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sábado, 25 de novembro de 2023

25.214 Alguns depoimentos de visitantes estrangeiros sobre o Porto

Ao longo dos anos, vários visitantes estrangeiros acharam por bem deixar registos para a posteridade sobre a impressão que a cidade do Porto lhes tinha causado.
Em meados do ano de 1699, o franciscano francês Frei François de Tours, em caminho para Santiago de Compostela, passando pelo Porto, escrevia:


 
 

 
 
 
E, acrescentava,


 
 

 
 

O Porto, em 1669 – Gravura de P. M. Baldi





Giuseppe Gorani (1740-1819), diplomata para uns, espião para outros, que chegou a privar com o Marquês do Pombal, sobre o Porto, escreveria:
 
 
 





Porto – Gravura do gravador Manuel Marques Aguilar, em 1797
 
 
 
 
Arthur William Costigan, em 1778-79, percorreria o País para conhecer as fortificações portuguesas e, passando pelo Porto, dizia, na obra Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de Portugal, publicada pela primeira vez, em 1810:


 








Lady Jackson, autora, em 1873, da obra “Formosa Lusitânia”, traduzida para português por Camilo Castelo Branco, produziria extensa prosa sobre o quotidiano dos portuenses.

 
 
“Catherine Elliot (1842- 1891) foi casada com um diplomata inglês, George Jackson, colocado a certa altura em São Paulo de Luanda por estar encarregue da abolição de escravos. Foi aí que a futura escritora – que começou por publicar livros sobre a história da Europa, e mais tarde se dedicaria à literatura – aprendeu alguma coisa de português, que lhe seria útil na sua viagem a Portugal. Viúva na altura, Lady Jackson viajou sozinha pelo país, entre julho e outubro de 1873”.
Fonte: Revista Visão


 
 


 
 

Porto, em 1859


 
Em Abril de 1877, Camilo Castelo Branco fazia, em S. Miguel de Seide, a tradução de “Fair Lusitania” e disso dava conhecimento por carta ao seu grande amigo visconde de Ouguela:
 
 
“Entretenho-me a traduzir, na cama, a lápis e de cangalhas um moderno livro de Lady Jackson, intitulado ‘Formosa Lusitânia”.
In, "Camilo Íntimo" - Cartas inéditas entre Camilo Castelo Branco e o Visconde de Ouguela 

 
Ainda, naquele ano de 1877, numa outra carta, Camilo Castelo Branco informava o visconde de Ouguela duma volta do Porto, acompanhado da sua filha Bernardina Amélia (1848-1931).







Sobre Camilo Castelo Branco dizia o visconde no jornal “O Imparcial”:
 
 
“Nasci para a vida das letras ao lado de Camilo Castelo Branco. Estimo-o como a um irmão, respeito-o como mestre e amigo dedicado, e entro no número dos que avaliam os donosos impulsos do seu nobilíssimo coração”.
 
 
Sobre a cidade do Porto dizia o visconde de Ouguela:
 
“…baluarte mais seguro de todos os nossos direitos e acrópole das nossas liberdades”.
Citação de Artur de Magalhães Basto, “O Porto do Romantismo”, 2ª edição, Porto
 
