quarta-feira, 5 de julho de 2017

(Continuação 26) - Actualização em 05/12/2020

Lado Poente

Do lado Poente da Praça D. Pedro, existia um conjunto de edifícios dos séculos XVIII e XIX, com transformações e adaptações sucessivas e, ainda, o chafariz da Praça D. Pedro, do fim do século XVIII.
Nesta zona, estávamos, sobretudo, em presença de casas de pasto e modestos restaurantes, entre os quais sobressaía o “Cascata”.
Por aí, também estiveram, no chão que é hoje o do Banco de Portugal, o Hotel Central do Porto e o Restaurante Europa.



À esquerda da foto, o “Hotel Central do Porto”, em 1908, durante a visita de D. Manuel II 



Hotel Central do Porto, na Praça D. Pedro, com a Flora Portuense, à sua esquerda





À esquerda da foto, observa-se uma nesga do edifício onde esteve o Restaurante Europa




A foto anterior apresenta um grupo de jovens integrando a chamada 1ª “Festa da Flor”, que se realizou em Março de 1917, promovida pelo jornal “O Século” e pela “Cruzada das Mulheres Portugueses”, para angariar fundos a favor dos combatentes do Corpo Expedicionário Português na Primeira Grande Guerra.
No início do século XIX, esta área foi, sobretudo, dominada pela ermida da Natividade, a Fonte da Natividade (antes chamada Fonte da Arca), o Mercado da Natividade e o chafariz da Praça D. Pedro.
Magalhães Basto referindo-se à Praça D. Pedro de 1850, escrevia:



«Comecemos pela Praça Nova das Hortas ou de D. Pedro.
Destruída a ermida da Natividade, demolida e entulhada a monumental Fonte da Arca, e arrasadas as lobregas barracas de madeira do mercado da Natividade, o antigo largo das Hortas, desobstruído de todas essas construções que lhe demoravam na parte meridional, ficara airoso e desimpedido.
Sucessivamente, as vereações foram-no aformoseando.
Primeiro regularizaram-lhe o pavimento e fizeram uma vasta placa central rectangular, deixando à volta uma rua não muito larga para o trânsito.
Em 1841 ornamentaram-no com odoríferas e umbrosas acácias, amoreiras e magnólias, dispostas em renques.
Em 1843 encerraram essa parte arborizada num forte gradeamento com portas a cada canto. (...)
A Praça Nova estava um brinco ... » 
Magalhães Bastos “O Porto do Romantismo”



Chafariz da Praça D. Pedro em 1833 – Desenho de Joaquim Cardoso Villanova




No desenho acima, de Joaquim Cardoso Villanova, que é a única alusão gráfica que se conhece do chafariz, construído entre 1794 e 1796, vêem-se  também as edificações do lado poente da praça.
Junto a esse local, onde hoje está o Banco de Portugal, existiu a Rua de Entre Vendas, delimitada também pelos barracões do mercado da Natividade e por onde esteve também a ermida da Natividade e a Viela do Polé que ligava à Rua das Hortas, hoje conhecida como, Rua do Almada.



A Viela do Polé do lado direito, onde estão as escadas e o prédio recuado



Ao fundo da foto, à esquerda, espreita o Palacete das Cardosas.




Ao cimo da rampa, a entrada da Viela do Polé, que ligava à Rua do Almada, c. 1895





A Viela do Polé era um beco muito antigo, que existia sensivelmente a meio da frente urbana poente da Praça D. Pedro, ligando-a à Rua do Almada. Em 1913, Alberto Pimentel escrevia:
"a antiga viela da Polé, hoje entaipada, em atenção à higiene pública, por duas portas de ferro, numa e noutra extremidade".



As forças da ordem eram frequentemente chamadas à Viela do Polé, para acalmar desordens e socorrer os feridos. Dela saiu a frase tão conhecida no Porto de “sofrer tratos de polé”. 
Poucos anos volvidos, no processo de abertura da Avenida dos Aliados e do levantamento de novos e mais imponentes edifícios, em 1917, o Banco de Portugal adquiriu vários prédios no local, com o objectivo de aí erguer a sua nova delegação no Porto, incluindo a antiga viela, o que permitiu aumentar a fachada.
Assim, a 3 de Julho de 1918, foi assinada a escritura de venda da viela e dos prédios que com a mesma confinavam, pelo lado do sul, permitindo que o Banco de Portugal viesse a ser inaugurado em 23 de Abril de 1934.





