Invicta Filmes
Foi na Quinta da Prelada, na actual Avenida Conselho da
Europa, que se localizaram as instalações da Invicta Filmes.
Em 22 de Novembro de 1917, é constituída uma sociedade por
quotas, com um capital de 150 mil escudos, denominada “Invicta Film Lda”.
Alfredo Nunes, com actividade anterior ligada ao
funcionamento do “Salão Jardim Passos Manuel” como gerente, vai na nova sociedade,
dentro do conselho de administração, ocupar o cargo de gerente-técnico após
obter o apoio financeiro indispensável do banqueiro José Augusto Dias.
Na sociedade, Henrique Alegria, que tinha estado envolvido
na construção e exploração do cinema “Olympia”, vai ser contratado para
director artístico.
Alfredo Nunes traz com ele todo o pessoal que já fazia parte
da sua pequena empresa, "Nunes de Matos & Cia – (Invicta
Film)", fundada em 1910, com sede na Rua de Santo Ildefonso, n.º 135.
Em 1918, Alfredo Nunes e Henrique Alegria partem para Paris
para a contratação de pessoal técnico e equipamentos.
Durante a estadia em Paris, conseguem que a conceituada
Pathé ceda os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu
(1869-1948), um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório,
Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes.
Ainda, em 1918, em terrenos da Quinta da Prelada,
propriedade da Santa Casa da Misericórdia, é adquirida uma área de 50.000 m2,
onde irão surgir os laboratórios e estúdios da empresa totalmente concluídos,
apenas, em 1920.
Até 1924, são os anos de ouro da empresa.
A partir deste ano sucede-se os fiascos de que são exemplo
as obras “Cláudia” e “Lucros ilícitos”.
De 1925 a 1928, praticamente, só funciona a sua actividade
laboratorial, que será eclipsada pela mesma actividade desenvolvida pela firma
“Castelo Lopes, Lda”.
Em 5 de Julho de 1930, é vendido o estúdio da Invicta Film
e, em 2 de Janeiro de 1931, todos os haveres da “Invicta Film” vão a leilão e o
estúdio onde rodou “Zé do Telhado” é demolido.
A ante-estreia do filme, uma adaptação ao cinema de um conto
de Júlio Dantas, "As Aventuras de Frei Bonifácio", teve lugar no dia
5 de Agosto de 1918, no Salão Jardim Passos Manuel. Na tela, actuavam os
artistas Maria das Neves, Duarte Silva, José Silva, António Vale e alguns mais.
No dia 6 de Julho de 1919, no Teatro Sá da Bandeira, ocorre
a ante-estreia do filme de Georges Pallu, baseado no romance "A Rosa do
Adro" do jornalista, escritor e apaixonado pela arqueologia Manuel Maria
Rodrigues (1847-1899), nascido em Valença do Minho e cuja narrativa se situa
nas vivências de um triângulo amoroso.
Tendo sido jornalista do jornal "O Comércio do
Porto", Manuel Maria rodrigues foi, ainda, correspondente dos jornais
"O Século" e do "Comércio de Portugal".
A sua paixão pela arqueologia, para a qual não tinha
formação académica, colocou-o, por vezes, no centro de polémicas públicas nas
quais foi muito criticado e, até, ridicularizado.
No dia 23 de Novembro de 1919, em ante-estreia para a
crítica, imprensa e para as personalidades convidadas, é passado no Salão
Passos Manuel "O Comissário de Polícia", com argumento de Gervásio
Lobato, que obteve larga aprovação.
Na foto acima, em primeiro plano, observa-se o edifício onde
estavam sediados os escritórios e o laboratório da Invicta Film e que, hoje, é
o chão do cimo da Avenida do Conselho da Europa, na confluência com a Rua da
Prelada. Neste edifício, após o seu abandono pela Invicta Film, em 1928, pois
os laboratórios mantiveram-se em actividade para além do encerramento da
empresa, se instalou a fábrica Faria, Fonseca & C.ª. Esta empresa era
também conhecida como a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido e, por aqui esteve,
desde 1933 até 1969.
