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domingo, 18 de junho de 2023

25.195 Visita da rainha D. Maria II, ao Porto, em 1852

 
Em 1852, D. Maria II encetaria uma visita ao Norte do País, começada em 15 de Abril, em Lisboa.
Assim, a comitiva que acompanhava o séquito real começou essa viagem em 15 de Abril de 1852, em direcção a Vila Franca, a bordo do vapor “Terceira” (esteve ao serviço da Real Marinha desde 1836 a 1856), tendo seguido depois, em carruagem, para a Ota, onde pernoitou.
No dia 16, chegou às Caldas da Rainha; a 18, estava em Alcobaça; a 20, em Leiria; a 21, em Pombal; a 22, em Condeixa; a 23, em Coimbra, seguindo-se Buçaco, Águeda e Albergaria e, por fim, o Porto, com entrada a 29 de Abril, um Sábado, tendo por cá ficado até ao dia 5 de Maio, quando a comitiva real rumou ao Minho.
Antes da chegada à cidade invicta, aquela comitiva pernoitou nos Carvalhos, onde as autoridades portuenses e da região se deslocaram para integrarem a caravana nas últimas léguas da jornada, com a chegada à margem esquerda do rio Douro a fazer-se pela Rua Direita (actual Rua Cândido dos Reis).



Após quase setenta anos sobre a visita de D. Maria II, a Rua Direita, na confluência com a Rua do Conselheiro Veloso da Cruz, vendo-se, à direita, a casa de António Teixeira Lopes, mais tarde, a sua Casa-Museu



Dos preparativos realizados no Porto, da chegada real e da sua passagem pelo Minho, nos haveria de deixar rico testemunho o escritor Júlio Dinis, na sua obra "Serões da Província", no conto "Justiça de sua Majestade".
À data da visita real, Júlio Dinis tinha 13 anos e aquela obra é publicada cerca de dez anos depois, em fascículos, no "Jornal do Porto". No entanto, comparando com os factos narrados pelos periódicos de então, o escritor revela-se muito factual.


(…) no centro da Praça de D. Pedro terminava-se um obelisco, diversamente comentado pelos cadeirinhas do passeio do poente, pelos políticos do sul, pelos vigias e empregados municipais do norte, e do lado do nascente pelos grupos de elegantes, e literatos, que então estacionavam nas imediações do Guichard, aquele café que há de merecer uma menção honrosa na história da literatura portuense, se alguém se lembrar de a escrever um dia.
Júlio Dinis, In Serões da Província; Conto: A Justiça de Sua Majestade



