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sexta-feira, 7 de julho de 2017

(Continuação 28)

Centro da Praça D. Pedro

No centro da praça e inaugurada em 1866, passou a ser possível apreciar a estátua equestre de D. Pedro IV, de Anatole Calmels.
Praticamente, quase tudo se passou durante a presidência da Câmara do Porto, de António José Antunes Navarro (Lagoaça, Freixo-de-Espada-à-Cinta, 11 de Julho de 1803 – Vila Nova de Famalicão, 13 de Julho de 1867), visconde da Lagoaça, que desempenhou o cargo entre 1859 e 1864. Assim, não teve o privilégio de presidir, como presidente da edilidade, à inauguração da estátua equestre de D. Pedro IV.
Em 27 de Agosto de 1861, foi aberto concurso para a estátua equestre em bronze de D. Pedro IV. Foi ganho por Anatole Camels e pelo marmoreiro Felisberto Baut (ainda existe a empresa na Rua Rodrigues de Freitas, nº 231).
A primeira pedra foi colocada em 9 de Julho de 1862 (aquando dos 30 anos da entrada do Exército Libertador e a estátua colocada no local em 4 de Outubro de 1866 por operários belgas, uma vez que tinha sido fundida na Bélgica), e inaugurada em 19 de Outubro de 1866.
O monumento compõe-se de uma base sobre a qual assenta um pedestal com duas faces, uma relativa à entrega do coração aos representantes do Porto, outra representando o desembarque no Mindelo e a entrega da Bandeira Constitucional.
Em consequência da revolução liberal de 1820, uma outra intervenção na praça, para o local que viria a ser ocupado pela estátua equestre, esteve programada, de acordo com texto que se segue:

“Mas em Agosto de 1821 o mais relevante foi o breve monumento instalado na Praça, comemorativo do primeiro aniversário da Revolução, do qual se transcreve uma descrição encontrada na imprensa. Logo que anoiteceu se começou a acender a magnífica peça elevada no centro da Praça da Constituição, cuja particular descrição é a seguinte. A Cidade do Porto para mostrar o apreço em que tem este dia, simbolizou-se numa torre em comemoração do adorno de suas Armas. Fechou-se por uma teia de madeira de altura de meio corpo, um espaço de 70 palmos em quadro. Dentro deste se formou um palanque de 10 palmos de altura com 58 palmos de frente. Foi sobre esta base que se levantou o rústico da torre de altura de 30 palmos, com uma porta para cada lado e sobre que havia uma tarja em que se escreviam dísticos alusivos ao objecto da Regeneração. Sobre o rústico havia uma varanda em cujos ângulos sobre pedestais, estavam em vulto as figuras das quatro Virtudes – Justiça, Fortaleza, Prudência e Temperança. Estas figuras eram bem distintas pelos emblemas que empunhavam: a balança, a cabeça do javali, o espelho e o freio. Em cima do rústico se elevava uma base de 15 palmos de alto, como soco em que assentava o chão do Templo da Memória que tinha de vão 25 palmos e 15 de cúpula. O templo tinha oito portas ou arcos, a que serviam de ornato dezasseis colunas da ordem jónica, sobre que assentava o zimbório em perfeito semicírculo, com oito janelas redondas correspondentes aos vãos dos arcos. Rematava toda a peça o escudo das Armas Reais Portuguesas com altura de 10 palmos, fazendo o geral da altura de toda a peça erigida 90 palmos.’