À esquerda, mais afastado, o barracão com estrutura
metálica, que funcionava como estúdio de filmagens, foi desmantelado logo que
se deu a falência da empresa.
“A Invicta Film foi
uma produtora portuguesa de cinema, sedeada na cidade do Porto, cuja actividade
se destacou nos anos vinte, com um número significativo de filmes relevantes
para a história do cinema em Portugal.
O produtor portuense
Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no
nº 135 da rua de Santo Ildefonso, no Porto. Em 1912 muda-se para uma
dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de
Matos & Cia – (Invicta Film)".
Produz «panorâmicas»,
documentários de propaganda comercial, industrial e de actualidades. Vários
deles são exibidos em Portugal e no estrangeiro. É fornecedor de jornais
nacionais para firmas tão importantes como a Pathé e a Gaumont, sociedades
francesas com um papel determinante na distribuição e exibição de filmes na
França e no mercado internacional. É o caso de alguns filmes de particular
significado, como as Manobras Navais Portuguesas ou as Grandes Manobras de
Tancos (1912, exercícios de preparação do exército português para eventuais
conflitos) ou ainda O Naufrágio do "Veronese" (imagens de um desastre
marítimo ocorrido em frente da Boa Nova, em Leça da Palmeira, perto de Leixões,
na madrugada de 10 de Fevereiro de 1913). O jornal de actualidades causa
sensação em Portugal e no estrangeiro. Desse filme são vendidas mais de cem
cópias, para a Europa e Brasil.
O projecto de Nunes de
Matos consolida-se com a adesão de outros interesses, de gente bairrista do
Porto, encabeçados pelo banqueiro José Augusto Dias, já a guerra tinha feito
muitos mortos. No cartório do notário António Mourão é assinada a 22 de
Novembro de 1917 a escritura de uma sociedade por cotas, de responsabilidade
limitada, designada como Invicta Film Lda., com o capital de 150.000 escudos,
uma quantia muito avultada à época. São sócios umas dezassete importantes
personalidades. As cotas vão de cinco a sete contos.
Entretanto, em 1907,
instalara-se ali mesmo ao lado o dono da Fundição Alegria & Cª, empresa do
Rio de Janeiro, um retornado português, chamado Henrique Ferreira Alegria.
Interessado pela exibição cinematográfica, abrira a 18 de Maio de 1912 o Cinema
Olympia, a dois passos do Jardim Passos Manuel. Acaba por ser integrado na nova
empresa como director artístico, isto é, como director de produção. Matos e
Alegria partem juntos para Paris em meados de Janeiro de 1918. Numa entrevista
ao jornal O Século, dada no dia 14 desse mês, Nunes de Matos declara: «Vou em
primeiro lugar a Paris e à Itália procurar o que há de melhor, a última palavra
em mecanismos. Porque o meu principal intento é emancipar-me de estrangeiros,
embora não deixe de concordar que, para começo, é lá que tenho de ir buscar
tudo». Deixa também claro que tenciona trazer de lá um régisseur à altura das
suas ambições.
Em Paris, junto da
Pathé Frères, na Rue de Ravart, obtêm os viajantes «a mais perfeita e amigável
compreensão» e, coisa não menos importante, o plano e o projecto das futuras
instalações dos estúdios da Invicta Film. Cede-lhes a Pathé também os técnicos
de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu, um operador de imagem,
Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher
Valentine, montadora de filmes, O casal será mais tarde substituído por outro
operador e outra montadora, vindos também da Pathé, J. Trobert e Madame Meunier.
É contratado ainda um arquitecto decorador, Albert Durot, depois substituído
por Maurice Laumann, também dos quadros da Pathé.
O convénio entre as
duas empresas é assinado a 17 de Fevereiro. A 12 de Março de 1918 é firmado o
contrato de trabalho entre a Invicta Film e Pallu, que se responsabiliza pela
escolha dos argumentos com o director artístico, pela sua adaptação para cinema
e ainda pela montagem dos cenários. Seria ele também o responsável pela
construção do estúdio. O contrato era de um ano, mas a colaboração duraria
cinco. É Pallu quem traz para a empresa o realizador Rino Lupo, que será
também, com Pallu, um dos dois mais importantes realizadores da Invicta Film.