Obelisco provisório instalado na Praça D. Pedro



Ao Porto, depois dessa deambulação pelo norte do País, haveria D. Maria II de voltar, aquando do retorno a Lisboa.
A rainha fazia-se acompanhar do rei consorte, D. Fernando II e dos príncipes que seriam, mais tarde, os reis D. Pedro e D. Luís.
O Presidente da Câmara do Porto era, à data, José António de Sousa Basto.
Chegada a comitiva real à margem esquerda do rio Douro, segundo Júlio Dinis, o atravessamento do rio é feito num escaler, desconhecendo-se a razão de não ter sido usada a ponte pênsil.
Na Ribeira, a rainha receberia, num palanque montado para o efeito, as boas-vindas.
A recepção à rainha continuou de acordo com a programação traçada, e depois do beija-mão inicial no Paço dos Carrancas, destacam-se, em resumo,  as visitas feitas ao Palácio de Entre-Quintas, onde tinha falecido há três anos atrás o Rei Carlos Alberto, ao Castelo da Foz, à Escola Médico-Cirúrgica, à Academia Politécnica, ao Museu, à Feitoria Inglesa, a vários estabelecimentos comerciais e fabris e, marcando ainda presença, no habitual baile de gala na Assembleia Portuense.
A Academia Politécnica viria, também, a receber a rainha D. Maria II, durante a qual, não perdeu a oportunidade, o professor de Matemática Joaquim Torcato Álvares Ribeiro, de lhe recordar a falta que faziam os laboratórios práticos e os prejuízos causados pela paragem das obras no edifico, decorrente da apropriação pelo Tesouro Nacional da dotação feita por D. João VI.
Na preparação da visita real à Academia tinha sido pela 1ª vez decidido pelo Conselho Académico, os lentes apresentarem-se de “casacas, coletes e calças pretas, sapatos e meias de seda preta e lenço branco ao pescoço”.
Na sequência da visita real foi ainda projectado um obelisco a erigir na Praça de Dom Pedro da autoria de Luís Augusto de Parada e Silva Leitão.
Detalhando, no dia seguinte, após a chegada, os monarcas convidaram muitas personalidades para jantar, entre as quais o visconde de Terena, conde Ferreira, visconde de Oliveira, visconde de Gouveia, visconde de Podentes, barão de Ancede, Pessanha, presidente da Relação, Passos José, Matos, Martins da Costa, Norton e Silva Amaral, João Elias da Costa, Manuel Castro Pereira, e general Ferreira.
Os monarcas visitariam, durante a sua estadia, o Hospital Real de Santo António, da Misericórdia do Porto, a Roda dos Expostos, na Cordoaria e o Museu. Estiveram ainda presentes nos bailes da Assembleia e da Feitoria.
Visitaram, igualmente, fábricas e, entre essas, a Fábrica de Tecidos de Manuel Joaquim, ao Carregal, a Fábrica do Bicalho, onde foram recebidos pelos directores Hargreaves e Mesnier e a Fábrica de Jacinto da Silva Pereira.
Manuel Joaquim Machado, proprietário da fábrica de tecidos, ao Carregal, era, à data, talvez, o industrial têxtil mais considerado da época, dando trabalho a 437 operários, sendo ainda um dos mais activos no associativismo industrial, fundador tanto da Associação Industrial do Porto como da Associação Industrial Portuense e tendo já estado presente na primeira tentativa associativa que, desde 1838, procurava a legalização da associação do sector.
A comitiva real visitaria, ainda, a Fábrica de Oleados de Domingos José da Fonseca Pascoal, na Rua das Fontainhas, a de Sedas do sr. Barbosa, a do sr. Raimundo, estabelecida ao cimo da Calçada do Luciano, hoje, a Rua da Escola Normal e a do sr. Silva, na Boavista.
No dia 1 de Maio, os monarcas visitaram a quinta da baronesa de Vilar e o jardim da marquesa de Terena e, ainda, deram beija-mão, no Paço.
No dia 3 de Maio, a visita foi ao palácio do barão do Bolhão, a que se seguiria, no fim da jornada, o baile na Feitoria.
A notícia destas visitas teria sido publicada em vários jornais.
A seguir se dá conta de uma delas na qual o periódico da capital “A Revolução de Setembro”, de 10 de Maio, transcreve uma outra, saída no portuense jornal “O Braz Tizana”, em 4 de Maio.
Refere-se à visita real ao palácio do barão do Bolhão.
 
 
 
 
In “A Revolução de Setembro”
 
 
 
A 5 de Maio, os reis, finalmente, lá seguiram para o Minho.
O jornal “ A Revolução de Setembro” transcreveria, alguns dias depois, o que tinha sido escrito no jornal “O Nacional” sobre a partida da comitiva real para o Minho.

 
 
“A Revolução de Setembro” de 11 de Maio de 1852

 
 
Por sua vez, o brasileiro “Jornal do Comércio”, do Rio de Janeiro, de 11 de Junho de 1852, referia que na viagem para o Minho, a comitiva tinha almoçado, a convite do município da Maia, no Castedo, a sua sede de concelho desde a reorganização administrativa de 1836. A importância do sítio advinha de se encontrar à face da estrada Porto – Braga.
O Castedo é, hoje, Castêlo da Maia, sim, castêlo e não castelo, pois uma tal fortaleza existiu, de facto, para as bandas de Águas Santas. Por aqui, poderá ter existido, quando muito, uma torre de vigia.
Naquele almoço, teria sido servido um prato de lampreia.
 
 
“As dez horas chegaram ao Castedo no meio de povo imenso. A câmara recebeu SS. MM. e AA. debaixo do pálio, e conduziu a rainha, el-rei e os príncipes à sala do almoço. A rainha gostou muito da lampreia que lhe apresentaram, e a câmara anunciou com ênfase que por três vezes reformou a mesa das pessoas que acompanhavam SS. MM. o que denuncia fome canina servindo[?] a profusão dos nossos banquetes provincianos.”



Acontece que aquele dia, 5 de Maio de 1852, fora escolhido para inaugurar as carreiras de diligências entre o Porto e Vila Nova de Famalicão pela Companhia de Viação Portuense que, no entanto, não tinha ainda construído a ponte pênsil da Trofa. Por esta razão, a comitiva real teve que fazer o atravessamento do rio Ave, na famosa Barca da Trofa, antes da chegada a Vila Nova de Famalicão e ao fim da jornada.
Vila Nova de Famalicão tinha sido elevada a vila, por D. Maria II, em 1841.
Segundo Júlio Dinis, os soberanos ficam alojados em casa de familiares do Exmo. Sr. António Emílio Brandão.
De seu nome completo, António Emílio Correia de Sá Brandão (1821-1909) era filho de José Maria Brandão de Melo Cogominho Correia Pereira de Lacerda e Maria Emília Jácome Correia de Sá, 2.ª condessa de Terena, 2.ª viscondessa de São Gil de Perre e casado com Carlota Inês O'Neill.


