terça-feira, 20 de janeiro de 2026

25.297 Desastres marítimos às portas de Leixões

 
1. O encalhe do navio grego Hadiotis
 
 
O Hadiotis, um navio de carga a vapor, foi lançado em 1928, em Howden, Tyne, no estaleiro de Northumberland Shipbullding Co. e entregue, em 1929, à empresa de navegação grega Kassos Steam Navigation.
O saudoso Rui Amaro, no texto seguinte, deu-nos uma panorâmica do acontecido, junto ao porto de Leixões.
 

 
“A 15/02/1941, pelas 16h00, começaram a sentir-se ventos tempestuosos do quadrante noroeste com rajadas de 65kmH, as quais por vezes aumentavam de intensidade, formando forte maresia, que penetrava, perigosamente na bacia e na nova doca comercial do porto de Leixões, e das 18h00 às 21h30 passou à situação de ciclone com ventos soprando entre os 128 e 145kmH. Aquele ciclone devastava-tudo por onde passava, eram árvores, automóveis, telhados, casas velhas, embarcações, etc. Por precaução, o sota-piloto-mor António da Silva Pereira, já tinha mandado alguns pilotos para bordo dos vapores surtos no anteporto para resolver qualquer eventualidade, que entretanto surgisse e de facto a sua decisão não foi em vão. No pico do ciclone, o paquete Brasileiro CUYABÁ, 129m/6.672tb, piloto Tito dos Santos Marnoto, transportando passageiros e carga diversa, fundeado a dois ferros ao norte, partiram-se-lhe as duas amarras, situação provocada pela força da ressaca e do vento. Aquele paquete tendo a máquina a trabalhar no máximo, não se consegue deter devido à força eólica do ciclone, apesar das manobras orientadas por aquele piloto, vai de garra e acabando por encalhar junto da entrada da doca nº 1, que por pouco não ficou bloqueada, ficando um pouco adornado.
Também o vapor Grego HADIOTIS, 121m/4.386tb, piloto Francisco José de Campos Evangelista, em lastro, fundeado a dois ferros na Bacia, com a máquina a trabalhar no máximo da sua potência, apanha de lado a força do vento e vai de garra sobre o CUYABÁ, mas aquele piloto, com certa perícia, tenta conduzir o vapor de maneira a impedir o abalroamento com o paquete Brasileiro, que entretanto encalhara, não evitando, que também o HADIOTIS acabe por varar na praia, a sul da rampa do Pescado. Tudo isso depois de ter passado por cima dos escolhos de natureza granítica, que eriçavam o fundo daquela zona portuária, rebentando com eles e rasgando-se a si próprio. O vapor ficou de proa a sul, portanto paralelo à praia. Era impressionante ver um navio tão grande naquela posição e era voz corrente, que ele se não safaria das garras em que caíra, visto que excepcionalmente se formaria outra maré igual à do dia em que encalhara e que só outro ciclone poderia reproduzir. O argumento tinha peso mas não era convincente e muito menos decisivo. Assente sobre rochas rijas, mais salientes umas que outras, força essa, como de facto sucedeu, que algumas lhe amolgaram ou trespassaram o fundo, que todo se deformou mais ou menos”.
Texto de Rui Amaro
 
 
 
Cargueiro Hadiotis encalhado

 
 
 
Entretanto, após o encalhe em Leixões, em 1941, o Hadiotis haveria de ser reparado em Lisboa para onde foi rebocado e haveria de ter alguns anos mais de serviço pela frente, como narra o naco de prosa seguinte.
Assim, em 30 de Dezembro de 1941, o navio sob bandeira suíça (n.º oficial 8) passou ao serviço daquele país sob o nome de EIGER.


 
 



 
 
2. O naufrágio do Silver Valley
 
 
O naufrágio do vapor liberiano Silver Valley aconteceu quando caía a noite do dia 15 de Março de 1963, durante uma forte tempestade no mar.
Mais uma vez, o saudoso Rui Amaro, no texto seguinte, deu-nos uma panorâmica do acontecido.
 
 
 
“A 15-03-1963, já noite fechada, o vapor liberiano Silver Valley, 135m/7.161tb, Silver Star Shipping Corporation, Monrovia, interesses gregos, quando sob mau tempo e fortes pampeiros, que lhe reduziam a visibilidade, procurava o porto de Leixões e foi encalhar no Cabeço da barra do Douro, a cerca de 600 metros para oés-sudoeste do molhe de Felgueiras. O navio que era uma construção "Park Type" Canadiana de 1944, produzida em série, a fim de satisfazer o esforço de guerra, não resistiu à forte ondulação local, tendo em pouco tempo alquebrado, refugiando-se toda a tripulação à proa, suportando o mau tempo e a perigosa maresia que se fazia sentir. Os esforços dos meios de salvamento terrestres e marítimos não conseguiam resgatar os náufragos, pelo que as autoridades marítimas decidiram solicitar a vinda de helicópteros Franceses, que se encontravam em Alverca, e de facto foi a melhor solução encontrada e a primeira operação do género realizada na costa Portuguesa e talvez das pioneiras a nível mundial.
27 homens foram resgatados em cerca de 40 minutos, num vaivém continuo pelos dois helicópteros, cerca das 15h00 do dia seguinte”.
Texto de Rui Amaro
 
 
 
 

Resgate por helicóptero dos 27 tripulantes do Silver Valley

 
 
 

O vapor Silver Valley partido em dois
 
 


3. O encalhe do MV Reijin
 
 
Este desastre aconteceu na madrugada do dia 26 de Abril de 1988, ao largo da praia da Madalena.
MV Reijin, o maior e mais avançado "porta-automóveis" do mundo, à época, naufragou na costa portuguesa na sua primeira grande viagem, cerca de um ano após ter deixado doca seca.
 
