domingo, 3 de setembro de 2017

(Continuação 2) - Actualização em 19/02/2018


Na freguesia de  Massarelos localiza-se o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, rodeado pela mancha verde dos Jardins do Palácio de Cristal e que voltado para o Rio Douro, beneficia de uma estratégica posição panorâmica.
O edifício foi construído por meados do século XVIII para habitação de recreio.
A Quinta da Macieirinha, pertenceu à família Pinto Basto e foi adquirida pela Câmara Municipal do Porto, em 1972, para aí ser criado o museu.
Conhecida também por Quinta do Sacramento, porque pertenceu em tempos idos à Confraria do Santíssimo Sacramento da freguesia de Santo Ildefonso, a quem havia sido doada por Manuel de Sousa Carvalho, em 1796 pertenceu a um tal Carlos Page.
O espaço museológico pretende recriar ambientes interiores de uma casa abastada do século XIX, abordando as estéticas, os modos e os costumes relacionados com o Romantismo, a cidade do Porto Oitocentista, assim como, perpectuar a memória de Carlos Alberto de Sabóia, rei da Sardenha e príncipe do Piemonte, com capital em Turim, que se exilou no Porto após abdicar em favor do seu filho Vitor Emanuel II e, que viveu nesta casa da quinta da Macieirinha, entre 14 de Maio e 28 de Julho de 1849.
A viagem para o exílio foi feita sempre por terra até Pontevedra depois de fazer centenas de quilómetros em França e de atravessar toda a Espanha.
Dali até Vigo, usou como transporte um barco e, a partir daí, encetou a viagem novamente por terra até ao Porto, mas já com numeroso acompanhamento.
Entra em Portugal por Valença e dirige-se à cidade do Porto.
Carlos Alberto tinha decidido viajar incógnito, sob o título de conde de Barge, acompanhado apenas de dois criados. Não conseguiu, no entanto, manter o desejado anonimato, sendo por diversas vezes reconhecido ao longo da viagem, incluindo na sua chegada ao Porto a 19 de Abril de 1849, tendo sido recebido pelas autoridades da cidade no Carvalhido.
Carlos Alberto, esgotado por uma longa viagem efectuada em condições de grande desconforto - tinha viajado a cavalo -, desalentado com a derrota militar sofrida cerca de um mês antes, e num precário estado de saúde, não conseguiu assistir a mais de dois discursos. E, quando o secretário da câmara se preparava para proferir a terceira prelecção, fez saber que se encontrava doente e que pretendia, o mais rapidamente possível, retirar-se para uma estalagem, como um simples viajante.
Começou por se hospedar na Hospedaria do Peixe, a funcionar no majestoso Palácio dos Viscondes de Balsemão, na então Praça dos Ferradores, hoje Praça Carlos Alberto. Ali ficou, enquanto não lhe era disponibilizado um local para residir.
A 27 de Abril hospedou-se numa casa na Rua dos Quartéis, vizinha do palácio dos Carrancas.
Em meados do mês de Maio, acabou por se mudar para a Quinta da Macieirinha, onde hoje está o Museu Romântico. 


“O ex-rei ficou nove dias no hotel; depois transferiu-se para uma pequena casa arrendada, que pertencia a Maria Teresa de Sousa Vasconcelos, com um jardim, «na saída da cidade em direcção à Torre da Marca, próximo da Real Fábrica dos galões de oiro e de prata e defronte do quartel de infantaria, exposta plenamente a sul»; mas naquele lugar da rua dos Quartéis, Carlos Alberto ficou pouco tempo: a habitação – antes arrendada a um inglês, que decidiu subarrendá-la a Carlos Alberto por seis meses, com a única condição de, para além da renda, o rei se encarregasse de todos os móveis, utensílios, porcelanas, cristais e roupas – era demasiado pequena e modesta, dotada de apenas três divisões e de um jardim. Deste modo, a 14 de Maio, o ex-soberano da Sardenha mudava novamente de domicílio, alojando-se na casa suburbana de António Ferreira Pinto Basto.
3.488,37 liras, equivalentes a 600.000 réis, era quanto pagava por uma vivenda «mais limpa do que bela, mas situada ao fundo de um jardim muito ameno e com bonitas e amplas vistas sobre o rio e sobre o mar».”
Com o devido crédito a Pierangelo Gentile – Fonte: Imprensa da Universidade de Coimbra




O rei Carlos Alberto morreria na casa da Quinta da Macieirinha a 28 de Julho de 1849, tendo o seu corpo sido transladado para o Panteão dos Sabóia em Itália, tendo porém, a sua meia irmã, mandado construir uma capela actualmente incorporada nos jardins do Palácio de Cristal. 

