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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

(Continuação 46)


(Nota prévia: o presente texto tem por apoio principal o blogue “doportoenaoso” de que é administrador o Professor Ricardo Figueiredo, que no tratamento da história do Porto é para nós uma referência importante, salvaguardadas algumas opiniões que temos sobre esta matéria e outras investigações pessoais.)


Palacete do Visconde de Veiros em 1833 – Ed. Joaquim Cardoso Villanova (1792-1850)



Na década de 50 do século XIX a quinta é descrita na "Necrologia de José de Sousa e Melo", como:


“(…) a magnífica Quinta de Santo António da Boavista, chamada das Águas Férreas, por ter uma fonte desta água junto aos seus muros [a S., no topo da R. das Águas Férreas], pertence aos Sousas e Melos, e principia em um sítio alto fronteiro à Igreja da Lapa, em cujo cume tem um mirante donde se descobre a cidade, Foz do Douro, e grande extensão de mar; corta esta parte da quinta a rua chamada do Melo onde está o seu palácio e capela de Santo António; tem bonitos jardins, e hortas ajardinadas, e um anfiteatro, com estátuas, e bela escadaria por onde se desce para uma planície, que se dilata até à Estrada de Cedofeita [actual R. Barão de Forrester], aonde há uma meia-laranja com dois mirantes, que se comunicam por uma varanda de pedra, com um gradão de ferro por baixo: tem uma excelente cascata, e muitos tanques e chafarizes com grande abundância de água; bosques, pomares, e diversidade de ruas com paredes formadas de limoeiros, aveleiros, e outras árvores floridas, que a tornam sumamente recreativa, sendo por isso muito frequentada.”



A publicação da "Necrologia de José de Sousa e Melo" atrás referida é acompanhada de uma "Planta das Quintas dos Melos de Santo António das Águas Férreas, na cidade do Porto", que apresenta a quinta dividida, pela Rua do Melo, em duas partes: a Quinta de Cima, a Este daquele arruamento, de reduzida área e cujo limite Sul, alinhado com a fachada Sul do palácio, confina com a "Quinta de José Vieira de Carvalho e outras terras confinantes com os quintais das casas da R. da Boavista"; e a Quinta de Baixo, a Oeste do arruamento, correspondente aos terrenos envolventes ao palácio.
Por sua vez Pinho Leal, In “Portugal Antigo e Moderno” refere-se à quinta nos seguintes termos:


“Palacio e quinta de Santo Antonio da Bôa-Vista, ou das Aguas-Férreas — do sr. José Leite de Sousa Mello da Cunha Sotto-Maior, filho do fallecido visconde de Veiros. 
A sr.ª D. Maria Rita Leite de Sousa Freire Salema de Saldanha e Noronha foi feita viscondessa de Veiros, em 8 de agosto de 1810. O sr. João de Mello e Sousa da Cunha Sotto-Maior foi feito visconde do mesmo título, em 7 de dezembro de 1842. (Vide Veiros.) 
E' uma aprazível vivenda, próximo às Aguas-Férreas, e à rua da Boa-Vista. Pertence a esta familia, desde 1760, sendo seu primeiro dono, José de Sousa Mello. Em 1809, foi quartel general do governador das armas do Porto, o general inglez, Nicolau Trant. Quando Trant sahiu do Porto, tornou para este palácio José de Sousa Mello, e n'elle residiu até julho de 1832, em que sahiu da cidade, e foi para a sua casa da Régua. Os liberaes tomaram conta da propriedade, fazendo do edificio, paiol da pólvora. Mudado este, para o palácio da quinta do Bispo (contigua à quinta da China, que lhe fica a E., e ao antigo seminário, que lhe fica a 0.) se estabeleceu no palácio das Aguas- Férreas o asylo da mendicidade, até 1845, em cujo anno tomou conta da propriedade e a veio habitar o visconde de Veiros. Em 1855, se estabeleceu aqui o hospital dos atacados do cholera-morbus. Em 1857, estabeleceu- se n'este palácio, o collegio de Nossa Senhora da Guia. Desde 1861 até 1869, esteve aqui o hospital militar, transferido de S. João Novo; até que se mudou para o novo hospital militar, de D. Pedro V, que fica a uns 400 metros a 0., na rua da Boa-Vista”.
Fonte ”doportoenaoso”



No texto anterior Pinho Leal errou na referência que fez ao Asilo de Mendicidade, pois, esta instituição ocupou o palacete após o ano de 1845.



Asilo de Mendicidade no Porto na Revista Popular, n.º 24 de 12 de Agosto de 1848



Acompanhando a gravura acima, em texto anexo, explicitava-se que dois anos antes, em 1846, o Porto ainda não tinha aquela obra assistencial, o que viria a ocorrer naquele ano.