 
Nesta casa, na Rua Direita, em Vila Nova de Famalicão, ficaram alojados D. Maria II, o rei consorte e os príncipes, em 5 de Maio de 1852 – Fonte: Google maps


Passados dois dias sobre a partida da cidade do Porto e tendo a urbe voltado já ao seu quotidiano habitual, os telégrafos informam que, na noite anterior, pelas onze horas, tinha deflagrado um incêndio na residência onde se alojavam os monarcas, em Barcelos, tendo a rainha escapado em trajes menores e o rei em ceroulas e descalço.
A Casa da Nogueira, assim se chamava a residência referida, ardeu por completo tendo, porém, sido possível salvar o recheio.
Ana Joaquina da Silveira era, à data, senhora da Casa da Nogueira (nela faleceu em 1858) e viúva (desde 1828) do negociante e procurador camarário, José Simões Gomes, o fundador da casa em 1816.
A comitiva real iria então ser alojada numa outra residência daquele que, um ano depois, mercê da sua hospitalidade, haveria de ser o barão da Retorta.

 
 
 

Casa da Nogueira, em Barcelos

 
 


Casa do barão da Retorta, no Largo José Novais (antigo Largo da Cadeia), em Barcelos
 
 
 
 
Prosseguindo o seu périplo, em 8 de Maio, a comitiva já estava por Viana que, por decisão da soberana, se tinha passado a designar por Viana do Castelo, desde 1848.
Seguir-se-iam na visita, Braga e Guimarães. A vila do Gerês seria retirada do itinerário, devido à má qualidade das estradas, e na caminhada de regresso a comitiva real ainda pernoitou em Barcelos, em casa de José Vilas Boas, um deputado barcelense e um conhecido miguelista tendo, para o efeito, desempenhado um papel de intermediação decisivo o Duque de Saldanha. Diz-se que os monarcas ficaram admirados pela opulência exibida pelo anfitrião.
No ano seguinte, desde o exílio, D. Miguel atribuía a José Vilas Boas o título de conde de Alvelos.
Consta que, em Barcelos, a monarca foi também agraciada com os doces da então Confeitaria Confiança que, mais tarde, cerca de 1880, passaria a ser a Confeitaria Salvação.
Este estabelecimento fundado por Joaquim Domingos Duarte em 1830 teria, depois, na sua gerência um seu sobrinho de seu nome Manuel Joaquim Duarte Ferreira, que ficou conhecido por dizer aos seus clientes: "pela minha salvação que é da última fornada". Por isso, perdeu o apelido Ferreira e passou a Salvação e o estabelecimento mudaria também de nome.
Depois de muitas décadas de portas abertas, a célebre confeitaria, na década de 1990, fecharia as suas portas.
O retorno da comitiva real a Lisboa, passaria pela cidade do Porto e  aconteceu entre 18 e 22 de Maio de 1852.
A entrada na cidade do Porto foi antecedida por uma visita real ao Concelho de Valongo.

 
 
“O Diário do Governo, do dia 24 de maio de 1852, na primeira página, publica uma carta do Governador Civil do Porto, Visconde de Podentes, dirigida ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, relativamente à visita que a Comitiva Real (Rainha D. Maria II, seu marido com o título de Rei, D. Fernando II, e os príncipes, que, mais tarde, viriam a ser reis de Portugal, D. Pedro e D. Luís) fez ao Norte do Reino, e onde se faz referência ao almoço que foi oferecido a Suas Majestades, nesta cidade, no lugar da Travagem, por parte da Câmara de Valongo em forma de gratidão pela criação do novo concelho de Valongo.”
“avozdeermesinde.com”
 
 
A seguir se dá conta de teor da carta do Governador Civil do Porto a propósito da passagem real por Valongo.
 
 
«Governo Civil do Districto do Porto / Ill.mo e Ex.mo Sr.
Tenho a honra de participar a V. Ex.ª, que tendo Suas Magestades e Altezas saído hoje de Santo Thyrso ás oito horas da manhã, e tendo-se dignado acceitar um bem servido almoço que tinha feito preparar, e lhes ofereceu na ponte da Travage a Camara de Vallango, a sua entrada se verificou nesta cidade pelas duas horas da tarde, dirigindo-se Suas Magestades á Real capella de Nossa Senhora da Lapa, aonde assistiram a um solemne e pomposo Te-Deum, preparado e dirigido pela irmandade da mesma capella, no qual celebrou S. Ex.ª o Bispo da diocese. (...) / Deos guarde a V. Ex.ª / Porto 18 de Maio de 1852, ás quatro horas da tarde. = Ill.mo e Ex.mo Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro e Secretario de Estado dos negocios do Reino. = Governador civil, Visconde de Podentes».
 
