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terça-feira, 20 de junho de 2017

(Continuação 12) - Actualização em 30/10/2018, 30/01/2020 e 07/12/2020




A Praça dos Poveiros recebeu a actual denominação, em homenagem aos pescadores da Póvoa do Varzim, portugueses residentes no Brasil, rebeldes contra a lei que em 1921, os obrigava a naturalizarem-se cidadãos brasileiros. As autoridades brasileiras nacionalizaram então a actividade piscatória. Dali em diante só poderiam exercê-la os nacionais brasileiros ou quem se naturalizasse como tal.
Para os poveiros isso equivaleria a renunciarem à sua pátria, a renegarem a sua terra natal.
Os poveiros não hesitaram: preferiram ser repatriados, regressando à sua Póvoa, deixando o trabalho assegurado e o bem-estar conseguido por anos de árdua labuta, trocando tudo por um futuro incerto.
Foi um acto de exemplar patriotismo, uma demonstração abnegada e comovente de amor à terra natal, e constituiu um dos factos mais marcantes na vida nacional, celebrado por toda a imprensa da época.
A cidade do Porto assinalou o memorável exemplo de patriotismo com o topónimo “Praça dos Poveiros” com que passou a designar-se a antiga Praça de Santo André.
A designação, como já notou Horácio Marçal, é infeliz, porque nada diz da intenção, e nem mesmo todos os pescadores eram naturais da Póvoa de Varzim e havia-os de muitas outras procedências.
No moderno Largo dos Poveiros, existiu também a capela de Santo André e de Santo Estêvão, demolida em 1863 em sequência do prolongamento até esse largo da Rua da Alegria decisão tomada pela Câmara desde 1858.
Porém, para tal, foi preciso negociar com a S. C. Misericórdia, pois a capela estava-lhe entregue. Só após longas e difíceis conversações chegaram a acordo. Aquela, impaciente, procedeu à profanação da capela. Só em 1863 foi demolida e os trabalhos foram concluídos em 1865, com o alinhamento dos passeios. 



Crónica religiosa: ontem houve festa de N. Srª do Socorro, em Santo André (praça dos Poveiros), com missa da Infantaria 2.”
In jornal “Periódico dos Pobres” de 13 de Agosto 1849



As imagens mais veneradas da Capela de Santo André, as de Santo André e de Nossa Senhora do Socorro, estavam, em 1905, no Colégio das Órfãs. Actualmente, estão no Colégio de Nossa Senhora da Esperança, na sua igreja.




Imagem de Santo André na Igreja de Nossa Senhora da Esperança - Ed. Graça Correia




Antes da capela ser levantada, talvez, na segunda metade do século XVII, c. 1685, existia um nicho que pertencia a um tal Estevão, pedreiro que vivia ali perto. Um dia, o nicho foi transformado em capela com o santo protector do referido pedreiro - Santo Estevão.
Em terreno anexo a essa capela, funcionava um cemitério que servia os hospícios vizinhos, na alçada da Misericórdia, das Lázaras e Lázaros.
Como se sabe, às pessoas que morriam de lepra não lhes era dada autorização para serem sepultadas no interior das igrejas como então era de uso.
Nos referidos hospitais eram internados os gafos, doentes que sofriam da terrível doença da lepra, altamente contagiosa. O medo do contágio era tal que as igrejas re­cusavam receber no seu interior corpos de doentes que tinham morrido da lepra. 
Foi para obviar a este inconveniente que a Misericórdia viria definitivamente a adquirir e tomar conta da administração da capela, em 5 de Setembro de 1721, tendo-a ampliado e colocado sob a proteção de um novo patrono (Santo André) e, ainda, de um amplo terre­no que a circundava onde, antes, já eram sepultados os irmãos da confraria, zelando em consequência, pelo culto na capela, à sombra de um cruzeiro de granito em que se representa­va Cristo na cruz.
Acontece que, o povo manteve, face ao novo patrono, o velho cos­tume de a designar por capela de Santo Estê­vão, tendo a edilidade portuense mantido, no seu in­terior, o altar do primitivo padroeiro e o do novo patrono, passando o pequeno templo a ser co­nhecido por capela de Santo Estêvão e Santo André. 



Planta com traçado proposto para o aqueducto de Mijavelhas, por Teodoro de Sousa Maldonado, em 11 de Junho de 1795



A Planta acima mostra a zona entre a Capela de Santo André (1), que já existia em 1795, há cerca de cem anos, com o seu cemitério que hoje corresponderá ao Largo da Ramadinha e a Rua do Senhor do Bonfim (2), mostrando ainda a arca de água (3) junto à Ponte das Patas (4), o traçado do aqueduto que daí partia para a cerca do Convento de Santo António (5), Campo de São Lázaro e fonte. 
De notar que o contíguo Recolhimento das Orfãs, em S. Lázaro, foi fundado em 1724.
Todos os anos a 30 de Novembro, no dia de Santo André, que para nós anda ligado à matança do porco, havia grande festa e arraial com ten­das de comes e bebes e, fazia-se ainda, uma célebre feira de se­mentes, utensílios para os trabalhos da la­voura e ferragens.



“O historiador do Porto, Henrique Duarte e Sousa Reis, que escreveu uns "Apontamentos para a história da cidade do Porto" nos meados do século XIX, referindo-se, à capela de Santo André, diz que ela foi construída "pelo Senado (a Câmara) à custa da cidade, visto ao tempo caber a esta entidade a administração dos hospitais, ca­pelas e ermidas que havia no Porto". Disse mais aquele historiador que "a capela foi fundada para uso dos gafos ou leprosos que a ela iam ouvir missa"”. 
In JN, Germano Silva



Por outro lado, sabe-se que houve inumações na capela.
Um dos corpos que ali foi sepultado foi o de Francisco António de Revelier, o fundador, em data anterior a 1804, do Recolhimento de Nossa Senho­ra das Dores, vulgarmente conhecido pelas Velhas do Camarão, por ser no largo com este nome que ficava a sede da instituição. Tendo falecido em 2 de Março de 1819, no seu testamento, aquele benemérito dei­xou expresso este seu desejo: "determino que quando for vontade de Deus levar-me da presente vida, meu corpo seja amortalha­do no hábito de S. Francisco e sepultado na capela de Santo André com o acompanha­mento da Santa Casa da Misericórdia de que sou irmão"
Aquele lar/recolhimento, também chamada de Casa Pia de Nossa Senhora das Dores viria a dar à antiga travessa de S. Lázaro para as Fontainhas o nome de Rua da Senhora das Dores em 1833, segundo Eugénio Andrea da Cunha e Freitas, “Toponímia Portuense”, p. 317.



