Sobre o palacete,
situado na Rua Formosa, n.ºs 108-112, paira um certo mistério nas suas origens
e os dados e informações, que se podem recolher nos arquivos, não permitem obter
respostas concisas.
Por isso,
apresentar-se-ão as investigações efectuadas e as conclusões ficarão ao
critério de cada um.
Proprietário inicial do Palacete
Fazendo uma busca,
segundo os moldes habituais, no Arquivo Histórico Municipal do Porto (AHMP), chegámos
à conclusão de que o respectivo processo de licenciamento poderá ter-se
perdido.
Existe um
Documento/Processo referente a um pedido de licenciamento, perante a Junta de Obras
Públicas, feita pelo juiz João Pereira Baptista Vieira Soares (1776-1852)
e que consta de um desenho de uma fachada de um prédio, na Rua Formosa, com
data de 26 de Abril de 1824.
Faz parte do mesmo
processo, um outro desenho com despacho de 22 de Julho de 1825, que constitui
um pedido de rectificação ao desenho da fachada inicialmente apresentada, o que
foi autorizado por Joaquim da Costa Lima e Sampaio.
Sobre os desenhos
das fachadas vem, em ambos os casos, expresso que o proprietário e requerente
da autorização é aquele juiz.
De notar que, à
data, se viviam tempos de pré guerra civil e que, a reorganização municipal dela
decorrente ainda estava para vir, como é óbvio.
Não é fácil
encontrar factos históricos para caracterizar a personagem do juiz, mas sabe-se
que seria um fervoroso liberal, tendo estado exilado no Brasil entre 1828 e
1834, período durante o qual D. Miguel esteve à frente dos destinos do reino.
Conseguimos também saber
que, em 23 de Janeiro de 1851, Camilo Castelo Branco e o jornalista do jornal
“A Pátria”, João Augusto Novaes Vieira, o “Novais dos óculos”, envolveram-se
numa acesa polémica pública. O conflito teve como cerne “negócios de saias” e escalou
para agressões físicas no Teatro de São João, no Porto, resultando numa
queixa-crime formal por injúrias e agressões.
Foi perante João
Pereira Baptista Vieira Soares, que exercia as funções de Juiz de Direito
Criminal Substituto, na cidade do Porto, que Novaes Vieira apresentou a petição
e a querela criminal contra Camilo Castelo Branco e D. Luís da Câmara, presente
no referido teatro no momento da ocorrência dos factos.
João Pereira
Baptista Vieira Soares terá sido, proprietário e, por certo, também, morador num
outro prédio, situado na Rua Formosa, n.ºs 201-203, pois, para aqui, em 2 de
Novembro de 1857, o banqueiro Joaquim Pinto da Fonseca solicitava à Câmara do
Porto uma autorização de obras, para um prédio da Rua Formosa.
Do requerimento respectivo
constava o desenho da fachada (que a seguir se apresenta) e cujo processo,
obteve a licença n.º 373/1857 de 2 de Novembro.
No pedido de obras,
solicitado pelo banqueiro à Câmara do Porto, é especificado que se pretendia,
numa casa que tinha sido adquirida aos herdeiros do juiz João Pereira Baptista
Vieira Soares, intervir no mesmo com o acrescento de mais um andar.
Comparando o desenho
das fachadas de 1825 e 1857, não há dúvidas.
Pela observação da
arquitectura da casa do Juiz João Pereira Baptista Vieira Soares e daquela que
é o nosso alvo, apenas se poderá concluir que têm fachadas parecidas e, talvez
da mesma época.
Aqui chegados,
importa fazer uma pausa e fazer algumas perguntas:
1) Quem construiu a casa sita à Rua Formosa,
n.ºs 108-112?
2) Quando foi concluída a sua construção e quem a ocupou
até 1862?
De qualquer das
perguntas anteriores não temos respostas e, só para além do período temporal da
última pergunta, começámos a conhecer alguns factos históricos.
