segunda-feira, 17 de abril de 2017

14. Transportes

14.1 A Cadeirinha, Liteiras, Diligências e Mala-Posta, Omnibus, Carroção, Caleches e “Americano”

A cadeirinha era à época um tipo de transporte sem rodas, carregado por dois ou quatro homens que suportavam o peso com a ajuda de correias de couro suspensas aos ombros, utilizando dois varais.
As Cadeirinhas continuaram a ser utilizadas para além dos meados do século XIX, quando se difundiu a utilização privada e pública dos carros puxados por cavalos.
Sobre as cadeirinhas no Porto de meados do século XIX escreveu A. de Magalhães Basto (1894 - 1960):

“Junto do chafariz de que já falámos andavam sempre uns cavalheiros muito graves de chapéu alto, de oleado ou poli­mento, na cabeça, e cobertos, dos ombros até aos pés, de amplo capote azul, ou cor de pinhão, com vivos encarnados. Encarnada era também a fita da cartola. Estes senhores cha­mavam-se cadeirinhas e alugavam e … carregavam os veí­culos que lhes deram o nome.
Mas este modo de transporte era moroso, bom para ir dor­mindo e sonhando pelo caminho.
Quem tivesse pressa de chegar aos confins da Aguardente ou de Campanhã alugava um dos jericos, havia-os aparelhados para homem ou para se­nhora, que no mesmo local estacionavam: em coisa de uma hora (!) o viajante ia e voltava e fazia uma altíssima figura. (Este superlativo é pura retórica, esclareça-se...).
Mas continuemos o nosso passeio pelo Porto de 1850.”
Magalhães Basto (1894 - 1960) – “O Porto do Romantismo”, 1934

Cadeirinha


A liteira era à época um  meio de transporte muito usado a par da diligência.

A Liteira

No desenho acima está representada uma liteira de caixa fechada, atrelada a dois machos arreados à moda mediterrânica e que era conduzida por um ou mais liteiros a pé ou a cavalo.
Em 1864, Camilo Castelo Branco (1825-1890), publica em fascículos no “O Comércio do Porto”, a novela “Vinte Horas de Liteira”.
O escritor encontra numa estalagem no Marão o amigo António Joaquim que lhe oferece boleia para o Porto na sua liteira. Entre eles, e dada a duração da viagem, vão contando histórias até chegarem ao Porto passadas vinte horas!

“Volvidos doze anos, a liteira de alquilaria será uma tradição, nem sequer perpetuada na gravura. No recanto de alguma cavalariça de palacete provincial, apodrecerão ainda as relíquias da liteira fidalga; mas esta não é a liteira posta em holocausto ao macadame, à diligência, à mala-posta, e ao carril. A liteira sacrificada dos dois machos pujantes e das cinquenta campainhas estrídulas, essa é a que se vai de uma assentada, desfeita à serra e enxó para remendos de ignóbeis carrinhos e carroções. Esta é que é a liteira das minhas saudades, porque se embalaram nela as minhas primeiras peregrinações; porque, dos postigos de uma, vi eu, fora das cidades, os primeiros prados e bosques e serras empinadas; porque o tilintar das suas campainhas me alegrava o ânimo, quando a toada festiva me interrompia as cogitações da tarde, por essas estradas do Minho e Trás-os-Montes: porque, finalmente, foi numa liteira, que eu encontrei o livro, que o leitor, com a sua paciente benevolência, vai folhear”.
Camilo Castelo Branco In “Vinte horas de Liteira”

Até meados do século XIX, o transporte mais utilizado para as viagens, sobretudo nas idas à Foz do Douro, pela beira-rio era o carroção ou os char-à-bancs e, antes destes, era usual no séc. XIX, fazerem-se alegres passeios entre o Porto e a Foz montados em burros e mulas e segundo algumas opiniões, “até os ingleses e inglesas gostavam…”
Mula é o animal híbrido do sexo feminino resultante do cruzamento de um jumento, com uma égua.
Se for do sexo masculino o resultado desse cruzamento é chamado de burro.
O cruzamento inverso, de um cavalo com uma jumenta, gera o bardoto. 
No seu Romance “Os Tripeiros”, que se desenrola no século XIV, António Coelho Lousada refere que:
“O espaço que se estendia desde os muros até onde a Arrábida deixava apenas um caminho de cabras, aberto na rocha para quem se quizesse dirigir á Foz do Douro, não foi pois transposto em menos de uma hora, pela vanguarda: uma grande parte do exército popular nem lá chegou”. 

E nos finais do século XVIII, apenas existia um tortuoso caminho até à Foz que prolongava a estrada entre a cidade até Massarelos.
Apenas em meados do século seguinte, ao construir-se o paredão da Cantareira, foi possível abrir uma verdadeira estrada, permitindo que os portuenses pudessem deslocar-se a banhos nas praias da Foz. 
A estrada em macadame é assim descrita por Lady Jackson (Catherine Hannah Charlotte Elliott) - Fair Lusitania – Formosa Lusitânia, traduzida e anotada por Camilo Castello Branco 1878), nos anos 70 do seculo XIX:
“É uma estrada cheia de vida; assim tivesse menos pó, que forma sobre ella uma nuvem continua, em consequência do tranzito constante dos carros de bois, passando e repassando, de cavalgaduras, de pequenos carros de cortinas com gente da província, ou banhistas que não chegaram a tempo ou não acharam logar nos Americanos”.

