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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

25.113 Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal

 
A Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal (RCVNP), que ficaria conhecida como Companhia Nova ou Real Vinícola, foi fundada em 1889, e sedeada no Porto, com funções de agente intermediário entre a produção e o comércio e de comerciante por conta própria.
Os seus estatutos foram publicados em 8 de Abril de 1889 e, em sequência, a subscrição pública das acções da nova companhia decorreram nos escritórios da Liga de Lavradores do Douro, Banco Mercantil de Viana do Castelo e de Guimarães, Banco Comercial, Agrícola e Industrial de Vila Real, Bragança e Viseu e, ainda, no Banco do Douro, em Lamego.
A “Assembleia-Geral Universal” dos accionistas decorreria no dia 1 de Maio de 1889, no Teatro Gil Vicente, no Palácio de Cristal.

 
 
Palácio de Cristal nos primeiros anos da década de 1860, na fase de construção do telhado


 
Fundadores da RCVNP: Da esquerda para a direita, em cima: José Joaquim Pestana, Manuel d’Albuquerque, J. Pinheiro Leite, António Carlos Pimentel; em baixo: J. Taveira Carvalho, Conde de Samodães, Manuel Pestana, Visconde Villar d’Allen
 
 
 
Na foto acima, para a posteridade, estão os fundadores da RCVNP.
Entre eles, o que mais se destacou foi, sem dúvida, o 2º conde de Samodães.
 
“Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar, 2º Visconde e 2º Conde de Samodães, (Vila Nova de Gaia, 26 de Julho de 1828 - Porto, 4 de Outubro de 1918), bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, Professor, Engenheiro Civil e Militar, Presidente da Câmara Municipal do Porto. Foi também um conhecido escritor. Em 1851, como resultado da oposição ao golpe militar liderado pelo duque de Saldanha, foi demitido do exército. Eleito deputado pelo círculo de Lamego (1851 e 1857) em duas legislaturas, ascendeu, em 1858, à Câmara dos Pares por direito de sucessão a seu pai. Foi Governador Civil do Porto (1868-1869 e 1871) e ministro dos Negócios Fazenda (1868-1869), no governo presidido pelo marquês de Sá da Bandeira. Membro fundador do Partido Nacionalista, a sua atuação revelou-se preponderante, tendo sido eleito vice-presidente do Centro Nacional do distrito do Porto (1902) e vice-presidente do Centro Eleitoral Nacionalista do Porto (1903). Desempenhou ainda funções de inspetor da Academia das Belas-Artes, de presidente da Associação Católica do Porto e de provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Foi presidente da direção da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, presidente da Sociedade Camoniana, presidente da Sociedade de Estudos e Conferências e fez parte do Conselho Superior de Instrução Pública e da Comissão Promotora do V Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique. Colaborou em diversos jornais e revistas, tendo sido fundador e diretor do diário portuense A Palavra”.
Fonte: Wikipédia.
 
 
 
Quando foi fundada a RCVNP, começavam a ficar para trás os tempos terríveis dos males causados pelas doenças que tinham devastado os vinhedos, o oídio pelo ataque ao fruto e a filoxera que atacava a raiz da própria planta.
Com a retirada de alguns privilégios à Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro, após o Cerco do Porto e as lutas que instituíram o liberalismo em Portugal, assistiram-se a períodos em que as relações entre aqueles protagonistas se alteravam significativamente, mas, a partir de 1852, há um corte abrupto nas relações entre o Estado e aquela Companhia e, a partir de 1858, o Estado deixa completamente de intervir nela.
Em 1839, já os lavradores do Douro tinham tentado, ingloriamente, organizar uma Associação Agrícola sob a presidência do conde de Samodães.
Em 1843, verificou-se uma outra tentativa frustrada para criar na Régua uma Associação de Agricultura do Douro.
O conde de Samodães teve, de facto, por esses tempos, uma acção preponderante na participação em exposições agro-industriais, realizadas no Palácio de Cristal, do qual foi director durante anos, mas, também, em certames internacionais, como foi o caso da Exposição de Vinhos do Porto, realizada em Berlim, em 1888.
A sua acção no âmbito do movimento associativo foi também assinalável, de que são exemplo a sua participação na direcção da Comissão de Defesa dos Interesses do Douro, em 1885, coadjuvado pelo visconde Vilar d’Allen e na Liga dos Lavradores do Douro, com sede na Rua do Calvário, nº 70, na cidade do Porto.

 
 
No prédio, em primeiro plano, próximo da igreja de S. José das Taipas, estiveram os escritórios da Liga dos Lavradores do Douro – Fonte: Google maps
 
 
Por fim, foi possível ao conde de Samodães fundar a Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal que, em Novembro de 1891, já estava na Exposição Industrial Portuguesa, realizada no Palácio de Cristal, a apresentar-se como a iniciadora, entre nós, na produção de vinhos espumantes, pelo sistema dos de Champagne, sob a direcção do francês Leopold Mennesson.


 
 
 
Rótulo de garrafa de vinho criado pelo Visconde Villar d’Allen, em 1880 e que, no Brasil, passaria a ser comercializado pela Real Vinícola
 
 
Publicidade, em 1901, na revista “Brasil – Portugal” ao champagne da RCVNP
 
 
 
Publicidade ao champagne da RCVNP
 
 
 
 
Aquando da realização da Exposição Industrial de 1891, era director técnico da RCVNP o visconde Vilar d’Allen e presidente da “Sociedade do Palácio de Cristal”, o conde de Samodães, sendo ministro da Fazenda, Mariano de Carvalho.
O Porto, ao longo do século XIX, assistiu a mais quatro exposições industriais, para além da mencionada em 1891. Assim, efectuaram-se exposições em 1857, 1861, 1865, 1891 e 1897.
A primeira é de âmbito local e a segunda de âmbito nacional, no entanto, ambas são da responsabilidade da Associação Industrial Portuense.
As restantes são da responsabilidade da Sociedade do Palácio de Cristal: a de 1865 é de âmbito internacional e as restantes de âmbito nacional.
A exposição, após a convocação da Associação Industrial Portuense, para a sua realização, abriu as suas portas de 22/11/1891 a 17/1/1892.
Seria considerado pelo conde de Samodães, como um grande feito, já que, segundo ele, “quase que não foi anunciada, e arranjou-se de um dia para o outro”, tendo os expositores, de facto, menos de um mês entre a recepção do convite e o dia da abertura. Era preciso obsequiar o Rei com “elementos de vida” da cidade do trabalho, dado que, da parte do Palácio, havia apenas um lago com gruta para inaugurar.