“Palacete do visconde de Beire, às Aguas Ferreas. Aqui estiveram o Asylo de Mendicidade, antes de mudar-se para as Fontainhas, e o hospital dos colericos durante a epidemia de 1855”.
Alberto Pimentel no Guia do Viajante no Porto; Fonte ”doportoenaoso”


No texto anterior Alberto Pimentel deveria querer referir-se ao visconde de Veiros.
O visconde de Beire é outra personagem proprietário da chamada Quinta dos Pamplonas, bem perto desta, com implantação em parte, no solo do que é hoje a Rua de Álvares Cabral.



“A. S. Dias (?) Vista do Palacio dos S.as e Mellos, situada na rua chamada do Mello, junto as Aguas-Ferreas na Freg.a de Cedofeita do Porto tirada da meia laranja junto a Escada do Jardim principal para a Quinta de Baixo” – Fonte: blogue “doportoenaoso”



Na gravura acima a escadaria está lançada para a fachada virada a Sul e com o seu eixo longitudinal com orientação Oeste-Este.



Solar dos Sousa e Melo na Planta de Balck em 1813

Legenda:
1. Solar dos Sousa e Melo
2. Actual Travessa das Águas Férreas
3. Actual Rua das Águas Férreas



“Planta das Quintas dos Mello de Santo António das Agoas Ferreas no Porto, Lith. de J. C. Lemos e A. S. Dias. Para melhor compreensão a planta foi reorientada no sentido norte-sul” – Fonte: blogue “doportoenaoso”



Na planta anterior o palacete está implantado na zona colorida.



Quinta assinalada como Souza Mello e a fonte de Agoas Ferreas em 1839,  e J. Costa Lima Júnior, AHMP – Fonte: “doportoenaoso”



Na planta acima, podemos observar que, nas traseiras da Quinta das Beldroegas (4), junta-se o aqueduto de Salgueiros (1) ao aqueduto de Paranhos (2), para seguirem, a partir daí, num trajecto conjunto (3).



Cronologia da ocupação do Palacete da Quinta das Águas Férreas


Em 1741, António da Costa Cardozo, Sargento–Mor do Concelho de Gondomar por Patente Regia de 30 de Maio de 1741, é Senhor com a sua mulher D. Marianna Thereza Pereira, da dita Quinta e Prazos.
Joze de Souza e Mello ao casar, em 1760, com a filha de António da Costa Cardoso, D. Rita Miquelina Victoria da Costa Cardoso, Senhora da Quinta e Prazos de Santo António das Agoas Férreas, torna-se o proprietário da Quinta.
João de Mello e Sousa da Cunha Sotto Mayor, 2º Visconde de Veiros (1793-1854) herdou a quinta de seu tio José de Souza e Mello, em 1839.
O título nobiliárquico, recebê-lo-ia pelo casamento com D. Maria Rita Leite, filha primogénita de Francisco de Paula Leite de Souza (1747-1833) Comandante da Armada, 1º Visconde de Veiros em 1822, herdando por isso o título.
Em 1809, foi a Quinta das Águas Férreas, quartel-general do governador das armas do Porto, o general inglês, Nicolau Trant. Quando Trant saiu do Porto, tornou para o seu palácio José de Sousa Mello, e nele residiu até Julho de 1832.
Na sequência dos acontecimentos do Cerco do Porto e, após José de Souza e Mello, em 1832 ter saído do Porto para ir primeiro para a Régua e depois para Braga, onde veio a falecer (como se disse em 1839), a Quinta das Águas Férreas, seria utilizada como paiol até 1836, pelos liberais.
Cerca do ano 1845 a quinta teria passado, por decisão Régia à posse plena do seu herdeiro, o 2º visconde de Veiros, João de Melo e Sousa da Cunha Souto-Maior e, em 1846, aí seria instalado o Asilo Portuense de Mendicidade, oficialmente inaugurado em 8 de Julho de 1848.
Pela morte em 1854 do 2º visconde de Veiros passa a ser proprietário da Quinta das Águas Férreas, o seu filho José Leite de Sousa Mello da Cunha Souto-Maior, 3º Visconde de Veiros.
Segundo o 2º visconde de Veiros, João de Mello e Sousa da Cunha Souto Maior, sobrinho e herdeiro, seu tio, José Sousa Melo era:


