heitor Guichard Júnior teve uma actividade ligada à música.
Assim, em 10 de Junho de 1855, aparece como integrando a orquestra num espectáculo musical levado a cabo na igreja do convento de S. Bento da Vitória pela Sociedade Filarmónica do Porto.
 
 

I
In jornal “O Commercio” de 12 de Junho de 1855. O nome de Heitor Guichard Júnior está identificado pela pinta preta
 
 
Heitor Guichard Júnior é dado, também, como membro do coro do Orpheão Portuense em alguns espectáculos.
 
 
 

 In revista “O Bombeiro Portuguez” de 1 de Fevereiro de 1882, sobre espectáculo realizado no Teatro Gil Vicente (Palácio de Cristal) e oferecido aos sócios da Associação dos Bombeiros Voluntários do Porto
 
 
 

Cortesia de HL. Gomes de Araújo; In A Origem do Orpheon Portuense -  As Famílias Fundadoras
 
 
 
Ainda, no âmbito da sua faceta musical, a revista “A Arte Musical”, ano VI, nº 143 de 15 de Dezembro de 1904, dava conta de que Heitor Guichard tinha na sua posse uma rebeca do luthier Giovanni Battista Guadagnini, que teria pertencido a Nicolau Ribas e tinha sido restaurada, em Paris, por Gustave Bernardel.
Acrescentava que ele era, também, proprietário de um violoncelo do luthier Domenico Montagnana, com a data de 1719 e, um outro, com a data de 1757, de construção atribuída ao luthier alemão Leopold widhalm.
A 12 de Junho de 1891, Heitor Guichard Júnior, haveria de se naturalizar português.
Tendo abraçado a causa republicana, em 1915, com a 1ª Grande Guerra Mundial a decorrer, Heitor Guichard, com 80 anos, e na qualidade de decano das Juntas de Paróquia do Porto, recebe durante uma visita à cidade Leote do Rego, o oficial que comandou a divisão naval que defendia a costa portuguesa e apoiou a participação de Portugal naquele conflito.

 
 

In jornal “O Mundo” de 28 de Junho de 1915
 
 
Quanto a João Heitor Guichard, até hoje, foi impossível alguém descobrir as datas do seu nascimento e da sua morte e o local e circunstâncias em que ocorreram. O Prof. Francisco Queiroz descreve-o do seguinte modo:

 
“Refira-se que Heitor Guichard foi um conhecido comerciante no Porto. Começou por deter uma loja de comércio onde se vendia de tudo, desde pomada de urso e outras mezinhas até artigos para senhoras, cabeleiras postiças, modas e fazendas, vinhos, gravatas, espingardas, chapéus, candeeiros, tapetes, graxa, etc. Contudo, julgamos que a verdadeira profissão de Heitor Guichard fosse, no início, a de cabeleireiro.”


Uma última referência pública a João Heitor Guichard surge numa notícia inserida no jornal " O Comércio do Porto" de 16 de Setembro de 1862, na qual ele anuncia, por razões de saúde, a venda da sua fábrica de cerveja de Arnelas.








Por outro lado, em 5 de Abril de 1912, o jornal brasileiro, do Rio de Janeiro, “O Paiz”, dá conta do falecimento de Heitor Guichard Júnior, em terras brasileiras e noticiam pormenores do seu enterro.
Desconhecem-se pormenores sobre o percurso de vida desta personagem e da sua possível ligação familiar aos Guichard que, por aqui, abordámos.

 
  



De facto, Heitor Guichard Júnior, por aqui referido como filho de Heitor Guichard, ainda era vivo em 1915, de acordo com prova apresentada.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