 
Aproveitando a presença da Rainha, e quando o protocolo já se mostrava completamente livre de compromissos, um grupo de senhoras da alta sociedade resolveu dar uma festa, na Quinta das Águas Férreas, programando-a para a ante-véspera do dia de retorno dos monarcas e respectiva comitiva a Lisboa.
 
 
 

Palacete da Quinta das Águas Férreas
 
 
Sobre esta festa, fala-nos também um texto inserido n’ O Tripeiro, Série 5, Ano 9, nº 12, com o título de  “As consequências de um dia de chuva”.
 

“Em 1852, em honra da visita ao Porto da Rainha D. Maria II e de el-rei D. Fernando, a alta sociedade da cidade decide organizar uma festa elegante e original ao ar livre, sendo escolhido para tal efeito a Quinta das Águas Férreas, considerada na altura uma das mais belas do Porto. De modo a preparar tudo para a festa, terraplanou-se os terrenos e cobriu-se de saibro vermelho um campo para nele se improvisar uma esplanada. Foram contratados carpinteiros para construir barracas para os fornos e para as cozinhas ao longo dos muros de Cedofeita. Levan­taram-se vários tablados e construiu-se um imenso pavilhão quadrado, coberto com um toldo, para dançar e proteger do sol, sendo as mesas para o almoço colocadas debaixo das laranjeiras. Infelizmente a festa não terminou nas melhores condições, devido à intensa chuva que nes­se dia se fez sentir”. 
 
 
A comissão organizadora da festa era constituída pela Marquesa de Terena, Condessa de Terena, Viscondessa de Alpendurada, Viscondessa de Balsemão, Viscondessa de Castro Silva, Baronesa de Ancêde, Baronesa do Bolhão, Maria Ermelinda Woodhouse e muitas outras senhoras da alta sociedade, tendo como adjuntos António Bernardo de Brito e Cunha, Francisco de Oliveira Chamiço, Ricardo de Clamouse Brown, José Pedro Barros Lima e mais uns quantos.
Quem não esteve pelos ajustes, foi o S. Pedro. Foi água até dizer basta. E, lá se perderia uma oportunidade, para as meninas casadoiras serem apresentadas na corte. 
O Palácio das Águas Férreas, após várias utilizações ao longo dos anos está, hoje, na posse da Direcção Geral dos Serviços Prisionais.
 
 
 
Palácio das Águas Férreas, na Rua do Melo, nº 5 - Fonte: Google maps



Por seu lado, o rei consorte, D. Fernando II recebia, nos últimos momentos da estadia no Porto, no Palácio dos Carrancas, alguns pintores.
Entre outros, foi o monarca visitado por João Eduardo Malheiro, um pintor de quem se esperava muito sucesso, conforme narra notícia abaixo.
 
 
“O snr. João Eduardo Malheiro obteve a honra de ser apresentado a S. M. El-Rei, para lhe oferecer as seguintes obras do seu pincel e curiosidade.
Dois quadros de costumes do Minho em ricos caixilhos, e uma figura de três palmos de altura – verdadeiro modelo duma vareira, tanto nas formas do corpo como no vestuário, que era todo de fazendas próprias do costume.
S. M. vocalmente lhe dirigiu muitos elogios, e ontem lhe mandou em testemunho do seu Real apreço uma rica abotoadura de ouro para colete pelo seu ajudante e exm.º barão da Foz. O snr. Malheiro é nosso patrício, e como tal faz honra à cidade invicta.”
In “O Jornal do Povo”, de 22 de Maio de 1852

 
 
João Eduardo Malheiro, com formação adquirida em Itália, dada a impossibilidade de viver apenas da pintura, após a situação narrada esteve, praticamente, inactivo, vivendo do salário que obtinha do seu emprego na alfândega do Porto.
Apareceria publicamente, após quase dez anos, concorrendo à Exposição Industrial Portuense, em 1861, realizada entre Agosto e Setembro, na qual a curiosidade maior era uma enorme máquina a vapor da Fundição de Massarelos e uma outra hidráulica produzida na fundição do Bicalho, e onde os visitantes poderiam também encontrar produtos  químicos  e  farmacêuticos,  fazendas,  sabonetes,  móveis,  vestuário,  ourivesaria, cristais, cerâmica, etc., além de esculturas, pinturas e fotografias.
João Eduardo Malheiro obteria uma medalha de 2ª classe.
Apresentar-se-ia, depois, João Eduardo Malheiro, na 1ª Exposição Internacional do Porto, em 1865, aquando da inauguração do Palácio de Cristal, tendo recebido um grande elogio do pintor Francisco José Resende e ganhou uma Menção Honrosa.
 
