terça-feira, 28 de março de 2017

(Continuação 3)



Na Rua Alexandre Herculano ao nº 356 existiu o Teatro D. Afonso (na foto abaixo) e que antes foi Teatro dos Recreios, este inaugurado em 1885 e, cuja construção, teve início a 16 de Novembro de 1884.
Pretenderam que se chamasse Chalet, mas, pouco antes da inauguração, em 16 de Junho de 1887, os proprietários mudaram a designação de Teatro Chalet para Teatro dos Recreios.
Em 27 de Outubro de 1888 dá-se a inauguração do Teatro D. Afonso, que funcionou até 1896 no local do antigo Teatro dos Recreios, na Rua de Alexandre Herculano.
Com 2800 lugares destinados ao público, a sua programação era mais virada para a ópera.
Foi com o maestro Ciríaco Cardoso como director, que o Teatro D. Afonso (nome que ele atribuiu ao inicialmente designado Teatro dos Recreios) conseguiu os seus primeiros sucessos. Aconteceu nas temporadas de 1888-90, quando o maestro reuniu um grupo de cantores portugueses e estrangeiros de bom nível com os quais formou uma companhia de ópera cómica que levaria à cena, em português, obras de Offenbach, Weber e outros.
Com sucessivas mudanças na direcção, o D. Afonso viveu depois inúmeros despiques com o seu concorrente Teatro do Príncipe Real, que passavam pela apresentação das mesmas peças, mas com nomes diferentes e pequenas alterações no enredo.
Esteve no local que daria lugar em 1910 ao Éden Teatro.




Teatro D. Afonso




Cópia de requerimento que acompanhava projecto - Fonte: António Coutinho Coelho

Acima está parte do requerimento do empresário Louis Bonneville, solicitando autorização para construir um teatro, num terreno, que tinha sido ocupado pelo antigo Teatro D. Afonso.
A licença de obra é a nº 1288 de 21 Outubro de 1910.
O  Éden Teatro foi um teatro portuense que ficava na Rua Alexandre Herculano e ficou ligado à história da cidade, e do país, pelo papel importante que teve durante o período da revolução monárquica de 1919. O comandante desta revolta foi Paiva Couceiro, aproveitando a instabilidade política após o assassinato de Sidónio Pais.
A chamada "Monarquia do Norte" consistiu num movimento de restauração do regime monárquico em Portugal, presidido por Paiva Couceiro, o qual, a partir de então, passou a intitular-se "Regente do Reino de Portugal" em nome de D. Manuel II, até ao seu regresso ao país. D. Manuel II, filho herdeiro de D. Carlos, estava exilado em Londres, após a implantação da República em 1910.
A monarquia acabou por ter apenas 25 dias de duração, sendo reposta a República, a 13 de Fevereiro do mesmo ano.

O Éden teatro na Rua Alexandre Herculano


No local do edifício mais recente e central na foto ficava o Éden Teatro - Fonte: Google maps


De notar que o prédio que hoje tem o nº 322, visível parcialmente à direita, já existia na foto anterior que é do princípio do século XX.
Pode observar-se por comparação que o pilar de separação dos prédios é o mesmo nas duas fotos.
O local de instalação do teatro está hoje ocupado pelo denominado “Edifício Alexandre Herculano”.


Proclamação da Junta Governativa do Reino, da varanda do edifício do Governo Civil do Porto, a 19 de Janeiro de 1919

Os monárquicos ainda tiveram na mão o norte do país, desde 19 de Janeiro de 1919, mas, em 13 de Fevereiro desse mesmo ano, renderam-se às forças republicanas que entraram no Porto, acabando desse modo com a denominada Monarquia do Norte.
O teatro era um ponto de encontro de simpatizantes da causa monárquica, sendo por isso escolhido como local de aprisionamento e de interrogatório. Segundo os relatos escritos da época, existia no local um piano que tocava enquanto eram levadas a cabo torturas. Tal como sucedeu com vários outros teatros, também o Éden passaria a cinema durante os anos 30 e 40.
O Éden foi demolido por volta de 1948.

