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domingo, 27 de março de 2022

25.154 Companhia Carris de Ferro do Porto – os primeiros passos

Na história dos transportes públicos, na cidade do Porto, a Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP) teve um papel de primordial importância.
A primeira fase da sua longa existência, a da sua afirmação é, deveras, a mais fascinante.




Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 
Assim, em 21 de Agosto de 1873, a Câmara Municipal do Porto entrega, em concessão, ao negociante António Manuel Lopes Vieira de Castro e ao engenheiro Evaristo Nunes Pinto, a exploração pelas ruas da cidade de um meio de transporte público, sobre carris de ferro, puxado por bestas.
António Manuel Lopes Vieira de Castro (Santo Ildefonso, 12/09/1839; Matosinhos-Leça da Palmeira, 11/12/1907) viria a ser, em 1897, o 11º presidente da Associação Industrial Portuense.
Ficaria conhecido por ser proprietário da marcenaria a vapor “A Económica”, com instalações fabris na Rua do Freixo, nº 721.
“A Económica” dedicava-se ao fabrico de mobílias de luxo, decoração de casas, artigos de colchoaria, estofos e de tapetes, tendo obtido um Diploma de 1.ª Classe, na Exposição de 1887, e uma Medalha de Ouro, na Exposição de 1888 (Mercê Régia Especial).
 
 
 

Cartão comercial (30 de Dezembro de 1881) da Marcenaria a Vapor do Porto “A Económica”
 
 
 
Na década de 1920, “A Económica” seria comprada pela firma "António do Nascimento e Filhos".

 
 

Edifício com projecto da autoria do arquitecto Marques da Silva, onde se instalaram, em 1927, os Grandes Armazéns Nascimento, com fábrica no Freixo


 
 

O edifício da foto anterior, seria ocupado, a partir de 1939, pelo Café Palladium, na sequência de uma venda do mesmo, em virtude da ocorrência de um incêndio acontecido na fábrica do Freixo, em 1934, que colocou em sérias dificuldades de sobrevivência os “Grandes Armazéns Nascimento”


 
 
Na foto acima destaca-se o porteiro do café Palladium impecavelmente fardado. 
O edifício das fotos anteriores encontra-se hoje ocupado com as lojas das firmas “FNAC” e “C&A”.
António Manuel Lopes Vieira de Castro, proprietário da marcenaria mecânica a vapor “A Económica”, ficaria ainda conhecido por ter presidido, no começo do ano de 1899, a uma comissão de avaliação das condições de trabalho manual dos tecelões da cidade.
Embora, António Manuel Lopes Vieira de Castro fosse afecto a outro sector de actividade, o seu prestígio levou-o a ser proposto para aquela função, no âmbito da indústria têxtil.
Naquela época, os tecelões levariam a cabo uma luta pela melhoria das condições de trabalho, concretamente, em meados de 1903, tendo as suas acções de protesto ficado célebres.
Cerca de três anos antes sobre a entrega daquela concessão a António Manuel Lopes Vieira de Castro e a Evaristo Nunes Pinto, tinha sido permitido ao Barão da Trovisqueira fazer a exploração, também em concessão, de um caminho-de-ferro pelo sistema americano entre a Porta Nobre e S. João da Foz, com possibilidades de prolongamento até Matosinhos.
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
Atente-se no facto de que a concessão solicitada pelo Barão da Trovisqueira viria a ser atribuída pelo Governo, por decreto, dado que ela seria concretizada usando um chão de domínio marítimo, usando os cais ribeirinhos que tinham sido levantados pela Real Companhia Velha, se bem que, a municipalidade tenha sido ouvida e dado o seu parecer, como atesta a narrativa, abaixo.

 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
 
 
Entretanto, o Barão da Trovisqueira irá passar a concessão a José Dionísio de Melo e Faro e ao capitalista António Tavares Basto que, em Junho de 1872, solicitam à Câmara licença para estabelecer o caminho-de-ferro-americano em algumas ruas da cidade, nomeadamente, um ramal entre o Largo dos Mártires da Pátria e Massarelos, singrando a Rua da Restauração, que obteve deferimento e entrado ao serviço em Agosto de 1873.
Este ramal irá, assim, ser autorizado ao peticionário, mas os restantes percursos viriam a ter outros destinatários.
 
