quinta-feira, 6 de agosto de 2026

25.313 Um eclipse há mais de 100 anos, no norte de Portugal

 
O eclipse de 1912, no Porto, foi apenas parcial, mas, em Milhundos, Penafiel, ele foi total. A comunidade científica escolheria, como num outro eclipse ocorrido anos antes, em 1900, para a sua observação, a vila de Ovar.
 
“O eclipse solar de 17 de Abril de 1912 podia ser visto no norte do País pelo que acorreram ao Porto vários astrónomos estrangeiros como Ross, Blackline e James Wortvington. O fenómeno, que na cidade do Porto foi apenas parcial, iniciou-se às 10:00h, atingiu o máximo às 11:25h e terminou às 13h. O eclipse total pôde ser observado em Milhundos, concelho de Penafiel, onde se concentraram muitos curiosos e astrónomos amadores e profissionais. O astrónomo Francisco Miranda da Costa Lobo, professor da Faculdade de Ciências de Coimbra, preferiu fazer as suas observações em Ovar e usou um registo fotográfico (com uma câmara especial colocada à sua disposição pelo Sr. Sallet) e outro cinematográfico (com um cinematógrafo emprestado por Carlos Ferrão e operado pelo tenente Negrão de Lima, “distinto amador portuense”). Depois desta façanha, Costa Lobo passou a ter um lugar de vanguarda do cinema astronómico a nível internacional...Conforme se pode ler no Tripeiro, de Abril de 1962, ao recordar acontecimentos ocorridos 50 anos antes, “os vidreiros portuenses fizeram grande negócio com a venda de milhares de vidros fumados, e, mau grado todas as fases do eclipse terem sido previamente anunciadas e explicadas, muita gente se assustou até ao pânico no momento em que, tendo o fenómeno atingido o seu zénite, a luz começou a desaparecer gradualmente e, já a cidade envolta em crepúsculo, a própria passarada começou a recolher aos ninhos…”
Fonte: oholoscopio.blogspot

 
“No dia 17 de abril de 1912 três expedições estrangeiras – uma russa, uma francesa e uma inglesa – e uma nacional, a da Universidade de Coimbra, encontravam-se em Ovar, ou na sua vizinhança, para observar o invulgar eclipse solar que iria ocorrer naquele dia. Este acontecimento não gerou, no entanto, o entusiasmo provocado pelo eclipse solar observado em 28 de maio de 1900. Nessa altura, muitos curiosos, entre os quais se contavam os príncipes reais D. Luís Filipe e D. Manuel, deslocaram-se a Ovar para assistir ao fenómeno. Um resultado devido, na nossa opinião, às diferentes características dos dois eclipses…
Segundo o Comércio do Porto no dia 17 de Abril de 1912:
“ [...] .o tenente snr. Nogueira Ferrão, habilissimo photographo-amador e que ultimamente se tem dedicado, com muito exito, á cinematographia, socio da União Cinematographica Limitada de que faz parte o Jardim Passos Manoel, esteve hontem em Ovar, adaptando o apparelho cinematographico ao telescopio da Universidade, com a auctorização e de combinação com o illustre dr. Costa Lobo. Assim, cinematographou todas as phases do eclipse.”

 
 

 
Filmagem durante o eclipse de 1912

 
 
A câmara de filmar pode ser vista do lado esquerdo da fotografia. Costa Lobo encontra-se por detrás do teodolito com um chapéu de coco…Costa Lobo concluiu então que o eclipse foi total na direção do movimento da Lua, e anular na direção perpendicular, ou seja, que a Lua possuía um achatamento similar ao da Terra. Estimou ainda uma diferença de alguns quilómetros entre os raios equatorial e polar da Lua. Este resultado foi, na altura, completamente inesperado, e Costa Lobo apressou-se a comunicá-lo à Academia de Ciências de Paris. Inicialmente a interpretação de Costa Lobo foi apoiada por outros observadores, entre os quais o padre Fernand Willaert, que tinha igualmente cinematografado o eclipse em Namur, na Bélgica. No entanto, após alguns meses, a comunidade internacional preteriu-a a favor da explicação de que a assimetria observada era um resultado da irregularidade do limbo lunar. Apesar de, na altura, os dados disponíveis não terem permitido optar categoricamente entre ambas as hipóteses, hoje sabe-se que a Lua possui um pequeno achatamento”.
Fonte: artigosjornaljoaosemana.blogspot
 
 
 
 

Eclipse de 1912, em Ovar


 

Eclipse de 1912, em Ovar - Ed. Aurélio da Paz dos Reis
 
 
 
Em 28 de Maio de 1900, Já tinha ocorrido um outro eclipse solar total, que foi observado na zona do Porto.
 
 
“A 28 de maio de 1900, um eclipse solar total cruzou a costa atlântica de Portugal continental, passando diretamente pela zona do Porto, Ovar e Aveiro, numa faixa de totalidade com cerca de 75 km de largura. O fenómeno gerou enorme entusiasmo popular, mobilizou cientistas nacionais e internacionais e marcou a história da astronomia no país”.
Fonte: Observatório Astronómico de Lisboa

 
 
Frederico Thomas Oom (1864-1930), o Subdiretor do Real Observatório Astronómico de Lisboa, foi incansável nos esforços de divulgação do acontecimento junto dos seus pares internacionais e na criação de condições para que Portugal se tornasse a opção mais atractiva para a destino de tantas expedições astronómicas quanto possível.
Uma delegação do Observatório Real de Greenwich esteve presente no evento.
 
 
“De entre as estimadas 25000 pessoas, a história regista, por exemplo, a presença dos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel que ficaram alojados nos paços do Concelho e de alguns membros da British Astronomical Association, entre os quais se encontrava o advogado, astrónomo amador e divulgador de ciência George Chambers.
O eclipse de 28 de maio de 1900 iniciou-se no oceano Pacífico, passando a sombra da Lua pelo México, Estados Unidos da América, oceano Atlântico, Portugal, Espanha, Argélia, Tunísia, Líbia, terminando no Egito. A sombra entrou no continente europeu na costa portuguesa, passando a linha central por Ovar. O eclipse total foi visto da Gafanha da Boa Hora a Matosinhos. Em Viseu encontravam-se as expedições do Observatório da Universidade de Coimbra, da Escola Politécnica de Lisboa e da Escola Naval. No interior a sombra passou, ainda, pela Guarda e Covilhã”.
Cortesia de Vítor Bonifácio, Investigador do CIDTFF da Universidade de Aveiro

 
 

Observação do eclipse, em Ovar, em 28 de Maio de 1900

 
Sobre o eclipse solar de 28 de Maio de 1900, no dia seguinte, o jornal "O Comércio do Porto" apresentava aos leitores um extenso artigo de que se destaca: