Devido a
características muito próprias, a entrada da barra do rio Douro apresenta uma
série de dificuldades e perigos, que foram sendo ultrapassados ao longo dos séculos,
para além da intervenção de pilotos locais deles conhecedores, também, com a
ajuda da tecnologia disponível em cada momento.
A entrada da barra
impõe um conhecimento aprofundado do lugar face à língua de areia do Cabedelo
sempre em constante mutação e ainda às inúmeras pedras escondidas no leito do
rio e que se desenvolvem até atingir os calados das embarcações.
Os faróis e os
farolins, para além dos fachos e almenaras e as marcas constituem, desde há
séculos, as balizas de navegação mais usadas pelos mareantes.
Presentemente, têm
características próprias e bem conhecidas de cadência dos seus sinais
luminosos, cor e duração dos mesmos.
O que distingue o
farolim do farol é o alcance: aceita-se que para os faróis será superior às 15
milhas náuticas. Inferior a este valor, já será considerado um farolim.
Por sua vez, os
fachos são sinais luminosos que queimam um combustível e funcionam praticamente
como luzes de presença.
Quanto às marcas
usadas na navegação, tanto podem ser árvores de grande porte, edifícios construídos
em sítios elevados ou de enormes proporções, ou torres construídas
propositadamente para o efeito.
Nesta última hipótese, os pilotos da barra guiavam-se por
enfiamentos da Capela de Santa Catarina, em Lordelo, da Torre da Marca (no
término da actual Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal), da estátua do
Togado, depois substituída pela Cruz de Ferro e, ainda, pela Torre dos Clérigos
e também se conhecem casos de alinhamento feitos por alguns navegantes com a
igreja de S. João Baptista da Foz.
Marcas
Torre da Marca
Levantada em terrenos do Palácio de Cristal dos nossos dias,
foi mandada construir em 1530 e destruída durante as lutas liberais de 1833/34.
Veio substituir um enorme pinheiro existente, desde tempos
imemoriais, no mesmo local.
Capela de Santa Catarina
Situada no alto do
monte da aldeia do Ouro, em Lordelo e edificada na transicção do século XIV
para XV.
O Togado e a Cruz de
Ferro
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura
masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito
repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.
Teria sido o bispo D. Miguel da Silva quem teria mandado
erigir, num rochedo, em frente da capela/farol, uma marca de navegação
personalizada numa estátua de uma personagem vestida com uma toga.
Posteriormente, nesse local esteve uma outra marca conhecida
pela Cruz de Ferro.
Numa cheia de grandes proporções em 1788, esta última marca
sinalética sofreu danos de vulto e teve que se proceder a obras de restauro.
Estas foram conduzidas pelo director de Obras Públicas, o
arquitecto e engenheiro militar José Champalimaud de Nussane (1730-1799), que
foi escolhido para o cargo pelo presidente e inspector das Obras Públicas da
cidade, José Roberto Vidal da Gama (governador da Relação do Porto de 1786 a
1790).
O projecto seria executado pelo mestre pedreiro José de
Sousa e pelo mestre ferreiro António do Pinho.
Em Março de 1789, um ano depois do colapso da antiga marca
fluvial, a nova já estava inaugurada.
Fachos, Faróis e Farolins
Fachos
Facho das Sobreiras
Tem-se conhecimento
de fachos na margem direita no rio Douro (facho de Sobreiras) e, na margem
esquerda (facho do Monte de Cabedelo da Barra, facho do Monte da Furada).
O facho mais antigo
de que se conhece a existência é o de Sobreiras que muito mais tarde foi
substituído, praticamente no mesmo local, pelo farolim de Sobreiras, em Lordelo
do Ouro.
Gravura de autor desconhecido na qual é possível identificar
o local do Facho de Sobreiras (Bar Mark)
Facho do Monte da Furada
Este facho situar-se
ia hoje um local entre a Igreja Nova da Afurada e a Casa dos Pescadores, numa
cota bem alta.