 
“O encalhe deu-se na madrugada do dia 26 de abril de 1988, na praia da Madalena (...). O navio japonês transportava cerca de 5400 automóveis da marca Toyota. Vinha do Oriente e tinha feito escala no porto de Leixões, para abastecer e desembarcar duas centenas e meia de carros, com destino à empresa Salvador Caetano, de Vila Nova de Gaia, devendo depois seguir para a costa irlandesa. Navegava sob bandeira panamiana, com uma tripulação de 22 homens, todos coreanos.
O Reijin saiu do porto de Leixões já com sinais de não estar nas melhores condições, devido talvez ao mau acondicionamento da sua carga, ou a imperfeição da sua construção. O barco não tinha mais de um ano e esta foi a sua primeira grande viagem.
Saiu já adornado, prosseguindo a sua rota paralelamente à costa em vez de se fazer ao largo. O mar um tanto ou quanto alteroso nessa noite deve ter dificultado as manobras da tripulação, acabando o Reijin por se aproximar da costa gaiense e encalhar na praia da Madalena.
Já completamente de lado quando embateu nas rochas, o Reijin abriu uma grande fenda, não saindo mais desse local. Alertadas pela população, várias corporações dos bombeiros de Gaia e do Porto, auxiliados por homens-rãs do Instituto de Socorros a Náufragos, procederam às operações de salvamento dos tripulantes. Alguns dos marinheiros chegaram à costa no meio da noite, outros foram recolhidos no mar. Dada a violência do acidente o mesmo provocou um morto e um desaparecido, não tendo sido encontrado o seu corpo nas buscas que se seguiram”.
Cortesia de Porto Desaparecido
 
 
 
 

O MV Reijin, naufragado, na praia da Madalena, em 1988
 
 
 
Foi impossível colocar o MV Reijin a navegar. 
Em 9 de Agosto, iniciou-se o desmantelamento do navio nipónico. Umas partes seguiram para a sucata, outras para o fundo do mar, onde ainda hoje repousam.
No final, após grande polémica acontecida entre as autoridades e associações ambientais, parte do navio foi afundada a 150 milhas (240 km) de distância, outra enviada para a sucata e alguns dos automóveis que o MV Reijin transportava acabaram a 2000 m de profundidade e a 40 milhas (64 km) da costa.

sábado, 17 de janeiro de 2026

25.296 Calendários

 
1. Calendário Perpétuo
 
As letras da palavra “FALCONI” permitem calcular qual o dia da semana de uma data qualquer.
Exemplo A para a data de 17 de Julho de 1906.
Consultando a Tabela I, toma-se 19 no quadro dos séculos e 06 para o ano, e encontramos a letra “N”.
Na tabela II, para a letra “N” e mês de Julho, encontra-se o algarismo 7.
Na Tabela III, para o algarismo 7 e para o dia 17 se confirma que o dia da semana correspondente a 17 de Julho de 1906 foi uma Terça-Feira.


 

Tabela I

 
 

Tabela II (anos comuns e anos bissextos)
 
 
 

Tabela III
 
 
 
Exemplo B para a data de 19 Fevereiro de 1956.
Consultando a Tabela I, toma-se 19 no quadro dos séculos e 56 para o ano, e encontramos a letra “n”, correspondente a um ano bissexto.
Na tabela II, para a letra “n” e mês de Fevereiro, encontra-se o algarismo 3.
Na Tabela III, para o algarismo 3 e para o dia 19 se confirma que o dia da semana correspondente a 19 de Fevereiro de 1956 foi um Domingo.
 
 
 
 
2.1 Cálculo da data da Páscoa
 
 
A Páscoa é fixada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de primavera (21 de Março), caindo entre 22 de Março e 25 de Abril.
Para calcular a data em que cai a Páscoa, de um determinado ano, divide-se o ano por 19 e calcula-se o resto da divisão que acrescentado de 1 unidade, será o valor da incógnita X a introduzir na tabela seguinte que, automaticamente, nos indica o dia de Páscoa.
Por exemplo, para o ano de 2026:
2026/19= 106, com resto 12
X=12+1=13
 
Por consulta da tabela é-nos indicado o dia 2 de Abril ou Domingo seguinte, portanto, por consulta do Calendário Perpétuo, 5 de Abril.
 
 
 
 

Tabela para cálculo da data da Páscoa
 
 
 
 
2.2 Datas relacionadas com a Páscoa
 
 
O Carnaval é uma festa móvel, sempre celebrada 47 dias antes do Domingo de Páscoa, marcando o fim do período festivo antes da Quaresma cristã, que começa na Quarta-feira de Cinzas, logo após a Terça-feira de Carnaval.
O Domingo de Ramos ocorre na semana anterior à Páscoa.
A Festa da Senhora da Hora ocorre, actualmente, 40 dias após a Páscoa.
O Senhor de Matosinhos ocorre, actualmente, 52 dias após a Páscoa.
 
 
 
 
3. Calendário – Contagem dos anos
 
 
O calendário anual antecedente do que hoje nos rege é conhecido por Calendário Juliano e está ligado à intervenção e vontade de Júlio César que, em 1 de Janeiro de 45 a.c. (ano 1 da era de César), pela primeira vez o implementa, tendo sido organizado pelo sábio Sosígenes de Alexandria, no Egipto.
Aquele calendário passa a ter por ano, 365 dias, tornando-o num calendário solar, alinhado pelas estações do ano, uma herança do Calendário Egípcio, criado em cerca de 2800 a.c..
Assim, o ano passava a ter apenas 12 meses, acabando com os meses intercalares romanos.
Júlio César não aceitava o desacerto existente entre o ano civil e o ano real (com as festas das flores de Março a ocorrerem em pleno Inverno) e com o uso religioso do calendário (os religiosos intercalavam mais um mês, caso gostassem do chefe e, caso contrário, não intercalavam o mês, de modo que o chefe fosse exonerado mais cedo! Em 55 a.c., Júlio César já tinha terminado com os meses intercalares!).
Com o Calendário Juliano, de 4 em 4 anos, passou a ser acrescentado um dia ao 6º dia das Calendas de Março (o nosso 24 de Fevereiro) sendo, por isso, chamado de ano bissexto.
Esse dia passaria, mais tarde, a ser acrescentado depois do último dia de Fevereiro.
Para acerto e para que o ano 45 a.c. começasse nas calendas de Janeiro ou primeiro de Janeiro, o ano de 46 a.c. teve um total de 443 dias.
Este ano foi recordado como “o último “ano da confusão”, nas palavras do historiador Macróbio.
A partir do ano 1442 da era de César, uma nova referência na contagem dos anos seria instituída – o nascimento de Cristo.
Assim, em 22 de Agosto de 1422, a era de Cristo passa a ser utlizada, em Portugal, substituindo a “era de César”, que começava em 38 a.C.
Esta última data tem por referência o ano em que a Hispânia Romana foi conquistada por Augusto, durante a guerra civil do segundo triunvirato e já traduzia um acerto do imperador Augusto ao calendário que vinha do tempo de Júlio César.
Portanto, até 1422 no reinado de D. João I, a contagem dos anos fazia-se de acordo com o calendário da “era de César” complementada pelos acertos do imperador Augusto, que relativamente à era da Encarnação ou “Ano de Cristo”, ou Anno Domini (A.D.) então instituída (referência ao nascimento de Cristo) diferia em mais 38 anos.
Assim, para aquele ano de 1422 o A. D. seria 1384, ou seja: 1422-38=1384.
O calendário haveria, mais tarde, de sofrer uma nova adaptação.
Assim, a 24 de Fevereiro de 1582, o papa Gregório XIII reforma o calendário, pela bula “Inter-gravíssimas”, razão, pela qual, se diz que usamos o Calendário Gregoriano. O calendário que reformulou o existente entrou em vigor em 15 de Outubro, do mesmo ano, mas, para isso, foram suprimidos os dias 5 de Outubro a 14 de Outubro de 1582 (nunca foram contabilizados), já que, existia nesse ano, 10 dias de diferença entre o Equinócio da Primavera e o dia 21 de Março, que marcava esse acontecimento astronómico.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

