Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Lisboa, Encarnação,
16 de Março de 1825 — Vila Nova de Famalicão, São Miguel de Seide, 1 de Junho
de 1890) foi um escritor português, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador,
poeta e tradutor. Foi, ainda, o 1.º Visconde de Correia Botelho, título concedido
pelo rei D. Luís.
Camilo Castelo Branco foi um dos escritores mais prolíferos
e marcantes da literatura portuguesa.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu, então, em
Lisboa, a 16 de Março de 1825, num prédio da Rua da Rosa, actualmente, com os
nºos 5 a 13.
Camilo era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, nascido na
casa dos Correia Botelho em São Dinis, Vila Real, a 17 de Agosto de 1778, e que
teve uma vida errante entre Vila Real, Viseu e Lisboa, onde faleceu a 22 de
Dezembro de 1835, e de uma criada de seu pai, Jacinta Rosa do Espírito Santo
Ferreira, tendo sido baptizado na Igreja dos Mártires a 14 de Abril de 1825.
Os seus padrinhos foram o dr. José Camilo Ferreira Botelho,
de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.
Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, pelo que
se diz, porque o seu pai e a sua avó não queriam que o nome Castelo Branco
estivesse envolvido com alguém de tão humilde condição.
Apenas com dois anos de idade, Camilo em 1827, ficou órfão
de mãe, sendo perfilhado pelo pai, juntamente com a sua irmã mais velha,
Carolina, filha do mesmo casal.
Por esta altura, a sua família deslocou-se para Vila Real,
onde o pai fora colocado como responsável pelos correios.
Em 1831, o pai e os seus dois filhos regressaram à capital,
após a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude.
Com a morte deste, as
duas crianças foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília
da Veiga Castelo Branco.
A morte do pai, em 1835, obrigou-o a ir viver com a sua irmã, em 1836, para
Vila Real.
Passam a viver, então, com uma tia paterna.
Como era uma criança sensível e muito inteligente, Camilo vai
sofrer grandes perturbações com todos os acontecimentos da sua infância.
Foi recolhido por aquela tia de Vila Real e, mais tarde, em
1839, em Vilarinho de Samardã, por sua irmã mais velha, Carolina Rita Botelho
Castelo Branco, nascida em Lisboa, Socorro, a 24 de Março de 1821, recebendo
uma educação irregular através de dois padres de província.
Entre 1836 e 1839, Camilo vive na casa mandada construir por
seu avô, em Vila Real, na actual Rua Camilo Castelo Branco (antiga Rua da
Piedade), na chamada Casa dos Brocas.
Acima, está uma gravura inserida no livro “O Romance do
Romancista” de Alberto Pimentel, que representa a casa do padre António
d'Azevedo, cunhado da irmã de Camilo, Carolina. O escritor morou ali durante
vários meses na sua adolescência.
Nesses tempos, formou-se lendo os clássicos
portugueses e latinos e literatura eclesiástica e contactando a vida
transmontana ao ar livre.
Com apenas 16 anos (18 de Agosto de 1841), casa-se em
Ribeira de Pena, Salvador, com Joaquina Pereira de França (Gondomar, São Cosme,
23 de Novembro de 1826 - Ribeira de Pena, Friúme, 25 de Setembro de 1847),
filha de lavradores, Sebastião Martins dos Santos, de Gondomar, São Cosme e
Maria Pereira de França, e instala-se em Friúme.
O casamento precoce parece ter resultado de uma mera paixão
juvenil e não resistiu muito tempo. No ano seguinte, prepara-se para ingressar
na universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.
Em 1843, nasce Rosa Pereira de França Castelo Branco.
Nesse ano, o jovem Camilo fixou-se pela primeira vez, no
Porto, primeiro, numa casa da Rua Escura e, posteriormente, na Casa da Ramadinha,
que era administrada por uma senhora chamada Ana, carinhosamente tratada pela
população em geral, por "D. Ana dos estudantes". O edifício era
modesto, mas distinguia-se dos restantes pela particularidade de ter a frontaria
engrinaldada por uma secular parreira e situava-se na parte superior da Rua da
Fábrica, mesmo em frente à Rua de Santa Teresa, num prédio de três andares.
Curioso que, mais tarde, ainda na mesma rua se hospedaria
Camilo, primeiro na Hospedaria Francesa e, depois, no Hotel Paris, onde privou
com outros escritores importantes da época.
Em Trás-os-Montes, deixara a tia Rita, a mulher e uma filha
de meses.
Matriculou-se no 1º ano de Anatomia da Escola
Médico-Cirúrgica e, depois, em Química, na Academia Politécnica.
Frequentou o primeiro ano do Curso de Medicina e, no ano
seguinte, voltou a inscrever-se na Escola Médica, mas perdeu o ano por faltas,
uma vez que era mais assíduo frequentador dos ambientes boémios do que das
aulas.
Em 1844, Camilo começa então a participar nos abadessados ou
outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais
e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados
pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino) e publicou as
primeiras obras poéticas.
Em 5 de Maio de 1845, foi largamente anunciado um duelo
entre Camilo Castelo Branco e António de Freitas Barros, que chegaram no dia
marcado e ao local aprazado, a Torre da Marca, devidamente preparados
para “matar ou morrer”. Vinham honrosamente montados em
jumentos, mas foram impedidos de realizar o seu intento pela polícia que acabou
por prendê-los. Quando interrogados, os pretensos contendores confessam que o
objectivo não era realizar um duelo a sério, mas, apenas, ridicularizar a aguda
“duelite” que era tão vulgar naqueles tempos.
