domingo, 16 de agosto de 2026

25.314 Empresas históricas ligadas à actividade cinematográfica

 
Invicta Filmes
 
 
Foi na Quinta da Prelada, na actual Avenida Conselho da Europa, que se localizaram as instalações da Invicta Filmes.
Em 22 de Novembro de 1917, é constituída uma sociedade por quotas, com um capital de 150 mil escudos, denominada “Invicta Film Lda”.
Alfredo Nunes, com actividade anterior ligada ao funcionamento do “Salão Jardim Passos Manuel” como gerente, vai na nova sociedade, dentro do conselho de administração, ocupar o cargo de gerente-técnico após obter o apoio financeiro indispensável do banqueiro José Augusto Dias.
Na sociedade, Henrique Alegria, que tinha estado envolvido na construção e exploração do cinema “Olympia”, vai ser contratado para director artístico.
Alfredo Nunes traz com ele todo o pessoal que já fazia parte da sua pequena empresa, "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)", fundada em 1910, com sede na Rua de Santo Ildefonso, n.º 135.


 

Publicidade a "Nunes de Matos & Cia”, em 1912
 
 
 
Em 1918, Alfredo Nunes e Henrique Alegria partem para Paris para a contratação de pessoal técnico e equipamentos.
Durante a estadia em Paris, conseguem que a conceituada Pathé ceda os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu (1869-1948), um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes.
Ainda, em 1918, em terrenos da Quinta da Prelada, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, é adquirida uma área de 50.000 m2, onde irão surgir os laboratórios e estúdios da empresa totalmente concluídos, apenas, em 1920.
Até 1924, são os anos de ouro da empresa.
A partir deste ano sucede-se os fiascos de que são exemplo as obras “Cláudia” e “Lucros ilícitos”.
De 1925 a 1928, praticamente, só funciona a sua actividade laboratorial, que será eclipsada pela mesma actividade desenvolvida pela firma “Castelo Lopes, Lda”.
Em 5 de Julho de 1930, é vendido o estúdio da Invicta Film e, em 2 de Janeiro de 1931, todos os haveres da “Invicta Film” vão a leilão e o estúdio onde rodou “Zé do Telhado” é demolido.

 
 

Produção cinematográfica de Georges Pallu


 
 

Filmografia da “Invicta Film, Lda”
 
 
 
A ante-estreia do filme, uma adaptação ao cinema de um conto de Júlio Dantas, "As Aventuras de Frei Bonifácio", teve lugar no dia 5 de Agosto de 1918, no Salão Jardim Passos Manuel. Na tela, actuavam os artistas Maria das Neves, Duarte Silva, José Silva, António Vale e alguns mais.
No dia 6 de Julho de 1919, no Teatro Sá da Bandeira, ocorre a ante-estreia do filme de Georges Pallu, baseado no romance "A Rosa do Adro" do jornalista, escritor e apaixonado pela arqueologia Manuel Maria Rodrigues (1847-1899), nascido em Valença do Minho e cuja narrativa se situa nas vivências de um triângulo amoroso.
Tendo sido jornalista do jornal "O Comércio do Porto", Manuel Maria rodrigues foi, ainda, correspondente dos jornais "O Século" e do "Comércio de Portugal".
A sua paixão pela arqueologia, para a qual não tinha formação académica, colocou-o, por vezes, no centro de polémicas públicas nas quais foi muito criticado e, até, ridicularizado.
 
 
 

A Rosa do Adro - Fonte: frame do filme de Georges Pallu, 1919
 
 
 
 
No dia 23 de Novembro de 1919, em ante-estreia para a crítica, imprensa e para as personalidades convidadas, é passado no Salão Passos Manuel "O Comissário de Polícia", com argumento de Gervásio Lobato, que obteve larga aprovação.

 
 
 

Invicta Filmes, na Prelada
 
 
 
Na foto acima, em primeiro plano, observa-se o edifício onde estavam sediados os escritórios e o laboratório da Invicta Film e que, hoje, é o chão do cimo da Avenida do Conselho da Europa, na confluência com a Rua da Prelada. Neste edifício, após o seu abandono pela Invicta Film, em 1928, pois os laboratórios mantiveram-se em actividade para além do encerramento da empresa, se instalou a fábrica Faria, Fonseca & C.ª. Esta empresa era também conhecida como a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido e, por aqui esteve, desde 1933 até 1969.
À esquerda, mais afastado, o barracão com estrutura metálica, que funcionava como estúdio de filmagens, foi desmantelado logo que se deu a falência da empresa.
 