Faróis e Farolins
Farol de São Miguel-o-Anjo
“O Farol de São
Miguel-o-Anjo, também conhecido por Torre, Capela ou Ermida de São
Miguel-o-Anjo, situado junto ao Jardim do Passeio Alegre é um primitivo farol
português, classificado como Imóvel de Interesse Público que se localiza na
Cantareira, Cais do Marégrafo, na freguesia da Foz do Douro.
Primeiro edifício
puramente renascentista datado em Portugal e um dos mais antigos da Europa.
(…) Em 1527, foi
mandado construir, conforme reza uma inscrição latina na parede voltada para o
rio, que traduzida diz: "Miguel da Silva, bispo eleito de Viseu, mandou
construir esta torre para dirigir a navegação, ele mesmo deu e consignou campos
comprados com o seu dinheiro, com o rendimento dos quais foram acesos fogos de
noite perpetuamente na torre, no ano de 1527".
Desativado o farol nos
meados do século XVII, manteve a partir daí, somente o uso como Capela, sendo a
construção classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951.
Em 1841, foi
construído um edifício anexo à Capela-Farol, para aí instalar um posto da
Guarda-Fiscal.
Em 1852, foi edificada
uma torre anexa, com 3 pisos, onde foi instalada uma estação telegráfica”.
Fonte: Teixeira da Silva
Depois de anos ao abandono, no ano de 2017, foi decidido
recuperar a capela-farol e a sua envolvente, de modo a que seja criado um
Núcleo Interpretativo do Farol/Ermida de São Miguel-o-Anjo, inserido no projeto
global de recuperação e requalificação deste local emblemático da cidade do
Porto, permitindo, assim, vir a potenciar o conhecimento sobre o primeiro farol
construído de raiz em território nacional, por volta de 1528.
Finalmente, em 2020, foi recuperado todo o espaço adjacente
à capela-farol.
Desde há alguns anos o complexo encontra-se ocupado com uma
delegação dos Pilotos da Barra do Douro.
Em 2020, a torre onde esteve a estação telegráfica já está
recuperada. À direita o farolim da Cantareira – Ed. Manuela Campos
Farolim da Cantareira
(Desactivado)
O Farolim da Cantareira é um pequeno farol que se localiza
na Cantareira, no Cais do Marégrafo, junto ao Jardim do Passeio
Alegre, na Foz do Douro, junto ao local onde está o farol/capela de
S. Miguel-o-Anjo. Trata-se de uma coluna com varandim e lanterna branca e
alcance luminoso de 9 milhas.
É o farolim anterior do enfiamento Cantareira-Sobreiras da
entrada da Barra do Rio Douro.
No século XVIII, ocorreu, provavelmente, a construção do
primitivo farolim, que há muito desapareceu.
Em 1915, um outro farolim seria colocado no cais do
Marégrafo e, em 2009, foi apagado e desactivado, encontrando-se em
exposição no local que ocupou.
Farolim das Sobreiras
(Desactivado)
O Farolim das Sobreiras, também conhecido por Farol Medieval
ou Farol dos Três Bicos ou, ainda, Farol das Três Orelhas, era um farol que se
localizava na encosta das Sobreiras, na freguesia de Lordelo do Ouro.
O topónimo Sobreiras é muito antigo, pois, há documentos do
século XII, onde se fala do facho de Sobreiras, que serviria para orientação
das embarcações e que antecedeu no local o farolim das Sobreiras.
“Aquele facho de Sobreiras
era a chamada Marca Nova, assim designada para a diferenciar da velha Torre da
Marca, bem mais antiga, que ficava em terrenos hoje ocupados pelos jardins do
Palácio de Cristal, mais ou menos ao fundo da actual Avenida Tílias.
A Marca Nova ainda
funcionava em 1849, porque, nesse ano, o intendente da Marinha, em colaboração
com o piloto-mor, oficiou aos encarregados das obras que se andavam a fazer no
cais no sentido de que não se tapasse a viela do Sardo, que existia no sítio
de Sobreiras, porque "era por esse caminho que se ia pôr luz na Marca Nova
quando alguma embarcação entrava ou saía a barra de noite".