 
Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Ouguela, foi conhecido pelos títulos adquiridos de 3º Barão de Barcelinhos e de 1º Visconde de Ouguela.
Nasceu, em Lisboa, a 30 de Junho de 1828. Era filho de Ricardo Sylles Coutinho e de D. Rosa Máxima da Silva Coutinho.
O pai do Visconde de Ouguela era um dos heróis da luta contra o absolutismo de D. Miguel. Integrou a falange que, em 1933, combateu ao lado de D. Pedro até à vitória final dos liberalistas e restauração da monarquia constitucional.
No colégio, que frequentou em Lisboa, foi colega de Camilo Castelo Branco, tendo mantido, sempre, uma grande amizade com este grande escritor. Frequentou a Universidade de Coimbra onde fez, com grande brilhantismo, o curso de Direito.
Em 1859, tornou-se deputado, integrando no Parlamento a facção que apoiou os governos regeneradores de Fontes Pereira de Melo, Casal Ribeiro e Martens Ferrão.
Em 1860, foi nomeado Ajudante e Substituto Honorário do Procurador-Geral da Fazenda Nacional. 
No mesmo ano, casou com a viúva do Barão de Barcelinhos, tornando-se responsável pela gestão de uma casa de tão grandes encargos e haveres que teve de se afastar durante algum tempo da actividade política.
Em 1864, pediu a demissão do cargo de Substituto do Procurador da Fazenda e foi agraciado com o título de Barão de Barcelinhos que tinha sido usado pelo anterior marido de sua mulher.
Por decreto de 31 de Maio de 1868, recebeu o título de Visconde de Ouguela.
Em 1872, perdeu uma enteada a quem se afeiçoara e foi alvo de uma delecção caluniosa que o colocou como conspirador para derrubar D. Luís I, o que não se confirmaria.
Morreu completamente retirado e de certo modo esquecido, em 5 de Janeiro de 1897.

 

Rua de Santo António, em 1890, com a Rua dos Clérigos, em fundo – Centro Português de Fotografia

 
 
 
Maria Rattazzi (Irlanda 1833 - Paris 1902) foi, por sua vez, uma escritora que visitou Portugal três vezes entre 1876 e 1879,  e que na segunda metade de 1879 passou pelo Porto. Na sequência daquelas visitas, numa delas, esteve presente no casamento do rei D. Carlos.
Acabaria por publicar o livro intitulado “Portugal de Relance”, que provocaria a ira, principalmente, de Camilo Castelo Branco, que não apreciou o tom humorístico da obra que, originalmente, teve o título "Le Portugal A Vol D’Oiseau". 
A polémica na qual se envolveu a intelectualidade nacional, que se juntou a Camilo, ficou conhecida como a “Questão Ratazzi”.
Sobrinha-neta de Napoleão Bonaparte, Maria Letizia (nome de solteira) foi casada três vezes, uma delas com um ministro de Victor Emanuel II.
Era também conhecida por Madame Solmes, apelido que lhe advinha de um anterior casamento realizado, em 1849, com um alemão, Frederico de Solms, de quem enviuvou em 1863. Nove dias depois, casou com um italiano, Conde Urbano Rattazzi, que faleceu em 1873. Sete anos mais tarde, casou com um espanhol, D. Luis de Rute, de quem também enviuvou em 1889.


 
 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

25.41 Os escritores e o Porto - Actualização em 09/09/2020


Ao longo dos tempos os escritores foram glosando os defeitos ou as virtudes dos portuenses e da cidade.
Muitos dos dizeres ficaram na memória colectiva tendo passado de geração em geração. É tempo de recordar, agora, algumas das frases desses mestres da palavra escrita.




Almeida Garrett



“João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett (Porto, 4 de fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de dezembro de 1854), foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português.
Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.”
Fonte: pt.wikipedia.org


Almeida Garrett nasceu no Porto, na antiga Rua do Calvário, n.ºs 18, 19 e 20 (actual Rua Dr. Barbosa de Castro, n.ºs 37, 39 e 41), na freguesia da Vitória.
Passou a sua infância na Quinta do Sardão, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), pertencente ao seu avô materno José Bento Leitão, altura em que alterou o seu nome para João Baptista da Silva Leitão, acrescentando o sobrenome Baptista do padrinho e trocando a ordem dos seus apelidos.
Frequentava por vezes um palacete da Rua da Boavista, nº 158, de uns seus tios, onde mais tarde se instalaria o “Grande Colégio Unversal”.



Almeida Garrett


Texto:

«Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão.»
 Almeida Garrett



Alexandre Herculano


“Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa, 28 de Março de 1810 — Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, 18 de Setembro de 1877) foi um escritor, historiador, jornalista e poeta português da era do romantismo.
Como liberal que era, teve como preocupação maior, estabelecida nas suas ações políticas e seus escritos, sobretudo em condenar o absolutismo e a intolerância da coroa no século XVI para denunciar o perigo do retorno a um centralismo da monarquia em Portugal.”
Fonte: pt.wikipedia.org


Foi um dos bravos do Mindelo, tendo estado nas lutas durante o Cerco do Porto. Viveu uns anos na cidade e chegou a ser nomeado por D. Pedro IV como segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto e aí permaneceu até ter sido convidado para dirigir a revista O Panorama (1837-1868), de Lisboa.


