sexta-feira, 24 de março de 2017

(Conclusão)

“A melhor vitela ensopada era a do Malhão e tripas à moda do Porto só as da Adega Par­ticular. Quem gostasse de arroz de frango tinha que ir ao Transmontano, mas o me­lhor chispe com feijão branco era o do Ma­drileno, já milhos com orelheira ou carnei­ro guisado com batatas, só os que eram pre­parados pela Gertrudes, no Estanislau. 
E voltamos a este famoso hotel. Era nele que a Gertrudes trabalhava como cozinhei­ra. E era lá que o Porto culto daquele tempo ia comer. Mas não só. Camilo escreveu isto: "ministro ou general que chegasse (ao Por­to, entenda-se) a fazer ou a desfazer revol­tas: cabecilha eleitoral que viesse arregi­mentar as suas hostes, enchendo-lhes a consciência de liberalismo e de carneiro guisado com batatas, era contar com opí­paras comezainas no Estanislau, onde os cabralistas levavam enorme vantagem por serem mais numerosos". 
Disse mais o celebrado escritor. Con­tou que se curou de determinadas doen­ças que o apoquentaram, não com as pí­lulas que lhe haviam sido receitadas pelo dr. João Ferreira, o grande clínico da épo­ca, mas sim com os acepipes cozinhados pela Gertrudes Engrácia.
Um dia, a Gertrudes deixou o Estanis­lau. Foi contratada pelo barão de Forres­ter para confecionar os opíparos banque­tes que ele dava, amiúde, na sua casa da Ramada Alta, por vezes a mais de duzen­tos convivas, escrupulosamente selecionados entre a fina flor da sociedade da­quele tempo. Camilo que era, por regra, um dos convidados deixou de aparecer. Não perdoou a Forrester por ele o ter pri­vado dos jantares no Estanislau feitos pela Gertrudes. 
Quando, em maio de 1861, D. Antónia Adelaide Ferreira convidou o barão de Forrester para ir passar uns dias à Quin­ta do Vesúvio, propriedade daquela, a Gertrudes também foi, para tratar da co­mida. 
No dia 12 daquele mês, D. Antónia Adelaide, o marido, o riquíssimo Silva Torres, mais a filha de D. Antónia e o gen­ro, os condes de Azambuja; o barão de Forrester, a cozinheira e mais dois ou três empregados de D. Antónia saíram de barco do Vesúvio para irem jantar à Ré­gua. Ao passarem no cachão da Valeira, numa volta do rio, uma corrente súbita fez voltar o barco. No trágico naufrágio, morreram o barão de Forrester, a Gertru­des e dois empregados da Ferreirinha”. 
Com a devida vénia a Germano Silva


Palacete do Barão de Forrester na Ramada Alta – Fonte: JN


Em 1849 Camilo Castelo Branco estava doente e hospedado na Hospedaria Francesa, na Rua da Fábrica (ainda não era como é óbvio o edifício que albergaria mais tarde o Hotel Paris, ainda existente), que ocupava um velho palacete, que alojava também, a redacção e tipografia do jornal “Nacional” e haveria de ser alvo de um incêndio, alguns anos mais tarde.
Camilo receberia um dia a visita da sua amiga e velha conhecida, a cozinheira Gertrudes Engrácia.
Camilo conta no texto seguinte do seu livro “O Vinho do Porto”- Processo de uma bestialidade inglesa, como foi salvo das garras da doença pela Gertrudes, ou Gertruria, como a ela se referia.