Aqui, na esquina do Largo do Camarão, funcionou um curioso recolhimento que passou à história com o nome de «Recolhimento das Velhas do Camarão». Foi fundado por Francisco António Revelier e sua mulher, Inácia Maria, junto à Travessa de S. Lázaro «que vai para as Fontainhas», que é a atual Rua da Senhora das Dores. Não se conhece a data exata da fundação deste recolhimento mas sabe-se que já existia em 1804 porque uma escritura de doação desse ano refere-se a «um chão sito junto à casa do recolhimento…»”.
Fonte: Germano Silva



Em 1849, abriria, por aqui, o Hospital de S. Bernardo, como nos dá conta uma notícia da imprensa da época.


“5 de agosto de 1849 – Abertura do novo Hospital de S. Bernardo, no largo do Camarão, sendo protectora a Condessa do Casal e diretor D. Epifânio Asturdillo, com Botica própria”.
In jornal “Periódico dos Pobres no Porto” de 9 de Agosto de 1849, p. 749 – Cit. de “Porto Desaparecido”


A condessa do Casal era casada com José de Barros Abreu Sousa e Alvim (1793-1857), um general de Divisão, que uns meses antes tinha, ao lado do governador civil, acompanhado o rei Carlos Alberto, na sua chegada ao Porto, a 19 de Abril de 1849, desde do Carvalhido, até à estalagem do Peixe.
Três anos antes, o que viria a ser, a partir de Janeiro de 1847, o conde de Casal, estava por Valença, onde comandava as forças que se conservavam fiéis ao governo de Lisboa, durante a guerra civil, terminada com a convenção de Gramido.
Foi um dos bravos que desembarcaram, em Pampolido, com D. Pedro IV, chegando a ser nomeado governador de Trás-os-Montes por D. Maria II e par do reino desde 1849.



Largo do Camarão em Planta de Telles Ferreira de 1892



Largo do Camarão em Planta de W. B. Clarke de 1833


Na planta acima a azul vê-se o traçado do que seria a Rua de S. Víctor e a amarelo a Praça da Alegria.
Na planta acima observa-se o Beco do Arrabalde, a Rua Nossa Senhora das Dores e a Rua de S. Dionísio dos nossos dias e, entre estas duas, se situava o Largo do Camarão.
À desaparecida capela de Santo André andava ligada uma curiosa lenda. À volta de um retábulo das Almas do Purgatório que havia no interior da capela, cresceu uma profunda devoção. Era tão grande e tão arreigada essa crença popular, que havia quem acreditasse que por altas horas da noite as portas da capela se abriam por si e por elas saíam as almas em procissão regressando ao templo já de madrugada, antes do romper do sol.
Pensa-se que a entrada principal da capela era virada a poente e feita através de pequeno lanço de escadas, que segundo o Padre Patrício, reitor do “Colégio dos Orfãos”, em 1905 escrevia, que a escadaria da capela se abria “para o lado do antigo sítio do Campinho e da Pocinha”.
Neste largo realizava-se em tempos uma feira da erva e diariamente um mercado de hortaliças.
Uma Rua de Santo André ainda existe nas imediações ligando a Rua Santo Ildefonso e a Rua do Campinho.



Capela de Santo André e Santo Estevão, em 1856, em desenho de Francisco José de Sousa



Planta de Joaquim Lima Júnior em 1839



Na planta acima a letra A indica o local de implantação da capela de Santo André e Santo Estevão e, em 1839, a Rua Direita de Santo Ildefonso era Rua 23 de Julho e a letra D a Viela dos Pardieiros.
A viela no canto superior esquerdo que desemboca na Rua 23 de Julho, com a letra C foi a Viela do Caramujo e com as letras E e B, respectivamente a Rua de Santo André e Rua do Campinho.
Na remodelação do espaço do Largo de Santo André desapareceram vários topónimos. É o caso da Viela do Caramujo, quando se abriu a Rua da Alegria (após o fim das lutas liberais), e que correspondia ao troço da Rua da Alegria que agora vai da Rua Formosa à Praça dos Poveiros e desapareceram igualmente, outras artérias ao longo dos tempos como a Viela dos Pardieiros que era a continuação da actual Rua do Campinho.
A Rua da Alegria, inicialmente, situava-se entre a embocadura da actual Rua da Firmeza e a Rua Formosa, facto bem observável na planta abaixo. O prolongamento até ao Largo de Santo André, hoje Praça dos Poveiros, foi projectado somente a partir de 1857 mas, as obras, só começaram em 1863 e deram origem, naquele tempo, a profundas alterações no tecido urbano daquela zona.
Este troço viria a substituir a Rua do Caramujo.



Planta de Balck de 1813 em que o trajecto AB indica a Rua da Alegria



Em 1916, por iniciativa do vereador Elísio de Melo, começam as demolições das construções, que permitem desafogar o Largo de Santo André e, assim, permitir o prolongamento da Rua Passos Manuel.


 

Planta do Largo de Santo André em 1911
 
 
 

Perspectiva obtida a partir da seta 1, da planta de 1911
 
 
 

Perspectiva obtida a partir da seta 2, da planta de 1911. À esquerda desenvolveu-se a Praça dos Poveiros
 
 
 
A foto acima é do início do século XX. À direita ficou em tempos a Viela do Caramujo.
O edificado observado, em parte, na foto anterior, à esquerda, seria demolido a partir da década de 1950 e da área, respectiva, surgiria a Praça dos Poveiros dos nossos dias.
 
 
 

Mesma perspectiva da foto anterior
 
 
O local ocupado pelo edifício central da foto acima, onde está o “Restaurante Ribeiro” tinha o aspecto da foto abaixo.
 
 

Praça dos Poveiros onde estava o “Restaurante Ribeiro”- In JN

 

Na foto acima, à direita, o Restaurante Ribeiro e, à esquerda, a taverna do mesmo restaurante e a casa de comidas económicas.



Edifício St.º André que ocupou a área observada na foto anterior. À direita, continua a existir o Restaurante Ribeiro





Largo de Santo André em perspectiva obtida a partir da seta 3, da planta de 1911 – Fonte: Guido de Monterey, “O Porto Origem, Evolução e Transportes”. Edição do Autor 


O quiosque da foto acima, que inicialmente foi instalado no Largo de Santo André (1930) e, que com a urbanização da Praça dos Poveiros foi colocado no Largo da Ramadinha em 1948, está desde 2003, na Praça Carlos Alberto.
O quiosque é uma réplica do original mandado construir pela Câmara Municipal do Porto. Construído em madeira, de planta hexagonal, estilo Romântico, está classificado como Imóvel de Interesse Municipal, na sequência do decreto 2/96, publicado no Diário da República a 6 de Março.