Alexandre Herculano em Vale de Lobos, sentado numa das cestas da apanha de azeitona



Texto:

«O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada.»
 Alexandre Herculano





Júlio Dinis


Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto, 14 de Novembro de 1839 – Porto, 12 de Setembro de 1871) foi um médico e escritor português. É mais conhecido pelo seu pseudónimo Júlio Dinis.
Nasceu então, na Rua do Reguinho, freguesia de São Nicolau, sendo batizado, a 18 do mesmo mês, na Igreja de São Nicolau.
Faleceu, à 1 hora da manhã, na Rua de Costa Cabral, nº 323, na freguesia de Paranhos, numa casa que já não existe e que hoje é chão do “Cinema Júlio Deniz”.


 

Casa onde faleceu o escritor Júlio Dinis
 
 
 
A sua infância foi vivida junto a Miragaia, numa casa situada na Rua do Reguinho, casa e rua desaparecidas aquando da abertura da Rua Nova da Alfândega, em meados do século XIX.
Foi também naquela zona que Júlio Dinis frequentou a escola primária. Mais tarde, fez estudos secundários e cursou depois medicina, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Aliou a profissão de médico à de escritor e de professor, exercendo a docência na mesma instituição de ensino onde se formou.
Em algumas das suas obras descreveu a sociedade portuense da época.
Nomeadamente, no seu romance “Uma Família Inglesa: Scenas da vida do Porto”, dá-nos um retrato de uma parte da sociedade portuense do seu tempo, realçando também o modo de viver da importante comunidade britânica.
Júlio Dinis seria ainda um dos precursores da divulgação folhetinesca.
Assim, em 12 de Maio de 1866, o “Jornal do Porto” começava a publicar o 1º episódio da obra de Júlio Dinis, “As Pupilas do Senhor Reitor”. O livro sairia no ano seguinte.
Teria sido o pai do escritor quem descobriu a verdadeira identidade, por trás do pseudónimo, de Júlio Dinis, ao ver no quarto do filho umas tiras manuscritas.


 

Primeiras linhas da obra - In “Jornal do Porto” de 12 de Maio de 1866

 
 
A obra de Júlio Dinis “Uma Família Inglesa: Scenas da vida do Porto” publicada em livro, em 1868, seria, antes, dada a conhecer, também, naquele jornal diário, com o 1º episódio a ser impresso em 1 de Março de 1867.
 
 
 

Primeiras linhas da obra - In “Jornal do Porto” de 1 de Março de 1867




Júlio Dinis



Texto:

“Sempre que Manoel Quentino emprehendia um passeio, com o fim de se distrahir, não hesitava na escolha do itinerario. Desde tempos immemoriaes adoptára um e nem lhe passava por o sentido modifical-o. Deixava-se conduzir por o habito n'isto, como em tudo o mais. Atravessava a cidade até á Ribeira; seguia depois, pela margem direita do rio, até Campanhã; chegando ao Esteiro, tomava pela estrada de cima, que o levava ao jardim de S. Lazaro, e emfim recolhia-se a casa. Foi o que fez n'aquella tarde. A cidade atravessou-a lidando ainda com o pensamento de tristeza, com que saíra de casa. A primeira diversão operou-a só a vista do mercado de peixe, na Ribeira. As lanchas valboeiras tinham, n'aquelle instante, chegado ao caes. As regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam, animavam o mercado com movimento e vozeria. Este espectaculo, cheio de vida commercial, não achou indifferente Manoel Quentino. Agradava-lhe aquelle trafego; examinava com olhos conhecedores a excellencia do peixe, e informava-se curioso dos preços que regulavam o mercado. Ao saír d'alli, ia pensando: —Não ha nada para arranjo domestico, como a pescada. É o peixe mais innocente que ha. Com razão lhe chamam a gallínha do mar. Ahi está a sardinha, que é gostosa; mas é mais doentia tambem. Que a sardinha de Espinho ainda não tanto, mas esta da barra!… D'onde virá a differença?… Pois não será toda ella o mesmo peixe?… Só se é da praia aqui ser mais pedregosa e o peixe saír mais batido… Que esta costa da Foz sempre é muito cheia de pedras!… Só o perigo que correm as embarcações aqui!… Ainda no outro dia, aquella grande desgraça dos oito pescadores que naufragaram!… Muita pena teve Cecilia, quando as folhas contaram de um que deixou uma creancinha orphã! Pobre Cecilia!… tem um coração!… Coitada!… É um anjo… Assim que me lembro d'aquella tristeza em que anda… E ahi estava a ideia fixa com elle! Parece que ella propria fora a que dispozera esta fileira de ideias associadas, para conduzir a si o pensamento.
A impressão produzida pelo mercado desvanecera-se de todo; Manoel Quentino proseguiu no passeio, já outra vez melancolico. Mais adiante, tendo passado a ultima casa, que lhe tolhia a vista do rio e a da margem opposta, volveu naturalmente os olhos para o vulto escalvado e sombrio da Serra do Pilar, coroada pelo seu convento em ruinas e a sua igreja circular. Os tristes vestigios das guerras civis estão ainda n'aquelle logar muito evidentes, para que a lembrança d'ellas não acuda subita ao espirito de quem quer que o contemple por momentos. Manoel Quentino, como quasi todos os portuenses da sua idade, havia sido mais do que simples espectador das scenas tragicas d'essas memoraveis épocas. —Ha vinte e tantos annos—pensava elle—não havia, a estas horas, tanto socego, por aquelles sitios, não. Nem tambem estes passeios pela beira do rio eram tanto de appetecer como agora. Havia mais perigos, do que o dos nevoeiros do Douro. A fallar a verdade sempre era um tempo aquelle!… O que eu passei!… Parece-me que ainda foi o outro dia, e já lá vão vinte e tantos annos!… Oh! mas que alegria tambem, quando se abriram as linhas!… N'esse tempo era ainda a mãe de Cecilia uma creança. Só quatro annos depois é que eu principiei a pensar n'ella …  Pobre rapariga! …  Parece-me que ainda a estou a ver! … delgadinha, desmaiada, boa para todos, mas trabalhadeira ao mesmo tempo …  É por isso que receio…  Valha-me Deus! assim que me lembro da tristeza da pequena!… E da Serra do Pilar e do tempo do Cerco conseguira aquella ideia dominante achar caminho para se lhe insinuar de novo no pensamento. E, o que mais é, parece que cada vez trazia comsigo maior cortejo de sinistros pressagios.
Ao chegar á fonte do Carvalhinho, subiu uns degraus de pedra que alli ha, e bebeu, mesmo do caneiro, alguns goles de agua; cousa que nunca se esquecia de fazer, porque tinha fé particular nas virtudes medicinaes d'aquella excellente agua.
— Ah! — dizia elle outra vez distrahido — Consola beber uma agua assim! Para aguas o Porto! Dizem que em Lisboa são más as aguas! Pois é das cousas mais precisas para a saude. É verdade que eu vejo por aqui tambem muitas doenças, apesar das aguas boas. E sobretudo a gente nova está saíndo tão franzina e tão fraca, que é uma cousa por maior! E o medo, que eu tenho, quando reparo em Cecilia! É tão delicada, tão… E ahi estava outra vez assombrado para grande espaço de tempo.