 
 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)
 
 
 
De igual modo, António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto tinham, em devido tempo, requerido a exploração daquela actividade de transporte pelas ruas do Porto.
Depois de escusa do governo em ser parte na atribuição da concessão respectiva, pois o transporte em causa desenvolver-se-ia por solos do domínio municipal, aquele acto administrativo passar a ser da responsabilidade apenas da Câmara, tendo saído como contemplados, António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto.

 
 

Texto extraído de “O Instituto” - Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)

 
 
Na posse da concessão António Manuel Lopes Vieira de Castro e Evaristo Nunes Pinto vão tratar de angariar o capital necessário o que, para o efeito, conduz à formação de uma sociedade anónima de responsabilidade limitada.
Não demorou muito que os respectivos estatutos vissem a luz do dia, dos quais se transcrevem, a seguir, alguns artigos.
Pela sua leitura, se pode observar que os primeiros concessionários cederam a concessão à denominada Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP), em troca de um benefício, explicitado no artigo 3º.
 
 
 
 
Estatutos da Companhia Carris de Ferro do Porto - Texto extraído da Revista Científica e Literária (Coimbra 1964)




A partir de então, no terreno, estavam duas companhias que exploravam o transporte americano.
A primeira a instalar-se no terreno foi a “Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos”, a “Companhia de Baixo”, que explorava ainda um ramal de ligação que, começando a norte da Cordoaria e seguindo pela Rua da Restauração, acabava em Massarelos. Quando se estendeu para o concelho de Bouças (Matosinhos) percorria, aí, a Rua Juncal de Cima (Rua Brito Capelo).
 
 
 

Estação de recolha da “Companhia de Baixo”, no Largo do Ouro (actual Largo António Calém)

 
 
A outra transportadora era a  “Companhia Carris de Ferro do Porto”, a “Companhia de Cima”, que explorava a ligação entre determinados locais da cidade e que, mais tarde, haveria de solicitar autorização para a introdução, em determinados percursos, da tracção a vapor em substituição da tracção animal.
Começaria por explorar uma linha partindo da Praça Carlos Alberto, seguiria pela Rua do Rosário, Rua da Boavista, Rotunda da Boavista e ligação a Cadouços (Foz Velha).
Este último troço, entre a Rotunda e Cadouços, acabaria por ser feito, a partir de 1878, por tracção a vapor. Mais tarde, estender-se-ia a Matosinhos, por onde entrava na Rua Real de Baixo (Rua Roberto Ivens).
 
 
 

Estação de recolha da CCFP, na Boavista, entre 1872 e 1928


 
 

Carro americano, na Praça D. Pedro (Praça da Liberdade, desde 27 de Outubro de 1910)

 
 

Carro americano, c. 1900, no Largo de Santo Ildefonso (hoje integrado na Praça da Batalha)
 
 
 
 
A CCFP, por esta altura, já era dirigida por José Vieira de Castro, pois nesse ano ele entra para exercer a sua gerência.
Surgiria, então, em 1878, a ligação de uma linha servida por uma máquina motriz, a vapor, fazendo a ligação entre a Praça da Boavista e Cadouços e que, mais tarde (1882), seria estendida até Matosinhos. Ficou conhecida como a “Máquina”.
Em 1890, quando ainda não se tinha dado a fusão da CCFP (Companhia de Cima) com a Companhia de Baixo, o que só ocorreria três anos depois, uma viagem de ida e volta a Matosinhos custava 80 réis, de acordo com publicidade divulgada.






A “Máquina” junto da Estação da Boavista
 
 
 
 


Estação da linha a vapor, na Fonte da Moura. À esquerda, por onde seguia a “Máquina” segue, hoje, a Rua Correia de Sá; pela direita, em frente, a Avenida da Boavista


Estação de Cadouços (actualmente, o Largo Capitão Pinheiro Torres de Meireles)


 
 
 

“A Máquina” perto de Cadouços
 
 
 

A “Máquina”, no cruzamento da Rua de Gondarém e da Rua do Molhe, c. 1900
 
 
 
Seria, também, sob a égide de José Vieira de Castro que a CCFP iria abalançar-se à introdução da tracção eléctrica na cidade do Porto.
Entretanto, em 1893, as duas companhias, que durante cerca de duas décadas foram concorrentes, uniram-se, tendo restado dessa união a denominação de uma delas - “Companhia Carris de Ferro do Porto”.
Para o lançamento da tracção eléctrica foi montada uma estação de produção de energia na Arrábida, depois do funcionamento de uma pequena central, experimental, ao fundo da Rua da Restauração.
O primeiro percurso, em tracção eléctrica, seria efectuado entre Massarelos e o Carmo e inaugurado em Setembro de 1895, a que seguiriam alguns outros, cujos concursos eram sucessivamente ganhos pela CCFP.
 
