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segunda-feira, 15 de julho de 2019

25.57 O Tivoli portuense e outras diversões (Actualização em 29/11/2020 e 17/04/2021)


Poucos portuenses saberão que o Porto já teve o seu Tivoli. Aliás, parece ter tido dois.
Um, na Praça da Alegria e, mais tarde, outro, na Rua Formosa.
Alberto Pimentel na sua obra “O Porto há 30 anos”, fala num Tivoli situado para as bandas da Rua Formosa, onde, em rapaz, teria assistido ao lançamento de um balão.
Essas ascensões aerostáticas ocorreriam nas tardes de Domingo.
Este Tivoli, era propriedade ou, pelo menos, tinha por gerente, Bernardo Morelli Chaves.
Na página 56 da sua obra, dizia, então, Alberto Pimentel:
 
 


 



“Por volta da década de 50 do século XIX existiu, não muito longe do local onde o Jardim Passos Manuel foi construído e localizado nuns terrenos que pertenciam à antiga Quinta das Lamelas e com ligação pelas ruas Formosa e da Alegria, um Teatro denominado Tivoli, sobre o qual encontramos escassas referências mas que, das que existem serviram para aguçar a nossa curiosidade, que foi acentuada por uma alusão encontrada na revista O Tripeiro (Série 1, Ano III, Nº 77, p. 79). Na revista, numa secção onde havia a troca de correspondência entre o público leitor, referem que o Tivoli era perto do Palácio Pereira Machado e que ocupava parte da rua Formosa, da rua de Santo Ildefonso (…) sendo inspirado no Tivoli de Copenhaga, um famoso parque de diversões, considerado um dos mais antigos do mundo.”
Cortesia de Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte



Pelo texto anterior, poder-se-á concluir que, aquele Tivoli, ocuparia um terreno que, indo da Rua Formosa à Rua de Santo Ildefonso (terrenos da antiga Quinta das Lamelas), corresponderia a uma área separada pelo aparecimento da Rua de Passos Manuel e, mais tarde, ocupada pelo Grémio Recreativo e pelo Jardim Passos Manuel.
Diga-se que, este troço superior da Rua de Passos Manuel, só começaria a ser rasgado em 1881, pelo que, a entrada para o Tivoli, teria que ser feita pela Rua Formosa, como conta Alberto Pimentel.





Anúncio publicado no jornal “O Comércio do Porto” de 22 de Maio de 1858


Alguns meses antes da divulgação do anúncio anterior, temos notícia do Tivoli, num texto de uma carta enviada, em 4 de Agosto de 1857, pelo balonista Eugène Poitevin a um jornal e transcrita e publicada, em 18 de Setembro de 1857, no jornal “Correio Mercantil” do Rio de Janeiro. Aí, o balonista dá conta de que subiu aos ares no Tivoli, no Domingo, 2 de Agosto.







Sobre este Tivoli, em Agosto de 1910, a revista “O Tripeiro”, anteriormente referida, dava conta das lembranças de alguns dos seus leitores, de que a seguir se dá nota.


 


 
 




Um outro local de divertimento do género, denominado “Tivoli Portuense”, esteve situado, uns anos antes, nos terrenos que acabaram por ser jardins do “Palacete Braguinha”, com uma das serventias a fazer-se pelo Largo de S. Vítor (Praça da Alegria).
Sobre este Tivoli, aberto em 1839, noticiava o jornal "Periódico dos Pobres" naquele ano da sua inauguração, no dia 12 de Agosto (2ª Feira):


“Tivoli Portuense: Quinta 15 estará aberto, além dos jogos do costume haverá um novo denominado Serpentes Boas.”

 
E alguns meses depois anunciava-se:
 
 
“O Tivoli Portuense informa que estará aberto, amanhã, Domingo, prevenindo o respeitável público que a Montanha Russa foi aumentada em 130 palmos.”
In jornal “Periódico dos Pobres no Porto”, 18 Abr.1840, p. 416



Entretanto, Joaquim Ferreira Moutinho no seu livro “A Creche”(1884), faz alusão a este Tivoli, com uma chamada à sua memória, do seguinte modo:

 

 



 
Há a informação de que, em 1849, o Tivoli da Praça de S. Vítor já não existiria de acordo com a notícia seguinte:


"Antigo Tivoli: M. Menay anuncia a função no domingo no sítio onde esteve o antigo Tivoli, com entrada pela praça S. Vítor. O divertimento consistirá em física, deslocação, pantomina, ascensão por uma corda, etc."
“Periódico dos Pobres”, de 15 Jun.1849, p. 557 – 6ª Feira

 
O jornal “O Porto e a Carta” de 16 de Maio de 1859, dava conta de uma ascensão aerostática no Tivoli, da companhia de Salvador Siciliani, realizada na véspera, tendo-se o aeróstato despenhado num telhado duma casa da Praça da Alegria, após breve voo.
O espectáculo da ascensão de balões continuou por muitos anos e, um deles, entre muitos outros que foram notícia, envolveu a primeira subida aos céus do Balão “Liberal” que, sob o comando do cigarreiro Francisco de Carvalho, a 14 de Outubro de 1906, partindo da Praça da Alegria, subiu 300 metros e foi estatelar-se no lugar de Azevedo de Campanhã.