25.295 Um povo sem memória é um povo sem futuro

 
“O título remete à uma inscrição pintada numa das arquibancadas do Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago, no Chile: un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro. A frase está ali em memória aos oposicionistas que resistiam à ditadura de Pinochet, que eram concentrados e torturados naquele estádio. A frase está ali para que o povo chileno não esqueça dos duros anos de ditadura, para que isso nunca mais se repita”.
Cortesia de Camila Barreto
 

 
A frase de abertura, ao longo dos tempos, assumiria outras formas como a atribuída a George Santyana, filósofo e historiador espanhol, que dizia numa sua obra em 1905, que “aqueles que não se conseguem lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”.
Tudo isto, a propósito de uma casa e seus anexos, vizinha do Museu do Carro Eléctrico, encerrada há décadas na freguesia de Massarelos, cuja existência muitos portuenses desconhecem e que merece ser lembrada.
Durante a primeira metade do século XX, era a chamada Casa dos Arcos que foi propriedade de António Joaquim de Carvalho de Pinho e Sousa, onde, mais tarde, durante os anos da ditadura funcionaram, a partir de 10 de Fevereiro de 1942, os Serviços Sociais da Legião Portuguesa junto da Rua da Boa-Viagem (Rua do Capitão Eduardo Romero) e da Rua do Bicalho.
Para muitos as memórias daqueles tempos são dolorosas, lembrando cenas de denúncia de vizinhos, interrogatórios policiais e prisões.
Porém, alguns outros relembram as refeições abundantes, a preços módicos praticados na cantina que aqueles serviços sociais colocavam ao dispor dos mais pobres ou desfiles triunfais pela baixa da cidade no dia 28 de Maio – a teoria da moeda e das duas faces.
 
 

 

Parte das instalações da casa dos Arcos em Massarelos

 
 
A Legião Portuguesa (LP) foi uma organização nacional, integrando uma milícia, que funcionou durante o período do Estado Novo em Portugal, sendo constituída em 1936, com o objectivo formal de "defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo".
Aliás, naquele ano de 1936, o governo visou, sobremaneira, as forças da oposição, nomeadamente o partido comunista.
A cidade do Porto juntou-se, então, à saga governamental.
Assim, em 14 de Setembro de 1936, através dos microfones da Rádio Invicta era solicitado a todos os portuenses dez minutos de reflexão sobre os perigos do comunismo.
No dia seguinte, a imprensa anunciava que estaria para breve a saída do decreto que criaria a Legião Portuguesa.
E, finalmente, no dia 18 do mesmo mês e ano, realiza-se no Palácio de Cristal um comício anti-comunista, que terá como presidente da comissão organizadora, Alfredo Óscar de Magalhães que vai contar com uma multidão incomensurável.
O caminho para o aparecimento da Legião Portuguesa estava pronto.
No dia 24 de Janeiro de 1937, em diversos quartéis da cidade é ministrada a primeira instrução aos legionários portuenses. Entre os recrutas veem-se o conde de Aurora, visconde de Guilhomil, Ramos Norte, Jorge Novais, Fernando Pires de Lima, Alfredo Allen e muitas mais figuras de destaque da cidade do Porto. 
No dia 4 de Março de 1937, na Avenida dos aliados, n.º 22 - 1.º, são abertas inscrições para a formação da Brigada Naval da LP com convites dirigidos a mestres, sócios de clubes náuticos e capitães da marinha mercante.
No dia 23 de Maio, seguinte, ocorre no Palácio de Cristal a apoteose de comemoração da formação da LP.
Durante a existência daquela organização fascista, não raras vezes, as forças legionárias também foram, ocasionalmente, empregues na dispersão de manifestações não autorizadas e no fecho de organizações tidas como subversivas, colaborando com a Polícia de Segurança Pública e com a Guarda Nacional Republicana.



 
Folheto anunciando um almoço promovido em 1948, pela Legião Portuguesa, nas suas instalações em Massarelos e ementa respectiva – Fonte: GISA - CMP



Como se pode observar no folheto exibido ele foi dirigido ao Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional, o representante no Porto do partido fascista que estava à frente dos destinos da nação portuguesa, à data.
O almoço em causa destinava-se a comemorar a inauguração dos Serviços Centrais da Assistência Social da Legião Portuguesa do Porto, em Massarelos, em cujas instalações funcionava também uma cantina, numa nave enorme no 1º andar, cujas refeições a preços económicos eram pagas.
No andar de baixo, comiam também, com qualidade, mas sem que pagassem a refeição, os mais pobres.
No interior do folheto referido, para lá da ementa, o regime propagandeava o número de refeições servidas em todo o País, pela Legião Portuguesa, ao longo dos anos, de acordo com tabela abaixo.

