segunda-feira, 3 de abril de 2017

(Continuação 8)

13.2 Praças de Touros

Horácio Marçal escrevia:
 «A mais remota notícia acerca de touradas na cidade do Porto, pelo que sabemos, data de 24 de Junho do recuado ano de 1785, e refere-se a uma corrida de touros efectuada, com todo o esplendor, por ocasião das luzidas Festas Reais, em praça especialmente construída para o efeito no lugar da Torrinha, à estrada de Cedofeita». 

Naquela data referida por Horácio Marçal, ainda era vivo (só morreria um ano depois) o Presidente da Junta das Obras Públicas (1763-1786) e Governador das Justiças e Casa do Porto (1765-1786), João de Almada e Melo.
Uma outra corrida terá ocorrido oito anos depois, a 2 de Junho de 1793, num redondel construído no Campo de Santo Ovídio, actual Praça da República para cele­brar o nascimento de uma nova princesa, Maria Teresa, a primeira filha de D. João VI.
A iniciativa foi do próprio Francisco de Almada e Mendonça, que mandou mon­tar uma praça de touros no novo logradouro, "a mais bela e magnífica até então vista no reino", escreveu-se na época, e aí realizou uma deslum­brante tourada de gala. Com a construção da pra­ça e os honorários aos toureiros gastaram-se 240$000 réis.
Não havendo mais notícias tauromáquicas durante umas dezenas de anos, apenas em 1869 há registo de a 19 de Agosto desse ano a Câmara Municipal do Porto ter autorizado a Raimundo dos Santos Natividade a aquisição de uns terrenos em Cadouços, na Foz (provavelmente no actual Largo do Capitão Pinheiro Torres), para implantação de uma praça de touros.
Embora o recinto estivesse ainda em construção, a primeira tourada ocorreu logo a 24 de Agosto, com grande sucesso de público. Mas, tal recinto, que ainda viu mais alguns espectáculos, não durou mais do que três anos.
O mesmo proprietário, a 7 de Fevereiro do ano seguinte (1870) requer autorização para a construção de uma praça de touros a nascente do Largo da Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal), onde se vieram a efectuar algumas corridas.
Um outro empresário, José Moreira Matos dá início, a 26 de Janeiro de 1870 à construção de uma praça de touros na Avenida da Boavista, ao lado do Hospital Militar (a poente), a qual foi inaugurada a 25 de Março desse mesmo ano.
O Hospital Militar tinha tido o lançamento da 1ª pedra em 1862.
A tourada foi assim, em tempos, um dos divertimentos preferidos dos portuenses.



«Em 1870 encontravam-se em construção as duas primeiras praças de touros permanentes da cidade do Porto: uma na Boavista e a outra no Largo da Aguardente (actual Praça Marquês de Pombal), esta com construção iniciada em 7 de Fevereiro daquele ano, por iniciativa do alquilador Raimundo dos Santos Natividade.
As notícias que se seguem são retiradas, de “O Comércio do Porto”. Abaixo vem a descrição da praça de touros da Aguardente  aquando da ultimação dos trabalhos de construção:
"O espaço reservado às corridas mede 36m de largura; a distância da primeira à segunda trincheira é de 1,2m e o espaço desta ao tapamento; isto é, à largura das galerias é de 7,5m.
Além de uma ordem de 52 camarotes, tem no correr destes uma galeria superior. Em frente da porta do cavaleiro fica o camarote da autoridade.

Por baixo desta ficam a enfermaria, o escritório e outros compartimentos. O camarote real fica superior ao da autoridade.

Por cima da porta do cavaleiro fica o camarote da empreza (sic) e por cima deste o coreto de música.
Nos corredores, por baixo das galerias ficam as cavalariças e quartos para os moços e homens de forcado.
A praça é toda construída de madeira de forma quase idêntica à da Boavista e tem lugar para 8.000 pessoas."
In “O Comércio do Porto”, 31 de Março de 1870

Na altura em que esta notícia era publicada já a praça da Boavista tinha sido inaugurada. Tendo sido portanto essa e não esta a primeira, pela diferença de uns dias.
Continuando o relato da inauguração das primeiras praças de touros permanentes do Porto em 1870, ficamos agora com alguns apontamentos noticiosos sobre a primeira delas, a da Boavista, inaugurada umas semanas antes da praça da Aguardente.
A fonte é, como sempre, o Comércio do Porto, nesta notícia temos a chegada do gado que iria ser corrido:
"Ante-ontem à noute atravessou a cidade o gado que vem para ser corrido na [inauguração] da praça de touros da Boavista…”
In “O Comércio do Porto”, 22 de Março de 1870

A notícia abaixo descreve um pouco do que foi a inauguração em 25 de Março de 1870, da primeira praça de touros (de madeira) permanente na cidade do Porto. Foi levantada na Rua da Boavista, num local que era, à data, longe do centro da cidade, tendo sido lidados 3 toiros e brilhado o cavaleiro Batalha e os bandarilheiros Pontes e Calabaça.
"Inaugurou-se na 6ª feira, com a primeira corrida, como estava anunciado, a praça de touros que se acaba de construir na rua da Boavista”.
In “O Comércio do Porto”, 27 de Março de 1870»
Fonte: “aportanobre.blogspot”, com a devida vénia a Nuno Cruz