 
“O snr. Malheiro tendo deixado de ser artista de profissão há muitos anos, ainda consagra à arte o mesmo amor e dedicação dos tempos passados: só uma bela alma como possui, alma de verdadeiro artista, lhe daria coragem para aproveitar os curtos instantes que lhe restam dos seus trabalhos quotidianos, empregando-os na pintura. É digno de verdadeira estima um cavalheiro tão inteligente e modesto.”
Francisco José Resende

 
 
Em 1867, Malheiro voltaria ao Palácio de Cristal, apresentando seis paisagens, mas não obteria qualquer reconhecimento neste certame.
Em 1877, apresenta três quadros, durante a Exposição Hortícola realizada no Palácio de Cristal.
Após este ano, a vida do pintor é eclipsada, desconhecendo-se a data do seu falecimento e actividade artística deste pintor amador (impossibilitado de viver exclusivamente da pintura), embora se saiba que, na primeira metade da década de 1880, ainda procedia a obras num seu prédio da Rua de Santa Catarina.
Nascido no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, a 24 de Junho de 1821, cursou Filosofia, em Coimbra, e, em meados da década de 1840, partiu para Roma e Veneza, aí fazendo estudos de pintura.
Regressou em 1847, ao Porto, e em Outubro de 1848, apresentou alguns trabalhos na Exposição da Academia Portuense de Belas-Artes, instituição fundada em 1836.

 
 
“Os dados conhecidos sobre a vida e obra de João Eduardo Malheiro são hoje muito escassos, mas, simultaneamente, bastante significativos. O estudo deste homem transporta-nos ao mundo dos pintores amadores dos meados do século XIX, universo muito peculiar, já que não se limitava a autores de segundo plano, mas envolvia nomes sonantes do nosso Romantismo. Por exemplo, Leonel Marques Pereira era militar de carreira, Isaías Newton trabalhava nos caminhos de ferro, Luís Ascêncio Tomasini comandava navios e Manuel Maria Bordalo Pinheiro era oficial na Secretaria da Câmara dos Pares do Reino.”
Cortesia de António Mourato - Breves apontamentos para a biografia do pintor João Eduardo Malheiro

 
 

Paisagem (assinatura e data no canto inferior esquerdo), n.º inv. 254 Pin CMP/MNSR; Óleo sobre tela (35,8x51,6), 1867. Proveniente da doacção Osório e à guarda do Museu Nacional Soares dos Reis

 

 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

(Continuação 46)


(Nota prévia: o presente texto tem por apoio principal o blogue “doportoenaoso” de que é administrador o Professor Ricardo Figueiredo, que no tratamento da história do Porto é para nós uma referência importante, salvaguardadas algumas opiniões que temos sobre esta matéria e outras investigações pessoais.)


Palacete do Visconde de Veiros em 1833 – Ed. Joaquim Cardoso Villanova (1792-1850)



Na década de 50 do século XIX a quinta é descrita na "Necrologia de José de Sousa e Melo", como:


“(…) a magnífica Quinta de Santo António da Boavista, chamada das Águas Férreas, por ter uma fonte desta água junto aos seus muros [a S., no topo da R. das Águas Férreas], pertence aos Sousas e Melos, e principia em um sítio alto fronteiro à Igreja da Lapa, em cujo cume tem um mirante donde se descobre a cidade, Foz do Douro, e grande extensão de mar; corta esta parte da quinta a rua chamada do Melo onde está o seu palácio e capela de Santo António; tem bonitos jardins, e hortas ajardinadas, e um anfiteatro, com estátuas, e bela escadaria por onde se desce para uma planície, que se dilata até à Estrada de Cedofeita [actual R. Barão de Forrester], aonde há uma meia-laranja com dois mirantes, que se comunicam por uma varanda de pedra, com um gradão de ferro por baixo: tem uma excelente cascata, e muitos tanques e chafarizes com grande abundância de água; bosques, pomares, e diversidade de ruas com paredes formadas de limoeiros, aveleiros, e outras árvores floridas, que a tornam sumamente recreativa, sendo por isso muito frequentada.”



