quinta-feira, 6 de abril de 2017

(Continuação 10) - Actualização em 16/01/2018

13.5 Futebol, Futebol Clube do Porto e outros clubes da cidade

“Ainda por essa altura (meados do século XIX), os ingleses do Porto, todos os anos, no domingo a seguir à Pascoela, de­pois de terem assistido ao culto na capela de St. James, no Campo Pequeno, atual Lar­go da Maternidade de Júlio Dinis, desciam até aos terrenos do Campo da Torre da Mar­ca, onde agora está o Palácio de Cristal, e jogavam ali a pela, divertimento que, atrás se diz, antecedeu a prática do futebol”.
Germano Silva, In JN



“Foi em 1913/14 o ano de arranque do futebol organizado, com as equipas filiadas a inscreverem-se nas diversas categorias. Em 1ªs, que é o alvo da nossa procura, são 3 os participantes.
O Boavista juntou-se aos fundadores da AF (F.C. Porto e Leixões).
Pena que os jornais da época, e eram 3 na cidade, não dessem o devido relevo a esta dinâmica desportiva, mas havia um preconceito dos bem instalados, relativamente ao futebol, que o impediu. Adivinhassem os jornalistas de então que a posteridade os aguardava, e hoje a informação daqueles tempos fluiria. Assim não foi, e hoje, limitados ainda no acesso ao acervo dos jornais de então, fizemos uma busca por estes 10 primeiros anos, de 1913 a 23, que nos devolveu a informação que aqui vamos compartilhar, embora incompleta.
O que foi o entusiasmo por esse jogo acabado de chegar e que tanto cativou as massas, é história que dificilmente será contada. Dele, também se faria adequado retrato social da cidade, dada a profusão localizada dos “clubes” que todos os dias surgiam. As zonas da cidade onde o operariado mais se concentrava, vivendo junto das fábricas de então, dizem-nos do porquê do magnetismo de tal jogo. Simples nas regras, e quase nada exigindo para ser jogado, depressa se tornou um desporto das massas sem “massa”. Os bem instalados de então, gastavam o seu tempo e fazendas no tennis, por vezes no ciclismo, e não raro no hipismo. Tudo desporto caro. Caro e elitista, porque interdito aos maltrapilhos. Elege-se assim o futebol como passatempo dos simples. A Associação de Futebol acabava de ser fundada (Outubro de 1913), e apenas meia dúzia de clubes a integravam. Mas a cidade regurgitava de clubes. O entusiasmo era indescritível. Os meios de afirmação desses clubes é que escasseavam, e por isso a sua não filiação. Mas não era por isso que o futebol se deixava de jogar. São às centenas os jogos anunciados.
Em apenas 3 meses do início de 1914, o jornal Primeiro de Janeiro cita as vivências de 49 clubes populares mas pomposos no nome, que aqui se lembram:

Aliança Sport Club
Aurora Foot Ball Club
Avenida Foot Ball Club                 Praça da Alegria, 37
Belém Sport Clube                       rua da Lomba, 125
Belleza Sport Club
Club Atlético Portuense
Club da Mocidade Sportiva
Continental Foot Ball Club            rua das Antas, 205
Elite Sport Grupo                          rua do Laranjal, 183
Estreia Foot Ball Club
Estrella do Norte Foot Ball Club
Estrella Foot Ball Club
Foot Ball Club Bonança
Foot Ball Club do Carvalhido
Foot Ball Club do Norte                rua do Bonjardim, 800-2º
Foot Ball Club Monte Alegre
Foot Ball União de Empregados do Commércio
Foot Ball União do Norte
Freixo Sport Club
Girondino Sport Club
Heroísmo Foot Ball Club
Ideal Sport Club
Império Foot Ball Club
Liberdade Foot Ball Club              rua do Godinho, 49
Mirante Sport Club          rua Mártires da Liberdade, 90
Monte Burgos Foot Ball Club rua Monte dos Burgos, 715
Oceano Sport Club
Oriente Sport Clube
Pacífico Sport Club            Praça do Exército Libertador, 79
Primavera Foot Ball Club
Racing Club do Porto                   rua Santo Ildefonso, 396-1º
Sé Sport Club
Sport Club da Bouça
Sport Club dos 13
Sport Club Gulpilhares
Sport Club Império
Sport Club Marquez de Pombal
Sport Club Mocidade das Devezas
Sport Club Nacional
Sport Grupo Telheiro                    rua do Amial, 80
Sporting Club do Norte
Sporting Club do Porto
Sporting Club do Valle
Sporting Club Invicta
Sporting Club Nacional
Sporting Club Primavera
Trindade Foot Ball Club
União Sport Club
Universal Sport Club