Depois de conseguir tomar posse do que restava da sua
herança, voltou a Vila Real.
Nesta terra, perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília
do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto.
Em Outubro de 1846, passou 11 dias na Cadeia da Relação (de
12 a 23 de Outubro), por ter sido acusado de roubar 20 000 cruzados a João
Pinto da Cunha, pai de Patrícia e amante da sua tia.
Sobre este caso, o próprio Camilo dá-nos a sua versão dos
factos no romance “Maria da Fonte”:
“Este bom homem (João
Pinto da Cunha), para me salvar de um enlace indiscreto, ordenava ao seu agente
no Porto que me fizesse prender como raptor de uma mulher sem pai nem mãe e de
maioridade que me acompanha espontaneamente para Coimbra; e, a não ser este
delito eficaz para a prisão, “requerida por meu tio” como se eu fosse o
raptado, então autorizava o agente a queixar-se de que eu o esbulhara de ricos
valores em jóias e baixela, 20 000 cruzados, calculava-se no botequim do
Guichard.
Para que os
genealogistas provindouros da minha linhagem se não vejam
embaraçados com esta
vergôntea de Pintos e Cunhas na minha árvore, devo esclarecer que este homem
não me era nada - era marido de uma tia minha.
Provavelmente, se eu
teimasse em matrimoniar-me honradamente com a
raptada, seria pronunciado
como ladrão de jóias e baixela, 30 000 cruzados - computava o botequim da
Águia”.
Enquanto João Pinto da Cunha precisava o caso, na imprensa
da época:
“Sr. Redator:
Insto pelo favor de
transcrever no seu jornal as seguintes linhas:
Quem fez prender na Relação
dessa cidade Camilo Castelo Branco, fui eu que sou tio. A causa por que eu o
prendi não é essa que os seus detratores lhe fulminam. E um “rapto”, não é um
“roubo”. Para obstar a uma ligação que o faria desgraçado busquei um pretexto;
se é dele que se aproveitam os seus inimigos, declaro que é falso, e autorizo
meu sobrinho a tirar a desforra legal de qualquer ultraje que se lhe faça com
alusão à sua captura.
Vila Real, 27 de
Fevereiro de 1849.
João Pinto da Cunha”.
Depois de libertado, regressou a Vila Real e manteve a
relação com a prima Patrícia Emília.
Ainda a viver com Patrícia Emília do Carmo de Barros, Camilo
publicou no “O Nacional” correspondências contra José Cabral Teixeira de
Morais, Governador Civil de Vila Real, com quem colaborava como amanuense.
Esse posto, segundo alguns biógrafos, surge a convite após a
sua participação na Revolta da Maria da Fonte, em 1846, em que terá combatido
ao lado da guerrilha Miguelista.
Há quem diga que, em 1846, foi iniciado na Maçonaria do
Norte, o que é muito estranho ou algo contraditório, pois há indicações de que,
pela mesma altura, na Revolta da Maria da Fonte, lutava a favor dos Miguelistas, como "ajudante às ordens do general escocês Reinaldo MacDonell”, que
criaram a Ordem de São Miguel da Ala precisamente para combater a Maçonaria.
Do mesmo modo, muita da sua literatura demonstra defender os
ideais legitimistas e conservadores ou tradicionais, desaprovando os que lhe
são contrários.
Na sequência da morte da sua esposa, Joaquina Pereira, em
1847, voltou ao Porto.
No “O Nacional”, escreve Camilo a crónica que indispôs a
cidade do Porto, intitulada “ Que é o Porto?”, respondendo caricaturando
sarcasticamente alguns traços negativos da mentalidade mercantil dos burgueses
do Porto:
“Ânsia de ganhar
dinheiro nem sempre por processos honestos, algum espírito exibicionista no
vestir e no comer e até no rezar, mentalidade de bairro que não tolerava os que
fugiam ao comportamento-padrão, incapacidade para reconhecer os defeitos
indígenas reputando-os de virtudes, e para depreciar os méritos dos de fora
considerando-os como defeitos, desprezo pelas letras e pela instrução,
analfabetismo primário, falta de classe das meninas e as mulheres e ausência
generalizada de elasticidade mental”.
Em 1848, Camilo abandona Patrícia, fugindo para casa da
irmã, residente, então, em Covas do Douro.
Neste ano, morre a filha Rosa e nasce a filha Bernardina
Amélia (casou com um capitalista idoso), fruto da sua relação com Patrícia
Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos e depois entregue à freira
Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Avé-Maria,
amante de Camilo.
A partir de 1848, Camilo faz uma vida de boémia repleta de
paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e
dedicando-se, entretanto, ao jornalismo.
“Disse antes que
Camilo chegou ao Porto, em Novembro de 1848, meteu-se a crítico teatral de O
Eco Popular, o que foi o mesmo que meter-se em política. Por causa da política
foi, no dia 6 de Março seguinte, jantar à Ponte da Pedra, comeu lampreia e foi
agredido.
Disse também que os
primeiros meses da sua actividade como jornalista, no Porto, foram para Camilo
de aprendizagem política e social.