Chegou á quinta chamada da China,—um dos passeios favoritos das classes populares portuenses. Desciam a rampa, que antecede o portão, alguns bandos de gente do povo, rindo, cantando, em plena festa; iam em direcção ao rio. As barqueiras de Avintes aproximavam os barcos da margem para os receber; outras, ainda a grande distancia, chamavam, com toda a força d'aquelles pulmões robustos, as pessoas que vinham por terra. Cruzavam-se os barcos, movidos pelos vigorosos braços d'estas engraçadas e joviaes remeiras, e carregados com os frequentadores das diversões campestres do Areinho e da pesca do savel. Tudo era riso e cantigas no rio. Manoel Quentino via tudo isto, e escutava entretido o canto de uma barqueira, que dizia:
  As riquezas d'este mundo
  Para mim não tem valor:
  Eu sou rica nos tens braços,
  Sou rica do teu amor.
E elle pôz-se a pensar: —Como esta pobre gente vive satisfeita n'esta vida trabalhosa do rio!… Ao vento, á chuva, e sabe Deus o que tem em casa para comer! E é um gosto como ellas cantam e riem!… Raparigas de quinze e dezeseis annos consola vel-as já mover aquelles remos, que esfalfariam um homem, como eu. Não ha como estes ares e esta vida do campo, para fazer as pessoas robustas. Se eu adivinhasse que Cecilia aproveitaria com elles!… E retomava o pensamento a posição de equilibrio estavel, de que por instantes se desviára.
Chegou ao ponto da margem, chamado Rego Lameiro. Ahi opéra o Douro uma das suas subitas e surprendentes transformações. Expiram as collinas fronteiras de uma e outra margem, interrompidas por um valle deliciosissimo, onde a vegetação é mais abundante, mais povoadas as verduras, e onde se encorporam em riachos as aguas escoadas dos proximos declives. Apreciam-se tão raros intervallos, em que o Douro, o severo Douro, sorri, como se aprecia um raio de alegria em rosto habitualmente carregado.
N'este sitio alarga-se o leito das aguas, diminue portanto a força da corrente d'ellas, chegando, nas marés baixas, a permittir a formação de pequenos ilhotes de areia, para onde vão brincar as creanças dos pescadores. A tortuosidade das margens, furtando á vista o seguimento do rio, dá a este a completa apparencia de um pequeno, mas pittoresco lago. Os olhos descobrem, de um lado, o extenso areal de Quebrantões, ao qual succedem prados e leziras sempre verdes, veigas fertilissimas, arvoredos espessos e, escondidas por o meio, as risonhas casas de algumas pequenas povoações campestres; adiante as quintas da Pedra Salgada, e através do véo azulado da distancia, a aprazivel aldeia de Avintes; do outro lado o palácio do Freixo com seus torreões e balaustradas e as quintas e ribeiras de Valbom e Campanhã. E se é ao fim do dia, quando o sol doura todo o quadro, reflectindo-se afogueado nas vidraças voltadas ao occidente, e a viração da tarde enfua as velas brancas das pequenas embarcações do logar, e o céo é azul e as aguas limpidas, a paizagem compensa bem os privados de gosar as bellezas mais celebradas por viajantes e poetas, as analogas das quaes só a nossa cegueira nos não deixa ás vezes ver a dois passos da porta.
Era aqui que Manoel Quentino se sentava sempre durante alguns minutos, sobre uma pedra solta da margem.
—Como isto é bonito!—pensava elle—É que nem ha outro passeio assim, nos arredores do Porto. E a tarde então está tão serena e socegada, que até se percebe d'aqui tudo o que se diz no Areinho. Se eu tivesse dinheiro, era onde comprava uma quinta. Chegando aos sabbados, saía do escriptorio e mettia-me n'um barco… ou a pé mesmo… A final é um passeio… É verdade que se viesse Cecilia, sempre era longe. Ainda que ella não se cansa… Não se cansa?… não se cansava… agora…
E a ideia negra, aquella pertinaz ideia negra, a tomar outra vez posse de Manoel Quentino! e, com o ir adiantando-se a tarde, parecia cada vez mais negra, como se as sombras crescessem para ella tambem!
D'ahi em diante, não se modificou o processo das cogitações do velho.
Uma fabrica de cortumes, umas creanças, a quem deu esmola, uns armazens, tudo quanto viu, após varias oscillações do pensamento, faziam caír Manoel Quentino na preoccupacão anterior.
De maneira que o passeio, aquelle passeio que o devia distrahir, antes lhe exacerbou o mal, que o atribulava. Subia elle já a íngreme costeira, que leva do Esteiro de Campanhã até o sitio do Padrão. A tarde arrefecera subitamente. (...)
Júlio Dinis, In “Uma Família Ingleza, Scenas da Vida do Porto”; 3ª edição (páginas 201 a 205)