Gravura do interior do Éden após assalto dos republicanos



O povo destruindo o Éden

Vista actual e parcial do local - Fonte: Google maps


Entre as duas fotos anteriores compare-se a platibanda superior do prédio que estava adjacente ao teatro.



Lutas da 1ª República

Desde a implantação da República até à Noite Sangrenta, passando pela instauração da Monarquia do Norte, alguns outros factos de convulsões são de assinalar em breve resumo.
A Revolta de 27 de abril de 1913, também conhecida pela Revolta radical, foi uma tentativa de golpe de Estado ocorrida em Lisboa no dia 27 de Abril de 1913, um domingo, visando a destituição pela força do V Governo Republicano, presidido por Afonso Costa. Foi o primeiro golpe organizado por republicanos portugueses contra um governo da Primeira República Portuguesa, sendo inspirado pelos denominados republicanos radicais agrupados na Federação Radical Republicana. A tentativa de golpe levou à criação da denominada “formiga-branca”, uma rede de espiões e caceteiros que dominaria a vida política dos anos subsequentes.
Os manifestantes percorreram então outros quartéis da cidade de Lisboa à procura de adesões, sem o terem conseguido. Em consequência, os militares mais graduados que integravam o movimento foram detidos, entre os quais o capitão-de-mar-e-guerra Álvaro Soares Andrea e o general Fausto Guedes. Foram também detidos muitos civis, entre os quais Mário Monteiro.
O movimento foi dominado, sobrevivendo o governo, mas a instabilidade resultante provocou múltiplos incidentes nos dias imediatos.
Movimento das Espadas (20 a 25 de Janeiro de 1915), ou Golpe das Espadas, foi o nome pelo qual ficaram conhecidos os incidentes de insubordinação militar, em que se destacaram o capitão Martins de Lima e o comandante Machado Santos, que conduziram à demissão, a 25 de Janeiro de 1915, do Governo presidido por Victor Hugo de Azevedo Coutinho (alcunhado de “Os Miseráveis” de Victor Hugo) e à instauração de um governo ditatorial chefiado por Pimenta de Castro, a primeira ditadura do republicanismo português.
O major João Carlos Craveiro Lopes, aquartelado na Figueira da Foz, foi compulsivamente transferido do Regimento de Infantaria n.º 28 para o Regimento de Infantaria n.º 19 em virtude de um caso puramente particular em que fora interveniente, um militante do Partido Democrático e fora objecto de denúncia do Comité Democrático Militar, uma estrutura política ligada àquele Partido.
Os oficiais das unidades aquarteladas na Figueira da Foz protestaram e o movimento alastrou a Lisboa, onde nos dias imediatos os oficiais da guarnição daquela cidade se movimentaram no sentido de se solidarizarem com o ofendido. Foi este protesto que levou ao incidente do Movimento das Espadas, o qual ocorreu a 22 de Janeiro, quando numerosos oficiais do Regimento de Cavalaria n.º 2, liderado pelo capitão Martins Lima, marchou pela Calçada da Ajuda a caminho do Palácio de Belém, onde, em sinal de repulsa, pretendiam entregar as espadas ao Presidente da República, Manuel de Arriaga.
Foram detidos e enviados para bordo da fragata D. Fernando II e Glória, acusados de participarem numa manobra monárquica tendente a desestabilizar a República. Esta acusação caiu quando na tarde desse mesmo dia o comandante Machado Santos, o herói da implantação da República, foi ao Palácio de Belém entregar a espada que utilizara na Rotunda a 5 de Outubro de 1910.
Em consequência do Movimento das Espadas, a 25 de Janeiro o Governo presidido por Victor Hugo de Azevedo Coutinho, cujos membros eram maldosamente alcunhado pelos seus detractores de “Os Miseráveis” de Victor Hugo, demitiu-se e Manuel de Arriaga, num acto que em muito contribuiu para destruir a sua credibilidade como democrata, nomeou o general Pimenta de Castro para governar em ditadura, isto é sem supervisão parlamentar dado estar suspenso o Congresso da República, até à realização de novas eleições. Esta nomeação levaria à destituição de Manuel de Arriaga após a revolta de 14 de Maio daquele ano que depôs o Governo de Pimenta de Castro.
O Sidonismo foi um golpe militar contra o governo da República Portuguesa desencadeado a 5 de Dezembro de 1917. O líder do movimento foi Sidónio Pais, um major de artilharia, professor e político. A revolta triunfou rapidamente, levando à formação de uma Junta Revolucionária Militar, presidida por Sidónio Pais, que assume o poder, ao mesmo tempo que impõe a dissolução do Parlamento e a destituição e exílio do Presidente da República Bernardino Machado.
