sábado, 11 de julho de 2026

25.310 Real Teatro S. João

 
O Teatro Nacional de S. João da cidade do Porto é uma magnífica obra de arquitectura do século XX.
No entanto, um primeiro edifício baptizado como Real Teatro S. João, erguido nos finais do século XVIII, acabaria destruído por um incêndio.
Ainda antes do antigo Real Teatro de S. João, o Porto teve outro importante palco de espectáculos que se situava numa das dependências do demolido Palácio dos Condes de Miranda, Marqueses de Arronches e Duques de Lafões - casa de espectáculos particular aberta em 1760.
Na sua inauguração, foi levada à cena uma ópera lírica para homenagear o casamento de D. Maria I com D. Pedro. Este teatro foi riscado por João Glama Stroberle, auxiliado pelos artistas José Régióli, Francisco José, João André Chiape, Veríssimo Nunes, Domingos Teixeira Barreto e José dos Santos Cartaxo.
Francisco Almada, que sucedeu a seu pai no governo da cidade, haveria de dar continuidade, também, à arte cénica, no Porto, incrementando a construção, bem perto dali, do Real Teatro S. João, com um projecto aprovado pelo governo, e um capital reunido entre comerciantes e capitalistas da cidade, até Abril de 1796.
Um capital (31.000$000 reis) subscrito em 313 acções permitiu avançar com o empreendimento.
Para o efeito, o Corregedor Francisco de Almada adquire parte do terreno da muralha fernandina, na zona da actual Praça da Batalha.
Entretanto, as obras arrancam em 1796 e, em 13 de Maio de 1798, dia do aniversário do Príncipe D. João, foi inaugurado o novo teatro da autoria do arquitecto Vicente Mazzoneschi, o “Real Teatro S. João”, chamando-se, inicialmente, Theatro do Príncipe em honra do futuro D. João VI, apesar de as obras ainda não estarem totalmente concluídas, com a comédia "A Vivandeira".
Para que fosse possível a sua construção, foi destruído um grande pano da Muralha Fernandina, cuja pedra serviu para fazer as suas paredes e também as da Casa Pia.
O escudo real, que esteve na sua frontaria, encontra-se nos terrenos do Museu Nacional Soares dos Reis.
Até 1809, a sala de espectáculos apresentou peças ligeiras e variadas, acontecendo a primeira temporada de teatro musicado em 1809, com uma zarzuela. A primeira ópera só lá foi apresentada na temporada 1814/1815.
Durante o cerco do Porto, foi bastante danificado pela artilharia miguelista pelo que teve de sofrer grandes obras entre 1835 e 1838.


 
 

Real Teatro S. João em 1905 (postal) – Ed. Tabacaria Arnaldo Soares

 
 

Interior do Real Teatro S. João, antes do incêndio – Foto Guedes
 
 
 
A planta do teatro era em forma de ferradura com o tecto, redondo, pintado por Joaquim Rafael, com uma nova pintura de Paulo Pizzi, em 1856.
Tinha quatro níveis de camarotes e, no segundo, possuía uma sala para concertos.
O pano de palco foi pintado por Sequeira, sendo substituído em 1825, por um do espanhol João Rodrigues, ao qual sucedeu um outro de Palucci.
A iluminação, até 1838, foi de velas de sebo e, mais tarde, de azeite.
Na noite de 11 para o dia 12 de Abril de 1908, um violento incêndio reduziu o Real Teatro S. João a escombros.


 

Real Teatro S. João, após o incêndio


 
 

Real Teatro S. João - Gravura, em O Tripeiro 5ª Série, Vol I, pág 119



 

 
Real Teatro S. João, antes do incêndio


 

Real Teatro S. João, depois do incêndio - In portoarc.blogspot
 
 
 