Pela margem mais próxima, junto da Quinta da China, se passeou Manoel Quentino na narração acima, seguindo em direcção ao Esteiro de Campanhã. A meio da foto, ao longe, o Monte Crasto





Lady Jackson


Lady Catherine Hannah Charlotte Elliott Jackson (1824–1891), era filha de Thomas Elliot de Wakefield, e também foi a segunda esposa do Cavaleiro Diplomata Sir George Jackson (1785–1861), com quem se casou em 1856, e uma autor prolífico em seu próprio direito, especialmente na área da história européia e da corte da França no século XVI.
Após a morte de seu marido em 1861, ela se voltou para a literatura, começando editando os diários e cartas do início da vida de seu marido.
Em Julho de 1873, proveniente de Londres, desembarcava em Lisboa a inglesa Lady Jackson. Demorar-se-ia por Portugal até Outubro do mesmo ano e, ao partir, não foi sem saudades profundas que disse adeus à Formosa Lusitânia. De volta a Inglaterra, publica, logo no ano seguinte, Fair Lusitania, que, apenas três anos volvidos, mereceu tradução de um dos maiores vultos das letras portuguesas, Camilo Castelo Branco.


Lady Jackson ao meio da foto à porta do Lawrence’s Hotel em Sintra



Texto:

“O porto foi sempre orgulhoso dos seus marítimos, que procederam talvez de atrevidos filhos do rio, como estes. Não é onde o Douro corre mais pacificamente que gostam de brincar estas crianças: mas patinham e atiram-se sem medo quazi no meio da arrebentação das vagas, da espuma e das pedras perto do mar e da vizinhança traiçoeira da barra.”



Madame Rattazzi


Esta escritora inglesa que visitou o nosso país algumas vezes (1876, 1878 e 1879), também passou uma temporada no Porto na segunda metade do ano de 1879, depois de ter chegado ao país em Julho deste ano.
Era também conhecida por Madame Solmes, apelido que lhe advinha de uma anterior casamento.



Madame Solms (Rattazzi) - Ed. Rute y Ginez


Texto:


In "Le Portugal A Vol D’Oiseau" e que entre nós se chamou, "Portugal de Relance".



Pinheiro Chagas


“Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (Lisboa, 13 de Novembro de 1842 — Lisboa, 8 de Abril de 1895), mais conhecido por Manuel Pinheiro Chagas, foi um prolífico escritor, jornalista e político português. Destacou-se como romancista, historiador e dramaturgo, tendo escrito inúmeros romances históricos e diversas peças de teatro, algumas das quais se mantiveram em cena por mais de um século. Foi diretor de vários periódicos de Lisboa. Exerceu as funções de deputado e par do Reino e foi Ministro da Marinha e Ultramar na fase decisiva das movimentações das potências europeias em torno da partilha de África. Foi um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Manuel Joaquim Pinheiro Chagas nasceu na freguesia de Santa Isabel, Lisboa, a 13 de Novembro de 1842, filho de Joaquim Pinheiro das Chagas, major do Exército, veterano das guerras liberais e secretário particular do rei D. Pedro V, e de sua mulher Gertrudes Justiniana Gomes Ramos.”
Fonte: pt.wikipedia.org

Como se lê no texto anterior o pai de Pinheiro Chagas foi secretário particular de D. Pedro V, um amigo e admirador da cidade e das gentes do Porto.