Detectam-se então na cidade alguns recintos de jogo, onde estes populares jogam.
É o campo da Serra do Pilar, que ficava do outro lado do rio.
O campo da União do Norte (que ficava na Rua da Igreja em Paranhos), e o campo de Arca d’Água (que mais tarde virá a ser o campo do Amial, o primitivo e já desaparecido).
Outros são citados, embora de forma muito espaçada, dizendo-nos que talvez ficassem então distantes do centro da cidade, onde a maioria dos clubes existia.
É o caso do campo da Constructora (que tinha fábrica na zona de Francos), onde jogava o Monte Burgos Foot Ball Club, ou o campo da rua Coutinho de Azevedo e o campo do Castelo do Queijo e ainda, o campo do Continental F. Club, que se localizava no Monte Aventino, às Antas.
Mas os campeonatos da AF foram muito activos.
Activos, desorganizados e conflictuosos”.
Fonte: “futebolsaudade-victor.blogspot”

“Em 1916 houve em Paranhos, na Rua da Igreja, um bom campo de futebol, que pertencia ao Clube Desportivo Nun’Álvares, que depois mudou para o Carvalhido.
Este campo, volvidos alguns anos, passou para um outro chamado “Invicta Sport Clube” ou “União do Norte””.
Fonte: Horácio Marçal in S. Veríssimo de Paranhos, pag. 80

“A 4 de Março de 1917 em renhido desafio arbitrado por Ávila Nunes e realizado no Campo de Ramalde, o Futebol clube do Porto bate o Académico por 3-2, evidenciando-se na luta pelos vencedores, os esforçados amadores Harrison, Ferreira, Maçãs Fernandes, Floreano, Hamilton, Reis, Camilo e Ivo Lemos, sendo este último, segundo os cronistas e “apesar de ser já quase veterano”, o mais perigoso de todos e, pelos vencidos, os não menos voluntariosos Horta e Costa, José Maria, Neves, Eugénio, Vítor, Cortesão e Ventura”.
In “O Tripeiro” 7ª Série, Ano XXXVI, Nº 03, Março 2017




História da Fundação do Futebol Clube do Porto (FCP)


António Nicolau de Almeida tratava com o pai de uma empresa exportadora de vinho do Porto – e praticava o jogo do pau, o remo e a natação. Em 1893 tinha 20 anos. Pouco depois de se lançar na aventura da fundação do Real Velo Club, partiu em viagem de negócios para Inglaterra. Por lá descobriu o futebol. Consigo trouxe algumas bolas e o desejo de o lançar no Porto fora dos circuitos fechados dos ingleses. E assim, esfriando o ardor que pusera no Velo Clube, decidiu, com os amigos das corridas de bicicletas, fundar outro clube, um clube de futebol.
O Foot Ball Club do Porto. Data escolhida: 28 de Setembro de 1893, nesse dia o Rei D. Carlos festejava o 30º aniversário e a Rainha D. Amélia o 28º.
A notícia foi publicada, em cima da hora, pelo Diário Illustrado, periódico de Lisboa:

Notícia sobre a fundação do FCP


«Fundou-se, no Porto, um clube denominado Foot Ball Clube do Porto, o qual vem preencher a falta que havia no norte do país de uma associação para os jogadores daquela especialidade. No segundo domingo de Outubro inaugura-se o clube oficialmente, com um grande match entre os seus sócios, no hipódromo de Matosinhos.
Ouvimos dizer que serão convidados alguns clubmen de Lisboa. Que o Foot Ball Club do Porto apure um grupo rijo de jogadores e que venha medir-se ao campo com os jogadores do Club Lisbonense, do Real Ginásio Club, do grupo de Carcavellos ou de Braço de Prata, para animar os desafios de football como já o são as corridas de cicles. Eis o que desejamos.»