 
 

Eléctrico rebocando um atrelado (antigo americano) junto a Massarelos
 
 
 
Em 1897, a tracção eléctrica já tinha chegado a Matosinhos e, em 1898, a Leça da Palmeira, atravessando o rio Leça por uma ponte construída em 1887, para servir os americanos.

 
 

Eléctrico atravessando o rio Leça pela ponte construída, antes, em 1887, para servir os carros americanos
 
 
 
 
O nome de José Vieira de Castro ficará para sempre ligado ao sucesso da “Companhia Carris de Ferro do Porto”.
José Ribeiro Vieira de Castro (4 de Março de 1843; 4 de Julho de 1905) foi um empresário e homem de negócios; era filho de João José Ribeiro, natural da freguesia de Rossas, concelho de Vieira do Minho e de Francisca Lopes Vieira de Castro, natural de Antime, concelho de Fafe.
Desde cedo, José Ribeiro Vieira de Castro emigra para o Brasil, onde faz fortuna.
Em 1870, depois de vários anos emigrado no Brasil, José Ribeiro Vieira de Castro retorna a Portugal e toma nas suas mãos a Companhia Industrial de Fafe, dedicada à moagem de cereais e instalada numa queda de água, no rio Ferro, na freguesia de Fafe.
Em 1887, transforma aquela unidade industrial de moagem de cereais numa fábrica têxtil, surgindo no mesmo local a Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe.
A Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe acabará por ter a sua sede na cidade do Porto e, a partir de 1930, num edifício com projecto do arquitecto Júlio José de Brito 1896-1965), que ainda existe, na esquina da Avenida dos Aliados e Rua Rodrigues Sampaio.
 
 
 

Em destaque o edifício da sede da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe
 
 
 
Na cidade do Porto, José Ribeiro Vieira de Castro vai ter a sua vida profissional ligada à Companhia de Gás do Porto e, sobretudo, à Companhia Carris de Ferro do Porto, onde exercerá as funções de Director e Gerente. O percurso de sucesso da CCFP é fruto, em grande medida, da sua dedicação que, nos seus últimos anos de actividade à frente daquela companhia, teve o contributo do engenheiro Américo Augusto Vieira de Castro que, em 1917, haveria de adquirir a fábrica de sabonetes e perfumes "Claus & Schweder, sucessores", nacionalizada pelo governo português, na sequência da 1ª Grande Guerra, por ser detida por dois cidadãos alemães.
Este técnico teve sobre a sua alçada, no âmbito da CCFP, as oficinas centrais da companhia, o serviço de tracção e via e as obras.
Em 1891, José Ribeiro Vieira de Castro foi vice-presidente da Associação Industrial do Porto.

 
 

José Ribeiro Vieira de Castro (Director e Gerente da CCFP) – In Revista Brasil – Portugal, 16 de Janeiro de 1903

 
 

Américo Vieira de Castro (Engenheiro da CCFP) – In Revista Brasil – Portugal, 16 de Janeiro de 1903
 
 
O engenheiro Francisco de Almeida e Sousa, no texto seguinte, resume a actividade de José Ribeiro Vieira de Castro na CCFP.