Passagem da obra “Praça Nova” de Alberto Pimentel



A igreja dos Clérigos, ao fundo, numa vista para Poente



Com a igreja dos Clérigos, em fundo, em 1895 - Ed. desconhecido



Nesta parte da praça, onde em tempos existiu, a partir de meados do século XIX, a Fonte da Natividade, destacavam-se então, a cervejaria Sá Reis, a Flora Portuense (estabelecimento pertencente a Aurélio Paz dos Reis) e o Hotel Central.
A cervejaria Sá Reis, aí, estava desde 1913.



A cervejaria Sá Reis entre a "Navarro, Sucessores" e a "Flora Portuense" 



“Casa Navarro”, c. 1942, na Rua de Sá da Bandeira
 
 
 
À esquerda da foto acima, a “Casa Navarro” localizada na Rua de Sá Bandeira, muito próximo da esquina com a Rua Passos Manuel e que, hoje, está na Rua Fernandes Tomás, e que teve presença, também, na Praça da Liberdade.




Cervejaria Sá Reis, c. 1930, na Praça da Liberdade, nº 54 - Fonte: Gisaweb



Cervejaria Sá Reis antes de fechar portas


Aquela cervejaria encerrou há dias (2017). Era um dos mais antigos estabeleci­mentos do Porto do seu género e, curio­samente, teve origem numa tabacaria, que já existia em 1889, também com o nome de Sá Reis, mas que funcionava nos baixos do antigo edifício das Cardosas, hoje, Hotel Intercontinental, na esquina com a Praça de Almeida Garrett onde, depois, esteve uma alfaiataria e o café Astória.
A tabacaria tinha uma filial, que fun­cionava no lado poente da praça, com o mesmo nome, mas dedicando-se ao co­mércio da venda de cerveja ao copo.
No dia 4 de Junho de 1955, após 66 anos de portas abertas, reabriria com as suas instalações completamente renovadas.
Quanto ao Aurélio da Paz dos Reis (28 de Julho de 1862-18 de Setembro de 1931) foi comerciante, filiado no Partido Republicano Português, vice-presidente da Câmara Municipal do Porto entre 1914 e 1915, presidente do Ateneu Comercial, da Associação Comercial, fundador do Club Fenianos e do Orfeão Portuense e da Associação Portuguesa do Asilo de São João, fotojornalista premiado e ficou ligado ao cinema português pelo primeiro filme feito à saída da Camisaria Confiança.




 Flora Portuense



Em fundo, a casa “Flora Portuense” de Aurélio Paz dos Reis



Na Flora Portuense, a loja de Aurélio da Paz dos Reis, na Praça de D. Pedro, que abriu em 1893, vendia ele, para além do que produzia no horto, cache-pots, fitas, lápis para escrever em vasos, carvão, café, champanhe francês, assinaturas de jornais republicanos e, também, as suas fotografias estereoscópicas.
No local, onde existiu a Flora Portuense, está hoje a Confeitaria Ateneia, na Praça da Liberdade. Quanto ao edifício, foi substituído por outro que, por sua vez, foi remodelado em 2008, pelo proprietário, neto de Aurélio da Paz dos Reis.
Durante grande parte do século XX, nomeadamente na sua segunda metade, no lado poente da Praça da Liberdade, entre a Rua dos Clérigos e a delegação do Banco de Portugal, estiveram em sequência as seguintes entidades:
Casa Navarro (loja de marroquinaria com fundação reportando a 1860) e Cervejaria Sá Reis (no primeiro edifício do século XIX, da foto abaixo), no nº 58, a confeitaria Ateneia, no nº 62, uma central de cabines telefónicas dos TLP, confeitaria Arcádia e Livraria Figueirinhas.
Hoje (2021), no edifício com fachada para a Rua dos Clérigos, representado na foto abaixo, está no seu R/C e 1 º andar, respectivamente, uma loja da ourivesaria/joalharia e um museu dedicado à filigrana, da firma “David Rosas” e, nos restantes andares, um hotel do Grupo Pestana, com 43 quartos de 4 estrelas.
 