 
 
“A Invicta Film foi uma produtora portuguesa de cinema, sedeada na cidade do Porto, cuja actividade se destacou nos anos vinte, com um número significativo de filmes relevantes para a história do cinema em Portugal.
O produtor portuense Alfredo Nunes de Matos tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da rua de Santo Ildefonso, no Porto. Em 1912 muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Produz «panorâmicas», documentários de propaganda comercial, industrial e de actualidades. Vários deles são exibidos em Portugal e no estrangeiro. É fornecedor de jornais nacionais para firmas tão importantes como a Pathé e a Gaumont, sociedades francesas com um papel determinante na distribuição e exibição de filmes na França e no mercado internacional. É o caso de alguns filmes de particular significado, como as Manobras Navais Portuguesas ou as Grandes Manobras de Tancos (1912, exercícios de preparação do exército português para eventuais conflitos) ou ainda O Naufrágio do "Veronese" (imagens de um desastre marítimo ocorrido em frente da Boa Nova, em Leça da Palmeira, perto de Leixões, na madrugada de 10 de Fevereiro de 1913). O jornal de actualidades causa sensação em Portugal e no estrangeiro. Desse filme são vendidas mais de cem cópias, para a Europa e Brasil.
O projecto de Nunes de Matos consolida-se com a adesão de outros interesses, de gente bairrista do Porto, encabeçados pelo banqueiro José Augusto Dias, já a guerra tinha feito muitos mortos. No cartório do notário António Mourão é assinada a 22 de Novembro de 1917 a escritura de uma sociedade por cotas, de responsabilidade limitada, designada como Invicta Film Lda., com o capital de 150.000 escudos, uma quantia muito avultada à época. São sócios umas dezassete importantes personalidades. As cotas vão de cinco a sete contos.
Entretanto, em 1907, instalara-se ali mesmo ao lado o dono da Fundição Alegria & Cª, empresa do Rio de Janeiro, um retornado português, chamado Henrique Ferreira Alegria. Interessado pela exibição cinematográfica, abrira a 18 de Maio de 1912 o Cinema Olympia, a dois passos do Jardim Passos Manuel. Acaba por ser integrado na nova empresa como director artístico, isto é, como director de produção. Matos e Alegria partem juntos para Paris em meados de Janeiro de 1918. Numa entrevista ao jornal O Século, dada no dia 14 desse mês, Nunes de Matos declara: «Vou em primeiro lugar a Paris e à Itália procurar o que há de melhor, a última palavra em mecanismos. Porque o meu principal intento é emancipar-me de estrangeiros, embora não deixe de concordar que, para começo, é lá que tenho de ir buscar tudo». Deixa também claro que tenciona trazer de lá um régisseur à altura das suas ambições.
Em Paris, junto da Pathé Frères, na Rue de Ravart, obtêm os viajantes «a mais perfeita e amigável compreensão» e, coisa não menos importante, o plano e o projecto das futuras instalações dos estúdios da Invicta Film. Cede-lhes a Pathé também os técnicos de que precisam: um realizador, de nome Georges Pallu, um operador de imagem, Albert Durot, um chefe de laboratório, Georges Coutable e a sua mulher Valentine, montadora de filmes, O casal será mais tarde substituído por outro operador e outra montadora, vindos também da Pathé, J. Trobert e Madame Meunier. É contratado ainda um arquitecto decorador, Albert Durot, depois substituído por Maurice Laumann, também dos quadros da Pathé.
O convénio entre as duas empresas é assinado a 17 de Fevereiro. A 12 de Março de 1918 é firmado o contrato de trabalho entre a Invicta Film e Pallu, que se responsabiliza pela escolha dos argumentos com o director artístico, pela sua adaptação para cinema e ainda pela montagem dos cenários. Seria ele também o responsável pela construção do estúdio. O contrato era de um ano, mas a colaboração duraria cinco. É Pallu quem traz para a empresa o realizador Rino Lupo, que será também, com Pallu, um dos dois mais importantes realizadores da Invicta Film.
Com nova maquinaria a sociedade decide comprar à Misericórdia uma vasta área de terreno pertencente à Quinta da Prelada que tinha sido dos Noronhas.
