domingo, 26 de abril de 2026

25.302 A velhinha Rua Chã e a moderna Avenida Antunes Guimarães

 
Rua Chã
 

“Numa passagem do "Santuário Mariano", de Frei Agostinho de Santa Maria, referindo-se aquele às mil e uma invocações que se fazem de Nossa Senhora, e ao aludir à capela onde, no Porto, se venerava a imagem de Nossa Senhora do Ferro, aquele cronista situava-a "nas proximidades da Rua Chã das Eiras" explicando logo a seguir que a rua tinha este nome por ser ali "…que se faziam as eiras em que se debulhava o trigo…"
A Rua Chã é das mais antigas artérias da cidade. Sabe-se que já existia, pelo menos, em 1293 e que inicialmente se compunha de dois troços distintos: um que ia da entrada da Rua do Loureiro até à calçada de Vandoma e se chamava simplesmente Rua Chã; outro que da Calçada de Vandoma ia até ao cimo da Rua do Corpo da Guarda e que se chamava Rua das Eiras. E como uma parte completava a outra chegou a ter a designação de Rua Chã das Eiras, pois, quando toda aquela zona ficava do lado de fora do muro velho, ou seja da parte de fora da muralha romana, muito antes da existência da muralha fernandina, parece que se aproveitava a planura do terreno e a sua privilegiada exposição ao sol para ali se secarem os cereais que eram do Cabido.
Relativamente à Rua Chã, o frade beneditino Pereira de Novais, autor seiscentista de várias obras sobre o Porto, é da opinião que esta designação provém do facto de se tratar de "(…) uma rua plana, grande e espaçosa(…)" acrescentando que "(…) se diz chã por ser plano o seu pavimento(…)".
A partir destas diferentes opiniões, poderemos fazer as nossas opções.
Há 600 anos, exactamente em 1408 aconteceu nesta rua uma grande desgraça. Todo o casario que era, naturalmente, feito de madeira, foi devorado por um pavoroso incêndio. Ainda naquele mesmo ano, a Câmara, então profundamente interessada na efectiva resolução dos verdadeiros problemas do burgo, ordenou que tudo fosse rapidamente reconstruído mas que as casas deviam ser feitas em pedra.
Surgiu, entretanto, um problema que impedia a reconstrução das moradias com a rapidez exigida.
Pouco tempo antes, os "siseiros" (cobradores do imposto da sisa) haviam mandado fechar o Postigo de Carros, aberto na muralha fernandina, em frente à igreja de Santo António dos Congregados, não permitindo que por ali transitassem nem pessoas nem carros. A Câmara protestou juntando o seu clamor aos dos lavradores.
Da parte de fora da cerca, ou seja, onde posteriormente veio a ser aberta a actual Praça da Liberdade, ficavam as melhores hortas e os lavradores que delas cuidavam, viam-se obrigados a dar uma grande volta quando para elas levavam o estrume que vinham buscar à cidade. A Câmara pretendia que se reabrisse o postigo porque era através dele que passavam os carros de bois com a pedra, a madeira e a cal indispensáveis para a reconstrução das moradias que tinham ardido”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
 

Calçada de Vandoma em 1940 – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal
 
 
 
 
“Houve por aqui perto uma rua com a designação de Belomonte.
Uma "Rua de Belomonte que fica detrás da Rua de Cima de Vila" consta de um documento do arquivo do Hospital de Rocamador do ano de 1498. Deve ser a mesma artéria que vem citada noutro documento com a mesma origem: "...Rua de Belomonte, detrás da Rua Chã...".
Como é óbvio a Rua de Belomonte para as bandas do convento dos dominicanos naquela data, ainda não existia.
Em 1503, aqueles frades dominicanos da Ordem dos Pregadores aforaram, ou seja, alugaram para a construção de casas, as primeiras trinta varas dos chãos já urbanizados num caminho conhecido por Calçada de S. Domingos. Uma das primeiras pessoas a construir casa naquele sítio foi o armeiro Álvaro Gonçalves, um dos mais destacados personagens do romance "A última dona de S. Nicolau", do escritor portuense Arnaldo Gama.
“(…) Mas voltemos à Rua Chã, que guarda muitos outros pergaminhos e tradições que se não vêm, nem andam muito nas páginas da crónica portuense. Passavam obrigatoriamente por ela as mais imponentes e solenes procissões que se realizavam no Porto.
Tantos anos, passados a subir e descer a Rua Chã que, os alfaiates, tecelões, tecedeiras e mercadores eram obrigados a toldar, ou seja, colocar toldos para protecção contra as ardências do sol, desde a Rua do Loureiro até (à porta de) Vandoma.
A Rua Chã beneficiava de vários privilégios, um dos quais, talvez o mais importante, era o de que os que nela moravam tinham isenção de aposentadoria, isto é ninguém que passasse na cidade, em viagem, ou negócios, podia exigir que nela lhe concedessem aposentadoria. Foi uma das primeiras artérias do burgo a ser contemplada com uma estalagem "grande e boa…"
Em 1757, fizeram-se sentir nesta artéria, de forma bastante violenta, os ecos da Revolta dos Taberneiros quando os revoltosos "erguendo medonho alarido" se juntaram defronte da casa do Juiz do Povo, José Ferreira da Silva, que vivia à entrada da Rua do Loureiro.
Este tipo de protestos e outras revoltas, muito frequentes nos séculos XIV e XV, nomeadamente as que eram encabeçadas por mercadores e mesteirais, em protesto contra a imposição de novos impostos ou as tentativas de cerceamento das liberdades antigas, levaram muitos estrangeiros, que por aqui se haviam instalado, a procurarem paragens menos agitadas e a instalar-se ao longo da margem direita do rio onde predominava o sossego dos campos.
Uma das mais importantes corporações profissionais que nos começos do século XIX funcionava na Rua Chã era a dos chocolateiros - os homens que trabalhavam com chocolate.
António de Freitas, morador na rua, era um dos mais prósperos mas também um dos mais inconformados contra "as pessoas que se haviam intrometido no mester e se dedicavam à manufactura do chocolate sem terem qualquer preparação para o fazer…"
O protesto de António Ferreira, a que aderiram muitos mais profissionais, foi registado no escritório do tabelião Manuel José de Oliveira para depois ser entregue às autoridades e nele se diz, nomeadamente, que procuram defender " a maior perfeição, bondade e asseio das suas manufacturas para evitar que perigue a saúde dos povos…"
A Rua Chã, já nos nossos dias, também era conhecida pela rua dos barbeiros, tão numerosas eram as lojas destes profissionais que por ali havia”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 
Desta rua vai-se hoje para Estação Ferroviária de S. Bento pela Rua do Loureiro. Em 1599, esse topónimo ainda não existia aparecendo mencionada, nos docu­mentos da época, como Rua que vai da Rua Chã para S. Bento, tendo-se chamado ainda, Rua de Carros ou Rua da Porta de Carros, por estar próxi­ma da porta que também tinha este nome. Era assim designada, pelo menos, em 1334.
Mais tarde, seria a Rua do Faval, por aí se encontrar o faval do bispo onde seria construído o convento de S. Bento da Ave-Maria.
Pensa-se que a famosa CIVIDADE existiu no alto do Corpo da Guarda e por isso a Travessa do Loureiro era a Viela da Cividade.
Já agora diga-se que a Praça Almeida Garrett chegou a ser também Largo do Faval.
 
