terça-feira, 20 de janeiro de 2026

25.297 Desastres marítimos às portas de Leixões

 
1. O encalhe do navio grego Hadiotis
 
 
O Hadiotis, um navio de carga a vapor foi lançado em 1928, em Howden, Tyne, no estaleiro de Northumberland Shipbullding Co. e entregue, em 1929, ao armador grego Kassos Steam Navigation.
O saudoso Rui Amaro, no texto seguinte, deu-nos uma panorâmica do acontecido, junto ao porto de Leixões.
 

 
“A 15/02/1941, pelas 16h00, começaram a sentir-se ventos tempestuosos do quadrante noroeste com rajadas de 65kmH, as quais por vezes aumentavam de intensidade, formando forte maresia, que penetrava, perigosamente na bacia e na nova doca comercial do porto de Leixões, e das 18h00 às 21h30 passou à situação de ciclone com ventos soprando entre os 128 e 145kmH. Aquele ciclone devastava-tudo por onde passava, eram árvores, automóveis, telhados, casas velhas, embarcações, etc. Por precaução, o sota-piloto-mor António da Silva Pereira, já tinha mandado alguns pilotos para bordo dos vapores surtos no anteporto para resolver qualquer eventualidade, que entretanto surgisse e de facto a sua decisão não foi em vão. No pico do ciclone, o paquete Brasileiro CUYABÁ, 129m/6.672tb, piloto Tito dos Santos Marnoto, transportando passageiros e carga diversa, fundeado a dois ferros ao norte, partiram-se-lhe as duas amarras, situação provocada pela força da ressaca e do vento. Aquele paquete tendo a máquina a trabalhar no máximo, não se consegue deter devido à força eólica do ciclone, apesar das manobras orientadas por aquele piloto, vai de garra e acabando por encalhar junto da entrada da doca nº 1, que por pouco não ficou bloqueada, ficando um pouco adornado.
Também o vapor Grego HADIOTIS, 121m/4.386tb, piloto Francisco José de Campos Evangelista, em lastro, fundeado a dois ferros na Bacia, com a máquina a trabalhar no máximo da sua potência, apanha de lado a força do vento e vai de garra sobre o CUYABÁ, mas aquele piloto, com certa perícia, tenta conduzir o vapor de maneira a impedir o abalroamento com o paquete Brasileiro, que entretanto encalhara, não evitando, que também o HADIOTIS acabe por varar na praia, a sul da rampa do Pescado. Tudo isso depois de ter passado por cima dos escolhos de natureza granítica, que eriçavam o fundo daquela zona portuária, rebentando com eles e rasgando-se a si próprio. O vapor ficou de proa a sul, portanto paralelo à praia. Era impressionante ver um navio tão grande naquela posição e era voz corrente, que ele se não safaria das garras em que caíra, visto que excepcionalmente se formaria outra maré igual à do dia em que encalhara e que só outro ciclone poderia reproduzir. O argumento tinha peso mas não era convincente e muito menos decisivo. Assente sobre rochas rijas, mais salientes umas que outras, força essa, como de facto sucedeu, que algumas lhe amolgaram ou trespassaram o fundo, que todo se deformou mais ou menos”.
Texto de Rui Amaro
 
 
 
Cargueiro Hadiotis encalhado

 
 
 
Entretanto, após o encalhe em Leixões, em 1941, o Hadiotis haveria de ser reparado em Lisboa para onde foi rebocado e haveria de ter alguns anos mais de serviço pela frente, como narra o naco de prosa seguinte.
Assim, em 30 de Dezembro de 1941, o navio sob bandeira suíça (n.º oficial 8) passou ao serviço daquele país sob o nome de EIGER.


 
 



 
 
2. O naufrágio do Silver Valley
 
 
O naufrágio do vapor liberiano Silver Valley aconteceu quando caía a noite do dia 15 de Março de 1963, durante uma forte tempestade no mar.
Mais uma vez, o saudoso Rui Amaro, no texto seguinte, deu-nos uma panorâmica do acontecido.
 