Grémio Recreativo e Salão Jardim Passos Manuel


Em 1875, seria rasgada a Rua de Passos Manuel, cujo primeiro troço foi aberto entre as ruas de Sá da Bandeira e Santa Catarina.
O segundo troço, entre as ruas de Santa Catarina e o Largo de Santo André, foi começado a abrir, em 1881.
Já em pleno século XX, por aqui, iriam surgir o Grémio Recreativo, o Salão-Jardim Passos Manuel, o Teatro Cinema Olympia e o Coliseu do Porto.


“Em 1903 surge a primeira referência a um novo estabelecimento denominado Grémio Recreativo que se situava entre o nº 2 da Praça da Batalha e o nº 176 da rua de Passos Manuel. A referência mais antiga que encontramos foi uma licença de espetáculo de junho de 1903 requerida por Manuel Monteiro de Souza para dar espetáculos de canto, declamação, concertos musicais e outros divertimentos próprios de café-concerto ao ar livre, nos jardins da sua casa. No ano seguinte, surge um auto de vistoria de 9 de julho de 1904, feito ao palco-coreto do Grémio Recreativo. Por este documento ficamos a saber que este teria entrada pelo nº 2 da Praça da Batalha e pela rua de Passos Manuel, sendo o seu proprietário Manuel Monteiro de Souza. Na descrição percebemos que este encontrava-se por detrás da Igreja de Sto. Ildefonso. Em abril de 1907 surge nesse lugar um cinematógrafo com o nome de Salão Popular que funcionaria até março de 1908. Em agosto de 1909 começa a surgir nos periódicos, publicidades referentes a um Circo de Variedades naquela rua que, pelas licenças de espetáculos, percebe-se que seriam no antigo Grémio Recreativo mas a sua inauguração só se concretizou em abril do ano seguinte. Em 1911 ele é denominado como Novo Teatro-Circo de Variedades e no ano seguinte o seu nome é alterado para Colyseu de Variedades. Este espaço terá funcionado consistentemente até finais da década de 10 e, a partir daí, ficamos alguns anos sem informação até que em 1934 surge novamente referência a ele como «Circo de Variedades da Empresa António Castro, onde estiveram as encomendas postais». Não sabemos até quando terá funcionado um cinematógrafo no local já que na maior parte das referências apenas nos dizem que havia espetáculos de variedades. Sabe-se que naquele local foi construído no final da década de 30, a partir do ano de 1937, a Garagem Passos Manuel, que seria propriedade de Rocha Brito e das irmãs Chambers”.
Com a devida vénia a Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, In Mestrado em História da Arte Portuguesa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Setembro de 2017


Área ocupada pelo Grémio Recreativo – Fonte: Planta de Telles Ferreira de 1892


Na planta acima, é possível localizar o Grémio Recreativo, entre a Rua de Passos Manuel e a igreja de Santo Ildefonso, em local, mais tarde, ocupado pela Garagem Passos Manuel.
Em Abril de 1907, pela mão de António Hipólito d’Aguiar, surgirá um barracão, nos jardins do Grémio Recreativo, onde funcionará um cinematógrafo, denominado – Salão Popular.


Pelo canto, à esquerda (ao lado da igreja de Santo Ildefonso), se fazia a entrada, pela Praça da Batalha, para o Grémio Recreativo



Peça de processo de licenciamento de um barracão, para funcionamento de um cinematógrafo (Salão Popular), aprovado pela CMP, em 27 de Abril de 1907


Publicidade na qual é mencionado o Salão do Grémio Recreativo, no jornal "A Voz Pública" de 11 de Abril de 1907





Publicidade ao Novo Teatro-Circo Variedades, em 1911, funcionando no Grémio Recreativo


Em Março de 1908, mais concretamente, no dia 25, houve um Comício do Partido Republicano, no Porto, que aparece frequentemente associado ao Jardim Passos Manuel, o que não é verdade.


Comício Republicano realizado em 25 de Março de 1908, no Grémio Recreativo (O Jardim Passos Manuel, na foto, tinha sido inaugurado, há uma semana) – Fonte: “Illustração Portuguesa” (06/04/1908); Cliché de Carlos Pereira Cardoso



Acima, observa-se uma força de infantaria da Guarda Municipal do Porto, em formação, e o desfazer do comício.
É frequente referir, como local da realização daquele comício, o Jardim Passos Manuel, o que o texto de um artigo alusivo ao facto, publicado na revista Illustração Portuguesa, de 6 de Abril de 1908, desmente, e as conclusões de Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, na sua tese de mestrado, confirmam. O comício realizou-se, sim, no Grémio Recreativo.
Quanto aos antecedentes do Jardim Passos Manuel, inaugurado em 17 de Março de 1908, para a imprensa e, no dia seguinte, para o público, não há certezas sobre qual o seu embrião.
À data, estava em moda o lançamento de cinematógrafos e, pode ter sido, esse, o caso a que alude um documento, datado de 24 de Agosto de 1907, onde é feito um pedido de vistoria aos terrenos que ficam por detrás da fotografia Alvão, pois, o requerente Alberto Joaquim, pretendia ali construir um cinematógrafo.
Em janeiro de 1908 um artigo no jornal “O Comércio do Porto” dava conta, de que a construção, do que viria a ser o Jardim Passos Manuel, estava em marcha.