25.172 Um capitalista nacional com origens portuenses

  
Em 1819, nascia Francisco de Oliveira Chamiço (Porto, São Nicolau, 24 de Fevereiro de 1819 - Lisboa, Mártires, 21 de Março de 1888).
Era filho de Fortunato de Oliveira Chamiço, um negociante da praça do Porto, e de sua mulher Cândida Margarida Cândida Martins Pacheco, neto paterno de Brás de Oliveira Chamiço, Capitão-de-Mar-e-Guerra, de origem Alemã.
Era irmão de duas personagens que se destacariam pelo relevo alcançado na sua actividade económica, Fortunato Oliveira Chamiço Júnior e de Eduardo Oliveira Chamiço.
Aos 10 anos de idade, Francisco Chamiço foi estudar para Inglaterra, onde a firma do pai, “Chamisso & Companhia” tinha boas relações, regressando com vinte anos.
Começaria, então, a trabalhar na firma do pai, tendo casado com Claudina Freitas Guimarães (1821 – 1913), irmã de Ana Freitas Guimarães casada com Fortunato de Oliveira Chamiço Júnior, irmão do Francisco. O outro irmão, já referido, de seu nome Eduardo Oliveira Chamiço, acabaria por ficar solteiro.
Nos anos seguintes, Francisco Chamiço desempenhou vários cargos de relevo no âmbito da actividade económica, tendo sido Secretário da Associação Comercial Portuense, a cuja Direcção esteve ligado por espaço de 23 anos, durante os quais foi encarregado por aquela Associação e pelo Estado, de numerosas Comissões em proveito do serviço público.
Assim, em 1852, Francisco Chamiço é nomeado pelo Ministro Rodrigo da Fonseca Magalhães, para a comissão de inquérito da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.
Nesse ano, aparece ligado a uma elite portuense, quando juntamente com António Bernardo de Brito e Cunha, Ricardo de Clamouse Brown, José Pedro Barros Lima e mais uns quantos, vão coadjuvar as senhoras, Marquesa de Terena, Condessa de Terena, Viscondessa de Alpendurada, Viscondessa de Balsemão, Viscondessa de Castro Silva, Baronesa de Ancêde, Baronesa do Bolhão, Maria Ermelinda Woodhouse e muitas outras, que organizavam um baile, na Quinta das Águas Férreas, que ficaria célebre, por não se ter realizado.
O baile estava previsto ser em honra da rainha D. Maria II, que visitava a cidade e o norte do País, em Maio de 1852, mas o S. Pedro não esteve pelos ajustes e despejou água, sobre a cidade, até fartar.
Entretanto, anos antes, Francisco Chamiço já tinha fundado, juntamente com o seu irmão Fortunato e com Carlos Silva, a firma que se destacaria no comércio dos vinhos do Porto, “F. Chamiço Filho & Silva”, que teve a sua sede na Rua dos Ingleses, nº 87 – 1º (actual Rua do Infante).

 
 

Rua dos Ingleses, c. 1860

 
 

Garrafa de vinho do Porto Chamisso


 
A “F. Chamiço Filho & Silva” que exerceria também na área exportadora funções de consignatários (correspondente aos actuais agentes de navegação) haveria de ver, também, o seu nome ligado a um naufrágio célebre, em 1864, do vapor Corinthian.

 
 

Anúncio do jornal “O Comércio do Porto” em 1 de Julho de 1864

 
 
“Vapor “Corinthian”
Um telegrama chegado ontem de Viana informa estarem destruídas todas as esperanças, dadas pela notícia anterior relativamente ao vapor inglês “Corinthian”, que tendo saído ante-ontem a barra do rio Douro, encalhou às 6 horas da tarde do mesmo dia num banco de areia a 5 milhas ao Sul de Viana, abrindo logo água.
Às 3 horas da madrugada de ontem, a tripulação vendo que o navio ia submergir-se abandonou-o e desembarcou a salvo em Viana.
Com os socorros prestados pelas repartições competentes daquela cidade pôde ser salvo do vapor naufragado parte do gado que ia no convés.
O “Corinthian” está totalmente perdido. Bateu e submergiu-se em sítio tão fundo, que ontem às 3 horas da tarde, segundo uma carta de Viana, apenas se viam os mastros fora da água. Os tripulantes tinham-no abandonado pouco antes da submersão.
O vapor levava perto de 300 bois, dos quais ainda foram salvos 60 e tantos, que iam no convés. Mergulhadores empregados para a salvação da carga, ainda não tinham conseguido salvar nada até às 3 horas da tarde de ontem”.
In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Julho de 1864
 
 
 