Ocupação do Palacete
Assim, a partir de
1862, o Liceu Nacional do Porto vai nela instalar-se, vindo do edifício da
Escola Politécnica (à Praça dos Voluntários da Rainha ou Praça dos Leões) e por
lá fica até 1866.
Sabe-se que o
inquilino seguinte foi o “Colégio Francês/Escola Comercial”, de J. R.
Mesnier.
Em 1871, já aquele colégio tinha tomado o nome de “Colégio
Lusitano” e, por aí, continuaria até que, vindo do Jardim de S. Lázaro, lá se instalou
o Colégio de S. Lázaro, a partir de 1877.
Publicidade ao Colégio de S. Lázaro, no “Jornal do Porto”,
de 24 de Setembro de 1876, com a indicação de José Maria Guedes de Azevedo,
como seu director. No ano seguinte, o colégio romaria até à Rua Formosa
Em 28 de Agosto de 1883, numa época em que o prédio era
ocupado pelo Colégio São Lázaro, apresentava-se como proprietário do edifício,
em requerimento dirigido à Câmara do Porto, para obtenção de licença de obras e
substituição de canalizações, José Maria Guedes de Azevedo (director do
estabelecimento de ensino).
Em data ignota, que reportará
já ao início do século XX, a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, fundada
em 1864, pelo político e jornalista Anselmo de Morais, com a sua primitiva
sede, na Rua do Bonjardim, muda-se para a Rua Formosa, nºs 108-112.
Em 1922, já era proprietário do prédio, Domingos Carlos de
Oliveira, que em requerimento solicitava à Câmara do Porto, licença para “substituir soalhos, capear escadas, reparar
tapamentos, etc”.
Em 1975, a Tipografia
“Imprensa Portuguesa” por lá continuava, dividindo instalações com entrada pelo
n.º 112, no 1.º andar, a firma Soares de Mendonça, Lda. – Agência de Leilões e,
no 2.º andar, Confecções Invicta (Agostinho & Freitas, Lda.) e, ao longo dos anos, distintas firmas de diversos sectores de actividade foram alocadas nas mesmas áreas.
Em 1981, Domingos
Dias da Silva, que era sócio, desde 1954, duma tipografia de referência
na cidade, com firma “Manuel Ferreira
& Silva”, localizada na Praça Coronel Pacheco, adquire a Tipografia
“Imprensa Portuguesa” e junta, aí, aquelas duas firmas, de que passa a ser o
sócio principal.
O edifício, onde esteve alocada, durante anos, a Tipografia
“Imprensa Portuguesa”, foi recuperado para funções habitacionais, há pouco
tempo, com projecto do atelier “Garcia & Albuquerque”, que a propósito do
edificado sobre o qual interveio, diz:
“ (…) espelhando no
espaço hoje mantido como garagem e aparcamento automóvel, o local onde outrora
as máquinas tipográficas e de impressão funcionavam em plena actividade durante
a sua época áurea, nesta nave industrial”.
Ocupação do Palacete no período da transição de séculos
Entre o longo
período de tempo que passou desde a ocupação pelo Liceu Nacional do Porto e a
actualidade, duas perguntas se impõem:
3) Em que ano se mudou a Tipografia “Imprensa Portuguesa”
para a Rua Formosa?
4) Quem foi o visconde S. Carlos e qual a sua ligação ao
palacete e à Rua Formosa?
Quanto à primeira questão apenas se pode dizer, que a firma "Imprensa Portugueza - Anselmo Morais (sucessores)" já por lá estava, em 1908, pois é feita a respectiva referência no "Annuario do Commercio do Porto e seu Distrito" daquele ano.
As restantes interrogações poderão ser respondidas ou não, se conseguirmos solucionar as dúvidas seguintes,
que resultam de um texto de Luís Manuel Dias Borges Cabral (1953–2024),
um proeminente bibliotecário, arquivista e docente português, natural do Porto.