“Joze de Souza e Mello foi Cavalleiro professo na Ordem de Christo, e Commendador da Commenda de Lourenço Marques na mesma Ordem : Fidalgo Cavalleiro da Caia Real.
Vereador prepetuo, e o Decano do Illm.º Senado da Camara, e como tal servio de Capitão Mor da Cidade e seu Destricto, no tempo da Guerra Peninsular. 1.° Administrador Geral do Correio, e Creador deste Lugar por conta da Real Fazenda. Proprietário do importante Officio de Thezoureiro e Recebedor do Consulado daquela Alfandega, e anexas. Vice-Provedor da Illm.ª Junta d' Administração da Companhia Geral d’agricultura das Vinhas do alto Douro. Inspector das Obras dos Edeficios dos Paços do Conselho; e da Real Academia da Marinha e Commercio. Administrador do Real Colégio de Nossa Senhora da Graça e Órfãos. Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Deputado da Junta do Subsidio Militar; Membro da das Obras Publicas; e Encarregado dos arranjos para o utilíssimo estabelecimento da Illuminação publica, que promoveo assim como outros muitos de geral interesse: tudo na referida Cidade do Porto. E no Algarve Edeficador da undécima parte de Villa Real de St.º Antonio, na Fundação desta Villa.
Joze de Souza e Mello durante muitos annos, e quasi sem intervalo desde o de 1803, foi o Decano dos Vereadores da Camara do Porto, procurando sempre assiduamente fazer manter o decoro daquelle Município.”
Fonte: “doportoenaoso”


Em 1854 faleceu o 2º visconde de Veiros.
Entre 1855 e 1857, a propriedade devido à epidemia de cólera, foi utilizada também como Hospital de coléricos.
Em 1858, o Asilo de Mendicidade abandona estas instalações.
Em 1859, o Colégio de Nossa Senhora da Guia, tinha acabado de se instalar na Casa das Águas Férreas. 




Publicidade ao Colégio de Nossa Senhora da Guia, no “Jornal do Porto” em 1859





Entre 1861 e 1869, a Quinta é ocupada pelo Hospital Militar até à construção do seu novo edifício na Avenida da Boavista.
Em 1869 a quinta, segundo Pinho Leal, foi arrendada por Oswald Crawfurd, (1834-1909) cônsul de Inglaterra no Porto.



Estampa de "Portugal old and new by Oswald Crawfurd", 1880 (pág. 145) - Fonte: “doportoenaoso”



Acima observa-se uma estampa com o título de Country House, que é uma vista do pátio (virado a Norte) da Quinta das Águas Férreas do livro “Portugal old and new” da autoria do cônsul Oswald Crawfurd.
Esta personagem a propósito da descrição da propriedade referia-se à existência de uma bela capela privada no piso térreo, dedicada a Santo António.
Em 1880 a Congregação das Franciscanas de Calais adquire a Quinta das Águas Férreas para instalação de um segundo estabelecimento de ensino na cidade.
Após a implantação da República, em 8 de Outubro de 1910 é publicado o decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado e, em Maio de 1911, é publicada a Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância.



“(…) 1880 - a Congregação das Franciscanas de Calais, cuja primeira fundação em Portugal data de 1876, com a abertura do Asilo-Colégio de Nossa Senhora do Pranto, em Ílhavo, inicia a sua expansão no núcleo urbano do Porto, adquirindo a Quinta das Águas Férreas para a instalação do segundo estabelecimento de ensino que detém na cidade; 1901 - com a legislação de Hintze Ribeiro, e na tentativa de regularizar a acção das congregações entradas progressivamente em Portugal na segunda metade do séc. 19, as Franciscanas organizam-se na Associação de Santo António das Águas Férreas, com estatutos aprovados pelo Governo; 1910 - à data da extinção das congregações, com a implantação da República, as Franciscanas de Calais detinham 19 casas, entre colégios, asilos e hospitais, asseguradas por 204 religiosas (VILLARES: p. 175); só a casa de Santo António das Águas Férreas dispunha de 33 religiosas, colégio "sempre pronto a acudir às filhas de gente pouco abonada, mas desejosa de dar-lhes educação esmerada e bases sólidas para uma vida moral e sã" (Um pouco de história, f. 14); 1910, 8 Out. - publicação do decreto que extingue as ordens e as congregações em Portugal, passando os seus bens para a guarda e posse do Estado; 1911, Maio - publicação da Lei de Protecção à Infância, no âmbito da qual são criados os tribunais de menores, designados tutorias da infância, e introduzida em Portugal uma jurisdição especialmente aplicada a crianças e jovens com menos de 16 de idade que estejam nas situações de perigo moral, de desamparo ou de delinquência; para a prossecução dos objectivos consignados na lei, o governo republicano destina bens e rendimentos das congregações extintas para possibilitar a instalação das novas estruturas judiciárias de protecção à infância, quer os novos tribunais e refúgios anexos, quer para proceder à remodelação, quando não criação, de estabelecimentos de internamento para reeducação dos menores por decisão judicial; 1912, 24 Abril - decorrido quase um ano sobre a experiência singular da Tutoria de Lisboa, é instituído no Porto o segundo tribunal central de menores que a justiça portuguesa conhece, acompanhado do respectivo Refúgio, estabelecimento anexo ao tribunal para detenção e observação médico-psicológica e social dos menores em situações que exigem internamento enquanto aguardam julgamento; para a instalação desta estrutura a Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas cede ao Ministério da Justiça a Quinta das Águas Férreas; 1912, Maio - o Vice-Reitor do Seminário do Porto propõe-se adquirir a quinta por 200 000$00 para ali instalar o Seminário dos Preparatórios, mas tal transacção não veio a ocorrer por determinação do Ministério da Justiça em estabelecer naquela propriedade a Tutoria do Porto (Um pouco de história, ...); 1912, Novembro - o tribunal começa a funcionar, tendo registado até ao fim do ano a abertura de 61 processos (Um pouco de história..., f.35); 1912, 6 Dezembro - data do orçamento e memória descritiva para as obras de reparação, conservação e modificação a efectuar no conjunto ocupado pela Tutoria Central da Infância do Porto, promovidas pela Direcção das Obras Públicas no Distrito do Porto”.
Com a devida vénia a Filomena Bandeira e Ricardo Agarez 2005/ Ricardo Agarez 2008; In “monumentos.gov.pt”