 
 

Refeições servidas pela Legião Portuguesa entre 1940 e 1947 - Fonte: GISA - CMP
 
 
 
 
 
Anteriormente, a cantina da Legião Portuguesa esteve na Rua de Fernandes Tomás, onde em 30 de Dezembro de 1944, o Jornal de Notícias ofereceu às crianças pobres da cidade um almoço.
Tal como a PIDE-DGS, o outro braço repressivo do regime fascista, com o qual colaborava na recolha de informações, a Legião Portuguesa não deixou, em geral, saudades aos portugueses.
 
 
 
 

Cartaz de promoção de uma festa da Legião Portuguesa realizada no Palácio de Cristal 


 
 

Desfile de veículo da Legião Portuguesa pela Avenida dos Aliados, em meados do século XX. De notar que o Palácio dos Correios ainda não tinha sido construído


 
 

Castelo do Queijo. Em 1949, foi cedido ao Núcleo da Brigada Naval da Legião Portuguesa do Porto que ali esteve instalado até ao 25 de Abril de 1974
 
 
 
 
 
Como era de prever, ocorrida a revolução do 25 de Abril de 1974, a sede e quartel-general da Legião Portuguesa, sito na Rua de Pedro Hispano, foi assaltado e tomado pelos populares.

 
 
 

O povo tomando de assalto a sede da Legião, na Rua de Pedro Hispano, em 25 Abril de 1974 – Cortesia de Ricardo Pereira


 

Entrada para o antigo quartel da Legião Portuguesa, na Rua Pedro Hispano – Fonte: Google maps
 
 
 
Hoje, nas instalações do antigo quartel da Legião Portuguesa, à Rua de Pedro Hispano, funciona a sede da “Associação dos Deficientes das Forças Armadas”.
Quanto às instalações da Legião Portuguesa, a Massarelos, continuam ao abandono, sem que se alvitre qualquer destino.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

25.294 “Autópsia” de uma fotografia

 
Prólogo
 
No Verão de 2025, Miguel Carneiro, que compartilha com Susana Fernandes a gestão de “Moreira da Costa, alfarrabistas”, na Rua de Avis, n.º 36, deu-nos a conhecer uma foto antiga, inédita, que lhe tinha sido apresentada por um cliente, possivelmente, da rua onde a sua loja está instalada, desde há muitos anos.
Inicialmente, uma livraria foi fundada no local antes ocupado pelo antigo alfarrabista conhecido como “Casa do Lopes”, situada na Rua da Fábrica, n.º 48, passando, em 1909, para a Travessa da Fábrica, n.º 50.
Hoje, ocupa um espaço no edifício do Hotel Infante Sagres, construído em meados do século XX. É a “Moreira da Costa, alfarrabistas”.
A citada foto carecia de ser estudada e, por isso, quando decidimos fazê-lo, cerca de seis meses após ter tomado conhecimento dela, apercebemo-nos, que o tal cliente da "Moreira da Costa, alfarrabistas", era Nuno Cruz, um estudioso da história da cidade do Porto, que a dá a conhecer em diversas publicações.
Diz, Nuno Cruz, numa delas, a propósito do tema:
 
 
“Pouco antes da Biblioteca Pública Municipal do Porto fechar portas para a sua total remodelação, que a obrigará a estar por mais de cinco anos encerrada, era o meu passatempo preferido ali me deslocar, aos sábados de manhã, na procura de velharias, antiguidades, "ineditidades" nos jornais antigos do Porto. Numa dessas rusgas acabei por encontrar, num pouco conhecido - e de curta vida -- periódico do início do século XX chamado O Porto, uma ou outra imagem surpreendente. A imagem que aqui apresento, levou-me pouco tempo a identificar com acuidade, embora já a tivesse desde 2022. A verdade é que só na última semana "me virei" para ela, com mais atenção”.
Cortesia de Nuno Cruz (9 de Junho de 2025)
 
“…jornal O Porto e tem como título A Carestia da Vida. Triste título... mas falar sobre esses tempos de desespero deixarei para outrem, que o fará de certeza bem melhor do que eu! A legenda da imagem é Venda do azeite na CASA FAVORITA (Castanheira e Fonseca)”.
Cortesia de Nuno Cruz (9 de Junho de 2025)
 
 
 
 

In jornal “O Porto” de 22 de Setembro de 1911 – Cortesia de Nuno Cruz
 
 
 
Estudo
 
 
Sobre a foto publicada no jornal "O Porto", que se auto denominava de monárquico e extra-partidário,  e a propósito da identificação do lugar em que aconteceu a sua recolha, Nuno Cruz apresenta factos irrefutáveis para identificação do local.
Assim, não parece haver dúvidas de que, à direita, está a chamada “Casa da Fábrica”, durante muitos anos, o edifício mais emblemático da Rua da Fábrica, fazendo esquina com a Travessa da Fábrica, que fazia a ligação à Rua da Picaria e que, em meados do século XX, deu o seu espaço ao Hotel Infante de Sagres.
 
 
 

Casa da Fábrica – Cortesia de Nuno Cruz

 
 
Tendo a Travessa da Fábrica a orientação Sul/Norte, do lado nascente do arruamento, como se pode observar, os elementos arquitectónicos da Casa da Fábrica, assinalados (com a oval), na foto acima, têm a sua correspondência, quando comparados com a foto original.


 
 

Travessa da Fábrica, em 1892 – Planta de Telles Ferreira
 
 
 
Na planta anterior, com X está marcada a morada (Travessa da Fábrica, n.º 50), a partir de 1909, da Livraria Moreira da Costa.
Como se pode observar, aquela morada já se encontrava em prédio muito próximo da Travessa da Picaria, pelo que podemos concluir, que ele foi demolido para abertura da Praça D. Filipa de Lencastre.

