sábado, 8 de maio de 2021

25.122 Foz do rio Douro - dos Alviçareiros à Telegrafia

 

No Monte da Senhora da Luz, na Foz do Douro, estiveram instaladas a Ermida da Senhora da Luz, o Farol da Senhora da Luz e diversas Estações Telegráficas.
A Ermida da Senhora da Luz, à qual começaram por se dirigir os romeiros para reclamar a benção daquela padroeira, era de construção muito antiga e muito anterior a todas as outras estruturas levantadas naquele local.
Um farol primitivo já existiria no dealbar do século XVII, mantido pela confraria da Senhora da Luz que administrava a referida ermida.
Em 1 de Fevereiro de 1758, por alvará do Marquês de Pombal, é ordenada a construção de um farol, devido às dificuldades da entrada da Barra do Douro. Em 1761, estava já construído e dotado de estruturas para ser considerado um farol. 
No que à transmissão de mensagens à distância diz respeito, naquele monte, com observação ampla e privilegiada, começou por existir uma estação semafórica de persianas que, desde sempre, assim como o farol aí existente, tinha um funcionamento resultante de uma colaboração entre os mercadores do Porto e a confraria aí estabelecida.
Por algumas, poucas, gravuras existentes da primeira metade do século XIX, a estação telegráfica seria do tipo óptico e, possivelmente, de concepção baseada nos projectos de Francisco António Ciera (1763-1814), pioneiro da telegrafia portuguesa e grande impulsionador da cartografia do território nacional.
O seu modelo, de 1809, ficou conhecido por “telégrafo de 3 postigos” ou “telégrafo de 3 persianas” e, ainda, por “telégrafo de palhetas” ou “telégrafo de Ciera”
A par da estação telegráfica do Monte da Luz, uma outra do mesmo tipo existiu no Monte da Lapa, parecendo ter desempenhado um importante papel durante as invasões francesas e, também, durante o cerco do Porto.
Teria encerrado em Março de 1859, passando as comunicações telegráficas a ser praticadas pelo sistema eléctrico.
No caso das que ligavam a Chaves, passaram a ter origem na Casa Pia, à Praça da Batalha e, daí, para Valongo, continuando pelos "cabos aéreos".
 
 
Estação Telégráfica (torre cilíndrica). Antigo moinho de vento, no Monte da Lapa

 
 
As mesmas instalações da foto anterior – Desenho de Gouvêa Portuense
 
 
 
Maquete de “Telégrafo de Ciera” ou “Telégrafo de Palhetas”
 
 
A comunicação entre as embarcações que ao Porto vinham comercializar e que sulcavam o rio Douro, e algumas estações situadas nas margens, tinha exemplificação, desde o século XVIII, na Rua da Bandeirinha que, assim se chamava, por ostentar, por vezes, num mastro colocado junto do chamado Palácio das Sereias, uma bandeira – a Bandeirinha da Saúde.


No cimo do pináculo era içada a banderinha da saúde - Ed. Manuela Campos


Assim, quando um barco entrava no rio Douro e via, no tal mastro, ser içada uma bandeira, teria que estacionar no meio do rio, em frente a esse local, e esperar a visita efectuada pelos guardas-mores da saúde, para fazerem uma inspecção sanitária – eram tempos de peste.
Antes, em pleno século XVII, os guardas-mores estacionavam na Casa de Degredo de Vale de Amores, sob a égide dos frades capuchos do convento de Santo António de Vale da Piedade e, posteriormente, no Lazareto, situado mais a poente, no local que hoje fica, entre a igreja nova da Afurada e a Casa dos Pescadores.
Naqueles tempos, era também de primordial importância a comunicação entre terra e os barcos, para o rápido conhecimento pelos negociantes, cujas casas comerciais se localizavam na Rua dos Ingleses (actual Rua do Infante D. Henrique) e nas suas imediações, da chegada das embarcações que lhes eram destinadas.
Assim, a Associação Comercial do Porto, com existência desde 1834, em Assembleia Geral de 14 de Janeiro de 1835, decide instalar um telégrafo óptico, utilizando bandeiras e com recurso também, a monóculos.
Até aí, a informação chegava por intermédio dos “alviçareiros”, que calcorreando ruas e ruelas, levavam as informações aos seus destinatários.
O telégrafo óptico foi instalado em Março, daquele ano, no Castelo da Foz, sendo, depois, transferido em 1836, para o Monte da Luz, para junto do farol, aí existente, quase há dois séculos.
 