“É minha convicção de que a maioria dos portuenses, sobretudo o setor das camadas mais jovens, não sabe quem foi Carlos Alberto que deu o nome a uma das mais pitorescas e conhecidas praças do Porto.
Ora, este Carlos Alberto foi rei da Sardenha e, nos começos de 1849, andava empenhado na unificação de Itália. Na primavera daquele ano, no entanto, em Novara, foi derrotado pelas tropas austríacas e, na sequência desse desaire, abdicou do trono no seu filho, Vitor Emanuel, e abandonou a Itália. Menos de um mês depois, em abril (dia 19), Carlos Alberto chegou ao Porto, cidade que elegera para o seu exílio e para onde viajara sob o nome de conde de Barge.
Dizem as gazetas da época que “as autoridades citadinas “ o foram esperar ao Carvalhido que era, então, o limite da cidade. Lá compareceram o bispo, D. Jerónimo Rebelo; o governador civil mais o presidente da Câmara, que era Vieira de Magalhães, barão de Alpendorada, conhecido, particularmente, pelos maus tratos que dava à gramática.
Num jornal da época escreveu-se mesmo que, para se sair airosamente nesta inesperada situação, o presidente da Câmara “anda a estudar o discurso que há – de recitar na ocasião em que tiver que saudar o rei, para não empregar palavras como num faz minga, cunsante e cangirão…” Naqueles tempos a sátira nos jornais não poupava ninguém.
O rei Carlos Alberto, perdão, o conde de Barge, chegou ao Porto acompanhado por dois criados, Gamalleri e Vallenti. Viajou de barco até Vigo e desta cidade galega veio para o Porto montado num simples garrano. Quando o pequeno cortejo do régio exilado se aproximava do Carvalhido as autoridades da terra adiantaram-se ao encontro dele. O governador deu as boas vindas e o rei agradeceu a hospitalidade. Ainda Carlos Alberto não tinha acabado o agradecimento e já o presidente da Câmara preparava outro discurso. Mas a leitura foi de imediato interrompida. Foi o próprio rei que a interrompeu. Pediu, delicadamente, desculpa e lembrou aos presentes que vinha doente lembrando que, do que mais precisava, naquela altura, era de uma cama e que, por isso, o deixassem chegar depressa à estalagem.
“À estalagem, ah, isso não “ – protestou o bispo, oferecendo o seu paço para o alojamento de Carlos Alberto. O monarca disse aos presentes que nada queria que lhe lembrasse grandezas ou fausto e que apenas pretendia que o levassem a uma hospedaria. E assim foi feito. Carlos Alberto hospedou-se no palacete da praça dos Ferradores que fora residência dos viscondes de Balsemão e onde, na altura da sua chegada ao Porto, funcionava a célebre hospedaria do Peixe, nome do proprietário.
O rei vinha mesmo doente. Tão doente que os criados tiveram que o levar ao colo para os aposentos que lhe haviam sido destinados. Três dias depois mudou-se para uma vivenda na atual rua de D. Manuel II e a 14 de maio foi viver para a casa de campo do capitalista António Ferreira Pinto Basto, na rua de Entre Quintas onde hoje está o Museu Romântico”.
Com a devida vénia a Germano Silva

“O estado de saúde de Carlos Alberto era, contudo, bastante delicado e agravava-se de dia para dia. Em breve deixou de poder dar os curtos passeios a cavalo pela cidade, ficando retido em casa, onde os médicos Francisco d'Assis e António Fortunato se viam impotentes para contrariar a morte que se aproximava. Às três horas e meia da tarde do dia 28 de Julho de 1849, na casa da Quinta da Macieirinha, pouco mais de quatro meses após a sua chegada a Portugal, é anunciada a já esperada notícia fatal: Carlos Alberto morrera. A notícia da sua morte provocou uma profunda consternação na cidade. Toda a gente, independentemente das suas opções políticas ou classe social, sentiram vivamente a morte tão cruel e prematura do malogrado príncipe, e grande parte da população vestiu de luto. Os divertimentos públicos foram suspensos e tanto nessa noite como na seguinte não houve espectáculos no Teatro Lírico. Durante dois dias, continuamente, os sinos de todas as igrejas dobraram a finados, as bandeiras nacionais foram colocadas a meia haste, e o barulho de uma descarga de bateria, colocada no largo da Torre da Marca, soava de quarto em quarto de hora”.
Com a devida vénia a José Manuel Lopes cordeiro, In Jornal Público, 1999 