 
 

Perspectiva da Travessa da Fábrica obtida a partir do fundo da Rua da Picaria. Todos os prédios, à esquerda, onde também se encontrava a Moreira da Costa, foram demolidos para abertura da Praça D. Filipa de Lencastre

 
 
 
Desconhece-se o percurso da Livraria Moreira da Costa até encontrar a sua morada final.
Na mesma planta, observa-se ainda a Casa da Fábrica e, na esquina (norte/poente) oposta da travessa, a casa de Manuel José Gomes do Vale, por si remodelada, em 1823, para sua habitação, cujo chão e grande parte da área adjacente era pertença da Real Fábrica de Tabaco.
Para lá da casa de Manuel José Gomes do Vale, apresentava-se um logradouro interior (Travessa da Fábrica, n.º 17), onde tinha a sua residência e, aí, vivia com seu filho David Castro e a sua nora, a baronesa de Nevogilde, após ter vendido, em 1861, o Palácio das Carrancas à Coroa portuguesa, na pessoa de D. Pedro V.
Junto da residência da baronesa, o seu filho, um reconhecido ilusionista, administrava o Teatro Minerva.
Na foto original, parece que o acesso ao logradouro já foi ocupado por um prédio.
Em 1911, o edifício da esquina (norte/poente), formada pela Rua da Fábrica e da Travessa da Fábrica, já estava ocupado pela firma de comércio de cereais, com razão social, “Castanheira & Fonseca”.
Nesse lado poente do arruamento, o estudo da planta de Telles Ferreira de 1892 e os pedidos de licença de obras para um prédio, que se provará que é o representado na foto original, leva-nos a conclusões definitivas.
Assim, em 18 de Janeiro de 1911, Castanheira e Fonseca solicitava à Câmara do Porto execução de obras para montar uma devanture numa montra e abrir um portal, que obteve a licença n,º 67/1911.
O processo era constituído por um projecto, do qual fazia parte um desenho, com as fachadas voltadas para a Rua da Fábrica e para a Travessa da Fábrica.
 
 
 

À esquerda desenho da fachada voltada para a Rua da Fábrica e, à direita, a fachada voltada para a Travessa da Fábrica do prédio ocupado por Castanheira e Fonseca
 
 
 
 
O desenho da fachada voltada para a Travessa da Fábrica pode ser comparado com a foto original…parece não deixar dúvidas.
Entretanto, quanto à fachada voltada para a Rua da Fábrica, a foto seguinte confirma tudo.
 
 
 

Rua da Fábrica
 
 
 
Na foto acima, as três casas, à direita, apresentam as suas fachadas fora do alinhamento restante, como se pode comparar com a planta de Telles Ferreira e uma foto mais abaixo. Faziam as três moradas parte da antiga casa de Manuel José Gomes do Vale.
Na foto acima, a casa, mais à direita, apresenta, já, de acordo com o projecto atrás mencionado, a devanture solicitada em 18 de Janeiro de 1911.
Na segunda casa, a partir da esquerda, esteve, a Tipografia Ocidental, na Rua da Fábrica, n.º 80, desde 1891 e, depois da morte de Costa Carregal, o seu proprietário, uma outra tipografia, que lhe sucederia até 1913, quando as suas instalações foram então ocupadas pelo jornal diário republicano “O Norte”.
Antes, aquando da ocupação inicial daquela morada pela Tipografia Ocidental, a fachada do prédio já estava recuada do alinhamento da rua, como se pode observar na foto abaixo.
Aliás, aquele desalinhamento das fachadas, como já se referiu, era comum às três moradas, fazendo todas elas, parte da casa de Manuel José Gomes do Vale, como se pode apreciar na planta de Telles Ferreira atrás exibida. 
 

 

Entrada, em 1891, para a Tipografia Ocidental, na Rua da Fábrica, n.º 80, com a sua fachada recuada
 
 

Conclusão
 
 
Parece não haver dúvidas que, a foto original é de 1911, da Travessa da Fábrica que, hoje, é a Rua de Avis.
Importa ainda referir, que sobre aquele local, na Rua da Fábrica, a paisagem urbanística se alterou, como é óbvio ao longo dos anos.

 
 

Rua da Fábrica, próximo da esquina (norte/poente) com a Rua de Avis – Fonte: Google maps

 
 
Na foto acima, observa-se a Livraria Bertrand, que já foi Porto Editora e que aí começou por se instalar em 1944.

 
 

Porto Editora, na Rua da Fábrica, em 1944
 
 
 
 
Na esquina (norte/poente), entre as ruas da Fábrica e de Avis esteve, desde 1951, a Livraria e Papelaria ASA.


 
 

Livraria ASA
 
 
 

Rua de Avis, em perspectiva actual, aproximada, à da fotografia original  – Fonte: Google maps


 
A Rua de Avis, acima na foto, vai terminar na Praça D. Filipa de Lencastre que foi começada a implantar a partir da década de 1940 e determinou a demolição de um importante aglomerado habitacional.

 
 
 

Levantamento da Praça D. Filipa de Lencastre

sábado, 13 de dezembro de 2025

25.293 Apontamentos para uma abordagem à indústria portuense de curtumes

 
Em Portugal, a indústria de curtumes começa a desenvolver-se a partir do século XVI, assistindo-se a uma concentração de artesãos dos curtumes em Guimarães, Porto e Alcanena.
Não tendo este sector da actividade económica grande expressão, hoje, na cidade do Porto, esteve, no entanto, bem presente, principalmente, durante o século XIX e nas primeiras décadas do século XX, quando chegaram a existir cerca de meia centena de fábricas afectas a essa indústria.
A curtição das peles tem, mesmo, tradução prática em topónimos, de que é exemplo, o referente à “Rua dos Pelames”, à Sé.
Devido a arranjos urbanísticos, no tempo dos Almadas, segundo a opinião do Dr. Jorge Ricardo Pinto, a indústria dos curtumes é transferida da Sé, no que diz respeito ao tratamento de pelicas, para a zona das Fontainhas, Praça da Alegria e S. Vítor e, no que concerne ao tratamento da sola, para a Rua do Bonfim, Rego do Lameiro e Esteiro de Campanhã.
O tratamento de pelicas era executado em pequenas unidades familiares e as do tratamento da sola em unidades industriais que empregavam, já, dezenas de trabalhadores.
Em 1820, na cidade do Porto existiam as seguintes unidades industriais para o tratamento da sola: Dâmaso da Silva Guimarães, Rua de Santa Catarina, a S. Marçal (Bolhão); Vicente José Aguiar, no Lugar da Póvoa; Penha & Ribeiro, ao Esteiro de Campanhã; Manuel Joaquim Simões & Irmão, no Lugar de Campanhã de Baixo; Joaquim José Pinto da Silva, na Ribeira de Abade, Valbom.
Em 1877, o Porto tinha 11 fábricas de curtumes.
No Rego do Lameiro a fábrica de curtumes, existente em meados do século XIX, ficou para a posteridade, ao ser mencionada num passeio reflexivo de Manuel Quintino, no romance de Júlio Dinis, “Uma Família Inglesa” e, num inquérito de 1881, era propriedade de António José Mendes Sampaio.
O tratamento da sola exigia, preferencialmente, que as unidades industriais estivessem junto de fluxos de água, o que era o caso dos lugares do Esteiro de Campanhã e do Rego do Lameiro e, regra geral, atendendo à matéria-prima, em causa, era acompanhada nas imediações por fábricas de sabão.
 