Monumento



Acima um desenho do monumento efémero levantado na Praça, da autoria de Joaquim Rafael, de elevadas dimensões, conseguia, com sua escala e sentido polarizador, constituir um elemento de diálogo arquitectónico com as restantes frentes. Todo o artefacto desta máquina era de madeira forrada de panos pintados e transparentes, de maneira que pelo depósito de muita luz que havia em mecanismo interno, apareciam as cores de que foram pintadas as diversas configurações desta peça, cujo claro-escuro e engraçado desenho se devem ao conhecido professor o Sr. Joaquim Rafael, concorrendo em grande parte para o bom efeito óptico a construção do madeiramento pelo hábil Mestre o Sr. Manuel Moreira da Silva, tudo debaixo do risco esboçado pelo cidadão o Sr. António Luís d’Abreu.’
Em 1822 a Camara decide abrir concurso para que fossem apresentados os trabalhos para o monumento a erguer na Praça. Em sessão da Camara são apresentados dois projectos de Joaquim Rafael e um de João Francisco Guimarães, também portuense, sendo seleccionado o primeiro de Joaquim Rafael. Em seguida, é aprovada na Camara uma planta intitulada ‘Plano da Praça da Constituição levantado para designar o lugar em que se há-de colocar o monumento designado a perpetuar o fausto dia 24 de Agosto de 1822, da autoria de Joaquim da Costa Lima Sampaio, na qual se deve levantar o monumento aprovado e mandado executar. A planta apresenta a Praça envolvida por uma geometrização desenhada de elevada regularidade, representando as linhas de vista, tidas por quem se aproxima da Praça. Demarca o ponto central desta como o escolhido para a colocação do monumento. É lançada na data a que a planta alude a primeira pedra do monumento, que não chegaria a ser concluído, sendo os seus alicerces desmantelados em 1823, em virtude da queda do regime liberal”.
Com a devida vénia ao Dr. Rafael Santos Silva





Praça D. Pedro em 1900 com a sua estátua equestre




Ignácio de Vilhena Barbosa (1811-1890), no Archivo Pittoresco de 1864, quando está já em execução a estátua escreve, após enaltecer o facto de ela se concretizar na cidade do Porto:

“…E todavia, nenhum monumento commemora ainda aquelles serviços e dedicação.
Por duas vezes tentou Lisboa lavar essa nódoa de in­gratidão, que mancha os seus annaes, que os mancha não só como a parte principal, ou mais conspícua, de um paiz onerado com deveres de reconhecimento, mas também, e ainda mais, como a cidade que maior quinhão tem desfructado na partilha dos benefícios que provieram d'aquelles serviços e dedicação.
Não obstante, faltava-lhe a viva fé, o enthusiasmo fogoso que borbulha nos corações portuenses, fazen­do-os levar a bom termo qualquer empresa, por mais árdua que seja.
Em Lisboa confia-se mais na iniciativa dos gover­nos que no próprio esforço, e d'ahi vem jazer a ca­pital do paiz, n’este como em outros assumptos, em culpável indolência, em pouco honroso esquecimento. Exigir que o governo appareça em tudo aquillo onde só deve intender a actividade dos membros da nação, é desviar do caminho adequado o desempenho da pe­sada missão de quem administra, é dar novos foros à incúria, e annullar a iniciativa feliz que tem pro­duzido a grandeza de diversos povos do mundo, tanto modernos como antigos.
Além disso, como os governos são commummente variáveis, tão depressa se forma um plano, ou se de­senha um monumento, como vem apagal-o nos esbo­ços o vento da política, umas vezes procelloso, ou­tras mais tranquillo, mas sempre travessio e vário.
Honremos, pois, a cidade das nossas gloriosas tra­dições n'esta presente manifestação de seu acrisolado amor ao heróico soldado, que ha de ser no futuro o merecido protagonista de uma epopéa que novo Ho­mero ha de legar, por certo, ás letras pátrias.
Honremol-a ainda, porque o monumento é digno do heroe a quem se erige, e da invencível cidade de que ficará sendo para sempre o sacrosanto palladio.”
(O sublinhado é meu, já que bairrismos à parte isto podia ter sido escrito hoje!)

Vilhena Barbosa descreve de seguida o concurso e o monumento:

“…Foi a 27 de agosto que se publicou o programa do concurso, marcando-se o praso para a remessa dos projectos desde 1 de setembro até 30 de outubro do mesmo anno, e abrindo-se, tanto a nacionaes como a estrangeiros, o honroso certamen, porque o Porto bem sabe que o engenho tem o mundo por pátria, e que o primeiro desejo de todos era obter o melhor e mais bem acabado monumento. Appareceram, pois, sete modelos em gesso, me­recendo a preferencia de 16 votos sobre 22 votantes o que era devido ao trabalho intelligente do esculptor Anatole Calmels.”
“…Façamos, pois, uma breve descripção do correcto desenho que o Archivo offerece a seus leitores, po­dendo cada um apreciar como a cidade do Porto sabe traduzir na pedra e no bronze os grandes sentimen­tos que lhe florecem no coração…

Estátua equestre de D. Pedro IV



…”O monumento deve ter de altura 10 metros desde o nivel da praça de D. Pedro, onde é erigido, até à parte superior da cabeça da estatua do imperador. Esta ha de medir a altura de 4m,70, incluindo o plintho, e a parte architoctonica 5,30. Os baixos relevos terão de comprimento 2m,45, e de altura 1m,21. Será de bronze fundido a estatua, e de mármore branco-claro de Carrara os baixos relevos.