 
 
“A 15-03-1963, já noite fechada, o vapor liberiano Silver Valley, 135m/7.161tb, Silver Star Shipping Corporation, Monrovia, interesses gregos, quando sob mau tempo e fortes pampeiros, que lhe reduziam a visibilidade, procurava o porto de Leixões e foi encalhar no Cabeço da barra do Douro, a cerca de 600 metros para oés-sudoeste do molhe de Felgueiras. O navio que era uma construção "Park Type" Canadiana de 1944, produzida em série, a fim de satisfazer o esforço de guerra, não resistiu à forte ondulação local, tendo em pouco tempo alquebrado, refugiando-se toda a tripulação à proa, suportando o mau tempo e a perigosa maresia que se fazia sentir. Os esforços dos meios de salvamento terrestres e marítimos não conseguiam resgatar os náufragos, pelo que as autoridades marítimas decidiram solicitar a vinda de helicópteros Franceses, que se encontravam em Alverca, e de facto foi a melhor solução encontrada e a primeira operação do género realizada na costa Portuguesa e talvez das pioneiras a nível mundial.
27 homens foram resgatados em cerca de 40 minutos, num vaivém continuo pelos dois helicópteros, cerca das 15h00 do dia seguinte”.
Texto de Rui Amaro
 
 
 
 

Resgate por helicóptero dos 27 tripulantes do Silver Valley

 
 
 

O vapor Silver Valley partido em dois
 
 


3. O encalhe do MV Reijin
 
 
Este desastre aconteceu na madrugada do dia 26 de Abril de 1988, ao largo da praia da Madalena.
MV Reijin, o maior e mais avançado "porta-automóveis" do mundo, à época, naufragou na costa portuguesa na sua primeira grande viagem, cerca de um ano após ter deixado doca seca.
 
 
“O encalhe deu-se na madrugada do dia 26 de abril de 1988, na praia da Madalena (...). O navio japonês transportava cerca de 5400 automóveis da marca Toyota. Vinha do Oriente e tinha feito escala no porto de Leixões, para abastecer e desembarcar duas centenas e meia de carros, com destino à empresa Salvador Caetano, de Vila Nova de Gaia, devendo depois seguir para a costa irlandesa. Navegava sob bandeira panamiana, com uma tripulação de 22 homens, todos coreanos.
O Reijin saiu do porto de Leixões já com sinais de não estar nas melhores condições, devido talvez ao mau acondicionamento da sua carga, ou a imperfeição da sua construção. O barco não tinha mais de um ano e esta foi a sua primeira grande viagem.
Saiu já adornado, prosseguindo a sua rota paralelamente à costa em vez de se fazer ao largo. O mar um tanto ou quanto alteroso nessa noite deve ter dificultado as manobras da tripulação, acabando o Reijin por se aproximar da costa gaiense e encalhar na praia da Madalena.
Já completamente de lado quando embateu nas rochas, o Reijin abriu uma grande fenda, não saindo mais desse local. Alertadas pela população, várias corporações dos bombeiros de Gaia e do Porto, auxiliados por homens-rãs do Instituto de Socorros a Náufragos, procederam às operações de salvamento dos tripulantes. Alguns dos marinheiros chegaram à costa no meio da noite, outros foram recolhidos no mar. Dada a violência do acidente o mesmo provocou um morto e um desaparecido, não tendo sido encontrado o seu corpo nas buscas que se seguiram”.
Cortesia de Porto Desaparecido
 
 
 
 

O MV Reijin, naufragado, na praia da Madalena, em 1988
 
 
 
Foi impossível colocar o MV Reijin a navegar. 
Em 9 de Agosto, iniciou-se o desmantelamento do navio nipónico. Umas partes seguiram para a sucata, outras para o fundo do mar, onde ainda hoje repousam.
No final, após grande polémica acontecida entre as autoridades e associações ambientais, parte do navio foi afundada a 150 milhas (240 km) de distância, outra enviada para a sucata e alguns dos automóveis que o MV Reijin transportava acabaram a 2000 m de profundidade e a 40 milhas (64 km) da costa.

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