 
 
“Fonseca & Ferreira”
 
 
No Esteiro de Campanhã, esteve, desde meados do século XIX, a Fábrica do Esteiro de Campanhã, comprada em 1859, pelos brasileiros de torna-viagem, Caetano José Ferreira e Inácio Pinto da Fonseca.
A fábrica, em ruínas, foi recuperada surgindo, assim, a “Fonseca & Ferreira” que se apresentaria na Exposição Industrial de 1861, com um bom sortido da sua produção de couros e que, naquele ano, já usava o vapor e a possibilidade de tratar 12.000 couros.
  
 

Fábrica do Esteiro, Lavandaria de Lãs e Fábrica de Sabão, a poente do Palácio do Freixo, no Esteiro de Campanhã
 
 
 
Como se observa no Bilhete-Postal acima, o complexo industrial dá guarida à Fábrica do Esteiro, uma “Lavandaria de Lãs” e a uma “Fábrica de Sabão”. 
 
 
 
 
 
Curtumes Gama
 
 
Porém, a maior fábrica para tratamento da sola, desde a primeira metade do século XIX, era propriedade do industrial António Domingos de Oliveira Gama e situava-se, na Rua do Bonfim e, no início do século XX, tinha na mesma área geográfica de influência, aquela unidade fabril que laborou durante toda a primeira metade do século XX, na Rua Lameira de Cima, n.º 5, de propriedade de Domingos de Oliveira Pinto.
Em 1940, a propriedade já era de Américo Rodrigues Alves, situada no mesmo local de sempre (Lugar de Lameira de Cima) que, hoje, tem como curiosidade que o seu chão se situava no arruamento que margina a sul o Estádio do Dragão.


 
 
António Domingos de Oliveira Gama
 
 
O industrial António Domingos de Oliveira Gama teve a sua unidade fabril na Rua do Bonfim, onde era feito o tratamento da sola. Possivelmente, a fábrica já existiria em meados do século XIX.
Em 6 de Novembro de 1856, na qualidade de proprietário, António Domingos de Oliveira Gama solicitava obras, à Câmara do Porto, para uma morada da Rua do Bonfim, que obteve a licença de obra n.º: 179/1856.
Chegou a ter ao dispor mais de 50 operários e meios mecânicos para o batimento da sola e para proceder aos despejos dos fluídos.
Anualmente, por lá se preparavam cerca de 20.000 couros.
António Domingos de Oliveira Gama teve residência no Monte do Bonfim ou Monte das Feiticeiras, às Eirinhas (2), como vai indicado na planta abaixo.
 
 
 

Localização da casa e quinta de António Domingos de Oliveira Gama, cuja área ficou para a posteridade como Quinta do Gama, junto da Rua de Barros Lima (1), no local que, mais tarde, em parte, seria ocupado pelos depósitos de água dos SMAS – Fonte: Planta de Telles Ferreira de 1892
 
 
 
A Quinta do Gama ficaria, também, até aos nossos dias (2025), como uma área de ocupação de habitação operária.
Em 1871, António Domingos de Oliveira Gama fazia parte da vereação camarária, quando a edilidade era presidida por Francisco Pinto Bessa, pois foi escolhido para preparar os arranjos festivos para a visita que se iria realizar, no ano seguinte, dos imperadores do Brasil.
 
 
“Na vereação de 1 de Julho de 1871, foi estabelecido que: se fizesse uma recepção condigna, o que obrigava a terem um orçamento para esse efeito; se levantasse um pavilhão, na praça da Ribeira, «para recepção de S.M. Imperial»; se cantasse um Te Deum na igreja da Lapa; e se nomeassem comissões de ruas «a fim de promoverem os festejos possíveis e condignos de tão Augusto Hospede, e dos brios dos Portuenses». Como responsáveis para «dirigir todos os trabalhos concernentes as demonstrações festivas por parte da Câmara, e bem assim da nomeação dos cidadãos que deverão compor as comissões de ruas», foram nomeados, na mesma sessão, três vereadores: António Domingos de Oliveira Gama; Manuel Justino de Azevedo; e Augusto Pinto Moreira da Costa”.
Cortesia de Joaquim Jaime B. Ferreira Alves
 
 
 
António Domingos de Oliveira Gama teve pelo menos dois filhos: António Domingos de Oliveira Gama Júnior e Guilherme Augusto de Oliveira Gama.
Do primogénito sabe-se que foi casado com Carolina Rosa Simões de Oliveira Gama, que faleceu com 22 anos, em 15 de Julho de 1877.
Desconhece-se como, em 8 de Novembro de 1883, António Domingos de Oliveira Gama Júnior aparece como requerente/proprietário em solicitação de obras à Câmara do Porto, para a Quinta das Virtudes, à Rua dos Fogueteiros, que receberá a licença de obra n.º: 905/1883.
Quanto a Guilherme Augusto, o seu percurso de vida será feito na indústria dos curtumes.
 