Com nova maquinaria a
sociedade decide comprar à Misericórdia uma vasta área de terreno pertencente à
Quinta da Prelada que tinha sido dos Noronhas.
Aí são construídos os
Laboratórios e os Estúdios que estariam apenas prontos em 1920, não impediu,
entretanto, que fossem produzidos alguns filmes.
Georges Pallu escolhe
como primeira obra a adaptação de um conto inédito de Júlio Dantas, Frei
Bonifácio, que seria entretanto publicado no jornal lisboeta O Dia, em 2 de
Outubro de 1918. O filme estreia em Lisboa, com bons resultados, no cinema
Olympia, uma das mais prestigiadas salas da cidade, a 4 de Outubro. Realizados
por Pallu em 1919 seguem-se A Rosa do Adro e O Comissário de Polícia, com
estreia na mesma sala, o primeiro em 27 de Outubro e o segundo em 2 de
Fevereiro do ano seguinte. Uma outra obra, O Mais Forte, produzida nesse mesmo
ano, serve para testar os estúdios então abertos na Quinta da Prelada,
O segundo grande
empreendimento da Invicta Film é a adaptação da obra de Camilo Castelo Branco,
Amor de Perdição, em 1921, obra realizada também por Pallu. O filme estreia em
28 de Novembro em Lisboa, no cinema Condes. Segue-se Mulheres da Beira e Quando
o Amor Fala.
«Uma tarde de Agosto
de 1921 um homem de aspecto estranho, de estatura mediana e de olhos vivos a
espreitarem por detrás de umas lunetas pequenas, que cintilavam sob um boné de
viagem enterrado até às orelhas, transpôs o portão da Quinta da Prelada».
O homem, um
estrangeiro, pretende falar com a gerência. Quem o recebe é George Pallu. Diz o
estrangeiro que se chama Rino Lupo, que é de origem italiana, que trabalhou na
conhecida produtora francesa de Léon Gaumont como régisseur, que ouviu falar em
Varsóvia dos progressos da Invicta Film por um português que por lá andava, que
gostaria de colaborar com a empresa e ficar por algum tempo em Portugal. A
conversa de Lupo convence Pallu e ele é contratado. A direcção dos projectos da
Invicta Film será partilhada a partir de então entre os dois realizadores.
Os resultados um tanto
«atrabiliários» do trabalho de Lupo devidos à sua mania do improviso e ao seu
modo desorganizado levam ao seu despedimento (1923).
Persistente e agora
seduzido pelo sol de Lisboa, mais quente que o do Porto, muda-se para a capital
onde abre a Escola de Arte Cinematográfica com sede no nº 182 da Rua da Palma.
Mas, imprevisível como é, regressa de novo à invicta cidade onde funda a sua
Escola de Cinema, da qual sairão formados os actores da melhor das suas obras,
Os Lobos (1923), produção da Ibéria Film, que com nova montagem, será aceite
pela Gaumont para distribuição internacional (1924).
Rino Lupo dirigirá
ainda em Portugal mais quatro filmes: Carmiña, Flor de Galicia, versão
espanhola de Mulheres da Beira (1926), uma obra inacabada, O Diabo em Lisboa
(1927), Fátima Milagrosa (1928) e José do Telhado (1929). Lupo deixa Portugal,
já na época do filme sonoro, em 1931.
Quem entretanto também
abandona a Invicta Film por razões contratuais é o operador de imagem Artur
Costa de Macedo depois de ter filmado as Mulheres da Beira. Fora ele o
responsável pela cobertura de alguns dos aspectos mais emocionantes da
aventurosa travessia aérea do Atlântico empreendida por Gago Coutinho e
Sacadura Cabral.
São no entanto
insuficientes as receitas. Não existe rede de distribuição que sirva os
interesses da empresa. Os problemas financeiros surgem a partir de meados de
1923. Tenta-se ainda exportar alguns dos filmes já produzidos para o Brasil e
Estados Unidos, visando os centros de emigração. Consegue-se vender alguns, mas
os resultados são poucos.