“N’um vasto terreno da rua de Passos Manuel está sendo construído um amphiteatro, medindo 10 metros de raio e 20 de diâmetro e para as galerias do qual dão ingresso duas amplas escadas lateraes, sendo aquellas formadas por pilastras, columnas e balaustres, imitando granito
e mármore, e a cornija revestida de azulejos (arte nova).
Ao centro do amphiteatro ficará uma fonte luminosa, encimada por elegante torre, d’onde um holophote, collocado n’uma altura de 12 metros acima do sólo, projectará luz a grande distancia. Por debaixo d’essa fonte será formado um pequeno lago.
A galeria do lado esquerdo dá entrada para o jardim e a do lado direito também para aquelle recinto e para um grande salão...”
In jornal “O Comércio do Porto” de 28 de Janeiro de 1908


A 17 de Março de 1908, era então inaugurado o espaço de diversão que, durante as próximas décadas, seria uma referência na cidade do Porto

“O publico, que enchia literalmente o salão, aplaudiu enthusiasmado vários dos quadros apresentados. Não podia, pois, ser mais auspiciosa a experiencia.”
In jornal “O Comércio do Porto” de 18 de Março de 1908 – 4ª Feira


Luiz Alberto de Faria Guimarães surge, em Maio de 1908, em requerimento de pedido de licenciamento para construção de uma bilheteira (Licença de obra nº: 385/1908), como proprietário do Jardim Passos Manuel.
Nos anos seguintes, os melhoramentos e os sucessos sucederam-se, até que surgiria uma outra sala icónica para os portuenses – O Coliseu do Porto.


“A partir de 1911 e, provavelmente, com o constante aumento do público e de forma a visar a comodidade do mesmo, a empresa que o geria sentiu necessidade de o expandir e, a partir daí, aparecem associadas ao Jardim Passos Manuel as seguintes dependências: uma bilheteira voltada para a rua Formosa; a criação de mais dois palcos-coreto, um próximo do salão de inverno/hall e o outro construído também para os lados das casas da rua Formosa; os camarins que ficavam ao lado poente do salão teatro/cinematográfico; a casa das máquinas, construída próximo dos terrenos adjacentes às casas da rua de Sta. Catarina; o ringue de patinagem/salão de festas que, até aos nossos dias, se encontra atrás do Olympia; a escola de tiro que se localizaria imediatamente ao lado da casa das máquinas; um novo WC, construído próximo dos terrenos das casas da
rua de Sta. Catarina; a tipografia, os escritórios e o Club Português que se encontravam também, para os lados da rua Formosa; um pequeno teatro no jardim; um chalet, que foi construído mais tarde no lugar da escola de tiro e, por fim, uma sala de espelhos, sobre a qual não temos praticamente nenhuma informação”.
Com a devida vénia a Liliana Isabel Sampaio Fortuna Duarte, In Mestrado em História da Arte Portuguesa (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património, Setembro de 2017)



Pavilhão da Escola de Tiro pertencente ao "Jardim Passos Manuel", em 1923 – Ed. Foto Guedes


Entre muitas outras diversões, uma das mais famosas, era denominada de “Pim Pam Pum”, nome que era dado, naquela época, a todas as actividades relacionadas com jogos de perícia, pontaria ou força, tais como aqueles jogos, que ainda hoje se encontram nas barracas das feiras populares.
A Escola de Tiro, em 1923, seria alvo duma intervenção e apareceria como a “Nova Escola de Tiro” (junto da nova Casa das Máquinas) e, antes (1910), teria estado ao lado do palco-coreto.


Lago e Gruta do Jardim Passos Manuel (1914) – Fotograma extraído de filme da Cinemateca Portuguesa, O debute de um patinador”, realizado pela Invicta Film


No fotograma acima, um dos figurantes acaba por cair ao lago.




Ringue de Patinagem do Jardim Passos Manuel (1914) – Fotograma extraído de filme da Cinemateca Portuguesa, O debute de um patinador”, realizado pela Invicta Film


Central Eléctrica do Jardim Passos Manuel (1923) – Fonte: “gisaweb”


Hall de entrada no Salão Jardim Passos Manuel


Aspecto do Salão de Festas, Sala de Concertos e Teatro – Ed. Alvão



Aspecto do Salão de Festas, Sala de Concertos e Teatro


Pátio do Jardim Passos Manuel


Vista geral da fachada principal do "Jardim Passos Manuel", voltada para a Rua de Passos Manuel, 1923 – Ed. Foto Guedes




A parceria entre o Jardim Passos Manuel e a produtora cinematográfica “Invicta Film”


Num campo entre o Castelo do Queijo e o final da Estrada da Circunvalação, coincidente com terrenos hoje pertencentes ao Parque da Cidade e devidamente vedado (nele, só se podia entrar mediante o pagamento de 200 réis que revertiam a favor da organização do evento) decorreriam, em Setembro de 1912, várias demonstrações de voos em aeronaves, às quais assistiram, na primeira sessão, cerca de 60 000 pessoas, que se deliciaram com os voos dos consagrados pilotos aviadores franceses Leopold Trescartes, Isidore Auguste Marie Louis Paulhan (Pézenas, 19/07/1883 - Saint-Jean-de-Luz, 10/02/1963) e Roland Garros (Saint-Denis, Reunião, 06/10/1888 - Ardenas, 05/10/1918).
O Jornal de Notícias foi um dos que registaram, aquele que estava anunciado como o primeiro voo de avião, em Portugal, feito a partir de um aeródromo improvisado junto ao Castelo do Queijo, no Sábado 7 de Setembro de 1912.
Pretendiam aqueles voos de demonstração, angariar dinheiro para a construção da obra social das “Creches do Comércio do Porto", o que refira-se, desde já, foi um êxito.
Foi o industrial e proprietário António da Silva Marinho, em 1909, residente na Rua da Piedade e, em 1920, na Rua da Índia, que adquiriu o aparelho, em Paris.
Um MF-4, construído pelo francês Maurice Farman, o qual seria, depois de transportado por barco, desembarcado em Leixões.
Tratava-se de um biplano militar de reconhecimento aéreo.
Entre 7 e 15 de Setembro de 1912, no Porto, o piloto francês Leopold Trescartes, sempre acompanhado pelo mecânico montador M. Bouvier, efectuou diversos voos naquele avião, após ter estado desde o dia 1 de Setembro, em exposição, na nave central do Palácio de Cristal.


