“O título remete à uma
inscrição pintada numa das arquibancadas do Estádio Nacional Julio Martínez
Prádanos, em Santiago, no Chile: un pueblo sin memoria es un pueblo sin
futuro. A frase está ali em memória aos oposicionistas que resistiam
à ditadura de Pinochet, que eram concentrados e torturados naquele estádio. A
frase está ali para que o povo chileno não esqueça dos duros anos de ditadura,
para que isso nunca mais se repita”.
Cortesia de Camila Barreto
A frase de abertura, ao longo dos tempos, assumiria outras
formas como a atribuída a George
Santyana, filósofo e historiador espanhol, que dizia numa sua obra em 1905, que
“aqueles que não se conseguem lembrar do
passado estão condenados a repeti-lo”.
Tudo isto, a
propósito de uma casa e seus anexos, vizinha do Museu do Carro Eléctrico, encerrada
há décadas na freguesia de Massarelos, cuja existência muitos portuenses
desconhecem e que merece ser lembrada.
Durante a primeira
metade do século XX, era a chamada Casa dos Arcos que foi propriedade de
António Joaquim de Carvalho de Pinho e Sousa, onde, mais tarde, durante os anos
da ditadura funcionaram, a partir de 10 de Fevereiro de 1942, os Serviços
Sociais da Legião Portuguesa junto da Rua da Boa-Viagem (Rua do Capitão Eduardo
Romero) e da Rua do Bicalho.
Para muitos as memórias daqueles tempos são dolorosas,
lembrando cenas de denúncia de vizinhos, interrogatórios policiais e prisões.
Porém, alguns outros relembram as refeições abundantes, a
preços módicos praticados na cantina que aqueles serviços sociais colocavam ao
dispor dos mais pobres ou desfiles triunfais pela baixa da cidade no dia 28 de
Maio – a teoria da moeda e das duas faces.
A Legião Portuguesa (LP) foi uma organização nacional,
integrando uma milícia, que funcionou durante o período do Estado Novo em
Portugal, sendo constituída em 1936, com o objectivo formal de "defender o património espiritual da
Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo".
Aliás, naquele ano de 1936, o governo visou, sobremaneira,
as forças da oposição, nomeadamente o partido comunista.
A cidade do Porto juntou-se, então, à saga governamental.
Assim, em 14 de Setembro de 1936, através dos microfones da
Rádio Invicta era solicitado a todos os portuenses dez minutos de reflexão
sobre os perigos do comunismo.
No dia seguinte, a imprensa anunciava que estaria para breve
a saída do decreto que criaria a Legião Portuguesa.
E, finalmente, no dia 18 do mesmo mês e ano, realiza-se no
Palácio de Cristal um comício anti-comunista, que terá como presidente da
comissão organizadora, Alfredo Óscar de Magalhães que vai contar com uma
multidão incomensurável.
O caminho para o aparecimento da Legião Portuguesa estava
pronto.
No dia 24 de Janeiro de 1937, em diversos quartéis da cidade
é ministrada a primeira instrução aos legionários portuenses. Entre os recrutas
veem-se o conde de Aurora, visconde de Guilhomil, Ramos Norte, Jorge Novais,
Fernando Pires de Lima, Alfredo Allen e muitas mais figuras de destaque da
cidade do Porto.
Durante a existência daquela organização fascista, não raras
vezes, as forças legionárias também foram, ocasionalmente, empregues na
dispersão de manifestações não autorizadas e no fecho de organizações tidas
como subversivas, colaborando com a Polícia de Segurança Pública e com a Guarda
Nacional Republicana.
Folheto anunciando um almoço promovido em 1948, pela Legião
Portuguesa, nas suas instalações em Massarelos e ementa respectiva – Fonte:
GISA - CMP
Como se pode observar no folheto exibido ele foi dirigido ao
Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional, o representante no Porto do
partido fascista que estava à frente dos destinos da nação portuguesa, à data.
O almoço em causa destinava-se a comemorar a inauguração dos
Serviços Centrais da Assistência Social da Legião Portuguesa do Porto, em
Massarelos, em cujas instalações funcionava também uma cantina, numa nave
enorme no 1º andar, cujas refeições a preços económicos eram pagas.
No andar de baixo, comiam também, com qualidade, mas sem que
pagassem a refeição, os mais pobres.
No interior do folheto referido, para lá da ementa, o regime
propagandeava o número de refeições servidas em todo o País, pela Legião
Portuguesa, ao longo dos anos, de acordo com tabela abaixo.
Anteriormente, a cantina da Legião Portuguesa esteve na Rua
de Fernandes Tomás, onde em 30 de Dezembro de 1944, o Jornal de Notícias
ofereceu às crianças pobres da cidade um almoço.
Tal como a PIDE-DGS, o outro braço repressivo do regime
fascista, com o qual colaborava na recolha de informações, a Legião Portuguesa
não deixou, em geral, saudades aos portugueses.
Desfile de veículo da Legião Portuguesa pela Avenida dos
Aliados, em meados do século XX. De notar que o Palácio dos Correios ainda não
tinha sido construído
Castelo do Queijo. Em 1949, foi cedido ao Núcleo da Brigada
Naval da Legião Portuguesa do Porto que ali esteve instalado até ao 25 de Abril
de 1974
Como era de prever, ocorrida a revolução do 25 de Abril de
1974, a sede e quartel-general da Legião Portuguesa, sito na Rua de Pedro
Hispano, foi assaltado e tomado pelos populares.
O povo tomando de assalto a sede da Legião, na Rua de Pedro
Hispano, em 25 Abril de 1974 – Cortesia de Ricardo Pereira
Hoje, nas instalações do antigo quartel da Legião
Portuguesa, à Rua de Pedro Hispano, funciona a sede da “Associação dos
Deficientes das Forças Armadas”.
Quanto às instalações da Legião Portuguesa, a Massarelos,
continuam ao abandono, sem que se alvitre qualquer destino.









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