Segue a descrição de o Archivo Pittoresco:

“…Levanta-se em pedestal ornado de dois baixos-re­levos, e das armas da casa de Bragança e da cidade do Porto, a estátua equestre do imperador.
Sua magestade imperial D. Pedro IV veste o uni­forme de caçadores 5, trajando por cima, segundo o uso por elle adoptado, uma sobrecasaca, que no tempo do cerco se chamava polaca. Com a mão esquerda dá a rédea ao cavallo, que escarva insoffrido, e com a direita ostenta a carta constitucional, código santo das nossas publicas liberdades…
…Illumina-lhe o rosto a confiança do seu destino, e, dando largas à impaciência do seu corsel, demanda, resoluto e fortalecido, os horisontes do futuro, sem que o amedronte a opinião dos homens d'esta gera­ção nos juízos da rigorosa historia.
Tem ao lado a espada, mas na bainha; o que elle mostra, o que o glorifica, o que elle apresenta como titulo para a sua admissão no templo da immortalidade, é o código das nossas liberdades, manifestação externa dos nobres sentimentos que abrigava no cora­ção, o qual, elevando-se à altura d’este século, soube adequadamente sentir que um rei só pode ser grande quando governa um povo moralisado e livre.




Gravuras em baixo-relevo que envolvem a estátua equestre



Nas gravuras acima, está representado na superior o Desembarque no Mindelo e a Outorga da Bandeira Constitucional à cidade do Porto (1862/66- Baixo-relevo em mármore de Carrara 121 x 245 cm) e na inferior a Entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto (1862/66 Baixo-relevo em mármore de Carrara 121 x 245 cm). 
Estas placas primitivas acabaram por ser arrecadadas no quartel do Largo de Santo Ovídio (Praça da República) onde ainda se encontram.


“O baixo relevo à direita da estatua representa o momento em que sua magestade, depois do seu des­embarque, entrega ao commandante dos voluntários da rainha a bandeira bordada pelas senhoras do Fayal. O da esquerda representa a entrega do coração de sua magestade. Ás figuras principaes dos dois quadros são retratos dos personagens que tomaram parte nas scenas históricas, que os ditos baixos-relevos represen­tam. Em alguns d’esses retratos foi o artista muito fe­liz, sobre tudo nos dos srs. marquezes de Sá da Ban­deira, e de Ficalho, visconde de Vallongo, e barão de Grimancellos, os quaes avultam no baixo-relevo que representa o desembarque e entrega da bandeira aci­ma referida…”


No baixo-relevo oriental do pedestal da estátua de D. Pedro IV, da entrega do coração à cidade, podemos ver ao centro um homem envergando um uniforme de oficial militar que entrega uma pequena urna a um grupo de quatro homens à sua esquerda. Trata-se possivelmente do Conde de Campanhã que foi encarregado de entregar o coração do recém-falecido D. Pedro IV à Câmara Municipal do Porto. Os quatro homens que recebem a urna são membros do senado portuense.
À esquerda, mais um elemento da Câmara Municipal do Porto e um oficial militar que cobre a rosto em pranto e tapa quase completamente uma terceira personagem. Atrás dos três homens está o pequeno sarcófago que irá alojar a urna (encontra-se hoje na Lapa, também no Porto), numa das faces do sarcófago vemos a inicial P e o numeral IV coroados; trata-se do monograma real de D. Pedro IV (Petrvs IV)
Do lado direito do painel vemos ainda cinco soldados de infantaria e duas figuras populares: um homem cabisbaixo e triste e uma mulher de cabeça coberta que ergue os olhos dirigidos para o céu.
Em 1 de Outubro de 1915, foram colocadas, por iniciativa da Câmara Municipal, no soco da estátua de D. Pedro IV, as placas com os nomes dos denominados Mártires da Liberdade enforcados na cidade em 1829.
Em 1998, a Câmara do Porto procedeu ao restauro e estabilização da estátua. 
Entretanto, já na 1ª metade do século XX, tendo sido alvo de vândalos, os baixos-relevo em mármore foram substituídos por réplicas, que serão de bronze.
Durante algum tempo constou que teriam sido roubadas, algo que não é inédito, pois, nos nossos dias, factos semelhantes aconteceram e, por isso, continuam em parte incerta o busto de Raúl Dória que estava no Largo Tito Fontes e, mais recentemente, o busto de António Nobre do Jardim João Chagas, vulgo Cordoaria. Nos dois casos restaram os pedestais, durante muito tempo. Porém, no caso de António Nobre acabaria, finalmente, por ser exibida uma mini-reprodução do busto do poeta. 