Manuel Joaquim Pinheiro Chagas em 1875 (fotografia de Alfred Fillon, in O Contemporâneo, Lisboa 1875)


Texto:

“Que admirável panorama! O que dá ao Porto um aspecto inexcedivelmente pitoresco é a situação original das colinas, em que está construído, que se levantam logo da beira do Douro, e ficam empinadas sem transição alguma, inundadas de casario, que parece aferrar-se à rocha, para evitar o despenhar-se. Lá em baixo o magnífico edifício da Bolsa; além a Sé erguida desassombradamente num píncaro, e arrojando ao céu as suas duas torres, um pouco mais abaixo, o Paço do bispo, e no fundo os intermináveis e deliciosos meandros do rio, que a cada instante nos estão preparando surpresas que nos arrancam gritos de admiração.”
Pinheiro Chagas (1865)

(Continua)



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

(Conclusão)


Na sua visita ao Porto, Madame Rattazzi hospedou-se no Hotel Francfort que ocupava o local onde está hoje, a estátua conhecida como a “Menina Nua” ou “Juventude”, na Avenida dos Aliados.
No terreno em que estava implantado o hotel (construído em 1851, em pleno Romantismo, por iniciativa do rico negociante da praça do Porto, Luís Domingos da Silva Araújo) tinha existido antes, durante alguns  anos, um cemitério para cães da municipalidade, 
Sobre o hotel Francfort e sobre a sua proprietária, dizia a escritora.





A meio, no gaveto, o Hotel Francfort


Sobre o carácter dos portuenses e a sua relação com a capital, opinava madame Rattazzi.




Aliás, a visão de madame Rattazzi é muito próxima da de Ramalho Ortigão expressa nas “FARPAS”.

“Quando o príncipe reinante e a sua augusta família iam às províncias do Norte, o Porto recebia-os de azul e branco, num grande rasgo de júbilo sublinhadamente plebeu, que entocava a nobreza de pura humilhação perante as magnificências da burguesia dinheirosa e bizarra.
(…) Aqui mora o Faz-Tudo! Solda, gruda, parafusa, martela, arrebita, bota abaixo, reconstitui, engonça, retesa, dá corda, regula, acerta e garante — sempre de lança em punho, feito de pedra, velando potente na fachada dos Paços do Concelho à Praça Nova, por cima da arrecadação das luminárias e das chaves do baluarte feitas de pasta pelo Alba dourador da Rua de Santo António. 
Ramalho Ortigão - As Farpas

Ainda sobre a relação entre Lisboa e o Porto, diga-se que a rivalidade hoje presente, já vem de longe.
Sobre uma visita de um lisboeta ao Porto é o texto seguinte (com uma boa dose de humor), que saiu no “Comércio”, antigo nome de “O Comércio do Porto”, de 14 de Setembro de 1855, anterior, por isso, cerca de 25 anos, às visitas da madame Ratazzi.

“As festas da aclamação em Lisboa prometem ser brilhantes, o que estimamos porque se não somos da capital somos portugueses. Sentimos porém que os festejos nos privem das visitas que às vezes se dignem fazer-nos os nossos compatriotas da metrópole.
É sempre para nós um prazer o ver na nossa província um lisbonense. Não se tenha medo de que o não conheçamos: denunciam-no aqueles meneios, aquela nonchalance e ar de superioridade que constitui o capitalista ou leão de água doce. Estropia, a propósito de qualquer coisa, algumas palavras francesas que ouviu no teatro de D. Fernando, e desce a calçada de Santo António cantarolando Les filles de Marbre. Vota o mais profundo desprezo aos nossos edifícios e sente o mais santo horror pelas Fontainhas e S. Lázaro. Conta as mais romanescas aventuras da Floresta Egípcia e para mostrar até que ponto chega a nossa insipidez aponta a falta do inebriante espetáculo dos touros.
Quando não fala, nem por isso se deixa de conhecer a sua terra natal. É esta a ideia que o domina. Chamem-lhe parvo e pretensioso, mas digam que é lisbonense, que não é provinciano, e ficará satisfeito.
Ele vai à noite ao Guichard, e sente a mais viva indignação ao ver que os garçons dos cafés do Porto não tem os mesmos nomes que os do Marrare e Martinho. Admira sobremodo que o Matta não tenha uma sucursale nesta retrógrada terra.
Quando passa pela Batalha, acomete-o uma saudade pungente pelas noites de S. Carlos, para falar de Alboni que lá esteve e da Grisi que nunca lá foi.
A falta da açorda que papava em Lisboa lembra-lhe a estátua equestre de que se ufana; e a seriedade dos frequentadores do Portuense traz-lhe à memória aquelas noites do Marrare tão cheias de espírito que só há ali, que é perfeitamente da capital. O capitalista fala de tudo com a frivolidade que o caracteriza, e tudo lhe serve para comparar o atraso da província com a alta civilização da capital, porque, seja dito entre parêntesis, raramente o Leão fala em Lisboa, mas sempre na capital. Enfim debaixo da pele do leão, que vestiu, facilmente se descortina a orelha que é sua.
O provinciano reconhece e confere ao lisbonense a superioridade... no ridículo. É por isso talvez que não tem a pretensão de imita-lo. Vanitasvanitatumalfaciaalfaciarum.”
Fonte: “aportanobre.blogs.sapo.pt”

