Rua Chã
“Numa passagem do
"Santuário Mariano", de Frei Agostinho de Santa Maria, referindo-se
aquele às mil e uma invocações que se fazem de Nossa Senhora, e ao aludir à
capela onde, no Porto, se venerava a imagem de Nossa Senhora do Ferro, aquele
cronista situava-a "nas proximidades da Rua Chã das Eiras" explicando
logo a seguir que a rua tinha este nome por ser ali "…que se faziam as
eiras em que se debulhava o trigo…"
A Rua Chã é das mais
antigas artérias da cidade. Sabe-se que já existia, pelo menos, em 1293 e que
inicialmente se compunha de dois troços distintos: um que ia da entrada da Rua
do Loureiro até à calçada de Vandoma e se chamava simplesmente Rua Chã; outro
que da Calçada de Vandoma ia até ao cimo da Rua do Corpo da Guarda e que se
chamava Rua das Eiras. E como uma parte completava a outra chegou a ter a
designação de Rua Chã das Eiras, pois, quando toda aquela zona ficava do lado
de fora do muro velho, ou seja da parte de fora da muralha romana, muito antes
da existência da muralha fernandina, parece que se aproveitava a planura do
terreno e a sua privilegiada exposição ao sol para ali se secarem os cereais
que eram do Cabido.
Relativamente à Rua
Chã, o frade beneditino Pereira de Novais, autor seiscentista de várias obras
sobre o Porto, é da opinião que esta designação provém do facto de se tratar de
"(…) uma rua plana, grande e espaçosa(…)" acrescentando que "(…)
se diz chã por ser plano o seu pavimento(…)".
A partir destas
diferentes opiniões, poderemos fazer as nossas opções.
Há 600 anos,
exactamente em 1408 aconteceu nesta rua uma grande desgraça. Todo o casario que
era, naturalmente, feito de madeira, foi devorado por um pavoroso incêndio.
Ainda naquele mesmo ano, a Câmara, então profundamente interessada na efectiva
resolução dos verdadeiros problemas
do burgo, ordenou que tudo fosse rapidamente reconstruído mas que as casas
deviam ser feitas em pedra.
Surgiu, entretanto, um
problema que impedia a reconstrução das moradias com a rapidez exigida.
Pouco tempo antes, os
"siseiros" (cobradores do imposto da sisa) haviam mandado fechar o
Postigo de Carros, aberto na muralha fernandina, em frente à igreja de Santo
António dos Congregados, não permitindo que por ali transitassem nem pessoas
nem carros. A Câmara protestou juntando o seu clamor aos dos lavradores.
Da parte de fora da
cerca, ou seja, onde posteriormente veio a ser aberta a actual Praça da
Liberdade, ficavam as melhores hortas e os lavradores que delas cuidavam, viam-se
obrigados a dar uma grande volta quando para elas levavam o estrume que vinham
buscar à cidade. A Câmara pretendia que se reabrisse o postigo porque era
através dele que passavam os carros de bois com a pedra, a madeira e a cal
indispensáveis para a reconstrução das moradias que tinham ardido”.
Com a devida vénia a Germano Silva
“Houve por aqui perto
uma rua com a designação de Belomonte.
Uma "Rua de
Belomonte que fica detrás da Rua de Cima de Vila" consta de um documento
do arquivo do Hospital de Rocamador do ano de 1498. Deve ser a mesma artéria
que vem citada noutro documento com a mesma origem: "...Rua de Belomonte,
detrás da Rua Chã...".
Como é óbvio a Rua de
Belomonte para as bandas do convento dos dominicanos naquela data, ainda não
existia.
Em 1503, aqueles
frades dominicanos da Ordem dos Pregadores aforaram, ou seja, alugaram para a
construção de casas, as primeiras trinta varas dos chãos já urbanizados num
caminho conhecido por Calçada de S. Domingos. Uma das primeiras pessoas a
construir casa naquele sítio foi o armeiro Álvaro Gonçalves, um dos mais
destacados personagens do romance "A última dona de S. Nicolau", do
escritor portuense Arnaldo Gama.
“(…) Mas voltemos à
Rua Chã, que guarda muitos outros pergaminhos e tradições que se não vêm, nem
andam muito nas páginas da crónica portuense. Passavam obrigatoriamente por ela
as mais imponentes e solenes procissões que se realizavam no Porto.
Tantos anos, passados
a subir e descer a Rua Chã que, os alfaiates, tecelões, tecedeiras e mercadores
eram obrigados a toldar, ou seja, colocar toldos para protecção contra as
ardências do sol, desde a Rua do Loureiro até (à porta de) Vandoma.
A Rua Chã beneficiava
de vários privilégios, um dos quais, talvez o mais importante, era o de que os
que nela moravam tinham isenção de aposentadoria, isto é ninguém que passasse
na cidade, em viagem, ou negócios, podia exigir que nela lhe concedessem aposentadoria.
Foi uma das primeiras artérias do burgo a ser contemplada com uma estalagem
"grande e boa…"
Em 1757, fizeram-se
sentir nesta artéria, de forma bastante violenta, os ecos da Revolta dos
Taberneiros quando os revoltosos "erguendo medonho alarido" se
juntaram defronte da casa do Juiz do Povo, José Ferreira da Silva, que vivia à
entrada da Rua do Loureiro.
