sexta-feira, 8 de setembro de 2017

(Continuação 7)

20.8 Quinta do Covelo ou Quinta do Paranhos e o Cerco do Porto



Ruínas da casa e capela c. 1900 – Ed. Arnaldo Soares



Ruínas da casa e capela em 1958 – Ed. Teófilo Rego



No século XVIII a quinta, então chamada Quinta do Lindo Vale ou Quinta da Bela Vista, pertencia a um fidalgo chamado Pais de Andrade. Pela morte deste passou, por herança, para duas filhas que a venderam a um negociante chamado Manuel José do Covelo, oriundo de Amarante, mas com re­sidência no Porto, onde possuía dois gran­des armazéns, um de sedas e o outro de ce­reais. Este último ocupava o edifício da Rua de Entreparedes, onde em tempos funcionou um estabelecimento da Companhia Vinícola.
A partir daqui fica-se a saber por que é que a quinta se passou a chamar do Covelo.
A casa da quinta, com uma capela anexa, tinha a fa­chada principal voltada para um sinuoso ca­minho a que mais tarde foi dado o nome de Viela do Covelo e que, depois de ter sido alargada e devidamente alinhada, é hoje a airosa e tranquila Rua de Bolama.
José Covelo morreu no ano de 1829 ou 1830. Além de negociante fora, também, um importan­te e influente membro das milícias. E foi en­vergando a farda do posto de oficial e respectiva espada que o seu corpo foi sepultado num mausoléu, construído propositada­mente para esse efeito, no interior da cape­la da sua casa da quinta do Covelo,  que tinha Santo António como padroeiro.
No século XIX há o registo de nova mudança de dono e a quinta foi vendida, pelos descendentes do Covelo e acabou nas mãos de Manuel Pereira da Rocha Paranhos falecido na Quinta da Granja em Campanhã, e passou a ser conhecida, também, por Quinta do Paranhos.
Em 1893 a quinta estava ocupada, pois, nela faleceu a esposa do anterior proprietário.
Passaria depois ao filho António Paranhos que comprando a parte da herança pertencente a seus irmãos a deixou, após falecimento a seu filho Isidro António Pereira Rocha Paranhos que, em 1954, ainda a detinha.
Em 1 de Março de 1958 o arquitecto Fernando Doutel defende na Escola Superior de Belas Artes do Porto, uma tese sobre o aproveitamento da Quinta do Covelo para parque de campismo, com 19 valores, que não chegou a ver a sua concretização.

“Esta quinta foi doada ao Ministério da Saúde e à C. M. do Porto com a intenção de estas entidades aí instalarem um hospital para doentes tuberculosos. Porém, não tendo chegado a acordo para a sua construção, o M. S. aceitou que a C.M.P. transformasse esse espaço num parque onde os portuenses pudessem recrear-se. Foi desenhado pelo Arq. Castro Calapez”.
Fonte: “portoarc.blogspot.pt”

Pintura a óleo de 1873 da Quinta do Covelo de Silva Porto - Museu Soares dos Reis


Ruínas da capela c. 1900 – Ed. Arnaldo Soares


Cerco do Porto

“A casa e a capela, um belíssimo conjunto da arquitectura setecentista, foram incendiadas e destruídas, em 16 de Setembro de 1832, na sequência de combates entre liberais e miguelistas, ocorridos durante o Cerco do Porto. Logo a seguir à entrada no Porto do Exército Liberal, a 9 de Julho de 1832, os miguelistas trataram de montar, a partir do que, então, eram considerados os arrabaldes da cidade, um apertado cerco aos sitiados. Nesse sentido, criaram posições ofensivas em sítios de onde mais facilmente, através das suas peças de artilharia, lhes fosse possível atingir o centro da cidade e, ao mesmo tempo, impedir o reabastecimento das tropas liberais e dos próprios civis.
O alto do Covelo, a que popularmente se chamava "o monte", foi considerado pelas tropas absolutistas como o sítio ideal para montar a artilharia que havia de metralhar o centro do Porto e vigiar as movimentações de civis no sentido de impedir, por exemplo, que os lavradores de Paranhos introduzissem na cidade mantimentos e outros víveres através da estrada da Cruz das Regateiras. E com estes propósitos criaram uma autêntica fortificação na Quinta do Covelo. Só que os liberais não ficaram quedos. Consta que por iniciativa do próprio D. Pedro IV as tropas constitucionais resolveram, em 16 de Setembro de 1832, desalojar os miguelistas do reduto do Covelo, a fim de ficarem com o controlo daquela zona, de grande importância estratégica para os combates que estavam para vir. Os objectivos dos liberais foram conseguidos. Uma força de "mais de 1400 baionetas", além de terem escorraçado os miguelistas, a quem causaram inúmeras baixas, ainda arrasaram fortificações e destruíram baterias e canhoneiras. Mas por muito pouco tempo os soldados de D. Pedro lograram manter as posições que haviam conquistado. Os absolutistas contra atacaram, em Março de 1833, e conseguiram, depois de renhidos combates, com enormes perdas para as duas partes, retomar as posições que pouco antes haviam perdido. De imediato iniciaram a construção de "defesas do monte" erguendo ao redor estacadas ou paliçadas, com o que pretendiam ocultar os trabalhos de fortificação que andavam a fazer. E os liberais? Que fizeram? Voltaram ao ataque. Numa das digressões que diariamente fazia aos locais onde o perigo mais se fazia sentir, D. Pedro passou pela Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal) e apercebeu-se do perigo que constituía para a sua causa o facto de os miguelistas terem retomado o Covelo e providenciou para aquela posição voltasse a ser ocupada pelos liberais. Isso aconteceu a 9 de Abril de 1833. E a delicada e arriscada tarefa foi confiada ao coronel José Joaquim Pacheco que, mais tarde, viria a morrer, em combate, na Areosa. A cidade, agradecida, deu o seu nome à antiga Praça do Mirante que é hoje a Praça do Coronel Pacheco”.
Com a devida vénia a Germano Silva