A 11 de Dezembro foi constituído um novo Governo chefiado por Sidónio Pais, o 15.º governo do regime republicano. Para além dos elementos da Junta Revolucionária, o novo governo integrou três unionistas, dois centristas e um independente. O novo regime começa a ser apelidado pelos seus apoiantes como a República Nova.
No dia 27 de Dezembro de 1917, a República Nova de Sidónio Pais decretou alterações à Constituição Portuguesa de 1911, introduzindo um regime presidencialista, no qual o Presidente do Ministério assumia as funções de Presidente da República enquanto não fosse eleito pelo futuro Congresso o Presidente da República.
Em 28 de Abril de 1918 foi eleito Presidente da República por sufrágio directo e universal, sendo que o candidato único, Sidónio Pais, obteve 468 275 votos. Ficava consolidado o Sidonismo, regime que vigoraria até ao assassinato de Sidónio Pais, em Dezembro daquele ano.
A Monarquia do Norte foi uma contra-revolução ocorrida na cidade do Porto, em 19 de Janeiro de 1919, pelas juntas militares favoráveis à restauração da monarquia em Portugal em plena 1ª Republica portuguesa. Este breve período, também apelidado de «Monarquia do Quarteirão» por só ter durado 25 dias (de 19 de Janeiro a 13 de Fevereiro), foi, em traços gerais, a última profunda manifestação de revolta monárquica com utilização da força depois da implantação da República em Portugal em 1910.
A 19 de Janeiro de 1919, num domingo, no Monte Pedral, cerca da uma hora da tarde, contingentes de todos os corpos da guarnição e da Guarda concentravam-se. Aparentemente parecia mais uma parada militar, mas não era. Ali encontravam-se reunidas as forças militares, contingentes de Infantaria 6 e 18, de Cavalaria 9, de Artilharia 5 e 6, do Grupo de Metralhadoras, da Polícia e da Guarda Republicana, e ainda um pelotão de Cavalaria 11 de Braga, para além de outras tropas.
Paiva Couceiro faz então uma declaração, onde proclamou que o Exército é, acima de tudo, a mais alta expressão da Pátria, e por isso tem que guardá-la nas circunstâncias mais difíceis, acudindo na hora própria contra os perigos, sejam eles externos ou internos, que lhe ameacem a existência. Após o discurso, é levantada a bandeira monárquica e a banda da Guarda toca o Hino da Carta. De seguida, Couceiro faz uma revista às tropas e estas desfilam em continência.
É assim declarada a restaurada Monarquia à uma e meia da tarde de 19 de Janeiro, pelas forças da guarnição militar do Porto, no largo Monte Pedral, em nome de Sua Majestade D. Manuel II (que continuava exilado e que desde 30 de Janeiro de 1912, tinha feito um alegado acordo com o seu primo Miguel de Bragança, no qual, supostamente, este último reconhecia D. Manuel II como legítimo Rei de Portugal e em contrapartida, o monarca português garantia que, no caso de falecer sem descendentes válidos para lhe sucederem nos seus direitos, a sucessão na chefia da Casa Real Portuguesa passaria para o filho de Miguel de Bragança, Duarte Nuno, acordo esse que ficou conhecido como Pacto de Dover).
A Junta Governativa do Reino, sedeada no Porto para organizar o novo regime monárquico, aproveita o corte de comunicações com Lisboa e aproveita para disseminar na população a notícia falsa de que a monarquia se impusera por todo o país e que não haveria volta a dar.
No Norte, no Porto, a revolta só terminou a 13 de Fevereiro. Neste dia, após combates em todo o litoral centro, nomeadamente em Angeja, a guerra civil termina com a entrada dos exércitos republicanos no Porto.
Noite Sangrenta é a designação pela qual ficou conhecida a revolta radical de marinheiros e arsenalistas, que ocorreu em Lisboa a 19 de Outubro de 1921, no decurso da qual foram assassinados, entre outros, António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois dos históricos da Proclamação da República Portuguesa, o comandante Freitas da Silva, secretário do Ministro da Marinha, e o coronel Botelho de Vasconcelos, antigo apoiante de Sidónio Pais no Arsenal da Marinha.
Na origem da revolta terá estado a demissão do governo de Liberato Pinto, e a sua condenação a um ano de detenção (confirmada a 10 de Setembro de 1921 pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército), a seguir à qual um conjunto de militares ligados àquela força policial, a que se juntaram militares do Exército e da Armada, se sublevou.
Nessa noite uma camioneta percorreu as ruas de Lisboa recolhendo algumas personalidades que seriam mais tarde executadas.