 
 
O típico Café Royal
 
“Na Rua Chã, os simpáticos restos de moradias, com semblante de setecentos, são reminiscências que evocam os tempos em que por ali viveram os Belezas de Andrade, ligados à Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro; altas-dignidades da Igreja Portucalense; ricos comerciantes e artistas, que trabalharam nas obras da Sé e do mosteiro de S. Bento da Ave-Maria.
Nos baixos do melancólico e nobre solar dos Castros, mesmo em frente à antiga Viela da Cadeia, actual Travessa da Rua Chã, funcionou o mais emblemático café do sítio - o célebre Royal, que tantas vezes inspirou as cantigas dos ceguinhos. Não era um café espampanante com luzimento de espelhos, candelabros e outros atavios. Mas era um típico café do Porto, com aquele ambiente esfumado que, na época, caracterizava os estabelecimentos e aquele alegre vozear que não se entendia nem se deixava ouvir, tudo ilustrado pelas conversas dos últimos "graxas" personagens típicos dos cafés portuenses. O Royal finou-se, tal e qual outros cafés, como o Saban na Rua Sá da Bandeira a Fradelos, o Excelsior e o Sport. No seu lugar está agora a loja de um chinês. Foram-se da rua os revoltosos, desapareceram os chocolateiros, levaram sumiço os barbeiros”.
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
 

Solar dos Castros e, à esquerda, ao fundo, fica a Sé
 
 
 
O solar dos Castros, exibindo o brasão respectivo na fachada, foi propriedade de uma fidalga de apelido Castro que casou na Casa das Lages, em Lagares, Penafiel, passando a propriedade, mais tarde, para as mãos de um herdeiro, Luís de Lencastre Carneiro de Vasconcelos (1882-1933), 4º barão das Lages, filho de Luís Zeferino Carneiro de Vasconcelos Melo Cabral (3.º barão das Lages) e de Maria Teresa da Veiga Lencastre da Veiga Lencastre e Menezes.
O 4º barão das Lages foi pai de Francisco José Carneiro de Vasconcelos, 4.º visconde de Vilarinho de São Romão.
 
 
 
 

Rua Chã em 1936
 
 
 
 
 

Esta artéria foi aberta em 1922 e começou por se chamar Avenida Epitácio Pessoa (presidente da República do Brasil entre 1919 e 1922), desde a Avenida da Boavista até ao chamado Largo de Pereiró, hoje a Praça Afrânio Peixoto.
Esse arruamento foi rasgado através da Quinta do Raimundo, assim chamada por ter pertencido a um alquilador com aquele nome e com loja na Rua Formosa. Ao tempo da sua abertura ela já pertencia por compra a Manuel Tavares Valente de alcunha “O Viramontes”.
A futura avenida ainda cortaria a Quinta da Telheira, junto da Rua do Revilão, acabando o que sobrou dela, por ficar a chamar-se Quinta da Pardeja.
Finalmente, a avenida receberia o nome do médico João Antunes Guimarães (1877 - S. Salvador de Briteiros / Guimarães; 1951), uma personagem que foi ministro do Estado Novo, tendo ficado até aos nossos dias a ser conhecida por Avenida Dr. Antunes Guimarães.

 
 

Avenida Antunes Guimarâes em 1956
 
 
 

Inauguração da linha 4, em 21 de Dezembro de 1947 – Museu do Carro Eléctrico

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