domingo, 24 de setembro de 2017

(Continuação 7)



Na Rua da Restauração existe um palacete conhecido como Palacete do Conde Silva Monteiro.
Mobilado com a sumptuosidade que a fortuna do conde permitia, uma das salas do palacete era considerada uma verdadeira “maravilha, ornamentada com mobílias, estofos e porcelanas da China de grande preço e delicadíssimo gosto".
Hoje e desde 1945 a casa é a sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (“A Casa do Vinho Verde”), sendo um dos mais ricos exemplares da permanência do brasileiro de torna-viagem após o seu regresso à cidade do Porto, chegando a ser considerada como “a mais luxuosa da cidade” e denominada desde então, Palacete Silva Monteiro.
Localizada no centro da cidade e numa encosta voltada a sul, sobre o rio Douro, a Casa do Vinho Verde foi edificada em meados do século XIX, pela família Ferreira de Moura. Apresenta três pisos e, no seu interior, um trabalho de arquitectura ricamente decorado, do qual se destaca a escadaria nobre, iluminada por uma clarabóia ornamentada de frescos, bem como um conjunto de infra-estruturas ideais para a realização de qualquer tipo de eventos ou iniciativas.
No seu último piso, o dos quartos, possuía ainda uma capela.
Esta característica, encontrámo-la também, no Palácio do Bolhão.


Palacete Silva Monteiro – Ed. JPortojo



Jardim do Palacete Silva Monteiro e a Fonte das Três Graças – Ed. “oportoencanta.com”



Sala Dourada com estuques e pinturas do francês Le Fèvre em 1873 

Clarabóia decorada com estuques e pinturas

Pormenores dos estuques – Ed. “oportoencanta.com”

Vista sobre o rio Douro a partir do palacete – Ed. “oportoencanta.com”

António da Silva Monteiro, o Conde da Silva Monteiro, (Lordelo do Ouro 16 de Agosto de 1822 — 15 de Janeiro de 1885) recebeu o título de conde em 22 de Dezembro de 1875 com decreto de Dom Luís I, rei de Portugal.
Era filho de pais comerciantes abastados, que entretanto perderam toda a fortuna, após se terem tornado simpatizantes da causa liberal.
Este facto obrigou a que, ainda jovem, tivesse emigrado para o Brasil e a tornar-se na cidade do Rio de Janeiro, um próspero capitalista e negociante, proprietário de importante casa comercial, que ainda estava em actividade no tempo de sua morte, mesmo com ele a residir em Portugal.
No retorno à sua terra, o "seu coração compassivo e seu ânimo generoso, não ficaram inertes" quando sua ajuda filantrópica foi requisitada, e desta maneira contribuiu para a criação das escolas primárias das freguesias de Lordelo do Ouro e de Miragaia.
Em 1871 adquire a casa da Rua da Restauração e terrenos contíguos pertencentes à quinta da Bandeirinha e amplia o próprio edifício com um acrescento pentagonal com as suas janelas de estilo neo-gótico.
No terreno por trás da casa, em socalcos, são edificados o jardim, com a sua Fonte das Três Graças, e espécies exóticas de botânica e , ainda, em patamares mais baixos a horta e o pomar. Tudo com uma vista deslumbrante sobre Miragaia e o rio Douro.
Apaixonado pela jardinagem, tinha Silva Monteiro um espaço imenso em V. N. de Gaia, pertencente também a seu irmão, onde a praticava e, que é hoje, o Parque Municipal da Lavandeira, à data confinando com a Quinta do Sardão.
Estas duas propriedades tinham pertencido, anos antes, ao avô de Almeida Garrett.
Nessa propriedade mandou construir Silva Monteiro entre 1881 e 1883, pela fundição do Ouro, uma estufa monumental em ferro e vidro, inaugurada em 1881, tendo dessa sua paixão pela jardinagem, chegado a receber alguns prémios em exposições efectuadas no Palácio de Cristal.
Ao longo dos anos essa estufa foi sujeita a vandalismos e roubos necessitando actualmente de atenção para a sua reabilitação.
Importa referir que se encontra classificada como Imóvel de Interesse Municipal, sendo um exemplar importante na arquitectura do ferro em Portugal.


Estufa em V. N. de Gaia – Fonte: “aarquiteturadoferro.blogspot.pt”


Estufa no Parque da Lavandeira actualmente - Fonte: “aarquiteturadoferro.blogspot.pt”


A actividade do Conde Silva Monteiro na cidade, nas últimas décadas do século XIX é marcante.
Por ocasião da Guerra Franco-Prussiana impulsionou com sua iniciativa a festa do Palácio de Cristal, em benefícios dos feridos desta campanha e, mais tarde, tratando da organização da junta central de ajuda aos flagelados da enchente de 1877, prestou na qualidade de vice-presidente, assinalados serviços, e contribuiu com a quantia de 200$000 réis para a subscrição que promoveu.
Foi presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários e da Associação Comercial.
Vice-Presidente da Câmara Municipal do Porto de 1876 a 1877, assumindo a presidência nas ausências do titular.
Foi presidente da Sociedade Palácio de Cristal. Teve o seu nome associado a diversas empresas e empreendimentos como a Companhia do Caminho-de-Ferro à Póvoa e Famalicão, Tanoaria a Vapor, Fábrica de Papel de Ruães, Companhia Aurífera, Companhia de Navegação a Vapor, Companhia Mineira e Metalúrgica do Braçal, entre outras. Foi um grande incentivador dos projectos do Porto de Leixões e do Caminho-de-Ferro para Salamanca.


Companhia Aurífera na Rua dos Bragas

A Associação Comercial do Porto tinha nos seus corpos gerentes, invariavelmente, vários brasileiros e um deles, o Conde de Silva Monteiro, foi presidente da Direcção no difícil período de 1875-1877.
Amador apaixonado por horticultura e jardinagem, possuía na grande e graciosa estufa de ferro e vidro, construída pela fundição de Massarelos, na sua quinta da Lavandeira, em Vila Nova de Gaia, uma preciosa e variada colecção de plantas. Nas exposições do Palácio de Cristal foi diversas vezes, expositor premiado.
Era Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem da Conceição. Foi director do palácio de Cristal, fundador do Hospital de Crianças, Vogal do Conselho de Beneficência do Distrito, Mesário da Santa Casa da Misericórdia, accionista e sócio de quase todos os estabelecimentos Bancários e Grémios Científicos, nomeadamente a Sociedade de Instrução.
A ele se deve, em grande parte, os trabalhos do Porto de Leixões.
Faleceu inesperadamente, de uma hepatite complicada, no seu palacete da Rua da Restauração, no dia 15 de Janeiro de 1885 e sepultado no cemitério da Lapa, sendo a sua sepultura, executada pelo canteiro Bernardo Marques da Silva, o pai do arquitecto Marques da Silva. 



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