Maurice Farman 4 (MF 4 -1) em exposição no Palácio de Cristal


Realizaram-se 12 espectáculos até ao dia 15.
Assistiram mais de 60.000 pessoas ao primeiro voo no campo do Castelo do Queijo. O aeroplano fez evoluções sobre a cidade do Porto, Foz e Matosinhos, chegando a elevar-se a 300 metros de altura.
As imagens do histórico evento ficaram registadas, em filme realizado pela Invicta Film, o qual se encontra, hoje, nos arquivos da Cinemateca Portuguesa com o título “1ª SEMANA DE AVIAÇÃO”.


Maurice Farman 4 (MF 4 -1) voando sobre o Porto


“O aparelho ficou em exposição na nave central do Palácio de Cristal. A concorrência foi muito numerosa, pois a receita proveniente da venda de bilhetes e diversos emblemas atingiu a bonita cifra de 625$165 reis. A angariação dos fundos destinava-se à creche Comércio do Porto. A subida do avião ia ser feita no terreno em frente ao Castelo do Queijo entre a estrada da Circunvalação e a estação transformadora que a Cª. Carris ali possuía… O único automóvel de aluguer que então existia no Porto também não ficou inactivo, fazendo frequentes carreiras. Calculou-se em 60.000 o número de pessoas que no local se juntaram… Perante aquele público, verdadeiramente emocionado, o aparelho descolou lentamente às quatro e meia da tarde, para realizar o seu primeiro voo; ergueu-se até à altura de 250 metros evolucionando sobre a Foz e Matosinhos. Às cinco horas realizou-se então o chamado voo oficial… depois de subir à altura de 300 metros seguiu em direcção ao Porto, à velocidade horária de 90 Kms, passando por cima do Rio Douro, Praça da Liberdade, Marquês de Pombal e Torre dos Clérigos. Tinha permanecido 16 minutos no ar… o aparelho seguiu depois para Lisboa… o Porto pode ufanamente orgulhar-se de ter sido a primeira terra do país donde descolou um avião.” 
O brigadeiro Luís Nunes da Ponte, In "Recordando o Velho Porto" (1949);
Cortesia de Rui Cunha do “portoarc.blogspot.com”




Na Rua Oliveira Monteiro existiu um “Hipódromo- aeródromo”


No mês seguinte, o Porto voltaria a assistir a mais algumas evoluções aéreas que ficaram também registadas em filme.


“A partir de 11 de Outubro, no Porto, num hipódromo que existia então na rua Oliveira Monteiro, iniciaram-se uma série de voos num aparelho «Borel», aos comandos de um piloto francês de seu nome Poumet.

Cortesia de “portadembarque04.blogspot.com”


O produtor portuense Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da Rua de Santo Ildefonso, no Porto.
Em 1912 muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Um trecho publicitário do jornal “O Comércio do Porto” de 17 de Outubro de 1912, dava conta da exibição, no cinematógrafo do Jardim Passos Manuel, de um filme/documentário intitulado: “Aviação e corridas de cavallos no aerodromo-hippodromo Oliveira Monteiro”.
Registe-se, então, que entre a Rua Oliveira Monteiro e a Avenida de França existia, em 1912, um hipódromo que, por vezes, serviu de aeródromo para exibição de acrobacias aéreas.
 
 
 
 

Local da futura confluência da Avenida de França com a Rua da Constituição, em 1966. Por aqui, muitos anos antes, na área antes da linha do horizonte, existiu um pequeno aeródromo


sexta-feira, 28 de julho de 2017

(Continuação 18) - Actualização em 28/05/2019 e 04/02/2021

 
Para lá do cruzamento com a Rua de Passos Manuel todo um mundo de comércio nos deslumbrava.



Cruzamento das ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, c. 1940



Caminhando no sentido ascendente pela Rua de Santa Catarina, pela esquerda, a partir do cruzamento com a Rua Passos Manuel, c. 1940, encontrávamos sucessivamente: “A Perfecta”, ourivesaria, nos n.ºs 91-93; sucursal da Papelaria Araújo & Sobrinho, n.ºs 101-103; Arnaldo Trindade, comércio de discos e electrodomésticos, n.º 117; Papélia, papelaria, n.º 125; Casa da Beira-Alta, associação, n.º 147; Pomar Santa Catarina, n.º 165.