E, de facto, no segundo Domingo de Outubro realizou-se o «match».
Importa dizer que o referido hipódromo de Matosinhos se situava no chamado areal do Prado, ou Prado de Matosinhos, e abrangia parte do perímetro do que são hoje as ruas Brito e Cunha e Mouzinho de Albuquerque e ainda a Avenida Meneres (Juncal de Cima).
Por aquele prado já em 16 de Fevereiro de 1871 se realizavam espectaculares corridas de cavalos entre a Capela do Senhor da Areia (Senhor do Padrão) e a Igreja de Matosinhos, recebendo os vencedores valiosos prémios da colónia inglesa.
Por esse mesmo prado corria a “ribeira do Prado”, que se formava onde hoje é a Rua de Sousa Aroso, e que resultava da junção de duas outras duas ribeiras, que nascem na freguesia da Senhora da Hora e que, na confluência daquela rua com a Rua D. João I se encontravam, e daí corriam para o mar.
Uma daquelas ribeiras era a ribeira de Carcavelos que passava no sítio que lhe emprestou o nome, e a outra era a ribeira da Riguinha.
Aquelas duas ribeiras estão nos seus percursos totalmente encanadas, excepto um pequeno troço da Riguinha (nasce no sítio das Sete Bicas) no atravessamento do sítio de Real, em que corre a céu aberto.
Voltando ao hipódromo, diga-se que tinha uma tribuna, e era circundado por uma alta vedação em madeira. O hipódromo pertencia ao Jockey Club Portuense que o abandonou em favor da Câmara para urbanização do local.

“O Jóquei Clube Portuense foi fundado na cidade do Porto, em 1875, por membros das famílias da burguesia e da aristocracia portuense da época.
Tinha como objetivos promover o aperfeiçoamento das raças hípicas e o desenvolvimento da criação de cavalos. Para o cumprimento destes objetivos propunha-se fomentar corridas de cavalos, exposições de gado cavalar, escolas de equitação, mercados regulares para a venda de gado cavalar, e fundar um gabinete de leitura destinado a facultar aos sócios do Clube o conhecimento de publicações relativas ao hipismo e criação de cavalos.
Muitas das atividades desenvolvidas pelo Jóquei Clube Portuense tiveram lugar no Hipódromo de Matosinhos, que tinha a sua pista no areal do Prado, abrangendo o perímetro ocupado hoje pelas ruas Brito e Cunha, Mouzinho de Albuquerque e Avenida Menéres.
O Jóquei Clube Portuense promovia anualmente quatro corridas de cavalos, duas na Primavera e duas no Outono.
O desinteresse do público portuense pelas corridas de cavalos promovidas pelo Jóquei Clube Portuense foi um dos fatores que levaram à extinção desta coletividade em 1883”.
Fonte: gisaweb.cm-porto.pt 



“As Farpas”, Ramalho Ortigão, Julho de 1883


O Jornal de Notícias do Porto, de 8 de Outubro, anunciava a propósito do “match” em notícia de primeira página:

«Realiza-se hoje, às duas horas da tarde, no antigo hipódromo de Matosinhos, um 'match' de football, promovido pelo Foot Ball Club do Porto, tomando parte nesta diversão vinte e dois sócios do referido clube. Os dois partidos são 'capitaneados' pelos srs. Nugent e Mackenie, distintos jogadores e sócios do referido clube. Tomam parte os senhores Fernando e António Nicolau de Almeida, Arthur, Lacy e Roberto Rumsey, Alfredo e Eduardo Kendall, Guilherme Anderson, Wlater Mac Connan, Barbosa, António Maria Machado, José Vale, Artur Ramos de Magalhães, Eduardo Sprakey, A. Johnston, Hans Peters, Jorge Hardy, Joaquim Duarte, Henrique Cunha e A. Vieira da Cruz, etc.
Vêm assistir a este torneio as senhoras da colónia balnear da Foz. Este interessantíssimo jogo é uma novidade no Porto e há grande entusiasmo, tendo-se feito já algumas apostas.»