Viu-se aceite como um
dos alegres rapazes que animavam as crónicas, folhetins, gazetilhas,
correspondências, artigos de fundo, etc., etc., em jornais anticabralistas como
O Nacional e O Eco Popular e em jornais cartistas, não necessariamente
cabralistas, como O Jornal do Povo; e viu-se cair em desgraça, apelidado de
janota, acusado pelos seus colegas de infringir as regras da decência e da
civilidade e, last but not least, de beber demais e fazer gala disso”.
Cortesia de Anni Günther
Camilo tenta, então, no Porto, o curso de Medicina, que não
conclui, optando depois por Direito.
Toma, depois, parte na polémica entre Herculano e alguns
padres sobre o milagre de Ourique publicando o opúsculo “O Clero e o Sr.
Alexandre Herculano”, defesa que desagradou a Herculano e passando o ano de
1849, enamora-se da escritora Ana Augusta Plácido, noiva de Manuel Pinheiro
Alves.
Ana Plácido, entretanto, em 1850, tornara-se mulher do
negociante Manuel Pinheiro Alves, um brasileiro que o inspira como personagem, em algumas das suas novelas, muitas vezes com caráter depreciativo.
Em 1851, já tinha passado algum tempo na capital, onde
redigiu o seu primeiro romance, Anátema, publicado no Porto.
Nesta fase da sua vida, em 1852, imbuído de um surpreendente
fervor religioso, ponderou seguir uma vida religiosa, que se julga ter sido
inspirado na impressão causada pelo exemplo do Dr. José Gregório Lopes de
Câmara Sinval, lente da Escola Médica que, já idoso, tomou ordens tornando-se
pregador em S. Filipe de Nery, na congregação do Oratório.
Para tal, matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e
Moral, do Seminário Maior Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal, e
chegou mesmo a requerer ordens menores que, abandona, pouco depois.
Aqui, no Paço Episcopal, frequentou Camilo as aulas de
Teologia Dogmática e Moral - In “O romance do Romancista”
Camilo Castelo Branco viria a ter com Ricardo Clamouse Brown
uma disputa, que ficou célebre, na cidade do Porto, ocorrida segundo se crê, em 1855.
Ricardo Clamouse Brown era filho do grande negociante de
vinhos do Porto, Manuel de Clamouse Brown, que foi fidalgo cavaleiro da Casa
Real e da poetisa D. Maria da Felicidade do Couto Brown, com quem Camilo
Castelo Branco terá mantido uma correspondência de amor platónico, que originou
o famoso duelo, na Afurada, no qual Camilo terá levado uma estocada numa perna.
A poetisa Felicidade Browne distinguiu-se pelos seus grandes
dotes e rara sensibilidade poética. Usando pseudónimos como “A Coruja
Trovadora” e “Sóror Dolores” teve grande aceitação na época, tendo ficado
também conhecida, pelos Saraus Literários em sua casa, frequentados por gentes
do Teatro e escritores como Arnaldo Gama, Ricardo Guimarães e Camilo Castelo
Branco.
No seu tempo, Ricardo Browne ficou, também, célebre pelos bailes e
festas que dava em sua casa. Foi sendo descrito como um "árbitro da
elegância", ditando a moda na cidade. Poeta e músico foi, também,
grande viajante e diplomata. Um dos biógrafos refere que morreu na Foz do
Douro, em Agosto de 1900.
Em 1856, Camilo instala-se “alguns meses”, em Viana do
Castelo, onde trabalhou como redactor do periódico “A Aurora do Lima”, jornal
mais antigo do continente, fundado em 1855, pelo amigo de todas as horas – José
Barbosa e Silva.
Fruto da sua irrequietude, ao fim de dois meses, está de
regresso ao Porto.
Muito provavelmente, os dois amigos ter-se-ão conhecido no
Colégio da Formiga, em Ermesinde, Valongo.
José Barbosa e Silva (reconhecidamente de abastada família)
foi um dos amigos mais dedicados e compreensivos de Camilo, sempre de bolsa
aberta para o socorrer, tendo sido eleito como deputado três vezes, nas Cortes pelo círculo de Viana, pelo partido Progressista Histórico. Acabou por falecer
em 1865, ainda jovem, com 37 anos, não chegando a ocupar o lugar de embaixador
em Constantinopla, para o qual fora nomeado.
Chegado de Viana do Castelo, Camilo Castelo Branco dá início
aos esforços finais de sedução para a conquista de Ana Plácido.
Muito rapidamente, esta ligação amorosa viria a tornar-se
pública e notória.
Camilo seduz e rapta Ana Plácido.
Após passarem por Lisboa, em 1859, voltam ao Porto e
hospedam-se no Hotel do Cisne.
A 11 de Agosto de 1859, nasceu Manuel Plácido, que muitos suspeitam ser filho de Camilo e Ana Plácido, mas que veio a ser registado legalmente como
filho de Pinheiro Alves.
Aconselhado por amigos, Camilo ruma à Foz do Douro onde se
instala, brevemente, para voltar de seguida a Lisboa.
Camilo Castelo Branco também esteve escondido na casa do
amigo José Cardoso Vieira de Castro, na vila de Fafe, na freguesia de Paços.
Essa estada de Camilo, na Casa do Ermo, em 1860, é motivo de orgulho para os
locais daquela freguesia, que já foi “Passos” (com ss). No livro "Memórias
do Cárcere", surge a referência à passagem por Paços.
Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu
conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e
imposições sociais.
Depois de algum tempo, a monte, é capturado e julgado pelas autoridades.
Foram ambos enviados para a Cadeia da Relação, no Porto,
onde Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado.
A 1 de Outubro de 1860, tinha-se entregado na cadeia.
A 23 de novembro de 1860, D. Pedro V visita a Cadeia da
Relação do Porto e encontra-se com Camilo e Ana Plácido.
“… Passou Sua
Majestade à enfermaria dos presos, e à das presas, em seguida. Na extrema desta
há uma porta que se abre para o quarto de uma senhora, que ali estava presa.
– Que é ali dentro?
– Saberá Vossa
Majestade – disse o carcereiro – que é o quarto da senhora [D. Ana Plácido].
O rei entrou, e a
senhora foi chamada do corredor aonde tinha a seu asilo de trabalho.
Com a senhora veio um
menino nos braços de sua ama.
D. Pedro V cumprimentou a presa, perguntando-lhe o tempo de sua prisão. Reparou
no menino, e acarinhou-o, perguntando-lhe o nome e a idade. A mãe respondeu
pela criancinha, e o rei deteve-se a contemplar a infeliz. Ao lado do monarca
compungido estava o marquês de Loulé, pensando, porventura, que naquele dia tinha
de banquetear-se no palácio de ima irmã daquela encarcerada.
Saiu Sua Majestade e,
ao descer as escadas, proferiu as palavras iniciais deste capítulo:
Isto precisa de ser
completamente arrasado”.
(In Memórias do Cárcere)
Camilo, na prisão, receberia a visita de D. Pedro V, por duas
ocasiões, e escreveu, no prazo recorde de
15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição.
A 17 de Outubro de 1861, é libertado.
Com base nesta experiência, escreveu Memórias do Cárcere.
Depois de absolvidos do crime de adultério pelo Juiz José
Maria de Almeida Teixeira de Queirós (pai de José Maria de Eça de Queirós),
Camilo e Ana Plácido passaram a viver juntos, contando ele 38 anos de idade.
Em 1862, vivem em Lisboa, mas, no ano seguinte, voltam ao
Norte.
Abra-se um parêntesis para dizer quem foi essa personagem que
dá pelo nome de Zé do Telhado e que conviveu na cadeia com Camilo.
“…José Teixeira da Silva (Zé do Telhado) nasceu em 1816 (foi em 1818),
provavelmente no lugar do Telhado, do concelho de Penafiel. Alistou-se nos
Lanceiros da Rainha D. Maria II, tomando parte em vários combates, ascendendo
distintamente ao posto de sargento. Obedeceu às ordens de Saldanha na Revolta
dos Marechais, em 12 de Julho de 1837, que colocou no poder o marquês Sá da Bandeira.
Na Revolução de 1846, acompanhou o então Visconde Sá da Bandeira a Valpaços, e
em boa hora para aquele, pois lhe salvou a vida. Recebeu a Torre-e-Espada,
ordem honorífica criada por D. Afonso V destinada a distinguir elementos das
forças armadas, tendo os seus possuidores honras militares e precedência a
todas as outras ordens daquelas forças, em igualdade de grau. Terminada a
guerra após a Convenção de Gramido, tentou obter um modesto emprego no Depósito
do Tabaco, instituição economicamente importante para o norte, nomeadamente
para o Porto e que o grande jurista e liberal, membro do Sinédrio, Ferreira
Borges salvara da gula dos franceses comandados por Junot. Não lhe deram o
emprego…
...Desiludido,
voltou para casa onde o esperavam a mulher e cinco filhos à beira da miséria.
Acabou numa falperra à semelhança de um irmão, do pai e do avô Sodiano,
distribuindo generosamente o produto dos roubos. Foi julgado por isso e por
assassínio de três pessoas, cometidos pelos seus capangas: um padre, um criado da
Casa do Carrapatelo e um correlegionário que, num assalto fora
ferido, ficando incapaz de fugir. Foi deportado para Angola onde morreu
cheio de prestígio entre os indígenas, no Malongo ou em Xissa, em 1875...”
História do Zé do
Telhado – blogue Calçada da Miquinhas
Entretanto, ao primeiro filho de Ana Plácido, seguem-se mais dois de Camilo. Com uma família tão numerosa para sustentar, Camilo começa
a escrever a um ritmo alucinante.
Por vezes, o que escreve assume foros de esquizofrenia, pois
sobre o mesmo assunto tece comentários contraditórios.
É o caso datado de 1853, a propósito da creche do Porto cuja
causa advoga, e enaltecendo as qualidades de generosidade dos portuenses,
asseverava:
“poderíamos jurar que
não é baldado o supplicar aos generosos corações dos habitantes do Porto, onde
mais de uma vez, se encontram modelos de beneficência, e lances admiráveis de
compaixão pela invalidez”.
Anos antes, no escrito “O que é o Porto”, já tinha zurzido a cidade e os portuenses.
Num outro caso, em 1868, sobre as aldeias do Minho, que
tanto descreveu nas suas virtudes, dizia:
“ai, meus amigos, as aldeias do Minho! como
aquillo é torpe e melancólico! como tudo ali degenerou para nojos e
tristezas!”— a motivação que o estimula parece ser menos a denúncia da
imoralidade mascarada de inocência do que o despeito pelo facto de o vigário da
terra o ter na conta de ímpio”.
