sexta-feira, 21 de abril de 2017

(Continuação 3)


Em 1858, Albino Francisco de Paiva Araújo não consegue a autorização da «concessão para estabelecer um caminho-de-ferro dos denominados Americanos», embora esta tenha sido obtida pelo Barão da Trovisqueira (também conhecido por ter presidido vários anos à Câmara de V. N. de Famalicão) em 1870, cerca de dez anos depois do primeiro pedido. 
Um decreto de 15 de Agosto de 1870 definia, por meio de cláusulas, as condições em que lhe era dada, ou à empresa que ele representasse, autorização para estabelecer à sua custa, na estrada pública entre a cidade do Porto e a povoação da Foz, esse meio de transporte em via-férrea.
Partiria da Porta Nova, em Miragaia, por nessa altura ainda se trabalhar na abertura da Rua Nova da Alfândega.
Acontece, que não tardou que a referida concessão passasse para a posse de José Dionísio de Melo e Faro e António Tavares Basto.

Em 1873 era autorizado um ramal que principiando no lado norte do Largo dos Mártires da Pátria seguia toda a Rua da Restauração até entroncar na Alameda de Massarelos na citada via-férrea desta cidade à Foz e a Matosinhos. A empresa que recebeu por transferência do barão da Trovisqueira a exploração da linha marginal e do ramal tomou o extenso nome de Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos. A inauguração de tão importante serviço público foi em 15 de Maio de 1872, um ano antes de idêntico acontecimento se assinalar em Lisboa…
…Só em Agosto do ano seguinte (1874) seria assinado, nos Paços do Concelho, o contrato por meio do qual o negociante Vieira de Castro e o engenheiro Evaristo Nunes Pinto podiam estabelecer o caminho-de-ferro pelo sistema americano através das ruas da cidade, ligando bairros entre si e a estação do caminho-de-ferro de norte e sul com o centro da cidade. (Nascia a Companhia Carris de Ferro do Porto)”. 
Fonte - Artigo de J. Fernando Lopes In: portoarc.blogspot.pt

Carro “americano” foi o nome dado em Portugal em meados do século XIX a um meio de transporte ligeiro colectivo de passageiros, precursor do carro elétrico. Também se movia sobre carris, mas por tracção animal. Os primeiros foram construídos nos Estados Unidos, daí o nome de “americano”, pelo qual eram muitas vezes conhecidos.
Prestou o seu serviço à cidade do Porto, entre 1872 e 1904.
No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos em 1832, os “americanos” faziam o percurso Nova Iorque-Harlem, e em Nova Orleães em 1834. O fenómeno do “americano” iria propagar-se pela Europa (Londres, Berlim, Paris, etc.).
Inicialmente, a linha férrea sobre a qual deslizava era saliente, transtornando a circulação pedestre e provocando acidentes.
Os “americanos” acabariam, para obstar aquela situação, por se movimentarem sobre carris embutidos no pavimento (trâmueis, de tramway) em 1852, uma invenção de Alphonse Loubat.
Este tipo de transporte assente no carril (sendo este elemento tecnológico o elemento facilitador para o incremento da velocidade), impôs a normalização do pavimento urbano.
A tracção era efectuada por muares ou cavalos, tornando-se um transporte urbano indicado para operar em zonas densamente povoadas.

O Carro Americano no Museu do Carro Eléctrico


 “…estes carros (os americanos) eram pintados de cores diferentes e iluminados por velas de estearina, colocadas nos cantos superiores direitos, vindo mais tarde a ser usado o petróleo na sua iluminação. No período da noite a luz transparecia através de vidros de diferente colorido, de acordo com o seu destino. De dia, o destino ia indicado numa chapa".
Fonte: Wendel Reis em O Tripeiro, Série V, Ano 1, em 1945


No “Museu dos Transportes” o último “americano” – Fonte: portoarc.blogspot.pt


O decreto de 15 de Agosto de 1870 fixa as cláusulas e condições mediante as quais dá autorização para se estabelecer na estrada pública, entre a cidade do Porto e a povoação da Foz, podendo prolongar-se até Matosinhos, um caminho-de-ferro para transportes de passageiros e mercadorias, servido por cavalos.
Um novo decreto de 27 de Dezembro de 1870 determinava a anulação da concessão, se até 30 de Junho de 1872 não estivesse concluída e entregue à exploração.
No Porto, este serviço teve abertura provisória em Março de 1872, e os veículos faziam a viagem da porta da Alfândega Nova até ao Castelo da Foz (o primeiro troço inaugurado) em cerca de 15 minutos.
A exploração foi executada por uma empresa organizada, que tinha tomado o nome de “Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos”, a “Companhia de Baixo”, e que explorava ainda, um ramal de ligação que começando a norte da Cordoaria, e seguindo pela Rua da Restauração, acabava em Massarelos.
A Câmara de Bouças (Matosinhos) tomou a iniciativa do prolongamento das linhas até Matosinhos, a 1 de Maio de 1873.


