sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

25.295 Um povo sem memória é um povo sem futuro

 
“O título remete à uma inscrição pintada numa das arquibancadas do Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago, no Chile: un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro. A frase está ali em memória aos oposicionistas que resistiam à ditadura de Pinochet, que eram concentrados e torturados naquele estádio. A frase está ali para que o povo chileno não esqueça dos duros anos de ditadura, para que isso nunca mais se repita”.
Cortesia de Camila Barreto
 

 
A frase de abertura, ao longo dos tempos, assumiria outras formas como a atribuída a George Santyana, filósofo e historiador espanhol, que dizia numa sua obra em 1905, que “aqueles que não se conseguem lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”.
Tudo isto, a propósito de uma casa e seus anexos, vizinha do Museu do Carro Eléctrico, encerrada há décadas na freguesia de Massarelos, cuja existência muitos portuenses desconhecem e que merece ser lembrada.
Durante a primeira metade do século XX, era a chamada Casa dos Arcos que foi propriedade de António Joaquim de Carvalho de Pinho e Sousa, onde, mais tarde, durante os anos da ditadura funcionaram, a partir de 10 de Fevereiro de 1942, os Serviços Sociais da Legião Portuguesa junto da Rua da Boa-Viagem (Rua do Capitão Eduardo Romero) e da Rua do Bicalho.
Para muitos as memórias daqueles tempos são dolorosas, lembrando cenas de denúncia de vizinhos, interrogatórios policiais e prisões.
Porém, alguns outros relembram as refeições abundantes, a preços módicos praticados na cantina que aqueles serviços sociais colocavam ao dispor dos mais pobres ou desfiles triunfais pela baixa da cidade no dia 28 de Maio – a teoria da moeda e das duas faces.
 
 

 

Parte das instalações da casa dos Arcos em Massarelos

 
 
A Legião Portuguesa (LP) foi uma organização nacional, integrando uma milícia, que funcionou durante o período do Estado Novo em Portugal, sendo constituída em 1936, com o objectivo formal de "defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo".
Aliás, naquele ano de 1936, o governo visou, sobremaneira, as forças da oposição, nomeadamente o partido comunista.
A cidade do Porto juntou-se, então, à saga governamental.
Assim, em 14 de Setembro de 1936, através dos microfones da Rádio Invicta era solicitado a todos os portuenses dez minutos de reflexão sobre os perigos do comunismo.
No dia seguinte, a imprensa anunciava que estaria para breve a saída do decreto que criaria a Legião Portuguesa.
E, finalmente, no dia 18 do mesmo mês e ano, realiza-se no Palácio de Cristal um comício anti-comunista, que terá como presidente da comissão organizadora, Alfredo Óscar de Magalhães que vai contar com uma multidão incomensurável.
O caminho para o aparecimento da Legião Portuguesa estava pronto.
No dia 24 de Janeiro de 1937, em diversos quartéis da cidade é ministrada a primeira instrução aos legionários portuenses. Entre os recrutas veem-se o conde de Aurora, visconde de Guilhomil, Ramos Norte, Jorge Novais, Fernando Pires de Lima, Alfredo Allen e muitas mais figuras de destaque da cidade do Porto. 
Durante a existência daquela organização fascista, não raras vezes, as forças legionárias também foram, ocasionalmente, empregues na dispersão de manifestações não autorizadas e no fecho de organizações tidas como subversivas, colaborando com a Polícia de Segurança Pública e com a Guarda Nacional Republicana.



 
Folheto anunciando um almoço promovido em 1948, pela Legião Portuguesa, nas suas instalações em Massarelos e ementa respectiva – Fonte: GISA - CMP



Como se pode observar no folheto exibido ele foi dirigido ao Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional, o representante no Porto do partido fascista que estava à frente dos destinos da nação portuguesa, à data.
O almoço em causa destinava-se a comemorar a inauguração dos Serviços Centrais da Assistência Social da Legião Portuguesa do Porto, em Massarelos, em cujas instalações funcionava também uma cantina, numa nave enorme no 1º andar, cujas refeições a preços económicos eram pagas.
No andar de baixo, comiam também, com qualidade, mas sem que pagassem a refeição, os mais pobres.
No interior do folheto referido, para lá da ementa, o regime propagandeava o número de refeições servidas em todo o País, pela Legião Portuguesa, ao longo dos anos, de acordo com tabela abaixo.

 
 

Refeições servidas pela Legião Portuguesa entre 1940 e 1947 - Fonte: GISA - CMP
 
 
 
 
 
Anteriormente, a cantina da Legião Portuguesa esteve na Rua de Fernandes Tomás, onde em 30 de Dezembro de 1944, o Jornal de Notícias ofereceu às crianças pobres da cidade um almoço.
Tal como a PIDE-DGS, o outro braço repressivo do regime fascista, com o qual colaborava na recolha de informações, a Legião Portuguesa não deixou, em geral, saudades aos portugueses.
 
 
 
 

Cartaz de promoção de uma festa da Legião Portuguesa realizada no Palácio de Cristal 


 
 

Desfile de veículo da Legião Portuguesa pela Avenida dos Aliados, em meados do século XX. De notar que o Palácio dos Correios ainda não tinha sido construído


 
 

Castelo do Queijo. Em 1949, foi cedido ao Núcleo da Brigada Naval da Legião Portuguesa do Porto que ali esteve instalado até ao 25 de Abril de 1974
 
 
 
 
 
Como era de prever, ocorrida a revolução do 25 de Abril de 1974, a sede e quartel-general da Legião Portuguesa, sito na Rua de Pedro Hispano, foi assaltado e tomado pelos populares.

 
 
 

O povo tomando de assalto a sede da Legião, na Rua de Pedro Hispano, em 25 Abril de 1974 – Cortesia de Ricardo Pereira


 

Entrada para o antigo quartel da Legião Portuguesa, na Rua Pedro Hispano – Fonte: Google maps
 
 
 
Hoje, nas instalações do antigo quartel da Legião Portuguesa, à Rua de Pedro Hispano, funciona a sede da “Associação dos Deficientes das Forças Armadas”.
Quanto às instalações da Legião Portuguesa, a Massarelos, continuam ao abandono, sem que se alvitre qualquer destino.

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