Quando o ex-marido de Ana Plácido falece, a 15 de Julho de
1863, o casal vai viver para uma casa, em São Miguel de Seide, que o filho do
comerciante recebera por herança do pai.
Na cidade do Porto, Camilo teve várias moradas e, em 1864,
esteve na Rua do Sol.
Em 28 de Dezembro de 1865, Bernardina Amélia de Carvalho
(1848-1931), de 16 anos, filha de Camilo Castelo Branco e de Patrícia Emília de
Barros, criada no Convento de S. Bento de Avé-Maria, sob a supervisão da freira
Isabel Cândida, amiga de Camilo, casa, em Valbom, Gondomar, com António
Francisco de Carvalho, um abastado capitalista, retornado do Brasil.
Camilo opõe-se ao casamento. E, só em 1874, se reconcilia
com o genro, desenvolvendo-se entre os dois uma relação cordial. Do referido
casamento, nasceram duas crianças, uma rapariga a quem deram o nome de Camila
Cândida de Carvalho e um rapaz, Camilo Castelo Branco de Carvalho.
Em 1868, Camilo Castelo Branco passou para a Rua do Triunfo,
em frente ao portão de acesso de veículos ao Palácio de Cristal, vindo da Rua
do Almada e tendo, em 1872, passado a residir em S. Lázaro onde, em 2 de Março
desse ano, foi agraciado pelo imperador do Brasil D. Pedro II, com a ordem da
Rosa.
No prédio contíguo, vivia o poeta Guilherme Braga, amigo de
Camilo.
Entretanto, em Fevereiro de 1869, recebeu do governo da
Espanha a comenda de Carlos III.
Em 1870, devido a problemas de saúde, Camilo vai viver
esporadicamente para Vila do Conde, onde se mantém até 1871.
Foi, aí, que escreveu a peça de teatro «O Condenado»
(representada no Porto em 1871), bem como inúmeros poemas, crónicas, artigos de
opinião e traduções.
Outras obras de Camilo estão associadas a Vila do Conde. Na
obra «A Filha do Arcediago», relata a passagem de uma noite do arcediago, com
um exército, numa estalagem conhecida por Estalagem das Pulgas, outrora
pertencente ao Mosteiro de São Simão da Junqueira e situada no lugar de Casal
de Pedro, freguesia da Junqueira. Camilo dedicou ainda o romance «A Enjeitada»
a um ilustre vilacondense seu conhecido, o Dr. Manuel Costa.
Naquele ano de 1872, queimou o romance A Infanta
Capelista e, em 1873, viajou entre Braga, Porto, Póvoa de Varzim e Lisboa.
Entre 1873 e 1890, Camilo deslocou-se regularmente à vizinha
Póvoa de Varzim, perdendo-se no jogo e escrevendo parte da sua obra no antigo
Hotel Luso-Brazileiro, junto do Largo do Café Chinês. Reunia-se com
personalidades de notoriedade intelectual e social, como o pai de Eça de
Queirós, José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, magistrado e Par do Reino,
o poeta e dramaturgo poveiro Francisco Gomes de Amorim, Almeida Garrett,
Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, entre outros. Sempre que
vinha à Póvoa, convivia regularmente com o Visconde de Azevedo no Solar dos
Carneiros.
Francisco Peixoto de Bourbon conta que Camilo, na Póvoa,
«tendo andado metido com uma bailarina espanhola, cheia de salero, e tendo
gasto, com a manutenção da diva, mais do que permitiam as suas posses, acabou
por recorrer ao jogo na esperança de multiplicar o anémico pecúlio e acabou,
como é de regra, por tudo perder e haver contraído uma dívida de jogo, que
então se chamava uma dívida de honra.
Talvez, para fazer face aos efeitos nefastos originados pelo
vício do jogo de Camilo Castelo Branco, precisamente, em 31 de Agosto de 1875,
podia ler-se no "Jornal do Porto", que Ana Plácido se desfazia de uma
morada de duas casas, sitas na Rua do Bonjardim.
Camilo, que era conhecido, também, pelo mau feitio, na Póvoa,
mostrou o seu outro lado. Conta António Cabral, nas páginas de «O Primeiro de
Janeiro» de 3 de Junho de 1890:
«No mesmo hotel em que estava Camilo, achava-se um medíocre pintor
espanhol, que perdera no jogo da roleta o dinheiro que levava. Havia três
semanas que o pintor não pagava a conta do hotel, e a dona, uma tal Ernestina,
ex-atriz, pouco satisfeita com o procedimento do hóspede, escolheu um dia a
hora do jantar para o despedir, explicando ali, sem nenhum género de reservas,
o motivo que a obrigava a proceder assim. Camilo ouviu o mandado de despejo,
brutalmente dirigido ao pintor. Quando a inflexível hospedeira acabou de falar,
levantou-se, no meio dos outros hóspedes, e disse: - A D. Ernestina é injusta.
Eu trouxe do Porto cem mil reis que me mandaram entregar a esse senhor e ainda
não o tinha feito por esquecimento. Desempenho-me agora da minha missão. E, puxando
por cem mil reis em notas entregou-as ao pintor. O Espanhol, surpreendido com
aquela intervenção que estava longe de esperar, não achou uma palavra para
responder. Duas lágrimas, porém, lhe deslizaram silenciosas pelas faces, como
única demonstração de reconhecimento.»