 

Prédio do gaveto da Praça da Liberdade com a Rua dos Clérigos - Fonte: Google maps
 
 
A firma “David Rosas” tem origens numa pequena oficina de ourivesaria que Mateus dos Santos Rosas começou a explorar, em 1860, em Gondomar.
Passando de mão em mão pelos descendentes do fundador, em 1930, a empresa passa a ser gerida pelo seu neto Serafim Rosas, e a denominar-se “Rosas de Portugal”.
Em 1980, David Rosas, um bisneto do fundador, cria de parceria com a sua mulher, Maria Luísa, uma empresa com o seu nome, que não pararia de crescer.
Hoje (2021), apresentam uma loja na Praça da Liberdade, inaugurada em 2019, sendo os negócios conduzidos pela designer de joias Luísa Rosas e com a administração a cargo de Pedro Rosas, ambos filhos de David Rosas.
Neste local, numa loja a meio da fachada voltada para a Praça dos Lóios, tinha estado entre 1877 e 1898 uma outra ourivesaria, "Leitão & Irmão", transferida definitivamente para Lisboa, e que cederia o espaço à Livraria Moreira.
Na foto abaixo, observa-se um quiosque que substituiu um outro mais antigo, com a mesma traça, que ocupava o mesmo local.



Quiosque


A poucos metros do quiosque da foto anterior, mais para Norte, existe  há décadas um outro quiosque utilizado pelos STCP, e que se pode ver na foto abaixo.



Quiosque - Fonte: pt.wikipedia.org



O quiosque acima é construído em betão, de planta rectangular com os cantos cortados, apresenta um estilo Art déco.
O quiosque está classificado como Imóvel de Interesse Municipal, na sequência do decreto 67/97, publicado no Diário da República de 31 de Dezembro.



A Poente da praça, junto ao Banco de Portugal (parcialmente à direita)



Na foto acima, vê-se o local da livraria Figueirinhas, tendo estado ao seu lado, durante anos, no piso superior, a filial do Diário de Lisboa, num edifício de Júlio Brito, e no piso térreo a confeitaria Arcádia, cujo projecto foi de José Ferreira Peneda.


Vista sobre o lado a Poente da Praça D. Pedro



Eléctrico na Praça D. Pedro, c. 1908



Os prédios, à esquerda, na foto anterior, seriam parcialmente demolidos, para a construção das instalações da delegação do Banco de Portugal.
Esta delegação tinha estado, desde a sua abertura, instalada no Largo de S. Domingos, no Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto, vulgo convento de S. Domingos.
 
 
“Em 1917, o Banco de Portugal comprou um terreno à Câmara do Porto na Rua do Almada e Praça da Liberdade, aproveitando a oportunidade surgida pela abertura da Av. dos Aliados e, disposto a aí construir um edifício de raiz, com as características exigidas pela nova via de comunicação. Em 1918, adquiriu ainda novo imóvel e terreno, na Viela da Polé.
Em 1918, o anteprojeto do edifício é entregue aos arquitetos Ventura Terra e José Teixeira Lopes. A arquitetura do edifício tinha em conta a harmonia entre os serviços comerciais, o serviço do Tesouro, o público e os empregados. Deu-se especial atenção aos materiais empregues (granito e mármore), às modernas técnicas de ventilação, iluminação e aquecimento.
Com a morte dos dois arquitetos o projeto definitivo viria a ser elaborado pelo Eng.º José Abecassis e apresentado em 1922. A estrutura do frontão e as duas estátuas laterais em bronze, são da autoria do escultor José Sousa Caldas.
Na construção do edifício surgiram problemas, relacionados com característica dos terrenos de natureza alagadiça, o que prolongou os trabalhos até Abril de 1934, data da inauguração do novo edifício.
Fonte: “pt.wikipedia.org/”



Construção do novo edifício do Banco de Portugal, em 1923



Na foto acima, veem-se as casas do lado poente da Rua do Almada e, possivelmente, o  engenheiro José Abecassis que substituiu, na condução do projecto, José Teixeira Lopes e Miguel Ventura Terra, entretanto, falecidos.
 


Edifício antes da demolição



O edifício da foto acima, uma casa de comércio de materiais de construção de Arnaldo Lima, ficava situado na esquina da Rua do Almada e Rua do Dr. Artur de Magalhães Basto, sendo hoje o espaço ocupado pela delegação do Banco de Portugal.






Delegação do Banco de Portugal - Fonte: “pt.wikipedia.org/”



No início do século XIX, a Poente da Praça Nova, existiam umas barracas onde alguns comerciantes vendiam os seus produtos e que, com os prédios que limitavam a referida praça, a Poente, originavam uma rua estreita que dava pelo nome de Rua de Entre Vendas e o local, por Mercado da Natividade. Essas barracas envolviam, a denominada Fonte da Natividade, excepto pela parte sul, que exibia a partir de determinada época, uma cancela para acesso às bicas.
Em documentos oficiais do ano de 1833, podia-se ler, por exemplo:
“as pequenas casas, lojas e barracas que existem dentro, fora e em volta do sitio da Natividade, etc”.
Outro erudito portuense, o arcebispo de Calcedónia, chamou a atenção para o facto do mercado do Anjo, autorizado por decreto de 20 de Maio de 1833, ter uma configuração, que não sendo um trapézio regular, parecia, contudo, ter sido sugerida pela do mercado da Natividade.
Teixeira de Vasconcelos, nascido em 1816, duas vezes se refere ao mercado da Natividade no seu romance Roberto Valença, publicado em 1848.
Sousa Reis, mais velho do que Teixeira de Vasconcelos, pois nasceu a 26 de Outubro de 1810, também, num trecho diz:
“as lojas das differentes fazendas e miudezas que são delineadas na planta ...»
As mercadorias expostas no primitivo mercado volante da muralha do Campo das Hortas, em que os artigos eram expostos suspensos por ganchos cravados nas pedras da muralha, tinham permitido o crescimento, no mercado da Natividade, do comércio de géneros alimentícios e o de bebidas, nas casas da Rua de Entre-Vendas.
A questão da permanência das barracas, já renovada em 1819, desde que a Câmara funcionava no edifício por ela adquirido, parecia ir chegar ao seu termo, com a presença da edilidade. Mas, o que é certo, é que ainda durou muitos anos. Os barraqueiros voltaram a embaraçar a demolição, quando a Junta Provisional o ordenou.
A Câmara Municipal, por sua parte, não tinha descurado essa grande questão das barracas e das casas ao poente, assim, a Junta das Obras Públicas (composta de vereadores e presidida por um cidadão) já alvitrara que fossem demolidas mediante indemnização a quem se provasse dever recebê-la.
Quanto à localização do mercado, que Arnaldo Gama diz ser ao meio da Praça, bastará ouvir o testemunho da pessoa que viu demolir o mercado e, ao tempo da demolição, escrevia na “Chrónica Constitucional do Porto” dizendo que tinha sido levantado para o lado do sul no canto do poente da Praça Nova, etc.
Um facto recente veio confirmar tudo quanto a este assunto diz respeito, que foi, o terem encontrado na Biblioteca Pública do Porto uma planta da cidade em 1813, a qual indica, nitidamente, o lugar e a configuração da Fonte da Arca, bem como, portanto, do Mercado da Natividade, que lhe seguia o desenho e que coincide com a descrição da testemunha da sua demolição, atrás referido.
Após a vitória de D. Pedro e levantado o cerco à cidade, e após variadas diligências e algum tempo gasto, em avanços e recuos do processo, foram, finalmente, as barracas do mercado demolidas, recebendo os seus proprietários como indemnização apólices amortizáveis em 10% ao ano. Os adelos e outros vendilhões vão pousar junto ao Postigo do Sol, donde passam, mais tarde, para os Ferros Velhos.




Praça Nova, c. 1833



Legenda:

1. Fonte da Natividade, em plano inferior no solo, com acesso por escada às bicas (as carrancas das bicas iriam, mais tarde, para a Praça do Pão)
2. Barracas de feira envolvendo a Fonte da Natividade
3. Rua de Entre-Vendas

terça-feira, 4 de julho de 2017

(Continuação 25) - Actualização em 11/11/2020

Lado SUL


A sul, a Praça D. Pedro era limitada pelo Palácio das Cardosas, um edifício neoclássico dos finais do século XVIII, com o rés-do-chão adaptado a diversos estabelecimentos comerciais e que, quando começou a ser construído, se destinava a ser um convento dos padres Lóios.
Após o Cerco do Porto e a vitória dos liberais, na guerra civil então acontecida, e da sequente extinção das ordens religiosas, o edifício passou para as mãos de uma família, cujo patriarca era Manuel Cardoso dos Santos (1797-1851) e, posteriormente, para a sua viúva e outros descendentes, passando a ser conhecido, no futuro, pelo Palacete das Cardosas.
Assim, Manuel Cardoso dos Santos casou com Joaquina Margarida Cardoso dos Santos, sua prima, de cujo enlace resultaram três filhos: António Cardoso dos Santos (nascido em 1837) Joaquim Cardoso dos Santos (nascido em 1839) e Joaquina Cardoso dos Santos (nascida em 1840).
Joaquina Margarida Cardoso contrai um segundo casamento e faz um testamento quando já tinham falecido dois dos seus filhos.
Nomeadamente, a filha Joaquina Cardoso, falecida em 1859, foi casada com Fausto de Queiroz Guedes, 2.º visconde de Valmor, de cujo enlace não houve descendência.
Fausto de Queiroz Guedes foi diplomata de reconhecidos méritos e senhor de uma grande fortuna, herdada de seu tio José Isidoro Guedes, 1.º visconde de Valmor, cujo nome tinha como origem uma quinta de que era proprietário em Armamar.
Entretanto, o filho António Cardoso dos Santos, casado com Laura Virgínia Vilar, faleceu e Joaquina faz um segundo testamento, que prevalece sobre o anterior e, no qual, os principais beneficiados são a sua neta Laura Júlia, filha de António e o seu viúvo.
Por herança, a propriedade vai acabar nas mãos de Laura Júlia Vilar Cardoso, que era filha única. 
Mais um proprietário feminino de apelido Cardoso do icónico imóvel para fazer juz ao nome - Palacete das Cardosas.


 

Notícia inserta no “Ecco Popular” sobre ocupação do Palacete das Cardosas e reproduzida pelo jornal “O Commercio” fundado em 1854 e que, em 1856, já se designava como “O Commercio do Porto”




Fachada do Convento dos Loyos – Ed. Joaquim Cardoso Villanova 
1833




Panorâmica tirada da Torre dos Clérigos



A foto acima é uma vista da torre dos Clérigos, à volta de 1860.



“Trata-se de uma vista rica em pormenores interessantes. Como que dividindo a foto a meio, temos o enfiamento da rua dos Clérigos, praça de D. Pedro (hoje, da Liberdade) -- o chamado passeio das Cardosas -- e subida da rua de Santo António (hoje, de 31 de Janeiro), até à igreja de Santo Ildefonso, no topo.
Ao centro da imagem, destaca-se a igreja dos Congregados e o edifício anexo, a ala do antigo convento, com frente para a praça de D. Pedro. Após a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício original foi vendido em lotes e ocupado por vários negócios, entre os quais os famosos botequins e cafés: Guichard, Camanho, Suíço, entre outros. Um pouco mais acima, vê-se ainda uma zona de campos e, ao fundo, as traseiras dos prédios da rua de Santa Catarina. À data da foto já se tinha aberto a rua de Sá da Bandeira (no troço que hoje tem o nome de Sampaio Bruno) e, pouco depois, toda esta área estaria também urbanizada.
Do lado direito da imagem, a torre sineira da igreja do mosteiro de São Bento de Ave-Maria e a sua cerca. Delimitada, do lado esquerdo, pela muralha fernandina (são visíveis as ameias da muralha), ao fundo e à direita, por altos muros. Cerca de três décadas mais tarde, aqui abrir-se-iam os túneis que trariam os comboios vindos de Campanhã e o convento daria lugar à estação ferroviária com traço de Marques da Silva, que hoje conhecemos”.
Com a devida vénia a “Porto Desaparecido”.



Vista para a Rua dos Clérigos. Na foto, um Fiacre e um Americano




Praça D. Pedro e o Americano



O Pasmatório dos LóiosdepoisO Real Clube dos Encostados”, eram nomes pelos quais era conhecido o local, onde um conjunto de homens durante longas horas, conversando, iam admirando quem passava, encostados ao Palacete das Cardosas.
De notar, que nessa época, o rés-do-chão do edifício era ocupado praticamente na totalidade, por um conjunto de estabelecimentos comerciais dos mais variados ramos.



O edifício das Cardosas e o “Real Clube de Encostados”


Ao longo dos anos, o Palacete das Cardosas albergou uma miríade de estabelecimentos comercias.





Praça Almeida Garrett, em 17 de Junho de 1907, durante a visita de João Franco
 
 
 
Na foto acima, poder-se-á observar a fachada do Palacete das Cardosas voltada para a Praça Almeida Garrett, em 1907.
Assim, à esquerda, vemos o Depósito Central da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro de Miguel Moreira Pacheco, L.da, seguindo-se a Ourivesaria Belmiro e a Tabacaria José Teixeira.
À esquerda da foto, fora de perspectiva, esteve durante muitos anos a "Casa Gaspar", uma mercearia, no Largo da Feira de S. Bento, n.ºs 42-45, que por lá passou a revolução de 25 de Abril de 1974 e, em 16 de Julho de 1943, aí comemorava o seu centenário.

 
 
À esquerda, próximo do cunhal do palacete das Cardosas, observa-se a ourivesaria Belmiro e a Tabacaria José Teixeira que exibe um placard anunciando os charutos Tonga
 
 
 
Sobre a foto anterior, observa-se que a entrada para a igreja dos Congregados, à direita, é feita por escadaria protegida por balaustrada, o que conduz à conclusão de que ela é anterior a 1913, momento a partir do qual o referido acesso ao templo passou a ser feito ao nível da rua.
Será, porém, Horácio Marçal quem nos vai deixar uma exaustiva descrição sobre o lado sul da Praça D. Pedro, a partir do último quartel do século XIX.
Assim, segundo ele, o lado sul da praça era praticamente ocupado pelo Palacete das Cardosas. Começando um périplo pela sua fachada, voltada para a Praça Almeida Garrett, encontrávamos a relojoaria de João Vieira, a tabacaria Martins & Brito e uma confeitaria de Avelino Teixeira da Mota que foi, mais tarde, incorporada no Café Astória.
Ultrapassado, o cunhal do edifício, seguia-se a tabacaria Sá Reis que, em 1895, já por lá se encontrava, uma alfaiataria a que se seguia uma camisaria de Teles & Marques e por aí, se instalaria, durante muitos anos, o Café Astória.
Logo aparecia uma casa de fazendas de Abreu & Irmão, o restaurante Internacional, sucedendo-lhe a casa bancária Sousa, Cruz & Cia, a camisaria de Guilherme de José d’Oliveira passada de trespasse a Manuel Caetano d’Oliveira, ocupado mais tarde, pelo Interposto Comercial e Industrial do Norte, Lda.
Continuando para poente, com a Torre dos Clérigos no horizonte, aparecer-nos-ia a Papelaria Central fundada, em 1885, por João Dias Alves Pimenta, na Rua de Sampaio Bruno e que, por aqui, se instalou em 1895, acabando na gerência do seu filho, um armazém de tecidos de Alves, Costa & Cia., os bancos Peninsular e Angola e Metrópole, a Casa Baptista, uma confeitaria que se transformou em café, o Banco Ferreira Alves & Pinto Leite, Lda., que ocupou o lugar de a alfaiataria Pinho & Lima, a Camisaria Passos e Ourivesaria Soares dos Reis que, anos depois, passou a casa Campeão & Cia, o Banco Pinto & Sotto Mayor ocupando o lugar de três outras, a camisaria Freitas Guimarães, Suc., a confeitaria Reis & Olimpo, fundada em 1902, o corrector de fundos Alberto Gonçalves, que deu lugar à Papelaria Guimarães, a Casa Laporte (artigos de caça e desporto).




Praça D. Pedro, nos finais do século XIX, durante a realização de um desfile



Na foto acima, é possível observar-se a nível do 2º andar, os escritórios da Sociedade Protectora dos Animais, e alojadas nos baixos do Palacete das Cardosas, da esquerda para a direita, as firmas Soares Reis & Filho, no nº 25, A Confeitaria Luzo-Brazileira no nº 26, Papelaria Guimarães no nº 28 e Casa Laporte.
Esta última firma comercializaria talvez, artigos relacionados com a caça, pois, vê-se uma réplica de uma espingarda por cima das padieiras das portas, e seria alvo da notícia que se segue, no jornal O Velocipedista em 1894:


Está exposta na casa Laporte, á Praça de D. Pedro, uma bicycleta fabricada na serralheria do snr. Figueiredo Junior, á rua do Campo Pequeno. É muitíssimo elegante na sua forma e de uma confecção fóra do usual, no esqueleto, pois é de prancheta e não de tubo de ferro, não chegando a pesar 20 kilos, destinando-se a passeio. Pertence ao snr. Camillo d’Almeida que, vendo, com outros amigos, no snr. Figueiredo, um industrial empreendedor e laborioso, lhe incutiu a ideia de tentar este género de construcções. Merece todos os elogios o hábil artista porque desempenhou satisfactoriamente o encargo, apresentando um artefacto em condições de realçar os seus merecimentos artísticos”.



Continuando para poente, tínhamos a casa de modas Silva Monteiro, depois Barbearia Petrónio, o armazém de fazendas João da Costa & Silva Magalhães & Filhos, que deu lugar à casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão e depois ao Banco Comercial, a camisaria de José Amorim.
Na área destes dois últimos espaços comercias desde há muitas dezenas de anos, ainda hoje, está instalada a Farmácia Vitália.
Resta a Camisaria Central que sucedeu à firma Prata & Irmão e onde, desde meados do século XIX, esteve a Livraria Moré.



Farmácia Vitália e, à esquerda, a Barbearia Petrónio inaugurada em 2 de Outubro de 1939 – Foto de 1964






Esquina do Largos dos Lóios



“Na esquina do largo dos Lóios, ficava a melhor livraria do Porto, — a More, — onde, além dos livros, se vendiam «quinquilharias» várias; a esquina da More foi um lugar célebre de cavaco. Em frente deste vasto prédio, ao longo da valeta, viam-se durante o dia barracas de pano cru e mesas volantes, sobre as quais estendiam a sua sombra protectora gigantescos guarda-sóis de pano branco; encontravam-se ali à venda, desde o bacalhau às guloseimas, os géneros mais variados e as melhores pechinchas. Entre esta fila de vendedores e o edifício, corria o passeio chamado sarcasticamente o Pasmatório dos Lóios(...).
No Passeio das Cardosas estão instaladas algumas das mais conhecidas casas comerciais, como a “Camisaria Oliveira, installada com fino gosto no prédio fronteiriço à Câmara…É uma das camisarias mais bem sortida em roupas brancas, enxovaes, artigos ligeiros e de novidade para senhoras, homens e creanças…”; Livraria Moreira, “uma das mais conceituadas e bem installadas livrarias do Porto…”; e a casa de Modas e Confecções de F.Rebello & Coelho, de reputação invejável pelo primor da execução que se observa nas suas confecções e fina escolha nos artigos que vende…”
Artur Magalhães Basto – O Porto do Romantismo 1932; Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”




O comércio na Praça D. Pedro – Fonte: “doportoenaoso.blogspot.pt”


 

Planta do edifício das Cardosas, em 1892, na planta de Telles Ferreira

 

Na planta acima, no nº 25, ficava a firma Soares Reis & Filho, no nº 28 a Papelaria Guimarães e, no nº 29, a “Laporte”.
No nº 1, esteve a livraria “Moré”.




Praça D. Pedro e Rua dos Clérigos com árvores do lado esquerdo c. 1900



À direita a Igreja dos Congregados e o seu varandim



Praça D. Pedro e os Eléctricos



Praça da Liberdade e Palacete das Cardosas à direita



Vista da Rua de Santo António para o Passeio das Cardosas



Panorâmica da Praça da Liberdade obtida a partir do Passeio das Cardosas em 1932



Praça da Liberdade em 1955 com mesma perspectiva da foto anterior