“(…) Em 1849, a invasão subita de uma anemia vampirisou-me o pouco sangue desoxigenado, desfibrinado, e me poz os ossos em decomposição gelatinosa, a ponto de me deixar em uma ressicação óssea; e, se eu ia durando, é porque já me não restava carne em que se aferrasse a garra adunca da dura Parca de então, ou da «sinistra rameira» como ultimamente lhe chamam os vates.
Gertruria, desde que eu fui á cama, visitava-me a miudo no Hotel-Francez, na rua da Fabrica, um velho palacio que tinha ao rés da rua a officina e escriptorio do Nacional, redigido pelo professor egresso Antonio Alves Martins, Almeida e Brito, Damazio, Parada Leitão, Nogueira Soares, Evaristo Basto, Lobo Gavião, Eu tinha a meu cargo a secção das frioleiras(…).
(…) Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:
—Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!
Que o medico me não deixava comer outra coisa,—balbuciei tão extenuado e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia n'um esvahir de desmaio.
—Sinto-me morrer...—murmurei flebilmente.
—E morre decerto!—confirmou ella com sinistra solemnidade—morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.
Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade do eu. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um pedaço de velho cancêllo desengonçado, a cahir das dobradiças despregadas,—e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mãos de boi guizadas, loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos dentes, e aguçava na abobada palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instrucção primaria. Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engulia inteiros, soffregamente, n'uma intallação.
—Poderei comer a outra mão, snr.ª Gertrudinhas? perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.
—Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?
—Fome, snr.ª Gertrudes, fome!
—Então coma; a natureza que lh'o pede, é por que não lhe faz mal.
E não fez. Fumei um charuto que até áquelle momento me nauzeára. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.
—Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.—Fóra com a porcaria!—bradava gesticulando, com a cólera scientifica e a justiça indefectivel de um medico homeopata.
No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto de Melgaço e meio melão. O medico assistente, o João Ferreira, grande clinico, veio á tarde, e poz-se a farejar.—Que lhe cheirava a melão! se eu praticára a loucura de comer melão?!—A Gertrudes acudiu á minha perplexidade:—que fôra ella quem o comêra; que eu, coitadinho, estava a caldos e aza de franga, uma desgraça!
O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfação tranquillisadora:—que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco rapido, mas regular; auscultou-me a região precordial; já mal percebeu o ruido de folle; porém, continuava a fariscar o melão, desconfiado, chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu perfido halito, quando me auscultava as arterias carotidas.
Á noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa, como amigo. Era Camara Sinval, lente da Escóla Medico-Cirurgica, um que prégava, não por hypocrisia, mas por paixão desvairada da Arte dos Vieira e Bourdaloue, sermões ultramontanos empavezados de sapiencias academicas com grandes empolas de latim pagão. Nunca me receitava. Para as insomnias mandava-me lêr philosophos e poetas epicos. Disse-me que, na sua clinica, empregava primeiro as epopeas desde a Iliada até á Henriqueida; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde Platão até Victor Cousin. Que tivera —contava—um doente de insomnia rebelde que resistira singularmente ao 1.º e parte do 2.º Canto dos Luziadas; mas, perdidas as esperanças de anesthesia, lhe lêra duas paginas de Kant, e o enfermo ficára sopitado n'um lethargo de Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de vantagem para fantasistas supersticiosos. Apenas lhe achava o defeito de ter entre os seus medicamentos uma Eufrazia e uma Ignacia; por que, se tivesse tambem uma Athanasia, seriam as trez Parcas com pseudonymos lethaes. Entretanto, achou-me espantosamente melhor. Não acreditava. Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade—as mãos de boi, os bifes de presunto, as troixas, o melão, a Providencia, sobre tudo a Providencia na pessoa de Gertrudes.
—É uma grande clinica a Gertrudes, disse elle; mas, se ella ámanhã lhe der lampreia, congro de caldeirada, timbal de camarões ou sallada de pepino, aconselho-lhe que se abstenha. A morte pela fome e a morte pelo enfartamento andam sempre de braço dado”.


Na actual Rua do Infante D. Henrique a partir de 1894 surgiu o Restaurante Comercial, um restaurante histórico da cidade do Porto.
Fundado em 1894 pelo espanhol Manuel Recarey Antelo, o Restaurante Comercial era frequentado pelas grandes figuras da cidade do Porto, em parte pelo sucesso da especialidade que tornou a casa famosa o "bife à inglesa", nome dado em prol da rua onde estava, a Rua dos Ingleses atendendo a numerosa colónia de britânicos que residia naquela rua.
Em 1907 instalar-se-ia no prédio que ainda ocupa.

“Situado desde 1907 no piso térreo de um belíssimo edifício de alvores de 1900, possui como característica estética dominante uma harmoniosa articulação entre as linguagens Neoclássica e Arte Nova.
Na fachada principal, virada a Norte, há a destacar um corpo, ligeiramente avançado, modulado em vidro e ferro forjado.
A porta de vai-vem que dá acesso ao interior possui a moldura em carvalho americano, material que também contorna as formas classicizantes da montra. No espaço interior, onde estava bem marcada a apetência Art Nouveau, com as características originais, patentes nos lambrins em carvalho americano e na boiserie, típicos deste estilo.
As paredes possuiam apontamentos decorativos em estuque, sendo percorridas por espelhos de avultadas dimensões.
Outros elementos, como os candeeiros em ferro forjado, seguiam o mesmo figurino estético, apesar de não corresponderem aos originais colocados quando da construção do edifício, uma vez que são provenientes da casa de modas portuense Mattos & Serpa Pinto.
Em finais da década de sessenta, o restaurante é transformado em pastelaria e casa de chá, sendo que em 1982 é alvo de um processo de remodelação da autoria do Arquitecto António Menéres, com o objectivo de preservar as características intrínsecas do edifício, sendo ainda devolvida ao restaurante a sua função original.”
In Direcção-Geral do Património Cultural


O famoso Restaurante “Commercial” na Rua do Infante D. Henrique

O Restaurante Commercial

Restaurante Comercial actualmente - Ed. MAC

Na foto acima o restaurante actualmente, após as obras de recuperação do edifício.
Bem perto onde antes começava a Rua das Congostas, à esquerda para quem subia, estava a Fonte das Congostas adossada a um prédio e, mais acima deste, um restaurante conhecido como o Restaurante do José Villas.

“Do mesmo lado existia o restaurante do conhecido e honrado José Villas, muito frequentado pela colónia Inglesa. Tinha um criado chamado Manoel, o verdadeiro tipo de criado antigo, muito dedicado ao seu patrão”.
In “O Tripeiro”, 3ª Série, nº 132 (12), 15 de Junho 1926

Em 1889 o Hotel e Restaurante “Floresta das Camélias”


O Restaurante Floresta das Camélias ficaria, bem perto, do Parque das Camélias.

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