 
 
Guilherme Augusto de Oliveira Gama
 
 
Esta empresa acabaria pela zona de Francos, na Rua Direita de Francos, n.º 230.
Antes, foi fábrica de curtumes de “Guilherme Augusto Oliveira Gama, Sucº, L.da”, mais conhecida por Fábrica do Gama.
Actualmente, e desde há alguns anos, em seu lugar, foi construído um grande edifício de apartamentos.
A empresa começou a actividade, de facto, em 1894, no Campo 24 de Agosto, n.º 142, situando-se a uma trintena de metros, a jusante da “Companhia de Fiação Portuense”, em instalações arrendadas por 200$000 réis por semestre, com os capitais de António Nunes de Sousa Bonfim, um brasileiro de torna-viagem que, como muitos, tinha feito fortuna no Brasil.
De início, algum do capital da empresa pertencia, também, a Brunner & Hitzemann, o que dava à firma um ar de respeitabilidade.
Guilherme Augusto de Oliveira Gama tinha conhecimento da actividade de curtir peles, por exercê-la na fábrica, ao Monte do Bonfim, do seu pai, António Domingos de Oliveira Gama. 
Tendo-se incompatibilizado com o progenitor, foi aplicar os seus conhecimentos para a fábrica de curtumes de Joaquim Dionísio Jorge, ao Campo 24 de Agosto.
Guilherme Augusto de Oliveira Gama acaba casado com Leopoldina Bonfim de Oliveira Gama, uma brasileira que acompanhou o seu pai, António Nunes de Sousa Bonfim, no seu regresso a Portugal.
Em 1901, Guilherme Augusto de Oliveira Gama já tem responsabilidades na fábrica que lhe chega ao regaço pela via matrimonial e vai emprestar, para sempre, o seu nome à firma
Não havendo descendentes do enlace, atrás referido, Guilherme Gama chama para consigo trabalhar um sobrinho de sua mulher e afilhado de ambos, Luís Bonfim de Brito Barreiros.
Guilherme Gama morre em 11 de Março de 1909 e a sua viúva, no início do ano de 1910, vende a empresa ao seu sobrinho.
A fábrica vai crescendo o que obriga à sua mudança, em 1918, para a Rua Direita de Francos.
Neste ano, Luís Bonfim Barreiros cede uma quota a seu irmão José Barreiros, que já era seu empregado e a firma passa de sociedade em nome individual para sociedade por quotas, com denominação social “Guilherme Augusto Oliveira Gama, Sucº, L.da”.
 
 
 

Facsimile de papel de carta de “Guilherme Augusto Oliveira Gama, Sucº, L.da”
 
 
 
 

Primeiras instalações, na Rua Direita de Francos, de “Guilherme Augusto Oliveira Gama, Sucº, L.da”

 
 
Em 1928, Luís Bonfim Barreiros vai dar sociedade a Fernando Galhano, que tinha fundado, ao Amial, a Empresa Industrial de Curtumes e a Nova Empresa Industrial de Curtumes, mas que não se sentia confortável no desempenho da sua actividade naquelas funções.
Da associação resultante, as quotas ficaram assim repartidas: Luís Bonfim Barreiros – 50%, José Barreiros – 30% e Fernando Galhano – 20%.
Nos anos seguintes, entram para o comando da empresa, o filho de Fernando Galhano, o filho e o genro de Luís Bonfim Barreiros e, mais tarde, o genro de Galhano.
Em 1966, a firma passa a sociedade anónima e a ser “ Curtumes Guilherme Augusto de Oliveira Gama, SARL, mais conhecida pela Fábrica do Gama.
Mais tarde, será “Curtumes Gama S.A.”.
O século XXI seria o fim da linha para a empresa centenária.
 
 
 

Fábrica do Gama, em Francos
 
 
 
 
Fábrica de Curtumes do Bessa
 
 
Uma outra fábrica de curtumes importante da cidade foi a Fábrica de Curtumes do Bessa, fundada em 1852, por António Bessa Leite, cujas instalações se situavam à face da actual Rua António Bessa Leite, donde haveriam de sair os fundadores da Fábrica Portuguesa de Curtumes de Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda e, de que, hoje, só resta o local ocupado por elegante zona habitacional e uma chaminé.
António Bessa Leite, juntamente com o seu avô, em 1832, eram dados como sócios da Real Fábrica de Curtumes da firma Bernardo Clamouse Browne & Cia, situada na Póvoa de Vilar, ao Campo Alegre, que tinha sucedido a uma outra firma com existência entre 1807 e 1815, também, da órbita da família dos Clamouse Browne.
Os Bessa eram gente abastada e descendiam de Manuel Gonçalves Bessa, proprietário de vastas terras em Lordelo do Ouro, conhecidas como a Quinta do Bessa, que se estendia pelos lugares de Fonte Arcada e da Mazurra, indo da igreja de Lordelo até à Avenida da Boavista (zona do Foco) e, incluindo, parte desta.
Seria, então, em terrenos daquela quinta, que a Fábrica de Curtumes do Bessa foi construída em 1852, por decisão de António Bessa Leite (pai) (1799-1873), que acompanhado pelo seu irmão Henrique, cedera a sua posição na firma Bessa, Dourado & Cia, com instalações na Póvoa de Vilar.
Falecido, em 1873, o fundador da Fábrica de Curtumes do Bessa, sucedeu-lhe o seu filho, com o seu nome, António Bessa Leite, que se haveria de revelar um grande empresário e grande benfeitor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, tendo-se mantido solteiro, e acabando por ser dono de uma fortuna colossal que já vinha de herança de família.
Um pouco antes da morte de seu pai, António Bessa Leite tinha constituído com Miguel Augusto Cardoso (cunhado do falecido, pois era casado com uma irmã da, entretanto, viúva, Delfina Claudina Bessa), a firma Bessa & Cardoso, que dirigiu até à sua morte em 11 de Setembro de 1905.
De acordo com o texto seguinte, entre os muitos herdeiros dos bens de António Bessa Leite, é de destacar o seu sobrinho António de Bessa Ribas.
 
 
 
Revista “O Tripeiro”, Série Nova, Ano Vi, N.º 6


 
 

Vista aérea da Fábrica de Curtumes do Bessa, c. 1950


 
 

Área habitacional antes ocupada antes pela Fábrica de Curtumes do Bessa – Fonte: Google maps

 
 

A chaminé que restou da Fábrica de Curtumes do Bessa – Fonte: Google maps

 
 
 
As instalações da Fábrica de Curtumes do Bessa foram demolidas na transicção de séculos, mas o seu funcionamento tinha sido encerrado muito antes.