O quiosque na Praça Carlos Alberto - Fonte: pt.wikipedia.org




A Praça dos Poveiros ostentou também o topónimo de Largo da Feira da Erva por aí se fazer, em tempos, o mercado desse produto.
À Rua de Santo André encontramos referências em 1692 e chamava-se Mijavelhas a todo o espaço que hoje compreende a Rua do Morgado de Mateus, assim chamada a partir de sessão camarária de 6 de Julho de 1933, e que se chamou primeiro Rua do Mede Vinagre e, depois, da Murta e o Poço das Patas (hoje Campo 24 de Agosto).
Por aqui, esteve a forca até 1714, ano em que o Senado deliberou mudá-la para a Ribeira.
A ribeira de Mijavelhas, que desaguava no Douro, caindo lá de cima do Monte do Seminário, passava pelo que é hoje a Rua Duque da Terceira e Rua Duque de Saldanha e Largo Baltasar Guedes e fazia mover no seu percurso, numerosas azenhas que por lá existiram.
Entre os Poveiros e o Largo do Padrão ia-se em tempos pela Rua direita do Padrão das Almas (Rua Santo Ildefonso). No Padrão existia um cruzeiro com o nome de Senhor do Amor Divino das Almas. O cruzeiro encontra-se no cemitério do Bonfim desde 1869.





Cruzeiro do Largo do Padrão das Almas actualmente



Junto ao actual Largo do Padrão, existiu a Viela dos Capuchos, que por meados do século XIX, era uma simples artéria estreita e sinuosa que ligava o antigo Largo do Padrão das Almas ao convento dos frades franciscanos menores da Província da Conceição (Antoninhos de Santo António da Cidade) também conhecidos por Capuchos (daí a designação da viela) em cujo mosteiro, construído no ano de 1783, nos terrenos do antigo Campo de S. Lázaro, se instalou, em 1842, a Biblioteca Pública Municipal.
Quando, em 1843, se começou a rasgar a rua que hoje tem o nome de D. João IV, a Viela dos Capuchos desapareceu, absorvida pelo novo arruamento.
O projecto da nova artéria previa que ela começaria em S. Lázaro e prolongar-se-ia até ao sítio da Cruz das Regateiras, junto ao Hospital do Conde de Ferreira, o que nunca aconteceu, por dificuldades surgidas com as expropriações.
Com a Viela dos Capuchos, também levaram sumiço a Rua do Poço das Patas, a Rua de Brás de Abreu, artérias que, nos meados do século XIX, integravam o tecido urbano das imediações do actual  Largo do Padrão por onde, segundo uma antiga tradição, era costume passar uma procissão chamada de Santo António, e que era "uma procissão familiar”, não se tratando, porém, da tradicional festa ao Santo Antoninho da Estrada.
Tudo se terá passado no último quartel do século XIX. Um paroquiano do Bonfim, de nome António Jacinto Pinto Banha, funcionário superior da empresa dos Caminhos de Ferro do Douro e Minho, ofereceu uma imagem de Santo António, de que era devoto, à confraria do Senhor do Bonfim e da Boa- Morte.
Era essa imagem que os devotos de Santo António levavam em procissão por algumas ruas da freguesia em 26 de Julho de 1894.


“…Da paroquial do Bonfim, cujas obras de construção, iniciadas em 1874, tinham acabado exactamente nesse ano de 1894, ou seja, vinte anos depois, saiu "uma linda procissão" que rumou "ao antigo Campo do Poço das Patas" (actual Campo 24 de Agosto); subiu "pela Rua de S. Jerónimo" (a Rua de Santos Pousada dos nossos dias); prosseguiu pelas "antigas travessas da Alegria e S. Jerónimo", (que, uma vez unidas, vieram a dar a actual Rua da Firmeza); continuou pela Rua da Duquesa de Bragança (depois, Rua de D. João IV); atravessou o Largo do Padrão das Almas, assim denominado por causa de um cruzeiro que lá existia da invocação do Senhor do Amor Divino e Almas, retirado do local em 1869; e pela Rua de 23 de Julho, hoje Rua de Santo Ildefonso, a procissão recolheu à igreja de onde havia saído.”
Com a devida vénia a Germano Silva 


Voltando à Praça dos Poveiros, ela está ainda ligada à proclamação da República Brasileira, pois, na fachada do nº 68 tem uma placa evocativa ao facto histórico referido, por aí ter estado instalado o Centro Democrático Federal 15 de Novembro.
Nesta data do ano de 1889, foi proclamada a República do Brasil pelo general Deodoro da Fonseca, tendo sido a bandeira deste centro que esteve também, por breves momentos içada nos Paços do Concelho, aquando do malogrado 31 de Janeiro de 1891, no dia da falhada revolução republicana do Porto.



Centro Democrático Federal 15 de Novembro, no prédio mais à direita


Praça dos Poveiros, em meados do século XX, com a icónica Relojoaria Aguiar à direita da foto




Existe uma Rua 15 de Novembro, dia da proclamação da república no Brasil, unindo a Rua dos Vanzeleres e a Avenida da Boavista.



Pela direita, a passagem da Praça dos Poveiros para o Largo da Ramadinha, em 1955


domingo, 11 de junho de 2017

(Continuação 3)

18.5 Campo 24 de Agosto e ribeira de Mijavelhas


Em 24 de Agosto de 1820, eclodiria no Porto no Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República), uma revolução que aproveitava a ausência no Brasil do comandante inglês, Beresford, levada a cabo por um grupo militar fundado por Manuel Fernandes Tomás, denominado Sinédrio. Aquela data, viria a dar desde 1 de Agosto de 1860 nome ao primitivo Campo de Mijavelhas, como Campo 24 de Agosto.
Este local teve várias denominações ao longo da história.
Na Idade Média, denominava-se Campo de Mijavelhas.
Depois, seria O Poço das Patas (sendo que uma ponte conhecida por Ponte do Poço das Patas foi construída em 1700, e demolida cerca de 1850) e, em 1833, era o Campo da Feira do Gado (aí ali realizava-se um mercado de gado bovino) e, também, a partir de 1839, o Campo Grande. 
Aquando da invasão francesa do general Soult, na qual os soldados invasores entraram na cidade a 28 de Março de 1809, os vereadores da Câmara seriam intimados,  segundo uma testemunha da época, a proceder, "no prazo de vinte e quatro horas, ao enterramento de todos os cadáveres que se têm tirado do rio e existem pelas ruas da cidade", e continuava: "(…) e como os franceses haviam proibido os en­terros no interior das igrejas e nas cercas dos conventos onde estivessem a funcionar hos­pitais ou quartéis, ao serviço deles, muitos mortos foram sepultados numa bouça acima da feira do gado".
Aquela bouça situava-se no antigo sítio de Mijavelhas, ou do Poço das Patas, actual Campo de 24 de Agosto, onde, por aquele tempo, se fazia uma importante feira de gado. Diga-se ainda que, na sua fuga, ficaram em diversos hospitais da cidade cerca de 4000 franceses feridos. 
Em 1 de Agosto de 1860, por decisão camarária, o local foi designado Campo 24 de Agosto. Um arruamento adjacente, hoje a Travessa do Campo 24 de Agosto, chamou-se em tempos Monte das Feiticeiras e ligava à Travessa de Montebelo.
Entre os mananciais para abastecimento de água mais importantes da cidade, estava o manancial ou aqueduto do Campo Grande.
Uma das fontes que beneficiava da água daquele manancial era a “Fonte de Mijavelhas”. 
Esta fonte ficava situada em terrenos onde se encontra hoje a estação do metro do Campo 24 de Agosto.