A 17 de Setembro de 1877, Camilo viu morrer na Póvoa de
Varzim, aos 19 anos, o seu filho predileto e o primeiro de Ana Plácido, Manuel
Plácido Pinheiro Alves, de uma "febre", provavelmente, meningite.
Parece ter sido um jovem que amava bailes.
Em 1878, pioraram os problemas de visão que incomodavam Camilo e foi ferido, também, num
acidente de comboio entre São Romão e Ermesinde.
Em 1883, Camilo terá leiloado a biblioteca pessoal, em
Lisboa, devido a dificuldades financeiras.
Em 1882, as relações com o filho Nuno, já se tinham
degradado ao ponto de Camilo ter acabado por expulsá-lo de casa.
Nuno Plácido Castelo Branco e a sua mulher Ana Rosa Correia
acabariam por viver com os seus sete filhos, na chamada “Casa do Nuno”, em S.
Miguel de Seide, bem perto da casa de Camilo.
Aquela casa, estilo “chalet”, fora construída numa parcela
de terreno herdado de Manuel Pinheiro Alves (primeiro marido de Ana Plácido) e
vendido a António José da Silva Pinto (1848-1911), escritor e
jornalista que, decidido a partilhar e usufruir da convivência de Camilo, o
haveria de visitar várias vezes (acompanhado de Narciso de Lacerda),
pretendendo, em sequência, aí construir uma casa. Camilo tê-lo-á apresentado a
um empreiteiro local, um pedreiro de nome Malvar (o mesmo que terá erigido a
igreja paroquial),mas acabaria por ser ele a suportar as despesas da construção
do chalet.
Na obra "Echos Humorísticos do Minho", conta uma
história de um antepassado daquele pedreiro, a propósito de uma placa cravada
na fachada daquela igreja.
O escritor chegou a residir na “Casa do Nuno”, numa fase
final da sua vida, bem como Jorge, o filho louco de Camilo e Ana Plácido,
falecido aos nove dias de Setembro de 1900.
Após a morte do escritor, a sua viúva aí procurou, também,
refúgio.
A moradia ficou ainda a ser conhecida por “Chalet Silva
Pinto”.
Nuno Castelo Branco viria a ser um estroina irresponsável,
sempre metido em sarilhos sórdidos.
Desordeiro, alcoólico, perdulário, viciado no jogo, e
incapaz de trabalhar, em 1881, casou-se por interesse com uma herdeira rica,
Maria Isabel da Costa Macedo que raptara, instigado e ajudado pelo seu pai
Camilo.
Com Maria Isabel da Costa Macedo teve uma filha, Camila, que
acabaria por morrer poucos dias depois da infeliz mãe, em 1884.
Por via da morte da filha, Nuno herdou o remanescente da
fortuna da mulher que, entretanto, fora gastando na boémia continuada.
No mesmo ano, ligou-se a Ana Rosa Correia, descendente de
lavradores de Landim, com quem teria 7 filhos.
Acabou, por influência de Camilo, por ser Barão de S. Miguel
de Seide, mas, pretendendo um pouco mais, viria a ser Visconde de S. Miguel de
Seide.
Nem, assim, ganhou juízo, tendo morrido 6 anos após o
suicídio do pai.
O outro filho, Jorge, era declaradamente louco, com episódios
violentos em que agredia os pais, tendo estado mesmo internado no Hospital de
Alienados Conde Ferreira, entre 2 de Agosto e 27 de Outubro de 1886, aos
cuidados dos psiquiatras Ricardo Jorge, António Maria de Sena e Júlio de Matos,
tendo sido considerado um doente irrecuperável. Terminou os seus dias num
estado de apatia depressiva e de degradação.
Em 1885, é concedido a Camilo, o título de 1.º Visconde de
Correia Botelho.
Na Rua de Santa Catarina, à data nº 458, hoje com o nº de
polícia 630, 2º andar, contrai Camilo matrimónio com Ana Plácido, em 9 de Março
de 1888, sendo casados pelo abade de Santo Ildefonso, pois, tinha certidão
médica, de que estava impedido de sair de casa.
O padre Alexandrino Brochado (Paços de Ferreira, 1920;
Porto, 2016), que foi fundador da Cáritas Portuguesa e seu presidente a partir
de 1947, Reitor da Capela das Almas desde 1953, Medalha de Mérito Municipal
Grau Prata pela Câmara Municipal do Porto e, ainda, perante o qual muitos portuenses tiveram o privilégio de assistir às suas aulas proferidas, no Liceu Alexandre Herculano, durante a segunda metade do século XX, conta-nos a cerimónia do casamento de Camilo,
no texto seguinte:
“Ao procurar elementos
sobre o casamento do Camilo Castelo Branco, encontrei referências várias ao
Cónego Alves Mendes que foi um dos maiores oradores sacros do século passado.
Ele teve um papel preponderante, talvez decisivo, no casamento de Camilo que se
realizou no dia 9 do Março de 1888, no segundo andar do prédio da Rua do Santa
Catarina, onde então residia e cuja porta de entrada tinha o número 458. Os
números actuais do edifício, que é o da Casa Nun'Álvares, são o 626, 628 e 630.
No segundo andar funciona, hoje, a tipografia do "A Ordem". Aqueles
números já existiam a partir de 1902. Tudo leva a concluir que os antigos
números 454, 456 e 458 correspondem agora aos números 626, 628 e 630.