Nas duas fotos anteriores, está em primeiro plano um fontanário/ candeeiro.
No mesmo ano, o arquitecto Marques da Silva concebia o risco do novo teatro portuense, vindo este a ser concluído em 1918.
A estrutura interior do original Real Teatro de S. João era semelhante à do Teatro de São Carlos, e a sua composição próxima dos teatros de tipo italiano que, na época, se tinham estabelecido como regra de sucesso.
O novo Teatro S. João foi inaugurado a 7 de Março de 1920 e, em 1992, foi adquirido pelo Estado português.
Entretanto, a 18 de Junho de 1932, a sala de espectáculos abriria, após obras importantes para adaptação a novas formas artísticas - o cinema. Foi, então, levado à cena, em estreia, o filme de Georg Wilhelm Pabst "Atlântida".
Na noite de 6 de Maio de 1936, quando na Europa se começava a viver a subida do poderio nazi, a cantora chilena com vida artística feita sobretudo na Alemanha, Rosita Serrano, exibe-se no Teatro S. João para delícia da burguesia portuense.
E espectáculos de todo o género foram acontecendo nesta sala portuense de eleição ao longo dos anos.
Em 2012, o teatro foi reclassificado como monumento nacional. A reclassificação, aprovada em Conselho de Ministros, a 24 de Maio, foi publicada em Diário da República no dia 10 de Julho de 2012.
O actual edifício, de aspecto robusto mas sem estilo definido, é composto por uma imponente frontaria guarnecida por quatro colunas jónicas, entre as quais se abrem três janelas de arco pleno e outras tantas portas.
Internamente, a decoração da sala de espectáculos e principais salões ficou a cargo dos pintores Acácio Lino e José de Brito e dos escultores Henrique Moreira, Diogo de Macedo e Sousa Caldas, sendo estes dois últimos responsáveis pelas quatro figuras alegóricas colocadas no friso do entablamento e que representam a Bondade, a Dor, o Ódio e o Amor.
Hoje, o edifício totalmente reconstruído é um dos principais edifícios da cidade e local de realização dos principais espectáculos culturais.
 
 
 
A reconversão do antigo Real Teatro para o novo Teatro S. João
 
 
Em 1909, a cidade começa a empreender a tarefa de reerguer um novo teatro.
Assim, em 3 de Junho de 1909, são registados no 4º Cartório Notarial do Porto os estatutos da Sociedade do Teatro de S. João. São outorgantes, decidindo formar uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, com sede no Porto, sem sucursais, e com a denominação de Sociedade do Teatro de S. João:
 
 
“ (…) o Dr. Adolfo da Cunha Pimentel, à época Governador Civil do Porto, casado, residente na Rua do Príncipe, Bento de Sousa Carqueja, casado, lente da Academia Politécnica do Porto e jornalista, residente na Rua da Alegria, Arnaldo de Sousa Moreda, casado, proprietário, residente na Rua de S. Jerónimo, Pedro Mariani Pinto, casado, proprietário, residente na Rua do Barão do Corvo (Gaia), António Joaquim Machado Pereira, casado, proprietário, residente na Rua de S. Roque da Lameira, Alberto Nunes de Figueiredo, casado, proprietário, residente na Rua do Crasto, este outorgante por si e na qualidade de procurador do Dr. Ricardo Pinto da Costa Bartól, conde de Lumbrales, solteiro, maior, capitalista, residente na Rua da Picaria, António Pedro Augusto da Costa, casado, negociante, residente na Rua de Fernandes Tomás, João Baptista de Lima Júnior, casado, negociante e proprietário, residente na Rua do Monte Crasto, Dr. Álvaro de Vasconcelos, casado, advogado, residente na Avenida da Boavista, António da Silva Marinho, viúvo, industrial e proprietário, residente na Rua da Piedade, Eduardo Honório de Lima, casado, industrial e proprietário, residente na Rua de Cedofeita, João Gomes do Espírito Santo, casado, oficial do exército e residente na Rua do Sol, Manuel Reis, solteiro, negociante, residente na Rua da Alegria, José de Oliveira Basto, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina, Ezequiel Ribeiro Vieira de Castro, casado, negociante e proprietário, residente em Ermesinde (Valongo), António da Silva Cunha, casado, negociante, residente na Rua de Santa Catarina.”
Cortesia de Maria José de Sousa Ferraria (2000)

 
Após alguns re-arranjos na repartição do capital accionista e após alguns aumentos de capital, o novo teatro é inaugurado em 22 de Janeiro de 1920.
Assim, em 22 de Janeiro de 2020 (está próximo), será a comemoração do centenário daquele que, agora, é denominado Teatro Nacional de S. João.
 
 
 
 

Construção do novo Teatro S. João

 
 

Novo Teatro S. João, c. 1920 (postal) – Ed. Tabacaria Africana

 
 
Quatro anos após a inauguração do novo Teatro S. João, a capela de Nossa Senhora da Batalha, que lhe era fronteira, foi mandada demolir.
Essa capela foi construída (c. 1799) para substituir uma outra, bem próxima, que dataria de 1686, e que tinha passado a albergar uma imagem da santa, que estava numa edícula, localizada na Porta de Cima de Vila da muralha fernandina.

 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, à direita e, atrás, o Real Teatro S. João
 
 
 
 

Capela de Nossa Senhora da Batalha, c. 1900 – Ed. Aurélio da Paz dos Reis

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