Foi uma sociedade entre dois irmãos que originou o Banco
Borges & Irmão.
Em 1884, António Nunes Borges (1858-1939) e Francisco
António Borges (1861-1939), dois irmãos, oriundos do Lugar de Espadanal, freguesia de Ázere, concelho de Tábua,
distrito de Coimbra, associam-se desenvolvendo um negócio, que já
conheciam, de câmbios de moeda, que vinham exercendo por contra de outrem.
A citada associação sob firma de Casa António Nunes Borges
& Irmão irá ter o seu início, na cidade do Porto, em 27 de Fevereiro de
1884.
A partir de 1891, a Sociedade passa a ser designada por
Borges & Irmão.
António Nunes Borges, com 14 anos, partiu para Lisboa,
passando a trabalhar como marçano na casa bancária Moura Borges, cujos
proprietários eram seus familiares.
Daí, sai para se empregar, em Lisboa, na casa de câmbios
António Inácio da Fonseca, na Rua do Arsenal, n.ºs 56-64 e, em 1878, devido às
suas qualidades profissionais, é escolhido para gerente da filial da empresa
que, entretanto, abria no Porto, à Feira de S. Bento (Praça Almeida Garrett),
n.ºs 35-35.
Por sua vez, Francisco Borges tinha estado, também, a
trabalhar na casa de câmbios, em Lisboa, de António Inácio da Fonseca, mas, em
1882, foi chamado pelo irmão para trabalhar na filial do Porto.
Então, em 1884, decidem montar um negócio próprio.
Publicidade à casa de Câmbios e lotarias de António Inácio
da Fonseca, em 21 de Agosto 1886 – In almanake “Pontos nos ii”
A casa de câmbios e lotarias Borges & Irmão vai
sediar-se num pequeno estabelecimento de duas portas, na Rua do Bonjardim,
torneando para a Rua de Sá da Bandeira e com uma filial na Rua das Flores.
Não tardou que a casa Borges & Irmão enveredasse por
outros sectores de actividade económica.
Assim, passou a exercer o negócio de revenda de tabaco, do
qual tinham o exclusivo para quatro distritos do norte do país.
Numa perspectiva de diversificação do negócio, os dois
irmãos decidiram dedicar-se à comercialização de vinho Verde e vinho do Porto.
Em 1885, Artur Lello, com conhecimento do sector vinícola,
passa a gerir o departamento da comercialização de vinhos de Borges &
Irmão.
Em 1905, já a Casa Borges & Irmão exportava numerosas
marcas de vinhos finos do Porto, em barris e em caixas, de colares, Clarete
Douro e de vinhos verdes para todos os portos do Brasil, o principal mercado,
África e Europa.
Aquele departamento será o embrião da Sociedade dos Vinhos
Borges, formalmente constituída em 1918, com Artur Lello já como um dos accionistas
e principal gestor.
A Artur Lello, depois do seu falecimento, em 1928, sucederá
o seu filho Carlos Alberto Guimarães Lello, casado com Maria Cecília Calém de
Guimarães Lello, falecida em 6 de Novembro de 1937.
Banco Borges & Irmão, na Rua do Bonjardim, após evolução
a partir das primeiras instalações da Casa Bancária Borges & Irmão
A casa de câmbios
dos irmãos Borges, na esquina das ruas do Bonjardim e de Sá da Bandeira, em
1910, torna-se numa casa bancária, com sede no Porto e agência em Lisboa.
Em 1912, é aberta
uma filial no Rio de Janeiro.
Para além da
actividade bancária, os irmãos continuam a manter um negócio de vinhos que, em
1918, se autonomiza com fundação da “Sociedade dos Vinhos Borges”.
Assim, em 3 de
Setembro de 1918, por escritura desta data, nas notas do Dr. Ponce de Leão,
constituiu-se a “Sociedade dos Vinhos Borges & Irmão, Lda.”, nova empresa,
com sede na Rua do Bonjardim, 73-77, sendo fundadores António Nunes Borges,
Francisco Borges e Alberto Guimarães Lelo, com o capital de 120 contos.
Em 1919, o pacto
social da casa bancária é alterado com a entrada para a sociedade de Manuel
Pires Fernandes e José Nunes Fonseca.
Em 1926, a casa
bancária muda a sua sede para a Rua de Sá da Bandeira e, fruto da expansão dos
negócios, em 1937, passa a “Banco Borges & Irmão (BBI).
Sede do Banco Borges & Irmão, a partir de 1937, na
esquina das ruas de Sá da Bandeira e Santo António
O BBI chegou a possuir, na região demarcada do Douro, as
propriedades da Soalheira, Junco, Muro Ferradosa, Casa Nova, Hortos e Silho, na
região de Coimbra as quintas do Choupal e Mizarela e, finalmente, no Algarve, a
quinta do Barranco Longo, todas entregadas à Sociedade dos Vinhos Borges e
Irmão, com sede em V.N. Gaia.
Tinha, também, a propriedade do Teatro Rivoli, cujo monumental
edifício estava adossado à residência da família Borges, hoje, o local ocupado
pela Caixa Geral Depósitos.
Aliás, havia uma passagem da residência da família Borges,
para um camarote boca de cena.
Durante alguns anos, era no Rivoli que se fazia a festa de
Natal para os filhos dos funcionários do Banco, com entrega de brindes,
espectáculo e jantar.
Esta sala de espectáculos sucedeu, no mesmo local, ao Teatro
Nacional, inaugurado, em 1913, e demolido para abertura da Avenida dos Aliados.
Tinha a sua entrada principal pela Rua Elias Garcia
(desaparecida), nº 98, e uma modesta entrada pela Rua do Bonjardim, nº 153.