Em 1853, com 33 anos, Francisco Chamiço foi dos fundadores da Companhia de Seguros Garantia, praticando seguros marítimos e terrestres e que rapidamente se expandiu pelo estrangeiro: Brasil, Inglaterra, Espanha.
Em 1854, foi pela primeira vez deputado eleito pela cidade do Porto, ocupando, sucessivamente, o seu lugar na Câmara dos Senadores, até 1864, data em que renunciou à candidatura por divergências com o Ministério presidido pelo 1.° Duque de Loulé.
Com a publicação da Constituição de 1838, decorrente da revolução de 1836, foi estabelecido nela um compromisso entre a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional de 1826, e a manutenção do sistema bicameral. A Câmara dos Senadores é, no entanto, electiva e temporária. O número de Senadores era igual à metade dos deputados. Duraria pouco, no entanto, a nova Constituição, pois com a chegada de Costa Cabral ao poder, em 1842, seria reposta em vigor a Carta Constitucional de 1826.
A função de deputado levou Francisco Chamiço, assim, a passar parte da sua vida na capital, onde haveria de se radicar e onde iria adquirir contactos cruciais para o singrar da sua actividade profissional.
A amizade que fez com o escritor, jornalista, diplomata e político, José da Silva Mendes Leal (Lisboa, 18 de Outubro de 1820 — Sintra, 22 de Agosto de 1886), foi fundamental.
O casal Fortunato Chamiço Júnior e Ana Freitas Guimarães teve uma filha, Amélia Freitas Guimarães Chamiço (1843 – 1900), que casou, em 22 de Novembro de 1870, com Frederico Biester (1833 – 1899), irmão de Rosa Biester Mendes Leal, esposa de José da Silva Mendes Leal, que viria a ser ministro da Marinha e do Ultramar.
Francisco Chamiço vai valer-se do seu relacionamento com José da Silva Mendes Leal, em 1862, quando consegue desbloquear o arranque da construção do Palácio de Cristal pela denominada Sociedade do Palácio de Cristal eleita numa reunião em 1861.

 
 

Primeiros corpos gerentes da Direcção da Sociedade do Palácio de Cristal, em 1861

 
 
Como se pode observar, Francisco Chamiço fará parte da 1ª Direcção da sociedade do Palácio de Cristal, mas será a assinatura do seu irmão, Eduardo Chamiço, como substituto, que irá aparecer em muita documentação atinente ao exercício da actividade daquela sociedade, pois, por estes anos, já Francisco Chamiço passava longas temporadas em Lisboa, devido à sua actividade política.
 
 
 
“Em Julho 1861 Alfredo Allen, Francisco de Oliveira Chamiço e Francisco Pinto Bessa promoveram a fundação da Sociedade do Palácio Agrícola, Industrial e Artístico, depois denominada do Palácio de Cristal Portuense S.A.R.L., com o objetivo de construir um palácio destinado a exposições agrícolas, industriais e artísticas.
De início parecia que tudo se encaminhava bem mas, contra o esperado, a recusa da colónia portuguesa no Brasil em participar no capital da sociedade, trouxe dificuldades que pareciam inultrapassáveis, até que Francisco de Oliveira Chamiço, sendo deputado e sendo ministro José da Silva Mendes Leal, em Julho de 1862, parente da família de sua sobrinha Amélia, conseguiu um lei que isentava a sociedade de impostos e concedia importação livre de direitos de todos os materiais destinados à construção do Palácio.
Com esta ajuda e com a de outros beneméritos que ofereceram os seus haveres pessoais, como foi o caso do Dr. António Ferreira Braga, lá se concluiu o Palácio de Cristal do Porto, que, segundo parece, nunca teve uma exploração sem desequilíbrios financeiros e não permitiu reembolsar os seus credores, falecendo o referido Dr. Braga, distinto professor da escola médico-cirúrgica, em 1870, em penosa pobreza”.
Fonte: banconacionalultramarino.blogspot.com/
 
 
Naquele mesmo ano de 1861, em Setembro, Francisco Chamiço era eleito para o Conselho Fiscal da Companhia de Viação Portuense com sede ao Jardim de S. Lázaro.
 