Estátua equestre de D. Pedro IV, envolta por gradeamento




Detalhe da Planta de 1892 de Teles Ferreira, esc. 1:500 

terça-feira, 7 de março de 2017

(Continuação 10) - Actualização em 18/03/2020


Sanitários, Balneários e Urinóis


“Nos anos 60 do séc. XIX o Presidente da Câmara, 1º. Conde de Lagoaça, mandou instalar os primeiros urinóis nas esquinas de ruas. Foi motivo de galhofa nas gazetas e no povo, mas a decência triunfou e os sumidouros ficaram e foram multiplicados e sofisticados.
As más instalações sanitárias públicas e privadas, seja nas casas como nas tabernas a isso obrigavam. Ainda hoje se encontram alguns destes exemplares, que esteticamente eram muito variados e alguns bem bonitos. Tinham o inconveniente de serem muito mal cheirosos”.
Fonte: “portoarc.blogspot.com”


Em 1890, continuava-se a pugnar por a adopção de medidas de higiene para salvaguarda da saúde dos portuenses, como se pode constatar no artigo de opinião abaixo.
 
 

In jornal “A República” de 5 de Agosto de 1890




Urinol, no Largo de S. Bento, ao centro e parcialmente visível



Urinol (ao centro, em primeiro plano) no Campo 24 de Agosto, 1919 - Fonte “Bosspostcard, Delcampe”



Urinol, no Largo António Calém, ao fundo da Rua das Condominhas, em 2009



Urinol, à entrada da Calçada do Ouro, em 2009



Urinol, no Largo Soares dos Reis



Urinol, na Rua de Contumil



Urinol, na Avenida Rodrigues de Freitas, encostado ao edifício da Biblioteca Pública




Urinol (à direita), no Jardim de Arca d’Água



Urinol, em Miragaia



Urinol (à esquerda), no Jardim da Praça do Infante


Urinol, à direita, na Praça do Infante, em 1910



Urinol, na Praça da Ribeira, no início do século XX


Urinol, junto de quiosque, na Praça Parada Leitão, c. 1930 - Ed. Domingos Alvão







Maquete de urinóis do Porto da autoria de Agostinho Teixeira – Cortesia Ângelo Costa


Maquete de urinóis do Porto da autoria de Agostinho Teixeira – Fonte: JPortojo



Em alguns jardins da cidade do Porto, aproveitavam-se os baixos dos coretos, para aí serem instalados os sanitários públicos, com serventia diferenciada por sexo, de um lado e pelo seu oposto.



Pela porta, por baixo das escadas de acesso ao coreto, se fazia uma das entradas para os sanitários do jardim da Praça do Marquês



Coreto do Jardim de S. Lázaro e, ao centro, a porta de entrada para um dos sanitários


Outra solução foi encontrada instalando os sanitários em espaços subterrâneos de praças e jardins de grande circulação de pessoas.
Foram os casos da Avenida dos Aliados, Rotunda da Boavista e Praça da República. Este último desactivado e os outros desaparecidos.