A Invicta Film
dispensa todo o pessoal da produção a 15 de Fevereiro de 1924, mas mantém o
laboratório aberto. Encerra definitivamente a actividade em 1928.
Fica encerrado assim
também o ciclo de alternâncias entre o Porto e Lisboa, na predominância das
actividades de produção, desde que surgira o primeiro filme português. A
criação dos laboratórios da Tobis Portuguesa no começo dos anos trinta, com o
advento do sonoro e com equipamentos de ponta, completa a reviravolta”.
In pt.wikipedia.org
Caldevilla Filmes
A “ETP- Empreza Technica Publicitária” de “Raul de
Caldevilla & C. Lda”, seria fundada em 1912, por Raul Caldevilla, na Rua de
31 de Janeiro, nº 165, após o seu regresso à cidade, depois de ter sido
vice-cônsul em Cadiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio
Oriente.
Em 1917, a ETP muda-se para o Palacete do Conde do Bolhão,
na Rua Formosa.
“Actor teatral nos
primórdios do Século XX, o nome de Raul de Caldevilla, como inspirador
publicitário, destacou-se no cinema português em 1917. Uma espectacular
operação promocional a nova marca de bolachas, levou Caldevilla a contractar
dois acrobatas espanhóis para escalarem a Torre dos Clérigos, o que fizeram sem
recurso a qualquer apoio. Já no cimo, os ginastas tomaram uma chávena de chá e
comeram as petit beurre Invicta,
lançando ao mesmo tempo panfletos sobre a multidão reunida para o efeito -
cerca de 150.000 pessoas. Da proeza, a Caldevilla Film retiraria «Um Chá nas Núvens».
Em 1919, Raul de
Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial de A Rosa do Adro, dirigido por Georges
Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme
Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses». Três anos depois, com
mais altas ambições, a Caldevilla Film contratou o francês Maurice Mariaud -
que trabalhava para a Gaumont - com a incumbência de dirigir Os Faroleiros (1922), um
«drama-documentário», de que também foi argumentista e intérprete.
O vislumbre de Raul de
Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: «O cinematógrafo
moderno tem-se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da
técnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam - e vão sendo postos
de parte no estrangeiro - esses longos filmes em séries de enredo complicado e
por vezes falhos de verosimilhança. O público de hoje, talvez por motivo da
vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência
películas de não muito longa metragem». A rodagem teve lugar na Caparica e
farol do Bugio.
Logo após Os Faroleiros, Mariaud filmou As Pupilas do Senhor Reitor para
a Caldevilla Film. O romance de Júlio Diniz foi adaptado pelo director
literário da empresa, Campos Monteiro. A filmagem de interiores concretizou-se
na abegoaria (Dependência onde se alojam os animais e alfaias agrícolas), da
Quinta das Conchas, em Lisboa, não chegando à edificação o ambicionado estúdio,
cujos planos tinham acompanhado Raul de Caldevilla desde o Porto. De facto,
sobrevieram litígios com os responsáveis capitalistas da empresa, pelo que em 1923
pediu a demissão de administrador-gerente da Caldevilla Film.
Declinava, assim, um
sonho que tivera repercussões insuspeitáveis, a ponto de ser apresentado em
1921, à Câmara dos Deputados, um projecto de lei que isentava a empresa de
impostos, durante dez anos - como contrapartida a impressionar, apenas,
«assuntos genuinamente portugueses, baseados na história ou na literatura
nacionais». Pelo Verão de 1925, a Caldevilla Film desmantelava-se
simbolicamente, com um leilão público de todo o material.”
Fonte: cvc.instituto-camoes.pt/cinema
Como complemento, diga-se que, no ano de 1921, uma outra
empresa produtora de filmes seria fundada a “Fortuna Film” de Virgínia de
Castro e Almeida, a romancista que chegada de França, onde tinha acompanhado o
desenvolvimento da 7ª arte e, apaixonada da mesma, monta aquela empresa, que
com a “Invicta Film” e a “Caldevilla Film”, irão dominar a produção
cinematográfica nacional.










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