A publicação da "Necrologia de José de Sousa e Melo" atrás referida é acompanhada de uma "Planta das Quintas dos Melos de Santo António das Águas Férreas, na cidade do Porto", que apresenta a quinta dividida, pela Rua do Melo, em duas partes: a Quinta de Cima, a Este daquele arruamento, de reduzida área e cujo limite Sul, alinhado com a fachada Sul do palácio, confina com a "Quinta de José Vieira de Carvalho e outras terras confinantes com os quintais das casas da R. da Boavista"; e a Quinta de Baixo, a Oeste do arruamento, correspondente aos terrenos envolventes ao palácio.
Por sua vez Pinho Leal, In “Portugal Antigo e Moderno” refere-se à quinta nos seguintes termos:


“Palacio e quinta de Santo Antonio da Bôa-Vista, ou das Aguas-Férreas — do sr. José Leite de Sousa Mello da Cunha Sotto-Maior, filho do fallecido visconde de Veiros. 
A sr.ª D. Maria Rita Leite de Sousa Freire Salema de Saldanha e Noronha foi feita viscondessa de Veiros, em 8 de agosto de 1810. O sr. João de Mello e Sousa da Cunha Sotto-Maior foi feito visconde do mesmo título, em 7 de dezembro de 1842. (Vide Veiros.) 
E' uma aprazível vivenda, próximo às Aguas-Férreas, e à rua da Boa-Vista. Pertence a esta familia, desde 1760, sendo seu primeiro dono, José de Sousa Mello. Em 1809, foi quartel general do governador das armas do Porto, o general inglez, Nicolau Trant. Quando Trant sahiu do Porto, tornou para este palácio José de Sousa Mello, e n'elle residiu até julho de 1832, em que sahiu da cidade, e foi para a sua casa da Régua. Os liberaes tomaram conta da propriedade, fazendo do edificio, paiol da pólvora. Mudado este, para o palácio da quinta do Bispo (contigua à quinta da China, que lhe fica a E., e ao antigo seminário, que lhe fica a 0.) se estabeleceu no palácio das Aguas- Férreas o asylo da mendicidade, até 1845, em cujo anno tomou conta da propriedade e a veio habitar o visconde de Veiros. Em 1855, se estabeleceu aqui o hospital dos atacados do cholera-morbus. Em 1857, estabeleceu- se n'este palácio, o collegio de Nossa Senhora da Guia. Desde 1861 até 1869, esteve aqui o hospital militar, transferido de S. João Novo; até que se mudou para o novo hospital militar, de D. Pedro V, que fica a uns 400 metros a 0., na rua da Boa-Vista”.
Fonte ”doportoenaoso”



No texto anterior Pinho Leal errou na referência que fez ao Asilo de Mendicidade, pois, esta instituição ocupou o palacete após o ano de 1845.



Asilo de Mendicidade no Porto na Revista Popular, n.º 24 de 12 de Agosto de 1848



Acompanhando a gravura acima, em texto anexo, explicitava-se que dois anos antes, em 1846, o Porto ainda não tinha aquela obra assistencial, o que viria a ocorrer naquele ano.


“Palacete do visconde de Beire, às Aguas Ferreas. Aqui estiveram o Asylo de Mendicidade, antes de mudar-se para as Fontainhas, e o hospital dos colericos durante a epidemia de 1855”.
Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto; Fonte ”doportoenaoso”


No texto anterior Alberto Pimentel deveria querer referir-se ao visconde de Veiros.
O visconde de Beire é outra personagem proprietário da chamada Quinta dos Pamplonas, bem perto desta, com implantação em parte, no solo do que é hoje a Rua de Álvares Cabral.



“A. S. Dias (?) Vista do Palacio dos S.as e Mellos, situada na rua chamada do Mello, junto as Aguas-Ferreas na Freg.a de Cedofeita do Porto tirada da meia laranja junto a Escada do Jardim principal para a Quinta de Baixo” – Fonte: blogue “doportoenaoso”



Na gravura acima a escadaria está lançada para a fachada virada a Sul e com o seu eixo longitudinal com orientação Oeste-Este.



Solar dos Sousa e Melo na Planta de Balck em 1813

Legenda:
1. Solar dos Sousa e Melo
2. Actual Travessa das Águas Férreas
3. Actual Rua das Águas Férreas



“Planta das Quintas dos Mello de Santo António das Agoas Ferreas no Porto, Lith. de J. C. Lemos e A. S. Dias. Para melhor compreensão a planta foi reorientada no sentido norte-sul” – Fonte: blogue “doportoenaoso”



Na planta anterior o palacete está implantado na zona colorida.



Quinta assinalada como Souza Mello e a fonte de Agoas Ferreas em 1839,  e J. Costa Lima Júnior, AHMP – Fonte: “doportoenaoso”



Na planta acima, podemos observar que, nas traseiras da Quinta das Beldroegas (4), junta-se o aqueduto de Salgueiros (1) ao aqueduto de Paranhos (2), para seguirem, a partir daí, num trajecto conjunto (3).