Camioneta fantasma usada na Noite Sangrenta – Fonte: portoarc.blogspot.pt


O texto seguinte dá-nos uma outra perspectiva dos anos que se seguiram à implantação da República:

“Normalmente esquecido, no meio das várias convulsões que ocorreram na sociedade portuguesa na segunda década do século XX, o golpe de estado de 14 de Maio de 1915 foi a mais sangrenta revolta ocorrida em Portugal no decurso do século XX e levou mesmo à intervenção estrangeira no país, em plena I guerra mundial.
Após o golpe de estado de 1910, em que um pequeno grupo de republicanos tinha logrado depor a monarquia constitucional, estes tinham tomado o controlo do país.
Foi imposta uma nova constituição republicana, e publicada em 3/Jul/1913, uma lei eleitoral onde se proibia o direito de voto aos analfabetos e às mulheres, tendo sido implementadas alterações legais que com o tempo assumiram um cariz abertamente anti-democrático, radical e mesmo ditatorial.
Após garantirem o controlo do país, as divisões minaram o campo republicano, onde a sede de poder rapidamente levou à sua divisão em três grupos. Os radicais renomearam o partido para Partido Democrático, e logo surgiram duas cisões importantes, os Unionistas e os Evolucionistas. A somar a estas divisões, continuava a haver pressão por parte dos monárquicos, que se organizavam especialmente na Galiza.
O governo português estava isolado internacionalmente. A Inglaterra era hostil ao governo, a Espanha, depois de ter perdido o seu império, olhava para a instabilidade portuguesa com um interesse evidente e a Alemanha olhava para os territórios portugueses com redobrado fervor. Durante 1913 e 1914 cresceu o radicalismo e o país tornara-se ingovernável, nomeadamente com o governo do republicano extremista Afonso Costa (Janeiro de 1913 a Fevereiro de 1914), a que se seguiram dois governos incapazes de Bernardino Machado (Fevereiro a Dezembro de 1914), e posteriormente o governo de Azevedo Coutinho (Dezembro de 1914 e Janeiro de 1915) chamado de governo dos miseráveis. No final de 1914, ocorrera uma crise no Senado e as tensões entre as várias fações republicanas levam a uma situação complexa em que o país fica sem Senado e sem possibilidade de eleger senadores (Já que uma disposição constitucional o impedia na primeira eleição).
No inicio de 1915, no meio de um imbróglio jurídico resultado das «armadilhas» colocadas no texto constitucional e após uma demonstração de mal- estar entre militares do exército, o presidente da república Manuel de Arriaga nomeia chefe do executivo, o mais antigo general do exército, Pimenta de Castro, no que foi visto como uma tentativa dos setores conservadores para evitar o controlo total do país pelas forças radicais e para organizar eleições que tinham sido adiadas desde Setembro de 1914.
Pimenta de Castro era um oficial conservador, que já tinha sido ministro da guerra e que tinha apoiado as primeiras tentativas republicanas para derrubar a monarquia, embora fosse também visto como aliado dos monárquicos liberais. Pimenta de Castro foi assim o líder de um governo de iniciativa presidencial, mas logo atraiu sobre si a raiva e a ira dos radicais republicanos comandados pelo extremista Afonso Costa.
Pimenta de Castro foi empossado a 24 de Janeiro de 1915, e iniciou uma política de apaziguamento destinada a acalmar o país, voltando a estabelecer a liberdade de culto, e direitos civis que os republicanos tinham negado aos monárquicos.
No entanto, rapidamente os extremistas radicais iniciam uma série de protestos aos quais o governo de Pimenta de Castro não pode ou não quer responder.
Os rumores de golpe avolumam-se e a imprensa conservadora de Lisboa, nomeadamente o jornal «O Dia» ainda apela a Pimenta de Castro quando publica nas suas páginas a frase «vista a farda sr. General», dando a entender que deveria ser instaurado um estado de sítio.
Mas Pimenta de Castro, que já tinha marcado eleições para Junho mostra-se mas incapaz de debelar a contestação por parte dos radicais. Ainda manda a Guarda Republicana impedir uma reunião do parlamento a 4 de Março, dado, as eleições terem já sido marcadas para 6 de Junho, mas os radicais não param.
A partir de 4 de Março os radicais passam à oposição frontal e aberta acusando Pimenta de Castro de ditador, ainda que durante essa «ditadura» os opositores tivessem toda a liberdade de expressão, não houvesse censura e fossem tomadas medidas de reconciliação da sociedade.