 
 

Palácio de Cristal inaugurado em 1865 - Gravura do Archivo Pittoresco
 
 
 
 
 
É ainda, José da Silva Mendes Leal que, como Ministro da Marinha e Ultramar, vai proporcionar a Francisco Chamiço que seja o fundador de um banco.
Assim, expõe pessoalmente o projecto do Banco à Câmara de Deputados do Reino, em 7 de Abril de 1864 e, logo em 10 de Maio, seguinte, é aprovado o decreto que autoriza o novo banco.
Seis dias depois, 16 de Maio de 1864, o rei, D. Luís, assina a Carta de Lei que ractifica o decreto, nascendo assim, oficialmente, o Banco Nacional Ultramarino (BNU).
O BNU foi emissor de Papel-Moeda para as colónias. Em 1865, a emissão contemplou Angola seguindo-se todas as outras. Até 1926, o BNU exerceu aquela actividade para Angola.
Em 1876, a banca em Portugal sofreria uma grave crise, à qual o BNU não fugiria.
Em 18 de Agosto de 1876, a maioria dos bancos, em Lisboa, suspenderia os pagamentos.
Nesse dia, o governador do BNU, Francisco de Oliveira Chamiço, fez afixar à porta do Banco o seguinte aviso: 
 
 
“Por difficuldades na cobrança de valores vincendos de hoje, e pela suspensão feita por outros estabelecimentos bancários no pagamento de cheques de que este Banco era portador, encontra-se elle a necessidade de suspender o pagamento de cheques a seu cargo, até que realise cobranças que o habilitem, ficando também suspenso o recebimento de quantias para depósito e, podendo assegurar aos srs. Depositantes que dentro de breves dias lhe serão pagos integralmente os seus depósitos.
In Diário Ilustrado nº 1314
 
 
A saída da crise esteve na solução encontrada por Fontes Pereira de Melo em obter junto de Londres um empréstimo para compensar a falta de numerário.
Nesses tempos, em que para o sector bancário se aproximavam situações conturbadas, consta que Francisco Chamiço visitava, em Viana do Castelo, frequentemente, Mateus Barbosa da Silva - uma personalidade muito conceituada na região, que ficaria conhecido por ter sido o presidente desde 1853 a 1873 da Associação Empresarial de Viana do Castelo, e Vice-cônsul da França em Viana do Castelo.
Francisco Chamiço teria, então, convencido os Barbosa e Silva e outros burgueses e aristocratas de Viana a investir confiadamente importantes somas no Banco Nacional Ultramarino e, “ao dar-se seguidamente o mais famoso descalabro daquele banco foi como se ocorresse um terremoto em Viana”, causando enorme prejuízo àquela família. Diz-se, ainda, que o Francisco Chamiço veio a ser “inculpado” no processo subsequente.
Entretanto, Mateus Barbosa não assistiria a este descalabro bancário, pois já tinha falecido em 1873.
Em 1881, o banco reformou os estatutos, aumentando o capital para reforçar as operações de crédito agrícola, móvel e comercial. Internamente, reformulou o seu Conselho de Administração que passou a ser constituído por um governador e dois vice-governadores.
No desenvolvimento da sua actividade nas colónias africanas, o BNU acabou por se envolver directamente em actividades comerciais de importação e exportação e de exploração de actividades agrícolas, adquirindo várias propriedades agrícolas.
Assim, Francisco Chamiço ter-se-á oposto à abolição da escravatura, pois pretendia que os proprietários dos escravos fossem indemnizados no cumprimento da lei que a impunha.
Tal tomada de posição decorria do facto de que o BNU ao fazer a exploração de várias fazendas em S. Tomé, necessitava de mão-de-obra escrava.
Em 1875, o BNU contrata directamente da Libéria, 600 homens e mulheres para as suas propriedades de S. Tomé e até ao final de 1876, tinha já “importado” da Libéria, cerca de 3000 trabalhadores.
A importação de mão-de-obra da Libéria foi a solução que o Francisco Chamiço encontrou como ideal para evitar a caça aos navios de escravos que era feita pelos navios de guerra ingleses sobretudo nas costas de Angola.
Aliás, em 1877, o navio à vela “Ovarense”, ao serviço do BNU, foi arrestado pelos ingleses e confiscada toda a sua carga, sob pretexto de que fazia comércio de escravos.
Em 1877, o jornal “O Progresso” de Lisboa refere que em Luanda se encontram 240 escravos comprados pelo BNU com destino a S. Tomé, estando mais 1000 escravos em Novo Redondo, prontos para partir para a “Água Izé”, propriedade do BNU em Timor.
Francisco Chamiço seria, ainda, proprietário de minas de estanho da Mostardeira (Alentejo) e de Trás-os-Montes, que vieram a ser financiadas pelo BNU.
Em 1876, a rainha D. Maria Pia, por ocasião das inundações de inverno, organizou uma comissão para angariar donativos, da qual faziam parte as personalidades mais importantes da sociedade portuguesa, como o cardeal patriarca, e que incluía, também, Francisco de Oliveira Chamiço.