 
 


 
 
 
Em 1904, por sugestão da “Companhia Carris de Ferro do Porto”, a Câmara do Porto mostrava-se receptiva a atribuir-lhe uma concessão com o exclusivo para 99 anos.
Em 1906, face ao repúdio público pela situação de privilégio que gozava a CCFP, a Câmara do Porto ver-se-ia pressionada, então, ao lançamento de um concurso que pressupunha que o vencedor passaria a prestar o serviço de transporte público por tracção eléctrica em regime de monopólio.
A CCFP não concorreu.
Escolhido o vencedor do citado concurso, em sequência, seria adjudicada e atribuída a concessão, a partir de 5 de Abril de 1906, a Paiva e Irmãos, de Lisboa, e a Mathieu Lugan, do Porto.
Os concessionários transferem, então, um ano depois, os seus direitos para uma nova empresa “Companhia Viação Eléctrica do Porto”, que passa a ter o direito exclusivo da exploração dos transportes colectivos urbanos eléctricos, continuando a “Companhia Carris de Ferro do Porto” a explorar, apenas, transportes de viação americana.
A “Companhia Viação Eléctrica do Porto”, no entanto,  não chega a dar início a qualquer actividade e, em 1908, é absorvida pela "Companhia Carris de Ferro do Porto", que vem a beneficiar da concessão.
Em poucos anos, uma nova fase se seguiria com a implantação da viação eléctrica com o desaparecimento completo das ruas da cidade da tracção animal, em 22 de Setembro de 1904 e a de vapor, em 1914.


 

Carro eléctrico passando, em 1907, junto ao palacete Andresen, na Rua do Castelo do Queijo (Avenida de Montevideu, desde 1926)



Assim, em 1906, é decidido atribuir uma concessão para o transporte citadino.
Um grupo de investidores ganha a concessão.
O vencedor tinha de direito o exclusivo da exploração dos transportes colectivos urbanos, continuando a “Companhia Carris de Ferro do Porto”, que não concorreu, a explorar os transportes de viação americana.
Aquele grupo de investidores viria a constituir, um ano depois (1907), a “Companhia Viação Eléctrica do Porto” que, tendo durado apenas 1 ano, não chega a dar início a qualquer actividade.
Em 1908, “A Viação Eléctrica do Porto”, é absorvida pela "Companhia Carris de Ferro do Porto", que vem a beneficiar da concessão.
A partir de então, vai ter um papel de enorme importância na Companhia Carris de Ferro do Porto, Severiano José da Silva, o seu Administrador-Delegado que exercerá até à data do seu falecimento em 1937.
Severiano José da Silva era natural de Salreu, Estarreja, onde nasceu em 1865. Cursou medicina, no Porto, tendo-se formado em 1890 e abriu consultório na Rua das Taipas.
No campo político, sendo um republicano convicto, cedo adquiriu certa notoriedade, mormente, na posição que tomou contra a cedência de Portugal aos interesses dos ingleses na Guerra dos Boers. Em 1910, faz mesmo parte das Cortes Constituintes.
Quis o destino que viesse a contrair matrimónio com a viúva de João Henrique Andresen (falecido em 1900), Joana Andresen, cuja família era accionista da Companhia Carris de Ferro do Porto.
Durante o seu mandato na Companhia Carris de Ferro do Porto, as vicissitudes enfrentadas na Guerra 14-18, que privou a Central de Massarelos da ulha inglesa, para a qual tinham sido concebidas as respectivas caldeiras, e levou ao consumo do pobre carvão de S. Pedro da Cova, foi tarefa de monta. Neste caso, Severiano José da Silva teve a ajuda preciosa dos engenheiros Rodrigo Sarmento Beires, Carlos Braga e Manuel Correia de Barros.
O carvão de S, Pedro da Cova chegava ao Monte Aventino por teleférico, cujo cabo de 9 km tinha sido instalado em 1914, seguindo, depois, em zorras para Massarelos.
Aos últimos anos atribulados, com o aproximar do fim da concessão, o Dr. Severiano já não assistiu porque faleceu em 1937.
A "Companhia Carris de Ferro do Porto" (CCFP) que durou com esta designação, 73 anos, pelo que, ainda hoje, há muita gente que, seguindo o velho hábito, ao referir-se ao Serviço de Transportes Colectivos do Porto (S.T.C.P.), continua a chamar-lhe "Carris".
Em 1936, a CMP avisa a CCFP, com base no artigo 31º da escritura de concessão para a exploração da viação eléctrica, que o contrato seria rescindido em 1941.
Em virtude de determinados acontecimentos, entre eles, a deflagração da 2ª Guerra Mundial, aquela decisão seria adiada.
Então, em 1946 a CCFP, ao fim de 73 anos de laboração dá lugar ao STCP, liderado pela Câmara Municipal do Porto.
A designação do Serviço de Transportes Colectivos do Porto (STCP) surge, então, em 1946, com o resgate da concessão referida, feita pela Câmara Municipal do Porto a um grupo de empresários. 