Os grupos radicais, com Afonso Costa à cabeça, começaram de imediato a conspirar, apoiando-se em organizações de cariz terrorista como o grupo «formiga- branca» e o que restava da «carbonária» (um grupo terrorista que funcionava como braço armado da maçonaria portuguesa), rapidamente se prepararam para voltar a controlar o país.
Beneficiando da influência que tinham especialmente sobre a marinha de guerra (os oficiais do exército eram vistos como conservadores e favoráveis aos monárquicos) é organizado um golpe, que deveria seguir as linhas gerais do 5 de Outubro de 1910.
Antes das 03:00 da manhã de sexta-feira, 14 de Maio, o capitão -de -fragata Leote do Rego dirige-se numa lancha ao cruzador blindado Vasco da Gama. Às 03:20 da madrugada ouvem-se tiros. O grupo comandado por Leote do Rego mata o capitão- de- mar e guerra Assis Camilo, que comandava o navio e que se opôs ao golpe.
Às 03:45 Leote do Rego ordena que sejam disparados três tiros de salva, o sinal combinado com as forças em terra. O navio levanta ferro e vai posicionar-se frente ao Terreiro do Paço onde se concentram os ministérios.
Um pequeno grupo de militares da marinha e alguns elementos da GNR, da Guarda Fiscal e do exército tomaram o arsenal da marinha, na baixa de Lisboa e iniciaram uma distribuição das armas que ali estavam pelas organizações para-militares «formiga-branca» e «carbonária» que se tinham preparado para receber armamento. Estima-se que os grupos de revoltosos terão atingido 7,000.
Às 04:00 da madrugada também se ouvem tiros nas imediações do arsenal do exército, junto à estação de Sta. Apolónia.
Às 06:00 da manhã uma das duas batarias (4 peças de artilharia operacionais) do Regimento de Artilharia nº 1 dirige-se para o alto de Santa Catarina com ordens para alvejar o cruzador Vasco da Gama, que se acredita na altura ser a única unidade naval sublevada. Às 08:00 começa a alvejar os navios. O cruzador protegido Almirante Reis, cuja blindagem é inferior à do Vasco da Gama é atingido. Os navios respondem com fogo contra o alto de Sta. Catarina atingindo residências e provocando vítimas entre os civis com fogo das peças de 150mm.
Ao fim da manhã, com a situação tática em seu favor, Leote do Rego envia um ultimatum ao chefe do governo, que ao início da tarde se vai refugiar com a maior parte dos ministros no quartel da GNR no largo do Carmo, exigindo a sua demissão.
Ainda durante a manhã dessa sexta-feira, forças do regimento de infantaria 16, cercam o arsenal do Alfeite tentando desalojar os revoltosos, mas estes têm apoio dos canhões dos navios da esquadra que bombardeiam as imediações do arsenal, para proteger os revoltosos sitiados.