 
 

Lago e gruta, em postal de 1906
 
 
Em Setembro de 1891, regressariam a Bruxelas os técnicos que procederam à construção da gruta do lago do Palácio de Cristal.
A 6 de Novembro, seria nomeado para calafate da flotilha de 6 barcos a operar no lago, Miguel Pedro Correia.
Na foto acima, observa-se o aspecto do lago e da nova gruta inaugurados, em 1891, durante a exposição industrial.
 
 
“Nunca se realizou exposição em tão pouco tempo. Ao sinal de reunir, compareceram os industriais com os seus produtos, não fabricados ad hoc, mas aqueles que formam o seu stock comercial, o que é muito mais útil, prático e verdadeiro do que essas exibições de mera curiosidade que enchem por vezes as vitrines das exposições. A apresentação que neste momento se fez ao público é exactamente aquilo que a indústrias tem sempre pronto para oferecerem aos seus fregueses”.
Conde de Samodães
 
 
 

Catálogo da Exposição de 1891

 
 
Notícia sobre a “Exposição Industrial de 1891” – In “Jornal do Porto”, em 21 de Outubro de 1891, p. 2


A comitiva real chegaria ao Porto na 4ª Feira, 18 de Novembro de 1891, para proceder, no Domingo seguinte, à inauguração da Exposição Industrial a ocorrer no Palácio de Cristal.
Desembarcada, a comitiva, pelas 15 horas na Estação de Campanhã, cerca de uma hora depois já assistia a uma missa levada a efeito na Igreja da Lapa.
No dia seguinte, 5ª Feira, tiveram honra de visita real a “Fábrica de Fiação Portuense” (Poço das Patas), a “Fábrica de Tabacos Portuense” (Campo 24 de Agosto”, “Real Fábrica de Botões Portuense” (Rua das Doze Casas) e “Fábrica de Fiação de Salgueiros”(Rua da Constituição).
Da parte da Tarde, após o almoço, em privado, teve lugar uma cerimónia de recepção e cumprimentos a diversas instituições e individualidades a que se seguiria uma visita à Escola Normal (Rua da Alegria) e à noite um jantar de gala.
Na 6ª Feira, 20 de Novembro, a família real continuou com as suas visitas.
A “Fábrica de Fiação de Asneiros”, na Rua da Torrinha e a “Companhia Manufactora de Artefactos de Malha”, na Rua da Boavista, tiveram honra de visita real. Pelo meio, foi distinguido com a presença dos soberanos o Hospital de Crianças Maria Pia, à Carvalhosa.
Após o almoço, na Câmara Municipal, houve uma sessão de distribuição dos “Prémios Camões” e uma visita ao Hospital de Alienados do Conde de Ferreira.
À noite, após o jantar, foi levado à cena no Real Teatro S. João, a comédia o “Marquês de Seiglière”.
No dia 21 de Novembro, um Sábado, a manhã foi passada em visitas à Fundição do Bolhão, Real Chapelaria a Vapor (Rua Firmeza), Fábrica de Tecidos de Seda de Francisco José Nogueira (Rua da Alegria) e Real Fábrica Social (Fontinha).
Depois do almoço, seguiu-se a visita à Bolsa do Comércio e à Secretaria da Santa casa da Misericórdia, à Rua das Flores.



 

In “Jornal do Porto”, em 24 Novembro de 1891


 
A inauguração da Exposição Industrial de 1891, ocorreria a 22 de Novembro, um Domingo, bem chuvoso, como nos contam as crónicas.
Durante a manhã a comitiva real visitou o Recolhimento das Orfãs, a S. Lázaro e, após o almoço, que ocorreu no Paço, cerca das 15 horas rumou, bem perto, ao Palácio de Cristal.

 
 
In “Jornal do Porto”, em 24 Novembro de 1891


 
Após a inauguração da exposição seguir-se-ia um jantar no Paço oferecido pelo rei que, para o efeito, convidou os industriais presentes no certame e as autoridades da cidade.
A noite fechou com um espectáculo protagonizado por amadores em benefício da Associação dos Bombeiros Voluntários, realizado no Teatro S. João.
No dia seguinte, 2ª Feira, seriam visitadas diversas unidades industriais: Fábrica de Fiação e Tecidos do Porto (ao Poço das Patas), Fábrica de Lanifícios de Santo António de Massarelos (à Rua D. Pedro V), Fábrica de Fundição de Massarelos, Fábrica de Fundição do Ouro, Real Fábrica de Fiação e Tecidos de Lordelo e antiga Fábrica de Lanifícios de Lordelo.



No prédio primitivo que por aqui existiu (na esquina da Rua D. Pedro V e Rua Salgueiro Maia), esteve a Fábrica de Lanifícios de Santo António de Massarelos, mais conhecida por “Álvaro de Azevedo Meireles e Filhos, Limitada”. Em 2009, na foto, num outro edifício,  estava uma oficina da Mercedes Benz - Fonte: Google maps


 
 

Mesma perspectiva da foto anterior, actualmente – Fonte: Google maps

 
 
Sobre a visita de D. Carlos à fábrica dos irmãos Azevedo Meireles, que se manteve a laborar, nesse local, até c. 1940, o “Jornal do Porto” de 24 de Novembro narrava:









Álvaro Azevedo Meireles (1856-1937) foi um próspero industrial, filho de João Pinto de Azevedo Meireles e Joana Maria de Azevedo Mavinhé, casado em 14/07/1881, com Júlia da Silva Pereira de Magalhães, herdeira da Quinta do Rio, em Ramalde e neta de Jacinto da Silva Pereira, fundador da Fábrica de Fiação e Tecidos Jacinto.
Por isso, em 30/12/1901, o casal é mencionado na escritura de venda do Campo do Lameiro, artigo daquela propriedade, como senhorios directos, que foi feita por Domingos de Sousa e mulher, Rosa Ferreira da Conceição ao Dr. Alfredo Antero de Oliveira.
Por sua vez, Álvaro Azevedo Meireles estava ligado, também, por laços familiares à Quinta das Virtudes.
Como curiosidade diga-se que, a família Azevedo Meireles, por aqui estava, já neste século, pois, em 2006, Maria Adelaide A. Azevedo Meireles era dada como moradora na vizinha Rua do Gólgota, 21, cuja propriedade estava nas mãos daquela família desde 1946 e, hoje, é um empreendimento turístico.
Antes, em 1913, a propriedade pertencia a George James Lind que, naquele ano, solicitava à Câmara do Porto a respectiva autorização para reconstruir uma habitação, que obteve a licença de obra n.º 736/1913.
 