 
 
Castelo da Foz com a sua Ermida de São João da Foz (visível a cúpula) e, em primeiro plano, o Farol-capela de S. Miguel-o-Anjo – Fonte: Gravura (1790), a água-forte, de Manoel Marques de Aguilar
 
 
 
 
Durante o processo de instalação do telégrafo óptico, no Monte da Luz, a obra seria embargada pela Câmara Municipal da Foz (S. João da Foz teve uma efémera passagem a concelho entre 1834 e 1837) em virtude de, a mesma, poder vir a colidir com a reconstrução futura, da antiga ermida que se encontrava em ruínas, muito por acção dos bombardeamentos do exército miguelista, durante o cerco de 1833.
Na verdade, este ponto estratégico, durante o conflito, foi um ponto importante de apoio ao exército liberal, pelo controlo que a partir dele podia ser exercido sobre a baía natural que se formava, a poucos metros dali, na chamada praia de Carreiros que, hoje, tem uma existência artificial, após a construção do molhe de Carreiros.
Resolvido o diferendo, a instalação do telégrafo avançou. No entanto, a ermida nunca mais veria a luz do dia, sendo completamente demolida.
O serviço telegráfico, em si, era baseado num código de sinais envolvendo umas bandeiras colocadas estrategicamente num poste, no Monte da Luz. Por sua vez, os armadores fundeados ao largo da costa, esperando as ordens vindas de terra, correspondiam-se com a Estação do Monte da Luz através de bandeiras içadas em locais específicos, dos respectivos mastros, obedecendo aos códigos em uso naquelas épocas.
A retransmissão era assegurada e tinha continuidade num mastro colocado numa torre da Catedral da Sé, a que se seguia o reencaminhamento da comunicação da informação para a sede da Associação Comercial do Porto, junto da Rua dos Ingleses.
Note-se que, em 1835, ainda não existia o Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial do Porto que, provisoriamente, ocupava umas instalações precárias, nas ruínas do convento, anexas à Igreja de S. Francisco, onde viria a ser construído o Palácio da Bolsa ou Praça do Comércio.
 
 
 
Farol do Monte da Luz e, junto, a habitação dos faroleiros, em 1833 – Ed. J. Villanova
 
 
Na gravura acima, de J. Villanova, observa-se um telégrafo óptico de persianas, cuja posição relativa delas determinava, com base num código pré-estabelecido, o teor da mensagem a enviar e, na prova fotográfica, abaixo, observa-se o mesmo telégrafo, coexistindo com aquele que passou a estar sob a alçada da Associação Comercial do Porto, em mastro, à direita.
Neste, as bandeiras colocadas em posições estratégicas determinavam a mensagem.
 
 
 
Monte da Senhora da Luz, observando-se em 1858, à esquerda, uma estação semafórica de persianas e, à direita, aquela que era afecta à Associação Comercial do Porto – Prova em papel salgado a partir de um calótipo de Frederick William Flower
 
 
 
Sobre o primitivo telegrafo óptico existente no Monte da Luz, presente nas duas gravuras (de épocas diferentes) anteriores, se deve ter referido Ramalho Ortigão, no texto seguinte, identificando-o por “aparelho de taboinhas”.
 
 
“Tinham [os banhistas] os seus passeios favoritos: ao farol da Senhora da Luz, onde o faroleiro deixava olhar pelo oculo para os velhos telegraphos, cujo apparelho de taboinhas, armado no viso dos montes, parecia espreguiçar-se e bocejar as noticias no azul do espaço.”
Ramalho Ortigão - In “As praias de Portugal: guia do banhista e do viajante”, 1876, p. 24
 
 
 
“Em 1839, devido à oposição do Cabido da Sé, o mastro instalado na Catedral seria transferido para o local do antigo castelo de Gaia, por este ser «o ponto mais culminante entre a Luz e o Edifício d’esta Associação», segundo o relatório de 1839.
Em 1852, inicia-se a construção de um novo posto semafórico, na Cantareira, adossado à capela de S. Miguel-o-Anjo, e é adquirido um telescópio para a estação da Luz”.
Cortesia de Carolina Furtado, mestre em História da Arte pela FLUP
 
 
 
Gravura (1849) do Morro do Castelo de Gaia ou Morro do Candal, em 1849 – Gravura de  Cesário Augusto Pinto (1825-1896),  In “As margens do Douro” (collecção de doze vistas)
 
 
Em V. N. de Gaia, na Afurada de Cima, a partir de 1845, viria a ser instalada uma outra estação semafórica, na margem esquerda do rio Douro.
 
 
“A Associação Comercial do Porto adquiriu em Outubro de 1845 por 700$000 (setecentos mil reis) um terreno na Afurada de Cima para construir em Gaia um edifício com torre, uma moderna e prestável Estação Semafórica.
O Padre Manuel Romero Vila, que dedicou muita atenção ao estudo desta Estação, cujo edifício ainda existe, por se ter conseguido evitar o seu desaparecimento por ocasião das obras de urbanização e rodoviárias relacionadas e próximas da ponte da Arrábida. A construção é constituída por uma habitação onde vivia a família, cujo chefe desempenhava as funções de vigia e sinaleiro. Anexo à casa encontra-se uma torre oitavada, em cujo topo o sinaleiro expunha os sinais transmitidos da estação da Foz do Douro, com as cores da bandeira da nacionalidade dos navios que chegavam à vista de terra.
As cores eram dispostas como gomos de laranja em disco de ferro colocado no topo da torre. Pessoas colocadas no largo da Sé, cais dos Banhos ou muro da Reboleira conseguiam ver com o auxílio de óculo a imagem e apressavam-se a informar os negociantes das cargas e os agentes consignatários dos navios, que acabavam de chegar à barra.
O padre Romero recordava a forma incorrecta como o povo local se referia ao Telégrafo. Popularmente designado por “Taléfe”.”
Fonte: Rui Amaro (“naviosavista.blogspot.com/”)