Cronologia da ocupação do Palacete da Quinta das Águas Férreas


Em 1741, António da Costa Cardozo, Sargento–Mor do Concelho de Gondomar por Patente Regia de 30 de Maio de 1741, é Senhor com a sua mulher D. Marianna Thereza Pereira, da dita Quinta e Prazos.
Joze de Souza e Mello ao casar, em 1760, com a filha de António da Costa Cardoso, D. Rita Miquelina Victoria da Costa Cardoso, Senhora da Quinta e Prazos de Santo António das Agoas Férreas, torna-se o proprietário da Quinta.
João de Mello e Sousa da Cunha Sotto Mayor, 2º Visconde de Veiros (1793-1854) herdou a quinta de seu tio José de Souza e Mello, em 1839.
O título nobiliárquico, recebê-lo-ia pelo casamento com D. Maria Rita Leite, filha primogénita de Francisco de Paula Leite de Souza (1747-1833) Comandante da Armada, 1º Visconde de Veiros em 1822, herdando por isso o título.
Em 1809, foi a Quinta das Águas Férreas, quartel-general do governador das armas do Porto, o general inglês, Nicolau Trant. Quando Trant saiu do Porto, tornou para o seu palácio José de Sousa Mello, e nele residiu até Julho de 1832.
Na sequência dos acontecimentos do Cerco do Porto e, após José de Souza e Mello, em 1832 ter saído do Porto para ir primeiro para a Régua e depois para Braga, onde veio a falecer (como se disse em 1839), a Quinta das Águas Férreas, seria utilizada como paiol até 1836, pelos liberais.
Cerca do ano 1845 a quinta teria passado, por decisão Régia à posse plena do seu herdeiro, o 2º visconde de Veiros, João de Melo e Sousa da Cunha Souto-Maior e, em 1846, aí seria instalado o Asilo Portuense de Mendicidade, oficialmente inaugurado em 8 de Julho de 1848.
Pela morte em 1854 do 2º visconde de Veiros passa a ser proprietário da Quinta das Águas Férreas, o seu filho José Leite de Sousa Mello da Cunha Souto-Maior, 3º Visconde de Veiros.
Segundo o 2º visconde de Veiros, João de Mello e Sousa da Cunha Souto Maior, sobrinho e herdeiro, seu tio, José Sousa Melo era:


“Joze de Souza e Mello foi Cavalleiro professo na Ordem de Christo, e Commendador da Commenda de Lourenço Marques na mesma Ordem : Fidalgo Cavalleiro da Caia Real.
Vereador prepetuo, e o Decano do Illm.º Senado da Camara, e como tal servio de Capitão Mor da Cidade e seu Destricto, no tempo da Guerra Peninsular. 1.° Administrador Geral do Correio, e Creador deste Lugar por conta da Real Fazenda. Proprietário do importante Officio de Thezoureiro e Recebedor do Consulado daquela Alfandega, e anexas. Vice-Provedor da Illm.ª Junta d' Administração da Companhia Geral d’agricultura das Vinhas do alto Douro. Inspector das Obras dos Edeficios dos Paços do Conselho; e da Real Academia da Marinha e Commercio. Administrador do Real Colégio de Nossa Senhora da Graça e Órfãos. Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Deputado da Junta do Subsidio Militar; Membro da das Obras Publicas; e Encarregado dos arranjos para o utilíssimo estabelecimento da Illuminação publica, que promoveo assim como outros muitos de geral interesse: tudo na referida Cidade do Porto. E no Algarve Edeficador da undécima parte de Villa Real de St.º Antonio, na Fundação desta Villa.
Joze de Souza e Mello durante muitos annos, e quasi sem intervalo desde o de 1803, foi o Decano dos Vereadores da Camara do Porto, procurando sempre assiduamente fazer manter o decoro daquelle Município.”
Fonte: “doportoenaoso”


Em 1854 faleceu o 2º visconde de Veiros.
Entre 1855 e 1857, a propriedade devido à epidemia de cólera, foi utilizada também como Hospital de coléricos.
Em 1858, o Asilo de Mendicidade abandona estas instalações.
Em 1859, o Colégio de Nossa Senhora da Guia, tinha acabado de se instalar na Casa das Águas Férreas. 




Publicidade ao Colégio de Nossa Senhora da Guia, no “Jornal do Porto” em 1859





Entre 1861 e 1869, a Quinta é ocupada pelo Hospital Militar até à construção do seu novo edifício na Avenida da Boavista.
Em 1869 a quinta, segundo Pinho Leal, foi arrendada por Oswald Crawfurd, (1834-1909) cônsul de Inglaterra no Porto.