 

Rua de Santa Catarina, em 1970 – Cortesia de JG Magalhães
 
 
 
Na caminhada pelo lado poente da rua, no sentido ascendente, na esquina das ruas de Passos Manuel e Santa Catarina e ainda de portas abertas, desde 12 de Outubro de 1946, continuamos a ter a “Ourivesaria Perfecta”.

 

 


Ourivesaria Perfecta – Fonte: Google maps

 


Continuando a caminhada, desde meados do século XX, esteve sedeada, no nº 117, a loja de electrodomésticos e discográfica “Arnaldo Trindade” e, ainda, desde uns anos antes, no nº 125, a papelaria "Papélia", que rivalizava com uma outra, sua vizinha, no n.º 103, sucursal da Araújo & Sobrinho. 

 
 
 

Papelaria Papélia, c. 1938

 
 
Na foto, acima, observa-se a Papelaria Papélia e o stand da Renault exibindo na montra o Renault Juvaquatre com carroçaria "hatchback" (começado a produzir, em 1937, com o modelo de 3 portas) modelo familiar de 5 portas. Este modelo viria a ser substituído, em 1953, pelo Renault 4CV conhecido em Portugal como "Joaninha".
A papelaria Papélia, que teve instalações renovadas e inauguradas em 7 de Junho de 1953, daria lugar, actualmente, à firma Ponte das Artes.


 

“Ponto das Artes”, na Rua de Santa Catarina, nº 125



A montante do Stand da Renault no nº 135, era a Sapataria Danilo (faziam sapatos por medida) e, no nº 141, a Farmácia Souza Soares, que continua de portas abertas.
Continuando, encontramos hoje a Confeitaria Império, inaugurada em 1941 e, a poucos metros, a Confeitaria Mengos, inaugurada em 1977, e que substituiu nesse local o Pomar de Santa Catarina, inaugurado em 1933, que atraía a curiosidade dos portuenses por apresentar algumas peças de caça (perdizes e lebres) penduradas na sua entrada.

 
 

Rua de Santa Catarina, em 1941
 
 
 
 
Na foto acima, observa-se, em primeiro plano, uma nesga de uma farmácia, seguindo-se as instalações da Confeitaria Império e, do outro lado da entrada do prédio, o Pomar de Santa Catarina.
Nesse prédio, no rés-do-chão, aconteceria na madrugada do dia 13 de Janeiro de 1956, um grande incêndio que afectou a Camisaria High-Life a Confeitaria Império e o Pomar de Santa Catarina, tendo os Sapadores Bombeiros, que ocorreram a combater as chamas, salvado "in extremis", dos andares superiores, sete adultos e três crianças. Após esse incêndio, a agremiação "Casa da Beira Alta", fundada, precisamente, em 26 de Abril de 1956, vai aí instalar-se e, com o contributo dos associados, mais tarde, em 1981, adquire o prédio e, por aí, se mantém até ao presente. 
Esta importante agremiação da cidadefoi formada por gente oriunda daquela provincia e a comissão organizadora formou a partir de uma roda de amigos, frequentadores do Café Sport e adeptos do Boavista F. C.
No dia 26 de Abril de 1964, o 8.º aniversário da agremiação foi comemorado durante um jantar que reuniu dezenas de beirões, que foram recebidos e saudados pelo seu presidente de direcção, o Dr. Adriano Vasco Rodrigues, distinto historiador que, após a revolução de 25 de Abril, teve uma incursão breve pela política.
Seria fastidioso enumerar todas as personagens da vida artística e das letras que promoveram sessões nas instalações da Casa da Beira Alta ao longo das décadas, para além de Aquilino Ribeiro é de destacar Sarah Beirão, Manuel Leal Freire. António Gomes Beato, Martins Jorge e fiquemo-nos por aqui.
Os almoços realizados nas primeiras quartas-feiras de cada mês, com pratos regionais, confeccionados na cozinha da sede da colectividade, ficaram para a história.




A Casa da Beira Alta, em dia de festa


Na foto acima, ao centro, onde está o Restaurante Porto Douro, esteve a Camisaria High Life.
Em 1951, numa sala dos andares superiores foi instalado a "ONDA" (Organização Nacional de Divulgação Artística) fundada nesse ano por Alexandre Tavares da Fonseca, destinada à elaboração de trabalhos fotográficos.
A Camisaria High Life tinha uma outra loja, na Rua dos Clérigos, n.º 19, dedicada às crianças, que reabriria depois de obras em 22 de Março de 1952.



