A velhinha capela da Senhora da Hora centraliza, desde sempre, as
festas na, hoje, freguesia da Senhora da Hora.
Entre 1918 e 1963,
chegou a ser utilizada como igreja matriz.
Na gravura
anterior, à esquerda, é visível o que parece viria a ser, em 1893, o espaldar
da actual Fonte das Sete Bicas que, primitivamente, ocuparia esse espaço.
Esta fonte é muito
antiga e teria sido, antes do lugar entrar na esfera do cristianismo, alvo de
manifestações pagãs.
Sobre a capela, diz
a tradição oral, que ela foi o resultado de uma promessa feita por um mareante,
Aleixo Fernandes, em 1514, para que a santa concedesse à sua mulher, um filho
que tardava.
Conseguido o
desiderato, foi mandada construir uma ermida anexa à fonte da Mãe d’Água, que
Aleixo Francisco administrou até 1544.
Documentação
existente informa que, em 15 de Outubro de 1620, o mordomo da capelinha,
entrega ao arquitecto Gonçalves Vaz, o projecto e a construção da capela das
Sete Fontes, naquele mesmo local, a erigir sobre os alicerces do templo já
existente.
Assim, continuou a
ermida a ser administrada por devotos da imagem da Senhora da Hora, até que, em
1705, assumiu essa administração Romualdo de Almeida Cabral, Major dos Terços
Auxiliares da cidade do Porto e morador na sua Quinta da Foz do Douro,
sucedendo-lhe, em 1706, Miguel d’Almeida.
Em 1815, eram administradores
do templo, André Domingues dos Santos, António José dos Santos e Manuel José
dos Santos.
No dia 14 de
Fevereiro de 1892, foi a capela licenciada pelo Bispo do Porto para uso do
Sacrário na capela, no intuito de poder sair dali a Sagrada Viática (Sacramento
da Eucaristia fora da Igreja) aos enfermos, para lhes ministrar a comunhão,
assim como às pessoas que quisessem confessar-se ali durante a Quaresma.
Em 1911, foi
ordenada a construção da sua torre do sino.
A festa da Senhora
da Hora ocorre nos nossos dias, 40 dias após a Páscoa e a festa do Senhor de
Matosinhos após 52 dias.
No século XIX, os
romeiros rumavam às festas da Senhora da Hora, tomando o caminho que seguia
pela Rua de Cedofeita, passando pelo Ribeirinho (onde se juntavam os mirones a
assistir à passagem, sentados em cadeirinhas, algumas delas de aluguer) para
chegarem ao Carvalhido, pela Rua 9 de Julho: em seguida, tomavam a estrada
que ligava a Francos e rumavam à ponte medieval que atravessava (e, continua a
atravessar) a já formada Ribeira da Granja, em Ramalde do Meio: seguia-se o
Viso e chegavam às Sete Bicas.
Pelo caminho, os
romeiros iam parando em arraiais de passagem na Ramada Alta e nos largos
do Carvalhido e da Prelada, onde restabeleciam as suas forças em barracas de
comes e bebes.
Sobre a festa da Senhora da Hora, de que nos fala os dois
artigos jornalísticos seguintes, ela realizava-se na capela da Senhora da Hora,
no sítio da Mãe d’Água, junto da fonte das Sete Bicas.
“Teve ontem lugar,
próximo do Padrão da Légua, a festa anual de Nossa Senhora da Hora.
Foi grande o número de
romeiros que ontem de tarde peregrinava pelas ruas que conduzem àquele
arrabalde.
Houve muita animação e
não pouco peixe frito.”
In “O Jornal do Porto, 15 de Maio de 1863 – 6ª Feira
“No passado domingo,
20 do corrente, realisou-se o ultimo dia da festa; foi grande a afluência de
forasteiros que excedeu a espectativa, em virtude do estado do tempo não ser
muito convidativo; á noitinha, desabou um forte aguaceiro que pôz tudo em
debandada, e talvez fôsse um bom calmante para os cacos esquentados pela divina
efervescencia bachante.
Durante o dia, tocou a
banda de Ramalde, que não desmereceu os bons créditos de que gosa, sob a
escrupulosa regência do sr. Amorim”.
In semanário “O Sino” de 27 de Maio de 1917
A partir da segunda
metade do século XX, foi determinado erguer um templo mais amplo para
substituir a primitiva capela das Sete Bicas.