Notícia do JN de 8 de Outubro de 1893

Oito dias depois, o JN inseriu, na sua segunda página, notícia dos treinos do F. C. Porto, acrescentando que, entre a assistência, para além das senhoras da colónia balnear da Foz, estavam, também, as de Leça e Matosinhos. Outras notícias se lançaram de dois jogos, um a 8 e outro a 15 de Outubro, contra o Clube de Aveiro, capitaneado por Mário Duarte.
O entusiasmo cresceu - e a 25 de Outubro de 1893, António Nicolau de Almeida, na assumida qualidade de presidente do Foot Ball Club do Porto, enviou ao presidente do Football Club Lisbonense, Guilherme Pinto Basto, carta que ele logo avisou não era bem um repto, talvez uma solicitação:

«Desejando solenizar a definitiva instalação do Foot Ball Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima, 2 de Novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V. Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o n/convite não representa um repto lançado pelos n/jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão-somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V. Exas. nos revelarão a n/justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Foot Ball Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência ao n/pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida p.ª n/governo. Deus guarde V. Exas. Illmo. Exmo. Sr. Presidente do Football Clube Lisbonense.»


“Anúncio dessa mesma carta seria estampado na página 3 do Diário Illustrado de 29 de Outubro de 1893. Foram linhas escritas por um primo de Guilherme Pinto Basto que, de tão bem informado, acrescentaria que, para a data proposta, não seria possível «reunir, escolher o grupo e dispor a partida em tão curto espaço de tempo» mas, garantido ficava, que o convite fora aceite.
O Football Clube Lisbonense tinha, por essa altura, nas fileiras três jogadores negros: Alfredo Silva, Pascoal e Valentim Machado. Pascoal era a estrela — e depressa ganhou o título de primeiro melhor jogador de Portugal. E Valentim Machado fama no jornalismo desportivo e na poesia. Convencido por Pinto Basto, D. Carlos ofereceu para a disputa uma taça em prata maciça executada pelo joalheiro da casa real, «o célebre Leitão do Largo das Duas Igrejas, ao Chiado» – e solicitou que o match fosse incluído no programa oficial das festas comemorativas do Centenário Henriquino, organizadas, no Porto, à memória do infante, a 2 de Março de 1894. Outra exigência real: «que pelo menos teriam de ser portugueses, devidamente comprovados, seis jogadores de cada team representativo – e os restantes cinco estrangeiros teriam de lá viver há mais de três meses». Ao troféu deu o nome de Football Championship das Cidades de Portugal – porque a sua ideia era que se viesse a disputá-la os «teams representativos das diversas cidades do país».
A equipa de Lisboa seguiu de comboio para o Porto, 14 horas durou a viagem. Três horas após o desembarque, na Campanhã, fez-se o jogo, no campo pertencente ao Oporto Cricktet and Law-Tennis Club, no Campo Alegre.
Estava marcado para as três da tarde, começou um quarto de hora depois. D. Carlos, D. Amélia e os príncipes só chegaram quase no fim da partida – e segundo o Diário Illustrado, «a pedido de Sua Majestade a Rainha, jogou-se mais 10 minutos, sendo previamente estabelecido que não teriam influência no resultado do match que se tinha acabado de jogar».
O Século notou, irónico:
«à entrada do campo, bem como à saída, as Majestades foram muito vitoriadas, principalmente por ingleses».
Os lisboetas venceram por 1-0.
De nenhuma crónica consta o nome do marcador do golo. Sabe-se, apenas, que mereceu ser classificado de esplêndido e que para a sua marcação contribuíram Afonso e Carlos Vilar, Rankin e Paiva Raposo. E segundo o Diário Illustrado parece que os postes das balizas não se encontravam à distância legal um do outro e que a trave não estava à devida altura.
A Taça a que alguns ainda agora chamam D. Carlos era para ser disputada todos os anos. Não passou do primeiro – e ficou em poder de Guilherme Pinto Basto que, quando fundou o CIF, em 1902, a levou, como relíquia, para a sua sala de troféus.