Aí são construídos os Laboratórios e os Estúdios que estariam apenas prontos em 1920, não impediu, entretanto, que fossem produzidos alguns filmes.
Georges Pallu escolhe como primeira obra a adaptação de um conto inédito de Júlio Dantas, Frei Bonifácio, que seria entretanto publicado no jornal lisboeta O Dia, em 2 de Outubro de 1918. O filme estreia em Lisboa, com bons resultados, no cinema Olympia, uma das mais prestigiadas salas da cidade, a 4 de Outubro. Realizados por Pallu em 1919 seguem-se A Rosa do Adro e O Comissário de Polícia, com estreia na mesma sala, o primeiro em 27 de Outubro e o segundo em 2 de Fevereiro do ano seguinte. Uma outra obra, O Mais Forte, produzida nesse mesmo ano, serve para testar os estúdios então abertos na Quinta da Prelada,
O segundo grande empreendimento da Invicta Film é a adaptação da obra de Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, em 1921, obra realizada também por Pallu. O filme estreia em 28 de Novembro em Lisboa, no cinema Condes. Segue-se Mulheres da Beira e Quando o Amor Fala.
«Uma tarde de Agosto de 1921 um homem de aspecto estranho, de estatura mediana e de olhos vivos a espreitarem por detrás de umas lunetas pequenas, que cintilavam sob um boné de viagem enterrado até às orelhas, transpôs o portão da Quinta da Prelada».
O homem, um estrangeiro, pretende falar com a gerência. Quem o recebe é George Pallu. Diz o estrangeiro que se chama Rino Lupo, que é de origem italiana, que trabalhou na conhecida produtora francesa de Léon Gaumont como régisseur, que ouviu falar em Varsóvia dos progressos da Invicta Film por um português que por lá andava, que gostaria de colaborar com a empresa e ficar por algum tempo em Portugal. A conversa de Lupo convence Pallu e ele é contratado. A direcção dos projectos da Invicta Film será partilhada a partir de então entre os dois realizadores.
Os resultados um tanto «atrabiliários» do trabalho de Lupo devidos à sua mania do improviso e ao seu modo desorganizado levam ao seu despedimento (1923).
Persistente e agora seduzido pelo sol de Lisboa, mais quente que o do Porto, muda-se para a capital onde abre a Escola de Arte Cinematográfica com sede no nº 182 da Rua da Palma. Mas, imprevisível como é, regressa de novo à invicta cidade onde funda a sua Escola de Cinema, da qual sairão formados os actores da melhor das suas obras, Os Lobos (1923), produção da Ibéria Film, que com nova montagem, será aceite pela Gaumont para distribuição internacional (1924).
Rino Lupo dirigirá ainda em Portugal mais quatro filmes: Carmiña, Flor de Galicia, versão espanhola de Mulheres da Beira (1926), uma obra inacabada, O Diabo em Lisboa (1927), Fátima Milagrosa (1928) e José do Telhado (1929). Lupo deixa Portugal, já na época do filme sonoro, em 1931.
Quem entretanto também abandona a Invicta Film por razões contratuais é o operador de imagem Artur Costa de Macedo depois de ter filmado as Mulheres da Beira. Fora ele o responsável pela cobertura de alguns dos aspectos mais emocionantes da aventurosa travessia aérea do Atlântico empreendida por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
São no entanto insuficientes as receitas. Não existe rede de distribuição que sirva os interesses da empresa. Os problemas financeiros surgem a partir de meados de 1923. Tenta-se ainda exportar alguns dos filmes já produzidos para o Brasil e Estados Unidos, visando os centros de emigração. Consegue-se vender alguns, mas os resultados são poucos.
A Invicta Film dispensa todo o pessoal da produção a 15 de Fevereiro de 1924, mas mantém o laboratório aberto. Encerra definitivamente a actividade em 1928.
Fica encerrado assim também o ciclo de alternâncias entre o Porto e Lisboa, na predominância das actividades de produção, desde que surgira o primeiro filme português. A criação dos laboratórios da Tobis Portuguesa no começo dos anos trinta, com o advento do sonoro e com equipamentos de ponta, completa a reviravolta”.
In  pt.wikipedia.org


