terça-feira, 18 de abril de 2017

(Continuação 1)

Num texto de “O Tripeiro”, Volume 6, de 15/4/1927 se dá conta, a seguir, de uma odisseia no início do século XVIII de uma viagem a cavalo, do Porto à Régua, feita por um inglês:







A propósito das viagens naquela época, o texto seguinte dá-nos também conta, do contexto existente, no que dizia respeito às vias de comunicação:

"Em 1789, James Murphy, depois de conhecer a cidade do Porto, decidiu rumar a Sul, do que nos faz uma notável descrição da primeira parte da viagem:
«Parti para a Batalha numa carruagem que partilhei com um jovem português que ia para Lisboa cursar Teologia. Viajámos durante o primeiro dia com quatro serviçais galegos, utilizados pelos nossos condutores para puxar as viaturas e as suas mulas nos maus troços que apresentava o caminho. É verdadeiramente extraordinário que tão perto da segunda cidade do reino se não encontre um vestígio do que se possa chamar um caminho! Não é, todavia, que se não tenha trabalhado para construir um, mas os trabalhos foram tão mal conduzidos que a primeira tempestade levou consigo a maior parte. Foi-nos impossível avançar sem o socorro destes empregados porque as nossas mulas caíam a cada instante ou enterravam-se na lama e por aí teriam ficado sem a conjugação dos nossos esforços. Pelas quatro horas da tarde mulas e arrieiros, galegos e viajantes, chegámos aos Carvalhos, todos emporcalhados da cabeça até aos pés». 
No primeiro dia James Murphy que viajava numa sege para Lisboa chegou aos Carvalhos e no segundo, depois de 15 horas de viagem, chegou à Arrifana. No terceiro, depois de esperar que os galegos assistissem à missa, pois era domingo, chegou às 5 da tarde a Albergaria-a-Velha. Ao quarto atravessou o Vouga até à Mealhada e atingiu Coimbra às 10h da manhã do quinto dia. No sexto partiu para o Pombal, e no sétimo para a Batalha, sem parar em Leiria. Descansou aqui uns dias para conhecer o mosteiro e seus arredores e partiu para Vila Franca donde seguiu de barco para Lisboa, o que lhe demorou mais dois dias. Teriam sido portanto uns 9 dias úteis de viagem, sempre aos solavancos. 
Em 1841 ainda se levava 7 dias e, em 1862, o 1º. Visconde de Castelões, que fretou uma carruagem puxada a cavalos, “só” demorou 5 dias. Ainda havia gente muito teimosa, rija e saudável!
Por causa destas grandes dificuldades de deslocação por terra se compreende que a maior parte dos viajantes o fizessem por mar, apesar da perigosidade da barra do Douro”. 
Com a devida vénia a Rui Cunha do “portoarc.blogspot”


Em meados do século XIX a ligação Porto Braga, fazia-se ainda, por diligência puxada a bois. Saía do Porto ao escurecer, viajava toda a noite e dia seguinte, e parava em Famalicão onde se pernoitava. Na aurora seguinte continuava a missão, e chegava-se a Braga já no fim do dia.
Quanto à Mala-Posta começou por partir da porta do Correio Geral na Calçada do Combro em Lisboa, ao mesmo tempo que partia de Coimbra uma outra, no sentido inverso.
As viagens realizavam-se às segundas, quartas e sextas e a Mala-Posta cruzava-se e pernoitava na estalagem de Porto de Mós.
Como os poucos passageiros que nela viajavam tinham como destino, ou partida, sobretudo a Universidade de Coimbra, a carreira terminou em 1804.

Aguardava-se então, a abertura da estrada até ao Porto, mas as Invasões Francesas vieram adiar tal desígnio.
Em 1829 é criada a Real Diligência de Posta, que a partir do ano seguinte inicia as viagens de Lisboa a Badajoz, continuando até Madrid, mas este serviço, apenas durou um ano até 1831.
Após a guerra civil (1832/33) só em 1837 se retoma a ideia da estrada Lisboa – Porto no sistema Mac Adam, mas também esta tentativa fracassou.
Mac Adam (1756-1836) foi um engenheiro escocês que inventou as estradas de pedra britada comprimida até conseguir uma superfície unida e lisa. 
“Saudada como “mais um melhoramento que temos na cidade”, a macadamização da Rua de Cedofeita serviria ao jornalista do Periódico dos Pobres (1851.08.06) para defender a utilização de um método amplamente utilizado nas diversas capitais da Europa, “aonde a civilização se acha no maior auge”(…)”porque lá presidem aos trabalhos municipais a economia, solidez, duração e comodidade”. 
Fonte: NONELL, Annie Gunther – “Do Início foi o cascalho, o pó e a lama”, In A Cidade dos Transportes (Mário João Mesquita), catálogo da Exposição, Porto 2008