Taça entregue pelo Rei D. Carlos ao clube de Lisboa – Fonte: portoarc.blogspot.pt


Oito dias depois do jogo entre o FC Porto e o FC Lisbonense, O Sport publicava a seguinte nota:

«Depois do match entre Lisboa e Porto nada tem havido de notável no futebol. Apenas no domingo, 11 de Março, alguns sócios do Foot Ball Club do Porto estiveram no campo do antigo hipódromo de Matosinhos, treinando-se durante duas horas» - e essa foi a última referência feita ao Foot Ball Club do Porto de António Nicolau de Almeida...
Vários meses passados, já em 1895 – o Porto agitou-se com outra grande novidade: os carros eléctricos que começaram a cruzar a cidade. Em Lisboa tal sucedeu apenas em 1901 – e um jornalista considerou que com isso grandes riscos se abriam: «Os relâmpagos serão inevitavelmente atraídos pelos cabos eléctricos, pondo a vida dos passageiros em perigo».
Também ao Porto chegaram primeiro os animatógrafos, como se chamaram às salas destinadas a projecções de cinema – desde 1896 que Aurélio da Paz do Reis exibia as suas «fotografias animadas».
O Salão Ideal apenas abriu em Lisboa em 1904, no ano em que se fizeram também as primeiras ligações telefónicas entre as duas principais cidades. Contudo ao telefone já se falava desde o final do século. As entradas para os animatógrafos custavam seis vinténs, mas porque a «obscuridade das salas é propícia à sedução e à intimidade» e pelos filmes passavam «paixões ardorosas» permaneceram vários anos símbolo de escândalo «interdito às meninas da sociedade»...
Em 1896, António Nicolau de Almeida casou-se com Hilda Rumsey, irmã de Arthur e Lacy Rumsey. E ela não descansou enquanto não o desviou dos campos de futebol: porque o achava «jogo muito perigoso» e não tão chique como o ténis, cada vez mais o desporto... high-society.
A 26 de Outubro de 1900 lá esteve ele no aristocrático Sporting Clube de Cascais a disputar torneio de ténis, patrocinado pelo Rei D. Carlos entre as equipas de Lisboa e do Porto.
A seu lado, pelos portuenses, alinharam o irmão Fernando, Laura e Beatriz Brito e Cunha, Miss Kendall, Miss Dagge, Turner, George Dagg, Miranda e Kendal; e, pelos lisboetas, para além do D. Carlos e do Infante D. Afonso e de Guilherme Pinto Basto jogaram Conceição e Teresa Guarda, Leonor Atalaya, Maria de Jesus Salema, António Mendia, Boaventura Mendes de Almeida, Pinto Coelho e Luís Pombal – e Lisboa venceu como antes vencera no futebol.
Em 1906 uma  viagem de José Monteiro da Costa traçou novo caminho: a refundação do FC Porto que ele deixara a hibernar.
Fonte – Site: “fastnewsforum.net”


Um belo dia José Monteiro da Costa partiu para uma digressão por Espanha, França e Inglaterra. Neste último país assistiu a vários jogos de futebol, cujas impressões descrevia com enorme entusiasmo nas cartas que enviava à rapaziada. E tais desejos manifestava de no seu regresso o pôr em prática dentro do Grupo do Destino, que os de cá já se sentiam jogadores do desconhecido jogo. Sabida a sua chegada, foi quase todo o grupo esperá-lo à estação de Ermesinde, para o acompanhar até ao Porto. No trajecto, como homem de acção rápida, explicou resumidamente o que tinha visto e o que tencionava fazer, marcando logo uma reunião para se resolver a melhor forma de pôr em prática o seu projecto, que todos já aplaudiam sem reservas – e depois de bem estudadas todas as dificuldades foi resolvido, sem a mais pequena discordância, jogar futebol...