Em 1923, seria objecto de obras e quando, em 1926, o Teatro
Nacional montou o ecrã, as revistas de cinema já lhe chamavam Rivoli.
No final da década de 1920, o Teatro Nacional foi adquirido
por Manuel Pires Fernandes (1860-1944) que, desde 1919, era já acionista da
sociedade Borges & Irmão, um empresário originário de Mirandela que decidiu
demoli-lo para o substituir por um outro, na sequência de intervenções
urbanísticas na zona.
O Rivoli foi, então, construído entre 1928 e 1932, pelo
risco do arquitecto Júlio José de Brito, dotado de 1800 lugares.
A inauguração seria em 20 de Janeiro de 1932, com a presença
em palco da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, vinda expressamente de
Lisboa, tendo apresentado a comédia “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita.
No ano da inauguração, a sala de espectáculos foi dotada de
equipamento de projecção para cinema sonoro.
Na primeira metade da década de 1940, seriam executadas
obras de modo a tornar as instalações mais confortáveis para os espectadores e
o próprio edifício receberia intervenções para o seu embelezamento.
Tudo isto seria executado sob a orientação da filha de
Manuel Pires Fernandes, Maria Borges, uma reconhecida melómana e moradora num
prédio contíguo ao teatro, casada desde o início do século XX com o banqueiro
Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão.
Maria Assunção
Fernandes Borges foi casada com Francisco António Borges (1861-1939),
administrador do Banco Borges & Irmão, de cujo enlace houve uma filha, de
seu nome, Maria Emília Fernandes Borges (1914-2000), condessa da Covilhã, e um
filho, de seu nome, Francisco Manuel Fernandes Borges (1916-1959), de profissão
engenheiro e que foi administrador do Banco Borges & Irmão.
Maria Emília
Fernandes Borges ostentou aquele título nobiliárquico pelo seu casamento com o
3º conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiros (1900-1970), de cujo
enlace houve a filha, Maria Manuela de Quental Calheiros.
O 3º conde da
Covilhã chegou a este casamento, no estado de viúvo, vindo de um primeiro
casamento, sem geração, com Vera de Sousa e Cruz, que faleceu muito nova, filha
do Banqueiro Sousa e Cruz e de sua mulher, sendo reconhecido pelo povo anónimo
como o fundador da fábrica de pneus MABOR.
Ficou também ligado
ao desporto automóvel como entusiasta e apoiante de Casimiro Oliveira e Vasco
Sameiro, dois pilotos de veículos de fórmula 1, por si importados e
caracterizados pela sua cor amarela.
De seu nome completo Maria
da Assunção Vaz Fernandes Borges sucederia,
em 1944, na gestão do Teatro Rivoli, após o falecimento do seu pai.
Em 21 de Junho de 1946, é publicada escritura, no Diário da
República III ª Série, que formaliza a constituição de uma sociedade para
gestão do Rivoli, na qual Maria Borges é accionista maioritária.
Em 30 de Agosto de 1950, já D. Maria Fernandes Borges
receberia, no Teatro Rivoli, das mãos do presidente Lucínio Presa, a Medalha de
Ouro de Mérito Artístico pelo seu esforço, sem o qual não seria possível a
constituição em 1947, da Orquestra Sinfónica do Porto, continuadora da
Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.
Lucínio Gonçalves Presa foi o Presidente da Câmara Municipal
do Porto que destruiu o Palácio de Cristal para em seu lugar construir um
pavilhão de Hóquei em Patins, decisão da qual muitos portuenses nunca lhe
perdoaram a ousadia.
D. Maria Borges, em
1951, após 12 anos sobre o falecimento do seu marido, haveria de decidir
construir na moderna Avenida de Montevideu, em plena beira-mar, um palacete
icónico com projecto do reputado arquitecto Viana de Lima que, nos anos de 2024
e 2025, foi sujeito a remodelações de vulto.
Quando, nos anos 70, apareceram as dificuldades na gestão do
Rivoli, o Banco Borges & Irmão (o proprietário de há muitos anos), pensou
na sua demolição para a construção da sede daquela instituição bancária, mas
acabaria por vendê-lo, tendo a sala de espectáculos passado sucessivamente
pelas mãos da sociedade de construção William Graham e pelas do Banco Português
do Atlântico.
Seria Maria Borges, filha do empresário e proprietário do
antigo Teatro Nacional e, depois do Teatro Rivoli, Manuel Pires Fernandes e
casada com o banqueiro Francisco António Borges do Banco Borges & Irmão, a
opor-se à destruição do Rivoli e a quem os portuenses devem essa benesse.
Maria Fernandes Borges que, diziam, tinha um camarote boca
de cena que comunicava com a sua casa, que ficava adossada ao Rivoli, falece em
1 de Fevereiro de 1976 e, em sinal de luto, no dia seguinte, o Rivoli, em sinal
de luto, fechava as suas portas.
O Teatro Rivoli passou definitivamente para a alçada e
propriedade da Câmara Municipal do Porto em 1989, ano em que a autarquia
comprou o edifício ao Banco Português do Atlântico para o salvar do estado de
degradação.
Posteriormente, após obras profundas de remodelação, a sala
de espectáculos reabriu como grande palco cultural em Outubro de 1997.
Entretanto, quanto
ao Banco Borges & Irmão, nas décadas de 1970 e 1980, apesar da
nacionalização da banca, a actividade do Banco Borges & Irmão continua a alargar-se.
Enquanto entidade
autónoma, o BBI deixa de existir em 1998, quando se dá a sua fusão com o Banco
Fonsecas & Burnay e o Banco de Fomento Exterior, dando origem a uma nova
instituição: o BPI - Banco Português de Investimentos.










Sem comentários:
Enviar um comentário