Camisaria High-Life, na Rua dos Clérigos




Na primeira metade do século XIX, os terrenos a poente da rua, nomeadamente, onde mais tarde foi erguido o Grande Hotel do Porto eram, sobretudo, quintas e terrenos lavradios pertencentes à grande empresária D. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha do vinho do Porto.
O Grande Hotel do Porto inaugurado em 27 de Março de 1880 é um dos hotéis de maior prestígio da cidade, e nasceu por vontade de Daniel Moura Guimarães, que foi para o Brasil com 17 anos e regressou rico, ao Porto, em 1867. Aqui chegado, desafiou o arquitecto Silva Sardinha para projectar um hotel de referência na cidade.
O quarteirão entre o que são hoje as ruas de Santa Catarina, Sá da Bandeira, Passos Manuel e Formosa pertencia a Francisco da Cunha Magalhães e a D. Antónia Ferreira.
Os terrenos onde foi levantado o Grande Hotel do Porto, pertenceram a D. Adelaide Ferreira, vulgo a “Ferreirinha” da Régua que tinha uma casa apalaçada no local que viria a ser o chão do hotel.
A luxuosa unidade hoteleira foi sempre escolhida pela nata da sociedade de então.
Assim, quando o imperador D. Pedro II e sua mulher, a imperatriz Teresa Cristina Maria, vieram exilados para a cidade do Porto, em 1889, aquando da implantação da República no Brasil, foi no Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina que se hospedaram e, num dos seus quartos, que a imperatriz morreu na manhã do dia 28 de Dezembro de 1889.
Eça de Queirós era seu hóspede frequente, e o Duque de Windsor também aqui esteve, e tem sala com o seu nome. 
Aqui, também seria preso o primeiro-ministro Afonso Costa, em Dezembro de 1917, aquando do golpe de estado de Sidónio Pais e onde se alojaram Gago Coutinho e Sacadura Cabral, alguns meses após a sua travessia do Atlântico Sul, e foram alvo de uma manifestação de carinho popular, por parte da população, a 4 de Dezembro de 1922.



Grande Hotel do Porto na homenagem aos aviadores 


Terraço do Grande Hotel do Porto 




À direita, o Grande Hotel do Porto e, à esquerda, a Camisaria Confiança, em 1899





Junto do Grande Hotel do Porto, nasceria a "Bela Jardineira" que, mais tarde, passaria a Camisaria Confiança.
Como “caixa” da famosa Camisaria Confiança, lá trabalhou, durante uns tempos, o pintor Amadeo de Souza-Cardoso, nascido em Manhufe, Amarante, e falecido prematuramente aos 30 anos.
O fundador da “Camisaria Confiança”, António da Silva Cunha era um republicano de Vila Meã, Amarante, que foi vereador da Câmara do Porto e fundador do Centro Democrático do Norte e do Clube Fenianos Portuenses.
A primeira denominação da camisaria, onde chegaram a trabalhar, diariamente, mais de mil operárias, foi de “Bela Jardineira”, tendo sido levantado no local de um outro edifício, entretanto, demolido, onde funcionou o Teatro de Santa Catarina.
Em 1883, a camisaria começou por ser uma modesta indústria para fazer face a uma necessidade do mercado nacional e, em 1894, depois de um grande esforço de modernização, em maquinaria, é inaugurada a “Fábrica Confiança”, cujo edifício teve o traço do arquitecto Joel da Silva Pereira (1861-1899). Este projectista, que cursou na Escola de Belas-Artes de Paris, após retornar à cidade em 1890, faria uma exposição dos seus trabalhos no Ateneu Comercial.


 
 

In “Jornal do Porto” de 30 de Agosto de 1890
 
 
 

Em 1896, Aurélio Paz dos Reis realizou nesta rua, aquele que é considerado o primeiro filme do cinema português, a “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, cujas instalações eram contíguas às do Grande Hotel do Porto.
Há quem diga, porém, que o pioneiro do cinema é, todavia, Francisco Pinto Moreira que, em 1896, se antecipou uns meses a Aurélio Paz dos Reis.




Cartaz publicitário da Fábrica Confiança, em 1894



Fábrica Confiança


Loja de exposição e de vendas da Camisaria Confiança


Instalações fabris da Fábrica Confiança na retaguarda da loja


A área ocupada pela Fábrica Confiança estendia-se até à actual Rua do Ateneu Comercial do Porto (Travessa de Passos Manuel).
 
 
 

Armazéns da Fábrica Confiança, na Travessa de Passos Manuel, c.1916
 
 
 
Na foto acima observa-se, na Travessa de Passos Manuel (Rua do Ateneu Comercial do Porto), o edifício que servia como armazéns da Fábrica Confiança, sujeito a obras de restauro em 1902, para reparação dos estragos provocados por um incêndio.



Publicidade em 1910


Rua de Santa Catarina, junto da Fábrica Confiança




Rua de Santa Catarina, em 1925




O sucesso da “Confiança” manter-se-ia por todo o século XX, com a loja a tornar-se ponto de encontro incontornável para quem visitava a baixa portuense, até porque, passou, a partir de certa altura, a ter outras valências, como salão de chá. Entretanto, a fábrica já tinha sido há muito encerrada.



A "Confiança", em pleno século XX, com estas novas instalações inauguradas por intervenção dos arquitectos António Vinagre e Guilherme Corte Real, em 9 de Maio de 1953



Nas últimas décadas do século XX, as instalações da "Confiança", passaram a ser mais uma loja da marca "Tito Cunha" e, desde há alguns anos, uma loja da cadeia Benetton.

 
 

Loja Benetton – Ed. JPortojo (2013)




Depois de passarmos o Grande Hotel do Porto, na esquina da Rua de Santa Catarina com a então denominada, Travessa do Grande Hotel (antes Viela das Pombas), encontrávamos a Grande Confeitaria Parisiense no nº 167/171, de Bastos Lemos Faria & Pedroso.
Este foi o local onde existiu a Fonte das Pombas e onde esteve também a Papelaria Progresso, agora em cave do mesmo prédio com entrada pela Rua de António Pedro. Presentemente funciona lá, uma loja de comércio de roupa interior.