Finalmente, em 1851 já no governo da Regeneração é aberto concurso para as estradas do Porto a Braga e do Porto a Guimarães, criando-se uma nova carreira de Mala-Posta, a Companhia de Viação Portuense que inicia a sua actividade em 1852, só terminando em 1871.
A Regeneração com António Fontes Pereira de Melo à frente do Ministério das Obras Públicas, a partir de 1852 opera grandes remodelações nos serviços de comunicações.
É utilizado o método «Mac-Adam» na estrada Lisboa-Porto, são adquiridas novas carruagens francesas e novos cavalos e estas duas cidades estão unidas por este serviço.
As estações de muda também sofrem alterações, passando a ter um projecto tipo e a servir também para os viajantes cearem e pernoitarem.
Os transportes rodoviários inter-urbanos, então pela Mala-Posta dão origem à criação de companhias e carreira regulares:

- Mala-Posta e Diligências entre Porto, Braga e Guimarães: 1852 a 1871

- Mala-Posta de Aldeia Galega a Badajoz: 1854 a 1863

- Mala-Posta de Lisboa ao Porto: 1855 a 1864 


Diligência da Mala-Posta Lisboa/Porto 1855 a 1864, Fundação Portuguesa das Comunicações

Modelo à escala da estação de muda da Mala-Posta em Casal de Carreiros

Aqui foi a estação da Mala-Posta entre Lisboa e o Porto em Casal de Carreiros


Em cima o edifício (actual) que foi em meados da década do século XIX a estação de muda da Mala-Posta na Estrada da Mala-Posta, Casal de Carreiros, A-dos-Francos, Caldas da Rainha.

“Devido às deficientes estradas entre Lisboa e Porto, a mala-posta só tem início em 1798 até Coimbra. Chega ao Alto da Bandeira, Gaia, em 1859. Percorria os 300 km em 34 horas, à média de 8,8 Km à hora.
Os passageiros iam de barco até ao Carregado onde apanhavam a mala-posta que parava em 23 estações de muda de cavalos e, só em poucas, os passageiros descansavam e se alimentavam. Nas restantes a muda demorava 10 minutos. Desde o Alto de Bandeira ao Porto os passageiros desciam a pé, carregando as suas bagagens. Só em 1861 a mala-posta chegou à ponte pênsil. Em 1864, com a chegada do comboio ao Porto, a mala-posta Lisboa-Porto terminou.
No dia 4 de Maio de 1853 começou a mala-posta entre Porto e Braga. Saía às seis horas da manhã de R. de Entreparedes e chegava a Braga cerca do meio-dia. Cada passageiro pagava 1440 ou 1200 reis consoante o lugar que ocupava. Tinha 3 mudas durante o percurso. De Braga saía às 3 horas da tarde, chegando ao Porto às 9 horas da noite. Uma pessoa poderia sair do Porto de manhã, almoçar em Braga e regressar no mesmo dia.
A mala-posta para o Minho estava entregue à Companhia Portuense, com estação na R. de S. Lázaro, e custava para Braga 1600 reis, Famalicão 1200 reis, Guimarães 1600 reis por pessoa. As diligências da carreira da Régua saíam da R. Formosa e custavam até Valongo 500 reis, Baltar 800 reis, Paredes 1000 reis, Penafiel 1200 reis, Amarante 2250 reis e Régua 4500 reis; o preço de uma Libra de Ouro.
Na cidade do Porto um dos mais importantes alugadores de trens do Porto era o José Galiza, da Rua do Laranjal.
Havia ainda o Raimundo dos Santos Natividade na Rua Formosa nº 410, onde depois esteve a Lã Maria, o Albano na Rua D. Pedro e a Companhia de Viação em S. Lázaro”.
Com a devida vénia a Rui Cunha




Alquilaria do José Galiza na Rua do Laranjal – Fonte: portoarc.blogspot

Publicidade à alquilaria do José Galiza

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