 

Ao centro, a casa localizada na Rua do Gólgata, nº 21 – Fonte: Google maps
 
 
 
Voltando à visita real, na tarde daquele dia, enquanto o rei visitou, ainda, alguns quartéis e o Hospital Militar D. Pedro V, à Boavista, a rainha visitaria o Asilo de Vilar e o Hospital da Misericórdia (actual Santo António), sendo poupada, devido à chuva, ao lançamento da 1ª pedra do Asilo-Escola Municipal, à Rua de Serpa Pinto.
O jantar de gala deste dia homenagearia os comerciantes do Porto.
À noite, ocorreu um espectáculo com a peça “Uma mulher para três maridos”, no teatro Príncipe Real (actual Sá da Bandeira).



 
 
 
Programa da comitiva real para os dias 24 de Novembro (3ª Feira) e 25 de Novembro (4ª Feira) de 1891, durante a sua visita ao Porto – In “Jornal do Porto”, em 24 Novembro de 1891


 
No dia 24 de Novembro, 3ª Feira, é de destacar a inauguração da Creche de Cedofeita.
Para além do casal real, à cerimónia esteve presente o Engenheiro Justino Teixeira, pois foi quem forneceu gratuitamente os projectos de arquitectura e engenharia para o levantamento da obra, que teve início em 1889, tendo a Câmara Municipal do Porto cedido também o terreno sem qualquer custo.


 
 
Creche de Cedofeita


 
Relativamente à emblemática Creche de Cedofeita, diga-se que, em 1910, com a implantação da República, chegou a ser confiscada aos bens da igreja e acabou nacionalizada sendo, desta forma, alienada da Associação de Beneficiência de Cedofeita.
Mais tarde, em  1969, o Estado fez a sua devolução à Paróquia de Cedofeita, integrando-a no Centro Social Paroquial que era sucessor da anterior associação referida. Hoje, encontra-se desactivada.
Continuando com a visita real, o dia 25 de Novembro, 4ª Feira, abriria com a visita, bem cedo, do rei à Exposição, onde se demorou junto dos stands, principalmente, mostrou-se muito curioso, em conhecer a elaboração dos vinhos espumantes da RCVNP.
O dia fecharia com o espectáculo no Teatro D. Afonso (há muito demolido), à Rua Alexandre Herculano, tendo sido levada à cena a opereta “Licor d’Ouro”.
E, finalmente, a 26 de Novembro de 1891, uma 5ª Feira, à tarde, ocorreria a inauguração do lago e da gruta, de acordo com a notícia abaixo.


 
 


 
 
Da parte da manhã, tinha sido a visita ao Porto de Leixões.
Durante a tarde foi a cerimónia de alistamento do príncipe Luiz Filipe. Para o efeito, deslocou-se ao Paço um pelotão do regimento de infantaria 18.
O auto ficou assim redigido:
“Aos 26 dias do mês de Novembro de 1891, em parada geral do regimento de infantaria número 18, junto ao Paço Real, foi alistado como soldado, segundo as formalidades superiormente determinadas, sua alteza o príncipe real D. Luiz Filipe, duque de Bragança”.
Nessa tarde, finalmente, seria lançada a 1ª pedra do Asilo-Escola, à Rua de Serpa Pinto, o que sabemos, nunca se viria a concretizar.
À noite, o jantar teria como convidados a magistratura judicial e, à noite, teve lugar o habitual baile no Club Portuense.
Na 6ª Feira, dia 27 de Novembro, após uma visita às instalações da Fotografia União, à Praça de Santa Teresa e à Fotografia Biel, à Rua Formosa e ao almoço, que foi oferecido a representantes da direcção de diversos estabelecimentos de beneficência da cidade, a comitiva real abandonaria o Porto com destino a Braga.
A actual Rua José Falcão que, primitivamente, foi Rua D. Carlos, seria gizada durante esta visita real, como se constata em notícia abaixo reproduzida.
 
 



 
 
Voltando à história da Real Vinícola teve a sua sede, durante dezenas de anos, no palacete que foi mandado erguer em 1861, por Campos Navarro, um capitalista do século XIX, na Rua de Entreparedes, nº 42.
O prédio seria posteriormente ocupado pelo Instituto Comercial do Porto e é, hoje, o Torel Palace Porto (Hotel).
Antes, tinha sido ocupado, entre 1884 e 1887, pelo Liceu do Porto vindo do Poço das Patas, do Palacete dos Cirnes.
O Instituto Comercial do Porto, em 1933, foi desanexado do Instituto Industrial, no qual se encontrava integrado desde 1924, ocupando instalações no edifício da Universidade, na Praça Gomes Teixeira, vulgo Praça dos Leões, na área com fachada voltada para o mercado do Anjo.
Aliás, a raiz daqueles institutos é a mesma, pois têm origem no “Instituto Industrial e Comercial do Porto” fundado, em 1886, pelo Decreto de 30 de Dezembro.
 
 
 
 
O antigo Palacete do Campos Navarro, ocupado, mais tarde, pela Real Vinícola e pelo Instituto Comercial, hoje o Torel Palace Porto (Hotel) – Fonte: Google maps
 
 
A família Campos Navarro, da qual o patriarca António Campos Navarro foi um negociante de relevo da praça portuense, ficou conhecida por privar muito com artistas, em particular, com escritores, tendo por diversas vezes praticado o mecenato com artistas de diversos ramos.
Quanto à arquitectura primitiva do edifício, o seu piso térreo era o palco da cozinha e o local onde se recepcionavam os convidados.
Nos andares seguintes encontraríamos, primeiro, os grandes salões, as maiores divisões do palácio, seguindo-se o andar dos quartos da família e, por fim, os quartos dos serventes.
Na sua decoração destacava-se, para além dos estuques dos tectos e paredes, uma claraboia imponente, com os seus oito painéis, que encimava o palacete.
Enquanto quatro desses painéis apresentam apenas um intrincado novelo floral, outros quatro têm representações específicas.
Um deles enaltece Mercúrio, o deus romano do Comércio, um outro é uma alegoria à Indústria, e outro representa Minerva, a deusa das Artes e da Ciência. Por fim, um painel faz uma alegoria à navegação marítima.
Um dos salões do palacete apresentava, embutido no tecto trabalhado, bustos de Luís de Camões, Alexandre Herculano, Aquilino Ribeiro e Almeida Garrett.
É visível, na foto anterior, a entrada lateral que dava acesso a uma vasta área situada nas traseiras do prédio com ligação à Rua de Alexandre Herculano e que como era habitual, devia ser um acesso às cocheiras.
 