Fábrica Portuguesa de Curtumes de Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda.
 
 
Em 15 de Setembro de 1937, Manuel Alves Monteiro e António Bessa Ribas constituem uma sociedade por quotas, a Fábrica Portuguesa de Curtumes de Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda.
Manuel Alves Monteiro estava ligado à indústria de curtumes, já que tinha trabalhado na Fábrica de Curtumes do Bessa, que tinha sido fundada, em 1852, por António de Bessa Leite e, da qual, era sócio António de Bessa Ribas.
A sociedade criada adquire, então, com o apoio do Banco Borges & Irmão, entretanto, as instalações da Companhia Portugueza de Cortumes, fundada em 1917 e, à data, em liquidação, estabelecendo aí a sua sede, no local que ainda hoje ocupa, na Estrada Exterior da Circunvalação ao Amial.
 
 
 

Construção de instalações da Fábrica Portugueza de Cortumes
 
 
 

Instalações da Companhia Portugueza de Cortumes, na Estrada da Circunvalação, ao Amial
 
 
 
No final dos anos 40, do século passado, com uma 2ª geração de gestores, personalizada em Josué Monteiro e Almiro Monteiro, dá-se uma acentuada expansão da empresa.
O surgimento de materiais alternativos ao couro não foi impedimento do seu contínuo desenvolvimento.
Em 1952, vai iniciar funções na empresa o engº Durval Carteado Mena, já uma experiência de 20 anos no sector, passando a ocupar funções de direcção industrial e técnica.
Então, a Companhia Portuguesa de Curtumes vai associar-se à Nova Empresa Industrial de Curtumes e que tinha sido Empresa Industrial de Curtumes.
É o momento de implantação no mercado do calçado com materiais alternativos ao couro.
Em 1962, arranca o fabrico de plásticos e, em 1967, de couro artificial.
É alargado o fabrico aos artefactos de borracha que, para além do calçado, serve também a indústria automóvel e de electrodomésticos.
Neste âmbito, é adquirida a empresa Flexopol, em 1973, que se dedicava ao fabrico de peças de borracha com metal. Depois, outra empresa é adquirida, a WoodMilne, com expressão no sector do calçado e material ortopédico.
No início da década de 70, a Companhia Portuguesa de Curtumes toma o nome de Monteiro, Ribas – Industrias S.A, quando empregava 700 pessoas e ocupava 42.000m2.
Em 1993, no Porto, apenas é feito o tratamento de peles, pois tinha sido inaugurada uma fábrica de curtumes nova, em Alcanena, e estabelecida uma participação numa fábrica na China.
Em 2010, a área de curtumes seria vendida e foi estendida uma diversificação para o sector das Embalagens Flexíveis, continuando a preponderância no sector da borracha.
Antes, em 2008, tinha sido dado termo à ligação associada à empresa Nova Empresa Industrial de Curtumes", a qual terminou a sua actividade em 19/09/2008, passando esta empresa a denominar-se Carneiro Ribas e Sousa, SA, situada na Rua do Ameal, nº 831 e que, entretanto, entrou em liquidação e já encerrou.

 
 
 



Fábrica de Curtumes do Amial

 
 
Entrada das instalações da Fábrica de Curtumes do Amial – Fonte: Google maps
 
 
Aquela empresa de curtumes, sedeada na Rua do Amial, era bem antiga, começando por se chamar Empresa Industrial de Curtumes do Amial.


 
 


Fábrica de Curtumes do Riobom
 

Uma outra unidade fabril de referência deste sector industrial foi a Fábrica de Curtumes Riobom, de Joaquim Riobom dos Santos, próxima do Largo Baltazar Guedes, no início do século XX.

 
 

Fábrica de Curtumes do Riobom (1), em desenho de projecto apresentado à Câmara do Porto em 1908

 
 
Como se vê acima, a fábrica ficava ao lado da entrada da ponte ferroviária Maria Pia.


 

Fábrica de Curtumes do Riobom, no Monte do Seminário


 
 

À direita da Ponte Maria Pia, observa-se a Fábrica do Riobom

 
 

Construção da Ponte Maria Pia (a Fábrica do Riobom ainda não foi edificada)

 
 
 
Publicidade em 1908




Fábrica de Curtumes de Valbom
 
 
Como curiosidade diga-se que esta unidade fabril chegou até aos nossos dias e o destino das suas instalações foram alvo de muita polémica. Situava-se em Ribeira de Abade, Valbom, face à EN 108.
Também conhecida como a Fábrica do Julião, por ter sido propriedade do industrial portuense Julião de Freitas Guimarães.


 
 

Fábrica de Curtumes de Valbom, antes e, depois – Cortesia de “Valbom de então e não só”
 
 
 
“Considerada uma das primeiras fábricas de curtumes de Portugal, o edifício classificado com valor patrimonial e arquitetónico, com 250 anos de história, foi sempre mais conhecido por fábrica do JuIião, por ter sido pertença do industrial portuense Julião de Freitas Guimarães (daí o nome) que "veio" para Valbom em 1880, transferida do esteiro de Campanhã. Mas antes de ser fábrica de curtumes do Julião em 1880, já era fábrica dos mesmos artigos em 1852.
Em 22 de Setembro de 1852, a mesma fábrica e terreno circundante - a quinta - foram, entre outros bens, objecto de dote para casamento de Dª Maria Beleza de Andrade (7ª Senhora de Levandeiras).
Não foram contudo os curtumes a sua primeira ocupação. Antes, foi destilaria de aguardente (!!), propriedade de D. Bartolomeu Pancorbo (percursor ou co-autor da ideia que serviria de base à criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro). Assim, a sua primitiva edificação datará de 1753 -1756.
Em 2002, o edifício foi adquirido por uma imobiliária com o propósito de aí construir um condomínio de luxo. Envolvida em polémicas várias, depois de um incêndio e uma alteração ao plano de urbanização de Valbom, permitiram a sua demolição em 2008”.
Cortesia de “Valbom de então e não só” (11 de Junho de 2019)