«Camilo Moniz, um dos que entraram na aventura, contou:
“O José Monteiro da Costa era presidente de um grupo, composto por rapazes, que procuravam gozar a vida o mais divertidamente possível. Ingressar no Grupo do Destino, que tinha como objectivo a folia e como divisa “um por todos e todos por um”, não era coisa fácil, porque a selecção era rigorosíssima e o seu número quase limitado. No entanto, quando era admitido algum novo sócio, realizava sempre o grupo uma festa em sua honra (a festa de baptismo), onde eram postas em jogo as qualidades gastronómicas do novato e mal lhe ia se não desse provas de bem comer e beber. Chá e bolos eram coisas que se dispensava”».
Fonte – Site: “fastnewsforum.net”


Jerónimo Monteiro da Costa, pai de José, horticultor, era, tal como seu filho, membro da União dos Jardineiros do Porto.
Na Rua da Rainha (que com a implantação da República haveria de passar a chamar-se Rua Antero de Quental) existiam uns terrenos arrendados à Companhia Hortícola Portuense, para viveiros de plantas, mas como não eram aproveitados na sua totalidade, fácil se tornou a Monteiro da Costa conseguir a cedência ao Grupo do Destino dessa parte disponível, bem como de uma pequena casita onde instalou vestiário e balneário.


A foto representa uma ceia oferecida a José Monteiro da Costa no seu aniversário


A ceia da foto acima, talvez tenha sido a última do Grupo do Destino e Foot-Ball Club (pois já está presente o jogador Catulo Gadda, que impulsionou à formação do Futebol Clube do Porto), e foi realizada no Restaurante Pinto, na Rua do Correio.
Da esquerda para a direita em 1º plano, estão: António Monteiro, Catulo Gadda, Joaquim Freitas, Joaquim Mendes Correia.
Em 2º plano: Albino Costa, Lopes de Faria, Serafim Loureiro, Pinto Rodrigues, José Monteiro da Costa, António Martins, Baptista Júnior, Manuel Luís da Silva e Manuel Sacramento.
Em 3º plano: António Moreira da Silva, Silvério Monteiro, António Elisabeth, Joaquim Manuel da Costa Júnior e um criado do restaurante.