 
“Planta retangular com coberturas diferenciadas, com zona central mais elevada e formando cruz grega em telhados de quatro águas, integrando claraboia elíptica, e ângulos rebaixados, em telhados de duas águas. Fachada principal virada a noroeste, de três pisos, separados por cornija e de cunhais em silharia fendida, organizando-se em três panos; o central, ligeiramente avançado, é rasgado, no piso térreo, por três portais, em arco de volta perfeita, de duas arquivoltas e aduelas em cunha, no segundo, por três janelas de sacada, corrida e de perfil contracurvo, igualmente em arco de volta perfeita, com capitéis e chave de elementos vegetalistas bastante relevados, dispondo-se a sacada sobre mísulas também vegetalistas; no terceiro piso abrem-se janelas de peitoril retilíneas, com molduras rematadas em cornija, e com caixilharia de guilhotina. Os panos laterais, semelhantes, são rasgados por dois portais, em arco de volta perfeita, sobre pilastras toscanas e chave relevada, no piso térreo, janelas de sacada, de verga abatida rematada em cornija, no segundo, e de peitoril, iguais às do pano central, no último. Os portais do piso térreo possuem bandeira com grades em ferro forjado, tal como as guardas das sacadas, decoradas com motivos vegetalistas.”
Cortesia de Paula Noé (2017), In “monumentos.gov.pt/”

 
 
Claraboia do Palacete Campos Navarro – Cortesia de Luís Ferraz, In “Observador.pt”, 30 Agosto 2020
 
 
 
Após a morte de António Campos Navarro, herda o edifício a viúva Liberata de Jesus Barros e, em 1890, o edifício é então ocupado pela Real Companhia Vinícola do Norte, fundada em 1889.
 
 
 
Carro alegórico da RCVNP no carnaval de 1906
 
 
O carro alegórico da foto acima está a passar em frente à sede do Clube Girondinos, próximo da Praça da Batalha, à entrada da Rua Alexandre Herculano, no sentido descendente, à esquerda.
À direita, o local onde esteve o Teatro D. Afonso, entretanto, demolido.

 

Teatro D. Afonso (demolido c. 1903)


À data de 1906, aguardava-se pela edificação (1910) de um novo teatro – Teatro Éden.
Este, por sua vez, em 1922, teve um desabamento das suas traseiras que afectou uns armazéns da Real Vinícola.
A área de terreno que se vê apenas ocupada por um barracão, comunicava com o palacete de Campos Navarro, onde estava a sede da RCVNP, na Rua de Entreparedes e, uma parte daquela área esteve, durante dezenas de anos, afecta a armazéns da Real Vinícola, que neles teve um depósito, que funcionou até ao fim da década de 1940, quando no edifício da Rua de Entreparedes já funcionava as aulas do Instituto Comercial.
Para essa zona, existia uma entrada lateral, junta ao palacete, que dava acesso a uns armazéns e depósito, e que já foi mencionada, anteriormente.



Publicidade à RCVNP, em 1908



Em 13 de Fevereiro de 1919, durante o restabelecimento da República, substituindo um regime monárquico golpista, que se tinha estabelecido, durante cerca de um mês, as instalações da Vinícola do Norte, na Rua de Entreparedes, foram assaltadas e destruídas pelos republicanos, facto que nos é narrado na notícia seguinte:

 
Jornal “O Comércio do Porto” de 14 Fevereiro de 1919
 
 
 
Em 1922, ainda aqui estavam instalados o escritório da Real Vinícola do Norte e, no seu quintal, que confinava com terrenos do Teatro Éden (localizado na Rua de Alexandre Herculano), um armazém daquela empresa.
Neste ano, a Real Vinícola do Norte absorve a Companhia Vinícola Portuguesa que tinha a sua sede em Matosinhos, que tinha sido fundada por Clemente Meneres.
Em 1929, a Real Vinícola mantinha-se na Rua de Entreparedes, pois solicitava um pedido de licenciamento de obras, no edifício, à Câmara Municipal do Porto.
A partir da década de 1940, a Real Vinícola passa a contar, apenas, com as suas instalações em V. N. de Gaia.
No dia 5 de Abril de 1945, ocorreria um grande incêndio nos seus armazéns de Vinho do Porto, do qual resultaram 25.000 contos de prejuízos e uma dezena de feridos.



In Diário de Lisboa de 6 de Abril de 1945 - Fonte: Fundação Mário Soares



 A “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal”, com funções de agente intermediário entre a produção e o comércio e de comerciante por conta própria, será integrada, em 1963, na “Real Companhia Velha” que, desde 1961, tinha instalações na Rua da Carvalhosa, em V. N. de Gaia.
As duas companhias, que o povo começa a identificar por a Nova e a Velha, acabam sediadas, na Rua Azevedo Magalhães, nº 314, V. N. de Gaia.

 
 
Instalações da Real Vinícola em V. N. de Gaia

 
 
Na gravura acima, identificada com a letra A, observa-se a localização das instalações da RCVNP na Rua Azevedo Magalhães e, com a letra B, as situadas na marginal de V. N. de Gaia, na Avenida Ramos Pinto.
A Companhia Real Vinícola do Norte viria a utilizar para depósito dos seus espumantes um túnel ferroviário que nunca serviria para o efeito para o qual foi construído.
 
 
 

Túnel em Gervide (V. N. de Gaia)
 
 
 
O túnel da gravura acima foi começado a construir em 6 de Março de 1861, para passagem do comboio de Gaia para o Porto, e abandonado, posteriormente, sendo substituído por um outro construído ao seu lado.
Inicialmente, esse túnel faria parte do trajecto da linha do Norte que ligaria ao lugar da Pedra Salgada, onde seria construída uma ponte para atravessamento do rio Douro, de ligação ao esteiro de Campanhã. A obra, a cargo de um engenheiro-chefe de seu nome Jaubert, ficaria sem efeito, já que, foi decidido que o atravessamento do rio, se fizesse pela que veio a ser a ponte Maria Pia.
Em 24 de Outubro de 1862, aquele túnel estava praticamente aberto e era levada a efeito uma pequena festa para comemorar a façanha, conforme se pode ler a seguir.