Ainda sobre a relação dos portuenses com os lisboetas escrevia Ramalho Ortigão.


“O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da Polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.”


Na época das visitas de Madame Ratazzi, a sala de espectáculos de eleição da cidade do Porto era o teatro S. João, que não teve oportunidade de visitar por se encontrar encerrado. No entanto, não deixou de fazer uma breve referência às outras salas de espectáculos.





E acrescentava sobre a actividade artística e modo de a encarar dos portuenses, nomeadamente a independência de pensamento face à capital, na sequência do qual, êxito alcançado por uma companhia em Lisboa, não significava um salvo-conduto para o sucesso no Porto.






Teatro de S. João em 1900 antes do incêndio


Sobre o Palácio da Bolsa disse Madame Rattazzi.




E sobre o imponente Hospital do Conde de Ferreira.



E sobre a disponibilidade dos portuenses para a prática da caridade.




Tendo visitado a Foz do Douro, faz referência a diversas ruas da cidade do Porto, nomeadamente a Rua de S. João e a Rua das Flores, descreve a casa da Quinta da Macieirinha e o seu encontro com o proprietário, Pinto Basto, e anota alguns dos costumes dos portuenses.




Sobre a estadia no Porto da princesa Solms, escreve Artur Magalhães Basto, a propósito de um baile dado em sua honra, no Palacete do Conde de Samodães, na Rua dos Sol, que durante anos foi o local onde funcionou a Escola Comercial Oliveira Martins.




E sobre a visita de madame Rattazzi ao Porto, o caricaturista nascido em Ponte de Lima, Sebastião Sanhudo, fazia publicar no humorístico “O Sorvete” (2º ano, nº 88 – Porto, 1880) um desenho de crítica aos escritos de madame Rattazzi, em que ela era apresentada como um pássaro, por analogia com o título da obra.


Madame Rattazzi com o apôdo “a pássara”, como passou a ser conhecida


A legenda (impressa) da gravura acima diz:
O sábio doutor Costa mostra à Pássara – que viu Portugal d’um golpe – o lindo rio da Viella (nome que lhe dava), os penitentes vermelhos descendo a collina com velas acesas etc”.

Naqueles tempos Rafael Bordalo Pinheiro, já publicava o “António Maria” e o caricaturista apresentava a sua visão de madame Rattazzi.


Princesa Rattazzi em Litografia Colorida de Rafael Bordalo Pinheiro


Por outro lado Guerra Junqueiro na revista “Viagem à Roda da Parvónia”, chama-lhe “Princesa ratazana”.
Mais tarde, veio a público que foi um secretário da princesa que escreveu a obra polémica.

“De resto, quem escreveu o “Portugal à vol d'oiseau» não foi a princeza, mas sim um francez expatriado, que á epoca se achava residindo em Lisboa e era muito da intimidade da suposta-autora, mr. Stenacker”.
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921

Quando a 7 de Fevereiro de 1902, faleceu em Paris, com 71 anos de idade, os portugueses já não se lembravam quem tinha sido madame Rattazzi.