Sanitário Subterrâneo da Praça da República (desactivado) – Ed. JPortojo



Sanitários subterrâneos na Avenida dos Aliados


Na foto anterior, no início da placa ajardinada, em primeiro plano, pode observar-se o acesso aos sanitários instalados no sub-solo.
Muitos destas instalações sanitárias tinham associado uma oferta de banhos, a preços módicos, tentando resolver uma carência de quartos de banho, que se observava sobretudo nas chamadas “ilhas”.
Ainda há muita gente que, por razões diversas, se lembrará da existência dos balneários do Campo 24 de Agosto, Largo do Viriato e Praça do Infante.



Balneário do Campo 24 de Agosto

Em sessão da Câmara de 25 de Julho de 1901, presidida por Lima Júnior, era por este passada a informação, que estava pronto para ser inaugurado o Balneário do Largo do Viriato.



Balneário do Largo do Viriato – Fonte: Google maps



Balneário da Praça do Infante (na esquina, à esquerda) – Fonte: “radioportuense.com/”



Hoje, as instalações sanitárias descritas fazem parte da memorabilia da cidade, restando, apenas, alguns que mantêm uma certa dignidade, para a função a que se destinam e ocupam espaços em edificações de piso térreo à face de vias pedestres de circulação.
São os casos dos situados no Jardim do Passeio Alegre, no Largo de Mompilher (à Picaria) e o da Praia dos Ingleses.



Sanitários no Largo Mompilher, situados por baixo do patamar das Escadas do Pinheiro



Sanitários na Praia dos Ingleses


Sanitários da Praia do Molhe



Sanitários do Jardim do Passeio Alegre


Urinol do Passeio Alegre

Casa de Banho do Passeio Alegre


Interior da Casa de Banho do Passeio Alegre



No Jardim do Passeio Alegre existem uns lindíssimos sanitários do fim do século XIX ou início do XX, como se pode observar acima.



O conde de Lagoaça e as lagoaças


Ainda sobre a instalação de urinóis pela cidade, uma medida que se revelava inovadora e que, por isso, a exemplo do que frequentemente sucede, foi alvo de certa polémica, tendo o povo começado a designar os mictórios por lagoaças.


António José Antunes Navarro (Lagoaça, 11 de Julho de 1803 - 17 de Julho de 1867) foi fidalgo da Casa-Real, por decreto-lei de 30 de Janeiro de 1862, político português como deputado às Cortes e par do Reino, ascendeu a Presidente da Câmara do Porto entre 1860 e 1867.
Nesse período mandou instalar os primeiros mictórios públicos da cidade, medida extremamente inovadora do ponto de vista sanitário, e que mereceram a alcunha de "vespasianas" mas que o povo designou de "lagoaças".
Após visita à cidade do rei D. Pedro V, em 2 de Dezembro de 1859, este agraciou-o com o título de Visconde de Lagoaça e posteriormente por D. Luís I, Conde de Lagoaça, a 31 de Outubro de 1866 e por carta em 6 de Novembro de 1866”.
Com a devida vénia a Manuel José Cunha


A carta régia que atribui o título de visconde de Lagoaça, em duas vidas, a António José Antunes Navarro é de 2 de Dezembro de 1859, e o Decreto respectivo de 2 de Novembro, tendo sido presidente da Câmara do Porto, entre 25-01-1858 e 31-12-1865, destacou-se na sua governação ao conseguir financiamentos do Governo para a exposição inaugural do Palácio de Cristal e no embelezamento da cidade, para o dito evento.
Uma das suas prioridades foi o abastecimento de água à cidade e, para tal, mandou recensear todas as fontes, nascentes e captações que existiam na cidade.
Durante o seu mandato, foi pensado, mas não concretizado, um monumento a D. Pedro IV; numerosas ruas foram corrigidas e fora obtidas do governo verbas para a criação de escolas primárias nas freguesias mais rurais da cidade.
Para o final do mandato e por motivos de saúde, foi sendo substituído por Pinto Bessa que, com a sua marca viria a ser um dos mais importantes presidentes que a cidade teve.
Diga-se que, no âmbito da melhoria das condições de higiene, a edilidade acabaria também, por determinar a eliminação dos cantos nos edifícios mais emblemáticos, de que são exemplo as fotos seguintes.