 
 

Francisco de Oliveira Chamiço


 
Francisco Chamiço fez ainda parte da Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses e presidiu ao comité executivo da exposição colonial portuguesa na exposição universal de Antuérpia, de 1885.
Francisco Chamiço faleceu em Lisboa no dia 21 de Março de 1888, com 68 anos.
Depois da nacionalização em 1974, em 2001, o BNU desapareceria, sendo englobado na Caixa Geral de Depósitos.
 
 
 
 
 
Outros factos relacionados indirectamente com Francisco Chamiço
 

Primeira sucursal do Banco Nacional Ultramarino no Porto
 
 
O Banco Nacional Ultramarino logo, em 1865, abriria a sucursal de Luanda e uma agência na cidade da Praia, em Cabo Verde. Em 1868, criaram-se agências em S. Tomé, Moçâmedes, Benguela e Goa e, em 1876, o banco estendeu-se a Lourenço Marques. Em 1902, criaram-se agências em Macau e Bolama e, em 1912, a de Díli. Em 1913, expandiu-se a pontos-chave no Brasil, nomeadamente, São Paulo, Salvador da Baia, Belém, Recife e Manaus.
Mas, apenas em 1917, foi aberta uma agência no Porto e, no ano seguinte, em Faro.
No Porto, aquela agência situou-se na Praça da Liberdade, junto da igreja dos Congregados.
 
 
 

Vista da Praça da Liberdade, em pleno século XIX, junto da igreja dos Congregados
 
 
 
Na foto acima, no local do prédio de esquina, adossado à igreja dos Congregados, se instalaria a agência do BNU.
Toda a frente do edificado, a nascente da praça, foi o chão do convento dos padres congregados.
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António.
Em 1843 e 1844, as antigas instalações do mosteiro seriam alvo de obras sob a licença nº 98/1843 e licença nº 156/1844, respectivamente.
No prédio referido esteve, em meados do século XIX, o famoso café Guichard.
 
 
 

Café Guichard na 3ª, 4ª e 5ª porta, a contar da esquina
 
 
 

Igreja dos Congregados e mosteiro – Gravura de Joaquim Villanova, em 1833

 
 
No local em causa, em novo prédio, haveria de se instalar a casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão.
 
 
“A fundação da casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão data de 30 de dezembro de 1896. Constituída sociedade comercial em nome coletivo, com responsabilidade ilimitada, estabeleceu a sede social na Praça da Liberdade, no Porto. Foram sócios fundadores Joaquim Pinto da Fonseca e Manuel Pinto da Fonseca. O objeto social da Pinto da Fonseca & Irmão era o exercício do comércio bancário”.
Fonte: bportugal.pt/arquivo/
 
 
 
 
Em Julho de 1894, tinha sido autorizado pela licença nº 217/1894, um novo edifício para o local em apreço.
Seria definitivamente aprovado em Agosto de 1895.

 
 

Desenho de fachada voltada para o Largo da Feira de S. Bento, integrante de projecto de construção que obteve a licença nº 217/1894


 
 

Edifício, em 1897, correspondente à licença nº 217/1894

 
 
Em 1901, a casa bancária de Pinto da Fonseca & Irmão abandona as instalações do 1º andar do prédio e passa a ocupar o rés-do-chão do mesmo.
 