"Jornal do Porto" de 24 de Outubro de 1862




O túnel seria comprado por Manuel Pestana e, mais tarde, cedida à Companhia Real Vinícola do Norte para ser usado, como depósito de vinhos espumantes.
A este túnel se refere Alberto Pimentel, em 1877.
 
 
 

In “Guia do Viajante no Porto e seus arrabaldes” de Alberto Pimentel (1877)



Entrada do túnel da Real Vinícola, em 1908



 
 
Publicidade, em 1946, à Real Vinícola, na qual é possível apreciar, numa vista aérea, as antigas instalações (letra A da gravura anterior) da RCVNP, junto da Rua Azevedo Magalhães - In revista Panorama, nº 28
 
 
Na foto acima, a publicidade respectiva, em 1946, ainda faz referência à Rua de Entreparedes e ao ainda funcionamento de um Depósito da Real Vinícola, naquela morada.

 
 
Antigas instalações (letra B da gravura anterior) da RCVNP, na Avenida Ramos Pinto - Fonte: Google maps
 
 
 
Em 1963, a Real Companhia Velha (assim oficialmente designada desde 1948), de Manuel da Silva Reis, adquire a Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal e a sua quinta do Síbio.
Por estes tempos, a Real Vinícola era uma firma importante na comercialização de vinhos de mesa, sobressaindo, do seu catálogo, o verde da marca “Lagosta” em garrafa característica.




Em 1972, a Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro e a Real Vinícola constituem uma companhia comercial denominada “Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro e Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal - agrupamento complementar de empresas, S.A.R.L.”, que adoptou também a denominação de Vinicolândia.
Em 2011, a Real Vinícola, que detinha os activos imobiliários da Real Companhia Velha, foi comprada pela  Fladgate Partnership, detentora da Taylor's e a Real Companhia Velha passou a pagar uma renda sobre as instalações que antes utilizava como suas.

 
 
Entrada das antigas instalações da Real Vinícola na Rua Azevedo Magalhães, em V. N. de Gaia, hoje, pertença da Fladgate Partnership – Foto: Artur Machado/Global Imagens, In JN

sábado, 18 de fevereiro de 2017

(Continuação 31) - Actualização em 16/05 e 12/12/2019 e 31/03/2020

Ensino Técnico Profissional - Instituto Industrial e Comercial do Porto


Em 1852, é fundada a Escola Industrial do Porto, mais tarde designada por Instituto Industrial e Comercial do Porto. Em 1918, o Instituto Industrial e o Instituto Comercial separam-se formalmente.
Em Julho de 1914, procedeu à publicação de um diploma em que são feitas algumas modificações na organização do ensino industrial. A mais importante prende-se com a tão esperada e tardia criação de escolas de arte industrial aplicada. Cria-se uma Escola de Arte Aplicada do Porto «(...) cujas tradições artísticas e industriais convém fortalecer e orientar, aproveitando como núcleo as cadeiras de pintura e escultura decorativas até aqui ligadas ao Instituto Industrial e Comercial».
Pelo Decreto n° 2027 de 5 de Novembro de 1914, a Escola de Arte Aplicada do Porto, passou a denominar-se Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis.
Por durante 3 anos consecutivos a escola não ter frequência aceitável, por aplicação do Decreto n° 3752 de 3 de Janeiro de 1918, a Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, transita, com o seu pessoal docente e os cursos para a Escola Industrial Infante D. Henrique.
Mais tarde e por nova reorganização do ensino, Decreto n° 5029 de 5 de Dezembro de 1918, publicado no Diário do Governo, 1 série, n° 263 de 5 de Dezembro de 1918, a Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis voltou a ter autonomia.
Entre 1914 e 1930, o arquitecto Marques da silva foi professor e Director da Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis.
Após 1930, entrado em pleno o período da ditadura, a primeira reforma do ensino técnico, é elaborada pelo ministro Gustavo Cordeiro Ramos e o ensino técnico-profissional aparece com o objectivo de preparar indivíduos de ambos os sexos para as carreiras da indústria ou do comércio, e passa a ser efectuado em escolas industriais e comerciais.
Neste pressuposto, a Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, existente na cidade do Porto, é anexada à Escola Industrial de Faria Guimarães, passando esta a denominar-se Escola Industrial Faria Guimarães (Arte Aplicada). Quanto às escolas de artes e ofícios, «transformaram-se em industriais, por se reconhecer que não é possível ministrar o ensino profissional a analfabetos»
Assim, vão ser os próximos tempos.




“O Instituto Industrial e Comercial do Porto foi fundado (Decreto de 30 de Dezembro, 1886), pelo então ministro Emídio Navarro que lança as bases teóricas da organização do ensino industrial e comercial do nosso País.
Antes disso, em 1852, tinha sido fundada a Escola Industrial do Porto e que daria mais tarde origem ao Instituto Industrial e Comercial do Porto, depois de em 1864 se ter tornado, no Instituto Industrial do Porto (IIP).
Em 1891, as reformas de ensino técnico de João Franco mantiveram inalteráveis as secções, industrial e comercial do Instituto Industrial e Comercial do Porto, não as transformando em escolas independentes.
Todavia, os cursos elementares de comércio foram suprimidos e o curso superior fica reduzido a três anos e dividido em dois graus.
O Instituto Comercial e Industrial do Porto vê, em 1896, serem reconhecidos os seus Cursos Superiores, equiparados aos das demais escolas: o antigo Curso Superior de Comércio (criado pelo Decreto de 30 de Dezembro de 1886) e o Curso Superior ministrado nos Institutos Industriais e Comerciais.
O Instituto Industrial e Comercial do Porto viveu um percurso atribulado, pela falta de orientação definitiva, até 1918, data da publicação do Decreto n.º 5 029, de 1 de Dezembro, quando é desdobrado em três: Instituto Industrial do Porto, Instituto Comercial do Porto e Instituto Superior do Comércio do Porto.
Nesta data dá-se pela primeira vez a separação dos Institutos Comerciais em relação aos Institutos Industriais, situação que se manteve até 1924. Esta segmentação é no entanto temporária, pois rapidamente se fundem de novo estas áreas do saber e só em 1933 se opta por uma segmentação definitiva”. 
Fonte – Site: “iscap.ipp.pt”



Relativamente às três escolas, referenciadas no texto anterior, a que aludia o Decreto n.º 5029, de 1 de Dezembro de 1918, o Instituto Superior do Comércio ainda se encontrava a funcionar com independência, em 1928, pois tinha como morada no "Guia do Porto" de Santos Quintella, naquele ano, o Palacete dos Braguinhas, a S. Lázaro.
Por sua vez, no mesmo guia, é referido o Instituto Industrial e Comercial tendo como morada o n.º 18, na Rua Ferreira da Silva, à Praça dos "Leões".
Na realidade viviam-se tempos de constantes mudanças.