“Quem já usou a referida estação deve ter reparado com toda a certeza no achado arqueológico que foi encontrado no local e que retrata aquela que foi a “Arca de Água de Mijavelhas” antigo chafariz, reservatório. A sua reconstrução aviva a memória de todos os portuenses e relembra a sua história”.
Fonte: “monumentosdesaparecidos.blogspot.pt”



A Fonte de Mijavelhas e os lavadouros anexos (a meio da imagem), no local onde, desde há muitos anos, estão uns balneários públicos – Planta de Telles Ferreira de 1892





O contrato para o abastecimento de água ao domicílio, feito entre a Câmara do Porto e a Companhia (Compagnie Général des Eaux pour l'Etranger), é de 22 de Março de 1882.
Isto quer dizer que, até àquele ano, os cidadãos do Porto que não tivessem poços privados, abasteciam-se nas fontes e nos chafarizes que estavam espalhados por toda a cidade.
Por sua vez, as fontes e chafarizes eram abastecidos por água proveniente de vários mananciais.
Os mais célebres eram: o de Paranhos ou Arca d'Água, por ter nesta última localidade as nascentes, que eram três; o de Camões e o da Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal); e outros, entre os quais estava o manancial ou aqueduto do Campo Grande, que abastecia um significativo número de fontes e chafarizes.
Neste local passava um regato conhecido por Ribeira de Mijavelhas e também por Ribeira das Lavadeiras ou ainda, Ribeira do Poço das Patas.
O topónimo Mijavelhas, já assim chamado no séc. XIV, é uma designação pitoresca que teve origem, segundo uma antiga tradição, por ser ali que as mulheres se "aliviavam" quando vinham de Valongo e São Cosme à cidade, para vender produtos agrícolas e pão nas feiras de São Lázaro.
Tinha, na confluência das actuais Ruas do Duque da Terceira e Morgado de Mateus, bem perto da residência dos Cirnes, 


“uma ponte com uma largura de 4 metros e assente sobre um arco de granito. Foi mandada construir pela câmara municipal no ano de 1700 com o fim de melhorar o trânsito da estrada Porto-Valongo, que nesse ponto descia até ao riacho e do riacho subia até ao Bonfim. Quer dizer: o rio de Mijavelhas, nesse sítio, corria ao longo de uma pronunciada fundura. Passados 150 anos, ao nivelarem toda a zona do Campo Grande, ficou a ponte soterrada… Na frente do actual casario, quase no ângulo da Rua do Bonfim, havia, ainda, abaixo do nível da rua, a Arca d’Água do Poço das Patas, alimentada por aqueduto pela citada nascente com frontispício de pedra encimado por brasão régio.”
In Tripeiro, Série VI, Ano XII



Esse local passaria a chamar-se Poço das Patas devido às características alagadiças do terreno que originava a formação de grandes poças que as “patas” frequentavam e a ponte atrás referida era a Ponte do Poço das Patas.
Pelo Poço das Patas esteve a Casa da Pólvora.
Sobre o ribeiro de Mijavelhas um outro texto da Sociedade Metro do Porto diz:



“…Estes trabalhos permitiram registar uma ocupação do local entre o Séc. XIV e o Séc. XIX, com 4 grandes marcos na sua construção: 1.º, no século XIV, antes de 1384, a sua fundação, com a construção do chafariz de Mijavelhas que consistia numa fonte de mergulho; 2.º, no Séc. XVI, antes de 1548, com o seu alteamento em arca e a pavimentação de uma área extensa na envolvente; 3.º, no Séc. XVII, depois de 1633, a ligação à cidade, pela alimentação da fonte da rua Chã, construída a propósito; 4.º, no Séc. XIX, ano de 1819, com a ampliação de que resultou o reservatório arcado. 
Em paralelo, a partir do século XVIII, este espaço sofreu um paulatino assoreamento, possivelmente devido à construção logo a jusante da Ponte das Patas, em 1700. 
Até que, por este, desapareceu o primitivo vale da ribeira de Mijavelhas. De destacar no início desse processo, a acumulação acidental de um depósito rico em materiais invulgares. 
Mas, de toda esta estratificação, será de, sobremaneira, realçar a intervenção do século XVI assinalada com armas reais de D. João III (?). Num certo esforço de organização proporcionada do novo espaço, o indício de possível presença de um programa arquitetónico renascentista, plausível à luz do ambiente cultural vivido, à época, no Porto, e que é por alguns historiadores designado de Renascimento de granito do Norte. 
…Investimento certamente justificado pela sua localização junto à saída da cidade para a "Estrada de Valongo e além.
Em inícios do século XIX, ainda este local se encontrava na zona periurbana do Porto, na sua saída para a "Estrada para Valongo e além". 
Remonta a sua definição atual a 1850, altura em que a Câmara executou um aterro com vista à regularização da sua topografia e subsequente urbanização. Tal implicou o encanamento da ribeira de Mijavelhas e o soterramento da Ponte das Patas, construída no ano de 1700”.




Foz da Ribeira do Poço das Patas no rio Douro



No séc. XIX, havia duas feiras neste espaço, a do gado bovino, que se realizava às terças e sextas-feiras, que já funcionava em 1833 e, passou, em 1868, para o Largo da Póvoa de Cima, actual Praça da Rainha D. Amélia e a de cavalos, que era mensal, só em 1892 foi mudada para a Praça da Corujeira.
Quando a forca esteve por estas bandas, teria existido uma capela de formato redondo, junto à residência dos Cirnes (actual Junta de Freguesia do Bonfim), onde iam rezar os condenados antes de subir ao patíbulo em Mijavelhas. Era conhecida por ”Capela do Poço das Patas”, desaparecida no século XVIII.
Outra Capela por aqui existiu, da invocação de S. José, que se si­tuava um pouco além da saída da Rua de Santo Ildefonso.