O Palacete dos Sousa Melo, visto de outro ângulo na primeira metade do século XX – Ed. Teófilo Rego, AHMP




Aqui viria então, a funcionar, a Tutoria do Porto.
Esta tutoria foi instalada aqui na sequência da lei 24 de Abril de 1912, em 24 de Novembro do mesmo ano.
A secção masculina e a secção feminina do refúgio ficaram no mesmo complexo arquitectónico, mas em alas separadas.
No interior da mesma propriedade o Ministério da Justiça construiu um novo edifício para o Tribunal de Família e Menores do Porto inaugurado em 22 de Outubro de 1988.




Nos dias de hoje, à direita, a fachada Sul do antigo Palácio das Águas Férreas. A área delimitada pelo polígono a azul, à esquerda, indica o local donde era lançada a antiga escadaria de acesso aos jardins e aos campos – Fonte: Google maps

domingo, 6 de agosto de 2017

(Continuação 27)

19.20 Rua do Conde de Vizela e a distribuição do correio


A actual denominação de Rua Conde de Vizela fica a dever-se ao industrial Diogo José Cabral, proprietário de todo o quarteirão entre a Rua Conde de Vizela e a Rua Cândido dos Reis. Por decreto do rei D. Carlos do ano de 1900, aquele industrial foi agraciado com o título de primeiro Conde de Vizela e, daí, o nome actual, da antiga Viela do Correio.
Durante um período de 279 anos, a partir de 1520, foi o correio da cidade do Porto administrado pelos chamados Correios-Mores, ou mais, precisamente, Assistentes do Correio-Mor do Reino. Não se sabe exactamente quando foi nomeado o 1° correio assistente no Porto, embora haja quem refira que, no ano de 1552, já havia na cidade correio organizado.
Na maioria dos documentos dos séculos XV e XVI, é feita referência aos “almocreves” ou “recoveiros” e, ainda, aos “caminheiros” para o transporte de correspondência Real, Municipal ou de simples particulares. Com a nomeação dos Assistentes do Correio-Mor, estas velhas práticas do recurso aos almocreves e caminheiros foram sendo progressivamente abandonadas.




Recoveira com baús à cabeça, na confluência da Rua dos Clérigos com a Rua do Correio (visível na placa), em data anterior a 1927, a partir da qual, aquela rua passou a ser a Rua do Conde de Vizela