Estampa de "Portugal old and new by Oswald Crawfurd", 1880 (pág. 145) - Fonte: “doportoenaoso”



Acima observa-se uma estampa com o título de Country House, que é uma vista do pátio (virado a Norte) da Quinta das Águas Férreas do livro “Portugal old and new” da autoria do cônsul Oswald Crawfurd.
Esta personagem a propósito da descrição da propriedade referia-se à existência de uma bela capela privada no piso térreo, dedicada a Santo António.
Em 1880 a Congregação das Franciscanas de Calais adquire a Quinta das Águas Férreas para instalação de um segundo estabelecimento de ensino na cidade.
Após a implantação da República, em 8 de Outubro de 1910 é publicado o decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado e, em Maio de 1911, é publicada a Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância.



“(…) 1880 - a Congregação das Franciscanas de Calais, cuja primeira fundação em Portugal data de 1876, com a abertura do Asilo-Colégio de Nossa Senhora do Pranto, em Ílhavo, inicia a sua expansão no núcleo urbano do Porto, adquirindo a Quinta das Águas Férreas para a instalação do segundo estabelecimento de ensino que detém na cidade; 1901 - com a legislação de Hintze Ribeiro, e na tentativa de regularizar a acção das congregações entradas progressivamente em Portugal na segunda metade do séc. 19, as Franciscanas organizam-se na Associação de Santo António das Águas Férreas, com estatutos aprovados pelo Governo; 1910 - à data da extinção das congregações, com a implantação da República, as Franciscanas de Calais detinham 19 casas, entre colégios, asilos e hospitais, asseguradas por 204 religiosas (VILLARES: p. 175); só a casa de Santo António das Águas Férreas dispunha de 33 religiosas, colégio "sempre pronto a acudir às filhas de gente pouco abonada, mas desejosa de dar-lhes educação esmerada e bases sólidas para uma vida moral e sã" (Um pouco de história, f. 14); 1910, 8 Out. - publicação do decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado; 1911, Maio - publicação da Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância, e introduzida em Portugal uma jurisdição especialmente aplicada a crianças e jovens com menos de 16 de idade que estejam nas situações de perigo moral, de desamparo ou de delinquência; para a prossecução dos objectivos consignados na lei, o governo republicano destina bens e rendimentos das congregações extintas para possibilitar a instalação das novas estruturas judiciárias de protecção à infância, quer os novos tribunais e refúgios anexos, quer para proceder à remodelação, quando não criação, de estabelecimentos de internamento para reeducação dos menores por decisão judicial; 1912, 24 Abril - decorrido quase um ano sobre a experiência singular da Tutoria de Lisboa, é instituído no Porto o segundo tribunal central de menores que a justiça portuguesa conhece, acompanhado do respectivo Refúgio, estabelecimento anexo ao tribunal para detenção e observação médico-psicológica e social dos menores em situações que exigem internamento enquanto aguardam julgamento; para a instalação desta estrutura a Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas cede ao Ministério da Justiça a Quinta das Águas Férreas; 1912, Maio - o Vice-Reitor do Seminário do Porto propõe-se adquirir a quinta por 200 000$00 para ali instalar o Seminário dos Preparatórios, mas tal transacção não veio a ocorrer por determinação do Ministério da Justiça em estabelecer naquela propriedade a Tutoria do Porto (Um pouco de história, ...); 1912, Novembro - o tribunal começa a funcionar, tendo registado até ao fim do ano a abertura de 61 processos (Um pouco de história..., f.35); 1912, 6 Dezembro - data do orçamento e memória descritiva para as obras de reparação, conservação e modificação a efectuar no conjunto ocupado pela Tutoria Central da Infância do Porto, promovidas pela Direcção das Obras Públicas no Distrito do Porto”.
Com a devida vénia a Filomena Bandeira e Ricardo Agarez 2005/ Ricardo Agarez 2008; In “monumentos.gov.pt”



O Palacete dos Sousa Melo, visto de outro ângulo na primeira metade do século XX – Ed. Teófilo Rego, AHMP




Aqui viria então, a funcionar, a Tutoria do Porto.
Esta tutoria foi instalada aqui na sequência da lei 24 de Abril de 1912, em 24 de Novembro do mesmo ano.
A secção masculina e a secção feminina do refúgio ficaram no mesmo complexo arquitectónico, mas em alas separadas.
No interior da mesma propriedade o Ministério da Justiça construiu um novo edifício para o Tribunal de Família e Menores do Porto inaugurado em 22 de Outubro de 1988.




Nos dias de hoje, à direita, a fachada Sul do antigo Palácio das Águas Férreas. A área delimitada pelo polígono a azul, à esquerda, indica o local donde era lançada a antiga escadaria de acesso aos jardins e aos campos – Fonte: Google maps