“… desde muito novo sentiu meu Pai decidida vocação pelos assuntos ligados ao comércio, o que o levou à matrícula no antigo Curso Superior de Comércio do Instituto Industrial e Comercial, onde teve por mestre, entre outros, o Dr. Paulo Marcelino Dias de Freitas, mais tarde Director daquele estabelecimento, e por quem meu Pai nutriu sempre grande admiração e estima. Por diversas vezes me recordo eu de ter visto o ilustre Professor, com o seu porte elevado, a sua ampla testa e o seu sorriso cativante, a presidir às sessões solenes comemorativas do aniversário da Escola Raúl Dória.”
Fonte: A. Álvaro Dória, filho do Professor Raúl Dória, In “O Professor Raúl Dória e a sua Escola”, Porto, 1968



De notar, relativamente ao texto anterior, que a Escola Raúl Dória foi fundada em 1902, por Raúl Montes da Silva Dória (1878 - 1922) e, que, como atrás foi referenciado, o Curso Superior de Comércio do Instituto Industrial e Comercial foi reconhecido em 1896. 




1. Instituto Comercial do Porto - Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto



Após 1933, depois do ensino comercial ser autonomizado, definitivamente, do ensino industrial, o então apelidado Instituto Comercial do Porto é conhecido, à época, por deter o maior nível de estudos mercantis da capital nortenha e, também, por ser um estabelecimento de ensino técnico médio, com ambiência de ensino superior, em diversos aspectos da sua vida académica.
Instalar-se-ia, então, o Instituto Comercial vindo das bandas da “Praça dos Leões” e da companhia do Instituto Industrial, num prédio da Rua de Entreparedes, nº 44/48, conhecido também no século XIX, por palacete dos Campos Navarro, ao qual se juntava o Instituto Superior de Comércio que, até aí, funcionava no Palacete Braguinha, a S. Lázaro.




Desenho de fachada integrante de projecto (1861) de construção de prédio na Rua Entreparedes – Fonte: AHMP



O projecto a que alude o desenho acima foi apresentado à Câmara do Porto pelo negociante António de Campos Navarro em 19 de Junho de 1861.
Após a sua morte, herda o edifício a viúva Liberata de Jesus Barros e, o prédio acaba nas mãos do grande capitalista José Joaquim Guimarães Pestana da Silva, conhecido por viver num outro palacete na Rua de Gonçalo Cristovão, o Palacete dos Pestanas, para onde transitou vindo da Rua do Bonjardim, nºs 79-83, sua antiga residência.
Sabe-se que, até 1884, quando o Liceu do Porto ocupou por arrendamento o prédio, ele estava ocupado com o Colégio de S. Bento que, em resultado do despejo, iria ocupar um outro, à data, na Rua de S. Lázaro, nºs 268-278, onde tinha funcionado a Casa de Saúde do Dr. Ferreira".
Entre 1884 e 1887, o palacete da Rua de Entreparedes foi, então, arrendado por 1.800$000 réis, ao Liceu do Porto, que para isso abandonou o palacete do Poço das Patas, que foi de Francisco de Sousa Cirne Madureira e acabou por pertencer a Manuel Carvalho Rebelo.
Em 1890, o edifício dos Campos Navarro é, então, ocupado pela Real Companhia Vinícola do Norte, fundada em 1889.
Em 1929, a Real Vinícola aí se mantinha, pois solicitava um pedido de licenciamento de obras, no edifício, à Câmara Municipal do Porto.
Em 1933, o palacete foi ocupado pelo Instituto Comercial do Porto e Instituto Superior de Comércio do Porto, posteriormente transformado em Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto.
Durante alguns anos, a Real Vinícola manteve num vasto terreno, nas traseiras do prédio, uns armazéns que funcionavam como depósito.
Em 2005, o edifício foi colocado à venda e, actualmente, está a ser remodelado para ser mais um hotel.



Rua de Entreparedes 44/48 – Ed. JPortojo



Interior do edifício da Rua de Entreparedes onde esteve o Instituto Comercial



Voltando à actividade do Instituto Comercial, diga-se, que a reforma operada pelo Decreto-Lei n.º 38 031, de 4 de Novembro de 1950, em nada alterou as características deste estabelecimento de ensino.
Pelo contrário, a conjuntura política de 1974 vem operar profundas alterações na vida deste Instituto, pois, na altura, crescem em importância os cursos de carácter marcadamente técnico acabando, em 1976, por adquirir a nova designação de Instituto Superior de contabilidade e Administração (ISCAP).



“Neste novo contexto, o progresso do País exigia o bom desempenho de quadros técnicos superiores, que na altura escasseavam. Assim, o ISCAP, é reconhecido como uma das escolas que, ao longo dos séculos, formaram gerações de profissionais e é inserido nos estabelecimentos de ensino superior. Este acontecimento possibilita aos diplomados pelos Institutos Comerciais receberem a designação de bacharéis, um grau que “constitui habilitação própria para admissão ao estágio para professor do 6º grupo do ensino técnico profissional”. Esta legislação é percursora daquela que vai, mais tarde, integrar os Institutos Comerciais na rede de ensino superior – o Decreto-Lei n.º 327/ 76, de 6 de Maio.
É assim que nasce a actual designação de Institutos Superiores de Contabilidade e Administração, com o estatuto de “escolas superiores, dotadas de personalidade jurídica e autonomia administrativa e pedagógica”, habilitadas a conferir “os graus de bacharelato, licenciatura e doutoramento”.
Fonte: “aeiscap.com”


A partir de 1976, é história recente, que compreende uma mudança para novas instalações em S. Mamede - Matosinhos.
Já com novas instalações inauguradas oficialmente, em 1996, o ISCAP recebe nos finais desta década o Mestrado em Contabilidade e Administração, organizado pela Universidade do Minho, e em parceria com o Instituto Politécnico do Porto. Apesar de inauguradas em 1996, a mudança para o novo edifício processara-se um ano antes, em Novembro.