 

Estúdios da Invicta Filmes na Prelada


 

Central eléctrica da Invicta Filmes em 1920


 
 
Caldevilla Filmes
 
 
A “ETP- Empreza Technica Publicitária” de “Raul de Caldevilla & C. Lda”, seria fundada em 1912, por Raul Caldevilla, na Rua de 31 de Janeiro, nº 165, após o seu regresso à cidade, depois de ter sido vice-cônsul em Cadiz e agente comercial na América Latina, Egipto e Médio Oriente.
Em 1917, a ETP muda-se para o Palacete do Conde do Bolhão, na Rua Formosa.


 

Instalações na Rua 31 de Janeiro – Fonte: restosdecoleccao.blogspot.pt



 

Instalações, a partir de 1917, no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes

 
 

Interior das instalações no Palácio do Bolhão – Ed. Photo Guedes



 
“Actor teatral nos primórdios do Século XX, o nome de Raul de Caldevilla, como inspirador publicitário, destacou-se no cinema português em 1917. Uma espectacular operação promocional a nova marca de bolachas, levou Caldevilla a contractar dois acrobatas espanhóis para escalarem a Torre dos Clérigos, o que fizeram sem recurso a qualquer apoio. Já no cimo, os ginastas tomaram uma chávena de chá e comeram as petit beurre Invicta, lançando ao mesmo tempo panfletos sobre a multidão reunida para o efeito - cerca de 150.000 pessoas. Da proeza, a Caldevilla Film retiraria «Um Chá nas Núvens».
Em 1919, Raul de Caldevilla prestigiou-se ao organizar o lançamento comercial de A Rosa do Adro, dirigido por Georges Pallu para a Invicta Film, anunciado sob o lema «Romance Português - Filme Português - Cenas Portuguesas - Actores Portugueses». Três anos depois, com mais altas ambições, a Caldevilla Film contratou o francês Maurice Mariaud - que trabalhava para a Gaumont - com a incumbência de dirigir Os Faroleiros (1922), um «drama-documentário», de que também foi argumentista e intérprete.
O vislumbre de Raul de Caldevilla está patente no respectivo folheto de divulgação: «O cinematógrafo moderno tem-se distanciado muito, nos temas escolhidos e nos fracassos, da técnica de há vinte anos. Já hoje dificilmente se suportam - e vão sendo postos de parte no estrangeiro - esses longos filmes em séries de enredo complicado e por vezes falhos de verosimilhança. O público de hoje, talvez por motivo da vida intensa que leva e lhe proporciona certos lazeres, escolhe de preferência películas de não muito longa metragem». A rodagem teve lugar na Caparica e farol do Bugio.  
Logo após Os Faroleiros, Mariaud filmou As Pupilas do Senhor Reitor para a Caldevilla Film. O romance de Júlio Diniz foi adaptado pelo director literário da empresa, Campos Monteiro. A filmagem de interiores concretizou-se na abegoaria (Dependência onde se alojam os animais e alfaias agrícolas), da Quinta das Conchas, em Lisboa, não chegando à edificação o ambicionado estúdio, cujos planos tinham acompanhado Raul de Caldevilla desde o Porto. De facto, sobrevieram litígios com os responsáveis capitalistas da empresa, pelo que em 1923 pediu a demissão de administrador-gerente da Caldevilla Film.
Declinava, assim, um sonho que tivera repercussões insuspeitáveis, a ponto de ser apresentado em 1921, à Câmara dos Deputados, um projecto de lei que isentava a empresa de impostos, durante dez anos - como contrapartida a impressionar, apenas, «assuntos genuinamente portugueses, baseados na história ou na literatura nacionais». Pelo Verão de 1925, a Caldevilla Film desmantelava-se simbolicamente, com um leilão público de todo o material.”
Fonte: cvc.instituto-camoes.pt/cinema


 
Como complemento, diga-se que, no ano de 1921, uma outra empresa produtora de filmes seria fundada a “Fortuna Film” de Virgínia de Castro e Almeida, a romancista que chegada de França, onde tinha acompanhado o desenvolvimento da 7ª arte e, apaixonada da mesma, monta aquela empresa, que com a “Invicta Film” e a “Caldevilla Film”, irão dominar a produção cinematográfica nacional.

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