Cronologia dos factos mais importantes relacionados com o sistema de transportes portuense


quinta-feira, 8 de junho de 2017

18. Jardins, Praças e Outros Lugares com História


“Este estabelecimento data da reforma da antiga Academia da Marinha e Comércio da Cidade do Porto, a qual, por decreto de 13 de Janeiro de 1837, passou a denominar-se Academia Polytechnica do Porto, ampliada com maior número de cursos e, por isso mesmo, com maior número de cadeiras, entre as quais a de Botânica, Agricultura e Veterinária. Por esse mesmo decreto foi criado, juntamente com um Gabinete de História Natural Industrial, Gabinete de Máquinas, Laboratorio Químico e Oficina Metarlúrgica, um Jardim Botânico Experimental, que serviria também para uso da Escola Medico-Cirúrgica, pertencendo a sua intendência ao lente de Botânica, ao director da Academia e ao Conselho Académico.

“…Porém, só por decreto de 20 d'Outubro de 1852, por ocasião da visita de S.M. a snrª D. Maria II á cidade do Porto, é que foi concedida uma parte da cêrca do extincto convento dos carmelitas,  situado na Praça do Duque de Beja, e comprehendida no espaço que mede «78 metros pela face voltada ao sul, 128 pela face voltada a leste e 113 pela face voltada ao poente» ou cêrca de 6.285 metros quadrados de terreno para alli se estabelecer o Jardim  Botanico, logar onde existe. 
Concedido o terreno á Academia para a organização do Jardim ou Eschola Botanica e Agricola, era rasoavel conceder-se-lhe tambem desde logo subsidio proprio para elle;  mas não aconteceu assim, e por alguns tempos esteve o terreno inculto e abandonado, podendo dizer-se que no periodo que decorre desde a data da concessão até dezembro de 1864, epocha em que, debaixo d'um plano geral e definitivo, começaram as obras necessarias para este estabelecimento, pouco ou nenhum incremento teve o jardim. 
É, pois, d'esta data em diante que a Academia começa a receber regularmente o diminuto subsidio de que dispoe o Jardim, elevado hoje a 240$00 reis, que este estabelecimento de instrucção pratica começa a apresentar-se-nos sob um novo aspecto e a poder satisfazer ao fim para que foi creado.
O terreno em declive de norte a sul era em socalcos e os muros que os sustentavam, arruinados até aos alicerces, não podiam com os reparos e obras d'arte proprias; foi preciso reedifical-os todos, tornar o terreno o mais plano possivel e dar aos socalcos que ainda ficaram, melhor e mais regular direcção.
É na verdade com muita lentidão que téem continuado estas obras, faltando ainda, por ser mui diminuta a respectiva dotação, entre outras obras d'arte, a construção de uma estufa, parte essencial n'um jardim d'esta natureza, mas é de esperar, do zelo e dedicação do conselho academico, que em breve a veremos concluida. (...)”  
In, Jornal de Horticultura Pratica, pag, 204, 1880, Porto



O antigo Jardim Botânico a que alude o texto anterior, instituído em 1837 só teria existência prática a partir de 1852 e, em 1880, ainda se encontrava em instalações deficientes.
António da Costa Paiva, barão de Castelo de Paiva, seria nomeado primeiro director do Jardim Botânico do Porto, por inerência do cargo, de lente proprietário da décima cadeira, Botânica, Agricultura, Metalurgia e Arte de Minas, da Academia Politécnica do Porto, por decreto de 11 de Janeiro e carta régia de 28 de Julho de 1838, mantendo esta função entre 1838 e 1855.
Ao barão de Castelo de Paiva se refere Júlio Dinis, na sua obra "Os Fidalgos da Casa Mourisca", a propósito de um animado diálogo sobre Frenologia, Metafísica e Filosofia que ele terá mantido com um alemão, administrador da Casa dos Ornelas, na Madeira.
Aquelas primeiras instalações situavam-se no terreno onde se encontra hoje a Morgue do Porto e no terreno a ela adjacente, sendo ainda bem visível na foto abaixo, o muro e gradeamento que dá para a Rua Clemente Menéres (antiga Praça Duque de Beja), notando-se em destaque os pilares da entrada do jardim ainda existentes.