A nomeação daquelas personagens era uma atribuição do Correio-Mor que, para o efeito, negociava um contrato com o proponente, que se obrigava ao pagamento de uma renda anual, mas auferindo inteiramente dos rendimentos do correio que administrava.
Miguel Chamorro foi o 1º assistente que se conhece. A primeira residência que se conhece do Correio foi na Praça das Hortas na esquina com a Calçada dos Clérigos, onde existiam umas grossas árvores nas quais, c. 1608, se afixava uma lista dando conta aos interessados da correspondência em trânsito.
Daí, passou para o que é hoje a Rua do Dr. Magalhães Basto, contígua à delegação do Banco de Portugal.
Na segunda metade do século XVII, toda a área que compreendia a Rua do Almada e a Praça Guilherme Gomes Fernandes e na qual se incluíam as ruas Conde de Vizela, da Fábrica, de Santa Teresa, de Cândido dos Reis e Galeria de Paris, não passava de terreno ainda despido de construções, constituindo a quinta da Cancela da Velha.
No ano 1681, o padre Baltasar Guedes, que tinha fundado o Colégio de Nossa Senhora da Graça, trinta anos antes, no campo do Olival, fez uma exposição à Câmara para que lhe fosse facultada uma parcela de terreno abaixo do Calvário, para aí levantar algumas casas, que se destinariam, quando arrendadas, a um complemento do orçamento da instituição de caridade. O Calvário ou Calvário Velho é a actual Praça Guilherme Gomes Fernandes, já que o Calvário Novo ficava na actual Rua Dr. Barbosa de Castro. A Câmara cedeu, de facto, o terreno e os proveitos que daí advieram para a instituição, foram de monta. Certo dia, o padre foi procurado por João Soares Carvalho que pretendia um terreno para contruir uma habitação própria no lugar que seria hoje a esquina da Rua Conde de Vizela e a Rua das Carmelitas. Por volta de 1690, ficou a casa pronta. Seis anos depois, em 1696, Soares de Carvalho (1665-1712), nomeado correio-mor do Porto instalou o serviço dos correios na sua própria moradia, na confluência da actual Rua Conde de Vizela com o chamado Alto da Calçada que só pode ser a dos Clérigos, passando a via a ser conhecida desde aí por Viela do Correio-Mor e Rua do Correio-Mor e mais tarde por Rua do Correio, quando antes tinha sido Travessa das Indulgências e para alguns teria sido, também, Rua de Santo António.
No fim da Travessa das Indulgências, para quem nela en­trava pela actual Rua dos Clérigos, ficava a Rua da Picaria. 
Em 1797, o cargo de Correio-Mor do Reino é extinto e o Estado passa a ter o monopólio da exploração postal.
As funções inerentes àquele cargo passam, então, a ser exercidas pelo Administrador do Correio nomeado pelo Estado.





Em 1801, passaram os serviços para a residência onde habitava o administrador-geral do correio do Porto, José de Sousa Melo (Porto, 1745 - Braga, 1839) no Largo da Fábrica do Tabaco, na embocadura das actuais ruas da Fábrica e do Conde de Vizela, mais propriamente aquele espaço que fica onde se bi­furcam as ruas da Fábrica, Aviz, Conde de Vizela e Santa Teresa. Escusado será di­zer que, desde logo, o largo passou a ser Largo do Correio.
Aqui, os correios estiveram mais de trinta anos, embora José de Sousa Melo tenha solicitado, em 1818, a exoneração do cargo, exercido cumulativamente com a de encarregado da inspecção das obras do edifício da Academia de Marinha e Comércio, e da Administração do Real Colégio dos Órfãos.



“José de Sousa Mello, cavaleiro-fidalgo da casa Real, foi tesoureiro Geral do consulado da Alfândega do Porto, assim como vice-provedor e deputado da Companhia Geral d’Administração d’Agricultura dos vinhos do Alto Douro, e tinha a sua morada na Rua Nova do Almada: era seguramente homem abastado, pois logo que foi nomeado para Administrador do Correio fez construir para estes serviços uma casa à sua custa, com todas as proporções e arranjos próprios, e em sítio acomodado ao comércio, com que o público ficou satisfeito, e onde, a partir de 1803, ficou instalado o correio do Porto. Situava-se aos Clérigos, com frente para a rua denominada do Correio, actual Rua do Conde de Vizela”.
Cortesia de Luís Frazão; História Postal da Cidade do Porto na Era Pré-adesiva
 
 
José de Sousa Melo é conhecido, também, por ter sido o primeiro proprietário da Quinta das Águas Férreas, que seria ocupada, em 1810, pelo general Trant, encarregado do partido das armas do governo do Porto, tendo ele passado a habitar a casa do Pátio do Correio.  
Antes, em 1809, durante a invasão do exército francês, José de Mello, conotado como colaboracionista, veria a sua casa das Aguas Férreas assaltada, roubada e estragado o seu recheio, e só escapou com vida por ter fugido a tempo, para uma quinta que tinha na Régua.
Acabaria por voltar por ordem do Governo, de 20 de Maio de 1809, que funcionou como uma amnistia.
José de Sousa Melo haveria, também, entre 1821 e 1822, de desempenhar o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, sucedendo a Francisco Cyrne Madureira.
Antes de ocupar as instalações do Largo do Correio, durante parte do século XVIII, os serviços de correio terão ocupado um edifício no Largo de Moinho de Vento (pertença na segunda metade do século XIX, a Armando Artur Ferreira de Seabra da Mota Silva e, na primeira metade, desse século, a António Barbosa de Albuquerque, sogro do primeiro, mas que não se chegaram a conhecer). 
Passando, depois, a Casa do Moinho de Vento pela posse de uma neta de António Albuquerque, que a resgatou duma penhora contraída por sua mãe, acaba nas mãos de uns sobrinhos do seu marido, por não terem descendência. 
Já no século XX, em 1922, era José Ribeiro da Silva Pena o proprietário.
Na planta desenhada pelo arquitecto, Joaquim da Costa Lima, em 1839, abaixo representada, pode observar-se, em destaque, a identificação de um largo correspondente, hoje, ao Largo do Moinho de Vento, como sendo o “Correio Velho”.