“Nessa zona existiu, uma capela da invoca­ção de S. José, propriedade de um tal Jo­sé Lopes, cónego da Sé, e que se situava, sensivelmente, um pouco adiante da en­trada da Rua de Santo Il­defonso, naquele espaço que fica entre esta artéria e a Rua do Duque de Tercei­ra, "na margem direita do Poço das Patas, antes da entrada na ponte", lê-se numa notícia dos meados do século XIX”. 
Fonte: Germano Silva


Seria esta capela, também, da invocação da Senhora da Saúde, para a qual foi transferido, em 1869, o Cruzeiro da Aldeia da Formiga, vindo da confluência da Viela de Sacais (actual Travessa do Bom Retiro) com a Rua do Heroísmo.
O jardim, existente é melhorado nos primeiros anos da República, entre 1912 e 1914, a maior parte das suas árvores são ainda originais da altura da sua criação. Normalmente usado como local de passagem, este jardim de forma triangular integra um lago irregular à volta do qual predominam cedros e camecíparis ainda jovens. O jardim é dominado a norte por um miradouro que aí foi edificado, aumentando o declive natural do terreno. Em torno do jardim plantaram-se plátanos. A sul encontra-se uma série de jacarandás originários do Brasil, bastante raras no norte do país. Destaca-se no jardim uma escultura representando Afonso Costa.




Campo 24 de Agosto antes da explosão industrial



Campo 24 de Agosto - Ed. Alberto Ferreira - Batalha-Porto



Perspectiva da foto anterior. Actualmente, os prédios 1, 2 e 3 parecem coexistir




Campo 24 de Agosto antes de eclodir a explosão industrial



No início do séc XX, neste espaço, foi implantada alguma indústria importante, podendo observar-se, em sequência, várias chaminés de fábricas, na foto e postal, que se seguem.



Campo 24 de Agosto, no início do século XX





Campo 24 de Agosto, em 1919 - Fonte: “Bosspostcard, Delcampe”



Jardim no início do século XX – Fonte: Arquivo Municipal do Porto




Foto actual e estátua de Afonso Costa - Fonte: Panoramio.com




Mapa do Campo 24 de Agosto, em finais do século XIX

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

(Continuação 7) - Actualização em 12 Julho 2026

10.5 MANANCIAL DO CAMPO GRANDE E MANANCIAL DA AGUARDENTE



O Manancial do Campo Grande era resultado da junção do Manancial de Montebelo e de algumas minas existentes nas imediações. 



“A primeira referência conhecida sobre a existência de água no Campo de Mijavelhas surge no século XV na Crónica d' El Rei D. João I, escrita por Fernão Lopes que, reportando-se para a crise sucessória entre 1383 e 1335, relata que 700 homens do burgo do Porto juntaram-se junto ao chafariz aí existente para aguardar pela chegada das tropas galegas comandadas por D. João Manrique.
Mas, só a 22 de Setembro de 1548 é que surgem as primeiras referências relativas à existência deste manancial, aquando do Prazo de cedência da Quinta do Reimão, celebrado entre a Câmara da cidade e António de Madureira e sua mulher, Maria Fernanda das Póvoas. Uma das cláusulas do contrato dava o direito aos emprazados acima referidos de usufruir da água do ribeiro e da arca de Mijavelhas.
 Nas Memórias Paroquiais de 1758, o padre Simão Duarte de Oliveira descreve o seu percurso, como também salienta a importância dos lavadouros existentes no local, dizendo-nos que:

“[…] poço das Patas, onde se lavam a maior parte das roupas da cidade, que nunca falta por mais rigoroza que seja a sua, tendo também quantidade de tanques parta este efeito, cujas vertentes dessem à Ponte das Patas e por baixo dellas correm por três arcos a regar a Quinta de Francisco Diogo de Souza Cirne, a do Prado e a dos Padres da Companhia e dos seus moinhos de Val de Milhorados, e vai dezaguar ao rio Douro.”


O cano de Mijavelhas, bem como as suas fontes, foram arranjados a 11 de Maio de 1707 pelo Mestre pedreiro João Fernandes. Este voltou a arrematar outro conserto a 29 de Fevereiro de 1708. Mas foi na segunda metade do século XVIII, que a remodelação deste manancial, bem como dos outros existentes na cidade, foi uma das muitas preocupações da Junta das Obras Públicas.
Este aparece-nos referenciado como aqueduto de Mijavelhas ou aqueduto do Poço das Patas.
Em 1812, uma carta régia demonstra o interesse do soberano pela arca do Poço das Patas. Isto terá, por certa forma, impulsionado as obras de remodelação que foram feitas em 1819, demonstrando o desenvolvimento da planta como a conhecemos hoje, na estação de metro do Campo 24 de Agosto. No entanto, são visíveis as diferenças da construção entre o poço central em cantaria, e o espaço periférico em alvenaria, sendo o primeiro espaço, o mais antigo.
Henrique Duarte e Sousa Reis, em 1866, ao contrário de Baltasar Guedes dois séculos antes, eleva o valor da água bem como os vários nomes da mesma, dizendo:

“O segundo manancial, considerando a importância e qualidade d‟agoa que produz, vem a ser o chamado do Campo Grande, denominaçaõ posterior que se lhe deo por assim se (sic) conhecido o lugar aonde assenta a sua arca, sendo modernamente mudado o nome para Campo 24 d‟Agosto, notando se que a esta nascente chamava se primitivamente Mijavelhas”.
No estudo de Tito Bourbone de Noronha, 24 anos depois, revela-nos que a água era transportada em tubos de ferro até à fonte da Batalha e depois em tubos de chumbo para as fontes de S. Sebastião e da Rua Chã. Ainda refere que as fábricas de fiação abriram poços que fizeram o manancial secar, sendo depois estas a fornecer água às fontes públicas. Por último, refere que a água “não é límpida, de gosto regular.””
Com a devida vénia a Diogo Emanuel Pacheco Teixeira, In: Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa



O Campo Grande é o actual Campo de 24 de Agosto. Este concorrido local do Porto teve várias denominações ao longo dos tempos. Tinha, na Idade Média, a pitoresca denominação de Campo de Mijavelhas. Depois deram-lhe o nome de Poço das Patas, o que até se compreende se tivermos em conta as características alagadiças do terreno onde se formavam enormes poças que aquelas aves frequentavam com assiduidade. Em 1833, era o Campo da Feira do Gado, porque nesse espaço se realizava um importante mercado de gado bovino e seis anos depois, já era só o Campo Grande. A actual designação foi-lhe dada por deliberação camarária de 1 de Agosto de 1860.
O Manancial do Campo Grande tem sido, em comparação com os demais, o que menos atenção tem despertado, a quem se tem debruçado sobre a história do abastecimento de água à cidade do Porto. Daí, que escasseiem alguns dados históricos, nomeadamente, o da data da sua construção.