ISCAP (instalações actuais) em Moalde de Cima, Matosinhos



“O ISCAP está situado, desde 1995, junto do Campus Universitário da Asprela, nas proximidades do Hospital de S. João. As suas instalações compreendem uma vasta biblioteca, 2 auditórios, 3 anfiteatros, 1 sala de atos, centros de informática, laboratórios de línguas e multimédia, laboratório de marketing digital, 1 cantina, 3 bares, 1 restaurante e repartições administrativas”.
Fonte: “iscap.ipp.pt”






2. Instituto Industrial – Instituto Superior de Engenharia (ISEP)


Esteve na Rua do Breiner, nº 164, entre 1931 (após o abandono do edifício até aí ocupado pela Faculdade de Letras) e 1968, onde se instalaria nos anos seguintes, a Escola Fontes Pereira de Melo.



Edifício, em 1939, na Rua do Breiner, nº 164, onde esteve o Instituto industrial do Porto, entre 1933 e 1968. Hoje, faz parte do património imobiliário do Politécnico do Porto



Antes, tinha começado por estar, em 1854, na Rua de S. Roque da Vitória e, mais tarde, dividindo instalações com outras instituições, no chamado edifício da Academia Politécnica, na área a Poente deste, que dava para a Rua do Anjo.


“O ISEP tem como raiz a «Escola Industrial do Porto», criada no reinado de D. Pedro V pelo ministro Fontes Pereira de Melo a 30 de Dezembro de 1852. Fontes Pereira de Melo estava desagradado com o carácter teórico do ensino de então ministrado pela Academia Polytechnica (origem da actual Universidade do Porto) que segundo intelectuais era incapaz de responder às novas necessidades.
A inauguração oficial da escola ocorreu a 27 de Março de 1854. Poucos dias volvidos, a 1 de Maio, teve início um curso livre experimental em salas da Associação Industrial Portuense, na Rua de S. Roque da Vitória. Os portuenses responderam a este desafio educativo, registando-se no primeiro ano lectivo de 1854-1855 a inscrição de 488 alunos. O ano seguinte decorreu já num «canto modesto do edifício da Academia Polytechnica», que entretanto fora submetido a obras de adaptação.
A Escola Industrial, Academia Polytechnica, o liceu nacional, a Academia Portuense de Belas Artes, o Colégio dos Órfãos e a Biblioteca do Porto passam a funcionar no Paço de Estudos do Porto. Hoje, é o antigo edifício da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. No início da sua criação, a escola recorria à Associação Industrial Portuense quando procurava espaços e equipamentos para ministrar os seus cursos. A Escola Industrial do Porto diplomava Operários de fábricas, Oficiais, Mestres e Directores nas áreas de Mecânica e Química ao nível das soluções técnicas e conceitos de ensino prático e experimental praticado na Europa da época.
Em 1864, durante a expansão do ensino superior industrial em Portugal por João Chrysostomo de Abreu e Sousa, o actual ISEP passa a denominar-se «Instituto Industrial do Porto» (IIP), e principia a formação das elites industriais nortenhas. O ensino teórico era feito no instituto e o prático nas oficinas do Estado, em fábricas particulares ou em serviços públicos.
Durante a visita real de D. Luís I à cidade do Porto em 1881, o ministro do reino Thomaz Ribeiro propõe uma fusão entre as duas escolas de topo do ensino industrial da cidade: O Instituto Industrial do Porto e a Academia Polytéchnica. Ambas as escolas se fundiriam no novo "Instituto Polytéchnico". Esta ideia era pretendida pela Academia Polytéchnica, já que ambas as escolas tinham equipamentos conjuntos, partilhavam "lentes" (professores) e havia vantagens para ambas as escolas quer em equipamentos quer em financiamento. O projecto incluía alguns cursos inovadores como de Químicos Industriais e de Engenheiros de Máquinas. Este convite teve forte oposição por parte do Instituto Industrial, porque a fusão ia contra a natureza e motivo da sua criação, que era precisamente ser uma alternativa ao academismo demasiadamente teorizante e especulativo dessa academia.”
Fonte: “pt.wikipedia.org”


A Escola Industrial do Porto, que seria o embrião do Instituto Industrial começaria, em 1 Maio de 1854, o seu 1º curso nas instalações da Associação Industrial Portuense.
Associação Industrial Portuense, conhecida, também pelas siglas AIP ou AI Portuense, tinha sido fundada, em 1849, por José Vitorino Damásio e outros homens de negócio da região.
A AIP, criou raízes, numa publicação industrial e tecnológica (1ª revista sobre a indústria do Porto) começada em, 31 de Março de 1845 e, cujo último número saiu, a 28 de Fevereiro de 1846 – “O Industrial Portuense”.
Quando iniciou a sua actividade, a AIP, lançou o primeiro número de uma publicação de informação industrial e tecnológica, "O Jornal da Associação Industrial Portuense", abrindo ainda as suas portas, dois meses depois, na então Rua de S. Roque da Vitória, ao que viria a ser o embrião da primeira instituição de ensino profissional portuguesa, a "Escola Industrial Portuense", pioneira do ensino técnico oficial instituído pelo governo.
Nos anos que se seguem este tipo de ensino iria passar, até à implantação da República, por 4 fases, que se explicitam a seguir:



1. A denominada Escola Industrial do Porto foi fundada em 1852, com o objectivo de que a sociedade desse o salto rumo à industrialização, deixando de ser sobretudo um país rural.
Foi Fontes Pereira de Melo, ministro das Obras Públicas, do Comércio e da Indústria, quem lançou o primeiro sistema público de ensino industrial, assente na ideia de educação para o desenvolvimento, onde a Escola Industrial do Porto punha em relevo aquelas características, em despique com a Academia Politécnica.
Em 1854 decorria um curso da Escola Industrial do Porto, nas instalações da AIP, sitas à Rua de S. Roque da Vitória.