Palacete do Largo Moinho de Vento (parcialmente demolido em 2017) para instalação de um hotel




Em 1836, os serviços dos correios já ocupavam parte do ex-convento das Carmelitas.
Em 1852, já se tinha assistido ao lançamento do primeiro selo postal e, entretanto, a distribuição do correio evoluía da mala-posta para o comboio.
A partir de 1853, em vez de o destinatário pagar 40 réis por franquia de cada carta que recebesse, passou o remetente a pagar apenas 25 réis por cada carta que enviasse, assumindo a responsabilidade pelo pagamento da franquia.
 
 
 
1º selo, em 1853, com a efígie da Rainha D. Maria II


Em 13 de Julho de 1857, passa a ocupar o palacete da Baronesa da Regaleira na Rua S. Bento da Vitória.
A Administração Central dos Correios e os serviços transferiram-se, depois, em 18 de Fevereiro de 1881, para a Praça da Batalha para o palacete dos Guedes da Quinta da Aveleda, também conhecido por Palácio da Batalha ou Palácio da condessa de Pangim, mandado construir por José Anastácio Guedes da Silva. Seria um seu neto, Manuel Pedro Guedes da Silva da Fonseca, que mandou colocar na fachada do edifício um escudo esquartelado, que ainda hoje ostenta, dos Silvas, Guedes, Melos e Pereiras, assente numa tarja acompanhada de troféus e encimada por um coronel.
Apesar da mudança de instalações os serviços do correio ficaram com uma sucursal na Rua das Taipas, n.º 53.
Por sua vez, os serviços de telégrafo já se encontravam em instalações do palácio desde 1877, vindos da Casa Pia.

 
 







Palácio da Batalha, no início do século XX, quando já funcionava como sede dos Correios
 
 
 
Os serviços postais, a partir da segunda metade do século XX, na Praça do Município, junto da Câmara Municipal.




No terreno livre (c. 1955), em primeiro plano, foi construído o Palácio dos Correios



 
 
 
À direita, o Palácio dos Correios, hoje, um edifício de escritórios
 
 
 
Entretanto, para tratamento de encomendas, desde grande parte do século XX até à mudança de milénio, os CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal, E. P. ocuparam, em complemento, um prédio na esquina da Rua de Saraiva Carvalho e o Largo 1º de Dezembro, hoje, ocupado pela Ordem dos Contabilistas Certificados.


 

Edifício dos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT), em 1954



Em termos nacionais, em 1911, a empresa encarregue do tratamento do correio passa a ser dotada de autonomia administrativa e financeira e chamava-se Administração-Geral dos Correios, telégrafos e Telefones adoptando a sigla CTT.
Em 1969, os CTT são transformados em empresa pública com a denominação CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal, E. P.
Em 1992, os CTT são transformados em sociedade anónima, com a denominação CTT - Correios de Portugal, S. A.. Ao mesmo tempo a área das telecomunicações é separada, formando uma empresa autónoma, a Telecom Portugal.



Tratamento, recolha e distribuição do correio
 
 
É durante o século XIX que se vai assistir a grandes transformações no tratamento do correio.
Por volta da década de 1820, seriam regulamentados e implantados uns receptáculos de forma rectangular, em ferro ou em madeira, para recolha, na via pública, de correspondência.
Nos primeiros dias de 1834, os portuenses assistem ao aparecimento dos primeiros carteiros de bolsa a tiracolo e a tocar uma estridente corneta.
Até então o correio chegava às Administrações do Correio e, de imediato, eram feitas umas listas nas quais constava o nome do destinatário antecedido de um número de ordem. Estas listas eram afixadas em locais previamente escolhidos para serem consultadas pelo público e para aqueles que constavam delas solicitavam aos empregados do correio a sua entrega. A confusão gerada, muitas vezes, nos actos de entrega, numa urbe populosa como o Porto, conduziria a que fosse buscado um novo método.
Começaram alguns utentes, a tentar ultrapassar a embaraçosa situação, por fazer acordos pontuais com os empregados dos correios, levando-os a reunir a sua correspondência e, para esse efeito, fazendo-se pagar por uma gratificação acordada previamente.
É assim, que vai surgir a figura do carteiro.
O plano para a Posta Diária do Porto, dividiu a cidade em 8 distritos poligonais, cujas dimensões variavam na proporção do volume de correspondência calculada para cada área.
Por distrito eram instaladas umas caixas para recolha das cartas.
Aliás, essas caixas já estavam no terreno há alguns anos.
 