Entrada para o sub-solo para o manancial do Campo Grande – Ed. J. Bahia Júnior em 1909



Segundo os dados que se conhecem no século XV existiu no local de Mijavelhas um manancial conhecido por Manancial de Mijavelhas e uma fonte com o mesmo nome - Fonte de Mijavelhas,


“…fonte para a qual se descia por alguns degraus, e nesse plano, talvez dois metros ou menos ainda, abaixo da superfície do campo havia compridos tanques de pedra lavrada, com as devidas divisões, onde a água se detinha e se tresvasava conforme o serviço da lavagem requeria; e, ali, ranchos de lavadeiras se entregavam à faina do seu trabalho, cantando ao desafio e fazendo com que os transeuntes, por vezes parando junto do parapeito superior, se entretivessem a gozar aquele passatempo. 
A água da fonte via-se afluir brotando em límpidos borbulhos á superfície da cavidade da terra ali formada.”
Árvores de uma grossura enorme, cuja ramagem, nos dias calmosos de verão produziam uma agradável sombra, rodeavam, cá em cima, os tanques que, lá em baixo, davam trabalho às lavadeiras. Eram alamos e choupos de tal pujança que deviam ter alguns séculos de existência. Apenas lá existe uma como para memória.
O campo da feira do gado era todo orlado dessas agigantadas árvores; tinha muitos bancos de pedra para comodidade do publico; tinha pelas extremidades do recinto, renques ou alas de piões, que de espaço em espaço eram aformosadas com alguns mais vistosos.
O solo era tão fundo que hoje, a sua depressão se acentuava mais do lado do poente e ao chegar a alinhar com a Rua do Bonfim em frente a Palácio do Cyrne, havia uma ponte com arcos de pedra, por baixo dos quais passavam as águas, que encanadas em parte, com certo ruído lá iam por debaixo da rua e em largo aqueduto, desaguar nos campos do fidalgo. Tinha a ponte para o lado da feira um bem lavrado parapeito e junto dele alguns bancos de pedra, onde por noites serenas os industriais do Bonfim vinham gosar a fresca viração que ali corria, e ouvir, além do canto das aves, o coachar das rãs que em baixo e aos pinchos nas águas se divertiam. E certamente em tempos passados até patos por ali andavam, e esse facto concerteza é que originou o dizer-se Poço das Patas
In O Tripeiro, Volume nº. 2 de 20/8/1909



Nos séculos XVI e XVII já se fazia o aproveitamento da água numa arca (Arca de Mijavelhas) e conhecem-se disputas sobre a água entre a Câmara e Frei Pero Vaz de Sousa e Cirne.
Desde 1629, que a Câmara tentava obter para a sua administração a água do ma­nancial de Mijavelhas (Campo de 24 de Agosto), com a qual iria abastecer o projetado chafariz da Rua Chã. A água deste ma­nancial e a das Fontainhas eram considera­das como as melhores do Porto daquele tempo.


“A Rua Chã tratava-se de uma artéria onde viviam as famílias mais importantes do burgo e o alto clero diocesano, pelo que, a Câmara tinha mandado construir nela, em 1391, uma estalagem " com bons cómodos" exatamente para a acomodação de quem estivesse de passagem.
Para serviço dos moradores e embelezamento da rua, a Câmara deliberou concretizar, aí por 1633, um projeto que alimentava havia três ou quatro anos: a construção de um chafariz.
E apontou logo o lugar onde ele devia ficar: “no encontro da Rua Chã com a Rua do Loureiro. Ou seja, na parte mais ampla da rua”.
E donde viria a água para alimentar o chafariz? De Mijavelhas.
Mas as negociações não foram fáceis. Aos louváveis intentos da Câmara opôs-se frei Pero Vaz de Sousa Cirne, da casa dos Cirnes, onde hoje funcionam os serviços da Junta de Freguesia do Bonfim, tutor de seu filho Manuel e herdeiro dos seus bens. 
Faça-se aqui um breve parêntesis para explicar o seguinte: Pero Vaz de Sousa Cirne, após a morte de sua mulher, ocor­rida antes de 1629, professou na Ordem Hospitalar de Malta. E aí está a explica­ção para o tratamento de frei e a existên­cia de um filho... 
A questão da água de Mijavelhas andou anos pelos tribunais. Frei Pero Vaz, que já trazia em mente a venda da casa dos Cirnes e a propriedade anexa, conhecida por quin­ta do Reimão, que se estendia até à quinta do Repouso do bispo, onde agora está o ce­mitério, alegava que a quinta valia 10 000 cruzados com a água; e que sem ela valia muito menos. Dizia mais: que além disso havia na cidade mais de 30 fontes, incluin­do as que estavam fora e as de dentro do bur­go. O que era verdade. Mas fontes de água boa para beber só havia três: a da Porta do Olival; a da Rua das Flores; e a da Rua Nova, actual Rua do Infante D. Henrique. 
Reconhecendo que não conseguiria ga­nhar a questão nos tribunais, a Câmara re­solveu tratar do assunto através, digamos assim, da via diplomática, procurando al­cançar um acordo que servisse as duas par­tes. E conseguiu-o. A partir de 25 de julho de 1633 a água de Mijavelhas passou a ser da cidade, mediante o pagamento, por par­te da Câmara, de 1000 cruzados a frei Pero Vaz. E à quinta do Reimão ficavam a per­tencer as águas vertentes de outras fontes. 
Concretizado este acordo, a Câmara co­meçou então a pensar a sério no chafariz da Rua Chã. Ainda nesse ano de 1633 a obra "foi posta a pregão", hoje diríamos a con­curso e as obras começaram logo a seguir, em 1634 ou 1635.”
Com a devida vénia a Germano Silva



Sobre aquela disputa conta-nos, por seu lado, J. Bahia Junior no seu trabalho “Contribuição para a Hygiene do Porto”:


“…Ora, querendo a Camará levar a agua d'esté manancial para uma projectada fonte na rua Chã, julgando-se para isso com direito pois que o dito manancial, posto que tivesse sido vendido o terreno em que estava, conservava no frontespicio da arca as armas reaes, fez-lhe opposição Frei Pedro Vaz Soares Cirne na qualidade de tutor de seus filhos menores que eram os possuidores do praso fateozim feito pela Camará em 22 de setembro de 1548, com o foro annual de 130 réis, no qual estava incluido este terreno, e cuja data de reconhecimento por Pedro Vaz Cirne e mulher, é de 3 de fevereiro de 1614. Tendo porém perdido os seus direitos perante o juizo da Correição'do Civel da Relação do Porto e teudo o Senado aggravado para a Casa de Supplicação, parece que reconhecendo já a sua infelicidade n'estas questões em que, como tivemos occasião de ver varias vezes, sempre perdia, desistiu, "com a clausula de ficar para os emphiteutas toda a agua das fontes que alli haviam,,. 
Finalmente por Escriptura de 25 d'agosto de 1633, comprou a Camará a Frei Pedro Vaz Soares Cirno a agua do Manancial de Mijavelhas pela quantia de 400S000 réis para  réalisai' o seu intento. Foi então logo feita a arrematação em hasta publica no anno seguinte de 1634 a 1635 da obra do Chafariz da rua Chã que foi tomado por 1:000$000 réis, custando depois mais 200S000 réis o rebaixamento do Chafariz por se ter reconhecido que o seu nivel era superior ao do Manancial, não contando portanto a agua n'este ponto.
Não foi n'este local que elle se fixou definitivamente, e a 20 d'outubro de 1635 era mudado para o largo onde permaneceu durante muito tempo, como consta no L.° 5 Prop. fl. 196…”



No texto acima a expressão “Praso Fateozim” que hoje se escreve “Prazo Fateusim”, era:


“Um prazo fateusim é um domínio, uma propriedade fundiária que passa por um contrato enfitêutico (enfiteuse) e é entregue em princípio em três vidas, diz-se assim, porque partia do chefe de família que depois podia deixar por morte à viúva e depois ao filho do casal que fosse nomeado para suceder. O contrato podia ser renovado noutras vidas e assim ia sendo o prazo transmitido na mesma família, mas não necessariamente de pai para filho.
Os domínios eclesiásticos usavam muito essa figura em contratos de cedência de propriedade em vidas para ser trabalhada, beneficiada (benfeitorias), contra determinados foros ou prestações fixadas para determinadas alturas do ano, geralmente, festas religiosas.
Estes contratos tiveram tendência para se extinguir no período liberal”. 
Fonte - Pedro França In: geneall.net



No século XVII, conhece-se, também, a existência de enxurradas que soterraram a arca.
No século XVIII, é levantado um novo aqueduto de abastecimento de água à cidade a partir do Campo Grande.




Manancial de Montebelo e minas das imediações
 
 
 
O Manancial do Montebelo, corria pela Rua do Montebelo, a actual Avenida Fernão de Magalhães.
Este manancial que pertenceu ao bispo, tinha na padieira da porta de entrada, junto ao prédio com o nº 190 da Rua de Montebelo, a pedra de armas episcopais de Frei José Maria da Fonseca Évora e gravada a data de 1749.
Em 1838, a água proveniente deste manancial foi cedido à Câmara.




Entrada do Manancial de Montebelo – Ed. J. Bahia Júnior em 1909



Na foto acima, vê-se a porta de entrada do manancial de Montebelo, encimada pelas armas episcopais e situado no extremo da Rua das Eirinhas, junto ao que é hoje a Avenida Fernão Magalhães. 



Por aqui, ficava o n.º 190, na Rua do Montebelo (Avenida Fernão de Magalhães), onde o cilindro ao fundo das escadas, à direita, será o acesso actual à nascente do manancial





Rua de Montebelo



Zona da antiga Rua de Montebelo em 1952 – Fonte: Arquivo Histórico e Municipal



Na foto acima, com as Eirinhas, à direita e, à esquerda, no que é hoje o Bairro de Fernão de Magalhães, podem observar-se os trabalhos da abertura daquela avenida entre a Rua de Barros Lima e o Campo 24 de Agosto.



Aspecto actual do local da foto anterior – Fonte: Google maps



Existiria, então, uma mina na Rua de Montebelo, propriedade de José de Melo Peixoto e de Bento Luís Correia de Melo, conhecida por mina dos Melos. Desta mina a água seguia para uma arca situada no tal prédio, que fazia esquina com a Rua das Eirinhas.
Daqui, de um dos ramos desta mina, saía um cano de chumbo que levava a água pela Rua Ferreira Cardoso e Rua do Saldanha para abastecer a Fonte Exterior do Cemitério do Prado do Repouso, a Fonte do Roseiral (junto ao crematório) e os dois tanques semi-circulares existentes na entrada Norte do cemitério.
Sabe-se, por um documento existente, que no ano de 1849, existia "uma biqueira" (telha por onde corre a água) que lançava no Manancial do Campo Grande, água que vinha de uma outra mina, do Visconde de Castelões, situada na Estrada do Senhor do Bonfim, na entrada da actual Rua do Bonfim.
Em data que não é possível confirmar, a Misericórdia do Porto comprou uma outra nascente, a Manuel Correia Espadeiro e mulher, moradores no Poço das Patas, "huma poça d'Agua, no Monte de Mijavelhas, junto aonde antigamente estivera a forca" para ser introduzida no manancial e daí seguir para o recolhimento das Órfãs (Nossa Senhora da Esperança).
Uma outra mina situava-se na Póvoa de Baixo, ou seja o local onde hoje confluem a Rua de Santos Pousada e o Campo 24 de Agosto. A água daqui proveniente era conduzida num encanamento até à Arca do Poço das Patas.
No fim do século XIX, um outro manancial originado nestas bandas teve um papel importante. Tinha origem na Quinta da viúva Cunha.
 
 
Torreão da Arca da viúva do Cunha

 
Pode dizer-se que esta estrutura, pela origem do caudal que recebia, fazia parte do manancial do Campo Grande, estando, porém, localizada na Quinta de Vilar das Oliveiras, em Nova Sintra, que pertenceu à família Reid, desde 1866 até 1922.
Em 1922, a firma “Almeida & Miranda”, joalheiros portuenses com estabelecimento na Rua de Cedofeita, adquiriu a histórica quinta aos herdeiros de Robert Reid que, por lá, à data, tinham estabelecido, há alguns anos, uma empresa hortícola.
A função do Torreão era fazer a distribuição de um caudal de água chegado de uma arca, propriedade de Margarida Cândida Moreira da Cunha, localizada na Rua de Montebelo (actual Avenida Fernão Magalhães, junto do Campo 24 de Agosto), abastecida de uma mina da antiga Travessa da Póvoa de Cima.
Deste modo, aquela Quinta das Oliveiras e algumas outras das redondezas tiveram o fornecimento de água garantido, desde que foi posta em marcha a distribuição da água por aquele sistema, em finais do século XIX.
 