Também durante a manhã do dia 14, o ministro da Marinha, vice-almirante Xavier de Brito sabendo da situação a bordo do Vasco da Gama, dá ordens ao submarino «Espadarte» que se encontrava ancorado em Belém, para torpedear o cruzador. Porém o comandante do submarino não cumpre as ordens recebidas e dirige-se para a margem sul do Tejo, atracando ao lado de um contra-torpedeiro.
Ao fim do dia, percebendo que não tem apoio suficiente em Lisboa, o chefe do governo, gen. Pimenta de Castro, apresenta a sua demissão, sendo aprisionado a bordo do próprio cruzador Vasco da Gama. 
Na noite de 14 para 15 de Maio, a cidade de Lisboa fica sem policiamento e hordas de assaltantes roubam lojas e casas de particulares.
Na manhã de 15 de Maio continuam os recontros entre forças do exército e forças revoltosas, com o apoio dos navios ancorados no Tejo. Os dois lados tentam um cessar-fogo, mas ao anoitecer de sábado dia 15 de Maio, o cruzador Vasco da Gama ainda continua a disparar sobre Lisboa embora com menos intensidade.
Os planos de Pimenta de Castro previam um acordo com a Espanha, que deveria servir para alinhar Portugal numa posição neutral relativamente ao conflito, no que formaria um bloco com a Espanha. Desta forma, esperava-se aplacar os interesses anexionistas de alguns setores da sociedade espanhola. Por isso, o golpe de 14 de Maio deixou os espanhóis especialmente irritados. A imprensa espanhola da altura justificava a necessidade de a Espanha intervir para salvaguardar os muitos cidadãos espanhóis que viviam em Portugal.
Na segunda-feira 17 de Maio entra a barra do Tejo, o mais poderoso navio de guerra espanhol, o couraçado España (8 canhões de 305mm e 20 de 100mm), e o cruzador protegido Rio de la Plata escoltados por um contratorpedeiro, a que no dia seguinte se junta um segundo. Na baía de Cascais fundeia o cruzador protegido Extremadura.
A França e a Inglaterra aparentam ter ficado alarmadas com a dimensão do contingente espanhol e enviaram navios aparentemente para desincentivar qualquer possibilidade de intervenção espanhola. A Espanha retirará os dois cruzadores protegidos e manterá o couraçado e dois contra-torpedeiros no Tejo durante mais alguns dias, sob o pretexto de proteger os cidadãos espanhóis.
Na Grã- Bretanha, o golpe será seguido com algum interesse, mas não é possível deixar de referir que o transatlântico Lusitânia tinha sido afundado a 7 de Maio (uma semana antes).
Ainda assim a imprensa britânica reagirá de forma violenta contra os golpistas, acusando o exército português de ser uma contínua fonte de desordem e acusando a marinha portuguesa de só servir para bombardear Lisboa.
O golpe de estado de 14 de Maio foi inspirado pelos radicais republicanos mas teve o apoio das estruturas da Maçonaria, de entre as quais se destacou o Grão-Mestre Sebastião Magalhães de Lima.
Lima será mais tarde julgado pela sua participação como Grão-Mestre nos crimes praticados naquele dia.
Já Afonso Costa, nunca reconheceu publicamente que foi o principal instigador do golpe de estado, alegadamente por não querer ficar ligado aos massacres que ocorreram naqueles dias.
Políticos republicanos confirmaram posteriormente ter sido ameaçados e atacados.
Fernando Pessoa dirá sobre o golpe de 14 de Maio, ter sido o mais anti-nacional de todos os golpes. Pimenta de Castro, que dirigia um governo que preparava eleições foi deposto porque quem o depôs não estava interessado no estabelecimento de um regime democrático”.
In Site: “areamilitar.net”