Este tipo de protestos
e outras revoltas, muito frequentes nos séculos XIV e XV, nomeadamente as que
eram encabeçadas por mercadores e mesteirais, em protesto contra a imposição de
novos impostos ou as tentativas de cerceamento das liberdades antigas, levaram
muitos estrangeiros, que por aqui se haviam instalado, a procurarem paragens
menos agitadas e a instalar-se ao longo da margem direita do rio onde
predominava o sossego dos campos.
Uma das mais
importantes corporações profissionais que nos começos do século XIX funcionava
na Rua Chã era a dos chocolateiros - os homens que trabalhavam com chocolate.
António de Freitas,
morador na rua, era um dos mais prósperos mas também um dos mais inconformados
contra "as pessoas que se haviam intrometido no mester e se dedicavam à
manufactura do chocolate sem terem qualquer preparação para o fazer…"
O protesto de António
Ferreira, a que aderiram muitos mais profissionais, foi registado no escritório
do tabelião Manuel José de Oliveira para depois ser entregue às autoridades e
nele se diz, nomeadamente, que procuram defender " a maior perfeição,
bondade e asseio das suas manufacturas para evitar que perigue a saúde dos
povos…"
A Rua Chã, já nos
nossos dias, também era conhecida pela rua dos barbeiros, tão numerosas eram as
lojas destes profissionais que por ali havia”.
Com a devida vénia a
Germano Silva
Desta rua vai-se
hoje para Estação Ferroviária de S. Bento pela Rua do Loureiro. Em 1599, esse
topónimo ainda não existia aparecendo mencionada, nos documentos da época,
como Rua que vai da Rua Chã para S.
Bento, tendo-se chamado ainda, Rua
de Carros ou Rua da Porta de
Carros, por estar próxima da porta que também tinha este nome. Era
assim designada, pelo menos, em 1334.
Mais tarde, seria a Rua do Faval, por aí se encontrar o
faval do bispo onde seria construído o convento de S. Bento da Ave-Maria.
Pensa-se que a
famosa CIVIDADE existiu no alto do Corpo da Guarda e por isso a Travessa do
Loureiro era a Viela da Cividade.
Já agora diga-se que
a Praça Almeida Garrett chegou a ser também Largo do Faval.
O típico Café Royal
“Na Rua Chã, os
simpáticos restos de moradias, com semblante de setecentos, são reminiscências
que evocam os tempos em que por ali viveram os Belezas de Andrade, ligados à
Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro; altas-dignidades da
Igreja Portucalense; ricos comerciantes e artistas, que trabalharam nas obras
da Sé e do mosteiro de S. Bento da Ave-Maria.
Nos baixos do
melancólico e nobre solar dos Castros, mesmo em frente à antiga Viela da
Cadeia, actual Travessa da Rua Chã, funcionou o mais emblemático café do sítio
- o célebre Royal, que tantas vezes inspirou as cantigas dos ceguinhos. Não era
um café espampanante com luzimento de espelhos, candelabros e outros atavios.
Mas era um típico café do Porto, com aquele ambiente esfumado que, na época,
caracterizava os estabelecimentos e aquele alegre vozear que não se entendia
nem se deixava ouvir, tudo ilustrado pelas conversas dos últimos
"graxas" personagens típicos dos cafés portuenses. O Royal finou-se,
tal e qual outros cafés, como o Saban na Rua Sá da Bandeira a Fradelos, o
Excelsior e o Sport. No seu lugar está agora a loja de um chinês. Foram-se da
rua os revoltosos, desapareceram os chocolateiros, levaram sumiço os
barbeiros”.
Com a devida vénia a Germano Silva
O solar dos Castros, exibindo o brasão respectivo na
fachada, foi propriedade de uma fidalga de apelido Castro que casou na Casa das
Lages, em Lagares, Penafiel, passando a propriedade, mais tarde, para as mãos
de um herdeiro, Luís de Lencastre Carneiro de Vasconcelos (1882-1933), 4º barão
das Lages, filho de Luís Zeferino Carneiro de Vasconcelos Melo Cabral (3.º
barão das Lages) e de Maria Teresa da Veiga Lencastre da Veiga Lencastre e
Menezes.
O 4º barão das Lages foi pai de Francisco José Carneiro de
Vasconcelos, 4.º visconde de Vilarinho de São Romão.
Esta artéria foi aberta em 1922 e começou por se chamar
Avenida Epitácio Pessoa (presidente da República do Brasil entre 1919 e 1922),
desde a Avenida da Boavista até ao chamado Largo de Pereiró, hoje a Praça
Afrânio Peixoto.
Esse arruamento foi rasgado através da Quinta do Raimundo,
assim chamada por ter pertencido a um alquilador com aquele nome e com loja na
Rua Formosa. Ao tempo da sua abertura ela já pertencia por compra a Manuel
Tavares Valente de alcunha “O Viramontes”.
A futura avenida ainda cortaria a Quinta da Telheira, junto
da Rua do Revilão, acabando o que sobrou dela, por ficar a chamar-se Quinta da
Pardeja.
Finalmente, a avenida receberia o nome do médico João
Antunes Guimarães (1877 - S. Salvador de Briteiros / Guimarães; 1951), uma
personagem que foi ministro do Estado Novo, tendo ficado até aos nossos dias a
ser conhecida por Avenida Dr. Antunes Guimarães.





Sem comentários:
Enviar um comentário