Acresce que a gravura do
prédio publicada em 1890 por Alberto Pimentel (O Romance do Romancista, pág.
272) coincide perfeitamente com a traça do prédio actual, um tanto apenas de
aparência diferente na caixilharia do vidro, que há anos foi remodelada.
Neste prédio mandou há
tempos a Câmara Municipal do Porto colocar uma placa metálica assinalando a
efeméride, sem ter aparecido qualquer referência nos órgãos da comunicação
social.
Da mesma forma a
cerimónia do casamento do Camilo foi discreta e quase a desconheceu a imprensa.
Apenas a noticiou a Gazeta do Portugal.
Segundo um apontamento
do Nuno Castelo Branco encontrado em S. Miguel do Ceide, 0 casamento de Camilo
efectuou-se pelas nove horas e dez minutos da noite, a pretexto do nubente se
sentir gravemente doente. A ideia de ser na Sé Catedral enjeitou-a o
romancista, por lhe repugnar a grandeza do local.
Presidiu ao acto o
abade de Santo Ildefonso, Dr. Domingos de Sousa Moreira Freire. As testemunhas
escolhidas por Camilo, foram o Dr. Ricardo Jorge, 0 Cónego Alves Mendes, Joaquim
Ferreira Moutinho e João Freitas Fortuna.
Assistiram também o
Visconde S. Miguel de Ceide (Nuno Castelo Branco), o Dr. Urbino de Freitas e o
actor António Dias Guilhermino. Explica-se a ausência do P. Sena Freitas,
grande amigo de Camilo, pois desde 1884 estava no Brasil, à frente de um
colégio, que fundara em S. Paulo. Ricardo Jorge e Alves Mendes foram os homens
que mais influenciaram Camilo para casar religiosamente. Alves Mendes, depois
de tudo preparado para o casamento religioso, deslocou-se à residência
paroquial de Santo Ildefonso a convidar o pároco para efectuar o referido
casamento. Acabado de chegar, é surpreendido pelo filho de Camilo que lhe
comunica, nervosamente, que Camilo já não quer casar.
Alves Mendes passa por
cima desta informação do filho de Camilo e insiste com o abade Dr. Moreira
Freire para o acompanhar ao prédio nº 626, da rua de Santa Catarina, residência
do escritor.
Quando chegaram os
dois, encontram Ana Plácido debulhada em lágrimas. Camilo já não quer casar e
está renitente. Alves Mendes não desiste, convence Camilo a mudar de opinião e
aceitar o casamento religioso. Este efectua-se, abençoado pelo abade de Santo
Ildefonso, e no fim houve beberete com abraços, doces e vinho do Porto. Alves
Mendes, o grande orador sacro do tempo de Camilo, ganhara a cartada e o
casamento religioso fez-se.
Ninguém pode negar que
Alves Mendes foi interveniente decisivo em todo este processo do casamento de
Camilo e certamente o brinde mais efusivo e entusiasta, com um cálice de Porto,
foi o seu, no casamento do romancista.”
Alexandrino Brochado
Agora, a casa é o nº 630, 2º andar – Ed. JPortojo
Camilo passa os últimos anos da vida ao lado dela, não
encontrando a estabilidade emocional por que ansiava. As dificuldades
financeiras, a doença e os filhos incapazes (considera Nuno um desatinado e
Jorge um louco) dão-lhe enormes preocupações.
Desde 1865, que Camilo começara a sofrer de graves problemas
visuais (diplopia e cegueira nocturna). Era um dos sintomas da temida
neurosífilis, o estado terciário da sífilis ("venéreo inveterado",
como escreveu em 1866 a José Barbosa e Silva) que, além de outros problemas
neurológicos, lhe provocava uma cegueira, aflitivamente progressiva e crescente,
que o ia mergulhando cada vez mais nas trevas e num desespero suicidário. Ao
longo dos anos, Camilo consultou os melhores especialistas em busca de uma
cura, mas, em vão. A 21 de Maio de 1890, dita esta carta ao então famoso
oftalmologista aveirense, Dr. Edmundo de Magalhães Machado:
Illmo. e Exmo. Sr.,
Sou o cadáver
representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante
40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há
quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula
escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de
tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V.
Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa.
salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a
uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo
esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma
gota de sangue? Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas
tão sem cerimónia por um homem que não conhece.
Camilo Castelo Branco
A 1 de Junho de 1890, o Dr. Magalhães Machado visita o
escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico, com
alguma diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde,
talvez se pudesse falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava
o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua
cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo Castelo
Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita. Mesmo assim, sobreviveu
em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de Junho, às seis da tarde, o seu
cadáver chegava de comboio ao Porto e, no dia seguinte, conforme o seu pedido,
foi sepultado perpetuamente no jazigo de um amigo, João António de Freitas
Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.
O revólver com o qual Camilo se suicidou e que está
guardado, por deliberação de João António de Freitas Fortuna, no cofre da
Irmandade da Lapa
Camilo teve uma vida atribulada, que lhe serviu muitas vezes
de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua
portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários. Apesar de ter
de escrever para o público, sujeitando-se, assim, aos ditames da moda, conseguiu
manter uma escrita muito original.