2. Em 1864, sob a égide do Ministro Conselheiro João Chrysostomo de Abreu e Sousa, efectua-se uma ampla reforma e expansão do ensino industrial. O ensino "superior" industrial é, então, dividido em duas partes: a primeira, incluía formação geral comum a todas as artes, ofícios e profissões industriais, integrando duas componentes: o ensino teórico, ministrado na Escola, e o ensino prático, ministrado nas oficinas do Estado ou, sob acordo, em fábricas particulares; a segunda incluía o ensino especializado de certas artes e ofícios, e também de diversos serviços públicos tais como obras públicas, minas e telégrafos.
No âmbito desta reforma a Escola Industrial do Porto passa a Instituto Industrial do Porto, formando "mestres", "condutores" e "directores de fábrica".
Por esta altura, a Escola Industrial do Porto, a Academia Polytechnica, a Academia Portuense de Belas Artes, o Colégio dos Órfãos e a Biblioteca do Porto, passam a funcionar no Paço de Estudos do Porto, hoje, o edifício da Reitoria da Universidade.
Entretanto, o liceu Nacional que, desde 1840, por aqui vinha funcionando, em 1864, já funcionava na Rua Formosa.


3. Em 1881, durante a visita ao Porto do Rei D. Luís, o então Ministro do Reino Tomás Ribeiro, e o Ministro das Obras Públicas Rodrigues de Freitas, propuseram a fusão das duas escolas de topo do ensino industrial - a Academia Polytéchnica do Porto e o Instituto Industrial do Porto - numa só, denominada, Instituto Polytéchnico do Porto.
O Conselho Escolar, do Instituto Industrial do Porto, considerando que tal projecto era contrário ao seu percurso histórico - recusa o projecto de fusão com a Academia Polytéchnica.
Criada em 1837, a Academia Politécnica do Porto, decorreu de uma reforma da instrução pública empreendida pelo Ministro do Reino Passos Manuel, sucedendo à Academia Real da Marinha e Comércio. Duraria até à implantação da República.


4. Em 1886, por acção do Ministro Emídio Júlio Navarro, procede-se à fusão de cursos e, no ano lectivo de 1886-87 é, em sequência, inaugurado o Instituto Industrial e Comercial do Porto.



Nesta época, já era director do instituto o engenheiro Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa (1818-1899), cargo que desempenhou entre 1880 até à sua morte, nos dois primeiros anos de forma interina, após o falecimento de Parada Leitão.
O engenheiro portuense, Gustavo Sousa, que obteve a sua carta de curso em engenharia na Escola Politécnica em 18 de Setembro de 1850, tem o seu nome ligado indelevelmente à cidade que o viu nascer.
Foi professor na Escola Industrial e, mais tarde, no Instituto industrial; vice-presidente da Comissão Portuguesa na Exposição Universal de Paris, em 1878.
Integrou como militar o exército libertador de D. Pedro IV, e lutou na Patuleia nas hostes da Junta do Porto.
De 1864 até 1873 manteve-se no cargo de Engenheiro-Chefe da Junta de Obras do Município do Porto.
Como profissional de engenharia, as suas obras mais emblemáticas são o Salão Árabe do Palácio da Bolsa e, ainda, a sua Escadaria Nobre.
Uma outra é o complemento ao projecto de Carlos Amarante para o local da igreja da Graça e Colégio dos Orfãos, quando foi decidido, em 1862, que a Academia Polytechnica, a Academia Portuense de Belas Artes, o Colégio dos Órfãos, a Biblioteca do Porto e a Escola Industrial, passassem a funcionar no mesmo edifício que, hoje, é o edifício da Reitoria, à Praça Gomes Teixeira.
É quase impossível nomear a obra de Gustavo Sousa por ser imensa: projecto original do nº 285 da Rua de Cedofeita, hoje ocupado pelo Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo; intervenções diversas em estradas minhotas e no lanço da estrada real entre o Porto e os Carvalhos; Ideia de ligação da Boavista ao mar (Avenida da Boavista); concepção das ruas Duque do Porto, Gonçalo Cristovão, Mouzinho da Silveira, Oliveira Monteiro, Sá da Bandeira e São Jerónimo (Santos Pousada); Mercado de Peixe, à Cordoaria; Cemitério de Agramonte; intervenções no Hospital de Leça da Palmeira e Santuário de Matosinhos.
O seu nome ficou ainda ligado à controvérsia em torno do projecto de fusão da Academia Politécnica do Porto com a Escola Industrial.
 
 
 
 
À esquerda, a residência de Gustavo de Sousa, na Rua Rodrigues de Freitas, nº 14 – Fonte: Google maps



Com o fim da Monarquia e a chegada da Primeira República e com as mudanças derivadas da transição política acontecida na época, os objectivos do instituto e da indústria nacional ficam indefinidos, num país indeciso entre a indústria e a agricultura.
Assim, em meados do século XX, passam a ser ministrados cursos de nível técnico médio de ensino industrial.
Continuando a ser uma instituição estruturante do ensino ligado à indústria, passa, o Instituto Industrial, a formar agentes técnicos de engenharia para todas as suas áreas clássicas.
Durante o período do Estado Novo, a secção industrial autonomiza-se definitivamente, recriando-se, assim, o Instituto Industrial do Porto, cujas instalações se mantêm na Rua do Breiner, até 1968.
A partir deste ano, ocupa instalações na área do Hospital São João, onde ainda se mantem.
Em 1974, através do decreto-lei 830/74, de 31 de Dezembro, converteram-se os Institutos Industriais em Institutos Superiores de Engenharia.


Instituto Superior de Engenharia do Porto.


Mais recentemente,

“ (…) em 1989, o Instituto Superior de Engenharia do Porto é integrado no subsistema de Ensino Superior Politécnico, passando o seu modelo de formação a integrar dois cursos distintos: o bacharelato, com a duração de três anos, e os Cursos de Estudos Superiores Especializados, com a duração de dois anos e acesso por concurso documental, que, em conjunto com um bacharelato com ele coerente, conferia o diploma de licenciatura.
Em 1998, no âmbito de uma nova reforma do ensino superior politécnico, o ISEP passa a ministrar as actuais licenciaturas bietápicas, caracterizadas pela sua estruturação em dois ciclos - o bacharelato com a duração de três anos - o que possibilita a inserção no mercado de trabalho, seguido de um segundo ciclo de dois anos - frequentado essencialmente em regime pós-laboral - para a obtenção da licenciatura.
Em 2006, por força da adesão de Portugal à Declaração de Bolonha, o ISEP disponibilizará um novo Plano de Estudos, constituído por licenciaturas e mestrados nas diversas áreas da Engenharia, assim iniciando um novo ciclo da sua já longa história.”
Fonte: “essr.net”