quarta-feira, 5 de abril de 2017

(Continuação 9)


“Na cidade do Porto persiste em funcionamento e em plena actividade o clube desportivo mais antigo do país, o Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, fundado em 1855, uma das mais antigas agremiações dedicada ao remo e natação, o Clube Fluvial Portuense (1876) e o clube de golf mais antigo de toda a Península Ibérica, o Oporto Golf Club (1890). 
Em 1893 funda-se o Football Club do Porto de Nicolau de Almeida. De realçar, ainda, o Boavista Footballers, criado em 1 de Agosto de 1903, o Sport Progresso em 15 de Agosto de 1908 e o Sport Porto e Salgueiros em 8 de Dezembro de 1911, bem como o Leixões Sport Clube em 28 de Novembro de 1907 e o Sporting Clube de Espinho em 11 de Novembro de 1914”. 
Com a devida vénia a António Coutinho Coelho

“A patinagem foi introduzida no Porto por um grupo de rapazes ingleses aí por 1876. Começou na nave central do Palácio de Cristal. O futebol foi introduzido pelo Oporto Cricket Club, há muitos anos”.
In “O Tripeiro”, Volume 3, 20/8/1910

Em “O Porto de 1900”, Arnaldo Leite escrevia :

“Os rapazes de hoje (1951) não podem fazer ideia do que eram os desportos de há 50 anos. Havia clubes aguerridos e façanhudos, grupos antagonistas, intransigentes e facciosos que se defrontavam todos os domingos, terminando muitas vezes os desafios no meio de enorme pancadaria, com berros, apitos, prisões e umas pranchadas da guarda para acalmar os ânimos febris e entusiastas. Nós pertencíamos ao “Sporting Vermelho Rompe e Rasga” e tínhamos como principal inimigo, o “Desportivo Azul Fia-te Nisso”. Da nossa parte havia muitos clubes simpatizantes, entre eles, “O Sempre Para a Frente”, o “Botabaixo” e o “Bacalhau a Patacos”, este último, um dos mais populares e o que contava o maior número de adeptos. O nosso adversário tinha, igualmente, vários clubes amigos que defendiam as mesmas cores, como o “Não-Te-Rales”, o “Come e Dorme”, o “Deixa Correr”, etc”.

“Arnaldo Leite diz-nos que em 1900 os colégios formavam os alunos em ginástica livre, aplicada nas argolas, barras e paralelas. Ensinavam ainda esgrima que era um desporto praticado só pela aristocracia.
Na natação havia as grandes “piscinas” do Rio Douro e do Atlântico. Mas eram muitos os jovens que atravessavam facilmente o Douro. O remo, a equitação e o ciclismo eram outros desportos muito praticados, sendo este último o mais popular”.
In “portoarc.blogspot”



“A primeira corrida de bicicletas disputada em Portugal decorreu entre a Alameda de Matosinhos e o Castelo da Foz, pelo caminho de Carreiros (actual Av. Montevideu e Av. Brasil) no dia 18 de Julho de 1880.
Foi organizada pelo Club Velocipedista Portuense, fundado poucos meses antes, a 9 de Março desse mesmo ano, nascido do grande entusiasmo que as bicicletas vinham provocando na cidade. Teve este clube a sua primeira sede em pavilhão anexo ao edifício da Companhia do Caminho de Ferro instalada na Rotunda da Boavista, mais tarde transferindo-se para edifício com os nº35/37 no Campo dos Mártires da Pátria na esquina com a rua da Restauração e onde durante muitos anos funcionou uma loja de bicicletas”.
In site: “portoantigo.org”

“Em 9 de Março de 1880, um grupo de rapazes fundava no Porto o Clube Velocipedista Portuense, a primeira agremiação velocipédica do nosso país, e em 18/7 o referido clube organizava a primeira corrida de velocípedes que houve em Portugal; em Lisboa só se organizaram alguns anos depois. A corrida foi em estrada, contra cronómetro, entre a Alameda de Matosinhos e o Passeio Alegre da Foz (cujo vencedor foi Aurélio Vieira que fez o percurso em 13 minutos e 8 segundos, em estrada com muito trânsito e mal cuidada…).
Foi tão grande o seu êxito, que em Novembro seguinte se organizaram novas corridas – as chamadas “corridas de Outono” desta vez na Rotunda da Boavista.
Os jornais da época falaram, com espanto, do elevadíssimo número de pessoas que ali se juntou para presenciar as lutas que se travaram na improvisada pista; do extraordinário movimento de trens, de nunca vista afluência de gente nos Americanos, da grande quantidade de senhoras da nossa primeira sociedade que acorreu à função”. 
Fonte: Artur de Magalhães Basto em “O Tripeiro” Série V, Ano V


Corridas na Rotunda da Boavista - Ed. “O Sorvete”