Quatro anos após a morte de Carlos Alberto, chegou ao Porto, sua irmã, Frederica Augusta de Montléart que teve autorização da Câmara para a construção da capela em memória de Carlos Alberto numa parcela de terreno demarcada em Abril de 1854 no Campo do Duque de Bragança
Durante a construção do templo aconteceram diversas contrariedades decorrentes da falta de planeamento dos trabalhos e, que levaram a que, por exemplo, as fachadas da rectaguarda e laterais tenham um risco que os entendidos dizem ser muito pobre. Tal facto, ter-se-ia ficado a dever aos méritos atribuídos ao mestre-pedreiro de seu nome Lopes, escolhido para responsável máximo da obra, méritos esses, que ele não possuía de todo.
Entretanto já tinham sido feitos anteriormente outros esquissos do templo, solicitados aos arquitectos Joaquim de Costa Lima Júnior e Pedro d’Oliveira, tendo, este último, acabado por fiscalizar a obra no que apenas a aspectos de segurança dizia respeito, pois, não concordava com os traços arquitectónicos postos em prática pelo mestre-pedreiro.
Quanto à fachada principal, parece que ela teve por base um desenho apresentado à Câmara aquando do pedido de licenciamento da construção, que alguns dizem ser obra da princesa Frederica, outros do arquitecto Costa Lima e ainda outros de que a princesa o teria obtido em Lisboa e de autor desconhecido.

Desenho da fachada da Capela de Carlos Alberto – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”

No desenho anterior é apresentada a fachada principal, traçada pela própria mão da princesa Frederica Augusta de Montléart e aprovada pela Exma. Câmara Municipal do Porto em sessão de 30 de Março de 1854 e que serviria para que a obra tivesse a necessária autorização.
Poder-se-á dizer que o templo foi construído com grande improvisação, onde nenhum projecto parece ter sido verdadeiramente seguido. 


Capela de Carlos Alberto c. 1900 - Ed. Photo Guedes; Fonte: "igreja-luterana.blogspot.pt"


Capela de Carlos Alberto - Ed. Alberto Ferreira em 1907; Impressor Papelaria e Tipografia Académica

Traseiras da Capela de Carlos Alberto


Em 25 de Dezembro de 1861 foi inaugurada a capela numa missa aí realizada com a presença da princesa Frederica Augusta e em 1862, a capela foi doada ao nosso rei Luís I, que ainda não era casado com D. Maria Pia de Sabóia, a neta de Carlos Alberto.
Muito mais tarde aquando da implantação da República em Itália, um bisneto de Carlos Alberto, o rei Humberto II, haveria também de se exilar em Portugal.
Na altura da estadia do rei Carlos Alberto na quinta, ela tinha sido comprada e pertencia a António Ferreira Pinto Basto, (filho de Domingos Pinto Basto), ligado às fábricas de cerâmica da Vista Alegre, fundada por seu irmão José Ferreira Pinto Basto em 1824.
Este José Ferreira era uma figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola, comerciante audaz, incorporou sabiamente o ideário liberal do século, tendo-se tornado “o primeiro exemplo de livre iniciativa” em Portugal.
Por seu turno António Ferreira Pinto Basto era um Miguelista, que se oporia à primeira tentativa de implantação da capela dentro da sua propriedade.
Devido à passagem do rei Carlos Alberto por Pontevedra no seu trânsito para o exílio, a Galiza haveria de homenageá-lo com a colocação de um cruzeiro com placa evocativa junto da capela na Avenida das Tílias.

Capela de Carlos Alberto e Cruzeiro de homenagem de Pontevedra – Fonte:  “dopedidoaoaltar.com”

Desde 2009 a capela que é parte integrante dos jardins do Palácio, foi arrendada pela Câmara Municipal, e passou a ser a sede, no Porto, da Paróquia Luterana da Santíssima Trindade da Igreja Luterana de Portugal, onde realiza os seus cultos, todos os Domingos.