“Em 2 de
Maio de 1953, o Bispo do Porto, Sr. D. António Ferreira Gomes, benzeu,
solenemente, a primeira pedra, cujo projecto de arquitectura moderna, da
autoria do Arquitecto Paulo Sampaio, foi acompanhado e orientado pelo Prof.
Eng.º Barbosa de Abreu. Cinco anos mais tarde, em Maio de 1958, era inaugurada,
pelo mesmo Bispo que lançou a primeira pedra, a Cripta. A 11 de
Fevereiro de 1963, o Padre António Gonçalves Porto, benzeu a nova igreja.
A Senhora da Hora, depois de ter sido elevada á categoria
da Freguesia, viu difundir-se extraordinariamente a devoção à sua padroeira,
cuja reputação ultrapassou as próprias fronteiras e das terras mais distantes
do país ocorriam inumeráveis peregrinos à ermida para deporem aos pés da Virgem
dos Milagres as ofertas prometidas em horas aflitivas.
Por sua vez as mães, na missa da festa, no momento da
elevação da hóstia e do cálice, davam a beber aos seus filhos pequenos, um
"remédio", de fabrico caseiro, com a suposta virtude de os imunizar
das maleitas da epilepsia ou da gota. No final da cerimónia davam três voltas á
capela”.
Cortesia de Rui
Cunha
Quanto ao destino
da romagem prendia-se, desde de tempos imemoriais, sobretudo, à visita dos
romeiros à Fonte das Sete Bicas, cujas águas eram consideradas
"milagrosas" e capazes de garantir casamento a quem a bebia. À
referida fonte também eram atribuídos poderes de fertilidade.
O número sete, símbolo
da plenitude, aponta para os sete sacramentos, para os sete dons do Espírito
Santo, para as sete virtudes, para os sete dias da semana, pretendendo dar
significação religiosa a um culto pagão da fecundidade, associado à abundância
da água neste local.
Segundo a tradição,
a fonte foi o sítio exacto onde a Virgem Nossa Senhora da Hora apareceu,
precisamente no lugar Mãe d’Água,
cujo caudal tinha, na origem, várias nascentes, daí o topónimo de Sete Bicas.
Trata-se certamente da tentativa de cristianização de um local pagão.
Na pedra da imagem
acima está inserto: ”AQUI APARECEO
NOSSA SENHORA DA ORA LOUVADO SEJA O SANTISSIMO SACRAMENTO”
“A primitiva Fonte das Sete Bicas, anterior à capela de
Nossa Senhora da Hora, encontrava-se ao centro do adro, em frente à referida
capela. Em 7 de agosto de 1892, em Assembleia Geral [da Irmandade de Nossa
Senhora da Hora e São Bartolomeu] estudou-se a forma de se efetuarem futuras
obras. (…) Era imperiosa a mudança da Fonte das Sete Bicas, situadas no centro
do adro, encostadas à parede que separava o adro do terreno da Irmandade de
Nossa Senhora da Hora, para outro local, na direção Este-Oeste (…) Embora o
orçamento para a obra não tivesse sido aprovado superiormente, procedeu-se à
sua arrematação e caso não fosse aprovada ficaria sem efeito. Foi pouco tempo
depois arrematada pelo único empreiteiro que apresentou proposta, Manuel
Francisco Gomes que se comprometia a construir a obra, conforme a planta, em
condições, pela quantia de 83$000 réis ao mesmo tempo que apresentou 10$00 de
depósito, como garantia, que só receberia dois meses depois da obra concluída”.
Fonte:
paroquiasenhoradahora.pt
No sítio da Mãe d’Água, atrás referido, nascem as ribeiras
do Reguinho e de Carcavelos, que atravessam a Senhora da Hora e Matosinhos, e
se juntam, em Matosinhos-Sul, num único caudal, para desaguarem no mar, perto
do Castelo do Queijo.
Hoje, encontram-se praticamente entubadas, e apenas a
ribeira do Reguinho é visível no sitío de Real de Baixo.
Localizada nas traseiras da capela de Nossa Senhora da Hora,
inserida numa quinta contígua e a Este da Alameda das Sete Bicas, a capela da
Senhora da Penha, aquando da elaboração das Memórias Paroquiais de S. Salvador
de Bouças, de 1758, era pertença do povo.