“Foi no Verão do ano de 1906 que os portuenses assistiram à primeira sessão de cinema. Não foi essa a primeira vez que no Porto se projectaram filmes, mas os espectáculos de 1906 marcam, com certeza, o início da longa história portuense da exibição cinematográfica. O espectáculo aconteceu na Feira de, S. Miguel, no campo onde depois nasceu a actual Rotunda da Boavista, que fotografias da época mostram como sendo um espaço aberto com árvores dispersas e uma fila delas, mais alinhadas, anunciando já o que seria depois a avenida em direcção ao Castelo do Queijo. O cinema, como lembram os seus primeiros cronistas, era um espectáculo de feira, de características populares, não obstante a sedução que, desde logo, produziu em todas as camadas sociais. A primeira «sala» da Rotunda não passava de um barracão de madeira e zinco com o nome pomposo de Salão High-Life, o suficiente para o animatógrafo dar os primeiros passos junto dos portuenses. Os responsáveis pelos históricos acontecimentos fílmicos da Feira de S. Miguel foram António Neves e Edmond Pascaud, dois nomes que viriam depois a marcar, até aos nossos dias, de forma incisiva, toda a caminhada da exibição cinematográfica no Porto, ao mesmo tempo que se afirmavam na divulgação do cinema como espectáculo, divertimento e veículo de cultura”.
Com a devida vénia a António Coutinho Coelho

Sobre essas históricas sessões de 1906, escrevia Neves Real:

«Sobre terra estreme, uma fiada de bancos plebeus constituía a "geral". Seguiam-se-lhe, como tribuna de honra, sobre estrado de madeira, as filas de cadeiras a marcar uma distinção e a preservar apropriado acolhimento à "High-Life" c/o Porto que, como a alta-roda de Paris, não desdenhou acorrer a extasiar-se perante as "maravilhosas vistas" que a firma Neves & Pascaud lhe oferecia à razão de 130 réis por pessoa e por sessão. Então era ainda o cinema um menino débil, apesar dos seus onze anos».


Feira de S. Miguel na Boavista

Ainda em 1906 a empresa Neves e Pascaud, responsável pelo Salão High-Life situado na Rotunda da Boavista, decidiu mudar a localização do mesmo, para o então Jardim da Cordoaria, actual Jardim João Chagas. A nova localização, mais central, atraiu um número ainda maior de público. Durante dois anos, António Neves e Edmond Pascaud conseguiram juntar dinheiro suficiente para, em 1908, construírem uma sala de pedra e cal na Praça da Batalha, que viria a ser uma das mais emblemáticas salas de cinema da cidade do Porto.

Publicidade ao “ Salão High-Life” em 15 Fev. 1907 -  Fonte: “A Voz Pública”

High-Life (Batalha) e antigo Batalha


Depois de ter passado pela Boavista e pela Cordoaria, em 29 de Fevereiro de 1908 o Salão High-Life mudou-se para a sua morada definitiva na Praça da Batalha e cujo pedido de licenciamento da construção o situa na esquina da Praça da Batalha e Largo de Santo Ildefonso.
A sala de espectáculos instalou-se no local dos armazéns da “Constructora Campos & Morais”, demolidos em 1907, para a construção do Novo Salão High-Life.

Armazéns da “Constructora Campos & Morais”

No local do edifício da foto acima seria construído o Novo Salão High-Life.
A firma “Constructora Campos & Morais”, tinha instalações fabris na zona de Francos e tinha como uma das suas actividades a conversão de antigos “Americanos” para Carros Eléctricos, trabalhando para a Carris.

“A inauguração do «novo Pavilhão Kinematographico», o Novo Salão High Life, «n’um dos locaes mais centraes da cidade, á praça da Batalha». A nova casa de espectáculos «elegante e luxuosa», seria explorada pelo «Kinematographo Theo Pathé, de Berlim e Pariz», trazido pela mão do empresário E. Pascaud, que havia mandado vir expressamente da casa Pathé Frères, de Paris, as últimas novidades em fotografia animada (O Comércio do Porto, 26.02.1908, pp. 1-2). Abriria finalmente a nova sala a 29 de Fevereiro de 1908 (O Comércio do Porto”, 1.03.1908, p. 2).
O novo edifício de pedra e cal tornou-se de imediato um sucesso, passando a ser considerado um cinema de prestígio. Com os seus 1082 lugares, dispostos entre plateia, tribuna e balcão, foi durante muitos anos um dos maiores cinemas do Porto.
A utilização do termo “Novo” (Salão High-Life) na sua designação não residia no facto de uma casa de espectáculos ser substituída por outra.
Na realidade, o Salão High-Life à Cordoaria, da mesma empresa, continuou a funcionar ainda durante algum tempo, constituindo tal facto, a nosso ver, uma interessante estratégia adoptada pelos seus empresários, explorando este filão nos dois bairros, quer no Oriental (teatral), quer no Ocidental”.
Com a devida vénia a António Coutinho Coelho