Papelaria Progresso no seu local de instalação primitivo




Grande Confeitaria Parisiense




Interior da Grande Confeitaria Parisiense




A Grande Confeitaria Parisiense era aqui - Ed. MAC




Papelaria Progresso actualmente – Ed. JPortojo



Voltando atrás, pela direita, no sentido ascendente da rua, após passarmos o café Majestic, encontramos a loja da Zara onde, antes, esteve o stand da firma C. Santos, representante da Mercedes, a que se seguia, bem na primeira metade do século XX, sucessivamente, a Camisolândia (Rua de Santa Catarina, nº 180), a Camisaria Inglesa e a Casa das Camisas.

 
 

Camisolândia, Camisaria Inglesa e Casa das Camisas, em 1938

 
 
O prédio que tem como guarda o lampião é onde hoje está a loja da Zara.


 

Loja da Zara – Fonte: JPORTOJO
 
 
 
Ao aproximarmo-nos da Rua Formosa, no nº 206 da Rua de Santa Catarina, deparamo-nos com a casa onde nasceu em 1 de Agosto de 1828, o escritor Arnaldo Gama. 






Casa onde nasceu e viveu Arnaldo Gama – Ed. J Portojo




Casa onde nasceu e viveu Arnaldo Gama



Uns metros mais à frente, na esquina das ruas de Santa Catarina e Formosa, durante muitos anos, estiveram os "Armazéns da Beira".





"Armazéns da Beira"




Na viagem que começamos na Praça da Batalha já encontrámos, então, a Rua Formosa, que começou a ser aberta por iniciativa do Corregedor João de Almada e Melo em 1784.
Antes e só junto ao mercado do Bolhão, existia a desaparecida Viela do Enforcado em memória de um galego que tinha morto a sua patroa para a roubar e tinha sido executado junto da casa dela.
Na zona desapareceram vários outros topónimos curiosos como Campo da Cavada e Campo da Manada.




Local do Liceu Central contíguo a prédio na esquina - Ed. MAC




No edifício da foto acima, após cruzarmos a Rua Formosa, esteve o Liceu Central do Porto ou Liceu Portuense e, ainda, alguns departamentos do ministério das Obras Públicas.
No edifício da última foto funcionou, na segunda metade do século XIX, o Liceu Central do Porto onde leccionou Antero Quental.
O referido Liceu Central do Porto ou Liceu Portuense, foi inicialmente instalado na Academia Politécnica e, aí funcionou, entre 1840 até 1862 e esteve depois instalado, num edifício da Rua de Entreparedes, entre 1884 e 1887, onde já tinha funcionado a Companhia Vinícola e viria a funcionar o Instituto Comercial e ainda, o Instituto de Contabilidade e Administração do Porto.
O liceu Central esteve também aqui, entre 1866 e 1879, no edifício da Rua de Santa Catarina, onde viria a funcionar a repartição de Obras Públicas e passaria, ainda, pela Rua de S. Bento da Vitória, onde hoje se encontra Polícia Judiciária.
Para aqui, tinha vindo da Rua Formosa onde esteve entre 1861e 1866.
Entre 1878 e 1884, o Liceu Central do Porto funcionou no Palacete do Cirne ou Casa do Poço das Patas.
A partir de 1906, o liceu foi dividido em dois. Um para a zona oriental da cidade e outro para a ocidental.
O edifício adossado ao do antigo liceu, na esquina, chegou em tempos (1891), a ter no seu rés-do-chão o Café Lusitano e, no 1º andar uma agremiação de cariz republicano. Teria sido entre aquele andar e o café que foi congeminada a revolta de 31 de Janeiro de 1891, sendo que esses locais foram muito frequentados por Alves da Veiga. 
Depois, nos baixos deste prédio e durante algumas décadas, estiveram os "Armazéns Bacelar" com actividade comercial no ramo têxtil.
Um pouco mais adiante, no sentido ascendente, encontra-se o centro comercial Via Catarina do grupo Sonae, inaugurado em 1996, após uma das maiores intervenções urbanísticas da zona, conservando a fachada da antiga sede do jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, é um edifício de destaque no percurso encetado.
Este jornal veio para este edifício em 1921, tendo sido fundado em 1868 inspirado na revolta a Janeirinha ocorrida cerca de um ano antes, a 1 de Janeiro.
A 1 de Janeiro de 1868, nasceu o jornal “A Revolta de Janeiro” lançado por António Augusto Leal. Suspenso em 31 de Agosto, reabriu em 1 de Dezembro com o nome “O Primeiro de Janeiro”. Em 1870, dá-se o grande salto, passando a dispor de boas instalações na Rua de Santa Catarina, em prédio pertencente a Inácio Pinto da Fonseca.



Instalações na Rua Santa Catarina do Jornal “O Primeiro de Janeiro”



Um pouco mais acima do jornal ficava, antes ainda da Capela das Almas, a famosa e histórica sapataria “Branca de Neve” com calçado para crianças que tinha um mini carrocel para fazer as delícias da pequenada.
Presentemente, na Rua de Fernandes Tomás, nº 822, teve uma breve passagem pela Rua de Santa Catarina, nº 304.




A Sapataria Branca de Neve, no seu local primitivo, na Rua de Santa Catarina, n.º 382



A Branca de Neve no seu novo poiso, na Rua de Fernandes Tomás



A Capela de Santa Catarina ou das Almas, na esquina da Rua de Santa Catarina com a Rua de Fernandes Tomás, construída nos inícios do século XVIII, é um perfeito ex-libris da cidade. Revestida de azulejos, de Eduardo Leite, de 1929, é já um verdadeiro ícone da cidade.