 
“7 de Dezembro de 1901 – Inauguram-se as novas e modernas instalações da casa bancária de Pinto da Fonseca & Irmão, no rés-do-chão do prédio da esquina das praças dos Congregados e D. Pedro, onde anteriormente se encontrava a tabacaria Arnaldo Soares. Este reabre também, no prédio contíguo, o seu novo e elegante estabelecimento comercial.
In revista “O Tripeiro”, Vª Série, Ano VII, Dezembro de 1951
 
 
 
 
Edifício onde esteve o Banco Pinto da Fonseca & Irmão, vendido ao Banco Nacional Ultramarino



 
Em 22 de Agosto de 1916, é assinado o contrato de trespasse, por 75.000$00, das instalações da Casa Bancária de Pinto da Fonseca & Irmão a favor do Banco Nacional Ultramarino para montar a sua filial no Porto.
 


 
“Em 12 de dezembro de 1916 a firma registou uma alteração estratégica. Trespassou o estabelecimento da Praça da Liberdade ao Banco Nacional Ultramarino, tendo os sócios assumido o compromisso de não negociarem no ramo bancário, na cidade do Porto, durante o prazo de 20 anos. Assim, o objeto da firma ficou limitado ao comércio de compra e venda de mercadorias, por conta própria ou à consignação e comissão, tendo mudado as suas instalações para a Rua dos Clérigos.
Este acordo ficou entretanto anulado, por escritura de 11 de maio de 1920, quando a firma alterou o pacto social, retomando o exercício do comércio bancário”.
Fonte: bportugal.pt/arquivo/
 
 
 
 
Em 1917, o Banco Nacional Ultramarino chega à cidade do Porto, adquirindo o prédio da foto anterior ao Banco Pinto da Fonseca & Irmão que, por sua vez, se deslocaria para uma loja no Palacete das Cardosas, em local que, hoje, seria contíguo ao da Farmácia Vitália, que ainda existe.
O Banco Nacional Ultramarino irá fazer remodelações de vulto no prédio adquirido, que receberia obras, em 1920, sendo dotado de mais um piso e uma mansarda e duplicado o alçado voltado para a Praça da Liberdade, pelo ganho de área de edifícios contíguos.

 
 

Construção das novas instalações da sucursal do Porto do Banco Nacional Ultramarino, observando-se os tapumes que protegem os trabalhos e exibem cartazes das “Propagandas Caldevilla” – Fonte: AHMP



 

Ao centro, os dois edifícios que permitiram a expansão das instalações daquele que passaria a albergar o Banco Nacional Ultramarino. A meio da foto, o restaurante Camanho que daqui saiu em 1917
 
 
 

Edifício resultante da intervenção para instalação definitiva da sucursal do Banco Nacional Ultramarino no Porto
 
 
 
Chalet Biester, em Sintra
 
 
Do casamento atrás referido de Amélia Freitas Guimarães Chamiço e de Frederico Biester, nasceria uma única filha que morreu muito jovem vítima de tuberculose óssea.
O casal haveria de habitar, por poucos anos, o chamado Chalet Biester, situado na estrada da Pena, na antiga propriedade da Quinta Velha, encomendado por Frederico Biester, para uma parcela de terreno adquirido, na Serra de Sintra, de cerca de 6 hectares e no qual intervieram artistas de renome europeu.
O Chalet foi projectado pelo arquitecto português José Luiz Monteiro, começado a construir em 1886, e decorado pelos melhores artistas da época, nomeadamente, Luigi Manini, nas pinturas de tectos e Leandro de Souza Braga, em todo o trabalho sumptuoso de marcenaria.
Os estuques ficaram a cargo de Domingos Meira, de Afife, a quem se deve, também, os trabalhos no vizinho Palácio da Pena.
 
 
 

Palácio Biester, em Sintra -  Fonte: @vleandro
 
 
Por morte de Amélia de Freitas Chamiço, por ausência de herdeiros directos, a sua tia, Claudina Ermelinda de Freitas Guimarães Chamiço, viúva de Francisco Chamiço, viria a ser a herdeira do Chalet Biester e de todos os demais bens daquele ramo da família, passando a ser a mulher mais rica do País.