Publicidade ao Novo “High-Life” em 29/09/1909, no “Voz Pública”


Em 1913 tomará o nome definitivo de Cinema Batalha e foi ao longo dos anos, sujeito, o edifício, a várias alterações que acabaram por modificar muito o seu aspecto inicial. A sua capacidade de atrair público manteve-se durante os seus 38 anos de existência. Em 1946 foi demolido para dar lugar ao Novo Cinema Batalha.


O Novo Salão High-Life já convertido em “Antigo” Cinema Batalha em 1913


Inaugurado a 3 de Junho de 1947, segundo o projeto do arquitecto Artur Andrade, o “Batalha” foi construído no local do antigo Salão “High Life”.
Foi uma inauguração polémica à data, devido ao excesso de zelo por parte do Estado Novo que mandou destruir um mural da autoria de Júlio Pomar que se encontrava no foyer e que foi apelidado de subversivo. Destino não menos polémico teve o magnífico mural da fachada, delapidado pela ignorância dos senhores do poder devido ao facto de ter nele representados uma foice e um martelo e que hoje, ainda ostenta um baixo-relevo do escultor Américo Soares Braga.

Tudo remonta a 1944 quando o arquiteto Artur Andrade projeta um novo cinema para aquela praça e resolve convidar um jovem de apenas 20 anos para pintar dois frescos. Na inauguração da exposição, o pintor recordara o quanto fora necessário de ousadia para, com aquela idade, assumir a concretização de uma obra com tamanho impacto, com mais de 100 metros quadrados, pintada sobre andaimes e com recurso a novas técnicas. 
Pomar começa a pintar os dois frescos em 1946. O maior ocupava uma parte relevante do "foyer" principal do edifício e o mais pequeno fora pintado numa parede junto ao balcão do cinema. Na data escolhida para a inauguração do Batalha, 3 de junho de 1947, os frescos não estavam concluídos. O pintor, com outros elementos do Movimento de Unidade Democrática, fora preso em abril por ordem da PIDE, a polícia política do regime de Oliveira Salazar. Apenas em outubro daquele ano, Pomar, de novo em liberdade, consegue voltar aos frescos e rematar o trabalho.
Em junho de 1948 eram mandados tapar pela censura salazarista e assim se perdia, pode dizer-se para sempre, o contacto direto com a criação singular de um artista em construção.” 
Com a devida vénia a Valdemar Cruz, In: Jornal Expresso Quinta 

Local em 1945 onde seria construído o novo Cinema Batalha

Interior do Cinema Batalha – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt

Entrada do Cinema Batalha – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt


Exterior do Cinema Batalha à noite – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt



O edifício do cinema Batalha actualmente - Fonte: Google maps



O edifício foi concebido para albergar, para além da sala principal com capacidade para 950 espectadores, um auditório apelidado de “Sala Bébé” com capacidade para 135 espectadores, dois bares e um restaurante com esplanada. Em 2000 fechou devido à forte concorrência dos multiplex dos centros comerciais, mas em Maio de 2006 reabriu graças a uma parceria entre a Câmara do Porto e a Associação de Comerciantes. O espaço foi reformulado sendo modernizado de forma a proporcionar maior conforto aos visitantes. A nova configuração reduziu a capacidade da sala principal para 935 espectadores e o pequeno auditório passou a poder acolher 100 espectadores. O restaurante permaneceu mas um dos dois bares foi encerrado. Em 31 de Dezembro de 2010, tendo finalizado o contrato de gestão, o Gabinete Comércio Vivo entregou o edifício aos proprietários, estando o mesmo encerrado desde então.

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