A cidade do Porto só
construiu uma ponte para unir as duas margens do rio Douro, servindo períodos alargados,
em 1806 - a Ponte das Barcas.
Foi inaugurada a 15
de Agosto daquele ano.
Era constituída por
33 barcaças, ligadas entre si por cabos de aço, e abria em 2 partes para dar
passagem às embarcações que subiam e desciam o rio.
Até aí, por vezes, a
cidade improvisava a travessia através de barcaças ligadas, para cumprir
objectivos pontuais.
A outra possibilidade, que tinha sido praticada ao longo dos tempos, era utilizar as "barcas de passagem" manobradas por verdadeiros profissionais no manejo dos remos e que se apresentava mais económica.
A Ponte das Barcas, onde ocorreu o fatídico desastre, a 29
de Março de 1809, era um pouco diferente da que lhe sucedeu.
Primitivamente, com cerca de mil palmos de extensão, apresentava
33 barcaças ligadas por cabos de aço, podendo abrir em duas partes para dar
passagem ao tráfego fluvial, com circulação sobre um passadiço de madeira. Em
tempo de cheias, a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.
Aquela que a veio substituir, do mesmo tipo, tinha barcos
mais altos, mais largos e mais afastados, de forma a poder deixar passar
pequenos barcos a remos sem ter que ser aberta. Era mais larga e resistente que
as anteriores. Só tinha 20 barcos, enquanto a anterior, tinha as tais 33
barcaças.
Naquele dia 29 de Março, a população aterrorizada pelo
avanço das tropas francesas comandadas por Soult, aquando da 2ª invasão
francesa, tentou fugir para Gaia atravessando a ponte assente em barcas que
cederam ao peso excessivo, provocando inúmeras vítimas.
Os motivos para o sucedido variam segundo os relatos: uns
dizem que a ponte, constituída por 33 barcaças não aguentou a pressão e
desfez-se, provocando a queda no rio, da multidão.
Outra versão refere que do lado de Gaia, alguém abriu um
alçapão na ponte para impedir que os franceses a atravessassem, que
"engoliu" os que seguiam à frente na fuga, empurrados para a morte
pelos que lhes seguiam na peugada.
Na tragédia morreriam, segundo as várias fontes consultadas,
entre 4.000 e 10.000 portuenses, e a pilhagem da cidade durou 3 dias.
Após cerca de quarenta dias os franceses acabarão por ser expulsos.
A Ponte das Barcas foi a primeira ponte do género construída
em Portugal, como solução a mais longo prazo. Carlos Amarante foi o seu autor,
tendo ficado ligado a outras obras célebres da região norte do país, como o Bom
Jesus e a igreja do Pópulo, em Braga; a Igreja da Trindade, no Porto; e a
reconstrução das muralhas de Valença.
Sobre o trânsito e respectivas portagens, na Ponte das
Barcas, se refere o texto seguinte.
«(…) Havia muita
concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de
passagem praticados eram os seguintes:
Cada pessoa a pé 5
réis
Cada pessoa a cavalo
20 réis
Carro de uma junta de
bois 40 réis
Cadeirinhas de mãos 60
réis
Liteira 120 réis
Sege 160 réis
À noite, passados 45
minutos do pôr-do-sol, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45
minutos antes do nascer do sol, sendo o momento anunciado pelo toque de um
sino.
A "Ponte das
Barcas" revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das
comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional,
na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro”».
Fonte: historiaschistoria.blogspot.com
A Ponte das Barcas seria substituída pela Ponte Pênsil ou
Ponte D. Maria II, praticamente no mesmo local, a partir de 1843.
A Confraria das Almas de S. José das Taipas e a igreja de S.
José das Taipas têm uma grande ligação à Ponte das Barcas.
Começada a construir em 1795, a Igreja de S. José das Taipas
foi benzida, em 1818, pelo bispo D. João Magalhães e consagrada em 1822, quando
só estaria concluída 1878.
Quando foi consagrada, ainda só tinha sido edificado
praticamente o seu solo. Tal ficou a dever-se pela necessidade de santificar o
chão onde estavam sepultados os corpos dos que pereceram no desastre da Ponte
das Barcas e que, para aqui, tinham vindo em 1809 por deliberação dos
portuenses, dada a inexistência de locais para atender aos sepultamentos de
tantos milhares de mortos.
Por esta razão, os taburnos (sepulturas) interiores da
igreja, não contêm restos mortais de particulares.
Até à conclusão da igreja de S. José das Taipas, que ficaria
com a sua entrada pela Rua do Calvário, existia nesse local, desde 1666, uma
capela mandada erigir pela família dos “Pacheco”, com entrada pela Rua das
Taipas.
Seria o terreno contíguo a essa capela que serviria de
cemitério e de chão da nova igreja.
A cena do painel acima exibida num altar do lado da
Epístola, com uma assinatura de “A. Cunha” e ostentando a data de 1845, é uma
pintura sobre cobre, baseada numa outra que, originalmente, esteve colocada no
memorial das “Alminhas da Ponte” e que, por acção dos elementos atmosféricos se
degradou.