Entrada do antigo Jardim Botânico na Rua Clemente Menéres


Em 1864, continuavam os trabalhos de instalação do Jardim Botânico e, em 1867, o responsável pelo mesmo, Joaquim de Silva Vieira deslocava-se a Lisboa pra recolher 300 espécies de plantas oferecidas pelo Jardim da Ajuda.
De Coimbra, Braga e Aveiro chegariam outros exemplares, ao mesmo tempo que era construída uma estufa e, no meio do jardim, um lago para plantas aquáticas. Desenvolvendo-se o terreno afecto ao jardim Botânico num ligeiro declive, à cota baixa seria construída a Escola Botânica.
O primeiro-oficial do jardim Joaquim da Silva Vieira haveria de deixar o cargo em favor de Joaquim Casimiro Barbosa, em virtude de ser chamado a exercer funções docentes no Instituto Industrial.



Jardim Botânico da Academia Polytechnica do Porto


“Havendo a absoluta necessidade de ampliar o quartel da Guarda Municipal, o Jardim foi deslocado em 1903 para a Cordoaria, mas por muito pouco tempo, pois a Academia não tinha qualquer autoridade sobre esta praça, pelo que a única coisa que lhe era permitido fazer era classificar e etiquetar as plantas lá existentes. Desta forma, o Porto ficou privado do seu Jardim Botânico cerca de meio século.”
Fonte: “jardimbotanico.up.pt”