«Construíram-se duas praças (no Porto) e as toura­das principiaram. Êxito enorme! Concorrência immensa! Geral frenesi de enthusiasmo! A sociedade tomou um certo ar toureiro. As senhoras mostravam-se inte­ressadas na qualidade dos curros, queriam ver o gado, punham gravatas vermelhas e ofereciam-se para dar monas. Muitos cavallos appareciam arreados ao modo do Ribatejo, com xairel de pelle e estribos de pau. Os mancebos à moda vestiam-se de jaleca e cinta, com calcas de boca-de-sino, aos sabados de tarde. As duas praças eram insufficientes para a multidão dos aficionados. Os lidadores eram cobertos de charutos, de rebuçados, de palmas e de gritos de triumpho. Finalmente, um delírio!
Ao cabo de dois annos ninguém mais voltou aos touros. Os elegantes deram as jalecas e as calcas de boca-de-sino aos seus criados de cavallarica; as senho­ras nunca mais tornaram a fallar em gado; as guitar­ras que haviam sido importadas desappareceram da cir­culação; o fado que alguns dedos femininos dedilhavam nos teclados de Herard, deixou de accordar os eccos surprehendidos e vexados dos salões portuenses; as duas praças, não tendo outra coisa que fazer, começa­ram a apodrecer e esperam anciosas o primeiro mo­mento, pretexto decerto para se deixarem cahir.
Mas Lisboa tinha recebido uma lição terrível! O Porto tinha-lhe mostrado que se quizesse gostar de tou­ros, ninguém gostaria mais, ninguém seria mais maniaco, mais doudo, mais frenético por touros, do que elle! É para que se saiba!»
Ramalho Ortigão – “As praias de Portugal” - guia do banhista e do viajante, Porto 1876


“Às duas praças, a que Ramalho Ortigão allude, ha­viam sido construídas, uma na Boavista, outra na Aguardente. Acabaram por não ter ninguém; a tauromachia portuense deu em vasa barris. Mas, passados annos, o touro tornou a passar do prato para o circo. Construiram-se duas novas praças, uma na Boavista, outra na serra do Pilar, em substituição d'aquellas. Funccionam ambas. Mas o povo portuense não tem educação de toureiro, nem condições para o ser. Não ha no norte vastas lezírias, como no Ribatejo, onde possa crear-se o gado bravo. De modo que a tauromachia no Porto é um divertimento emprestado, que mette touros e campinos do sul. Estou em dizer que, apesar das duas praças actuaes, o Porto acha mais sabor ao boi no prato do que ao touro na arena. “
Alberto Pimentel – “O Porto na Berlinda”, 1894

No final do século XIX foi realizada a última grande ofensiva para tentar ressuscitar a afición dos portuenses com a construção de duas novas praças de touros na cidade – Rotunda da Boavista e Rua da Alegria – a que se juntaram as praças erguidas na Serra do Pilar (V. N. de Gaia), Foz do Douro, Matosinhos e Granja.
Em 1888 já se realizavam touradas em Matosinhos.
Em 1901 seria inaugurado um novo redondel junto do Senhor do Padrão, ou Senhor do Espinheiro, ou ainda como também se chamava, Senhor da Areia.
Esta praça nem uma década durou, seguindo-se uma outra no Campo de Sant’Ana, que teve existência efémera.

Ascensão de um balão na Praça de Touros da Serra do Pilar

O Coliseu Portuense na Rotunda da Boavista foi inaugurado em 28/7/1889 e demolido no segundo semestre de 1898.
Na tourada inaugural os bilhetes custavam o seguinte: Sol, 300rs; Sombra, 600rs; Tribuna, 1200rs; Camarotes de Sol, 3.000rs; Camarotes de Sombra, 4.500rs. Tinha cerca de 8.000 lugares.


O Coliseu Portuense

Cartazes de corridas no Coliseu Portuense



Assistência na Praça de Touros do Coliseu Portuense

Interior do Real Coliseu Portuense

O Coliseu Portuense situava-se na actual Rotunda da Boavista onde hoje fica, o Tabernáculo Baptista.
A 4 de Maio de 1902 foi inaugurada uma praça de touros na Rua da Alegria, junto à Rua do Lima, a qual se manteve em actividade por poucos anos. Foi construída em madeira, ao gosto árabe, e tinha uma lotação para 7 mil pessoas. Recebeu numerosos toureiros portugueses e espanhóis, mas encerrou passados poucos anos.




Interior da Praça de Touros da Rua da Alegria – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal



Praça de Touros da Rua da Alegria, em 1909

Balão Junto à Praça de Touros – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal


Na mesma época (1915), existiria uma praça, no Bessa, à Boavista, da qual nos dá conta a revista Illustração Catholica, 28 de Agosto de 1915, em fotos abaixo.


Inauguração de Praça de Touros do Bessa - Ed. Illustração Catholica, 28 de Agosto de 1915


Praça de Touros do Bessa - Ed. Illustração Catholica, 28 de Agosto de 1915


Já a 19 de Abril de 1920 inaugurou-se uma outra praça, na Areosa, à Circunvalação, pela Sociedade Tauromáquica Portuense, a qual veio a ser destruída por um incêndio em 1926.
Esta praça teria sido levantada no local em que se encontrava uma outra, em 21 de Maio de 1916, quando foi completamente destruída pelos espectadores, que, furiosos com a mansidão dos touros, a reduziram a cacos.
Ainda se tentou erguer uma praça de touros nas Antas, na actual Praça Velasquez, mas o projeto não saiu do papel. 

Sem comentários:

Enviar um comentário