“Este quadro foi
colocado depois onde estivera a ponte, e tornou-se local de romaria popular. Aí
eram deixadas velas e dinheiro pelas alminhas – as "Alminhas da Ponte”,
agora assinaladas na Ribeira por uma placa evocativa de Teixeira Lopes que
continua a ser local de devoção. Quanto ao quadro, pintado depois a óleo, ficou
à guarda da capela das Almas (ou das Taipas), na Cordoaria, que passou também a
assegurar a gestão do dinheiro deixado nas Alminhas. É uma das imagens
escolhidas para a exposição sobre o Porto e as invasões francesas que vai ser
inaugurada, no Domingo, na Galeria do Palácio de Cristal”.
“noticias.sapo.pt” em 27/03/2009
No extremo do Muro da Ribeira, vê-se hoje um baixo-relevo,
em bronze, protegido por um alpendre em ferro, assente em duas consolas, da
autoria de Teixeira Lopes (pai), em memória do Desastre da Ponte das Barcas,
ocorrido em 29 de Março de 1809.
Neste local, está exposto desde 1897.
Esta placa, mais resistente aos elementos atmosféricos, substituiu
uma outra colocada em cota mais baixa, inaugurada em 1891 e oferecida por um
devoto, de acordo com a notícia seguinte.
Entretanto, a Confraria
das Almas de S. José das Taipas foi responsável, desde 1810, pelas esmolas
e o zelo do memorial das Alminhas da Ponte, situada na marginal da Ribeira.
Aquela confraria resultou da união da Irmandade de S. José das Taipas, que administrava a capela de S.
José das Taipas, com a Irmandade de S.
Nicolau de Tolentino das Almas (sediada na capela de S. João Novo, desde a
sua fundação, em 1634, pertencente aos riquíssimos negociantes de bacalhau) e
com a Irmandade de Nossa Senhora da
Consolação, que funcionava junto do Convento de Nossa Senhora da Consolação
ou convento de Santo Elói, desalojada em virtude do derrube da muralha
fernandina.
Em 1780, as três irmandades já estariam juntas e, em 1788, foi
decidido construir a igreja.
“A esta confraria foi
entregue pelos moradores da Ribeira, em 1810, o sufrágio das almas dos mortos
no desastre da Ponte das Barcas do dia de 29 de Março de 1809. Tinha o encargo
de ter sempre 2 velas acesas no local do desastre, recolher as esmolas e, no
dia do aniversário, sufragar as almas das vítimas com missas e uma procissão
que ia até à Ribeira, acompanhada de música. Este encargo trouxe à confraria
uma grande simpatia e consequente aumento de esmolas. Estes rendimentos,
acrescidos da percentagem dos lucros da venda do bacalhau, permitiu que se
construísse a capela com a grandiosidade que hoje tem. Tem 4 altares laterais
dedicados a Nossa Senhora das Dores, da Saúde, da Conceição e de Santo
António”.
Cortesia de Rui Cunha
De notar que, face às enormes somas envolvidas, respeitantes
a importantes donativos surgiu, há muitos anos, uma contenda entre a Confraria das
Almas de S. José das Taipas e a Confraria da Capela das Almas, que ambicionava
administrar esses donativos, sita na Rua de Santa Catarina, cujo conflito
acabaria por ser resolvido pelo Bispo do Porto a favor da primeira.
Durante muitos anos, realizou-se, também, a propósito das “Alminhas
da Ponte”, uma procissão que, saindo da igreja de S. José das Taipas, retornava
passando pela Ribeira, onde em cerimónia presidida pelo bispo, era costume ele
paramentar-se na Capela da Lada ou Capela do Senhor Crucificado.
Em 1909, a Irmandade de S. José das Taipas realizou a última
romagem (considerada a maior do Porto) em memória das almas perecidas no dia 29
de Março de 1809.
A partir de 1975, o Bispo do Porto, decidiu entregar o
cumprimento das obrigações decorrentes da administração das dádivas decorrentes
da devoção às “Alminhas da Ponte” à Paróquia de S. Nicolau, após um período de
muitos anos durante o qual a tarefa foi da responsabilidade da Opus Dei.
Presentemente, na igreja de S. José das Taipas, a 29 de
Março de todos os anos, se evocam, em cerimónia, as almas dos que pereceram no
desastre da Ponte das Barcas.
Em 2009, foi inaugurada uma obra escultórica de Souto Moura,
com uma parte em Gaia e outra no Porto, perto do local onde se encontrava a
antiga ponte.
Escultura (Ribeira do Porto) de Souto Moura evocativa da
tragédia da Ponte das Barcas – Fonte: historiaschistoria.blogspot.com
Escultura (Ribeira de V. N. de Gaia) de Souto Moura
evocativa do desastre da Ponte das Barcas – Fonte: Mapio.net








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