Anúncio no Comércio do Porto em 7 de Março de 1872



“Jornal do Porto” 10 de Março de 1872

“A 16 de Maio de 1872 foi inaugurado o caminho-de-ferro americano do Porto a Matosinhos. Segundo uma notícia do jornal “O Comércio do Porto”, depois de terem saído da alfândega nova pelas 11 horas e meia, os veículos puxados a cavalos, transportando um conjunto de ilustres convidados, ao passarem na Foz do Douro, o Castelo de S. João da Foz salvou com artilharia e a Banda de Infantaria 5, que ia num dos carros, tocou o hino de Sua Majestade D. Luís. Refere ainda aquela notícia que dois dos carros chegaram a descarrilar as rodas dianteiras durante o percurso. Porém sem qualquer problema, a não ser o atraso de alguns minutos”.
Texto de Agostinho Barbosa Pereira, In: “ANossaFozDoDouro”


Anúncio no “Jornal do Porto” em 22 de Junho de 1872




A 27 de Março de 1873, é atribuída pela Câmara do Porto a concessão de se estabelecer o caminho-de-ferro pelo “Sistema Americano” pelas ruas da cidade, atribuída a um grupo constituído por António Manuel Lopes Vieira de Castro, e Evaristo Nunes Pinto e surge a “Companhia Carris de Ferro do Porto”, a “Companhia de Cima”.
Nos meses e anos próximos seria feita a exploração de linhas de transporte até Campanhã, Bolhão e Aguardente (actual praça do Marquês de Pombal), assim como o serviço entre a Praça de Carlos Alberto e Cadouços, na Foz do Douro, via rotunda da Boavista e Fonte da Moura, mais tarde estendido a Matosinhos.

“O primeiro serviço público de transportes para Paranhos foi estabelecido no ano de 1873 por meio dos carros americanos que iam do Bolhão ao Largo da Aguardente e da Praça de D. Pedro ou do Carmo (frente à igreja) ao Carvalhido”.
Fonte: Horácio Marçal In S. Veríssimo da Paranhos


Em 12 de Agosto de 1874, ocorre a abertura duma linha desde a Praça Carlos Alberto até Cadouços na Foz, via Boavista e Fonte da Moura, pela “Companhia Carris de Ferro do Porto”, que viria a ficar conhecida por “Companhia de Cima”, na sequência da concessão atribuída ao grupo constituído por António Manuel Lopes Vieira de Castro, e Evaristo Nunes Pinto.
Esta nova companhia já tinha estatutos aprovados desde Agosto de 1873.
A seguir está a cópia da notícia saída no Jornal do Porto, sobre a inauguração do Americano entre o Carmo e Cadouços em 1874.

Notícia do “Jornal do Porto” em 13 de Agosto de 1874


Para complemento da notícia anterior o jornal inseria o menu do repasto que se seguiu.

“Jornal do Porto”

O “Americano Imperial” tinha bancos sobre o tejadilho – Fonte: portoarc.blogspot.pt

A foto anterior foi tirada no início da Rua D. Pedro.
Em 13 de Junho de 1875 a linha dos carros americanos para Campanhã foi aberta. Esta linha seguia da Praça D. Pedro uma rota pelas ruas D. Pedro, do Bolhão e Santa Catarina. Brevemente todo o percurso da Foz (Cadouços) para Campanhã seria feito por uma linha.
A linha do Bolhão à Aguardente foi estendida em 12 de Maio de 1877 à Cruz das Regateiras (Hospital Conde de Ferreira).
Em 1882 a linha da Praça D. Pedro para Ingleses (Infante) foi aberta, e a exploração feita como extensão da linha de Costa Cabral.

Fontes: Wendel Reis em O Tripeiro, Série V, Ano 1, em 1945; portoarc.blogspot.pt



“Jornal do Porto” 15 de Maio de 1877

Americano subindo a Rua dos Clérigos – Ed. Aurélio Paz dos Reis; Fonte: Colecção CPF

“Na foto acima o Americano iniciando a subida da Rua dos Clérigos com seis mulas e outro na Praça da Liberdade acrescentando outras para ajudar a subir a rua”.
Com a devida vénia a Rui Cunha; In: portoarc.blogspot.pt


Os sotas eram muares de reforço, colocados em pontos estratégicos, que ajudavam a vencer troços de determinados percursos de acentuado declive. 

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