Emblemas do Clube Velocipedista Portuense


“A notícia já é conhecida de uma parte intelectual da cidade do Porto, dos seus historiadores, dos homens que nos transmitem e investigam tradições, culturas, usos e costumes, reconstruindo um passado longínquo, pleno de vida, muitas vezes escondido e esquecido.
O ciclismo foi, nos finais do século dezanove¸ uma modalidade das élites, e compreende-se, não haviam meios motorizados de deslocação, e a bicicleta permitia aos seus utilizadores uma certa ascensão social.
Vários velódromos foram construídos por todo o país, alguns completamente desaparecidos, aos quais se perderam rastos, como o velódromo da Quinta de Salgueiros, do velódromo da Serra do Pilar, sabe-se que existiram mas não existem vestígios que nos permitam ver, ou pelo menos “ sentir” que ali, naquele local existiu algo que nos ligue ao ciclismo.
Estamos, como é óbvio, a falar da cidade do Porto, a mui nobre e leal cidade, de muitas lutas e tradições, e de um velódromo escondido, vergonhosamente, diria ocultado e esquecido, e mais grave, destruído e vilipendiado.
Os museus terão mais valor quando são “vivos”, isto é, conservam a integridade dos usos e costumes de determinada época e, nada mais visível seria, se o velódromo rainha D. Amélia tivesse sido conservado no seu lugar, respeitado o seu passado e não fosse destruído para que, no seu lugar fosse reconstruído o tal museu “morto”, com salas de chã, espaços de aluguer, destruindo-se o que de importante mais representava para a cidade do Porto.
Escondeu-se, destruindo um velódromo que, em três voltas se percorria um km, como mandam as regras internacionais. Isto é, um velódromo de 333.3 metros, em plena cidade do Porto, uma cidade onde as estruturas desportivas não abundam e onde os monumentos são vilipendiados.
Um espaço que fez falta á cidade, numa zona carente de instalações desportivas que permitam a prática desportiva de lazer.
É verdade, o velódromo rainha D. Amélia é um monumento, destruído grosseiramente, por quem não teve respeito pela história e passado da cidade e da história do desporto.
O Velódromo Maria Amélia foi o maior recinto desportivo do Porto na primeira década do século passado, como palco da modalidade que os tripeiros mais acarinhavam quando se começaram a interessar por desporto. Parte das suas instalações mantiveram-se intactas até hoje, o local onde está instalado é quase um segredo, e a grande maioria dos habitantes da cidade desconhece a sua existência num local tão nobre como as traseiras do museu Soares dos Reis e perto do Palácio de Cristal e do hospital de Santo António.
O Velódromo do Porto surgiu em 1895, fruto da doação por parte do rei D. Carlos, no ano anterior, de um terreno ao Real Velo-Club do Porto para a prática do ciclismo. Uma prenda integrada nas comemorações do V centenário do infante D. Henrique.


Chegada da família real em 4 de Março 1894 às comemorações henriquinas


Não era o primeiro espaço na cidade ou arredores que recebia provas de amadores ou profissionais deste desporto. O primeiro estava instalado na Quinta de Salgueiros e pertencia ao Clube de Caçadores do Porto. Posteriormente, na serra do Pilar, construiu-se o primeiro Velódromo D. Amélia, assim baptizado em homenagem à mulher do rei, mas, com o levantamento de um outro instalado no jardim do palácio dos Carrancas, viria este, a chamar-se velódromo Maria Amélia, passando a estrutura de Gaia a ter o nome de Príncipe Real.


O Velódromo Maria Amélia


O Velódromo Maria Amélia, instalado no jardim do palácio dos Carrancas, propriedade da família real desde 1861 e local onde esta costumava pernoitar quando se deslocava à cidade, honrando a figura da Rainha D. Maria Amélia de Orleães, é o actual Museu Nacional de Soares dos Reis. O estádio ficou situado nas suas traseiras, no interior de um quarteirão, o que o resguarda de qualquer olhar mais indiscreto e o torna quase desconhecido.
As portas do Velódromo do Porto encerraram em 1910 com a implantação da República e a ida do rei D. Manuel II para o exílio. O espaço foi doado à Misericórdia, mas, o Estado, pelo Dec. Lei nº. 27878 de 21/7/1937, expropriou este palácio à S. C. da Misericórdia. O espaço do Velódromo do Porto é hoje denominado Jardim da Cerca e integra as instalações do Museu Soares do Reis. Aí encontram-se em exposição alguns dos brasões das antigas casas senhoriais do Porto. O terreno foi objecto da última requalificação no contexto da “Porto’2001, Capital Europeia de Cultura”, numa criação do falecido arquitecto portuense Fernando Távora, que fez questão de preservar integralmente alguns dos elementos da centenária instalação desportiva. Assim, sem grande esforço, ao nível do solo são perfeitamente visíveis as duas curvas da pista, com os respectivos relevos. Uma recordação do primeiro espaço desportivo do Porto, que permite imaginar as loucas corridas que aí se disputaram e os 25 mil adeptos que a elas assistiram...Inaugurado o velódromo em 1895, ali se realizaram muitas corridas e demonstrações desportivas, incluindo a primeira corrida de motorizada realizada em Portugal.
Hoje em dia está fechado, destruído, perdendo-se um monumento dos poucos que todos nós poderíamos utilizar, como o mais antigo recinto desportivo da cidade do Porto”.
In Jornal Ciclismo em 2013/02/11


Vista aérea actual do que resta do velódromo Maria Amélia - Fonte: Google Maps

Vista aérea do velódromo em 1937




Curva da pista ainda observável no topo a poente – Fonte: Biclanoporto

Velódromo Maria Amélia em dia de corridas


No jornal «O velocipedista», em 1895 escrevia-se:
«Real Velo Clube: Esta agremiação, tenciona inaugurar o seu velódromo, na quinta do Paço real d/esta cidade, que lhe foi concedida para esse fim por S. M. el-Rei, por ocasião das festas do centenário do Infante D. Henrique. O distinto engenheiro snr. Esteves Tomás, que é o segundo secretário do Club, já está levantando a respectiva planta da Quinta para esse efeito.»


Chalet existente no Palácio de Cristal situado perto da gruta



No “chalet” da gravura, onde esteve o “Café Chalet”, a partir de 1894 foi a sede do Real Clube Velo de Ciclismo, antes de ser transferido para as traseiras do Palácio dos Carrancas, para junto do velódromo Maria Amélia.

Sem comentários:

Enviar um comentário