terça-feira, 19 de maio de 2026

25.304 A Ponte das Barcas

 
A cidade do Porto só construiu uma ponte para unir as duas margens do rio Douro, servindo períodos alargados, em 1806 - a Ponte das Barcas.
Foi inaugurada a 15 de Agosto daquele ano.
Era constituída por 33 barcaças, ligadas entre si por cabos de aço, e abria em 2 partes para dar passagem às embarcações que subiam e desciam o rio.
Até aí, por vezes, a cidade improvisava a travessia através de barcaças ligadas, para cumprir objectivos pontuais. 
A outra possibilidade, que tinha sido praticada ao longo dos tempos, era utilizar as "barcas de passagem" manobradas por verdadeiros profissionais no manejo dos remos e que se apresentava mais económica.
A Ponte das Barcas, onde ocorreu o fatídico desastre, a 29 de Março de 1809, era um pouco diferente da que lhe sucedeu.
Primitivamente, com cerca de mil palmos de extensão, apresentava 33 barcaças ligadas por cabos de aço, podendo abrir em duas partes para dar passagem ao tráfego fluvial, com circulação sobre um passadiço de madeira. Em tempo de cheias, a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.
Aquela que a veio substituir, do mesmo tipo, tinha barcos mais altos, mais largos e mais afastados, de forma a poder deixar passar pequenos barcos a remos sem ter que ser aberta. Era mais larga e resistente que as anteriores. Só tinha 20 barcos, enquanto a anterior, tinha as tais 33 barcaças.
Naquele dia 29 de Março, a população aterrorizada pelo avanço das tropas francesas comandadas por Soult, aquando da 2ª invasão francesa, tentou fugir para Gaia atravessando a ponte assente em barcas que cederam ao peso excessivo, provocando inúmeras vítimas.
Os motivos para o sucedido variam segundo os relatos: uns dizem que a ponte, constituída por 33 barcaças não aguentou a pressão e desfez-se, provocando a queda no rio, da multidão.
Outra versão refere que do lado de Gaia, alguém abriu um alçapão na ponte para impedir que os franceses a atravessassem, que "engoliu" os que seguiam à frente na fuga, empurrados para a morte pelos que lhes seguiam na peugada.
Na tragédia morreriam, segundo as várias fontes consultadas, entre 4.000 e 10.000 portuenses, e a pilhagem da cidade durou 3 dias.
Após cerca de quarenta dias os franceses acabarão por ser expulsos.
A Ponte das Barcas foi a primeira ponte do género construída em Portugal, como solução a mais longo prazo. Carlos Amarante foi o seu autor, tendo ficado ligado a outras obras célebres da região norte do país, como o Bom Jesus e a igreja do Pópulo, em Braga; a Igreja da Trindade, no Porto; e a reconstrução das muralhas de Valença.
Sobre o trânsito e respectivas portagens, na Ponte das Barcas, se refere o texto seguinte.
 
«(…) Havia muita concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de passagem praticados eram os seguintes:
 
Cada pessoa a pé 5 réis
Cada pessoa a cavalo 20 réis
Carro de uma junta de bois 40 réis
Cadeirinhas de mãos 60 réis
Liteira 120 réis
Sege 160 réis
 
À noite, passados 45 minutos do pôr-do-sol, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45 minutos antes do nascer do sol, sendo o momento anunciado pelo toque de um sino.
A "Ponte das Barcas" revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional, na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro”».
Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 

Ponte das Barcas em 1830 (com 20 barcaças) - Fonte: Leipzig Verlag, Georg Wigand  (col. Pessoal)
 
 
 
 
A Ponte das Barcas seria substituída pela Ponte Pênsil ou Ponte D. Maria II, praticamente no mesmo local, a partir de 1843.
A Confraria das Almas de S. José das Taipas e a igreja de S. José das Taipas têm uma grande ligação à Ponte das Barcas.
Começada a construir em 1795, a Igreja de S. José das Taipas foi benzida, em 1818, pelo bispo D. João Magalhães e consagrada em 1822, quando só estaria concluída 1878.
Quando foi consagrada, ainda só tinha sido edificado praticamente o seu solo. Tal ficou a dever-se pela necessidade de santificar o chão onde estavam sepultados os corpos dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas e que, para aqui, tinham vindo em 1809 por deliberação dos portuenses, dada a inexistência de locais para atender aos sepultamentos de tantos milhares de mortos.
Por esta razão, os taburnos (sepulturas) interiores da igreja, não contêm restos mortais de particulares.
Até à conclusão da igreja de S. José das Taipas, que ficaria com a sua entrada pela Rua do Calvário, existia nesse local, desde 1666, uma capela mandada erigir pela família dos “Pacheco”, com entrada pela Rua das Taipas.
Seria o terreno contíguo a essa capela que serviria de cemitério e de chão da nova igreja.
 



Painel representando o desastre da Ponte das Barcas exposto numa parede da igreja – Ed. JPortojo
 
 
 
 
A cena do painel acima exibida num altar do lado da Epístola, com uma assinatura de “A. Cunha” e ostentando a data de 1845, é uma pintura sobre cobre, baseada numa outra que, originalmente, esteve colocada no memorial das “Alminhas da Ponte” e que, por acção dos elementos atmosféricos se degradou.