Dentro da sua vasta obra, também se encontra colaboração da
sua autoria em diversas publicações periódicas como “O Panorama”, a “Revista
universal lisbonense” (1841-1859), “A illustração luso-brasileira” (1856-1859),
“Archivo pitoresco” (1857-1868), “Ribaltas e gambiarras” (1881), “A illustração
portugueza” (1884-1890), e a título póstumo nas revistas “A semana de Lisboa”
(1893-1895), “Serões” (1901-1911) e “Feira da Ladra” (1929-1943).
Sobre a gravura anterior diz-nos Alberto Pimentel, o autor
do romance subjacente:
“A árvore que se vê
junto à escada é a Acácia do Jorge, que se chama assim por ter sido plantada
pelo filho mais velho de Camilo.
As duas janelas
engrinaldadas pela trepadeira são da sala de jantar.
No 2º andar nas
janelas meio escondidas pela ramaria da acácia ficava o quarto de cama de
Camilo.
Dobrando-se o cunhal
formado pela parede da sala de jantar, andando poucos passos e virando à
esquerda encontra-se a pirâmide de granito comemorativa da visita de António
Feliciano de Castilho em 15 de Julho de 1866”.
Em 20 de Setembro de 1895, falecia Ana Plácido, em S. Miguel
de Seide.
“A uma légua distante
de Vila Nova de Famalicão, seguindo-se pela formosa estrada que liga esta vila
a Guimarães, encontra-se, à direita, um atalho, que, por entre milharais, vai
dar à freguesia de S. Miguel de Seide.
Ao cabo de um quarto
de hora, avistam-se umas antigas carvalheiras, junto das quais está a casa, em
que habitou, durante mais de vinte anos, o grande escritor. Um portão de ferro
gradeado fechava o portão de entrada da casa.
Quando chegava ali
alguma pessoa, que ia visitar Camilo, apenas se tocava à campainha, surgiam
logo dois enormes cães de raça e alguns podengos e perdigueiros ladrando
furiosamente. Camilo assomava a uma janela, mandava recolher os cães, e era
sempre ele quem descia a receber a visita com os primores de cortesia e de
afabilidade, que sempre o distinguiram.
(…) Foi naquela casa
modesta que a viscondessa de Correia Botelho passou, com curtas intermitências,
os cinco anos da sua viuvez, e foi ali onde a morte veio fulminá-la, no mesmo
quarto e no mesmo leito onde morrera seu marido.
A ilustre senhora não
alterou, nem num ápice, o aspeto interior e exterior da singela vivenda. A
biblioteca do mestre lá está intacta; lá se vê ainda a mesma mesa de castanho,
com a carteira ao centro; o busto, em gesso, de Castilho; os mesmos quadros,
tudo, pois que tudo foi religiosamente conservado pela mão piedosa de aquela
que acaba de morrer.
E como sentinelas
postadas junto da pitoresca e hoje bem triste habitação, lá se encontram ainda
também, as enormes carvalheiras, que durante mais de vinte anos foram o enlevo
do grande escritor.”
In “Diário Ilustrado”, em 29 de Setembro de 1895
A casa da Quinta de S. Miguel de Seide ficou praticamente
devastada num incêndio em 1915, sendo reconstruída em 1922 e transformada em
museu camiliano.
“Ao final da década de
1940 foi objeto de extensa campanha de intervenção de restauro, ficando, desde
então, muito semelhante à que fora habitada pelo romancista.
Encontra-se
classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1978.
Em 1 de junho de 2005,
por ocasião dos 115 anos do falecimento do escritor, foi inaugurado, em
terrenos fronteiros à Casa de Camilo um edifício, o Centro de Estudos
Camilianos, da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, que compreende um
auditório, salas de leitura e de exposições temporárias, cafetaria, gabinetes
de trabalho e reservas.
Foi considerado o
melhor museu nacional em 2006 pela Associação Portuguesa de Museologia.”
Fonte: “pt.wikipedia.org/”
Alguns dos objectos pessoais do escritor, que se encontram
actualmente expostos na Casa Museu de Camilo, só chegaram aos nossos dias, por
mero acaso, uma vez que tinham sido temporariamente retirados para a “Casa de
Nuno”.
“A partir de Maio, o
Centro de Estudos Camilianos de Seide, projectado pelo arquitecto Siza Vieira,
terá uma nova entrada. “É o culminar de uma vontade persistente da Câmara
Municipal de Famalicão em cumprir o projecto de Siza Vieira, que contemplava
para aquele espaço a entrada principal do Centro de Estudos Camilianos”, sublinha
o presidente da autarquia, Paulo Cunha.
As obras arrancaram no
passado mês de Fevereiro e têm um prazo de execução de 90 dias, implicando um
investimento municipal superior a 31 mil euros. A criação da nova entrada
representa a conclusão do projecto de Siza Vieira que, para além da construção
do Centro de Estudos, envolveu um plano global de valorização do espaço
camiliano, com o arranjo urbanístico do Largo de Camilo, construção do Centro
Social e Paroquial, requalificação da igreja paroquial e adaptação da Casa do
Nuno a sede da junta de freguesia”.
Cortesia de Patrícia Sousa (2021-03-25); Fonte:
“correiodominho.pt/”
Alberto Pimentel foi o primeiro biógrafo de Camilo, sendo-o especialmente
após a publicação da obra “Romance do Romancista” (1890).


