Com o devido crédito a Germano Silva
O Farol de Sobreiras tratava-se de uma coluna com varandim e
lanterna branca em frente a marca rectangular às faixas brancas e vermelhas. No
século XVIII, provavelmente, ocorreu a construção do primitivo farolim.
Era o farolim posterior do enfiamento da entrada da Barra do
Rio Douro e encontrava-se a 562 metros do Farolim da Cantareira.
A designação de Farol das Três Orelhas ou Farol dos Três
Bicos deve-se à configuração da primitiva marca que lhe estava por detrás, um
muro de alvenaria de granito rematado por três ameias, à semelhança de uma
estrutura defensiva, estrutura esta que foi desmantelada e se perdeu em
1993-1994, aquando da deslocação do farolim.
Remate superior do muro de alvenaria primitivo colocado por
detrás do Farol das 3 Orelhas - Foto editada do blogue Monumentos Desaparecidos
Naquela data, foi deslocado 15 metros do seu local, para a
construção do edifício sede da ANJE, tendo sido substituída a marca de
alvenaria, por uma parede em betão apoiada numa estrutura em metal.
Após a demolição do farolim das Sobreiras, nasceria no local
a sede da ANJE (Associação dos Jovens empresários).
Em cima da placa de cimento da foto anterior esteve o
Farolim das Sobreiras.
Posteriormente, em 2006, por ter sido extinta a sua luz, por
desnecessária, a coluna e lanterna foram transferidas para o recinto exterior
do Farol de Leça, ou Farol da Boa Nova onde se encontram em exposição.
Farolim de Felgueiras (Desactivado)
“Tornar a barra do rio Douro acessível à navegação e
possibilitar a entrada e saída de navios com a máxima segurança foi uma constante
preocupação das autoridades marítimas da cidade. Curiosamente, o primeiro plano
que se conhece para a desobstrução da barra foi apresentado, em 1728, por um
frade franciscano, frei Caetano de S. Boaventura. Oferecia-se para quebrar as
pedras e rochedos que havia na barra e que, naquele sítio, constituíam um sério
embaraço à navegação.
Parece que a proposta do franciscano não teve grande
acolhimento. Com efeito, logo no ano seguinte (1729), o rei D. João V mandou ao
Porto dois seus altos funcionários, os engenheiros José Fernandes Pinto e
Dionísio de Castro, a fim de elaborarem uma planta da barra e indicarem a
melhor maneira de resolver os problemas de segurança que ali subsistiam.
Quarenta e seis anos depois (1775), ainda nada se havia
feito. Nesse ano, a administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas
do Alto Douro escreveu ao rei D. José, a lembrar-lhe "quão urgentes e
necessárias eram" as obras. E para custear as primeiras despesas, a
Companhia oferecia a quantia de quarenta mil cruzados, que tinha guardado nos
seus cofres, produto de juros de ações "cujos donos não aparecem". E
as obras lá começaram, não imediatamente mas alguns anos depois.
Mais uma curiosidade: os primeiros trabalhos para as
obras da barra tiveram início não onde o rio entra no mar, mas bastante mais
para trás, na Arrábida. Com efeito, tudo começou com o corte da enorme escarpa
da Arrábida. A pedra que dali se extraía era levada para S. João da Foz, onde
era utilizada para o atulhamento da margem direita da barra. Entretanto e à
medida que o monte da Arrábida ia sendo devastado, começou a aparecer uma nova
via de comunicação entre Massarelos e a Cantareira. Num relatório de 1791,
consta mesmo que naquele ano "os povos se iam servindo já de uma formosa
estrada à beira-rio".
Mais tarde, por iniciativa da Companhia Geral das Vinhas
do Alto Douro e à custa de impostos sobre o vinho, acabou por se construir toda
a marginal. Começou com a ligação de Cima do Muro, na Ribeira, até Monchique; e
daqui, por Massarelos, até à Foz do Douro.