 
 
“A Junta Provisória Encarregada de Manter a Legítima Autoridade de El Rei o Sr. D. Pedro IV mandou em junho de 1828 que o administrador do correio do Porto fizesse estabelecer «dous ou tres pontos nesta cidade, onde julgar mais proveitosos, caixas para receção de cartas, encarregando a sua guarda e vigilância a pessoas de probidade; isto para facilitar ao público comodidades para a remessa das correspondências particulares. Com a ressalva de que: para não retardar a regular partida dos correios para as diferentes partes do reino, tomará Vm. as medidas necessárias, em relação às distâncias em que estiverem colocadas as caixas, para mandar recolher a essa administração as que se acharem dentro delas».
Era uma modernidade!: três caixas de correio espalhadas pela cidade, dando descanso aos pés dos interessados, obstando-os de um longo caminho até à casa da administração! Se de facto a situação prevaleceu no tempo ou não é algo que desconheço, pois poucos meses depois o país "absolutismou" com D. Miguel usurpando o poder e os partidários de D. Pedro fugindo para Inglaterra].

 
 
Sobre as caixas para recolha de correio, referidas no texto acima, munidas de uma frincha para introdução das cartas e um cartaz que avisava do horário da recolha, Inicialmente, foram mal recebidas pela imprensa da época, que os criticaram por razões de ordem estética. Mas, cedo, se revelaram muito úteis, pela sua eficácia, demonstrada no dia-a-dia, tanto ao nível da segurança como da comodidade.
 
 
No texto seguinte se dá conta das determinações decididas, face ao tratamento do correio, em 1834, quando a administração do correio já ocupava o convento das carmelitas descalças.

 
«Somos authorizados a annunciar, que para utilidade pública dos Habitantes desta Cidade se achão deffinitivamente collocadas em differentes paragens,  - Caixas para recepção das Cartas – a fim de se evitar a demora em remessas á Administração do Correio, aonde até agora havia unicamente a Caixa geral.
Os sitios onde se achão as Caixas, são os seguintes:
- Na Porta Nobre, da parte de fóra.
- Na Esquina, entre a rua dos Inglezes, e a rua de S. João.
- Na Feira de S. Bento das Freiras.
- No Largo da Batalha, junto á Capella.
- Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos.
- Na Esquina, entre a rua do Bomjardim, e a rua do Estevão.
- Na Rua d’Almada, ao cimo.
- Na Esquina entre a rua de Cedofeita, e a rua dos Bragas.
- Em Villa Nova, no Cabeçudo.
- E nas Costeiras.
Os moradores proximos destes sitios podem informar-se das horas a que da Administração do Correio se mandão tirar as Cartas, conforme está escripto em cada huma, para ficarem certos de que todas as Cartas deitadas antes das horas fixadas são expedidas na competente partida regular, - e que deitadas depois sómente são enviadas no turno seguinte.
A utilidade deste estabelecimento, que na Capital se acha em via há muitos annos, mas que a estupida crença dos Sectarios de D. Miguel julgou innovação perigosa para o Porto, quando em 1828 o Absolutismo reassumiu o sceptro de ferro, depois de alguns dias de uso, - he evidentemente proveitosa porque assim vimos a ter ramificada em diversos 11 pontos a recepção de todas as Cartas para o Correio, com a mesma regularidade, com que até agora se usava na que se acha á porta da Administração, no extincto Convento das Carmelitas.
Da mesma fórma, se tem tomado medidas para pouco e pouco se ir estabelecendo a Posta pequena, que he encarregada de entregar as Cartas em casa de que para isso der ordem, logo que cheguem os Correios, pagando sómente 5 reis em cada carta, a maior, do preço da Lei para o Correio Geral. As Pessoas que desejarem receber assim as suas Cartas, queirão avisar a Administração do Correio nesta Cidade; ou por Carta lançada em qualquer das Caixas, ou no mesmo local da Distribuição.
He preciso desarreigar varios prejuizos, e de certo he hum dos que temos mais inveterados, o uso de julgarmos por melhor o escreverem-se os nomes de quem tem Cartas a receber, em Listas públicas á porta do Correio, habilitando assim quem quizer a hir tirar as Cartas que lhe parecer, sem responsabilidade de quem as entrega, porque não he obrigado a conhecer todo o mundo nem a saber se esta ou aquella pessoa vai mandado pelo dono da Carta &c. Presentemente, não he possivel pôr em pratica com regular distribuição a entrega geral pelas diferentes casas, porque não tendo ainda voltado a suas habituaes residencias os moradores dos diversos Bairros, pela mudança forçada em rasão dos projecteis do inimigo, composição d’antigas habitações &c, em vez de se acreditar o novo arranjo, acharia nos tropêços desta confusão de moradias, hum estorvo terrivel. Mas pouco e pouco he necessario hir acostumando, até por que pouco e pouco se vai habitualmente regulando o exercicio dos Entregadores etc. Porque ao principio se acham embaraçados em qualquer forma, querer logo que se diga que a innovação he má, parece desairoso na bocca de quem confessa a todos os respeitos, que he preciso sahir da velha rotina de abusos. Queixe-se quem julgar irregularidades, e se depois as não vir remediadas, embora grite, que a opinião geral fará justiça, porque ás vezes he o frenezi do genio que falla, e não a justêza do raciocinio do Cidadão impaciente, e desarrazoado. Em as cousas tomando o habito antigo das moradas certas e regulares, há de fazer-se no Porto, o que se faz já em Lisboa, e nos Paizes civilisados, que a experiencia d’abusos teve a felicidade de corrigir por fortuna delles, primeiro que nos tocasse a nossa vez.
Vamos portanto pouco e pouco, que vamos melhor, e as Pessoas interessadas em que nos mostremos dignos de reformas, e não bisonhos e faltos de instrucção para as receber, principiem a dar o exemplo: estabeleça-se a Posta pequena para se nos entregar a correspondencia, mandando nossos nomes para isso ao Correio, pois que as Pessoas de menos raciocinio, vendo o exemplo desenvolvido pela prática, convencem-se e seguem a marcha dos outros.»”
 