 
 

Quadro alusivo à tragédia da Ponte das Barcas que serviu de modelo à existente na capela das Taipas
 
 
 
“Este quadro foi colocado depois onde estivera a ponte, e tornou-se local de romaria popular. Aí eram deixadas velas e dinheiro pelas alminhas – as "Alminhas da Ponte”, agora assinaladas na Ribeira por uma placa evocativa de Teixeira Lopes que continua a ser local de devoção. Quanto ao quadro, pintado depois a óleo, ficou à guarda da capela das Almas (ou das Taipas), na Cordoaria, que passou também a assegurar a gestão do dinheiro deixado nas Alminhas. É uma das imagens escolhidas para a exposição sobre o Porto e as invasões francesas que vai ser inaugurada, no Domingo, na Galeria do Palácio de Cristal”.
“noticias.sapo.pt” em 27/03/2009
 
 
 
No extremo do Muro da Ribeira, vê-se hoje um baixo-relevo, em bronze, protegido por um alpendre em ferro, assente em duas consolas, da autoria de Teixeira Lopes (pai), em memória do Desastre da Ponte das Barcas, ocorrido em 29 de Março de 1809.
Neste local, está exposto desde 1897.
Esta placa, mais resistente aos elementos atmosféricos, substituiu uma outra colocada em cota mais baixa, inaugurada em 1891 e oferecida por um devoto, de acordo com a notícia seguinte.


 
In jornal “A República” de 16 de Janeiro de 1891, pág 2

 
 
 

Placa mural alusiva à tragédia da autoria de Teixeira Lopes (pai)


 
 

“Alminhas da Ponte” – Fonte: portoarc.blogspot.com


 
Entretanto, a Confraria das Almas de S. José das Taipas foi responsável, desde 1810, pelas esmolas e o zelo do memorial das Alminhas da Ponte, situada na marginal da Ribeira.
Aquela confraria resultou da união da Irmandade de S. José das Taipas, que administrava a capela de S. José das Taipas, com a Irmandade de S. Nicolau de Tolentino das Almas (sediada na capela de S. João Novo, desde a sua fundação, em 1634, pertencente aos riquíssimos negociantes de bacalhau) e com a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação, que funcionava junto do Convento de Nossa Senhora da Consolação ou convento de Santo Elói, desalojada em virtude do derrube da muralha fernandina.
Em 1780, as três irmandades já estariam juntas e, em 1788, foi decidido construir a igreja.
 
 
“A esta confraria foi entregue pelos moradores da Ribeira, em 1810, o sufrágio das almas dos mortos no desastre da Ponte das Barcas do dia de 29 de Março de 1809. Tinha o encargo de ter sempre 2 velas acesas no local do desastre, recolher as esmolas e, no dia do aniversário, sufragar as almas das vítimas com missas e uma procissão que ia até à Ribeira, acompanhada de música. Este encargo trouxe à confraria uma grande simpatia e consequente aumento de esmolas. Estes rendimentos, acrescidos da percentagem dos lucros da venda do bacalhau, permitiu que se construísse a capela com a grandiosidade que hoje tem. Tem 4 altares laterais dedicados a Nossa Senhora das Dores, da Saúde, da Conceição e de Santo António”.
Cortesia de Rui Cunha
 
 

 
De notar que, face às enormes somas envolvidas, respeitantes a importantes donativos surgiu, há muitos anos, uma contenda entre a Confraria das Almas de S. José das Taipas e a Confraria da Capela das Almas, que ambicionava administrar esses donativos, sita na Rua de Santa Catarina, cujo conflito acabaria por ser resolvido pelo Bispo do Porto a favor da primeira. 
Durante muitos anos, realizou-se, também, a propósito das “Alminhas da Ponte”, uma procissão que, saindo da igreja de S. José das Taipas, retornava passando pela Ribeira, onde em cerimónia presidida pelo bispo, era costume ele paramentar-se na Capela da Lada ou Capela do Senhor Crucificado.
Em 1909, a Irmandade de S. José das Taipas realizou a última romagem (considerada a maior do Porto) em memória das almas perecidas no dia 29 de Março de 1809.
A partir de 1975, o Bispo do Porto, decidiu entregar o cumprimento das obrigações decorrentes da administração das dádivas decorrentes da devoção às “Alminhas da Ponte” à Paróquia de S. Nicolau, após um período de muitos anos durante o qual a tarefa foi da responsabilidade da Opus Dei.
Presentemente, na igreja de S. José das Taipas, a 29 de Março de todos os anos, se evocam, em cerimónia, as almas dos que pereceram no desastre da Ponte das Barcas.
Em 2009, foi inaugurada uma obra escultórica de Souto Moura, com uma parte em Gaia e outra no Porto, perto do local onde se encontrava a antiga ponte.

 
 
 

Escultura (Ribeira do Porto) de Souto Moura evocativa da tragédia da Ponte das Barcas – Fonte: historiaschistoria.blogspot.com


 
 
Escultura (Ribeira de V. N. de Gaia) de Souto Moura evocativa do desastre da Ponte das Barcas – Fonte: Mapio.net

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