Mas foi uma tragédia que obrigou à aceleração das obras
na barra do Douro. Referimo-nos ao naufrágio do navio Porto, ocorrido em 29 de
março de 1852, mesmo à entrada da barra. O vapor, quando pretendia entrar no
rio, encalhou num dos tais rochedos que, na altura, na maré- cheia, estava
submerso e ali ficou a ser batido pelas ondas. Morreram mais de sessenta
pessoas, algumas das mais importantes famílias do Porto, como o banqueiro
Allen. Diz a nossa gente que," depois de casa roubada, trancas à porta".
E assim aconteceu. Depois da tragédia, montou-se na Foz um modelar serviço de
socorros a náufragos.
E as obras da barra, essas continuaram e em grande ritmo,
agora num projeto do Eng.° Nogueira Soares. Estava adiantado o molhe chamado de
Felgueiras ou da Filgueira, em cuja ponta foi construído um farolim que tomou o
nome do molhe. O cais velho, o molhe e farolim de Felgueiras foram construídos
com a pedra que era extraída do morro da Arrábida. Inicialmente pensava-se na
construção de uma torre para sinais com um sino para aviso da navegação.
Depois, fez-se o farol que ainda funciona. Projeta, de forma intermitente, luz
vermelha para poente, branca para nascente. No começo, o sinal de nevoeiro era
dado através do tal sino ao ritmo de três badaladas, de sete em sete segundos.
Na atualidade, o sinal de nevoeiro é dado através de uma sirene.
Ainda nos nossos dias, e antes da construção dos modernos
cais, houve vários naufrágios à entrada da barra. Um dos mais célebres foi o do
vapor alemão "Dieister", em 3 de fevereiro de 1929. Morreram os seus
vinte e quatro tripulantes. O naufrágio ocorreu diante de uma multidão que se
aglomerava ao longo do cais do Passeio Alegre e que nada pôde fazer para evitar
a tragédia que deixou consternada a cidade. E na lembrança de muitos portuenses
devem estar ainda bem vivas as imagens do naufrágio do "Silver
Valley", em 15 de março de 1963”.
Com a devida vénia a Germano Silva
Começado a pensar ser construído em 1790, o molhe de Felgueiras foi
edificado com base num projecto de 1866 e apenas, definitivamente
terminado, em 1903.
Assim, em 1903, quando foram reforçados os muros de
revestimento da barra foram usados blocos originários da Senhora da Hora e,
também, os guindastes chamados Titãs, que já tinham sido usados no levantamento
dos molhes do Porto de Leixões.
Por sua vez, o farolim com projecto de 1881, do engenheiro
Nogueira Soares, já estava em funcionamento, desde 1886.
O farolim de Felgueiras entrou ao serviço no molhe de
Felgueiras, na foz do rio Douro, em 1886, começando por queimar petróleo. Em
1916, para fazer face aos constantes nevoeiros que aconteciam no local, foi
dotado também com um sinal sonoro, um sino, colocado na sua cúpula, que actuava
naquelas situações de falta de visibilidade do seu sinal luminoso. Em 1957, foi
electrificado e ligado à rede pública de electricidade e, em 1979, integrou um
conjunto de farolins e faróis com funcionamento à distância, centralizado no
Farol de Leça da Palmeira.
Desde 2009, o farolim de Felgueiras encontra-se fora de
serviço, pois após a construção dos novos molhes da barra do rio Douro, foram
instalados novos sinais luminosos e novos farolins. Assim, por exemplo, para
fazer a entrada naquela barra, actualmente, as embarcações atendem ao
alinhamento de um farolim situado no Jardim do Passeio Alegre e uma luz
colocada na torre da igreja de S. João Baptista da Foz do Douro.
O farolim de Felgueiras, após a sua desactivação, entrou num
período de degradação e ruína, situação que foi travada a tempo. A partir de
2021, está recuperado e à disposição das objectivas fotográficas de todos que
se deliciam com os clichés que obtêm.


















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