Uma crónica da época refere esta segunda tomada do Covelo pelos liberais, da seguinte forma:

“A 7 de Abril descobriu-se a longa estacada feita pelos miguelistas desde as primeiras casas de Paranhos até às eiras do Covelo. Queriam fortificar-se ali. Não havia tempo a perder. Era preciso desalojá-los. A artilharia dos liberais começou a responder desde as primeiras horas da manhã do dia 9 e durou o fogo até às seis da tarde. Cruzaram-se os fogos das baterias da Glória (Lapa), do Pico das Medalhas (Monte Pedral), do Sério (alto da Lapa), da Aguardente (Marquês de Pombal) e de S. Brás. Uma força de mil homens saiu fora das linhas para tomar de assalto o monte do Covelo. Mas no dia seguinte (10 de Abril) os absolutistas voltaram com o intuito de retomarem as posições perdidas e onde os liberais haviam levantado um reduto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas 200 soldados. Foram atacados por mais de 2000 do inimigo. Foram momentos decisivos. Duzentos homens livres conseguiram pôr em fuga 2000 do inimigo.”
Fonte: “portoarc.blogspot.pt”

Por sua vez Hélder Pacheco, professor e escritor, em texto publicado no Jornal de Notícias, sobre o Cerco do Porto, diz:


"O período mais empolgante da história do Porto é, para mim, o do Cerco que, entre 22 de Agosto de 1832 e 18 de Agosto de 1833, lhe foi imposto pelo exército Absolutista. Defendido por um corpo de 8 000 homens do exército liberal, o burgo foi sitiado por cerca de 80.000 soldados, providos de larga superioridade também de armamento. A partir de 26 de Julho, em que D. Pedro e o seu Conselho Militar, perante os insucessos das acções ofensivas, optaram por uma guerra defensiva, a sorte da cidade estava traçada resistir a todo o custo ("a guerra seria um cerco; o Porto um baluarte defendido pelas suas íngremes encostas, pelo fosso natural do rio, ligado ao Mundo pelo cordão umbilical da Foz; um baluarte de gente perdidamente heróica, no meio de um aluvião de soldados; um ponto, como uma ilha no vasto pélago do reino inteiro miguelista!", Oliveira Martins). Meses depois, a situação tornar-se-ia quase desesperada e tudo os portuenses tiveram de suportar: fome, epidemias (cólera e tifo), deserções de soldados, bombardeamentos e destruições. (Oliveira Martins: "As noites seguiram tremendas, com o céu constelado de estrelas errantes portadoras de morte. Havia tifos e a fome era já tanta que os soldados de Shaw saíam a caçar os cães que vinham cevar-se nos cadáveres, para os venderem à libra às casas de pasto. Havia frio sem lenha.")
A defesa da cidade, delineada por Bernardo Sá Nogueira, assentava num sistema de fortificações - as "linhas" - constituído por parapeitos, trincheiras e fossos, guarnecidos por estacadas. As linhas iam, inicialmente, da Quinta da China até ao Bicalho, passando pelo Padrão de Campanhã, Lomba, Bonfim, Póvoa de Cima, Aguardente, Monte Pedral, Carvalhido, Bom Sucesso. Ao longo delas, havia redutos e batarias. Posteriormente, seriam ampliadas do Carvalhido por Francos, Van Zeller e Pasteleiro até à Senhora da Luz.
Fora das linhas, nuns sítios próximos, noutros afastadas, os miguelistas construíram também batarias e fortes. Alguns destacavam-se pela sua importância, entre os quais o da Ervilha. Construído em 1832, aproveitando talvez a elevação (com 4x6 metros) já utilizada como Linha de Defesa do Porto, em 1809, contra os franceses, dominava a vizinhança e tinha ligação visual com elevações semelhantes, cuja utilização militar concedia relativo domínio sobre as forças inimigas postadas nas proximidades. Em cima, existiam duas pequenas grutas servindo de paiolins ou de abrigos das guarnições dos canhões ali postados.
O Espaldão ou Forte da Ervilha, juntamente com os do Monte do Crasto e de Serralves, integrava um conjunto fortemente organizado das linhas sitiantes. Eram obras bem concebidas e executadas, rodeadas por muros de sebes e estevas, reforçados com parapeitos à prova de bala. No interior, havia instalações para as guarnições. Em 24.1.1833, o forte foi atacado e temporariamente ocupado por uma força liberal, na tentativa de o neutralizar. O que resta do Forte da Ervilha constitui a única posição desta área fortificada ainda existente e único vestígio material da saga heróica das Linhas do Porto e testemunho essencial à memória histórica da cidade”.


Em 24 de Julho de 1833 as tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira e que tinham desembarcado no Algarve e atravessado o Alentejo, entram em Lisboa sem dispararem um tiro, já que as tropas miguelistas tinham abandonado a cidade de madrugada. A capital do país é libertada das tropas absolutistas, antecipando o que iria acontecer no ano seguinte (1834), a vitória definitiva do Liberalismo em Portugal e o exílio de D. Miguel. 


Quinta do Covelo – Fonte: pt.wikipedia.org

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