Igreja dos Clérigos - Fonte: Google maps


Colégio de Nossa Senhora da Esperança, a S. Lázaro - Fonte: Google maps



Pinho Leal, In Portugal Antigo e Moderno (1875)

 
 

Casa do 1º visconde de Lagoaça, na esquina das ruas Formosa e da Alegria – Fonte: Google maps
 
 
O 1º visconde de Lagoaça faleceu no Porto a 17 de Julho de 1867, tendo casado, sete dias antes, com D. Luísa Benedita Monteiro Antunes Navarro, nascida a 17 de Julho de 1837. Tiveram um filho, António José Antunes Navarro, que nasceu no Porto a 15 de Março de 1864.
Júlio de Castro Pereira viria a ser o segundo visconde de Lagoaça, em verificação da segunda vida concedida a seu tio. 




Higiena e Saúde Pública


Durante muitos anos, até ao século XX, os cães vagueavam pelas ruas da cidade, muitas das vezes, em perfeitas matilhas.
O perigo para a saúde pública era um facto real.
Por isso, a partir do momento em que o problema começou a ser tratado pela edilidade, funcionários camarários vigiavam, deambulando pela cidade, pelo cumprimento das normas que vigoravam nas posturas municipais e que aludiam ao problema do abandono de cães na via pública.
O texto seguinte dá-nos conta da intervenção dos chamados “caça-cães”, que não raras vezes descambava em situações completamente ridículas, quando os animais com a ajuda dos populares conseguiam escapulir-se aos seus caçadores.
Por vezes, os amigos dos animais recebiam voz de prisão e passavam umas horitas no Aljube, lá para os lados da Sé.
 
 
 
 
“O código de posturas de há cinquenta anos não permitia que os habitantes do burgo tripeirinho possuíssem cães sem a devida licença da Câmara; e os cães, cujos donos tivessem a respetiva licença, tinham de trazer, sempre que saíssem à via pública, uma coleira com a designação do nome e morada do dono e número da licença, sob pena de ter de pagar o triplo da multa. Além da coleira mencionada, os cães tinham de andar sempre açamados, sob pena de 2$ooo réis de multa. Se fossem encontrados na rua sem coleira nem açamo, eram considerados vadios, e como tal, abatidos. (...)”.
(…) Dois funcionários municipais, de inferior categoria, deselegantemente uniformizados, conduziam pelas ruas acidentadas da urbe, num passo vagaroso, sonolento, um carro de duas rodas e, sobre o eixo destas, poisava um grande e alto caixão de madeira, de figuração rectangular, interiormente dividido em compartimentos, onde se recolhiam os cães. Mais dois funcionários do município, de igual classe e indumentária, a par, com os olhos fixos em todos os vultos que se mexiam, seguiam por um dos passeios laterais, levando um deles uma rede de corda delgada aos ombros. Os primeiros que enxergassem um cão desaçamado, davam sinal, assobiando, e os que puxavam o carro logo paravam, pegavam na rede que geralmente ia sobre o tejadilho do pequeno carro celular e apressadamente, não fosse o cachorro escapulir-se pela demora, estendiam-na de lés-a-lés da rua, chegando por vezes a impedir todo o trânsito”.
Manuel Pedro, in O Tripeiro, Série 5, ano VII (Março de 1952), página 249/250
 
 
 

Carrocinha usada na “apanha” dos canídeos
 
 
Os cães que os funcionários municipais apanhavam durante o dia eram levados para casotas reservadas, existentes nos serviços de limpeza pública, ao tempo na Rua do Visconde de Bóbeda e traseiras da Biblioteca Pública Municipal do Porto, a S. Lázaro, podendo os animais ser libertados pelos seus donos mediante uma multa e depois de cumpridas outras formalidades. No caso de não serem procurados eram abatidos.
Após 1923, com o abandono das instalações da Rua de S. Dinis e a transferência do Matadouro Municipal para S. Roque da Lameira, o canil viria a funcionar, durante todo o século XX, naquelas instalações.
Em 22 de Agosto de 1939, uma camioneta fechada substituiu a anacrónica carroça, que na cidade procurava os cães vadios, numa época em que existia o perigo real da propagação da raiva.
 
 
 

Carro de remoção de cães e transporte para o canil de S. Dinis