 
A posta pequena, referida no texto acima, dizia respeito à entrega ao domicílio da correspondência, para quem o solicitasse mediante o pagamento de 5 réis.
Estavam instituídos os carteiros.
No mesmo texto, se indica as diversas localizações nele referidas: “Na Rua direita, defronte da travessa dos Capuchos”, a Rua Direita não é mais que a actual Rua de Santo Ildefonso, e a Travessa dos Capuchos era, à data, a via junto do convento.
Por sua vez, o sítio do Cabeçudo ficava nas imediações da área hoje ocupada pela Rua Cândido dos Reis, em Vila nova de Gaia, situando-se o sítio de Costeiras em Avintes.
Na Rua de Cândido dos Reis, em V. N. de Gaia, na parede lateral de um prédio situado na esquina daquela rua com a travessa do mesmo nome, existiu uma fonte importante denominada Fonte do Cabeçudo, e sobre a qual se diz:
 
 
 "Foram construtores o Mestre pedreiro Domingos Gonçalves e Agostinho Rebelo. O ano de 1797 marca o momento em que a fonte foi reformada ou restaurada, pela Câmara no reinado de D. Maria I. Que ali construiu o frontespício de pedra com duas bicas tendo no topo a coroa real e o escudo também em pedra. Fonte implantada na parede lateral do prédio nº 117 da Rua Cândido dos Reis, onde ainda existe o frontispício de pedra que exibe os restos da fonte. Foi-lhe retirado o tanque e desviada a água. As duas bicas que serviam para abastecimento foram tapadas e a figura que dava nome à fonte desapareceu, bem como outros acessórios. No topo está gravada uma inscrição de onze linhas, onde se indica o ano de construção (1637)”.
In “arquivo.cm-gaia.pt”
 
 
Não seria fácil instituir a entrega do correio segundo as determinações de 1834.
A entrega domiciliária pressupunha o conhecimento dos destinatários e das suas respectivas moradas, dados desconhecidos da administração dos correios. Assim, durante alguns anos, vigoraram três métodos para a entrega: as Listas, a domiciliária e os Apartados.
Em 1854, no que à recolha de correio diz respeito, a cidade foi dividida em 20 distritos, existindo em cada um deles um carteiro e uma caixa receptora, de acordo com o quadro abaixo.

 
 





Sobre a recolha de correio, anunciava o “Jornal do Porto”, em 1872:
 
 
 

In “Jornal do Porto” de 21 de Junho de 1872, pág. 2
 
 
 
Em 1882, na sequência da necessidade de criar melhores condições de segurança às correspondências depositadas naqueles receptáculos postais, surgem os marcos de correio, mais robustos, cilíndricos, que subsistiram até aos dias de hoje.
 
 
 
Biblioteca Pública em S. Lázaro 
 
 
Na foto acima, de finais do século XIX, vê-se à esquerda um marco do correio, com abertura para o lado da via.