“Em 1802, o francês Jean Pierre Salabert, fabricante de "chapéus finos", comprou a Quinta Grande, outrora pertencente à Ordem de Cristo, que passou a ser conhecida como "Quinta Grande do Salabert". Após as Invasões Francesas foi confiscada pelo Estado ao seu proprietário, tal como muitas outras propriedades de cidadãos desta nacionalidade. Por altura da Revolução Liberal de 1820, já era propriedade de João José da Costa e, posteriormente de Arnaldo Ribeiro Barbosa.
Em 27/2/1875, a propriedade foi adquirida à viúva de Arnaldo Ribeiro Barbosa, D. Carolina Augusta da Costa Barbosa por João Pereira da Silva Monteiro, "brasileiro de torna viagem", por 6 contos de reis. Este ordenou a demolição da antiga habitação e a construção de um palacete na então denominada Quinta do Campo Alegre.
Tendo, porém, tido necessidade de voltar ao Brasil, Silva Monteiro não regressou e não terminou a sua construção, pelo que não chegou habitá-lo.
Este “brasileiro”, João Pereira da Silva Monteiro era também dono da Quinta da Lavandeira (V.N. de Gaia) e irmão de António, depois Conde de Silva Monteiro.
Vinte anos depois, em 1895, a Quinta passou para a posse de João Henrique Andresen Júnior e de sua mulher, Joana Andresen, que concluíram o projecto de renovação da casa e dos jardins.
João Andresen era filho do homónimo industrial e comerciante de vinho do Porto, e foi avô dos escritores Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Ruben A. (1920-1975).
(…) A Faculdade de Ciências da Universidade do Porto debateu-se com falta de espaço para as actividades lectivas e de investigação logo nas primeiras décadas de funcionamento. Em reunião do Senado Universitário de 9 de Agosto de 1937, Américo Pires de Lima, vogal e director da FCUP, fez aprovar por unanimidade a seguinte proposta: expor ao Governo a necessidade de aquisição da quinta que pertencera a Joana e Henrique Andresen, para nela instalar o Jardim Botânico, o Observatório Astronómico e um campo de jogos. Logo no mês seguinte, a U. Porto enviou ao Ministro da Educação Nacional o pedido dos "seus bons ofícios para a aquisição da Quinta Grande de "Salabert", na Rua do Campo Alegre, n.ºs 757 a 771, a qual se destinaria a Jardim Botânico e à instalação de Museus, de campos de jogos e de cultura física da mocidade universitária".
No final do ano, o Reitor informou os membros do Senado de que a compra da Quinta de Salabert tinha sido aprovada pelo Governo.
Porém, apesar das pretensões da Faculdade de Ciências, a compra da quinta permanecia por efectuar em 1943. Por esta altura, o Director da Faculdade, em ofício dirigido ao Reitor, exprime a sua mágoa perante o abandono a que o terreno e a moradia tinham sido votados: "O parque, jardins e estufas estão em risco de deterioração por falta de cuidados apropriados".
Entretanto, o Ministério da Educação Nacional teve conhecimento de que parte da Quinta do Campo Alegre iria ser expropriada para garantir a construção de acessos à Ponte da Arrábida. Razão pela qual o Ministério das Obras Públicas e das Comunicações achava não ser conveniente a compra da propriedade pela Universidade do Porto. Mas o Ministério da Educação Nacional não abandonava o seu interesse pela Quinta: "Este Ministério (…) reconheceu a necessidade de se dotar a Universidade do Porto de instalações que não possui; e reconheceu também que o local mais adequado para preencher aquelas necessidades era a Quinta do Campo Alegre. (…) O plano de urbanização há-de ser fixado de harmonia com o interesse público; o fim para que se pede a aquisição é também do interesse público. Na hierarquia destes dois interesses, qual deve ficar em primeiro lugar?"
Em 1944, já é ao Presidente da Câmara Municipal do Porto que o Reitor, António José Adriano Rodrigues, expõe pormenorizadamente as vantagens decorrentes da compra da Quinta do Campo Alegre.
Finalmente, em 1949, a propriedade foi adquirida pelo Estado e no dia 7 de Janeiro do ano seguinte, a Direcção-Geral da Fazenda Pública comunicou ao Reitor da U. Porto a autorização da cessão, a título precário, por parte do Ministério das Finanças, "da propriedade urbana e rústica (…) conhecida pela designação de "Quinta do Campo Alegre", para ser aplicada a diversos fins de interesse dos serviços [da Universidade] que, entretanto, se responsabilizará pela sua guarda e conservação". O Auto de Cessão foi lavrado na Direcção de Finanças do Distrito do Porto.
Para a antiga Casa Andresen foram transferidos os herbários, a biblioteca e os gabinetes do naturalista e auxiliares, para além do gabinete do Inspector do Jardim. A reparação do exterior da moradia ficou a cargo da Direcção dos Edifícios Nacionais que, entre outras intervenções, recuperou os telhados. O interior do palacete, exposto às intempéries durante uma série de anos, foi também objecto de obras de recuperação de grande envergadura.
A Quinta albergava um conjunto de construções residenciais e funcionais, como a casa do antigo proprietário, de 4 sobrados (cave, rés-do-chão, 1.º piso e águas-furtadas), as casas do caseiro e do motorista, court de ténis, estufas, garagem, armazéns, eiras e cortes e, ainda, um jardim de recreio, terrenos agrícolas e mata.
Em 2008, o Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências foi transferido para novas instalações, de igual modo no Pólo 3 da Universidade, e a casa, depois de desocupada, começou a ser remodelada pelo arquitecto Nuno Valentim para acolher a exposição "A Evolução de Darwin", um evento cultural integrado nas Comemorações do I Centenário da U. Porto (2011).
Numa fase inicial, as obras centraram-se no restauro e conservação da habitação, embora também tenham contemplado a introdução de novos espaços, como um elevador panorâmico e uma casa de chá e sushi, prevendo-se que fiquem concluídas com a construção da Galeria da Biodiversidade”.
Fonte: “sigarra.up.pt”



Casa Andresen

Uma festa na Quinta do Campo Alegre


Casa Salabert – Ed. Egídio Santos


Busto de Américo Pires de Lima no jardim



O edifício da foto acima, remanescente da Quinta do Campo Alegre e que é conhecido como Casa Salabert, foi usado até meados da década de 80 do século passado, como casa do guarda do Jardim Botânico. Actualmente, após profundas remodelações internas, alberga um auditório utilizado para diferentes fins como aulas, workshops, cursos e um “e-Learning Café – Botânico” onde os estudantes têm ao seu dispor quatro salas equipadas para o trabalho individual ou em grupo, bem como o acesso a 20 computadores portáteis e à internet de alta velocidade, através da rede wireless da Universidade.