Capela das Almas



Entre a Capela das Almas e a Rua Gonçalo Cristovão, é merecedora de destaque uma padaria histórica da cidade depois, confeitaria, inicialmente, situada bem perto daquela capela e, depois, em instalações do lado oposto da rua.



Padaria Cunha, nos nºs 489-493




Um pouco mais à frente, à direita, surge a Rua Firmeza, que tomou este nome a partir de 1835, numa alusão às lutas do Cerco do Porto.
Acontece que, até Abril de 1851, essa confluência fazia-se por intermédio de uma escadaria de pedra, já que a Rua Firmeza apresentava-se numa cota mais elevada, assentando essa zona de terreno numa pequena pedreira. Na data citada, foi dada a ordem de regularização do terreno e uma ladeira substituiu a referida escadaria.
Um pouco mais acima, continuando pela Rua de Santa Catarina, no sentido ascendente, surgia, à esquerda, o caminho que conduzia ao Largo de Fradelos.
Por esta zona, em pleno século XX, ainda sobravam algumas das velhas ilhas que povoaram o local.


 

Ilha no nº 675 da Rua de Santa Catarina, em 1942


Por iniciativa de João de Almada e Melo de 1784, a Rua de Santa Catarina seria prolongada a partir da Rua Gonçalo Cristovão, mais propriamente desde as proximidades do Lugar de Fradelos até à Alameda da Aguardente, hoje Praça do Marquês de Pombal.
A este prolongamento se deu o nome de Rua Bela da Princesa



Na estratégia dos Almadas de reorganizar as vias de acesso à cidade entre 1774 e 1779 foi aberta uma rua que partia da Batalha até ao sítio de Aguardente, uma rua em dois tramos e que ligava a cidade intra-muros com a estrada de Guimarães.
Ao primeiro tramo da rua foi atribuído o nome de Rua de Santa Catarina.
De acordo com o desenho de embelezamento da cidade foi desenhado e aprovado em 1778 o projecto de Francisco Pinheiro da Cunha para os alçados desse primeiro troço.
O tramo norte da rua aberto a partir da sua aprovação em 1784 foi inicialmente designado por Rua da Boa Hora (1802) mas em 1807 passou a chamar-se de Rua Bella da Princeza.
Rua Bella já que pertencia ao plano de Embelezamento da cidade e da Princeza já que Carlota Joaquina se casou no ano seguinte (1785) com o Príncipe D. João (1767-1826).
Não cumpre aqui fazer a biografia de Carlota Joaquina, mas de facto a Princesa da Rua Bella era Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbón y Borbón (1775-1830), casada quando tinha apenas dez anos, com o príncipe D. João que se tornaria príncipe herdeiro em 1788, por morte de seu irmão primogénito D. José.
O casamento foi realizado em simultâneo com o casamento da infanta portuguesa D. Mariana Vitória Josefa (1768-1788) com o filho do rei de Espanha Carlos III (1716-1788) D. Gabriel António Francisco Xavier de Bourbon (1752-1788), em Março/Abril de 1785.
Mas só entre 11 e 29 de Junho desse ano se realizam na cidade do Porto os festejos comemorativos do duplo consórcio, promovidos pelo Corregedor e Provedor da Comarca do Porto, Francisco de Almada e Mendonça (1757-1804) o que poderá explicar a atribuição do nome da rua.
D. João em 1799 pela interdição de sua mãe D. Maria I tornou-se oficialmente Príncipe Regente (o que de facto já vinha acontecendo desde 1792) e em 1816, com a morte da rainha, torna-se Rei de Portugal com o nome de D. João VI até à sua morte em 1826.
Carlota Joaquina era filha do rei de Espanha Carlos IV (1748-1819) e de D. Maria Luísa Tereza de Parma e Bourbon (1751-1819). O casamento de conveniência correspondeu a uma aliança entre os dois reinos num período em que para além das disputas de territórios coloniais entre os dois reinos, de França chegavam notícias de convulsões políticas e sociais que eclodiriam na Revolução Francesa.
E se a jovem princesa era retratada (por conveniência?) de uma forma simpática, na realidade de belo, como a Rua, pouco ou nada tinha”.
Com a devida vénia a Ricardo Figueiredo



Rua Bela da Princesa em 1833 (planta da cidade do Porto, publicada por Baldwin & Cradock em Londres, 1833)




De notar no mapa acima o troço da Rua do Bonjardim passando nas Musas e Bairro Alto e, ainda, a antiga Rua do Bolhão (hoje, e desde 1835 Fernandes Tomás) e Fradelos.




Rua Bela da Princesa (colorida) na planta de Perry Vidal 1844/65




Planta de Teles Ferreira, em 1892



Na planta acima, de 1892, a Rua Bela da Princesa (desenvolve-se na vertical vendo-se, à esquerda, o Largo da Fontinha) é já denominada Rua de Santa Catarina, desde a Praça da Batalha até à Praça do Marquês de Pombal. A uniformização dos dois topónimos, neste percurso, tinha já ocorrido em 1860.
E, eis-nos chegados à Praça do Marquês de Pombal, depois de ter deixado para trás, pela esquerda, a Rua de Gonçalo Cristovão e, após alguns metros, pela direita, a Calçada do Luciano que, hoje, é a Rampa da Escola Normal.