 
 
Estação semafórica do Alto da Afurada, em 2000 – Ed. F. Cabral, In “naviosavista.blogspot.com/”
 
 
 
Estação Semafórica e Telegráfica (torre) da Cantareira, em 1900, cuja construção começou em 1852, no chamado Cais do Marégrafo
 
 
Na reprodução do postal, acima, observa-se a Estação Semafórica e Telegráfica da Cantareira (torre), adossada a esta, a Estação de Pilotos e Casa da Alfândega e ainda, a Ermida/farol de S. Miguel-o-Anjo (abóbada branca). À esquerda do edificado vê-se um obelisco branco.
A abóbada da ermida e o obelisco serviam de marcas do enfiamento da barra do Douro.
 

 
Cais do Marégrafo, actualmente, sendo visível, em primeiro plano, o farolim da Cantareira (desactivado) e que prestou serviço, a partir de 1915
 
 
Em 1856, seria decidido abandonar o telégrafo óptico e a Associação Comercial do Porto passaria a usar o telégrafo eléctrico com o sistema Breguet, ligando a sua sede com os postos da Senhora da Luz e da Cantareira.
 
 
 
Telégrafo Eléctrico (sistema Breguet)
 
 
Ficavam, assim, ultrapassadas as dificuldades de comunicação após o pôr-do-sol, e em situações de nevoeiro ou neblina.
A partir da década de 1870, passariam a coexistir dois telégrafos eléctricos, no Monte da Luz: um, pertencente à Associação Comercial do Porto e, outro, propriedade do Estado.
Em 1880, a Associação Comercial do Porto abandona o sistema Breguet e substitui-o pelo sistema Morse, já então em vigor no país e adoptado internacionalmente.
O sistema Morse que teria como sucessor, em 1885, o sistema telefónico, manteve-se, contudo, em funcionamento, até ao início da década de 1960, na dependência da Associação Comercial do Porto (edifício da Bolsa).
 
 
Telégrafo Morse
 
 
 
No processo de conhecimento antecipado da informação de chegada dos navios aos cais do rio Douro e do interesse em generalizar a dita informação, nos dá conta o texto seguinte:
 
 
“Não havia mercador do Porto que não tivesse negócios com a Inglaterra. O vapor da Mala Real Inglesa, que trazia as encomendas e as letras de câmbio para pagamentos de anteriores fornecimentos, vinha ao Douro uma vez por mês. A fim de estarem preparados para receber atempadamente as letras e despacharem novas encomendas, os comerciantes arranjaram maneira de saber, de véspera, da chegada do barco. Pelo telégrafo, ainda do alto mar, os do vapor comunicavam à Associação Comercial o dia previsto para a entrada na barra. A Associação fazia chegar a mensagem à Irmandade dos Clérigos que mandava içar na torre uma vara com duas bandeiras nas pontas. Era o sinal da aproximação do barco. Tempo de tratar dos negócios”.
Cortesia de Germano Silva
 
 
 
Em 1887, começa um processo de renovação das instalações no Monte da Luz, para o qual foi reclamada a colaboração do Estado, na cedência de parte das suas instalações, mormente, do mastro de comunicações que lhe era afecto.
Aliás, desde há mais de 10 anos, que o Estado pretendia apoderar-se do telégrafo da Associação Comercial do Porto e, assim, das respectivas instalações, o que não viria a conseguir.
 
 
 
“De planta quadrangular e três pisos, o edifício apresenta algumas caraterísticas da habitação portuense oitocentista, nomeadamente quanto à organização da fachada principal. Esta possui três vãos por piso, com molduras simples em cantaria.
O edifício termina num terraço, que tinha a função de observatório da costa.
Em 1891, a rede telegráfica da Associação Comercial do Porto é prolongada até Leixões, cujo porto artificial, em construção desde 1884, era já frequentado por um número elevado de embarcações.
Também aqui a Associação irá construir um posto semafórico para comunicar com os navios, à semelhança do que, há largos anos, era prática no Monte da Luz.”
Cortesia de Carolina Furtado, mestre em História da Arte pela FLUP
 
 

À direita, parcialmente visível, o edifício construído em 1887, pela Associação Comercial do Porto para instalação do telégrafo – Ed. JPortojo
 
 
 
Posto semafórico (1908), construído em 1891, em Leça da Palmeira, pela Associação Comercial do Porto
 
 
As estações atrás referidas comunicavam, então, a chegada dos navios às autoridades marítimo-portuárias, particularmente aos pilotos da barra, aos agentes de navegação, à Associação Comercial do Porto, etc.
 
 
 
Telégrafo do Palácio da Bolsa, em exposição
 
 
 
Durante grande parte do século XX, a Estação do Monte da Luz continuou a ser usada para perscrutar o horizonte, apesar de todas das novas tecnologias que iam surgindo, colaborando com outros postos de vigia existentes.


 
Torre de vigia da Estação Telegráfica do Monte da Luz – Ed. JPortojo

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