 
 

 
Torreão/depósito para distribuição de água – Cortesia de “oportoencanta.com”

 
 
“Em 1880, Margarida Cândida Moreira da Cunha, viúva de Bento José Barbosa da Cunha, requere o encanamento da água da sua mina. O torreão recebia a água no seu tanque de distribuição da água vinda de uma arca situada na Rua do Montebelo, na atual Avenida Fernão de Magalhães. O torreão alimentava propriedades na Rua do Barão de Nova Sintra, incluindo a antiga Quinta das Oliveiras, onde os SMAS se estabeleceram em 1927. Devido às obras de construção na Avenida Fernão de Magalhães, os SMAS abandonaram este abastecimento”.
Fonte: portowatercity.aguasdoporto.pt
 
 

Aquele abastecimento foi abandonado quando, ainda na primeira metade do século XX, se procedeu à reconversão da antiga Rua de Montebelo para a actual Avenida Fernão de Magalhães.
Curiosamente, nos nossos dias, e desde que foi posto fora de serviço, o Torreão, encontra-se no seu poiso primitivo, nos terrenos da antiga Quinta das Oliveiras, onde esteve instalado o Serviço Municipalizado de Águas e Saneamento, convertido, actualmente, na empresa de “Água e Energia do Porto” no jardim da propriedade, entretanto, baptizado como “Parque das Águas”, que exibe algumas fontes e chafarizes que, em tempos, serviram os portuenses.
 
 
   
Fontes e Chafarizes do manancial do Campo Grande e Ribeira de Mijavelhas



Vejamos, agora, quais eram as fontes e os chafarizes que beneficiavam da água deste manancial. 
Em primeiro lugar, naturalmente, a "Fonte de Mijavelhas", aquela que foi encontrada aquando da construção da estação do Metro e cujas pedras a administração daquela empresa em boa hora resolveu conservar, dentro da própria estação, como memória histórica do sítio.
As "vertentes" (águas que sobravam) iam abastecer "os magníficos lavadouros públicos" que ali havia e, após isso, continuavam a céu aberto e a sua força era aproveitada para mover os moinhos das Fontainhas.
É sobre o uso de uns lavadouros existentes no Campo Grande, bem junto da Fonte de Mijavelhas, no local onde, hoje, se situam os balneários públicos, que a notícia seguinte se refere.
 
 

In “Jornal do Porto”, de 3 de Agosto de 1871, pág 1



Fonte de Mijavelhas - Fonte: portoarc.blogspot.pt



Arca d’Água de Mijavelhas ou do Poço das Patas - Fonte: portoarc.blogspot.pt



A Arca do Poço das Patas, no fi da década de 1860, seria sujeita a uma reparação.


“A Arca do Poço das Patas no ano de 1868 sofreu uma reparação; e, à beira da fonte de duas bicas, construíram um tanque provido de 3 canecas de folha-de-Flandres, presas por cadeias, para uso dos moradores da vizinhança, que iam buscar água destinada aos usos domésticos. Isto é, só as ditas canecas é que mergulhava no tanque, evitando-se assim, como manda a boa higiene, a conspurcação da água pelo constante submergir das vasilhas, nem sempre limpas… Para Noroeste, nas traseiras do Balneário Municipal, em ponto fundo borbulhava uma copiosa nascente, cuja água alimentava uma fonte de chafurdo ou de afoga caneco, abastecia um lavadouro grande e outros mais pequenos (destruídos em 1899 aquando da peste bubónica); e, em volumoso regato, deslizava para as bandas do Sul com direcção ao Monte do Seminário, onde se despenhava no Rio Douro.”
Fonte - O Tripeiro, Série VI, Ano XII, In: portoarc.blogspot.pt



A água do Manancial do Campo Grande seguia, também, devidamente encanada, por baixo da Rua da Murta (foi Rua do Mede Vinagre e é hoje a Rua do Morgado de Mateus) e saía em S. Lázaro, "defronte onde estava a Igreja Velha dos religiosos Antoninos" (edifício da Biblioteca Pública Municipal) para onde seguia um anel de água.
Um anel equivalia a oito penas e cada pena correspondia a um fornecimento diário de 630 litros. Era com um anel de água, por exemplo, que o aqueduto abastecia a Fonte de S. Lázaro.
A água do Campo Grande abastecia, neste percurso, mais as seguintes fontes públicas: uma na Rua das Fontainhas, que ficava mesmo à entrada desta artéria; o chafariz da Praça da Batalha obra monumental "que evocava os melhoramentos feitos nesta praça nos tempos passados"; seguia depois "o encanamento" pela "Rua da Senhora do Terço" e pela Rua Chã, até ao chafariz de S. Miguel-o-Anjo, construído por iniciativa do Cabido, no antigo Largo da Sé, acima do sítio onde estava a Porta de Vandoma e onde ainda está; o célebre chafariz da Rua Chã, que ficava entre a rua deste nome e a Rua do Cativo, em frente à casa conhecida pelo Paço da Marquesa, por nela ter vivido a última Marquesa de Abrantes; a Fonte do Largo de S. Sebastião, uma das mais antigas que havia na cidade, actualmente no Largo do Dr. Pedro Vitorino.
Várias fontes do Cemitério do Prado, como já vimos e a fonte do Padrão de Campanhã, eram abastecidas por água deste manancial.
Do Campo Grande partia também, em direcção ao rio Douro resultante de toda a abundância de águas deste local, um regato conhecido por Ribeira de Mijavelhas ou Ribeira do Poço das Patas.
A ribeira tinha o seu leito sensivelmente, pelo que é hoje a Rua do Duque da Terceira, sendo atravessada na chamada, Estrada do Senhor do Bonfim pela Ponte das Patas e encurvando um pouco seguia num leito próximo ao traçado da Rua Duque da Terceira, antes de chegar à sua foz.
No último troço do seu percurso, antes de se precipitar no rio Douro, em tempos, as suas águas faziam mover alguns moinhos, no que em tempos se chamou, segundo o padre Simão Duarte de Oliveira, Vale de Milhorados.




Foz da Ribeira de Mijavelhas – Fonte: oportoeagua.blogspot.pt




Na foto acima vê-se o local (a cerca de 80 metros a jusante da ponte Maria Pia), onde a ribeira de Mijavelhas, após ultrapassá-lo, seguirá num aqueduto sob a Avenida de Paiva Couceiro e as suas águas, encontrarão então, o rio Douro.