Sobre a Tipografia “Imprensa Portuguesa”, dizia:
“Esta firma havia
sido fundada por Anselmo de Morais em 1864, constituindo um espaço que recorda
a figura de Camilo Castelo Branco, sendo uma tipografia ligada ao
republicanismo e que teve relevante atividade editorial. No mesmo local –
o palacete do Visconde de São Carlos, na Rua Formosa, nºs
108-116 – ficaram assim juntas as duas firmas de que Domingos Silva é hoje
sócio principal, a da tipografia (Imprensa Portuguesa) e a de encadernação
(Manuel Ferreira & Silva).
A evolução
tecnológica conduziu à encadernação mecânica ou industrial, área em que a
empresa também singrou, localizando-se atualmente em Lavra, Matosinhos. Nessas novas
instalações tem sido desenvolvido trabalho de qualidade tanto para o mercado
nacional como para o estrangeiro.”
Cortesia de Luís
Cabral (Bibliotecário e Arquivista), In revista “As Artes Entre as Letras”, nº
126 de 16 de Julho de 2014
Ao edifício alvo de
todas estas divagações, Luís Cabral vai chamá-lo, no texto acima, de Palacete
do Visconde S. Carlos.
O título de visconde de São Carlos foi atribuído por D.
Carlos, por Decreto de 09-07-1904, a Carlos Fernandes Vieira, nascido em 3 de
Fevereiro de 1887, na freguesia de Santo Ildefonso e que viria a falecer em 9
de Março de 1914, tendo enviuvado em 1907, após um breve casamento.
Aquela personagem foi casada com Amélia Guimarães Alves
Quintela Vieira, nascida em 19 de Agosto de 1885 e falecida, apenas, com 21
anos, não tendo do seu casamento com o visconde resultado qualquer
descendência.
Era filha do Conselheiro José Luciano Alves Quintela, médico
(falecido a 21-03-1909) e de Amélia Ermelinda Guimarães Alves Quintela.
José Luciano fez testamento a 02-08-1883, no qual declarou
residir na Rua Gonçalo Cristóvão, nº 314, e ter um filho, Eduardo Alves
Quintela, nascido em 05-12-1876.
À data do falecimento da viscondessa de S. Carlos, Amélia
Guimarães Alves Quintela Vieira, em 9 de Março de 1907, vivia na Rua Formosa.
Uma tal de Maria Fernandes Vieira, talvez familiar próxima
do visconde, no início do século XX, era dada como proprietária do prédio na
Rua Formosa, nº 98-102, vizinho daquele a que o visconde deu o seu nome.
Sabe-se que, após o falecimento da viscondessa de S. Carlos,
o visconde já se correspondia, no final desse ano trágico de 1907, com uma tal
Florinda Vieira Guedes, com o envio de postais ilustrados.
Do facto nos dá conta Américo de Castro Freitas, em 23 de
Novembro de 2016, no seu blogue Matosinhos Antigo.
“Numa das minhas
incessantes buscas de postais de Matosinhos, ou por aqui circulados, encontrei
um grupo deles que, em parte, eram endereçados a uma Maria F. Vieira, então
moradora na Rua Juncal de Cima (usava ainda a denominação antiga) n.º 127. Eram
enviados, na maioria, por um tal Carlos. Porém, e nos postais posteriores á
data do decreto de criação do título, passa a assinar visconde de S. Carlos
(título criado por D. Carlos por Decreto de 09-07-1904 e foi seu primeiro
titular Carlos Fernandes Vieira, nasc. Santo Ildefonso, 03.02-1887)”.
Cortesia de Américo Castro Freitas
Postal assinado pelo Visconde de S. Carlos, em 29 de
Novembro de 1907 – Colecção de Américo Castro Freitas
O 2º visconde de S. Carlos seria António Manuel Vieira
Guedes, nascido em 12/06/1922 e falecido em 2016, desconhecendo-se o parentesco
com Carlos Fernandes Vieira, o 1.º visconde de S. Carlos.
Quer o visconde de S. Carlos tenha sido proprietário do palacete
e ou o tenha habitado, emprestou, talvez, o título nobiliárquico, através do
qual passou a ser identificado.
Por isso, as últimas perguntas ficam sem a devida resposta.