Desenho do Campo da Rainha


Marcar no terreno cedido pelo horticultor, um rectângulo para o jogo (no início um pequeno campo de 30x50 metros), e espetar umas toscas balizas também não foi difícil, apesar das linhas serem traçadas a pincel molhado em cal desfeita em água. Bola havia, o presidente tinha trazido algumas na sua bagagem. Botas? Compraram-se que fossem fortes, mandaram-lhes pôr gáspeas a reforçar e na sola umas travessas – para que se aproximassem das que Monteiro da Costa tinha comprado em Inglaterra.
As camisolas foram feitas de um pano vermelho e forte que havia nessa época e os calções de uma espécie de ganga azul-escuro. As meias, serviram as que nesse tempo usavam os ciclistas. E foi assim que os rapazes do Grupo do Destino começaram a jogar o futebol. Ou a pensar que jogavam.
Pouco tempo depois da chegada do seu presidente, o Grupo do Destino tinha duas equipas dentro de “uma caixa de fósforos”, no campo improvisado da Rua da Rainha, que davam durante horas pseudo pontapés numa bola, sem terem quem os orientasse, sem progredirem, mas também sem desanimarem.
E como poderiam desanimar se, exceptuando o seu presidente, nunca tinham visto jogar melhor? Quis o acaso favorecer os rapazes do Grupo do Destino.
Um dia foi visitar a Fábrica de Salgueiros (fábrica têxtil), para onde davam as traseiras do terreno arrendado ao Grupo do Destino, um químico italiano, Catulo Gadda. Como de lá tivesse visto saltar uma bola de futebol, não resistiu sem subir ao muro de vedação para averiguar do que se tratava... Ao deparar-se-lhe um grupo de rapazes equipados a dar pontapés numa bola pediu autorização para entrar. Sabia, disse, algo daquilo.
Catulo Gadda tinha sido um bom jogador num dos principais clubes de Itália – e quando deu o primeiro pontapé deixou toda a gente boquiaberta: «a bola atravessara o campo no seu máximo comprimento». Logo ali assinou proposta, ficou a fazer parte do Grupo do Destino. Monteiro da Costa achou que o Grupo do Destino era pequeno para o sonho que desatara, que era hora de clube que «não se confundisse apenas com um grupo de rapazes bem-dispostos, na fronteira da folia ou da libertinagem» – e decidiu: «O nosso futuro clube deve chamar-se Foot Ball Club do Porto, por os seus fundadores serem na sua quase totalidade tripeiros natos, a sua sede na cidade do Porto e o principal desporto a que se vai dedicar - o futebol.»
Porém, como outros desportos, conforme o seu projecto, seriam praticados, tratou de acrescentar à denominação duas mais abrangentes palavras: Sociedade Desportiva.
Que sim, disseram, sem pestanejar, todos os outros. Estranho foi que sendo Monteiro da Costa, republicano nunca disfarçado, anunciasse que as cores do clube seriam as da «bandeira da Pátria» - azul e branco, como nos dias de António Nicolau de Almeida. Houve quem replicasse – e sugerisse as da cidade. Sugestivo, Monteiro da Costa ripostou - que não, que seriam as bandeiras porque «tinha esperança de que o futuro clube havia de ser grande, não se limitando a defender o bom-nome da cidade, mas também o de Portugal em pugnas desportivas contra estrangeiros».
E assim aprovado, entre aplausos ruidosos, todo o grandioso projecto de José Monteiro da Costa. E com os fundos recolhidos pelo Grupo do Destino para a participação com um carro alegórico no cortejo de Carnaval do Clube dos Fenianos financiaram-se as despesas de lançamento do FC Porto, Sociedade Desportiva – e sobretudo com isso se fez no Campo da Rainha o primeiro relvado que houve no futebol português. E ao FC Porto coube igualmente o primeiro desafio contra equipa estrangeira.
Em 1908, nesse jogo que o FC Porto efectuou contra o Real Fortuna de Vigo (actual Celta de Vigo), já foram utilizadas as camisolas com listas azuis-e-brancas.
Apesar das listas verticais terem sofrido diversas alterações ao longo da história, o «azul-e-branco» presente nas camisolas do FC Porto manteve-se até hoje, excepto nos modernos equipamentos alternativos.
O primeiro emblema oficial do FC Porto foi criado em 1910.
Um símbolo muito simples: uma bola de futebol azul com as iniciais FCP a branco.
Antes era usado nas camisolas um emblema com as letras FCP sobrepostas, dentro de um círculo.
Em 1922 seria criado o actual emblema que comporta o brasão da cidade.


À esquerda do jogador Romualdo Torres em 1906, está José Monteiro da Costa e à sua direita António Nicolau de Almeida


Plantel da época 1906-1907

Em 1906 a equipa apresentou-se de camisola branca com colarinhos e punhos vermelhos.

Plantel da época 1907-1908

Em 1907 a equipa da foto acima, apresentou-se equipada de camisola vermelha e calção azul-escuro, tipo ganga.
José Monteiro da Costa é o último na fotografia em cima, da esquerda para a direita.
Andava-se então em discussão para definir o equipamento a usar. Havia quem sugerisse algo parecido com o Arsenal de Londres: encarnado, branco e azul. Houve também os adeptos da cor verde por se tratar das cores da bandeira da Cidade do Porto. 
Monteiro da Costa entendeu que deveriam ser as cores da monarquia - azul e branco da «bandeira da pátria», como nos dias de António Nicolau de Almeida.
Só em 1909, foi aprovada nos estatutos a determinação que estavam apenas permitidas as camisolas azuis e brancas, quer em jogos quer em treinos. As listas eram ainda fininhas, mas ao longo dos anos evoluíram entre mais ou menos estreitas até se fixarem em duas listas verticais azuis, com a central branca. Os calções variaram entre o preto e o azul-escuro, até se fixarem no azul igual ao da camisola.


Primeiro emblema usado nas camisolas do FCP

Primeiro emblema oficial do FCP


Actual emblema oficial do FCP

Sem comentários:

Enviar um comentário