O Char-à-Bancs era uma carroça de madeira com dois bancos laterais e paralelamente colocados, puxados por cavalos.
Porém, pós as invasões francesas e por falta de cavalos, passou o veículo a ser puxado por uma junta de bois, tendo aumentado muito o seu uso e passando a chamar-se carroção.
Segundo Camilo o carroção já existia no séc. XVII
Havia carroções de aluguer e as famílias abastadas tinham carroções particulares, para as suas viagens pelos arredores da cidade, idas à Foz, mas, também, para irem ao teatro.
Por cabeça, para a Foz o preço era de 80 ou 120 reis, conforme partiam da estação do Carmo ou da Porta Nova.

O omnibus foi o primeiro transporte colectivo urbano, puxado por cavalos, antecedendo o "americano" que passou a circular sobre carris. Espalhou-se a partir de Paris, por todas as cidades mundiais.

Omnibus junto à capela da Senhora da Lapa na Cantareira, Foz do Douro

Na imagem acima vê-se um omnibus junto da capela de Nossa Senhora da Lapa em direcção ao Porto.
Em 22 de Agosto de 1846 o jornal “O Gratuito” num anúncio ilustrado publicitava que “o omnibus de António Carneiro a partir daquela data, passaria a fazer três corridas, começando na praça de D. Pedro e na Foz, por 240 réis por corrida”.

Dos carroções, omnibus e char-à-bancs que partiam do Carmo, fala Júlio César Machado:
“A cidade n’essa epocha não poderia dizer-se bella, mas as camélias, o Douro, a Foz, compensavam tudo. Uns omnibus, uns char-à-bancs, uns diabos de carros fantásticos, venciam a passo por minuto a légua do Porto à Foz; porém, logo que desciam a Restauração, começava a deleitar-se a vista n’um panorama admirável, que se descobria em todo aquelle passeio à beira do Rio”.


O Char-a-Bancs puxado por cavalos

Char-à-Bancs – Ed. J. Nogueira



Carroção tradicional puxado por junta de bois

“Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.
…O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia”.
Ramalho Ortigão, In aportanobre.blogspot

Sobre o carroção o historiador do Porto Dr. Artur de Magalhães Basto escreveu: 
“ O Papá, a mamã, as meninas, a criada, os marçanos da loja, sempre às cortesias, aos cotovelões e às cabeçadas uns aos outros, por causa dos solavancos da caranguejola, chegavam ao lugar do destino com a roupa num figo, o estômago na boca e um apetite devorador. No regresso as cestas vinham vazias e os passageiros, uns por cima dos outros, chegavam a casa a dormir.”

Além daqueles carroções de aluguer puxados por bois, havia, então, os carroções particulares.
Também os havia pequenos em forma de coche, para 4 pessoas, e esses tinham, como o da gravura abaixo, as portinholas de lado. Eram, por via de regra, assim os particulares, isto é, os que havia nas casas de mais tratamento da cidade, ou nas terras principais da província.

Carroção Particular - Fonte: portoarc.blogspot

Carroção particular


Carroção numa pintura de Roque Gameiro

Tendo como fonte o blogue, portoarc.blogspot, ainda a propósito do transporte em carroção, transcreve-se a seguir uma passagem de um texto de Alberto Moreira em O Tripeiro, série V, Ano XI, sobre a viagem de Rodrigues de Freitas a Braga: 
“À meia-noite do dia 14 de Agosto de 1856, tomaram na Praça da Batalha o carroção que ligava o Porto à cidade dos arcebispos. A partida do moroso veículo, que conduzia 20 passageiros, foi assinalada do forte badalar de uma sineta e, iniciada a marcha, às duas horas da madrugada estavam em Leça (do Balio) e às cinco chegavam à Carriça (Muro, Trofa), já maçados por uma viagem de cinco horas, num carroção puxado por bois!... Duas horas depois, já a diligência continuava viagem, e Rodrigues de Freitas ia satisfeito, pois o almoço fora admirável e servido por uma mocetona linda e gentil… Nos seu lento rodar, e em constantes solavancos a diligência chegara a Famalicão pelo fim da tarde. Todos os passageiros se foram hospedar na estalagem “Real”, única existente na pitoresca paragem, descansaram algumas horas e, no começo da madrugada, retomaram a viagem… Naquele caminhar monótono chegaram a Braga ao toque das Avé Marias… Nesse tempo algumas pessoas que precisavam de se deslocar a Braga… quando não tinham possibilidades de arranjar um alazão, preferiam ao carroção a jornadear a pé – economizavam dinheiro e poupavam tempo.”
Fonte: portoarc.blogspot


“Aos omnibus seguiram-se os chars-a-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento de banhistas aumentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna”. Como eram insufficientes as casas da antiga povoação, circumscripta aos pequenos bairros do Monte, da Praia e da Cantareira, as novas edificações começaram a estender-se por Carreiros, aonde se abriu a formosa estrada de Lessa, batida pelo Oceano, varrida pela brisa marítima, impregnada das penetrantes exhalações salgadas. Alguns dos novos prédios construídos n’este sítio, um dos mais bellos do nosso litoral, seguiram os modelos das construcções francezas do mesmo género e offerecem o elegante aspecto modesto e confortável, tão raro nas casas portuguezas.”
Ramalho Ortigão – As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Porto 1876


Outro tipo de Carroção, Museu do carro Eléctrico – Fonte: JPortojo


Quando D. Maria I subiu ao trono em 1777, o país não possuía estradas. O Marquês de Pombal apenas mandara fazer uma estrada até à sua propriedade em Oeiras, e a Companhia dos Vinhos do Alto Douro mandou abrir algumas estradas no Douro.
Assim, D. Maria l mandou construir em 1788 uma estrada de Lisboa ao Porto, mas que, apenas, se construiu até Coimbra.
De qualquer modo, com a construção desta estrada surgiu um serviço regular de trans­portes para passageiros utilizando os carros de transporte do correio, a mala-posta, à semelhança do que já existia noutros países europeus.



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