Capela nos jardins do Palácio de Cristal

Sobre a estadia do rei Carlos Alberto convirá enquadrar os acontecimentos na época em Portugal, em que reinava D. Maria II.
Em Novembro de 1807 a família real, com D. Maria I à frente, foge para o Brasil. Esta rainha era casada com Pedro III, rei consorte e seu tio. No entanto desde 1799 que o infante D. João de Portugal era o regente em nome da mãe, que tinha enlouquecido.
Entre 1816 e 1826 este torna-se o Rei D. João VI, a que sucederá D. Pedro IV, que abdicaria nesse mesmo ano em favor de sua filha Maria, que sendo menor, obrigou a que o reino tivesse como regente até 1828, a irmã de D. Pedro IV, Isabel Maria de Portugal e, depois, na mesma qualidade durante 5 meses, o irmão de D. Pedro IV, D. Miguel.
Este quebrando o compromisso assumido de casar com a sua sobrinha, tornou-se por usurpação rei até 1834.
Vencido D. Miguel, assume D. Maria II entre 1834 e 1853 e, o rei consorte D. Fernando II, entre este ano e 1855 como regente, dada a menoridade do seu filho que reinaria apenas durante 6 anos como D. Pedro V, já  que morreu prematuramente.
A este, entre 1861 e 1889 sucederia o seu irmão D. Luís I que viria a casar com D. Maria Pia, da casa de Saboia, neta do rei Carlos Alberto e filha do rei Vítor Emanuel II.

Quinta da Macieirinha

O desenho acima, é de 1849 e da autoria do pintor e gravador portuense, Joaquim Cardoso Vitória Villanova.
O Museu Romântico da Quinta da Macieirinha continua enquadrado pelo jardim, bosque e antigos terrenos agrícolas, que lhe emprestam um bucólico ambiente romântico. 


Casa Museu - Ed. MAC

Interior do Museu - Ed. MAC


Afinal quem foi o rei Carlos Alberto?
Na época da dominação napoleônica no Piemonte, estudou em Paris e em Genebra. Em 1814, Napoleão o nomeou tenente do regimento "Dragões". Pouco depois da queda do Império Francês, voltou para Turim e foi aceite na família real, embora visto com um pouco de suspeita por causa das suas simpatias pela França e por ser uma pessoa de espírito liberal.

“Em 1821, Carlos Alberto teve um papel não muito claro nas agitações constitucionais que aconteceram no Reino da Sardenha e, certamente teve contato com os rebeldes, mas, na última hora parece que voltou atrás, enquanto os conjurados, em boa ou em má-fé, continuaram a contar com ele.
Após a abdicação do rei Vítor Emanuel I em 1821, tornou-se regente e promulgou a constituição, a valer com a aprovação do rei, ou seja de Carlos Félix, mas este, ao contrário, desautorizou o feito, chamou os austríacos ao Piemonte-Sardenha, e ordenou a Carlos Alberto de acompanhar as tropas fieis a Novara, coisa que ele fez sem hesitar. Por causa das suas atitudes, ele se tornou suspeito não somente aos olhos dos Carbonários, que o acusaram de traição, mas também aos olhos da corte. Primeiro ficou exilado na casa do sogro, Ferdinando III de Toscana, depois participou da repressão à revolução liberal espanhola lutando em Trocadero atraindo, assim, o ódio dos seus antigos amigos políticos.
Depois da morte de Carlos Félix em 1831, subiu ao trono sem dificuldade em 27 de abril de 1832 (é lenda o fato de que Metternich tramou para excluí-lo da sucessão)”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”

Carlos Alberto decidiu-se a dado momento, pela intervenção armada contra os austríacos, para a qual não estava preparado, a fim de expulsá-los da Lombardia e de Veneza.
A guerra, conduzida pessoalmente por ele, teve como resultado imediato a libertação da Lombardia, arrancada ao jugo austríaco; contudo, o Império Austríaco rapidamente iria recuperar acontecendo a grande derrota dos piemonteses em Novara.
A breve campanha acabou em três dias, com a desastrosa batalha de Novara a 28 de Março de 1849.
Carlos Alberto abdicou no mesmo dia em favor do filho Vítor Emanuel II, retirando-se para o exílio.

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